The Reason Is You
32 Capítulo 32 - Leigh's Rebellious Crazy List
Notas iniciais

Always said I was a good kid
Always said I had a way with words
Never knew I could be speechless
Don’t know how I’ll ever break this curse
Daughter — Burn It Down
Qualquer um que visse aquela cena poderia dizer que era loucura uma garota do tamanho de Leigh estar enfrentando um homem daqueles. Ainda mais loucura por ele ter aceitado aquele confronto...
A loira não era conhecida por batalhas com contato corporal. Por isso, sua principal arma era seu fiel arco, além de suas flechas. O Azgeda teve dificuldade em desviar das flechas atiradas pela Trikru. Contudo, sendo um guerreiro muito mais experiente que ela, conseguiu terminar a luta e imobilizá-la sem muita dificuldade. Mesmo que, para fazê-la desistir, fosse necessário fazer um corte na parte superior de uma das coxas dela. Leigh caiu, sentindo a ardência do ferimento.
— Você é valente, tenho que admitir. — O homem disse, no idioma terrestre. — Podia acabar com seu sofrimento agora mesmo, mas você tem informações sobre Wanheda...
— Vai me torturar, não vai? — Leigh perguntou, temendo o pior. — Vocês de Azgeda são famosos por não terem piedade dos inimigos...
Ele se aproximou mais dela. A cada passo, ela já podia ver sua vida passando diante de seus olhos. Quando ele parou ao lado dela, ela fechou os olhos, apenas esperando a lâmina dele cortar sua garganta. Contudo, não foi isso o que aconteceu. No segundo seguinte, ela sentiu seu corpo sendo erguido. Estava nos braços dele.
— Não me julgue me baseando no meu povo. — Foi tudo o que ele disse antes de começar a andar.
Touché... talvez ela estivesse sendo cegada pelo ódio que tinha pelo clã Azgeda em geral, e não estivesse parando para observar cada indivíduo como um só. E tudo bem, ele podia tê-la cortado na perna, mas foi por pura defesa. Afinal, ela estava atirando flechas nele como uma louca. E agora, o jeito como ele a carregava em seus braços, com tanto cuidado...
— O que está fazendo aqui, tão longe do território de Azgeda? — Ela perguntou, enquanto era carregada por ele.
— Devia guardar suas forças, garota Trikru. Esse corte na sua perna não é brincadeira. — Ele respondeu, segurando-a com mais firmeza.
Ela bufou, impaciente com o que a aguardava. Ele estava fazendo esse teatro todo só para interrogá-la sobre o paradeiro da Wanheda, que na verdade, era Clarke? Pois bem, os dois permaneceram calados, sem nem ao menos se olharem, até chegarem no esconderijo do terrestre.
Ele desceu as escadas, para o que parecia ser um abrigo subterrâneo. Realmente, ele parecia estar instalado ali há algum tempo, pois ela viu cobertores, restos de velas e suprimentos por toda a parte. Então, ela se deu conta...
— Todas essas coisas... você está longe de casa há muito tempo, não está? — Ela perguntou. — É um exilado?
Ele não respondeu. Apenas a colocou sentada no chão, encostada em uma pilastra, enquanto procurava alguns suprimentos médicos para tratar do corte dela. Entretanto, Leigh estava longe de se sentir segura. Estava pensando em onde poderia estar sua égua, que fugiu enquanto ela enfrentava o Azgeda.
Fora o fato de estar sozinha com o homem, sem qualquer chance de ter mais alguém por perto, totalmente a mercê dele. Ela o estava observando com afinco, e o viu colocar uma adaga no fogo. Ele iria cauterizar o ferimento dela.
— Se vai me cauterizar, seria bom limpar o ferimento primeiro. — Ela o alertou, em um tom um tanto sarcástico.
Em seguida, ela se despiu de sua calça, revelando o ferimento. Ainda estava aberto, e estava cheio de sangue seco, que se misturava com sangue fresco. Ela nem tinha ideia de como ainda estava consciente, após perder tanto sangue.
Ele se virou, nem um pouco constrangido com a visão. Pegou um pano, molhou-o na água e se voltou para o ferimento dela, limpando-o com o maior cuidado possível. Seria melhor se ela contasse que sempre carregava pequenos frascos com remédios de ervas para situações como essas, que poderiam ajudar a curar ou retardar uma possível infecção.
— Primeiro me ataca, agora está me ajudando... você é estranho. — Ela comentou, ganhando um breve contato visual por parte dele.
— Você me atacou primeiro, eu só me defendi. — Ele respondeu.
— O que você está querendo com a Wanheda? — Leigh perguntou. — Eu a conheço, ela não é fácil. Só vai achá-la se ela quiser ser encontrada.
Clarke havia ido embora do Acampamento Jaha, agora renomeado como Arkadia, logo após o resgate em Mount Weather. Aparentemente, ela não tinha forças para lidar com as consequências do que havia feito na montanha. Ela, juntamente com Bellamy e Monty, causaram a tomada da radiação que matou todos os Homens da Montanha.
Leigh se lembrava de ter tentado salvar Maya, namorada de Jasper. O coração dela doía só de pensar no quanto aquele garoto havia ficado devastado. Mesmo semanas após o ocorrido, ele ainda não falava mais que três palavras com ela. E essa era a relação mais próxima que ele tinha com qualquer um, pois sua amizade com Monty havia se deteriorado completamente.
Ao menos, o destino havia separado uma surpresa para ela. Raven, uma das pessoas que mais a detestava, agora era uma de suas melhores amigas. As duas passavam uma quantidade considerável de tempo juntas, agora que ambas estavam sozinhas. O relacionamento de Raven com o engenheiro Wick também havia acabado após Mount Weather. As duas encontraram conforto uma na outra.
Especialmente enquanto Lincoln e Octavia estavam ocupados demais para ter algum tempo para ela. Eles até estavam tendo problemas entre eles mesmos. Octavia não estava gostando da proximidade de Lincoln com skaikru, enquanto ela estava cada vez mais envolvida no treinamento terrestre. Ela não estava falando direito nem com Bellamy, que caiu em uma fossa profunda depois que Clarke partiu.
Juliet foi outra peça chave nesse período. Com Murphy longe, Leigh não tinha mais motivos para continuar dormindo no quarto dele. A guarda a convidou para ficar em seu quarto, já que eram irmãs. Elas se aproximaram bastante durante esse tempo. Leigh a via como uma figura materna. Alguém com quem ela poderia desabafar e pedir conselhos.
Claro, estando proibida de voltar a Polis fora do período indicado por Lexa, Leigh teria que arrumar outras atividades. Nisso, ela se tornou aprendiz de medicina de Abby, junto com Jackson. Como Abby estava demasiado ocupada com as tarefas de Chanceler, Leigh acabava passando mais tempo com Jackson mesmo.
Entretanto, mesmo estando cercada por tantas pessoas que gostavam dela, ela ainda sentia um vazio. Como se algo estivesse faltando. E não adiantava negar a mais pura verdade. Ela sentia falta de Murphy.
Leigh sonhava constantemente com ele. Sonhos bons e ruins. E sempre que os sonhos eram ruins... ela acordava gritando e chorando. Na maioria das vezes, quem a acalmava era Juliet, já que as duas dormiam no mesmo quarto. Contudo, de vez em quando, esse dever ficava a cargo de Raven, quando a terrestre adormecia no meio do dia.
Mesmo assim, por mais que as coisas estivessem ruins para ela, Leigh pensou no quão a vida poderia estar difícil para esse guerreiro Azgeda. Ao ponto de ele estar exilado do próprio clã e ter que viver sozinho. E mesmo com tudo indo de mal a pior, ele ainda arrumava disposição para sair caçando Clarke por aí...
— Ela vai ser o meu trunfo para sair desse exílio. — Ele respondeu, se levantando para pegar a adaga quente.
Então ele era um caçador de recompensas. Realmente, a cabeça de Clarke estava valendo um preço alto. A famosa assassina da montanha. Não era todo dia que uma presa dessas ficava à solta pela floresta.
Ele pressionou a adaga contra o ferimento dela, fazendo-a soltar um gemido de dor. Bem, ao menos aquele corte não iria mais sangrar. Assim que ele retirou a adaga, ela pegou um de seus frascos e aplicou um líquido na ferida. Aquilo devia amenizar a ardência.
Ela se levantou e vestiu suas calças, pronta para partir. Porém, antes de ir, ela devia um agradecimento a aquele homem misterioso. Ela se aproximou dele e lhe estendeu um de seus frascos.
— Uma oferta de paz. Vai precisar se nunca mais me encontrar. — Ela disse, entregando o remédio.
— Talvez você devesse ficar com ele, está pior do que eu. — Ele respondeu, em um tom provocativo. Ela apenas rolou os olhos.
— Sou curandeira. Posso fazer mais mil desses. Pegue logo antes que eu mude de ideia. — Ela respondeu, audaciosa.
Ele finalmente cedeu e pegou o frasco. Estava fazendo muito contato visual com a loira, até demais. Na visão dele, sim ela poderia ser impulsiva e até um pouco irritante, mas ao mesmo tempo, era alguém agradável de se ter por perto. Ele não se incomodaria de vê-la outra vez.
— A Wanheda nunca fica no mesmo lugar por muito tempo, mas mesmo assim, ela precisa de suprimentos para se manter. Eu começaria procurando nos postos de troca. — Leigh disse, antes de se voltar para a escadaria. Porém, antes de subir, ela se virou para ele uma última vez. — Se você me disser seu nome, eu volto.
Ela ficou parada aos pés da escada, esperando uma resposta. Por algum motivo que ainda estava tentando descobrir qual era, ela havia gostado dele e queria conhecê-lo melhor. Após perceber que ele não iria falar nada, ela voltou a se virar e fazer menção de subir.
— Roan kom Azgeda. — Ela ouviu a voz rouca e grave dele responder, do outro lado do esconderijo. — Agora me diga o seu.
— Leigh kom Trikru. — Ela respondeu, com um sorriso ladino.
Então, ele queria que ela voltasse. Interessante...
*~*
As coisas não estavam diferentes quando Leigh retornou a Arkadia. Exceto pelo fato de ter perdido sua égua, que já se encontrava em casa, o que fez com que ela levasse o dia todo para voltar andando. E claro, uma hora dessas alguém já teria dado falta dela.
— Você ficou maluca?! O que acha que está fazendo sumindo desse jeito sem avisar?! — Uma alterada Juliet a encontrou na porta da Estação Alpha.
— Não quero brigar agora, Jules. Não se preocupe com a ordem de execução, já dei um jeito nisso. — Leigh respondeu calmamente, buscando evitar uma discussão com sua irmã. — Conversamos mais tarde, certo?
Juliet nem teve tempo de retrucar, enquanto Leigh já ia entrando. Octavia devia estar ocupada uma hora daquelas. O que a deixava com sua outra opção de companhia para afogar umas mágoas: Raven Reyes.
Falando em afogar as mágoas... ao passar pelo refeitório recém reformado, Leigh encontrou Jasper caindo de bêbado em uma das mesas. Apenas o cumprimentou rapidamente e foi ao encontro de Raven, no balcão das bebidas. Aparentemente, Jasper não era o único enchendo a cara...
— Começou cedo hoje, Rae... — Leigh disse, se sentando ao lado da morena e pegando uma bebida para si.
Leigh ainda torcia o nariz para o goró skaikru, mas era melhor que aguentar todas as chatices sóbria...
— Claro que eu te convidei para sentar e beber comigo, Pocahontas. — Raven respondeu, em um tom sarcástico. — Você sumiu hoje, achei que tivesse se metido em alguma encrenca lá fora.
— Mais ou menos... eu fui escondida até Polis, pedi perdão para a Heda... e conheci um cara. — Leigh respondeu, tomando mais um gole da bebida.
— Ah, não me diga que você voltou igual a um cachorrinho para aquela filha da... espere aí, você conheceu um cara?! — Raven perguntou, em um tom surpreso, deixando escapar uma risada sarcástica. — Agora sei por que demorou tanto para voltar...
— Não aconteceu nada, sua pervertida! — Leigh a repreendeu, dando um leve tapa no ombro da outra. — Acho que eu não me incomodaria se tivesse acontecido... o cara era bem bonito...
— Nossa, Leigh... quem vê nem pensa que você era toda certinha e meiguinha, apaixonada pelo Murphy. — Raven respondeu, logo se dando conta de que tinha mencionado “você sabe quem”. — Ah, droga... desculpe.
— Não tem problema. Ele sumiu há muito tempo. — Leigh respondeu, cabisbaixa.
— É, mas você ainda sofre por ele. Todas as vezes que acorda berrando e eu ou a Juliet tempos que te acalmar... garota, daqui a pouco a sua fossa vai atingir o nível do Bellamy... ou pior, do Jasper ali. — Raven respondeu, apontando para o garoto, completamente embriagado em uma das mesas. — Sabe, você devia começar uma fase nova. Você ainda tem dezesseis anos, vá fazer besteiras! Corte o cabelo, faça uma tatuagem, transe com um cara, ou com uma garota, você que sabe!
— Sim, claro! Amanhã mesmo vou cortar o cabelo acima dos ombros, tatuar desde o tornozelo até as costelas e passar a noite me enrolando nos lençóis com Arkadia inteira... — Leigh disse, em um tom sarcástico, virando a garrafa de uma vez só.
Leigh havia dito aquilo brincando. Ao menos, foi o que ela pensou, antes de sonhar com ele outra vez, naquela noite. Já chega, aquela tinha sido a última vez. Ela não aguentava mais essa angústia. Já era mais do que hora de virar aquela página.
No outro dia, ela se reuniu com Octavia. Já fazia algum tempo que as duas conversaram sobre ambas fazerem uma tatuagem. Para os terrestres, a tatuagem era uma marca importante, que simbolizava o indivíduo como um guerreiro. Enquanto Octavia decidiu tatuar seu braço, Leigh optou por algo mais ousado. Uma tatuagem que cobria grande parte de sua perna, e subia para o quadril, delineando uma sensualidade nela.
O processo de tatuar não doía mais que as várias facadas e tiros que ela já havia levado na vida. Não era mais doloroso que pensar no dia em que Murphy a abandonou. Tanto é que, ela quase não percebeu quando acabou.
— Uau, L... sua tatuagem está maravilhosa. — Octavia a elogiou, logo após terminar de tatuar seu próprio braço. — Bem vinda ao clã.
— Obrigada, O. A sua está linda também. — Leigh respondeu. Ela sorriu ao olhar para o próprio corpo. A partir daquele momento, era oficialmente uma guerreira.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Leigh se isolou em um dos cômodos, com apenas um espelho e uma faca. Raven estava certa. Para aqueles pesadelos a deixarem de uma vez por todas, ela precisava mudar de vida, fazer algumas besteiras, ser jovem ao menos uma vez. Bem, já havia feito uma tatuagem.
O próximo item da lista era cortar o cabelo. Leigh sempre teve cabelos compridos, desde que era criança. Era hora de uma merecida mudança. Lentamente, ela foi passando a faca por suas madeixas loiras, que cada vez ficavam mais curtas.
De modo que as mechas iam caindo no chão, ela cortava com mais intensidade. Estava chorando. Mas, dessa vez, de felicidade. Era a primeira vez que se via tão diferente, e realmente estava. Por dentro e por fora. Ela só parou de cortar seus cabelos quando eles já estavam acima dos ombros. Ela limpou os olhos e sorriu, satisfeita com o resultado.
Só lhe faltava um item da lista para cumprir. Mas primeiro, era necessário encontrá-la.
*~*
Após procura-la em Arkadia toda, a encontrou deixando a ala médica. Ela devia estar se queixando de dores outra vez. Aquela perna sempre seria um problema. Mais uma marca de dor que ele havia deixado na vida alheia.
Raven deu de cara com uma Leigh totalmente transformada, com os cabelos muito mais curtos. No começo, a mecânica levou um susto. Iria levar um tempo para se acostumar com aquela imagem.
— Caramba! Eu te disse para fazer besteiras e você levou ao pé da letra, hein, garota! Se bem que não ficou ruim, pelo contrário. — Raven disse, dando voltas ao redor da loira para observar melhor o novo corte de cabelo.
— Você tem que trabalhar agora? — Leigh perguntou. — Queria te mostrar uma coisa.
— Tenho uns minutos antes de voltar por causa da dispensa médica, mas não posso demorar. O que você aprontou além desse cabelo, sua maluquinha? — Raven perguntou, curiosa.
— Você sugeriu que eu fizesse três loucuras específicas ontem, enquanto estávamos bebendo. Uma foi eu cortar o meu cabelo. Se lembra quais foram as outras duas? — Leigh perguntou, encarando a morena, ansiosa para que ela se lembrasse do resto.
— Algo sobre sexo e tatuagens, eu acho... — Raven chutou, sem ter certeza do que havia dito. Afinal, ela já havia tomado alguns goles quando começou a conversar com a loira. — Não me diga que você fez uma tatuagem...
Leigh não respondeu com palavras. Apenas sorriu de lábios e levantou sua blusa, revelando a parte superior de sua nova tatuagem. Era oficial, Raven não sabia se teria disposição para aguentar muito mais daquele surto de adrenalina da mais nova.
— E isso é só uma parte. — Leigh disse, abaixando uma blusa. — Mas ainda me falta a terceira coisa...
Raven entendeu na hora sobre o quê ela estava falando. A primeira e única experiência sexual que essa garota teve havia sido Murphy. Na verdade, Raven nem tinha certeza se ela já havia sequer beijado outra pessoa nos lábios...
— Você devia ir pedir ao Bellamy. Ele me ajudou a sair da fossa pelo Finn... talvez nem tanto assim. — Raven respondeu, se lembrando de quando havia dormido com Bellamy.
Imaginar Raven e Bellamy juntos fez com que o estômago de Leigh se embrulhasse. Mais ainda quando ela imaginou ela mesma com Bellamy...
— Credo, que horror! Não consigo pensar nisso com o Bellamy, primeiro porque ele ainda está triste pela Clarke, segundo porque ele é tipo um irmão mais velho, sei lá... seria muito estranho. — Leigh respondeu.
As opções da terrestre estavam bem limitadas. Lincoln, Octavia e Juliet estavam fora da lista por motivos óbvios. Jackson era mais um caso que não gostava da fruta dela. Jasper... até poderia ser... se ele estivesse falando mais que três palavras com ela. Também tinha Roan, o misterioso Azgeda. Mas ela queria conhecê-lo melhor antes de ter qualquer pensamento desse tipo com ele.
E por último, mas não menos importante, tinha Raven. Uma relação de desgosto transformada em amizade. A mecânica era um tipo diferente de amiga. Não a tratava como se fosse uma bonequinha que poderia quebrar caso colocasse o pé na rua. Era sincera, sarcástica e divertida.
Leigh nunca se imaginou tendo esse tipo de relação com uma garota. Conhecia quem já havia tido, como Juliet e Lexa, por exemplo. Mas ela... estava tão curiosa quanto nervosa sobre o assunto. Raven até que era bonita. Como seria a sensação de beijá-la? Não podia ser tão diferente de ficar com um garoto...
— Você está me encarando com essa cara de banana amassada já faz um tempo... está ficando assustador. — Raven a despertou de seus pensamentos.
— Desculpe, Rae... eu vou nessa, te encontro no fim do seu expediente. — Leigh respondeu, passando pela mecânica, entrando na ala médica.
Ela até sentiu um alívio por ter chego a tempo de não ter deixado a morena ver seu rosto corando. Já era constrangedor demais pensar naquilo sozinha. Pois bem, pelo resto da tarde, ela se ocupou com seus afazeres na medicina, junto com Jackson. Perto do fim do dia, ele entregou a ela um remédio que Abby havia deixado separado, para ser dado à Raven, para suas dores na perna inválida.
— Já que vocês andam tanto juntas, Abby pensou que poderia ser uma boa ideia se fosse você a convencer Raven a tomar o remédio. — Jackson explicou.
— Pode deixar isso comigo. — Leigh respondeu, fechando seu expediente na ala médica pelo dia.
Antes de encontrar Raven, ela pensou em pedir um conselho para quem entendia do assunto. Juliet deveria estar trocando seu turno naquele momento. Sem enrolar mais, ela foi até o posto da guarda skaikru e a pegou bem na hora da troca.
— Leigh, que surpresa! Pensei que uma hora dessas você estaria com a Raven ou a Octavia... — Juliet disse, ao se deparar com a irmã mais nova.
— Estou precisando de um conselho da minha irmã, Jules... — Leigh respondeu, cabisbaixa.
— Se for sobre essas suas noites mal dormidas, eu já conversei com a Chanceler. Ela disse para você ficar perto das pessoas próximas, o máximo possível. — Juliet respondeu, em um tom compreensivo. — Isso vai passar, é só uma fase ruim.
— Na verdade... vim pedir um conselho sobre outra coisa. — Leigh não sabia como começar sem afundar sua cabeça no chão de tanta vergonha. — Eu estou gostando de alguém. E vim falar com você porque... Jules, acho que estou gostando de uma garota.
— Ah... entendi. Então você está gostando de uma garota e veio pedir conselhos para sua irmã que gosta de garotas. — Juliet deduziu, com um tom de voz superior. — Leigh, você é muito nova. É normal que você descubra coisas que você não sabia que podia fazer ou gostava de fazer. Se você está sentindo algo por essa garota, fale com ela, explique a situação. Talvez seja recíproco.
— Digamos que seja recíproco e eu queira... bem, você sabe... — Leigh estava completamente travada.
Ela nunca precisou pedir conselhos sobre sexo heterossexual. Até porque a única fonte de informação viável era Lincoln, e ela não queria ter que perguntar para ele. Ela sempre via alguns casais na aldeia, mas só foi aprender como aquilo era feito quando foi para o bunker com Murphy... ele era experiente, ela só precisou acompanhá-lo.
— Isso não vem com um manual de instruções. A exploração da “vagilândia” vai de acordo com o que cada mulher gosta. — Juliet tentou explicar da maneira menos constrangedora possível. E falhou miseravelmente.
— Está certo, acho que já chega. Obrigada pela explicação, eu já estou indo... — Leigh respondeu, querendo sair dali o mais rápido possível.
Uma hora dessas, Raven deveria estar bebendo no refeitório de novo. Porém, desta vez, ao invés de entediada ou frustrada, ela parecia estar satisfeita. Leigh pensou no que diria a ela. Tudo bem, “apaixonada” era um termo muito forte, talvez não fosse para tanto. Mas ela era obrigada a admitir que estava sentindo desejo pela mecânica.
— Ei, só faltava minha Pocahontas preferida chegar para começar a festa! — Raven disse, quando a loira se sentou ao lado dela.
— Você está animadinha hoje. Por favor, me diga que você estava mexendo nos óleos da estação e descobriu um componente que podemos usar como droga. — Leigh brincou, pegando seu próprio copo com bebida.
— Quase tão bom quanto isso. Hoje, eu finalmente consegui consertar as baterias e os painéis solares que vão possibilitar o Rover de funcionar. — Raven respondeu, orgulhosamente. — Acabaram as caminhadas a pé!
— Tanto faz, eu não preciso andar a pé, eu tenho a minha égua. — Leigh retrucou, fazendo a outra empurrar seu ombro levemente. — Você está bêbada ao ponto de não conseguir caminhar comigo?
— Tente me acompanhar, maluquinha! — Raven rebateu, praticamente pulando do banco onde estava sentada.
A perna dela estava machucando. Leigh sabia, pois Raven estava tentando disfarçar as caretas de dor toda vez que elas davam um passo. Quando já estavam fora do refeitório, longe o suficiente de qualquer um que pudesse se intrometer na conversa delas, Leigh pegou o frasco que Jackson havia lhe dado.
— Sua perna está doendo de novo, não está? Abby me pediu para te entregar isso, vai aliviar as dores. — Leigh disse, entregando o remédio para ela.
— Eu estou bem, mas obrigada mesmo assim. — Raven respondeu, pegando o frasco, ainda tentando disfarçar que estava com dor.
— Vamos, você teve um dia cheio, precisa descansar. Eu te acompanho de volta ao seu quarto. — A terrestre respondeu, oferecendo seu braço para a outra se apoiar.
Durante o caminho todo, ela só pensou em como entraria naquele assunto sem parecer estranho. Melhor, se deveria entrar nesse assunto hoje, pois Raven estava claramente cansada. Pois bem, assim que chegaram ao quarto da mecânica, Leigh a ajudou a tirar os sapatos e se deitar.
— Será que dá para você ficar um pouco? — Raven pediu, em um tom baixo, quase entristecido.
A loira assentiu e se deitou ao lado dela. Os próximos minutos foram de absoluto silêncio, com apenas as duas observando o teto. Leigh estava nervosa naquela situação. Raven foi a primeira a dizer algo.
— Sabe, às vezes eu acho que só sirvo para ser a gênio da ciência. — Raven disse. — Quando se trata de consertar rádios, naves, ou motores para carros, eu sempre sou impecável. Mas sobre relações com seres humanos... eu só faço besteira. Não tenho direito de julgar ninguém.
— Rae, não sei se você tem se olhado no espelho ultimamente, mas o que eu vejo é uma garota extremamente talentosa que qualquer um poderia morrer de amores. O Wick foi muito otário por terminar com você. — Leigh a confortou.
— Na verdade, eu terminei com ele. Só tive dois relacionamentos sérios na vida toda, e eu terminei os dois. Não sei, parece que eles têm algo faltando... acho que ninguém é capaz de me entender. — Raven respondeu.
— Você também não pode exigir mais do que eles podem te dar. Uma relação precisa ser mútua, cada um faz sua parte para ela continuar existindo. — Leigh explicou. Aquele momento estava sendo mais de reflexão para ela mesma do que outra coisa. — Meu relacionamento com o John acabou porque eu não podia dar o que ele precisava naquele momento. Nem ele a mim. Talvez, o que você procura esteja nas mãos de outra pessoa. Mais perto do que você imagina.
Raven ficou tocada com aquelas palavras e com aquela garota estar se abrindo para ela daquele jeito. A mecânica encarou a terrestre com um olhar confuso, ao mesmo tempo, de quem procurava algo. Era verdade que há semanas, seus melhores momentos eram ou trabalhando, ou ao lado dela. Poderia ser algo mais?
— E pensar que eu não gostava de você antes... — Raven disse, sarcasticamente. — Você completou o terceiro item da lista?
— Ainda estou procurando alguém para me ajudar a completar... — Leigh respondeu, em um tom ambíguo.
— Está bem, preste atenção. Eu não vou te pedir em casamento nem nada. Mas será que eu posso me oferecer para completar a sua lista? — Raven perguntou.
A loira não respondeu com palavras. Apenas começou a aproximar seu rosto com o rosto de Raven. Em poucos segundos, as duas estavam trocando um beijo tímido, cheio de carência. As duas estavam precisando disso.
Estavam se sentindo como duas virgens. Era verdade, nenhuma das duas já havia feito isso com outra mulher antes. Era tudo tão novo, tão diferente. Mas, ao mesmo tempo, tão bom. A sensação de beijar os lábios de outra mulher era quase como beijar uma pétala de rosa. Ao menos, era como Leigh estava se sentindo.
Raven, por outro lado, estava experimentando algo que nem cogitava estar sentindo. Ela era mais experiente, já tinha dormido com mais homens que Leigh. Mas aquela garota em seus braços, tão delicada... que se mostrou, talvez, não tão delicada assim quando assumiu o controle.
Leigh dominou Raven pela maior parte da experiência. A noite foi passando, enquanto as duas se perdiam em beijos, carícias e gemidos no quarto da morena. As roupas, jogadas no chão, lembravam um ninho de gato. Naquele momento, uma estava focada na outra. Os pensamentos, apenas nelas mesmas. Em ninguém mais.
*~*
No bunker do farol, naquela ilha distante, Murphy ainda estava preso, sem poder sair. A mente dele estava começando a se deteriorar, de modo que ele passava os dias bebendo whisky e assistindo as gravações da câmera de vídeo. Ele já havia assistido tantas vezes, que já havia decorado algumas falas.
Não era nada saudável tanto consumo de álcool enquanto preso em um bunker com uma arma, mas ele não estava nem aí. Tudo o que restava era a lembrança de que havia jogado sua vida fora por causa de uma besteira. Ele poderia estar em casa, com sua garota, se não tivesse estragado tudo...
— Não adianta ficar chorando pelo leite derramado, John. Você já me magoou, já foi embora e já deu um jeito de se matar aos poucos. — Ele jurou ter ouvido a voz dela.
Ao se virar, ele a viu, sentada no sofá ao lado dele. Tão linda quanto ele se lembrava. É, tanta bebida estava começando a fazer efeito. Não havia maneira nenhuma de ela estar ali. Ele estava alucinando, com certeza.
— Se beber é a única maneira de eu conseguir ver você, eu vou ficar bêbado todos os dias. — Murphy respondeu, tomando mais um gole do whisky.
— Sabe que eu não ia gostar disso se realmente estivesse aqui, não é? Você devia estar pensando em um jeito de sair daqui, voltar para casa e consertar as suas burradas. — Ela respondeu, bruscamente.
Sim, essa era a prova de que ela era puramente fruto da imaginação dele. A original não era tão sarcástica nem aqui nem na China.
— Sim, eu devia estar fazendo isso. Mas não consigo, sabe por quê? — Ele perguntou, olhando para ela. — Porque sou um maldito covarde!
— Eu vou te perdoar, John. Mas você precisa se reerguer. Vamos, eu sei que sente a minha falta. — Ela respondeu, como se estivesse tentando motivá-lo.
O real motivo por ele ainda não ter atirado em sua própria cabeça com aquela arma, é porque queria alucinar com ela o máximo possível, até a bebida acabar. Já que nunca mais iria sair daquele lugar mesmo... ao menos poderia vê-la uma última vez em sua cabeça.
— Eu te amo. — Ele disse, antes de se debulhar em lágrimas.
Ele colapsou outra vez, mergulhado no próprio sofrimento. Ele sentiu quando ela se aproximou para sussurrar em seu ouvido.
— Por que não me disse isso ao invés de me deixar? — Ela perguntou, desaparecendo dos devaneios da mente dele.
Quanto tempo mais ele ficaria trancado ali, sendo obrigado a passar por isso? Bem, ele havia feito uma burrada das grandes. Então, ele pensava ser justo estar pagando pelos erros daquele jeito. A verdadeira nem devia mais estar pensando nele...
Continua
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