The Reason Is You
33 Capítulo 33 - A Dose Of Euphoria
Notas iniciais

Isn't it lovely, all alone?
Heart made of glass, my mind of stone
Tear me to pieces, skin to bone
Hello, welcome home
Billie Eilish — Lovely
86 DIAS APÓS O RESGATE EM MOUNT WEATHER
Murphy havia literalmente chegado ao fundo do poço. Esquecido e abandonado, preso naquele bunker, com somente as imagens da câmera de vídeo como companhia. Sem contar as alucinações com a ex-namorada, causadas pelo excesso de álcool. Nesse período, ele deixou de se cuidar. O cabelo e a barba haviam crescido em um nível acima do normal, e ele havia perdido peso, devido ao racionamento de comida.
Naquele dia específico, ele havia aberto a última caixa de comida. Quando acabasse, estaria largado à própria sorte, esperando para morrer de fome, preso ali dentro. Foi quando ele se lembrou da arma que estava junto dele. Por que esperar, quando podia acabar com esse sofrimento agora? Ninguém iria dar por falta dele mesmo...
Contudo, ele não iria morrer sem se despedir. Ele pegou a câmera de vídeo, para gravar uma última mensagem. Ele estava em um estado deplorável, e não queria que ninguém o visse daquele jeito. Porém, a essa altura, isso não importava mais.
— Oitenta e seis dias... eu acabei de chegar na minha última caixa de comida. Eu nunca pensei que iria sentir tanta falta da Arca... — Murphy relatava, em um tom cansado e frustrado. — De qualquer jeito, Jaha, se você está assistindo isso, significa que você não está morto, então vá se ferrar!
Os olhos dele estavam lacrimejando outra vez. Ele estava mergulhado em um misto de sentimentos. Queria expressar sua raiva por ter se deixado levar pela conversa leviana de Jaha, e ao mesmo tempo, abandonado sua garota. Se ele realmente iria fazer aquilo, precisava ao menos falar com ela uma última vez...
— E Kara Leigh... eu só queria que você soubesse que eu sou um idiota. Eu nunca te odiei. A pior decisão da minha vida foi ter terminado com você. Se arrependimento matasse... — Ele já estava aos prantos. — Você é a pessoa mais maravilhosa desse mundo, e eu sou o maior bosta por ter te tratado daquele jeito. Eu sempre vou te amar. Só espero que você consiga me perdoar um dia...
Ele finalmente largou a câmera e pegou a pistola. Levou um tempo até ele tomar coragem para ir adiante com aquilo. Ele estava ofegante, pensando em como aquilo tudo estava prestes a acabar. Só bastava ele apertar um botão.
— Não faça isso, John. — Ele ouviu a voz dela outra vez. Já estava acostumado com as alucinações. — Acabar com sua vida não vai fazer você se sentir melhor.
— Claro que vai, eu vou acabar com tudo isso... — Ele respondeu, com pesar. — Desse jeito eu não vou mais ser um peso para ninguém.
— Você não era um peso para mim. John, você era meu tudo. — Ela respondeu. — Eu te amei, não importava o que as outras pessoas dissessem. Aquilo que tínhamos... tem certeza que não quer de volta?
— É claro que eu quero de volta. Mas não posso voltar para você. Estou preso aqui dentro... — Ele respondeu, desviando o olhar.
— Eu não teria tanta certeza. — Ela respondeu, apontando para a escadaria que levava à porta.
E naquele momento, um barulho pode ser ouvido perto da porta. A mesma voz feminina robótica que antes havia anunciado que ele estava preso, agora anunciava sua liberdade.
“Porta do confinamento aberta.”
Era isso. Ele não perdeu tempo em correr para abrir a porta e sair dali. A luz do dia feriu um pouco seus olhos. Afinal, foram quase três meses sem ver a claridade da luz do sol. Ele começou a caminhar desesperadamente pela ilha, procurando alguma maneira de voltar. Talvez encontrasse um barco, ou algo parecido.
Não exatamente. Tudo o que conseguiu encontrar, esgotado do jeito que estava, foi uma enorme mansão... e Jaha.
*~*
— Foram nove seguidas. Se acertar a décima, já pode se considerar a melhor arqueira de Trikru. — Lexa disse, acompanhando o treinamento de sua pupila.
Aquele era um dos dias em que ela foi permitida a entrar em Polis, para continuar seu treinamento com a Comandante. Lexa era uma mentora tão eficiente, que em apenas seis sessões, conseguiu fazer com que Leigh aperfeiçoasse sua mira e sua precisão de um jeito quase impecável.
Agora, estavam em outra sessão de treinamento de arco e flecha, a principal arma da loira, nos campos ao redor da cidade terrestre. Lexa instruiu Leigh a acertar dez alvos específicos, sendo eles, pedras, troncos de árvores, ou uma simples folha caindo em pleno ar. A garota havia acertado nove, e estava se preparando para a última flechada.
Após esperar outra folha cair, ela disparou e a atingiu bem no centro. Lexa olhou a cena, orgulhosa do resultado do treinamento. Se Leigh fosse uma natblida, era muito provável que ela seria a favorita para substituí-la como próxima Comandante.
— Você está se saindo muito bem. Continue assim e será uma guerreira promissora. — Lexa a elogiou.
— Heda... eu queria perguntar se agora seria um bom momento para minha ordem de execução ser suspensa em definitivo. — Leigh disse, guardando seu arco em suas costas. — Já estamos treinando juntas há muito tempo, já provei o que disse quando vim pedir uma segunda chance.
— Ainda é cedo. Quando eu suspender a ordem de execução, será no dia em que você se provar realmente digna da minha confiança, e de um lugar em meu exército. — Lexa respondeu, firmemente. — Agora, tem outro assunto que exige minha atenção...
— Não me diga que você também está atrás da Wanheda... — Leigh comentou, sem prestar muita atenção nas próprias palavras.
Era verdade que Lexa ainda via Clarke como a verdadeira líder dos skaikru. Mas seria muita cara de pau ela estar atrás de Clarke depois de tudo que aconteceu em Mount Weather. Apesar de Leigh admirar muito a Comandante, ela ainda achava essa atitude muito errada, tanto é que foi contra na época, e ficou para ajudar o povo do céu. Claro, isso fez com que ela e Lincoln fossem submetidos a uma ordem de execução.
— Na verdade, estou sim. Você conhece mais alguém que está atrás dela? — Lexa perguntou, desconfiada.
Essa não. A loira havia falado demais. Seus encontros com Roan no abrigo dele eram extremamente secretos. Ninguém sabia. Nem mesmo Octavia, que era sua melhor amiga. Na verdade, as pessoas em Arkadia acreditavam que ela estava em um relacionamento com Raven. Quando, para sinceridade, não era bem um relacionamento. As duas eram mais como “amigas coloridas”, que ficavam de amassos quando estavam com vontade. Então, ninguém fazia muitas perguntas sobre o quê Leigh fazia fora do território skaikru.
— Ela está muito famosa. Vários caçadores de recompensa estão atrás dela. — Leigh respondeu, tentando disfarçar. — Acreditam que vão ter o mesmo poder se matarem ela... são uns tolos.
— Então você não acredita nisso... — Lexa deduziu.
— Heda, eu posso até acreditar que o espírito do Comandante escolhe o sucessor. Mas não tem como alguém pegar o poder de outra pessoa apenas matando-a. — Leigh respondeu. — Eu já matei guerreiros... isso comprova que essa crença não funciona.
— Vendo o jeito que você atirou hoje, eu diria que funciona sim. — Lexa respondeu, recolocando seu manto de Comandante. — Está na sua hora de partir.
— Está certo, vou buscar a Caska. — Leigh respondeu, se referindo à sua égua. Contudo, antes de ir, se voltou uma última vez para a morena. — Heda, tem alguma carta para eu levar de volta para Arkadia? Minha irmã ainda está esperando uma resposta, desde a última...
Leigh estava “bancando o cupido”, ajudando Lexa e Juliet a se reconciliarem aos poucos. Estava sendo complicado, principalmente depois do incidente de Mount Weather, e devido ao fato de que elas não estavam se falando pessoalmente. Então, Leigh sugeriu que elas passassem a se comunicar a partir de cartas, que seriam entregues por intermédio dela.
— Não vejo razão em continuar fazendo isso. Juliet e eu nunca poderemos ter nada... — Lexa respondeu, com pesar. — Pelo menos, enquanto não encontrarmos a Wanheda.
Leigh não achava a ideia de um reencontro entre Clarke e Lexa tão boa assim. Digamos que a loira skaikru não estava interessada em ver a Comandante nem pintada de ouro em sua frente, depois do que aconteceu na montanha. Então, ela só assentiu, brevemente, dando um último conselho sobre sua irmã.
— Na verdade, já passou da hora de vocês duas resolverem isso pessoalmente. Ainda gosta dela, não gosta, Heda? — Leigh perguntou, caminhando até o estábulo de Polis, acompanhada por Lexa.
— E em que momento isso poderia acontecer? Ela não pode vir a Polis e eu não posso ir a Arkadia. — Lexa se lamentou, observando enquanto sua pupila retirava sua égua do estábulo.
— E por que não? Que eu saiba, não há nenhuma ordem de execução para skaikru inteira... — Leigh respondeu, montando em Caska. — Eu posso dizer a ela que venha visitá-la um dia, Heda...
— Bem... assim, quem sabe daqui a dez dias, na sua próxima sessão de treinamento. — Lexa respondeu, enquanto a mais nova assentiu, galopando com sua égua para longe.
A garota já estava cansada dessa rotina. Queria poder viver em Polis permanentemente. Não se sentia em casa em Arkadia. Por mais que lá estivessem a maioria das pessoas importantes para ela. A maioria apenas...
O sol estava se pondo. Se ela continuasse indo para Arkadia naquele momento, era bem provável que chegaria tarde da noite. A menos que encontrasse um lugar para dormir. E ela sabia exatamente onde ir...
Amarrou Caska em uma das árvores do lado de fora, deixando-lhe algo para comer e beber antes de descer as escadas. Ao entrar no esconderijo, o encontrou perto do fogo, preparando uma deliciosa carne, provavelmente resultado de sua última caça. Ela sorriu de lábios ao observar a cena. Gostava de estar na companhia dele. A essa altura, já podia dizer que gostava mais de ficar no esconderijo dele, que em Arkadia.
— Se eu soubesse que você viria, eu teria colocado mais carne no fogo... — Roan disse, nem precisando se virar para saber que ela estava ali.
— Sorte sua, não estou com fome. — Leigh respondeu, chegando mais perto dele. — Só parei para dormir mesmo, não vai dar tempo de voltar para casa hoje. E aí, teve sorte na busca pela Wanheda?
— Há rumores de que ela foi vista perto da fronteira com Azgeda. — Roan respondeu. — Vou para lá amanhã de manhã.
— Não vai precisar de companhia, imagino. — Leigh indagou, sentando perto do fogo. — Prefiro caçar a Wanheda com você do que retornar a Arkadia...
Roan encarou a garota. Por mais que estivesse se acostumando com a presença dela por perto, ainda sim, não sentia que estava pronto para deixá-la acompanhá-lo em uma caçada. Ainda mais pela Wanheda...
— Sem iniciantes. — Roan respondeu, ríspido e curto. — Preciso da recompensa. Qualquer coisa menos que sucesso em capturá-la é inútil.
— A recompensa é você ser reinserido em Azgeda... não tenho certeza se quero que você receba essa recompensa... — Leigh respondeu, o encarando com afinco. — Se voltar, eu não vou mais poder ver você. Não sentiria minha falta?
Seria a única coisa que eu sentiria falta. Roan pensou, observando as feições do rosto dela. A verdade era que, após tantos encontros, tantas sessões de treino e tantas conversas íntimas, ele acabou se afeiçoando pela garota Trikru. Ela era sua única companhia em seu exílio. Ao menos, a única companhia com quem ele podia ser ele mesmo. Não o “príncipe renegado” que os outros guerreiros pintavam dele.
Ele até mesmo chegou a pensar nela como mais que apenas uma confidente. Mas tratou de afastar logo estes pensamentos. Ela era muito mais nova que ele. E, provavelmente, devia ter muitos pretendentes. Não iria se interessar por um príncipe exilado que havia se rebaixado ao nível de um mero caçador de recompensas para recuperar seu status.
— Coma e vá dormir, Leigh Trikru. — Roan disse, sem responder a pergunta dela.
Eles tinham esse hábito de se chamarem pelo nome de seus clãs. Trikru e Azgeda estavam longe de ser aliados. Contudo, para os dois, isso era um ato de afeto. Era como se eles próprios fossem os elos de união entre um clã e o outro.
— Você também, Roan Azgeda. — Leigh respondeu, pegando um pedaço da carne para si. — Amanhã vai ser um longo dia.
*~*
Após comerem e conversarem mais um pouco, os dois foram dormir. Contudo, nem quando estava no esconderijo de Roan, os pesadelos de Leigh a abandonavam. Ela continuava sonhando com Murphy todas as noites...
Ela acordou com um susto, ofegante. O lugar estava escuro, iluminado apenas pela pouca iluminação fornecida pela lua, no lado de fora. Ela passou a mão pelos cabelos, frustrada. Não aguentava mais ficar remoendo aquele assunto.
Já faziam vários dias desde que ele foi embora. Ela nem sabia se algum dia, o veria outra vez. Por que ficar insistindo em pensar nisso? Bem, nem mesmo Raven, com toda sua sensualidade e beijos quentes, estava conseguindo tirá-lo da cabeça da terrestre loira.
Ela iria sentir sua falta para sempre. Em sua mente, ela nem sabia mais se o que estava sentindo era amor, ou uma forte obsessão. Mas uma coisa era certa... precisava seguir em frente, ou iria enlouquecer.
Foi quando mirou o Azgeda, deitado há apenas alguns metros de distância dela. Ela se perguntou repetidas vezes se aquilo era certo... afinal, já havia se imaginado com ele desse jeito. Mesmo durante seus encontros com Raven.
Roan não era seu único amigo. Ela ainda tinha Lexa, Juliet, Octavia, além da própria Raven. Mas Leigh não conseguia mais diferenciar seus sentimentos. Podia ser coisa da cabeça dela, mas Roan a entendia, sem a tratar como criança. E já fazia um tempinho que ela estava tendo uma queda por ele...
Eu devia fazer isso logo... pensou, se referindo ao homem adormecido. Estreitando os olhos, ela acendeu uma tocha, deixando-a no chão, como fonte de iluminação. Depois, se despiu de sua parte de cima, indo até ele.
Ela sentou sobre ele, com as pernas afastadas, fazendo-o despertar com o toque repentino. O que ele viu, não sabia se podia descrever como uma visão do paraíso ou do inferno. A garota estava nua da cintura para cima, o encarando de um jeito que poderia enlouquece-lo só de olhar.
— Ficou maluca, Trikru? — Roan perguntou, com um ar desconfiado. — O que pensa que está fazendo?
— O que eu devia ter feito há muito tempo. Olhe nos meus olhos e diga que não quer. — Leigh respondeu, decidida. — Eu sei que você quer. Eu vejo como olha para mim.
Roan ficou paralisado por um momento. Ele suspirou, como se estivesse em uma encruzilhada, sem saber por qual caminho seguir.
— Você tem certeza disso? — Roan perguntou, segurando a cintura da garota, premeditando seu próximo movimento.
— Eu pareço indecisa? — Leigh perguntou, com um ar sarcástico, mas ao mesmo tempo, decidido.
Ela nem o deixou responder. Simplesmente se inclinou, beijando os lábios dele, de maneira provocativa. Como primeira reação, ele intensificou o beijo e inverteu as posições, jogando-a por baixo dele.
A noite foi longa. A luz que a tocha caída no chão emitia, formava as sombras dos dois terrestres no teto. Durante boa parte daquela noite, Roan deu todo o conforto necessário para as dores de Leigh. Até mais que isso. Ele deu um espaço para ela poder se sentir querida outra vez.
Enquanto a preenchia, ele fazia questão de tratar aquela garota do jeito que ela merecia. E ela, se imaginava estar se libertando de pesadas correntes. Mesmo quando terminou, e ambos caíram exaustos, um ao lado do outro, a sensação de que aquilo era a coisa certa permaneceu. Nenhuma sensação de culpa os atingiu.
— Você está bem, Trikru? — Roan perguntou, após observar que a garota estava um tanto aérea.
— Foi muito bem, Azgeda. — Leigh respondeu, se voltando para ele. — Fazia muito tempo que eu não me sentia assim.
— Considerando que você me pegou de surpresa... eu preciso parar de baixar a guarda. — Roan respondeu, segurando o rosto dela com dois dedos. — Não está pensando naquele garoto que te abandonou, está?
Sim, eles já tinham grau de intimidade o suficiente para falar de relacionamentos passados. Leigh se abriu muito para ele enquanto construíam uma amizade. Ela contou sobre Murphy ter sido seu primeiro amor, e sobre ele ter sido quem a apresentou a diversas experiências, como sexo, por exemplo...
— É meio difícil não pensar nisso agora. Você é o primeiro homem com quem eu fico depois dele... — Leigh respondeu, desviando o olhar.
E então, o semblante dela se tornou triste. Ela ficava assim sempre que Murphy se tornava o assunto da conversa, e Roan sabia disso.
— Que idiota... se eu o encontrasse, é muito provável que eu lhe desse uma surra. — Roan disse, deslizando os dedos pelo rosto dela. — Não se abandona alguém como você.
Ela voltou a encará-lo. Ouvir palavras como aquela a reconfortavam, e muito. Por outro lado, colocavam milhares de questões em sua cabeça. Como por exemplo, se estava pronta para amar e se deixar ser amada outra vez.
E como faria em relação à Raven? As duas ainda estavam “juntas”, em todo caso, por mais que nunca dissessem uma para a outra que o que tinham era sério. E sobre John... era melhor nem pensar nisso, era doloroso demais.
— Isso quer dizer que você se apaixonou, Azgeda? — Leigh perguntou, em um tom ambíguo.
— Eu poderia dizer que não. Mas tem uma certa Trikru mexendo comigo já faz um tempo. — Roan respondeu, fazendo-a corar.
Ele gostava desse traço meigo dela. Sim, ela passava a maior parte do tempo bancando a durona sarcástica para cima dele, fingindo que não estava machucada emocionalmente. Quando na verdade, tudo o que precisava fazer era chorar até não aguentar mais, mesmo que não admitisse isso.
— Vou ter que acertar uma flecha nela. — Leigh brincou, voltando a ficar por cima dele. — Porque esse Azgeda aqui já não está mais disponível.
Ela voltou a tomar os lábios dele. Entre beijos quentes e carícias fervorosas, os dois passaram a noite se entregando um ao outro. Pelo menos, durante uma noite, Leigh se sentiu feliz outra vez. Como se nada estivesse faltando.
*~*
Na manhã seguinte, quando Leigh retornou a Arkadia, a cabeça dela estava com coisas de mais para se preocupar com pequenas distrações. Por isso, mal se importou quando Octavia passou ao seu lado, cavalgando, parecendo prestes a sair.
— Ei, onde esteve a noite toda? Lincoln ficou preocupado. — Octavia a avisou.
— Lá fora. – Leigh respondeu, sem dar muita importância para o assunto. — Tomando um ar.
— É... eu também não consigo passar muito tempo trancada aqui. — Octavia respondeu, dando a entender que ela também fazia suas escapadas de Arkadia, de vez em quando. — Ei, vamos sair de novo. Raven disse que conseguiu uma pista do que pode ser a Clarke, perto do território Azgeda. Você devia ir conosco.
Leigh sorriu de lado, soltando um suspiro irônico. Se ela partisse junto nessa missão, era muito capaz de assistir Roan capturando a Wanheda de camarote. E ela queria vê-lo outra vez de qualquer maneira, então...
— Onde o Helios vai, a Caska também vai. — Leigh respondeu, se referindo aos companheiros equinos das duas.
As duas cavalgaram até o portão da garagem do Rover, que se abriu, revelando Raven na direção. Ela e Leigh se entreolharam, com um sorriso ambíguo. Bellamy, que estava no banco do carona, somente disse algo irônico para a morena, que soltou um sonoro “quieto”.
Além deles dois, também estavam no Rover, Monty, Miller, e por incrível que pareça, Jasper. Leigh estava falando cada vez menos com ele. E ele, como de costume, não fazia esforços para manter a amizade. Pelo contrário, passava a maioria dos dias bêbado e drogado. Talvez, ele não fosse tão legal, como no dia do graveto. Ou talvez, a morte de Maya tenha matado sua personalidade gentil e divertida.
Ou, ao menos, era o que ela pensava. Pois, no meio do caminho, ele colocou uma música no Rover, e começou a cantar como se não houvesse amanhã. Enquanto cavalgava, Leigh sentiu um pouco de alívio ao ver a euforia dele. O garoto precisava de um tempo.
Ela gostava de cantar. Porém, só o fazia quando não havia mais ninguém por perto. Bem, pelo menos, até aquele dia. Após a missão fracassar, pois o que eles haviam ido procurar era apenas um transmissor da Estação Farm, que estava com guerreiros Azgeda, e Jasper dar uma de suicida outra vez, o grupo teve que o levar de volta para Arkadia.
— Leigh, você é aprendiz da Abby! Não pode fazer um curativo rápido nele, até chegarmos em Arkadia? — Monty pediu, preocupado com a situação do melhor amigo.
— Está bem, eu faço um remendo rápido, mas não vou acompanhar isso dentro do Rover. Alguém precisa levar a Caska de volta. — Leigh respondeu, procurando por suas ervas, em seu inventário.
Afinal, nem precisou. Bellamy recebeu um chamado de Kane, pedindo para encontrá-lo em outro lugar. Ele levou o Rover, e Monty foi com ele. Porém, ele não saiu antes de pedir para Leigh mantê-lo atualizado sobre Jasper.
— Você é uma figura mesmo, gravetinho... — Leigh murmurou, enquanto fazia um curativo provisório em Jasper, usando gaze e algumas ervas.
— Só se vive uma vez. Você devia experimentar... — Jasper respondeu, com um ar sarcástico, enquanto Leigh mantinha uma expressão de desaprovação no rosto.
Quando ela terminou, o grupo pegou os cavalos dos guerreiros Azgeda para retornar a Arkadia. Enquanto viajavam de volta, Raven se aproximou de Leigh.
— Ei, senti sua falta ontem. — Raven disse. Ela sabia que não podia cobrar nada, afinal, não eram namoradas. — Quer vir ao meu quarto mais tarde e me compensar com uma “sessão”?
Ela estava se referindo a uma sessão de amassos, é claro. Entretanto, Leigh não sabia se ainda estava disposta a continuar com aquilo. Não após a noite passada, com Roan...
— Ok, tudo bem... — Leigh respondeu, sem muito entusiasmo.
O ânimo de Raven não durou muito. Ao chegar em Arkadia, a dor em seu quadril, por conta da perna aleijada, a fez não ser capaz de descer do cavalo sozinha. Ela transformou toda a sua frustração em libido, quando finalmente conseguiu ficar sozinha com Leigh em seu quarto. Contudo, a sessão de beijos das duas não durou muito tempo.
— Acho que estamos levando isso longe demais, Pocahontas... — Raven disse, após interromper um beijo. — O acordo era não nos apaixonarmos. Era para ser só sexo.
— Mas eu não me apaixonei, Rae. Claro que eu te amo, mas como amiga... — Leigh respondeu.
— Eu estava falando de mim. Droga... — Raven xingou, soltando a outra garota. — Você tem essa coisa que atrai as pessoas...
Leigh ficou pasma por um momento. Logo após descobrir um novo amor com Roan, veio esse baque profundo de que Raven também estava apaixonada por ela. Mesmo com as duas concordando que isso não aconteceria.
— É melhor a gente parar. Sem mais beijos, sem mais transas... vamos só ser amigas normais, ok? — Raven sugeriu. Leigh concordou, sem pensar muito tempo. — Então, vamos beber, como duas amigas normais.
Raven pensou que, deste jeito, conseguiria reprimir os sentimentos pela terrestre loira. Mal ela sabia que, assim como sua dor na perna, isso não seria tão fácil.
Enquanto as duas tomavam uns drinks no refeitório, onde Leigh aproveitou para falar com sua irmã Juliet, sobre o assunto “Lexa”, um garoto chamado Macallan tentou roubar um bracelete das caixas da última ronda a Mount Weather, e Raven o pegou.
— Ah, vamos lá... o que quer em troca disto? — Macallan perguntou, quase tendo um treco por ter sido pego.
— Uma canção. Você e a minha amiga aqui. — Raven respondeu, olhando alternadamente para Leigh e para o piano no meio do refeitório, retirado diretamente de Mount Weather.
— Não, Raven... — Leigh tentou fazê-la desistir da ideia de cantar em público.
A verdade era que Raven era a única pessoa que já havia ouvido Leigh cantar. E isso era um dos vários fatores que a fizeram desenvolver um vínculo amoroso com a loira.
Após muito insistir, Leigh acabou aceitando a ideia. Ela e Macallan foram até o piano e cantaram um dueto de uma música triste e melancólica. Era uma versão de uma das músicas que Jasper tinha em seu iPod. A mesma que ele cantou loucamente dentro do Rover, mais cedo naquele dia.
E, mencionando Jasper, ele tinha que estragar tudo outra vez. Agora, ele praticamente arrancou Macallan do piano e o jogou no chão, iniciando uma briga. Leigh não suportava mais aquele comportamento. Já fazia muito tempo desde que Maya morreu, era hora de superar. Se bem que era um pouco hipócrita pensar desse jeito, sendo que ela mesma ainda não havia superado John...
*~*
Após passar por muitas experiências malucas com Jaha e a tal A.L.I.E., Murphy finalmente encheu sua cota e decidiu que era hora de cair fora daquela ilha. Talvez pudesse ter sorte em voltar para seu povo e tentar conseguir o perdão de sua ex-namorada. Porém, o que ele menos estava esperando aconteceu. Momentos antes de ele pegar um dos barcos da margem para ir embora, um barco motorizado se aproximou da praia. E uma figura familiar...
— John? Eu não acredito! — Uma voz feminina particularmente familiar o chamou.
— Emori? — Murphy perguntou, não acreditando que aquela era a mesma garota que ele havia encontrado no deserto, tempos atrás.
Fora Leigh, Emori era a pessoa mais relevante para ele naquele momento. Ok, ela havia colocado uma faca no pescoço dele. Mas também havia indicado o caminho para que eles pudessem achar a ilha, o que significava que ela não queria que ele morresse no deserto.
Ele deu aquele típico sorriso ladino, antes de subir no barco, cumprimentando a morena. Durante a viagem para o continente, eles conversaram muito. Especialmente sobre aqueles assuntos inacabados no deserto.
— E então, agora que você saiu da ilha, vai voltar para aquela sua namorada? — Emori perguntou.
— Não sei... ela seria o único motivo para eu voltar. E também é o principal motivo para eu não voltar. — Murphy respondeu, pensativo.
— Então não volte. Fique conosco por uns tempos. — Emori ofereceu.
Esfriar a cabeça após um término dolorido e três meses trancado em um bunker tendo alucinações com a ex-namorada parecia ser o que Murphy estava precisando naquele momento.
Continua
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