The Pure And Fragile Gold
1 Where’s My Soul?
Eu nunca fui o tipo de pessoa que ligasse para o que os outros falassem ou pensassem a respeito de mim. Sempre procurei ver o lado bom das coisas, mesmo quando só existia o lado ruim. A vida inteira morei com meus pais aqui em Cork e a minha maior vontade sempre foi cair fora daqui. Mesmo não ligando para o que as pessoas dissessem, às vezes não dava pra se controlar. A primeira vez foi quando eu tinha seis anos e meus pais decidiram me colocar na escola. Sempre fui bem delicado e meus pais sabiam qual seria o meu futuro desde que nasci. No primeiro dia de aula, fui super bem recebido por todos.
“Bichinha! Veadinho! Oi, gayzinho!”
Essa foi a primeira pancada que levei na vida, mesmo que não fosse uma agressão corporal, mas aquilo mexeu muito comigo e fiquei me perguntando por dias o que havia feito para levar aqueles apelidos horríveis.
Eu não falava nada com os meus pais, não por medo, mas sim por não querer desgastá-los a irem toda vez à minha escola. Até que na oitava série, depois de já ter criado calos em meus ouvidos de tanto ouvir insultos homofóbicos dos alunos, resolvi contar para os meus pais que sou gay. E eles me surpreenderam mais uma vez.
“Breandán, isso não é nenhuma novidade para a gente!”
Sempre ouvi falar que os pais sempre sabem que o filho é gay. E que às vezes eles só esperam a gente contar para que não nos sintamos pressionados. E é bem isso mesmo.
Mas o fato de eu ter contado aos meus pais que sou gay e, além disto, ateu, não aliviou o bullying que eu sofria na escola e na rua. Eu sei que eles me defenderiam sempre que pudessem, mas não era sempre que eu estava com eles. E por fim, eu cresci e precisei a aprender a me virar sozinho.
Eu sou Breandán Scott-Cléirich e tenho vinte e dois anos.
Cork, Irlanda.
Meus pais haviam ido ao supermercado e eu estava lá na porta, sentado, entediado, sem quase poder me mexer. Aquele led vermelho chato a cada três segundos entrava em minha cabeça me fazendo recordar a sexta-feira da noite passada.
Eu havia pegado o carro do meu pai emprestado para comprar cervejas em um pub do outro lado da cidade. Eu já havia comprado e estava guardando elas no carro, quando Edward chegou com seus amigos falando insultos pra mim:
— E aí, veadinho! Como vai? Essas cervejas aí... são para o seu namoradinho?
Edward Rondon. Estudamos nas mesmas classes durante todo o colegial. E durante todo o colegial, era ele quem mais me perturbava. Pensei que quando nos formássemos, nunca mais nos veríamos e ele desapareceria para sempre. Mas foi exatamente o contrário. Ele se mudou para a rua embaixo da minha. E era meio que inevitável não vê-lo quase todos os dias.
— Aí, Breandán, passa a cerveja. – disse ele. E eu fingi que não havia ouvido. Eu me voltei pro carro e abri o porta-malas. E mais uma vez, Edward pediu as cervejas, só que gritando: – Eu disse pra passar a droga desta cerveja! – Aquilo me despertou uma raiva imensa naquela hora e por sorte havia uma barra de ferro no porta-malas. Então peguei o cabo e acertei o rosto do Edward que caiu desmaiado no chão. Na mesma hora, os que se diziam amigos dele, saíram correndo e naquele estacionamento estava somente eu, desesperado, é claro. E Edward, caído, com o rosto machucado. Eu fui tão imbecil que ao invés de terminar o serviço e acabado com a raça dele, fiquei lá gritando por socorro e chamando a polícia. Brincadeira! Eu fiquei realmente preocupado com ele. Eu nunca havia agredido ninguém. Isso não era do meu feitio, mas ao mesmo tempo me veio uma sensação de vingança.
Mas então a polícia chegou, me levou para a delegacia e fui condenado a quatro meses de regime aberto com direito a um animalzinho de estimação que está grudado na minha perna direta. O famoso bracelete eletrônico. Meus pais foram me buscar na delegacia e levei uma bronca daquelas e eles pareciam que não estavam querendo falar comigo direito. Apenas me davam sermão durante todo o trajeto até nossa casa.
— O que deu em você, Breandán? O que deu em você para agredir um cara na porta de um bar? – minha mãe era a mais preocupada.
— Mas mãe, eu já disse que...
Ela não me deixava falar.
– Não tente inventar uma desculpa, Breandán! O que você fez não tem desculpas. Onde já se viu? Eu não te criei para ser um agressor! – continuava ela.
— Mãe, eles estavam em maior número! Eles iam me espancar, sei lá, até mesmo me matar! – sempre fui um pouco dramático.
— Mesmo assim! Olha, não quero mais falar disso. Amanhã eu vou ligar para a minha irmã e você vai passar um tempo trabalhando com ela na Escócia. – ela estava me ameaçando.
— Você não pode fazer isso! – eu tentei resistir.
— Ah, posso sim. Agora chega! Não quero mais falar sobre isso!
E eu fiquei tentando inventar desculpas o caminho inteiro. Até que chegamos em casa. Quando descemos do carro, já havia uma viatura parada em frente a minha casa. Aquele policial era bem rude, embora fosse bastante sexy. Ele se ajoelhou e programou aquele mais novo companheiro.
— Presta atenção, o led vai apitar de três em três segundos. Você não pode sair do raio de 30km, entendeu? Se sair desta distancia, um beep vai apitar cada mais vez mais rápido e uma viatura vai atrás de você. Então, acabou! – eu fiquei meio assustado. Mas entrei em casa e fui direto para o meu quarto. Nem quis saber da cerveja. A pior parte foi na hora de conseguir uma posição para dormir.
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