The Pure And Fragile Gold
2 Something New To Me
Eu acordei bem cedo, embora não havia conseguido dormir bem naquela noite. Ainda passei a mão no meu tornozelo para sentir se aquela coisa ainda estava lá ou se era apenas um pesadelo que eu havia tido na noite passada. Alarme falso! Ainda estava lá. Deitei novamente e peguei meu celular. Fiquei pensando em ligar para a casa dos pais do Edward para saber como ele estava, mas achei melhor não. Eu já estava com a consciência superpesada de ter agredido ele ter levado sermão a noite inteira. Não queria ouvir mais lições de moral. Mas ainda bem que na hora que abri meu Instagram, havia um stories recente de um amigo meu em comum com o Edward. E nesse vídeo, estava o Edward, sempre exibido, contando a todos a sua versão do que aconteceu na noite passada.
“Oi, galera! Como podem ver, ontem eu sofri uma agressão na rua. Realmente não está nada fácil andar pelas ruas de Cork. Sempre tem um mau elemento andando por aí. Eu só queria tomar minha cerveja em paz, quando ele chegou tentando roubar meu celular novo. Eu sei que não é certo reagir a assaltos, mas eu não pude evitar. Felizmente eu passo bem, apesar da dor que eu estou sentindo. Acreditem, meu psicológico está mais ferido do que meu rosto.”
Como ele é cínico! Eu devia era ter arrebentado com a cara daquele idiota! Brincadeira, de novo!
Então eu resolvi descer para tomar café. Desci bem devagar, pensando no que iria ouvir dos meus pais logo de manhã. Quando cheguei à cozinha, minha mãe olhou pra mim e colocou o prato com pão e batata frita em cima da mesa.
— Como está, meu filho presidiário? – não teve nem “bom dia”.
— Mãe, será que tem como quebrar essa?
— Quebrar essa? Você quase matou uma pessoa ontem e quer que eu releve?
Eu ainda tentei quebrar o gelo:
— Mãe, ele está bem. Até postou um vídeo no Instagram.
— Isso não importa, Breandán! Você agora tem a ficha suja na polícia. – ela tinha que me lembrar disso.
— Olha, eu vou dar uma volta por aí! Quem sabe assim, quando eu voltar, você já estará mais legal? – eu já estava na porta, quando olhei para minha perna. Como que eu ia sair na rua com aquele monstro nas minhas pernas? A cidade inteira já devia estar sabendo. Fora que não combinava com nenhuma roupa que eu tinha. E como eu retornaria ao trabalho na segunda-feira? Voltei para dentro e minha mãe não entendeu.
— Não ia sair? – ela perguntou.
— Não dá pra sair com um negócio imenso deste na perna.
Nunca pensei que seria tão difícil. Então, o restante do meu dia se baseou em ficar sentado no sofá da sala assistindo televisão e mexendo no celular. Até que minha mãe me avisou que iria encontrar meu pai no supermercado. Ela me deu um beijo na cabeça e saiu, advertindo todo o “manual de sobrevivência do filho sozinho em casa”.
Logo aqueles programas de televisão e redes sociais foram se tornando entediantes. E eu andava pela casa de um lado para o outro sem ter o que fazer. Por fim, me sentei na porta de casa e fiquei olhando o movimento da rua, que por sinal, não havia ninguém.
Alguns carros vinham, alguns carros iam. Até que um carro preto, um pouco velho, estacionou em frente à casa ao lado que estava a venda há alguns meses. Era, aparentemente, uma família. Do banco do motorista, saiu uma mulher, carregando uma caixa. Parecia ser simpática. Normal. Mas o que eu não esperava era que o meu coração começaria a disparar quando a porta de trás abrisse. Então, um rapaz saiu do carro, desligando seu iPod. Mas que menino lindo! Eu fiquei desconcertado com a perfeição que era o seu rosto e seu corpo. Mas foi preciso voltar a mim mesmo quando ele me encarou, porém, sério e um pouco ranzinza. Foi por poucos segundos, até que ele entrou em casa. Agora mais do que tudo, eu precisava saber quem era aquele garoto e de onde ele veio.
Depois que entrei em casa, não conseguia pensar em nada mais. Somente naquele menino. Ele era muito lindo. Isso eu já disse. Era moreno, nem tão alto, nem tão baixo, e devia ter a minha idade. Mas por que eu estava me iludindo? Eu nem sabia se ele era gay. E se fosse só mais um homofóbico pronto para me agredir na esquina da rua?
Já estava anoitecendo e eu já queria que amanhecesse para tentar descobrir um pouco mais sobre aquele garoto.
No dia seguinte, acordei e desci para tomar o café, quando escutei minha mãe conversando com alguém na porta de casa. Não resisti e fui espiar. Meu coração disparou de novo, quando vi que eram os novos vizinhos. O menino lindo e a mãe dele.
Minha mãe fez questão de me chamar para me apresentar a eles. Neste caminho até a porta, pensei que fosse ter um ataque cardíaco.
— Breandán, essa é Júlia Bragança e seu filho Caio. – disse ela, muito simpática.
Eu tentei esconder a minha perna.
— Prazer. – cumprimentei aos dois, quase morrendo.
— Eles são do Brasil e compraram a casa do lado.
O rapaz estendeu a mão pra mim, me olhando fixamente.
— Oi. Prazer. – ele não falava muito bem inglês. Para piorar a situação, tentei falar em irlandês e impressioná-lo:
— Dia duit! Fáilte.
Péssimo começo! Caio olhou para a mãe dele, confuso.
— Eu só desejei boas vindas. – droga! Eu queria me esconder nesse momento. E quando me dei por mim, ainda estava segurando a mão dele. Assustei quando ele se arrancou de mim. O que eu poderia fazer naquele momento?
— Com licença. Vou terminar de me arrumar. – e corri para o meu quarto. Meu maior desejo no momento era que ele não tivesse visto o meu companheiro na minha perna. Fechei a porta e sentei na cama. Peguei meu celular e já fui logo pesquisando no Facebook:
Caio. Caio Bragança. Mora no Brasil.
Eram tantos. E eu não sabia de qual cidade ele era. Eu sempre fui péssimo em geografia e foi a dois anos que descobri que a capital do Brasil não era Rio de Janeiro. Eu precisava fazer alguma coisa. Mas como uma pessoa em minhas condições: preso em regime aberto, com bracelete eletrônico na perna, iria sair por aí? Eu ia ser expulso de qualquer lugar que eu entrasse. Ou não. Mas mesmo assim. Eu não teria essa coragem. E então acabou acontecendo o que eu previa. Mais um dia em casa, da sala para o quarto, da TV para o celular, e do sofá pra porta. Porém, uma coisa me animava em ficar em casa. Eu ficava de olho em qualquer movimento suspeito que o Caio pudesse fazer e posso garantir que ele não havia saído de casa neste dia.
Então decidi ir para a porta, mais uma vez. Não, eu não queria espiar. Porém, mais uma vez, meu coração parecia que ia sair pela boca.
Era o Caio saindo de casa.
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