A noite estava chagando e finalmente deu a hora de ir embora do trabalho. A pior parte era pegar ônibus. Ele dava volta na metade da cidade até chegar ao ponto onde eu descia. E com essa demora, era suficiente para meus pensamentos irem longe e trazer à memória muitas coisas diferentes, como o dia em que eu fiquei com o primeiro garoto na minha vida.

Kian Fisher. Eu tinha quatorze anos, estava na oitava série. E ele estava no último ano do colegial. Estávamos flertando há mais ou menos um mês e então decidimos ficar no último dia de aula. Ele havia me levado para um corredor vazio da escola e pediu para que eu fechasse meus olhos. Ele me beijou e eu senti meu coração bater muito forte. Eu não queria que aquele momento terminasse. Nunca havia sentido nada parecido em relação àquilo. E quanto mais a gente se beijava, o grau de excitação aumentava e o calor também. Desde então, estava determinado que fosse assim dali em diante.

Outro momento que passou pela minha cabeça durante a volta para a casa foi quando espalharam para a escola toda que eu havia ficado com aquele menino. Para ele foi comum, era o último dia dele naquele colégio. Mas para mim foi um pesadelo. Imagine retornar à escola no ano seguinte e no primeiro dia de aula, ser recebido com gritos e palavrões de quase todos os alunos, te recriminando por ter ficando com uma pessoa do mesmo sexo?

Aquele, sem dúvida, foi um dos piores dias da minha vida. Mas isso foi me fazendo perceber o quanto sou uma pessoa forte.

Voltando um pouco mais no passado, me lembrei também do dia em que minha mãe me chamou para comprarmos roupas novas. Eu tinha uns dez anos. E chegamos em uma loja em que tinha um longo tecido de cetim dourado. Eu me encantei com aquele brilho ofuscante que tinha aquela cor. E então pedi a minha mãe para que fizesse um casaco para mim com aquele tecido. Ela não pensou duas vezes e teceu um maravilhoso casaco. Eu era criança e não tinha vergonha de usar aquilo. Eu me sentia seguro usando o casaco. Eu ia para todos os lugares com ele. Todos olhavam e eu me olhava. Eu estava me amando. Olhar para aquela cor me fazia refletir a mim mesmo nela. Era uma cor rara em meio a tantas outras comuns. Até hoje tenho o casaco dourado de cetim guardado em meu guarda-roupa.

Quando cheguei em casa, Caio estava encostado na árvore que dividia nossas casas. Estava com o CD que eu havia lhe dado nas mãos. Ele me olhava fixamente, mais uma vez.

— Oi. – disse ele, ainda tímido. – Eu estava te esperando chegar, para te agradecer.

— Tudo bem. Espero que tenha gostado do CD. – respondi.

— Gostei muito. – ele olhou para vários cantos da rua, tentando achar algum que o confortasse. – É... O que acha de sair comigo amanhã, depois que voltar trabalho?

Realmente queriam me matar.

— Com você? – eu estava abobado.

— É. Se você quiser, é claro. A gente pode comer alguma coisa. Você pode me levar para conhecer melhor a cidade.

Eu olhei para minha perna e sorri levemente.

— Só se for num raio de trinta quilômetros. – = respondi.

— Ah, é verdade! Eu tinha me esquecido. Por mim tudo bem.

— Combinado, então!

Eu não estava preparado para o que iria acontecer. Então, ele me deu um beijo na bochecha, secretamente colocou um papel em minha mão e entrou em sua casa.

Caramba! Eu não sabia o que fazer. Entrei em casa e nem quis saber de jantar. – Ei, filho... – minha mãe me chamou, mas eu não respondi. Fui direto para o meu quarto. Eu nunca mais ia lavar meu rosto. Brincadeira! Eu tentava arrumar uma posição ou algo para fazer, mas nada me tirava da cabeça aquele beijo que mesmo que tivesse durado apenas um segundo, já foi o suficiente para saber que eu estava muito apaixonado pelo Caio.

Como eu ia dormir depois dessa? Como eu ia descansar sabendo que no dia seguinte eu ia sair com o cara mais lindo e gente boa que eu já conheci? Mas calma. Eu precisava manter a calma. Abri rapidamente o papel que ele havia me dado. Era o seu número de celular. Eu queria ligar para ele, mas estava com muita vergonha. Eu queria ficar perto dele. Então salvei seu número na agenda do meu celular e dei um toque para ver se ele desconfiava que fosse eu.

Ele não me retornou. Mas eu podia entrar em pânico. Também não queria que ele pensasse que eu era um maníaco. Eu precisava relaxar.

Mais uma noite mal dormida. Mas dessa vez valeu a pena. Entrei no ônibus e o caminho até a loja de CDs era o mesmo da volta. Dava tempo de pensar em bastante coisa.

E mais uma memória me veio à cabeça.

Na sétima série, eu tinha uma amiga. Anna Young. Ela era, na verdade, minha melhor amiga. Era pra ela que eu contava todos os meus segredos. Foi ela que consolou quando a escola inteira tirou sarro de mim por ter ficado com o Kian. E foi ela que me impediu de me matar no segundo ano quando eu quase entrei em uma depressão terrível. Nós éramos inseparáveis. Ela sempre dormia na minha casa e eu na casa dela. E nós prometemos que jamais ficaríamos com a mesma pessoa, caso um se apaixonasse ou começasse a namorar. Mas, como a gente não manda no destino, no final no último ano, eu conheci um garoto numa festa e começamos a ficar.

Ele era encantador, mas ele não era muito apegado a sentimentos. Não era sempre que nos víamos. E ao mesmo tempo, Anna começou a ficar fria comigo. Era estranha a forma que estava ficando nossa amizade. Ela já não me contava mais as coisas. E sempre parecia esconder algo de mim. Até que um dia ela não aguentou e me bateu na porta da minha casa. Ela estava desesperada e chorava muito. Eu queria entender o motivo de todo aquele desespero. E ela me contou.

Ela me contou que o cara que ela estava apaixonada era o tal “encantador-sem-apego-sentimental” que eu estava ficando. E eu briguei muito com ela. Falei coisas horríveis. E desde então, nunca mais nos falamos.

Eu não guardo rancor de ninguém. Acho horrível quem guarda. E não queria que nossa amizade tivesse chegado nesse ponto. Às vezes nos esbarramos pelas ruas, mas ela não fala mais comigo. Eu tenho cumprimenta-la, mas é como se eu tivesse falando com um fantasma. Quem sabe um dia ela não volta a me enxergar?