The Precious Blood
15 TRABALHO
Notas iniciais
Três meses depois…
_Pode almoçar comigo hoje? – Leah lhe perguntava, mais uma vez naquela semana, pelo telefone.
_ Se você aceitar almoçar com um bagaço, sim… Mas não no Salty, quero e mereço comida caseira! – Sarah dizia, checando a ficha da sua última paciente.
_ Ah Sarah, mas a comida do Salty é muito boa. O melhor restaurante que abriram em Forks, sem dúvida!
_ Mas não pra comer todo dia. E eu quero almoçar depois de um banho. Vá lá Leah, agente não precisa comer do lado do Banco, você tem duas horas de almoço!
_ Tá, tá legal dona Sarah. – Leah disse rindo. Embry dizia emburrado pra loba que Sarah conseguia dobrá-la mais facilmente que ele. Ele morria de ciúme da nova amiga de Leah, mas era por birrinha entre casal. Como quase toda a reserva quileute, ele fazia parte do fã clube da Doutora Black. – Que horas acaba seu plantão doutora?
_ Daqui à uma hora, exatamente quando você sai para o almoço. – Leah escutou a moça bocejar no outro lado da linha.
_ Quantas horas você está de plantão senhora Black? – Leah começou a chiar com ares de rispidez no outro lado da linha. Ela sempre fazia aquilo: brigava com Sarah que ela trabalhava demais, se exaurindo em plantões exagerados no hospital. Essa ladainha entre uma amiga e outra sempre se repetia, mas nenhuma cedia.
_ É meu trabalho Lee, não vai reclamar de novo! – Sarah bufou para a índia.
_ Quantas horas? – Leah repetiu a pergunta.
_ Só 38h Leah.
_ Cacete! Só trinta e oito? Só? Meu Deus, assim você vai virar um zumbi em menos de dois dias!
_ Sigo o ritmo que segui a minha vida inteira Leah. Vai desistir de almoçar?
_ Não.
_ Então nem mais uma palavra dona turrona! – Sarah soltou rindo.
_ Rá, olha quem me chama de turrona, olha quem! – Leah também riu. _ Até daqui a pouco!
_ Quero um ECG dela… ah oi Leah, tava falando com a enfermeira... sim, sim até daqui a pouco! Beijo.
_ Beijo e tchau!
Sarah desligou o telefone e voltou a se enfurnar nas fichas e prontuários de pacientes do hospital de Forks. Há três meses ela havia começado a trabalhar, feito louca, naquele hospital. Não havia lá metade dos recursos que ela tinha disponíveis em Washington e a maior parte dos pacientes de neurologia eram encaminhados a Port Angeles ou Seattle.
Mas a moça logo começou a agir. Com seus contatos na capital, conseguiu uma boa quantidade de aparelhos médicos e verbas para reformas nas salas cirúrgicas e U.T.I’s. O problema era que ela não tinha uma boa equipe, teve que começar do zero, treinando os poucos profissionais que havia disponível para ela ali. Mas já haviam realizado algumas tantas cirurgias e Sarah estava satisfeita com o entrosamento e dedicação dos companheiros.
Foi uma verdadeira reviravolta no hospital, Sarah fazia um furor por onde passava e, além dos pacientes de Forks, que foram reencaminhados para ela, outros, de cidades vizinhas, eram mandados pra lá. Todos indicados para se consultar com a médica referencial. Mas Leah estava certa: não havia necessidade de a moça trabalhar tanto, empilhando um plantão atrás do outro.
Elas ficaram muito amigas, pois sempre que podia, Leah tentava arrancar Sarah do trabalho. Muitas e muitas vezes elas almoçaram juntas em um restaurante entre o hospital e o Banco, o Salty. Aliás, tudo em Forks era perto de tudo. Impressionante!
Porém o motivo do afinco exagerado de Sarah não era só o amor a profissão, mas sim uma fuga. Depois da tórrida noite que tiveram, tanto Sarah como Jacob fugiam de se ver, de se olhar. Sarah se escondia no trabalho e Jacob também, além da matilha. O Alpha fazia mais rondas que o necessário. Quando acontecia de se encontrarem na casa, tratavam-se como duas sombras se tratam. Só havia um porém: sombras não sentiam estremecimentos quando se esbarravam ou quando, acidentalmente, se encaravam.
Jacob e Sarah não apareciam juntos entre os quileutes, justificavam dizendo que era conseqüência do trabalho. Mas, ao contrário de Jacob, Sarah aparecia vez ou outra para visitar os novos amigos, quase sempre reunidos em alguma pequena casa de La Push. Os filhos de Rachel e Paul, ela já considerava como sobrinhos de coração. Ela achava que a relação com Jacob não era o suficiente para ela adotar os quileutes como família, como havia feito. Mas ela os adotou porque gostou deles, porque eles eram irresistíveis.
A moça passou a cobrir a ausência da presença vitalizante do jovem Jacob entre os quileutes, principalmente com Billy. Ainda que eles se vissem pouco, ela já era a nova filha de Billy Black e a irmã das gêmeas Raquel e Rebecca. Esta ultima, Sarah conheceu primeiro por telefone e, depois, pagou uma passagem para que ela e toda a família viessem do Havaí visitar o pai. Esta atitude fez Sarah ganhar a linda Rebecca de vez.
A irmã distante de Jacob era mãe de um lindo casal: Matt, de oito anos e Julia, de dez. Sarah a viu pouco durante a estada em La Push, por causa do hospital, mas achou ela, seu marido Jorge e seus filhos, tão envolventes quanto os outros quileutes.
Naquele dia, exaurida pelo trabalho, Sarah saiu do hospital e deu de cara com o lindo e jovem índio encostado no capô de seu carro. Ele sorriu pra ela assim que a viu, se levantando e indo em direção as arvores a leste do estacionamento do hospital.
_ Não precisa correr atrás de mim Caleb, vou estar com Leah.
_ Ah Sarah! Eu queria apostar corrida de novo! – Sarah riu. O jovem era Caleb, o mais novo lobo da matilha, tinha só quinze anos. Tinha se transformado há algumas semanas e, depois de um treinamento rigoroso com Jacob, foi designado a fazer a guarda da esposa do Alpha. Sarah, no início, ficou irritada com um lobo lhe seguindo a todo o momento, só porque estavam aparecendo mais vampiros recém criados pelas redondezas. Ela podia se defender, Jacob sabia daquilo! Mas quando ela foi falar com o marido, ele a olhou estranhamente e disse somente:
_ É preciso! – Pronto, mais nada. Ela ficou exasperada e, cada vez que saía de casa e via o jovem Caleb lhe seguindo, todo alegre por ser um lobo, ela pisava no acelerador e cortava a estrada com sua BMW. Só que Caleb começou a se divertir com aquilo, nem se preocupando que Sarah se espatifasse em uma curva com o carro, mas dizendo que era o máximo apostar corrida com ela. Sarah, depois do dia que ele falou aquilo, parou de implicar com Caleb e se divertia com estes rachas imprudentes pelas pistas de Forks.
_ Hum, ok então. Só até La Push. Leah já deve estar me esperando lá. – Ela disse, respondendo a um Caleb com expressão pedinte, ele imediatamente sorriu entusiasmado. Ela então foi para o carro enquanto Caleb corria se esconder em meio às arvores para se transformar.
Sarah saiu devagar do estacionamento e, da mesma forma, seguiu pelas ruas de Forks, úmidas pela chuva. Correr com risco de aquaplanagem? Extasiante! Assim que ela chegou à rodovia que levaria a La Push parou, esperando o lobo se colocar ocultamente à margem das arvores na beira de estrada. Ela começou a acelerar e o lobo, de pelagem prata-chumbo, a esfregar a pata dianteira na terra, levantando tufos. Sarah riu como sempre ria quando pisou fundo no acelerador, mas Caleb disparou na frente antes que o carro alcançasse velocidade. Ela demorou a alcançá-lo, mas chegaram juntinho na entrada da reserva.
_ Eu ganhei! — Ela gritou para as arvores onde Caleb se escondia, escutando o latido dele, possivelmente de protesto. Mas quando ela olha pra trás se xinga mentalmente: um carro policial lhe dava sinal para permanecer parada. No calor da corrida, nem ela e nem Caleb haviam prestado a atenção naquilo. O jeito era esperar.
_ Posso saber o porquê de tanta pressa moça? – O policial, já passado os cinqüenta anos, tinha os olhos castanhos, a testa calva e poucos cabelos castanhos com alguns fios embranquecidos. No bolso da farda havia um nome em uma plaqueta de metal: Chefe Charlie Swan.
_ Me desculpe senhor, eu realmente não devia ter corrido tanto. – Sarah não podia dizer que apostava corrida com um lobo e, tampouco, que ela tinha muito mais habilidade que qualquer humano para domar um carro em uma estrada perigosa.
_ Está consciente disso e não respeitou o limite de velocidade? Os documentos! – “Droga!”Sarah pensou, avistando Caleb de longe fazendo uma careta de culpa.
_ Aqui está. – Ela disse ao policial, passando os documentos. Mas, de repente, assim que leu o documento que lhe foi passado, o policial arregalou os olhos.
_ Sarah Black? – Ele perguntou, com voz engasgada.
_ Sim, algum problema?
_ Acaso você é a esposa de Jacob Black, a médica? – Por Deus, naquela cidade não havia privacidade!
_ Sim, sou. Algum problema?
_ Não, não é só que… faz muito tempo que eu não vejo aquele garoto. Quer dizer, acho que ele é que não quer me ver depois que… bom, nada. – Sarah enrugou a testa, absolutamente confusa. Não pelo fato do policial conhecer Jacob, aquela cidade era um ovo, mas pela expressão lamentosa e saudosa que surgiu na face do homem enquanto se atrapalhava nas palavras ao mencionar Jacob.
_ Garoto? – Ela perguntou, deixando só uma parte de sua confusão escapulir pelos seus lábios.
_ É, você tem razão, ele não é mais um garoto. Quantos anos ele deve ter agora, vinte oito, vinte nove? Nossa, mas eu ainda lembro dele como o garoto alegre e brincalhão que freqüentava minha casa junto com Billy. – Charlie falava distante. Sarah ficou ainda mais curiosa: brincalhão? Alegre?
_ Você o conhece então? – Ela disse, descendo do carro e também vendo naquilo um motivo pra se livrar de perder uns bons pontos na carteira. A multa ela pagaria, mas ficar sem carteira… “Que este homem goste de Jacob!”. Ela pensou, mas curiosidade também pulsava dentro dela.
_Sim, sim, desde criança. Ele e minha filha foram muito che…gados – O policial travou no meio da palavra, parecendo arrependido pelo que disse.
_ É mesmo? – Sarah perguntou levemente, sem demonstrar curiosidade, mas… chegados? Como assim chegados?
_ É quando crianças, eles brincavam quando criança. Minha filha não morava comigo. – Ele estava mentindo claramente. Era simplesmente muito fácil de identificar aquilo. Ela saberia daquilo mesmo se o coração dele não tivesse alterado o seu ritmo, só o olhar dele o entregava.
_ Ah, sim. Amigos de infância, compreendo…
_ Como ele está? E o Billy? Faz uns meses que não vejo aquele velho! – O policial emendou rapidamente, ainda segurando os documentos dela na mão.
_ Bem, bem. Estão todos muito bem! – Sarah disse. – Mas por que você não vem visitá-los? – Ao perguntar aquilo, Sarah observou Charlie corar e engolir em seco.
Ele se lembrou quando tentou falar com Jacob pela última vez, na casa de Billy, a pedido de Bella. Acabou que ele foi enxotado de La Push pelo garoto raivoso, que lhe disse pelas costas que não queria nunca mais ver a face de um maldito Swan. Foi doloroso para Charlie, mas isto resultou no afastamento dele com a família Black.
_ Alguns problemas aí! – Ele disse sorrindo amarelo e voltando a atenção aos documentos de Sarah. – Bem doutora, eu não vou poder te livrar de uma multa bem gorda, considere-se sortuda por eu não levá-la pra delegacia comigo. Mas eu acredito que, como médica, você deverá ser responsável e não correr mais assim, colocando não só a sua vida em risco, mas a de outras pessoas. Certo?
_ Certíssimo. Eu fui mesmo irresponsável, mas isto não vai se repetir senhor… Chefe Swan certo?
_ Sim, certo. – Ele lhe dizia enquanto preenchia a papelada da multa de 700$. Não era tão gorda!
_ Confio que isto não vai mais se repetir doutora…
Sarah avistou o carro de Leah que vinha pela estrada. Ela encarou Leah à distância, dentro do carro, e viu a testa da loba enrugada encarando o policial e ela própria parados na estrada. Ela não demorou a chegar com o carro perto dos dois e, imediatamente, estacionou. Caleb se aproximou de Sarah, ficando do lado dela e cumprimentando minimamente o homem fardado. Mas o jovem índio estava visivelmente nervoso, aí dele se Leah descobrisse que ao invés de fazer a guarda da Sra. Alpha (como ele chamava Sarah), ele ficava apostando corridas com ela. Ele estaria visivelmente frito.
_ O que está acontecendo aqui? – Leah perguntou seca ao sair de seu Ford Focus bordô. Se direcionava com uma cara nada boa para o policial, que ficou um tanto desconfortável.
_ Nada Leah, foi só uma pequena imprudência de minha parte, mas que já foi resolvida! – Sarah respondeu, achando estranha a reação de sua amiga com o tal Chefe Swan.
_ Imprudência? – Leah disse, espiando o papel com a multa que Charlie passava a Sarah – 700 dólares? Que imprudência custou 700 dólares dona Sarah? – Leah encarou Sarah com as mãos na cintura, enquanto esta fazia uma carinha de inocente.
_ Passei um pouco da velocidade só!
_ Um pouco? Moça, 200km/h não é um pouco! – Charlie disse, mas logo pulando com o grito de Leah.
_ O QUE? 200 km/h? Você quer morrer Sarah? Como você me dirige a esta velocidade em uma pista molhada!? – Leah bufou, olhando pra Caleb quieto ao lado da médica e estreitou os olhos pra ele – Como permitiu isto? – A loba sussurrou muito rápido e veloz para ele. Pronto, agora ele estava perdido!
_ Bom, eu já fiz o meu trabalho e vou indo. E cuidado doutora, prudência, dá próxima eu posso te prender! – Charlie disse em tom de aviso, logo depois se voltou para Leah receoso. – Mande lembranças minhas à sua mãe e ao Seth, Leah.
A índia ergueu uma sobrancelha e afirmou minimamente com a cabeça. Mas assim que a viatura voltou para seu caminho, em direção a Forks, ela voltou seu olhar reprovador para Caleb.
_ O que você entende por cuidar da segurança de Sarah, Caleb? – Leah, apesar de seus maus entendidos com Jacob, era a que tinha a maior “posição” na matilha. Ela era boa e os anos lhe deram paciência e controle para agir em uma caça. Assim, sua posição de “beta” adquirida na primeira formação da matilha de Jacob — quando eram só Leah, Jacob e Seth — permaneceu subentendida entre os demais lobos. Jacob nunca oficializou o posto, mas nunca agiu de forma discordante com este pensamento da matilha.
Mas para o recém-transmorfo Caleb, Leah era uma mulher tão assustadora quanto o seu Alpha, que dizer, um pouco menos. Bem menos, ninguém conseguia ganhar do pânico que os negros olhos de Jacob podiam causar. Mas, ainda assim, Caleb não achava prudente irritar uma loba como Leah. Além de tudo, ela era mulher e mulher quem entende? Assim ele pensava.
_ Eu cuidei dela sim Leah, eu sei que ela dirige bem. – Ele disse, evitando olhar diretamente para Leah.
_ Pelo amor de Deus Leah! Caleb só fica no meu radar por causa de vampiros e não pra ser minha babá! E assim você me ofende, ele tem quinze anos, quinze! Eu que deveria cuidar dele e não o contrário! Caleb, pode ir, deixa que com Leah eu me entendo! – Ela disse, piscando pra ele. Ele sorriu e deu um abraço de urso nela antes de ir.
_ Até a próxima doutora...
_ Até a próxima, lobo adolescente! – Sarah disse, se despedindo com carinho.
_ Deixa só o Black ver você pegando a mulher dele deste jeito… é melhor esconder seus pensamentos Cacá – Leah soltou mórbida, logo depois caindo na gargalhada com a cara de espanto de Caleb.
Depois de Sarah ralhar com Leah por ela ficar colocando pilha na cabeça do pobre Caleb, elas pegaram seus carros e foram para a casa dos penhascos, como acabou ficando conhecida a casa de Sarah e Jacob. A médica subiu ao seu quarto, deixando a amiga aos cuidados de dona Beth, que acabou sendo contratada por Jacob antes que Sarah pedisse. Só que a empregada se afeiçoou muito mais a patroa do que com o patrão. A senhora Elizabeth, com seus 50 anos, os cabelos que um dia foram negros já grisalhos, tinha força e energia maior que muitos jovens. Ela preparou de almoço para as duas amigas o prato que Sarah mais gostava: Capeleti.
_ Escolha um bom vinho madame Black. Só você pra me fazer beber algo descente! – Leah disse brincando, enquanto Sarah observava a adega montada em uma das paredes da cozinha. Só havia uma bebida que Sarah realmente gostava: vinho. Acabou fazendo Leah, que não bebia, acompanhá-la neste gosto requintado.
_ Pode deixar!
_ Você vai na festa hoje a noite com Jacob, não vai?
_ Festa? Que festa? – Sarah começou servir o vinho a Leah, que já tinha o capeleti posto em seu prato.
_ Como que festa Sarah!? A tradicionalíssima festa da fogueira. Faz meses que não fazemos uma, os velhos do conselho já estavam chiando. Seu sogro falava: “temos que apresentar as nossas lendas a Sarah devidamente!” – Leah disse, imitando o jeito do patriarca dos Black. – Mas Jacob não lhe avisou que seria hoje? Nós falamos com ele há dois dias, logo que ficou decidido.
_ Ah Leah, ele se esqueceu de me avisar. Mas hoje eu estou tão cansada, não sei se vai dar pra eu ir.
_ Ah mais você vai sim! Ora, você tem a tarde inteira pra dormir. Nem pense em fugir! Você vai gostar, eu já enjoei das lendas, mas você não. Então eu acho que você vai achar bacana. Ah vamos vai! – Leah começou a fazer uma carinha pedinte, se encolhendo, juntando as mãos e batendo os cílios rapidamente. Sarah riu. Aquela expressão não combinava nem um pouco com Leah, ficou absolutamente falso!
_ Tá eu vou! – Ela disse, e Leah levantou a taça fazendo Sarah brindar com ela.
_ Dona Sarah, vai precisar de mim ainda? – A voz meiga de dona Beth interrompeu os risos das amigas.
_ Não, não querida. Pode ir, hoje você já fez muito! Seu capeleti está delicioso, como sempre. Eu não disse Leah, que era melhor comer em casa?
_ Disse sim e com toda a razão. Nenhum chefe ganha da Dona Beth.
A senhora sorriu, corando diante dos elogios. _ Imagina! A dona Sarah também cozinha muitíssimo bem! Ela já me fez provar de seus pratos. Muito bons mesmo.
_ É verdade, você também cozinha bem Sarah. Aliás, tô com saudade da sua comida. Vou te levar pra cozinhar em casa um dia desses. O Embry já ta enjoado da minha macarronada, mas ele sempre come.
_ É… isso que é prova de amor, não é dona Beth? Comer sempre a macarronada da Leah… — A loba se virou imediatamente pra Sarah com um olhar assassino, enquanto Elizabeth ria timidamente. – Que foi Leah? Amiga precisa ser sincera ué! – Sarah riu e Leah balançou a cabeça.
_ Até semana que vem então dona Sarah, Leah.
_ Até. – Responderam as duas, enquanto a empregada saía.
Logo Leah arrancou o blazer que usava, ficando com uma blusa muito fina e levemente transparente. A diferença entre a Leah com roupa de bancária e com roupa de quando se vestia pra ficar na tribo era grande. Para o trabalho ela usava tailleurs, saltos e maquiagem, leve, mas usava. Mesmo nestas roupas ela conseguia ficar “sexy e lupina”, segundo as palavras do próprio Embry. Já para o dia-a-dia da reserva, usava roupas práticas pra facilitar sua transformação. Jeans eram seus prediletos.
Sarah observava a postura ereta de Leah e um olhar observador demais direcionado para ela enquanto comiam. A médica reconhecia aquela expressão da amiga: ela desconfiava de algo e queria saber a respeito. Não demoraria ela faria uma pergunta. E ela fez daí cinco minutos.
_ Eu não entendo como nós parecemos conversar com Jacob mais do que você Sarah! E olha que falar com ele não é muito usual. Vocês parecem distantes demais, dá pra desconfiar que o casamento de vocês não anda bem. Não que eu queira me meter, mas… eu só me preocupo com vocês, só isso! É estranho. Se não fosse pela preocupação constante que ele tem com você…
_ Preocupação constante? – Sarah estava muito desconfortável com aquela insinuação de Leah. Ela era observadora demais e isso era mal. Mas a menção que Leah fez sobre a preocupação de Jacob a moveu a perguntar. Como assim preocupado constantemente? E com ela?
_ Sim Sarah! – Leah bufou, como se aquela constatação fosse óbvia. – Ele fica quase que… agoniado, é, acho que posso dizer agoniado. Enfim, ele sempre frisa a importância de que você não pode ficar próxima de nenhum vampiro pro bando todo. Ele não explica muita coisa sabe? Mas quando agente pergunta por que você tem que ser protegida, ele fala que seu cheiro é mais raro e muito mais atrativo que o dos outros humanos. Eu sei que é verdade isto, porque o seu cheiro é realmente único, mas ele nunca demonstrou este cuidado com ninguém antes.
_ Ah! Sei. – Aquela preocupação ainda era estranha. Por que ele fazia aquilo? Alguma recomendação de Quendra, talvez? É, deveria ser isto.
_ Mas então? – A loba insistiu.
_ Então o que? – Leah estreitou os olhos. Sabia que Sarah estava consciente de que ela queria saber sobre o casamento com o Jacob, mas fugia da resposta.
– Sarah, se você não quiser falar não fale. Mas eu acho que tem coisa errada aí!
Sarah se desesperou: e agora? O que ela ia fazer? Tinha que ser convincente, Leah não ia engolir qualquer coisa. Ela estremeceu ao pensar que teria que falar com Jacob. Eles precisavam ter mais convívio com os quileutes, pra que perguntas demais não fossem feitas. Perguntas como a de Leah, que tamborilava os dedos na mesa, enquanto esperava a resposta da amiga, comendo o fim de sua refeição.
_ Bem, agente meio que andou distante por causa dos compromissos de trabalho. Não é fácil se casar com uma médica, que pode sair correndo a todo o momento em um chamado urgente. Além do mais, Jacob trabalha longe e… isso meio que pode parecer distância pra vocês. Mas não há risco de separação… – “Não quando uma ordem de Quendra exige a união de nós dois”. Sarah completou em pensamento. -… Leah. Fique tranqüila, é só por causa da nossa vida atarefada. Mas está tudo bem!
Ela tentou soar convincente, mas Leah só ergueu a sobrancelha e murmurou:
_ Sei!
“Droga!”, Sarah pensou, “por que ela tem que ser tão desconfiada?”
Leah não demorou a partir e Sarah se jogou no sofá da sala assim que ela saiu. Era só pra relaxar um pouco antes de ir pra sua cama. Mas ela estava tão cansada, que acabou por pegar no sono ali mesmo.
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O barulho do motor não estava bom, não estava mesmo. Tinha algo errado.
_ Você conferiu tudo? – Jacob perguntou ao mecânico parado ao lado do belo carro. O mais novo modelo que estavam testando.
_ Sim senhor! Eu revisei cada detalhe. – Jacob não gostava daquele mecânico, não sabia por que não o despediam. Ele já havia cometido vários erros, era preguiçoso e relapso. Mas o idiota de seu chefe, o diretor da fábrica, Rick Manson, não queria ter trabalho em procurar outro empregado. Mas Jacob tinha sua influência e já tinha avisado: mais um erro e o mecânico não trabalharia mais para ele. E aquele som do motor indicava um erro.
_ Se eu encontrar algo, você já sabe o que vai acontecer, não é? – Jacob falou sério, vendo o homem engolir em seco, sua pulsação acelerando.
Jacob olhou para sua camisa branca pensou bem no que fazer antes de ir “botar a mão na massa”. Acabou por decidir tirar a camisa. Entregou sua prancheta com os dados do carro para a sua assistente, tirou a camisa e também deu a ela, indo em direção ao carro. Mas antes, ouviu o suspiro da ruiva atrás de si. Porque ele tinha que trabalhar justo com ela? Aquilo ali tava virando um inferno!
_ Cuidado senhor Black, está quente! – Mery, a secretária ruiva, disse com sua característica voz melada. Ele rolou os olhos e não respondeu, abrindo o capô e vistoriando tudo enquanto o mecânico tremia ao seu lado.
_ Pode me dizer o que é isto, senhor Jordan? – Jacob perguntou com um sorriso irônico. Lá, no motor, no compressor volumétrico, havia uma pecinha solta. Uma pecinha que se saísse dali ia causar um estrago no funcionamento do carro tunado. O homem ficou pálido imediatamente.
_ Bem... eu... senhor Black, eu...
_ Está demitido! A menos que queiram preferir você a mim. Porque com você eu não trabalho mais, estes teus erros podem colocar a vida de um piloto de teste em risco! Suma daqui. – Jacob falou, enquanto pegava ferramentas e, ele mesmo, arrumava o motor do carro.
Assim que a equipe terminou os testes de potência, que correu bem depois do concerto da peça que demitiu o mecânico, Jacob voltou a sua sala. Era ela o lugar aonde planejava e estudava a montagem dos carros. Mery lhe devolveu a camisa relutantemente, direcionando um olhar nada discreto ao seu patrão. Olhar que Jacob nem se importou.
_ Me traga os desenhos do design do modelo B-52 senhorita Stron. – Jacob ordenou sem nem olhar pra assistente, se sentando na cadeira de sua mesa. Havia uma caixa com as peças que ele tinha pedido do Japão, ele abriu e começou a olhar cada uma delas.
_ Os desenhos já estão aqui senhor Black. – Ela se aproximou demais para entregar aquilo, quase enfiando o decote avantajado na cara de Jacob. Ele se irritou. Por que diabos aquela mulher pensava que podia seduzi-lo? Por que ele teve o azar de tê-la escolhido uma noite e transado com ela? Aquilo foi há meses e agora a ruiva insistente ficava se insinuando pra ele constantemente, mesmo com a aliança que brilhava em sua mão esquerda.
_ Deixa em cima da mesa e pode ir. Se eu precisar de você lhe chamo. – Ele falou impaciente.
_ Pode me chamar sim, pra qualquer coisa que você queira! – Ela sussurrou insinuante, pegando na mão de Jacob e fazendo charme.
_ Inclusive para demiti-la, se você não parar com isto! – O sorriso da ruiva vacilou.
_Você tem certeza que não quer repetir a dose, como daquela vez?
Jacob suspirou irritado e não respondeu, só a olhou furioso . Ela entendeu o recado e saiu da sala, esbarrando com Rick Manson na porta. Jacob bufou ao ver o idiota do patrão, hoje ele não teria paz mesmo.
_ Então você conseguiu demitir o mecânico? – Ele perguntou, alisando os cabelos lisos e, depois, coçando a barba bem aparada, como se fosse o homem mais sexy do mundo. Idiota!
_ Você pode tê-lo de volta. Mas eu saio.
_ Oh, não, não, imagina! Você tem nos dado belos lucros, principalmente com os chineses! Aliás, o nosso vernissage de carros, para o grupo de compradores chineses, vai ser este fim de semana. Você sabe não é? Será imprescindível que você venha e eu sugeriria até que trouxesse sua esposa, fará bem para a sua imagem se ela acompanhá-lo!
_ Não sei se ela poderá vir. Ela é médica, eu já disse!
_ Mas você nunca a trouxe nos eventos da empresa! Depois não reclame das investidas de empregadas daqui. Elas acham que sua esposa não vale muita coisa pra você e se sentem a vontade em se insinuar. E eu, sinceramente, não acharia isto ruim se fosse comigo, sabe? – Jacob continuou catalogando suas peças e não olhou para Rick. – Bom, o fato é que eu não posso demitir ou remanejar toda assistente que der em cima de você, porque todas elas fazem isto.
_ Nenhuma é tão insistente quanto a Stron. – Ele murmurou, fazendo Rick rir.
_ Ela é a melhor profissional que arrumamos, você sabe disso.
_ Sim, eu sei! – Jacob se levantou, pegando os papéis do design que haviam sido deixados em sua mesa.
_ Mas também, foi a única daqui que realmente conseguiu alguma coisa não é? – Jacob quase furou o prepotente e invejoso Rick com os olhos diante daquela insinuação. Era verdade, mas o patrão só lhe jogava aquilo na cara por inveja. Apesar de ele ser um homem com boa postura, Rick não recebia a metade da atenção das mulheres como Jacob recebia. Tinha inveja.
_ Isto não lhe diz respeito! – Jacob respondeu seco.
_ Não, não diz. Você tem razão. Mas como eu ia dizendo, seria bom para a sua imagem e para a da empresa, consequentemente, que você estivesse acompanhado de sua esposa este sábado. Os chineses prezam por este tipo de coisa.
_ Se ela puder, ela vem. Se não os chineses vão ter que aceitar o que eles tiverem de mim.
_ Certo então. Você é quem sabe. Eu já vou indo.
Logo que o homem saiu, Jacob se sentou em sua cadeira e enfiou as mãos nos cabelos. Ele não estava suportando mais aquele emprego. Pela ruiva insistente, pelo patrão invejoso e pela distância que ficava de La Push! Lá ele estava longe da matilha, longe de um chamado, longe de saber se algo desse errado. A matilha era muito bem treinada, Jacob sabia que eles haviam melhorado consideravelmente em todos aqueles anos de formação. Mas o aumento de vampiros pela região, logo depois daquela visão angustiante de Sarah… Ele não se sentia bem estando longe, não quando Quendra havia lhe garantido que a visão de Sarah era algo certo, que não se poderia fugir tão facilmente.
Aquilo não foi como os relances de futuro que ele se lembrava que a vampira Cullen tinha. Segundo Quendra, o que Sarah viu não era tão dependente de decisões, era como um carma, um destino que não se alterava. Mesmo que coisas mudassem, os caminhos rumariam para aquilo impreterivelmente. Ele havia deixado um Caleb bem treinado ao lado de Sarah, não que ele fosse vencer algum vampiro que pudesse sobrepor à destreza de sua esposa, mas serviria ao menos como um alarme. Leah estava sempre por perto e os outros lobos também. Mas ele não estava perto o tempo todo e isto o irritava. Pela promessa que ele fez a Quendra, ele não podia permitir que aquilo acontecesse, não podia permitir que Sarah fosse pega por um vampiro. Mas aquilo era só uma questão de assumir seus compromissos, cumprir sua palavra! Só!
Ele chegou a La Push por volta das sete da noite naquele dia. Ao contrário do que sempre fazia, não foi se transformar, foi direto pra casa. A festa dos quileutes seria naquela noite e sua presença foi praticamente exigida pelo conselho. Ele não ia a uma reunião como aquela a mais de dois anos.
“Esta é a tradição do seu povo Jacob. Povo do qual você carrega a maior de todas as magias. Você não pode renegar as nossas tradições, não pode ser relapso a ela. Você é o Alpha!”. Sue havia lhe deixando bem claro aquilo, exatamente há dois dias.
Ele entrou na garagem espaçosa e viu o carro de Sarah estacionado: ela não estava no hospital, será que iria a festa? Entrou dentro de casa silencioso, como sempre, e a encontrou dormindo no sofá. A mais de três dias eles não se esbarravam, isto porque ele não ousou nunca mais entrar no quarto dela e, quando ele chegava em casa, quando ela não estava no hospital, estava dormindo em seu quarto.
Ela estava deitada de bruços no sofá espaçoso, uma almofada agarrada no braço esquerdo, a franja caída nos olhos e as pernas desnudas, visto que vestia um shorts curto. Ele não se aproximou dela. Subiu, tomou banho, desceu de novo, comeu um pedaço de bolo na cozinha e ela continuou dormindo. Ele parou na porta, na divisão entre a sala de jantar e o cômodo que Sarah estava e a observou. Leah disse que era pra ele levar a esposa, mas ele não ia acordá-la. Ia esperar. Mas a moça abriu os olhos segundos depois, encontrando exatamente os de Jacob.
Ela se levantou abruptamente, desorientada. Estava na sala? A cabeça dela ainda estava tonta.
_ Que horas são? – A voz dela estava embargada pelo sono. Ela coçava os olhos e bocejava, pondo a mão na boca.
_ Quase oito da noite. – Jacob respondeu sem se mover de onde estava. – Você vai à festa?
_ Festa? – Ela o encarou confusa, mas logo se lembrou – Ah! A festa, claro. Eu tenho que ir não é mesmo? Quer dizer, nós temos que ir!
_ Você não tem que ir, eu é que tenho obrigações de estar lá. – Jacob falou inalterável, enquanto via Sarah se espreguiçar e sacudir a cabeça como se quisesse espantar o cansaço, que era visível nela.
_ Não Jacob, nós temos que ir. Temos que fazer o nosso teatrinho. _ Sarah se levantou e foi caminhando para seu quarto. Ela ainda tinha sono e precisava se banhar para espantar aquilo.
_ Teatro? – Jacob foi se sentar no mesmo sofá onde Sarah estava.
_ Sim, sim Jacob. – Ela parou no meio do caminho e se virou para o índio, suspirou. – Leah me fez umas insinuações esta tarde. Pelo que eu conheço dela, ela está com uma pulga atrás da orelha sobre o nosso “casamento”. Ela disse que todos acham estranho a nossa distancia. Agente tem que fazer uma ceninha ou outra antes que eles interfiram demais.
_ Que tipo de cena você quer dizer? – Ele perguntou com olhos rígidos, mas com a pulsação a se acelerar levemente. Sarah engoliu em seco.
_ Nada demais. Agente... sei lá, improvisa? – Um frio passou pela barriga dela. Improviso com Jacob? Ela não gostava de não ter controle das coisas quando se tratava dele. Não gostava mesmo. Jacob sorriu amargo.
_ Então vamos improvisar esta noite. – Ele a olhou perspicaz. Os olhares se prenderam e o conhecido estremecimento passou pelos dois.
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