Notas iniciais
Dedico este capítulo a vava, devido ao seu comentário no capítulo 13.
O poema-epígrafe no início é uma espécie de definição minha do imprinting (tema do capítulo), inspirada no poeta francês Éluard.

“E quando os espíritos consagrados em um só se encontram

Lança-se sobre os corpos mortais a sensação de encantamento.

É como perfume nascido de uma ninhada de auroras.

A beleza, visível ou não, é marcada em brilho e em cores,

A alma se desnuda e é feito o amor.

E como cada dia dependerá de uma pureza cálida,

Todo o mundo dependerá daquele olhar.

Todo o sangue do corpo terreno correrá nos olhos um do outro,

Do primeiro instante, ao ultimo segundo.”

Sarah não demorou pra descer do banho, mas, apesar da rapidez, ela não deixou a desejar. Estava com uma trança solta que pendia em seu ombro esquerdo, uma calça jeans escura e extremamente colada ao corpo. Sua blusa branca de manga longa era caída nos ombros, descia até um pouco abaixo do cós da calça, onde um belo cinto marrom estava circundando o corpo. Da mesma cor do cinto eram as botas de montaria.

_ Onde vai ser? – Ela perguntou a Jacob, que se encaminhava para a porta, sem se preocupar em esperá-la. Mas ela logo estava do lado dele.

_ Não é muito longe daqui. Dá pra irmos a pé.

_ Correndo? – Sarah pensou, abrindo um sorriso. Há tanto tempo ela não corria livremente pela mata, sentindo o vento chicotear seus cabelos em sua velocidade máxima. Não pensou que sentisse tanta falta daquilo. Mas Jacob lhe tirou a empolgação logo.

_ É claro que não vamos correndo. Você é humana esqueceu? Tem lobo por perto e eles não podem desconfiar de sua anormalidade.

_ Anormalidade que você possui em maior quantidade que eu, não é? – Jacob suspirou e saiu para a fora com as mãos nos bolsos. Sarah ficou pra trás, fechando a casa, e depois foi andando propositalmente lenta, contando os passos.

_ Anda logo!

_ Mulheres humanas andam desta forma! – Sarah disse, se colocando ao lado dele.

_ Não precisa ser tão lenta também! – Ela riu.

_ Gosto de extremos, Black. – Sarah falou, olhando desafiadora para Jacob.

_ Eu sei que gosta. E eu também gosto. – Jacob sussurrou de volta pra ela, se inclinando imperceptivelmente em sua direção, atraído pelo seu olhar. Mas antes que qualquer coisa acontecesse, ele fechou os olhos e disse: _ Vamos!

Assim que eles saíram dos muros da casa, Jacob puxou a esposa pra perto, enlaçando o braço na cintura dela, fazendo-os andar lado a lado. Sarah sabia que ele fez aquilo porque já havia testemunhas para a encenação: os lobos que estavam em ronda. Mas o contato dos corpos provocou a natural descarga elétrica, que ambos fingiram não perceber. Porém não era ruim ficarem daquela maneira, juntos, perto, sentindo o calor de suas peles se trocando com a proximidade. Nem mesmo eles, que tentavam desesperadamente fugir de qualquer aproximação do gênero, cada um envolto em sua própria resistência, nem mesmo eles não podiam negar que era boa aquela proximidade, aqueles choquinhos leves que ligava-os tão gostosamente.

Jacob tinha a certeza de que o cheiro daquela mulher era o melhor do mundo e não importava quem ela fosse, o que ela poderia causar em si, não importava se ela era o seu inferno, seu carma: ele gostava, adorava sentir o cheiro dela, mesmo que de leve, mesmo que a distancia. Ele não pensava no que aquilo consistia exatamente, não fazia reflexões profundas sobre o que isto significava para os seus sentimentos, pois era melhor assim, evitaria muitos problemas, ele tinha certeza. Mas era tão bom... e ela estava tão perto...

Jacob abaixou a cabeça e inspirou profundamente os cabelos de Sarah. Quase quis sorrir quando sentiu a reação dela, o corpo que estremeceu, o coração que falhou uma batida, o suspiro rápido e quase imperceptível que ela deu… Não, isso não era bom, não era! Ele levantou a cabeça e continuou a seguir em frente, mas não se importava mais com o ritmo extremamente lento que Sarah impunha a caminhada.

Não demorou muito para Sarah avistar o brilho de uma fogueira ao longe, cerca de um quilômetro de distancia de onde estavam. Chegaram logo e, conforme se aproximavam, Sarah se surpreendeu pela quantidade de gente que estava reunida ali. Mesmo com todos os meses em que vivia na reserva, ela nunca tinha visto tanto quileute junto. O resultado disso? O ambiente estava pulsante e enérgico. Viam-se sorrisos em praticamente todos os rostos, ouviam-se conversas amenas e outras empolgadas e havia beleza, muita beleza na alegria daquele povo.

Eram belos até mesmo os rostos enrugados dos mais velhos, o vigor das mulheres mais gordas, a sutileza das magricelas e até mesmo as marcas no rosto de Emily. Porque o que fazia tudo suntuoso não eram os belos traços de um rosto ou as perfeitas proporções de um corpo. Era belo o significado daquilo tudo: irmandade, união, família. Uma família bem mais barulhenta e, até mesmo mais briguenta que a de um comercial de margarina. Mas, por isto mesmo, era mais real a felicidade deles.

Isto fez a face de Sarah se iluminar imediatamente, um sorriso estonteante prostrou-se em seus lábios, parecia um imã: todos os que a conheciam vieram cumprimentá-la efusivamente, a presença do carrancudo Alpha ao lado da moça não intimidava como de costume.

_ E aí doutora, saiu do isolamento? Pensei que não se importava mais com os bons e saudáveis … — Seth parou no meio da frase, olhando para os lados exageradamente desconfiado. Depois se inclinou no ouvido de Sarah fazendo uma cobertura com ambas as mãos e sussurrou: — … lobos!

Sarah riu e se desvencilhou suavemente dos braços de Jacob para abraçar Seth.

_ É claro que eu me importo com vocês. Mas, neste caso, não sou eu quem devo cuidar da saúde de vocês, mas vocês da minha, certo? – Sarah deu uma piscadela.

_ Certíssima grande senhora! – Caleb respondeu, se aproximando dela enquanto fazia uma leve reverência.

_ E aí cãozinho de guarda, como estas?

_ Cãozinho? – Paul apareceu rindo. – Xiii, Caleb que espécie de reputação você está fazendo da nossa matilha? – Ele sussurrava o segredo para que os demais humanos não ouvissem. Caleb emburrou, fazendo um bico e cruzando os braços.

_ Ah, qual é Sarah? Olha só o que você fez com este apelido idiota? Estes caras quando resolvem encher a paciência são ainda mais insuportáveis!

_ Mais respeito com os veteranos pirralho! – Embry se aproximou com Leah, rindo tanto quanto Sarah do bico de Caleb.

_ Ohhh, não fique emburrado criança! Me desculpe, não falo mais! – Sarah caiu na brincadeira, fazendo os que estavam no cerco sobre ela soltarem exclamações e brincadeiras para o lobo caçula.

_ Xiiiiii.... Garotiiinho?

_ Ai, bebezinho não emburra não vai.

_ É, não chola criança... Quer a mamãe?

_ Eu criança? Qual é! Ahhh Sarah você me paga! Você vai ver só a força de um garotinho! – Caleb disse com uma cara que fingia braveza, enquanto se encaminhava para Sarah com o máximo de velocidade permitida naquele ambiente. Pegou-a num aperto e a tirou do chão.

_ Chega Caleb! – Jacob bufou irritado, a voz grave fez o pobre Caleb congelar com a risonha Sarah nos braços. Ele esqueceu que não podia brincar com Sarah como estava acostumado, não na frente de Jacob.

“Merda! Esqueci do chefe!”. Ele pensou, mas era tarde demais para se arrepender, pois Jacob já estava na frente dele, pegando na cintura de Sarah. Caleb imediatamente a soltou, abaixando os olhos com o coração palpitando.

_ Com ciúme Jacob? – A voz arrastada de Leah se direcionou a Jacob, o cerco de pessoas ao redor do casal ficando mais silencioso.

Jacob encarou os olhos perspicazes e avaliativos de Leah, a mesma coisa fez Sarah, só que esta tentou ir em direção a amiga. Mas não pode, Jacob enlaçou o braço na cintura dela e a manteve junto dele.

_ Ciúme? — Jacob perguntou a Leah, erguendo uma sobrancelha.

_ Sim, ciúme Jacob. Acaso está com ciúme de Sarah com…

_ Não Leah, ele está é com inveja da minha popularidade. – Sarah tentou desviar do assunto, não gostava daquilo. Mas ela escutou o riso de Jacob soprando hálito quente em sua nuca, quente e cheiroso. Ele firmou as mãos na cintura dela e ela sentiu seus pelos malucos se eriçarem.

_ Eu não tenho ciúmes Leah. Mas é bom lembrar que Sarah é minha… — Jacob roçou o rosto no de Sarah e terminou a frase ali, com a boca pertinho da dela –… esposa. É bom que não se esqueçam disto!

Sarah engoliu em seco e Jacob teve vontade de fazer mais, porém se conteve, voltando a ficar ereto e a encarar Leah, que sorria.

_Hummmmmmm.... – Alguns murmuraram com o comentário de Jacob.

_ Acho que ninguém vai esquecer disto, Jacob. – Leah respondeu.

_ Ei, homens, por favor! Precisamos que carreguem os bancos e mesas, tem mais gente aqui que o comum. Vamos! – Era Raquel que chamava ao longe, se direcionando principalmente aqueles que ela sabia ser lobos, pois eles fariam o serviço mais rápido e sem cansaço.

Jacob fez um sinal para que os homens dali fossem atender ao pedido de sua irmã, mas antes de sair, Embry puxou Leah para um beijo rápido, coisa natural entre um casal. Jacob foi pra se afastar de Sarah, sem nada fazer, mas a cena entre Leah e Embry lhe havia trazido lembranças… Ele virou o corpo de Sarah, que estava falando qualquer coisa com Leah, e a fez encará-lo. Não foi lento como costumava ser naqueles momentos, antes que Sarah ou ele mesmo pudessem pensar muito, Jacob capturou os lábios da morena com os seus. Não foi um beijo longo, poder-se-ia chamar de selinho, por não ter havido língua ou demora, mas imediatamente o martelar insistente do coração dos dois parecia um alarme de paixão para os ouvidos aguçados de Leah. Jacob se afastou, descolando os lábios dos de Sarah, mas ela pareceu levar a cabeça pra frente enquanto ele se afastava…

Outro sorriso rápido e insondável… Foi o que Leah percebeu em Jacob assim que ele tornou a beijar rapidamente sua esposa antes de se afastar na direção dos demais. Sarah ficou lá, parada e confusa por um momento. Se sentia surda com o pulsar grave que obstruía seus ouvidos, parecia que uma corrente gelada lhe subia pelos pés ao mesmo tempo em que outra fervente lhe descia pela cabeça, quando as duas se encontraram no centro de seu corpo, Sarah sentiu seu peito sacudir. Ela olhou pra Leah a tempo de ver os lábios sorridentes dela se moverem com um som indefinido saindo deles. A índia parecia falar com ela.

_ Hã? – Ela perguntou como se fosse uma retardada.

_ Nada não. O que eu disse não pode ser mais importante do que aquilo que te distraiu, não vou ousar competir! Vem, vamos junto com Rachel, ela quer ajuda com o bando de comida que preparou.

Sarah piscou umas três vezes e sacudiu a cabeça antes de ir atrás de Leah, procurando se livrar do topor que lhe dominou por um instante. Coisa mais idiota! Ela estava ficando idiota, idiota e mole!

Rachel e Emily estavam insuportavelmente agitadas enquanto tentavam fazer o que só um Buffet daria conta. Sarah teve vontade de colá-las em uma cadeira e fazer tudo sozinha, já que tinha mais velocidade que elas. Mas ao invés disso, somente as ajudou a por tudo no lugar. Havia muita comida e muita gente, estava tudo muito agitado.

_ Nossa, é sempre assim isto aqui? – Ela perguntou a Kim.

_ Não, não. As reuniões costumam ser mais intimas, com restrição de pessoas e tudo mais. Mas como hoje é um dia especial então toda a tribo está presente.

_ Dia especial?

_ Ué, você não está sabendo? Hoje é aniversário da reserva, estimasse 850 anos, mas Billy diz que tem mais tempo que os quileutes vivem aqui. Mas esta é a data que estabelecemos por convenção e a idade também. O Jacob não lhe falou isto?

_ Claro, ele falou, mas eu esqueci. – Sarah tentou disfarçar de novo. Ela deveria saber daquilo como uma esposa presente na vida do marido? Ela não tinha idéia, mas era melhor disfarçar.

_ Finalmente! Vamos lá que a seção histórias de terror vai começar! – Leah disse, entrando no meio do grande círculo abarrotado de pessoas ao redor da fogueira.

Sarah procurou um lugar pra ficar, Jacob havia sumido depois que foi atender o pedido de Rachel, pelo visto ela teria que ficar em pé. Mas, depois de menos de um minuto, ela viu Jacob se sentando no lado oposto do círculo barulhento, em um lugar que parecia privilegiado: ao lado dos membros do conselho. Ele olhou pra ela a distancia e fez um sinal pra que ela fosse até ele, mas simplesmente não havia onde ela se meter ali perto dele. Ele chamou de novo, enquanto se levantava e saía da roda por um instante.

_ Vai lá Sarah, ao lado do conselho é a posição da mulher do Alpha! – Leah lhe sussurrou ao ouvido.

Só então a moça decidiu ir pra lá, atravessando o meio de círculo. Muitos olhares se desviaram pra ela. Ela se aproximou e cumprimentou Billy.

_ Minha querida! Quanto tempo você não vai me visitar hein? Leah anda me dizendo que você está trabalhando demais. – Billy disse, com ar de reprovação. Leah tinha conseguido convencer mais um.

_ Leah é exagerada Billy!

_ Não é não Sarah. Eu conheço minha filha e se ela insiste tanto é porque ela está dizendo a verdade! – Sue lhe disse, beijando uma das faces da médica como cumprimento. Sarah só balançou a cabeça. Ela ia pegar aquela loba!

_ Venha se sentar. – Por que ele tinha que fazer aquilo? A voz de Jacob veio inesperada em seus ouvidos, perto demais. Era uma voz firme e rouca e, como sempre, parecia mais ordenar do que pedir. Sarah pensou sinceramente em não ir e desobedecê-lo.

_ Sim querida, vá se sentar que nós já vamos começar! – Mas contra o pedido de Billy ela não poderia ir. Resignada, ela aceitou a mão de Jacob e foi para o lugar reservado para eles, estranhamente tratados como algum tipo de autoridade na comunidade. Sarah achou estranho, mesmo sabendo que Jacob era realmente uma figura importante para eles. Mas o fato é que muitos ali não sabiam que suas lendas eram reais e que Jacob Black era o lobo Alpha, porém o tratamento parecia vir de todos da tribo.

Jacob se sentou na cadeira que estava antes, e colocou um banco mais baixo entre as suas pernas, não havia espaços ao lado, Sarah teria que se sentar ali. Jacob sorriu sarcástico ao perceber o descontentamento que ela tentava disfarçar. Ela não suportou aquilo e se comportou igual a uma criança birrenta: mostrou a língua pra ele antes de se sentar. Ele riu e o som do riso fez o pescoço de Rachel e de Billy se voltarem imediatamente para Jacob, com o ouvido tão mais sensível por se tratar do irmão e do filho.

Billy sorriu enquanto observava Sarah se ajeitar por entre as pernas de Jacob, sentando-se no único banquinho disponível. Ela fazia um biquinho, provavelmente achando ruim tendo que ficar naquele lugar, e Jacob ainda tinha um sorrisinho mínimo no rosto. Billy conhecia o filho e por isto estava ainda mais alegre ao ver aquela cena.

O velho Black começou a cumprimentar os presentes, pedindo silencio, enquanto Sarah encostava suas costas no peito de Jacob pra ter mais conforto, mas não teve exatamente este efeito. Ela e ele ficaram mais agitados internamente.

Billy começou a falar sobre o aniversário da reserva, mas Jacob não queria prestar muita atenção, ele passou a observar a curva do pescoço de Sarah, que estava exposta em seu lado direito e muito perto dele. Sarah estava tensa, dava pra perceber pelos seus músculos rígidos, era impossível ficar imune a presença de Jacob, ainda mais perto daquele jeito. Mas ela quase teve um ataque cardíaco quando sentiu o nariz de Jacob roçando na curva de seu pescoço. Ele sentia o cheiro dela ali, naquele lugar tão mais sensível e tão mais intimo. Ele já causava arrepios de longe, precisava fazer aquilo e confundir a cabeça de Sarah ainda mais? Se ele estivesse encenando, Sarah teria que admitir que ele estava sendo um ótimo ator, porque ela quase estava se convencendo de que aquele carinho não era planejado e sim involuntário.

Ela encolheu o ombro, tentando fugir, e quase rindo pela cosquinha gostosa que Jacob estava provocando, mas os braços dele eram mais fortes que ela, e eles estavam a apertando firmemente. Ele continuou fazendo aquilo, parecendo se divertir enquanto Sarah fingia prestar a atenção em Billy, mas se encolhendo com o roçar insistente do nariz e lábios de Jacob ali no seu ombro.

_ … os espíritos guerreiros. Era assim que eles eram chamados…

Sarah desistiu de prestar a atenção na lenda e a tentar fugir discretamente de Jacob. Ela pendeu a cabeça pra trás, relaxou nos braços dele e fechou os olhos, pensando que ele pararia se o intuito fosse irritá-la. Mas ele não parou, ao invés disso começou a dar leves beijinhos ali, vez ou outra olhando para os membros do conselho, fingindo ouvir, ele já não se controlava. Há muito tempo ele não queria realmente beijar uma pele e a dela era especialmente saborosa, ainda que degustada parcimoniosamente.

E era tão bom, Sarah se lembrou involuntariamente de como Jacob beijava, beijo que ela só havia tido há três meses atrás. A boca dela começou a ficar seca, era realmente bom, tanto que dava pra sentir falta, muita falta. Era por isto que ela não queria pensar, era por isto que ela se enfurnava no trabalho: para não pensar no que não devia. Ali, naquele lugar quente, com Jacob tão terno fazendo-lhe um carinho mínimo e tão gostoso, ela não poderia pensar o contrário, ela tinha que confessar a si mesma que era bom. Mas estaria ele fingindo?

Ela abriu os olhos e virou o pescoço, encarando fundo os olhos de Jacob e tentando suportar o pulsar que aquele olhar lhe provocou, sem estremecer mais uma vez. Poucas vezes ela havia visto nele aquele olhar, parecia que ele pensava o mesmo que ela. Parecia que ele pensava na possibilidade de tê-la de novo, de se deixar levar por algo que eles desconheciam, algo de que ambos fugiam.

Mas não foi só o beijo bom que atormentou Sarah naquela noite secreta entre os dois, ela também havia sofrido com o trauma que a mantia acorrentada, naquela noite ela descobriu que era imperdoavelmente fraca diante daquela lembrança de sua adolescência. Sarah pensou ser mais forte que aquilo, mas esconder algo não é vencer algo. Seguir em frente fingindo esquecer pareceu só dar forças e alimentar o seu monstro. Mesmo que em uma realidade absurda ela se deixasse levar com Jacob, ela não poderia se dar a ele por inteira.

Jacob, ainda com o olhar fixo nos de Sarah, notou a tristeza e melancolia que foi tomando os olhos dela aos poucos. Ela olhava pra ele triste e logo ela também percebeu que o semblante dele também se obscurecia. Ela fechou os olhos e suspirou cansada, tentando acalmar sua revolta de si mesma por ser tão miseravelmente fraca. Seus ombros ficaram ainda mais tensos, mas não demorou muito ela sentiu as mãos de Jacob massageando lá, revezando com um beijo ou um cheiro no pescoço. Por que ele agia daquela forma? Ele era tão cruel a ponto de querer torturá-la? Os batimentos dela começaram a ficar mais acelerados e angustiados e, pra Jacob, aquele era o único som do lugar.

_…e quando Taha Aki viu que Utlapa havia roubado seu corpo… — A voz de Billy parecia um espectro ilusório.

Jacob começou a subir com o caminho de selinhos, da ponta do ombro, foi subindo pelo pescoço e chegou ao queixo dela. Nesta hora, tanto ela quanto ele já antecipavam o que iria acontecer, já estavam inconscientes diante de tudo, só havia a ansiedade por sentir o gosto. Sarah virou o corpo um pouco pra trás, com as mãos de Jacob a auxiliá-la e jogou a cabeça no ombro dele. Ela continuou com os olhos fechados e entreabriu os lábios, era sua forma discreta de dizer “vem”. Jacob, então, a beijou sem demora.

Não ficou enrolando, quis logo a língua dela e, embora o beijo fosse lento e carinhoso, ele tinha vontade de rosnar ou sair uivando. Eles continuaram se beijando, as bocas indiscutivelmente grudadas, nem ar passava entre elas… e céus como era bom, como era perfeito, como era inebriante. Jacob começou a alisar suavemente as costas de Sarah, como se sentisse que ela quisesse carinho. Ela tinha ficado melhor, o gosto parecia melhor, o modo como ela movia a língua junto à dele parecia melhor, era impossível aquilo!

_ Ahrãm!!!

O espectro de voz continuava vindo de algum lugar. Pareciam também haver alguns risos leves vindos deste lugar distante…

_ Ei? Agente não precisa de demonstração ao vivo do amor da terceira esposa tá?

_ Jacob! – Billy falou mais alto e só então Jacob e Sarah pareceram descer pra Terra novamente. Jacob separou com relutância os lábios de Sarah dos seus e abriu os olhos, quase tendo estes ofuscados com o brilho da fogueira.

Ele voltou a fechar os olhos e caçou os lábios de Sarah de novo, que estava com as bochechas rosadas e os olhos baixos. Ele ergueu a cabeça dela em direção a ele e deu um beijo curto, mas carinhoso antes de se endireitar e encarar o pai, que estava com uma expressão quase indecifrável: era um misto de alegria, de espanto, de braveza.

_ Agora não Jacob, vocês distraíram todo mundo! – Billy disse.

Jacob franziu o cenho, bravo por aquele bando de intrometidos, como se estivesse na razão em não querer que as pessoas olhassem um beijo um tanto quanto publico demais. Sarah abaixou a cabeça, envergonhada por estrear daquela forma em uma tradicional festa quileute, ela podia ouvir o suspiro de algumas mocinhas dizendo: “que casal bonito!”. Ela achou que havia passado dos limites, perdendo mais uma vez a razão com Jacob, o insondável e inconstante Jacob.

Billy respirou fundo e procurou chamar a atenção de todos novamente, que ficaram entretidos com o nobre herdeiro Black aos carinhos com sua esposa ao lado do conselho quileute. Era uma situação inédita para uma reunião daquelas.

_ Bem… de onde eu parei? – Billy perguntou confuso para Sue.

_ O amor da terceira esposa, Billy. Você falava sobre o amor espiritual que fez a terceira esposa se sacrificar. – Sue lhe sussurrou, tentando ajudar.

_ Ah sim, claro, claro. – Billy fechou os olhos por um momento e quando os abriu, eles já estavam graves e compenetrados. O velho Black parecia extremamente ligado aos seus ancestrais, parecia estar em um outro lugar e apenas transmitir aos demais o que havia lá.

– O amor espiritual, um amor tão sublime e tão inexplicável como nenhum outro. O amor entre Taha Aki e sua terceira esposa pode não ter sido o primeiro amor espiritual entre os quileutes, mas foi o primeiro a que nossas histórias se remetem. Diante de algo tão sublime como este sentimento, muitos de nós, rudes homens, limitados pelo saber desta vida terrena, não podemos compreender a forma como ele se dá. Alguns até ousam dizer que ele é banal.

Billy parou de falar e o peso de suas palavras pairou no ar e todas as pessoas abarrotadas ao redor da fogueira ficaram silenciosas. Ao dizer aquilo, Billy encarou demoradamente o próprio filho e, uma vez mais, o pai se deparou com uma barreira, um rancor que fez Jacob quebrar o contato visual e fechar os olhos, trincando o maxilar. Sarah percebeu imediatamente a mudança de Jacob, ao longe ela viu o desconforto de Leah e Embry e de alguns lobos mais. Sarah sabia com aquilo do que o sogro iria falar: o imprinting! Ela se inclinou em direção a Billy e passou a prender sua atenção lá, com o coração ainda martelando no mesmo ritmo que o de Jacob. Billy continuou.

_ Aquilo que faz os homens sobreviverem a raças muito mais fortes que eles; aquilo que une diferentes pessoas em uma só comunidade; aquilo que nos faz esquecer de nós mesmos, zelando por outro; aquilo que faz a dor do outro ser mais forte em nós do que a nossa própria dor… Aquilo que não se restringe apenas à breve e curta dimensão desta vida, vida que tem hora marcada pelos céus para começar e para terminar. Isto é o amor, que mesmo em humanos miseráveis pode ser sublime. Amor de mãe pelo filho, amor de pai pelo filho, amor de irmão para irmão, amor de invejoso pelo seu cobiçado, amor de mulher pelo seu ventre frutífero, amor de mulher para homem e de homem para mulher, amor de criança para criança, amor de líder para seus liderados, amor de um súdito pelo seu rei, amor de homem para Deus e amor de Deus para o indigno homem. Poderemos nós compreender ou mensurar tudo isto? – Billy balançou a cabeça, sorrindo. – Não, nós não podemos. Então como explicar o tipo de amor que surgia entre o homem lobo e sua alma espiritual?… Quase impossível.

Sarah observou Leah com os olhos baixos e Embry com o rosto enterrado nas costas dela, abraçando-a por trás. Caçando com os olhos, Sarah encontrou Claire sentada no colo de um índio mais velho que alisava carinhosamente seus cabelos. Não era Quil, mas sim o pai de Claire. Quil estava sentado ao lado da mãe de seu imprinting, mas seus olhos, volte e meia, iam em direção a menina no colo do pai. E ele a olhava com a atenção e extremado carinho de quem observava o desabrochar das mais rara e bela das flores.

Sarah fechou suas pálpebras e lhe veio a mente um outro tipo de olhar, um olhar que era seu tormento e inferno, o olhar de um homem para uma menina da idade de Claire, um olhar de quem esperava uma comida apetitosa ficar no ponto, um olhar de um homem ansioso por devorar. Ela era a menina e o devorador imundo era seu demônio secreto!

Sarah voltou os olhos para Billy ainda com um semblante de puro asco na face, esperando por uma explicação que pra ela era tão difícil de entender.

_ Nós, quileutes, fomos privilegiados com a magia em nosso sangue e, a mesma magia que faz alguns de nós lobos, ajuda-nos a reconhecer o nosso amor espiritual, a reconhecer a alma que está mais fortemente ligada a nossa. Nossos espíritos tinham a habilidade de se expandir para além da prisão do nosso corpo e, por isto, nosso amor poderia não ser somente o corpo, mas o espírito. Muitos dizem amar nesta Terra, mas eles amam com o corpo, os corpos muitas vezes se ligam, mas as almas permanecem separadas. Este é um amor que terá fim, que fenecerá e se tornará pó assim como o corpo. Os lobos, protetores de nosso povo, aqueles poucos escolhidos entre nós, eles possuíam a dádiva de reconhecer uma alma ligada à deles. Não era só um amor de vida, era um amor de espírito… de espírito.

Billy abaixou a cabeça e, em uma perfeita sincronia, com uma voz tão suntuosa quanto a de Billy, Sue continuou o discurso.

_ E quais são as necessidades que duas almas têm de uma para outra? Nenhuma daquelas que pensamos ser vital, pois por mais ampla que seja nossa visão, só se pode compreender este sentimento quem verdadeiramente o sente. Mas o que podemos dizer é que estas almas, quando encontradas, se completam, fazem as órbitas do Universo mais harmoniosas entre si, se ligam de forma pura, intensa e sagrada. Esta relação foi uma concessão sagrada do Grande Rei do Universo aos lobos. Como homens de espíritos expandidos por sua magia, eles alcançam este sentimento altivo desta forma tão única. E, quando olham nos olhos cujo seu espírito de amor eterno habita, eles simplesmente a reconhecem e passam a sentir o poder deste amor, seja sob qual circunstancia for.

_ Mesmo sendo ela uma circunstância errada? – Sarah deixou seu pensamento escapar alto demais, pois até os humanos puderam ouvir. O silêncio que já havia no lugar pareceu ficar mais denso.

Nunca, em nenhuma das reuniões, nem mesmo um dos lobos, nem mesmo Jacob ou Leah, nunca se havia questionado algo enquanto as lendas eram contadas ao redor da tradicional fogueira. Sarah poderia querer se enfiar dentro de um buraco bem fundo, mas ela já tinha se exposto demais naquela noite, aproveitaria pra tirar toda a confusão de sua cabeça.

Quando Sue olhou pra ela com um olhar indagante, Sarah desviou o olhar sutilmente para Claire, a índia anciã entendeu rapidamente ao que Sarah se referia. E sorriu.

_ Limitações terrenas... – Sue disse, balançando a cabeça levemente. – Nós vivemos em um tempo e em um espaço cujo amor maior é visto de uma única forma, como se para amar alguém que seu destino não o ligou por sangue, só houvesse uma única forma. Nós primamos uma sensação corpórea demais, carnal e fugaz demais. Por isto, quando nos deparamos com um tipo de amor eterno que não se liga desta maneira, não pensamos que este tipo de amor possa ser a dedicação de toda uma vida. Mas a transcendência deste sentimento não está no corpo, não está na vida terrena e, enquanto espíritos, todos os amores tem igual importância e significado, todos eles são puros e todos são sagrados. Em tudo, sob todas as formas, sob tudo o que é verdadeiramente belo, o amor está presente. Se é por amor, até a dor se torna bela. Mas nós, em uma mente recortada e tão limitada não entendemos o que é um sentimento que vai além do que é possível medir! – Sue respirou fundo e olhou Quil com muita ternura. – O que é errado diante dele então? O desrespeito? A corrupção de uma idade pura? Pois se há isto, não há amor! O amor não se constrói diante de algo tão profano.

_ Diante de tudo que se há pra explicar minha querida, o amor é o mais ininteligível, pois ele só pertence a quem sente e pra senti-lo é preciso se libertar, abrir mão, render-se, doar-se. O amor se completa na doação, você ama com tudo que há em si e nada mais espera em retorno, porque o que lhe apraz não é receber, mas sim, se sentir capaz de fazer feliz alguém. E em fazer a felicidade de alguém residirá a sua própria felicidade. Isto pode parecer injusto com quem ama? Então você e cada um de nós poderemos cair por terra, deixando os vermes nos comer as carnes! Porque somos miseravelmente injustos, pois recebemos a todo o momento um amor imenso do Grande Rei dos Céus e em quase nada o retribuímos. Mas ele continua a nos amar e continua a ser feliz cada vez que também o somos. Ele não espera que nos o beijemos, Ele não ficaria feliz somente se o amassemos da maneira que Ele quer que nós o amemos, Ele não sentiria necessidade alguma além de deixar nos nossos caminhos frutos para colher alegria. Somos então amados da forma mais linda que há e nós amamos Aquele que assim nos cuida da mesma forma? Não, nunca.

_ Se você tiver a necessidade de cobrar algo daquele que diz amar para se sentir realizado, então você não alcançou a magnitude desse amor. – Desta vez Sam veio se pronunciar, os lobos todos passaram a encarar o antigo líder, também membro do conselho, prendendo a atenção nele de forma inexorável. _ Mas se fosse apenas escravidão o amor não seria amor. Porque escravos não possuem tesouros, e o que os lobos possuíam quando amavam alguém desta forma era uma riqueza sem tamanho. E o que se descobriu é que para merecer este tesouro não precisaria se arrastar, mas teria que se ajoelhar, não precisaria humilhar-se, mas teria que se render. E isto se fazia não por obrigação, mas única e exclusivamente por vontade, por vontade pura e genuína. E assim se ama mais do que com o corpo, ama-se a cada sorriso, a cada olhar, a cada suspiro, a cada dor, a cada superação, a cada mínimo e irrelevante sinal de alegria.

Leah olhou para Sam e, incentivada pela ousadia de Sarah, fez a sua pergunta.

_ Mas e a falta de escolha? O amor eterno dos homens lobos é também cárcere eterno?

Um burburinho começou a passar pela roda de pessoas. Muitas das que não estavam conscientes de que aquelas lendas eram reais estavam começando a se confundir com o rumo da conversa, que se iniciou somente para explicar o sacrifício da terceira esposa.

_ Ligar-se não é acorrentar-se. Poderiam dizer: não há escolha. Mas eu diria que se houvessem mil escolhas, os lobos escolheriam exatamente a mesma coisa. Talvez não da maneira como aconteceria se a magia do reconhecimento não agisse sobre eles, mas ainda assim, escolheriam. – Sam respondeu olhando para Leah, tentando passar mais uma vez uma verdade tão complexa, tão maior de seus próprios sentimentos.

Ela sustentou o olhar por um momento e depois se virou, abraçando-se a Embry. Leah ergueu seus olhos para Embry e soube que o que ela sentia por ele era sim sagrado, era sim precioso. Os olhos dela queimaram com a chama amorosa, espalhando candura pelo coração de Embry e agarrando este com todas as suas forças. Sim, eles sentiam em si tudo o que estava sendo falado, e decidiriam ficar juntos por quantas vezes fosse necessário. E o imprinting diante disto então?

_ Mas existem certas coisas para as quais não há regras Leah – Billy começou, como que completando as palavras de Sam, como que desvendando os tormentos dos pensamentos da loba. – Por isto tantas e tantas coisas disto permanecem ocultas. Esta magia se molda de acordo com a necessidade das almas que se amam, por isto ela é sim, imprevisível Leah. E eu digo novamente: este entendimento é reservado para quem deveras sente tal amor. Por isto não é sacrifício morrer por tal amor, não é escravidão se render a ele. Seja ele de que forma for, ele será sagrado. Não há impurezas em um amor de lobo. Podia até começar de muito jovem este amor, mas assim ele permanece ainda mais indiscutível e ininteligívelmente glorioso. Pois a pureza e preciosidade deste amor tão jovem… — Billy, neste momento, olhou para o semblante grave de Quil. – …não podem ser alcançadas por nós, e tão pouco deve ser corrompida pelas limitadas e deturpadas visões terrenas.

Billy passou os olhos sob cada rosto daquele círculo ao dizer aquilo e, muitos, mesmo desconhecendo a profundidade e verdade do que ele falara, engoliram em seco. – O que nós sabemos sobre o amor é pouco, mas sabemos o suficiente para reconhecer que sem respeito, sem zelo e cuidado não há verdade neste amor. E este amor pode ser verdade ainda que seja casto. Se aquelas almas se ligarem, eles então se amarão legitimamente.

Nunca uma explicação sob uma lenda havia ido tão longe. As últimas palavras de Billy pareceram ficar ecoando por um tempo. O respeito de todos os quileutes pela sabedoria de seus antepassados, que chegou até seus anciões, era demonstrado pelo silêncio pacífico que se instaurou no ambiente. A chama da fogueira crepitava, refletindo em cada olhar, e o significado de tudo aquilo se instaurou em cada coração.

Sarah entendeu naquele momento porque nenhum quileute se revoltava com o imprinting entre Quil e Claire. Todos eles se sentiam indignos de compreender aquele sentimento tão imaculado, que não se media pela idade efêmera dos corpos terrenos, mas pela imensa espiritualidade de um povo que cria que forças maiores guiavam seu viver. Eles, os índios, não poderiam julgar aquele amor, não poderiam profaná-lo inserindo na relação complexa entre Quil e Claire a lascividade impura de um corpo dominado por instintos irracionais. Pois o que controlava aquela magia tão complexa, inexprimível e imprevisível, estava em um outro plano, em um lugar cuja visão de qualquer um ali não abrangia.

Sarah olhou novamente para Quil, pegando-o em um momento terno com seu imprinting. Claire estava sentada entre o pai e Quil, em um tronco grande, passando os bracinhos envolta dos dois. Ela sorria imensamente, assim que a mãe dela veio lhe dar um beijo na testa, se juntando no abraço carinhoso.

_ Minha família, meus amores! – A voz suave e risonha de Claire disse para aqueles que a acariciavam como se pudessem tocar um anjo.

Quil agia desta forma, como se estivesse diante de um anjo, como se seu coração fosse dominado pelo poder deste anjo. Diante do anjo Claire, Quil estava livre de desejos impróprios, Claire ensinava a Quil o amor verdadeiro, que crescia e se enraizava em ambos a cada dia que se passava, sempre consagrado.

Sarah percebeu que não havia em Quil necessidade de mais nada naquele momento, nem para o coração dele e nem para o seu corpo. Era algo tão belo e tão indiscutível que os olhos de Sarah brilharam com fascínio e dor, sua própria dor por ter ousado comparar Xavier com Quil. Não havia, nunca haveria comparação, porque o demônio dela não amava. Sarah sentiu que se tivesse um Quil em sua vida desde o início ela iria aprender a superar qualquer desventura em sua vida, tudo ficaria menor diante daquela dedicação e inevitavelmente ela o amaria, de forma livre e intensa. E seria o amor mais belo do mundo, porque ela sentiria a extrema necessidade de que ele sentisse tudo o que ele a fizesse sentir, instaurando um ciclo de trocas amorosas inesgotáveis. Sarah viu então o que era o destino de Quil e Claire e o destino do que era cada um dos lobos com seus imprinting. Ela não tinha dúvida que eles escolheriam aquilo quantas vezes fossem lhes dado a oportunidade, com ou sem a magia. Magia esta que agora parecia ser unicamente uma forma de reconhecimento.

Sarah sentiu dedos suaves e quentes passearem por baixo de seus olhos. Era Jacob, ele lhe enxugava uma lágrima. Ela havia chorado diante de tudo aquilo sem se dar conta. Ela fechou os olhos e pegou a mão de Jacob, fazendo-o parar. E então o olhou com cuidado, encontrando angustia e confusão. Será que ele pensava o mesmo que ela? Será que ele também se questionava se sofreria um imprinting?

_ Mas que coisa vocês dois hein? Desviando a atenção das lendas com esta... estas... bem, com aquele beijo! – Sue se aproximou deles, fazendo com que o olhar que os prendiam fosse quebrado.

Sarah se virou delicadamente para a índia e se surpreendeu que a maior parte das pessoas já não estavam envolta da fogueira, mas festejando e comendo o banquete que havia sido preparado. A narração das lendas já havia sido encerrada por aquela noite.

_ Nos desculpe Sue, não foi a nossa intenção fazer isto. – Sarah respondeu com a voz branda e cálida, como que ainda anestesiada pelo misticismo da sabedoria quileute. Jacob nada acrescentou, nem sequer olhou pra Sue, mas seus braços ainda permaneciam em volta de Sarah

_ Imagine querida. Eu compreendo, mas tentem se controlar da próxima vez, certo?

_ Claro, claro!– Sarah respondeu sorrindo levemente. O abraço quente de Jacob já estava deixando ela novamente sonolenta. Afinal foram dois plantões de mais de 30 horas seguidos e apenas 12 horas de sono para os dois. O cansaço ainda estava em seu corpo.

_ Pegando a mania dos Black Sarah? – Billy chegou, empurrando sua cadeira e, como sempre, sorrindo pra Sarah.

_ Que mania Billy? – Sue sorriu diante da confusão de Sarah e, sentando-se de frente para o casal, respondeu.

_ A mania de dizer como resposta: claro, claro!

_ Ah! É mesmo?

_ Sim, é mesmo querida. Bom...

Billy hesitou e, só então Sarah percebeu que, tanto o sogro quanto Sue, não haviam se aproximado dos dois por acaso. Eles queriam falar algo, Jacob também pareceu perceber isto, pois direcionou o seu olhar aos dois anciões.

_ Diga o que tem a dizer Billy. – Sarah incentivou. Mas foi Sue quem começou.

_ Bom, presumo que agora, depois de todos estes meses, vocês já estejam ambientados por aqui, não é?

_ E vocês querem marcar o nosso casamento quileute? – Jacob disse quase debochado, mas este deboche parecia sair quase forçado e não impacientemente natural como antes…

_ Isto mesmo filho. Está mais do que na hora e é preciso, vocês sabem. Vocês se casaram longe de tudo e de todos, de uma forma corrida, sem as devidas bênçãos. O casamento de vocês precisa ser abençoado meu filho.

Sarah elevou sua cabeça recostada nos braços de Jacob, tentando olhá-lo, mas ele não retribuiu este olhar, apenas respondeu Sue, sem consultá-la.

_ Pra quando?

_ Bom, Jacob, pensei que vocês quisessem decidir isto. Afinal precisa-se de um certo tempo para os preparativos, para o…

_ Pra quando? – Jacob repetiu a pergunta, sem alteração nenhuma na voz. Sarah respirou fundo e falou com a voz ainda mais baixa.

_ Pode ser daqui a dois meses Sue, Billy. O que vocês acham? – Não tinha porque adiar demais aquilo tudo, era simplesmente inevitável.

_ Dois meses está ótimo Sarah!

_ Sim, daqui há dois meses vocês se unirão pelas benção quileutes! – Billy respondeu, mas a voz dele já estava longe pra Sarah. Ela não pensou que estivesse realmente tão cansada…

_ Leve ela pra casa Jacob. Eu disse que ela não ia agüentar tanto trabalho…

Parecia que a voz de Leah que disse aquilo, Sarah tentava protestar, tentava dizer que não. Mas era tão difícil não se entregar ao sono naquele aconchego tão bom…

Jacob resolveu não ficar mais na festa, os eventos da noite haviam lhe trazido lembranças que ele não queria recuperar. Ele ergueu a mulher sonolenta nos braços, com leves e suaves protestos dela, e caminhou de volta pra casa, sem nem ao menos se preocupar em comer, sem ao menos se despedir de todos.

Casa… Jacob queria novamente um refúgio pra fugir de suas lembranças…

Notas finais
N/A: cap. cheio de ternura pra vcs minhas lindas! Foi o primeiro cap q eu consegui escrever dpois que eu tive perdas em minha vida q muito me abalaram. Eis então q eu tinha q escrever esta cena falando de amor... meus sentimentos estavam a flor da pele, e eu acho q isto me deu o impulso certo pra escrever sobre algo tão complexo qnto o imprinting. Axo q a Tia Steph ñ tinha noção de cm este conceito do imprinting é intricado e profundo. Se ele for visto de uma forma errada, cm eu via antes de decidir me aprofundar nele pra escrever, ele vira uma coisa absurda, profana! Eu me exauri neste cap., em termos de sentimentos, mas por favor garotas, me avisem se eu passei do ponto, procuro o equilibro acima de tudo, axo q é a formula certa.
O próximo cap. terá um conteúdo q poderá esclarecer um pouquinho isto. O foco será Jake, com direito a uma narrativa muito especial!