The Precious Blood
47 TENDES FÉ
Notas iniciais
Feliz Páscoa a todas vocês! Celebrem a ressurreição de Cristo e comam bastante chocolate!!!
Vamos a leitura??
Até lá embaixo!
O que era estranho
Torna-se belo e claro.
De olhos flamejantes,
Fez-se um brilho intenso.
Arde neles a incerteza do próximo passo.
Lágrimas vertem,
O olhar negro, tão firme, se torna deserto.
E no caos do acaso,
A vida se transforma,
Faz do distante, o próximo,
Da menina, um anjo sábio
E do homem rei, um andarilho errante.
Mas é da voz mansa, outrora nunca ouvida,
Que se sopra a razão da força: a fé!
Jacob abriu os olhos se incomodando com a claridade do dia. Ali, o sol brilhava sempre muito forte. Mas depois que acordou, sorriu, sentindo Sarah abraçada em si, sua cabeça recostada em seu peito. Ele se mexeu minimamente na esteira de palha em que estavam deitados para ver melhor o rosto adormecido dela. Ela ressonava suave e profundamente, tinha o semblante cansado e, mesmo dormindo, Jacob percebeu uma ruga de tensão no meio de sua testa. Suspirando ele levou os seus lábios até lá, beijando suavemente, acariciando a pele do rosto moreno com o roçar constante dos lábios. Aos poucos a expressão dela suavizou-se e Jacob sentiu o aperto dela mais firme em si.
Ele não teve coragem de se afastar, permaneceu com ela em seus braços, acariciando seus cabelos e observando-a dormir. Sarah só acordou depois de algumas horas, fungando o cheiro do peito de Jacob como se fosse um bálsamo, antes mesmo de abrir os olhos. A respiração dela na pele do seu peito fazia cócegas, ele riu.
_ Boa tarde, dorminhoca. – Ele sussurrou roucamente. Sarah estatelou os olhos e se levantou de um salto.
_ O que? – Ela olhou pra fora, vendo as sombras na varando indicar que o sol já havia passado do meio do céu, seguindo seu caminho para oeste. Ela colocou as mãos no rosto e suspirou.
Tinha voltado quase ao amanhecer para perto de Jacob, mas não planejava dormir. Ela iria esperar ele acordar para poder contar o que havia feito. A esta hora, não só ele estaria acordado, mas Milla e Nessie também.
_ Por que a preocupação? Você não tem horário para ir ao hospital, pode acordar tarde aqui. – Ele disse, ainda brincando. Ela olhou pra ele se sentando com as costas encostadas na parede oposta em que ele estava. Encolheu as pernas e enfiou a cabeça no joelho, como uma criança travessa sem coragem de enfrentar o adulto. Jacob percebeu.
_ O que você aprontou menininha? – Ele perguntou, tentando disfarçar a dureza em sua voz.
_ Dormiu bem? – Ela disse, enquanto pensava em uma forma de dizer tudo a ele.
_ Como não dormia a muito tempo. – Jacob respondeu, se dando conta de que não tinha tido o privilégio de um sono tranquilo desde a transformação de Milla. – O que foi? – perguntou novamente.
Sarah inflou o peito e o encarou, criando coragem. Disse sem rodeios:
_ Dei meu sangue a Milla e Renesmee! – Saiu tudo num folego só. Ela apertou os olhos e voltou a por a cabeça entre os joelhos.
Silêncio…
De repente mãos agarraram seus braços e Jake a puxou de pé para que pudesse encará-lo. Ele vasculhou cada centímetro de sua pele tentando encontrar uma mordida, seu coração batendo alucinadamente. Até que os olhos negros encontraram novamente os de Sarah... furiosos!
_ Por quê? Por quê você fez isto? – Ele a sacudiu, mas parou imediatamente, soltando-a e agarrando seus próprios cabelos. – Depois de fazer todo um circo para que elas resistissem ao seu cheiro, você simplesmente faz isto? – Ele cobrou, a voz ainda nervosa.
_ Jake… Jake, não foi do jeito que você está pensando! Elas jamais sentiram o gosto do meu sangue e jamais vão sentir… eu…- Um rugido furioso de Jacob interrompeu a explicação.
_ Quando? – Exigiu.
_ Ontem a noite. Enquanto você dormia. – Ela disse, a voz serena, tentava trazer calma para o ambiente. Mas ele rugiu mais.
_ Você me colocou pra dormir pra que eu não te impedisse? – Ele olhou furioso para ela, olhou como o Alpha imponderável que era. Algo dentro de Sarah dizia que as posições estavam invertidas, mas ela se resignou e abaixou a cabeça. Ela o havia enganado. Jacob entendeu o silêncio como uma confirmação e levou os dedos fechados em punho até a boca, para morder.
– Suas ações estão me enlouquecendo, Sarah! Me enlouquecendo! Você não confia em mim! Maldição! – Ele gritou. – Por que você acha que eu vim pra esta ilha? Por que você acha que Milla está aqui? – Sarah não teve coragem de responder. – Porque eu confiei em você, confiei em tudo o que você me disse, em tudo o que você me pediu! E o que você faz? Tem visões atormentadas todo santo dia e me esconde, toma decisões e nem sequer procura compartilhar comigo, age como se fosse sozinha e independente… age como se não tivesse ninguém por você e tivesse que… — Ele perdeu a linha do pensamento, a razão. – Eu sinto a cada segundo que estou ao teu lado que você muda, teu corpo, teu espírito, tudo! Eu enxergo, Sarah! Enxergo no seu olhar a mudança… para algo maior! Mas eu sou o teu marido! Eu não sou o seu súdito!
Sarah arregalou os olhos e o encarou embasbacada. O que ele estava dizendo?
_ Você decide as coisas e o que você decide passa a ser lei! Você está agindo como uma déspota... já percebeu? Seu principal argumento tem sido sempre: eu sei o que estou fazendo… eu sei o que estou dizendo… faça o que eu falo e não pergunte porque… EU SEI DE TUDO!
Novamente Sarah teve de se encolher diante da fúria de Jacob, engolindo seco.
_ É isto o que você quer ser? Quer agir sozinha? Quer carregar o mundo nas costas sozinha? Quer ser Deus na vida de qualquer um?
_ Não! Não, Jake! Eu não penso assim, eu não… — ela tentava argumentar inutilmente.
_ Então porque age assim, merda! – Jacob deu dois passos velozes pra cima dela e recuou novamente. Era mais seguro não estar perto.
_ Mas, Jacob… eu, eu senti que era o que eu devia e…
Jacob riu, sarcástico. Sarah estremeceu. Parecia que havia séculos que ela não o via assim, principalmente se dirigindo a ela.
_ Claro, você sabe o que é certo. – Ele riu mais, um riso rouco e sem humor. – E é certo botar o seu marido pra dormir pra não ser contestada, é certo calar a voz do homem que te ama pra você não ter que mandar ele calar a boca e dizer que, no fim, é a sua vontade que vai prevalecer.
As palavras de Jacob estavam amarguradas. Sarah se sentiu ferida, mas sabia também que Jake estava se sentindo da mesma forma.
_ Jake… — ela murmurou e uma lágrima escorreu de seu rosto. Ele olhou pra ela, mas Sarah não conseguiu dizer mais nada, não tinha o que falar.
_ Me diz Sarah… as suas atitudes tem te livrado da visão da minha morte? As tuas atitudes, tão corretas, tem te livrado da visão da sua escravidão por um vampiro lunático?
Ele foi direto no centro da ferida. Desesperadamente Sarah vinha tentando agir para evitar tudo aquilo... mas todos os dias ela via a mesma coisa… e Jacob sabia. Uma vez mais ela abaixou a cabeça. Não suportava mais tanta verdade ser jogada em sua cara por Jacob.
_ E o que você fez agora? Enganou duas criaturas imbecis, as fez sofrer inutilmente durante 68 dias e deu seu sangue a elas por qualquer razão DISTORCIDA DE NOBREZA! – Jacob continuou esbravejando, o soluço que veio de Sarah o machucou, mas não o fez parar. – Diga Sarah… elas aceitaram isto de bom grado? Elas quiseram isto e sabiam da consequência?
Sarah balançou a cabeça. Jacob bufou.
_ Ela não precisa perguntar nada a ninguém pra fazer o que é certo! Claro! – Ele disse, e já não gritava. Mas aquilo machucou ainda mais... ela sentia a lástima e decepção de Jacob cortando o seu peito. – Os fins justificam os meios…
Com um soluço a mais Sarah caiu de joelhos.
_ Não foi assim Jake… não foi! Eu… eu… e-eu não corrompi, a resistência vai continuar intacta… eu… elas não sentiram o gosto… não beberam… eu doei… eu… foi por amor também… ahhh... – Jacob escutou as lamúrias incoerentes de Sarah apertando os punhos.
_ Nós vamos embora daqui. Vamos voltar pra La Push. Milla e Renesmee ficarão com os Cullens. Vamos agora, nem que for a nado!
E dizendo isto, ele saiu pela porta velozmente, sem olhar de novo na direção dela...
Saiu em disparada pelo meio da mata, com o corpo ansiando pela transformação, mas ele simplesmente não podia. Não com tudo aquilo em primeiro plano nos seus pensamentos.
_ Deu pra ouvir de longe… — Uma voz sussurrando fez Jacob parar abruptamente. De onde tinha vindo?
_ Niadhi? – Ele perguntou, uma vez que não sentia e nem via nada ao redor.
_ Não… não é a Niadhi… — Naquele momento Jacob reconheceu a voz. Era de Milla. Menos de um segundo depois ele se virou e lá estava ela, bem nas suas costas, parada, lhe olhando. A cor de seus olhos provando o que sua mulher havia feito. Um cheiro doce, mas suave e muito particular, invadiu as narinas de Jacob. Ainda lhe parecia um pouco enjoativo, mas não repulsivo. – Vocês brigaram… — Milla disse, com um olhar triste.
_ Como você chegou aqui sem que eu te ouvisse? – Jacob falou, juntando as sobrancelhas, ignorando o que Milla havia dito antes. Ela sorriu... e conforme o fazia Jacob percebia as diferenças em sua aparência. Ela estava sendo iluminada pelo sol, sua pele irradiava, mas com muito menos intensidade do que antes. Era apenas uma aura de luz que parecia refletir do sol de forma sutil. A pele era branca, mas não pálida, os lábios de um vermelho quase carmim. Os cabelos, que antes evidenciavam os dias sendo lavados só com agua do mar ou cachoeira e muito sol, estavam novamente anelados e brilhantes, feito fios de seda.
_ Habilidades extras… acho que você sabe a fonte…
Jacob travou a mandíbula.
_ Bom… ela estava certa… no final… não foi tão ruim… embora eu não quisesse, de verdade. – Milla continuou.
_ Sim, ela sempre está certa! – Jacob falou ainda amargurado e virou as costas. Mas as mãos frias de Milla o impediram de sair. Ele tentou se desvencilhar, mas acabou descobrindo que se não se transformasse, teria que fazer muito mais do que aquilo para se soltar dela, vencer a nova força. Era como uma recém criada de novo… só que ainda mais forte.
_ Jacob… Não fique assim… — Ele ficou quieto, não disse nada, mas Milla podia sentir, pela forma como o coração dele batia e pela sua respiração entrecortada, o quanto ele estava magoado. Impulsivamente ela agarrou a mãos dele e as levou para entre os seus seios. Jacob estranhou o movimento, mas quando tocou lá seus olhos se arregalaram.
_ Está sentido? Senti a profundidade do que ela fez? Ela disse a mim e a Nessie que nós tínhamos que aprender a dominar nosso demônio para que ela pudesse nos dar o seu sangue sem que isto nos corrompesse. Ela não deu o pescoço pra gente morder, Jake. Ela injetou o sangue direto aqui! – Ela apertou mais as mãos de Jacob no lugar de seu coração. – E agora é como… se eu me sentisse mais… com mais… alma!
Jacob franziu ainda mais a testa, achando absurdo o calor que sentia no lugar onde o coração de Milla estava. A mão fria segurando a sua. Ele olhou nos olhos vermelhos e… doces? Muito confuso.
_ Não me incomoda o que ela fez, mas como ela fez. Ela não confia em mim o suficiente para dividir suas decisões, seus tormentos! Ela sempre foi assim, só divide as coisas na pressão, quando não suporta mais e seu limite estoura… enfim… É uma coisa entre nós, Milla.
A vampira suspirou.
_ Ela não está sempre certa, Jacob. Você está certo neste caso… mas, é angustiante ver vocês dois… assim…
_ E Nessie? – Ele perguntou, mudando de assunto e seguindo em direção a praia.
_ Humm... ela estava meio pensativa. Está bem mais rápida e nos primeiros momentos tudo o que eu via era o que ela queria que eu visse. Ela não conseguia controlar seu poder. Agora ela está melhor nisto… eu acho. – Milla fez uma careta.
Jacob acenou, mas estava incomodado com o fato de Milla o acompanhar sem fazer nenhum som. Se ela não estivesse falando... Os pelos de sua nuca estavam eriçados involuntariamente.
_ Sabe onde ela está agora? Ou Niadhi?
_ Não, nenhuma das duas. Mas eu posso procurar… vasculhar a ilha vai ser um pouco mais… fácil e rápido… — Ela respondeu, desconfortável, e Jacob só acenou a cabeça.
Ele não ouviu, mas sabia que ela havia se afastado. Continuou andando para frente, com o propósito não muito firmado do lugar em que queria parar. Só depois de algum tempo percebeu que se encontrava próximo a pedra onde ele e Sarah haviam se amado outro dia, bem a beira-mar. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Por que era tão difícil ter paz na vida?
_ Decepcionado?
Jacob se assustou ao ouvir a voz tão perto. Se virou bruscamente para olhar Quendra com os olhos fixos no horizonte.
Lentamente ela dirigiu seu olhar pra ele, sempre tão altiva, sempre tão profunda e misteriosa. Jacob abaixou levemente a sua cabeça, desviando o olhar.
_ Olhe para mim… — Ela disse, mas não era uma ordem como foi outras vezes. Ele voltou a olhá-la.
_ O que está acontecendo com ela? – Ele perguntou e ambos sabiam do que se tratava. Não era preciso explicar.
Quendra sabia que Jacob não tardaria a sentir que havia se unido a uma mulher que deveria reinar sobre ele. Pela primeira vez a elfo se perguntou qual foi a verdadeira intenção de Lairon ao leva-la aos quileutes, a lhe convencer a dar-lhes poder. Ele não poderia saber, naquela época, que um dia sua filha acabaria por escolher um deles, mas Quendra agora tinha certeza que Lairon pressentiu algo predestinado a linhagem quileute. Foi pelas mãos de Lairon, o rei que renunciou, que os quileutes obtiveram magia.
Jacob jamais pôde saber o que significou o sorriso que Quendra lhe deu naquele momento. Poder do rei nas veias de Jacob... guardado, reservado... Os quileutes haviam cumprido bem a sua missão... até ele, até Jacob.
_ Sarah descobrirá por seus próprios meios o que está destinado a ela, Jacob. Não cabe a mim revelar... Mas respondendo a sua pergunta não verbalizada: não, Jacob! Não será fácil estar ao lado dela. E nem sempre ela dividirá tudo…
_ Por que? – Ele insistiu. Quendra lhe olhou compassiva.
_ Nós nem sempre dividimos. – A elfo deu certa ênfase no “nós”. Jacob não ficou satisfeito com a resposta.
_ O que você quer afinal? – Ele perguntou, impaciente. Quendra voltou a sorrir.
_ Eu não posso garantir a segurança de Sarah quando vocês retornarem. Eu vim aqui para lhe cobrar uma promessa…
Jacob sentiu um peso imediato nos ombros quando ouviu aquilo. Olhou o semblante da elfo e estava denso, quase frio.
_ O momento está próximo… — Ela prosseguiu, fazendo Jacob engolir em seco. – Uma dia você prometeu que faria de tudo para proteger Sarah e seu sangue…
_ E eu farei… — Jacob se lembrou do que disse a Quendra naquela noite, há quase um ano atrás, desesperado por salvar Sarah das garras da elfo. – Enquanto eu viver… - Ele ecoou as mesmas palavras que retumbavam em sua memória. Mas Quendra balançou a cabeça negativamente.
_ Enquanto você viver… — Ela suspirou, fechando os olhos novamente e se concentrando. Depois de um instante voltou a abri-los e olhou analiticamente o índio a sua frente. – Pode não ser o suficiente…
Jacob inspirou profundamente, tragando o vento pra dentro de si e sentindo como se ele fosse lâmina. Se lembrou da visão de Sarah…
_ Então… eu…
_ Não a deixe renunciar, Jacob! Mas você… — ela sorriu. – Você irá renunciar… pelo que é melhor, você terá de abrir mão. Você disse que faria qualquer coisa Jacob… por ela... – Os olhos de Quendra de repente, pareciam o de uma cobra ansiando o bote. – qualquer coisa…
Jacob sentiu algo dentro de seu peito sacolejar ao observar as pupilas da rainha se dilatarem e enegrecerem o seu olhar. Hipnotizava-o.
_ Qualquer coisa… - Ele respondeu, mecanicamente.
Sentia que fazia uma espécie de pacto…
_ Nem que isto signifique arrancar o tesouro do teu coração, da tua memória… e perder a vida que virá… Tudo Jacob… você fará tudo!
… com o demônio…
_ Sim, tudo… — A voz de Jacob sussurrou em resposta.
A criatura ante a ele deixou a face ser tomada por uma expressão de jubilo.
_ Sim… eu sei…
Ela fechou os olhos e Jacob pareceu recobrar o senso de tempo e espaço.
_ Ficará entre nós… até que eu morra… — Quendra disse. – Não vai acontecer tão cedo. – Ela afirmou, convicta, e desapareceu.
Jacob respirou fundo, tentando acalmar o martelar incessante do seu coração. Mas mal havia se recuperado, se assustou ao se deparar com um enorme buraco a frente de seus pés. Saltou pra trás e esbarrou em algo… ou alguém.
_ Te peguei! – A voz sussurrou e mãos mornas agarraram seus braços. Parecia um carma do seu dia, todas as mulheres, de todas as espécies, resolveram o surpreender e leva-lo ao seu limite! Inferno!
_ Nessie! – Sua voz saiu esganiçada e falha. Voltou a olhar em direção ao buraco e ele havia desaparecido. Praguejou em voz alta. Era coisa da hibídria testando suas habilidades novas nele.
_ Ei, calma! Parece que viu o lobo mau! – Ela murmurou, tentando brincar, mas sua voz estava embaraçosa.
Ela recebeu um olhar cortante dele que fez com que ela retirasse as mãos dos braços trêmulos rapidamente, como se tivesse levado um choque.
_ Me desculpe! – Ela disse, sem jeito… — Eu… só queria que você visse que… que agora está funcionando… eu não sinto mais dor pra fazer isto… eu… me desculpe! – Ela implorou.
Jacob se sentiu culpado quando a garota olhou pra ele tão arrependida. Ele não podia descontar nela as instabilidades que Quendra havia lhe provocado.
_ Olha, não precisa ficar assim, por causa do que Sarah fez… Eu já superei isto. – Ela começou a se justificar, visto que Jacob nada dizia. — Eu fiquei mal no começo, mas é porque eu sou uma medrosa… Eu tinha medo de dar tudo errado. Mas veja, ela sabia o que fazia... não foi ruim mesmo... só foi... assustador. Mas olha, não assustador de ser mal, mas assustador de ser grande... algo muito grande... e é uma grande mudança... e eu nem tô me sentindo tão esquisita, como se a minha cabeça fosse maior que o meu corpo… Quando eu acordei eu me senti assim… mas eu tô bem e eu…
Jacob foi com tudo pra cima de Nessie com a intenção clara de lhe tapar a boca, mas ela desviou antes que ele pudesse terminar de levantar o braço. Ótimo! Agora ele não conseguia alcançar um projeto de vampiro!
_ Só não me enche, tá legal! Fica quietinha! – Ele disse e, virando as costas para Renesmee, sentou na areia.
Ele sentiu o suspiro pesado de Nessie atrás de si. Ela se sentou ao seu lado. Abriu e fechou a boca, mas ficou quieta. Mais ou menos quieta, começou a balançar o pé. Jacob rugiu entredentes e puxou o cabelo da nuca.
_ Tá… fala logo o que quer sanguessuga! – Disse ele, se virando para ela.
Ela sorriu meiga, um sorriso que fez a bochecha corar, como se estivesse envergonhada.
_ Eu não queria dizer…
_ Não? – Ele perguntou confuso. Há um minuto ela estava tagarelando incessantemente e agora não queria mais falar?
_ Não… eu… eu queria fazer… — Ela murmurou. Jacob abriu a boca pra questionar, mas antes que pudesse, Renesmee saltou pra cima dele, quase em seu colo, e lhe rodeou o pescoço com os braços.
Jacob ficou estático, sem saber como reagir. Tentou afastá-la, mas ela prendeu os braços ao seu redor com mais força.
_ Quieto! – Ela chiou. Jacob achou aquilo um absurdo… mas não fugiu.
Aos pouquinhos ele finalmente pode sentir o que Renesmee lhe oferecia. O calor tímido do corpo dela afagava o seu de uma maneira pura e ingênua. Era quase como se uma criança estivesse dependurada nele, exigindo atenção. Ela se posicionou ao seu lado mais confortavelmente, enterrando a cabeça em seu ombro e afagando as suas costas com as mãos bem de mansinho, parecia que dedos de pluma lhe acariciavam. Ele se rendeu, deixando-se se levar pela sensação de conforto que Nessie tentava transmitir.
Relaxou e deixou-se ser afagado pelas mãos de uma hibídria, sentido apenas a doçura e sensibilidade do toque e não pensando em mais nada… nada que o pudesse fazer se afastar.
_ Vai ficar tudo bem… você vai ver! – Ela murmurou meigamente. Jacob apertou os olhos.
_ Você realmente acredita nisto? – Ele respondeu, também em um murmúrio.
_ Acreditar é o que devemos fazer para sobreviver… não é? Eu acredito Jake… acredito em tudo o que você deixou de acreditar, mas que ainda quer. Então, mesmo que você não diga mais para si mesmo isto, eu vou dizer quando eu estiver perto… — Ela ergueu os olhos, encarando Jacob de perto. – Tudo vai ficar bem! – O sussurro dela lhe cantou no fundo da alma, ele apertou os olhos e desejou de todo o coração que aquilo fosse a profecia que Sarah não tinha.
_ Quando? Quando? – Ele perguntou.
Nessie apertou os lábios, afastou o corpo um tantinho só e passou a ponta do dedo indicador pela testa franzida de Jacob.
_ Lobo… um dia um vampiro me ensinou que quando nós temos fé, não devemos questionar. Apenas crer e esperar. Virá a tranquilidade… é apenas isto que devemos ter em mente e revestir o coração com esta armadura. – Nessie citou as palavras de Carlisle a Jacob, quase rindo da ironia que aquilo significava. – Uma armadura bem forte… Não é?
Ela lhe encarou um pouco mais, mas Jacob não fez nada, apenas lhe olhou impassível. Ela se deu conta de como estava com ele e imediatamente seu rosto ficou vermelho como um tomate. Com os lábios trêmulos e cabeça baixa ela fez menção de se afastar. Mas então, a mão dele agarrou a sua.
_ Obrigado monstri… — Ela elevou as sobrancelhas, ele sorriu, remendando. – Obrigado… princesinha… — Ele disse, ainda com um sorriso tímido nos lábios.
Nessie se lembrou da palavra “princesa” saindo da boca de Sarah na noite anterior… e agora… de Jake. Ela novamente sentiu calor em seu coração e sorriu, abaixando os olhos. Puxou a mão de Jacob devagar e ele não resistiu tanto para voltar a lhe abraçar. Ele se curvou, deixou que ela lhe colocasse deitado em seu colo, não parecendo que aquilo poderia ser inadmissível a algumas semanas atrás. Ela, ainda com um pouco de falta de jeito, penteou os cabelos negros com as pontas dos dedos.
_ Eu sabia que o meu coração não me enganava… desde antes de eu nascer… eu gostei de você, lobo. – Ela riu, um tanto travessa.
Pela primeira vez em anos, Jacob sentiu remorso por ter devotado tanto ódio por aquela criatura que lhe sorria, por ter tido tanta sede de mata-la um dia. Lembrou-se do amor que viu brotar nos olhos de uma Bella esquelética quando estava grávida… lembrou-se como sentiu nojo de Edward quando ele sorriu fascinado quando pode ouvir a voz da filha no ventre de Bella… Lembrou de como ficou abismado quando Edward lhe disse que a criatura corroendo o corpo de Bella sentia por fazer a mãe sofrer e que ela gostava dele, de Jacob, perto…
Ele ergueu os olhos e foi como se ele avistasse um verdadeiro acidente natural. Ela parecia mesmo um anjinho, de alma pura e imaculada, condenada a uma sede de sangue… Ou talvez ela significasse a redenção de uma raça maldita… algo criado por Deus coexistindo com algo criado pelo demônio, e se sobrepondo, subjugando a parte ruim. Ela poderia significar então, a esperança de que tudo poderia ficar bem… que a estranha magia do bem poderia prevalecer… ao fim.
_ Não pense muito nas explicações, senão a cabeça funde! – Ela brincou, percebendo a face pensativa de Jake.
Ele sorriu, ainda triste.
“Foi por amor também…”
Jacob se lembrou de uma das justificativas de Sarah por ter dado o seu sangue a Renesmee. Ela amava… por alguma razão mais profunda do que ele poderia entender, Sarah amava aquela criatura. Ao contrário do que um dia ele chegou a imaginar, Sarah não seria capaz de sacrificar a meia-vampira em uma guerra…
Guerra… Jacob voltou a se lembrar de Quendra e de seu mau agouro. Estremeceu. As mãos de Nessie apertaram os ombros largos dele.
_ Se você precisar lobo, eu posso te lembrar sempre de acreditar: tudo vai ficar bem! – Ela disse, nada contente por ouvir o pulsar angustiado do coração de Jacob novamente.
Então ele teve uma reação inesperada para Renesmee... escapou-lhe um soluço e ele chorou em seu colo, como se fosse um menino, se agarrando em suas pernas. Nessie prendeu a respiração e voltou a acariciar os cabelos negros com mãos trêmulas, o deixando chorar.
Ele chorou parecendo libertar toda a angustia que lhe atormentava. Havia tanto para suportar… tanto… E ele queria, desejava tão desesperadamente que a voz de Renesmee dizendo que tudo acabaria bem fosse mágica e se tornasse realidade. Que ela, com um poder de fada ou anjo, pudesse lhe transportar a um lugar tranquilo onde ele poderia se esquecer que era um lobo, que existiam vampiros ou elfos. Um lugar em que ele pudesse envelhecer, que pudesse se cansar depois de trabalhar. Um lugar onde poderia ficar sentado com sua esposa, olhando a paisagem e planejando o futuro, nem que isto significasse economizar dinheiro para comprar uma casa. Ele queria desesperadamente que Sarah pudesse ser apenas uma dona de casa, ou mesmo somente uma médica responsável, sem traumas, angustias ou visões, que pudesse lhe esperar ao fim da tarde e contar todas as novidades e ouvir as suas... Depois lhe beijar após o jantar e se deitar com ele em uma cama macia e quente… pro resto da vida... até que pudessem morrer, juntos, e serem enterrados por seus filhos e netos em uma mesma lápide, depois de uma vida longa e branda.
Mas não seria assim, ele sabia que não seria assim quando ele saísse daquela ilha. Quase podia sentir a dor em seu peito de ter o coração rasgado, os braços vazios sem ela, a sua amada, ao seu lado. Ele agarrou mais as pernas da meia-vampira, que aquela altura murmurava um canto dócil, como se ela pudesse realmente ser um milagre.
_ Diga… diga! – Ele implorou em meio aos soluços, com a voz rouca e cortada. Ela entendeu.
_ Tudo vai ficar bem, Jake. Tudo vai terminar bem! Nós vamos resistir. – Ela murmurou, absolutamente convicta. – Tudo vai ficar bem… tudo vai ficar bem… — Ela passou a cantarolar incessantemente, tendo a pretensão de que aquilo se enraizasse nele.
Ninguém apareceu para interromper. As duas criaturas, antes separadas por uma aura de inimizade, foram deixadas a sós, compactuando um momento secreto e sagrado, como que protegidos pelas mãos da Divina Providência a proclamar que a imponência de um sentimento puro pode ser compartilhado por quem Ele desejar. Como se os céus proclamassem a limitação dos seres terrenos por julgar tão irrevogavelmente quem são os bons e quem são os maus.
As mãos e carinho gratuito de Nessie assolavam o homem que alimentou, por tanto tempo, rancor por ela. Aquele homem, nobre alpha, forte e poderoso, ao ser vencido pelo pranto nos braços de quem tanto odiou por motivos distorcidos, parecia fornecer em suas lágrimas o pedido de perdão e redenção. Ao fim, ela era filha de um amor genuíno e isto permanecia nela… e se multiplicava. De pesadelo, ela passou a ter um cheiro revigorante de sonho bom.
Jacob não soube ao certo quando recobrou o controle de si, e nem de quando foi que se levantou do colo de Nessie, ou do momento exato em que ela parou de cantarolar e se sentou de pernas cruzadas em frente a ele, lhe transmitindo imagens de sua infância. Nas imagens, Jake via a felicidade de uma garotinha de cabelos ruivos correr pelo meio de uma colina coberta de flores. As imagens só pararam quando Jacob sentiu o cheiro já tão enraizado nele lhe bater nas narinas.
Se levantou a tempo de ver Sarah caminhar incerta em sua direção, com os olhos inchados e vermelhos, acompanhada de Milla e Niadhi.
_ Está na hora? – Nessie perguntou... também se levantando. Ela não fez som algum com seu movimento, o que a denunciava era o som do coração. – De ir?
Sarah não respondeu, tinha os olhos fixos em Jacob, percebendo que ele também havia chorado tanto quanto ela. Renesmee recebeu a resposta de Niadhi, que acenou afirmativamente com a cabeça. Depois ela passou a olhar de Sarah para Jacob e de Jacob para Sarah.
_ Humm... que tal nós irmos na frente, Milla? A Niadhi podia vir buscar o Jake e a Sarah depois... não é? – Nessie sugeriu, ansiosa. Imediatamente Milla sacudiu a cabeça concordando, dando um aceno a Niadhi, que apenas esperava Sarah dizer algo… mas a morena estava silenciosa, apenas olhando Jacob.
_ Sarah, vou levar as meninas... não vou voltar. Vocês terão apenas dez minutos antes que não possam mais ver um único resquício do que é esta ilha. – A elfo avisou, mas nenhum dos dois lhe respondeu. Ela abanou a cabeça e olhou para as garotas que esperavam lado a lado, com os pés sendo lavados pelas ondas. – Prontas?
_ Não. – Milla respondeu, recebendo um cutucão de Renesmee.
_ Coragem vampira! Honre suas presas! – Ela chiou e Niadhi sorriu. Olhou uma vez mais para as duas estátuas que eram Jacob e Sarah e disse:
_ É hora de dizer tchau! – E de repente, não havia mais ninguém ali a não ser marido e mulher.
Só por dez minutos… Sarah finalmente desprendeu os olhos de Jacob e abaixou a cabeça, murmurando nervosa.
_ Me perdoe… por favor… — A voz dela parecia verter sangue, de tão dolorida.
Jacob lhe encarou agoniado. Suspirou, seus braços formigando pra tê-la.
_ Confie em mim! – Ele pediu, por sua vez.
Ela torceu os dedos das mãos.
_ Eu confio! – Ela conseguiu dizer em um mero sussurro. – Mas embora estejamos irrevogavelmente unidos, meu amor… nós não somos a mesma pessoa. Nossos corações se encaixam e se ligam… mais ainda assim são dois! Cada um de nós ainda tem a sua porção no mundo, do que deve suportar, do que deve fazer… Eu confio minha vida a você, todo o meu amor, mas não posso deixar que você viva aquilo que é pra eu viver, Jake! Compartilhar não é isto…
Ele sorriu.
_ Eu não estou pedindo isto… você não entende? – Sarah elevou seus grandes olhos castanhos para ele. – Quando eu digo confiar eu quero dizer que você poderá contar a mim as suas decisões e confiar que eu vou lhe entender, não bater o pé como uma criança birrenta, exigindo que você faça o que eu quero. – Ele viu Sarah engolir em seco. – Confiar em mim o suficiente para ouvir o que eu tenho a dizer, mesmo que isto vá contra com o que você pensa, porque, no fim das contas, talvez eu também possa enxergar um caminho, uma saída melhor… E não importa o quanto poder você tenha, eu estou aqui para ficar ao seu lado… não para ficar de lado.
Os olhos de Sarah se aqueceram e Jacob viu que ela finalmente havia entendido, de dentro pra fora, o que ele queria dizer. No fundo, ela não estava acostumada com aquilo. Sarah sempre viveu sozinha, independente, autossuficiente. Ela aprendeu a carregar e suportar seus males sozinha e achava que não devia impor isto aos outros.
_ Está enraizado em mim... esta... postura? – Sarah balançou a cabeça confusa. – Jacob, eu não entendo nada do que está acontecendo comigo! Sempre que estive tão confusa a respeito das minhas… das minhas coisas sobrenaturais, os elfos me davam uma resposta. Mas agora não! Quendra simplesmente desapareceu desde que viemos pra cá, Niadhi está muito evasiva... Eu estou tendo que tentar compreender tudo sozinha! Mas eu não sei, eu definitivamente não sei o que está acontecendo comigo!
Jacob se aproximou de sua esposa, que tinha os dedos entranhados nos cabelos e a abraçou.
_ Eu sei… — sussurrou, brando.
_ Sabe? – Ela elevou os olhos.
_ Eu acho que você tem um posto muito mais elevado do que pensávamos entre os elfos. Sem uma explicação certa deles não podemos saber qual é, mas certamente não é de alguém que precisa acatar ordens.
Sarah apertou os olhos, suspeitava mesmo daquilo. Jacob prosseguiu.
_ Mas independente disto Sarah, mesmo que você tenha assumido responsabilidades maiores, não me deixe de lado. Eu estou com você e é assim que quero ficar.
Sarah ergueu sua cabeça em direção a ele. Claro, se havia alguém no mundo que ela pudesse confiar cegamente este alguém era Jacob.
_ Eu sei… me desculpe, me perdoe. Eu… é só que tem certas coisas que eu faço que eu sei que não é por mim, Jake! É como se eu estivesse inclusa no destino de outros também. E quando é assim, eu não posso simplesmente compartilhar algo que não me pertence. O que eu vejo pra Milla… o que eu vejo pra Nessie… Você dividiria comigo os segredos dos seus lobos que você compartilha em pensamento?
Jacob entendeu onde ela queria chegar. Não, ele não tinha este direito e nunca o faria. Respirou fundo e afundou o nariz nos cabelos de Sarah.
_ Ah Jake… é tão difícil! Tão difícil caminhar em um labirinto desconhecido… tendo que desvendar todos os seus mistérios sem nenhum guia… Eu me perco… eu me perco! Eu não sei ao menos o que eu sou! Mas, apesar de tudo, a única certeza que eu carrego, a única coisa que me define é o que está relacionado a você! Nunca duvide disto, se lembre sempre disto! Você é tudo!
Jacob nada disse, tinha necessidade de fazer ao invés de falar. Pegou o queixo de Sarah e o levantou em sua direção. Então, perderam a consciência. O tempo havia acabado, a ilha estava novamente vazia.
Notas finais
Foi uma avalanche de acontecimentos para o nosso querido Jake neste capítulo, não é??
Haaaa meu amores, mas este lobo não é alpha por acasa... ele é forte... muito mais que forte! Vcs verão!
Verão!!
Amores muitooooooooooo obrigada pelos comentários, as fofas fiéis que nunca me abandonam, não esquecem de comentar..... haaaaa queridas, um abraço a todas vcs! Amo, amo, amo!
Bjs!!!!
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