The Precious Blood
34 SENTIR
Notas iniciais
Let's go!
Os dias se passaram mais rápidos do que Sarah esperava que eles passassem. Não havia tempo para ela respirar, praticamente. O motivo? A proximidade do seu casamento! Cada dia que passava, aquilo lhe provocava um rebuliço maior dentro da barriga. Ela mal chegava em casa do hospital e já era pega, ora por Rachel, ora por Emily ou Sue, para participar de rituais. As mulheres da tribo lhe preparavam para ser uma “esposa quileute”.
Ela não conhecia as tradições, não entendia os costumes e tampouco sabia de todas as histórias daquele povo. Por isto, tinha que participar. Era sempre um bando de senhoras que a levava para uma clareira, a mesma onde aconteciam as festas da fogueira, e lhe pintavam, rezavam para ela e a fazia dançar canções bem rústicas, tocadas em espécies de tambores e flautas, e cantada por elas. Elas eram sempre muito alegres, e Sarah já havia deixado de ter vergonha diante delas. Já dançava livremente, surpreendendo as indígenas com sua desenvoltura.
O mais fascinante de tudo aquilo eram, sempre, as histórias, narradas tão apaixonadamente pelas índias, tanto que suas vozes se tornavam unicamente místicas. Elas contavam sobre suas mulheres, sendo a mais glorificada delas a terceira esposa de Taha Aki. Sarah já podia saber de cor muitas palavras que aquela índia proferiu e se emocionava com a intensidade com que ela amou e foi amada.
_ Tem de ser mais que um. Juntos, homem e mulher têm de ser a imensidão da vida. Tudo aquilo que completa. – Sue uma vez lhe disse.
Participavam da reunião somente as mulheres que eram ou foram casadas. Elas falavam de tudo. Até de coisas que deixavam Sarah constrangida, principalmente por vir de sua cunhada.
_ Se entregue a ele sempre de forma plena. Não deixe que só ele conduza você. Você também saberá conduzir o corpo dele ao êxtase. Abrigue a violência e força de homem que ele tem, amorteça esta força no teu próprio corpo. Mas também saiba acolher o filhote que existe nele, faça isto com ternura. – Rachel disse, e sorriu pelo aparente constrangimento de Sarah, recebendo aquele tipo de conselho da irmã do homem que ela teria que “receber” em si.
Ela ficou ainda mais nervosa, pois, no momento em que Rachel falava, ela chegou a imaginar tudo aquilo, e estremeceu. Era pensar naquilo que seu peito palpitava, agonizante. Sue certa vez entrou em detalhes, mostrando certos “desenhos” em um caderno velho. Pareciam ter sido feitos a mão, todos. Os das páginas iniciais estavam com a tintura mais desgastada e conforme chegava para o final, os traços ficavam mais nítidos, parecendo até atuais.
_ Este foi eu que desenhei! – Exclamou uma velhinha, dona Luahry, de uns cinquenta e tantos anos. Sarah escancarou a boca, olhando pra indiazinha baixinha, sem poder conter sua expressão de espanto. Olhou novamente o desenho, e virou a cabeça pra tentar conceber algum ângulo, mas aquilo estava pior que o Kama Sutra. Sarah olhou pra velinha novamente, que exibia uma expressão divertida nos olhos.
_ É minha filha, eu fazia isto. Agora não tenho mais coluna pra abusar assim. Mas eu aconselho, porque é bom!
Sarah sacudiu a cabeça e logo acompanhou a explosão de risadas das mulheres que estavam ali, e logo deixou de olhar as gravuras apimentadas do livro de tradições femininas quileutes. Era o tipo de sabedoria secreta que aquelas índias só passavam de uma pra outra em condições específicas, no caso: casamento.
_ Eu não acredito nisto! – Sarah sussurrou, por baixo do fôlego, olhando para Emily.
_ Pode acreditar, estas índias são safadas. Eu fiquei muito pior do que você quando descobri o… “ouro”. – Emily disse e Sarah riu.
Além destas reuniões, que Jacob também era submetido — e Sarah não queria nem imaginar no que os homens confabulavam — havia o seu trabalho, um tanto mais complicado do que de costume.
Charlie se recuperava bem, no fim das contas. Ela conversava com Edward todas as noites, conforme o prometido, mas escutava Bella sussurrando velozmente do lado dele. No início ela queria transferir seu pai de hospital, mas Sarah argumentou que uma transferência era preocupação sem necessidade. Charlie estava fragilizado emocionalmente por não conseguir realizar facilmente tarefas simples, como abotoar uma camisa. Uma mudança de ambiente, da equipe de médicos aos quais ele já confiava, não faria bem a ele.
_ Eu já disse que ele está sendo bem cuidado. Se ela esperou por anos, porque não pode esperar alguns dias até ele ter alta? – Sarah questionou exasperada para Edward, certa vez.
A transferência foi esquecida.
Ainda no hospital, Charlie havia começado sua fisioterapia e a nova educação alimentar com a nutricionista. A dieta que ele levava não era saudável e foi a primeira recomendação que Sarah relatou a Edward por telefone.
_ Ele não bebia muita água, não comia nem frutas, nem verduras e nem legumes. Era só pizza ou lanche, pelo que me disse. Isto não pode mais acontecer. Ele está com a taxa de colesterol elevada demais. Também acabaram as bebidas alcoólicas!
Sarah terminou de falar autoritária e se virou, encontrando Jacob a encarando com as sobrancelhas erguidas. Ela ouviu Edward respirar fundo do outro lado, como se precisasse.
_ Sim… senhora. – A voz macia e ponderada de Edward lhe respondeu, como se falasse com sua patroa, ou algo do tipo, se sujeitando a uma ordem. Sarah revirou os olhos e Jacob riu.
O riso de Jacob foi ouvido do outro lado da linha, por Edward e por Isabella, sentada no colo do marido. Edward observou o semblante de Bella mudar, e ela aproximar seu ouvido delicadamente para o lado do telefone, como para ouvir melhor a risada de Jacob.
_ É isto. Amanhã volto a ligar, ele terá alta daqui a três dias. – Sarah não deu oportunidade pra Edward lhe responder, desligou o telefone. Bella saltou do colo do Edward e olhou pra ele, que lhe espreitava.
_ Você sabe que me alivia ver que ele está bem não é? Unicamente porque o mal estar dele me agoniava. Não me fazia bem. É só por isto. – Ela disse a Edward, e sabia que não precisava falar mais do que aquilo pra que ele entendesse que se referia a Jacob.
_ Não precisa me explicar nada. Eu sou seguro o suficiente pra saber que você é minha. – Ele olhou pra ela e sorriu, seu sorriso inexplicavelmente lindo. Veloz ele estava em cima dela, beijando sua boca e rindo quando ela enlaçou as pernas em sua cintura. – Minha! Minha felicidade! – Bella sorriu e se afastou dele somente pra arrancar a blusa. Depois de dias eles estavam a sós naquele casarão branco, todos estavam em caça.
Pra agonia do jovem lobo Caleb, todos os Cullens haviam voltado pra Forks e, mesmo respeitando os limites das fronteiras quileutes, o cheiro deles infestava tudo. Caleb odiava, Sarah sempre o ouvia reclamar.
_ Esta cidade já não tem bons ares. Insuportável sentir este cheiro e não poder morder cabeças! – Ele disse, com os dentes trincados. Sarah balançava a cabeça e ria.
Aquele lobo estava novamente em sua cola, Jacob havia posto ele pra vigiá-la, por causa de Isabella, mais especificamente.
_ Eu posso dar conta dela sozinha. Não meta o menino nisto! – Sarah disse pra Jacob, já havia se acostumado a ficar sem Caleb vigiando-a o tempo todo.
_ Posso tirar ele da sua cola, se você despachar logo o Charlie. Vai fazer isto? – Os dois conversavam por telefone naquele dia, Sarah estava no hospital.
_ Vou. Quando tiver que ser, eu vou. – Ela disse, bufando.
_ Então, as coisas continuam como estão! – Ele desligou, gritando com algum empregado do pavilhão. Sarah se conteve pra não quebrar o telefone. Odiava quando ele fazia aquilo!
Eles estavam se vendo pouco ultimamente, devido toda a correria. Ambos sentiam a angustia que isto provocava. Mas não confessavam, não com palavras, porém era impossível conter o brilho das retinas quando podiam se ver. Por vezes Jacob voltava tarde de uma ronda, sem esperança que ela estivesse em casa. Mas quando ela estava, Sarah saia de seu quarto, cobrindo-se com o roupão e, ainda que sonolenta, vinha lhe esperar ao topo da escada. Ela nem tinha consciência de como aquilo acontecia, mas seus pés simplesmente caminhavam pra ele quando podiam, independentes.
Jacob elevava os olhos pra ela e engolia em seco, sempre. Mas logo depois sorria, escondendo os dentes, mas com os olhos cintilando. Não precisava dizer mais nada, não precisava sequer uma explicação. Ele caminhava até ela e envolvia os braços em sua cintura, apertando-a em um abraço. Ele sorria assim que a escutava gemer baixinho, se satisfazendo em meio ao seu calor. Beijava-a, suave e brando, e se despedia.
_ Boa noite… — Ele sussurrava.
_ Boa noite… — Ela respondia, soltando lentamente da mão dele e indo para o seu quarto, enquanto ele ficava lá, esperando ela fechar a porta.
Houve dias que uma inquietação tomava conta de Sarah, e ela tinha vontade de voltar em seu caminho, de abrir a porta e de ir ao encontro dele… Mas tinha medo, algo lhe embolava na garganta e parecia que seu coração tinha uma arritmia. Ela ia ao banheiro, lavava o rosto, andava de um lado a outro, se deitava e… pensava nele, sempre, ininterruptamente, pensava nele! Ela se lembrava do sorriso, o mau e o calmo, o irônico e o involuntário… se lembrava do toque, do calor, da textura da pele, do timbre da voz, do ruído da respiração, dos cílios e da boca… do abraço… da língua.
E passou a ser um buraco negro, uma força aterradora que a puxava pra ele e, por vezes o pânico tomava conta dela ao se dar conta disto. Se dar conta que tinha vontade de se perder nele, tinha vontades que ela pensou ser extintas em si. Lidar com aquilo lhe dava medo, lhe confundia.
“…mas não será a ordem que me fará estar lá …no altar…” Ela recordava.
Jacob parecia compreender, de uma maneira mágica, toda a confusão que estava na cabeça de Sarah. Não ousou se aproximar mais do que ela lhe permitia. Embora quisesse ir além, sim. Ele ouvia, pelas noites que se seguiram, as inquietações de Sarah em seu quarto, o chuveiro sendo ligado na madrugada, água sendo colocada dentro do copo, o remexer do corpo na cama e, até mesmo, soluços abafados. Tinha vontade de invadir o quarto, mas não o fazia. Apertava os olhos e se deitava imóvel e rígido em sua cama, só adormecendo quando a respiração dela se acalmava.
De repente, as inquietações internas eram tantas, que as palavras se travavam em suas gargantas e diante um do outro eles não conseguiam manter uma conversa neutra, não podiam ao menos se falar. Ficavam em silêncio, agoniava.
_ Não me olhe assim… — Ela disse, certa noite, quando fazia comida e ele parou a suas costas, encostando-se na porta cozinha e, simplesmente, observando-a.
_ Só posso deixar de te olhar assim se eu ficar cego, Sarah! – Ele disse, um tanto irritado, e saiu dali, para mais uma das “reuniões de noivos”.
Sarah ergueu a cabeça e correu atrás dele, lhe pegando o braço. Ele voltou-se para ela, confuso, mas ela só ergueu os pés e fechou os olhos, encostando seus lábios nos dele. Outro beijo, mas desta vez ele não se conteve, não quis se conter, agarrou a cintura dela, a apertou junto de si e a beijou quase com fúria, fazendo a coluna dela arquear para trás. Era necessidade.
Mas de repente ele parou, a afastou de si rispidamente, deixando-a cambalear tonta com a intensidade do beijo e a sua inesperada ruptura.
_ O que foi… ? – Ela perguntou, encostando-se ao móvel mais próximo e passando as mãos trêmulas pela testa.
Jacob olhou pra ela, fixamente, e o que havia nele assustou Sarah, ela se encolheu. Era uma chama, desejo puro. O cheiro de Jacob ficou mais potente pra ela, mais insinuante.
_ Jake… eu… eu… — Ela queria dizer algo ao ver ele naquela situação, sabia o que causava aquilo nele, ela era adulta o suficiente pra perceber, mesmo que ele fosse muito bom em esconder… as vezes… – Não houve mais nenhuma? Nenhuma outra, desde… desde que… viemos pra La Push? – Ela perguntou, abaixando os olhos.
_ Não, nenhuma outra Sarah… nenhuma outra mulher… — Ele sussurrou, tremendo.
_ Quanto tempo? – Ela perguntou, estavam se referindo a necessidade que o corpo dele exalava.
_ Não sei mais… cinco meses talvez… — Ele não olhava pra ela, e Sarah tinha novamente o peito palpitando.
_ Sente… falta? – Ela perguntou, com algo arranhando sua garganta.
Jacob balançou a cabeça e riu, um riso quase dolorido.
_ Não é isto! Não sinto falta disto. Não é mais o que eu quero.
Sarah estava confusa, olhou pra ele sem entender, com uma clara indagação nos olhos.
_ O que? O que você quer então? – Ela perguntou. Jacob largou as mãos para o alto e as levou para a cabeça, puxando os cabelos atrás da nuca. Depois ele parou, respirou fundo e foi na direção de Sarah, caminhando devagar.
_ Por que eu vou esconder? Por que eu vou tentar fazer isto? – Ele sorriu e pegou os braços dela, acariciando-os e fazendo a pele dela se arrepiar. – Eu quero você, Sarah. Você!
O corpo de Sarah sacudiu mais fortemente e seus olhos pareceram perturbados, logo se enchendo de lagrimas. Jacob a puxou, aninhando-a em um abraço, ela soluçou, as lágrimas escaparam de seus olhos.
_ Shiiiii... Não fique assim… — Ele disse. – Se acalme…
_ Jake… eu… eu não…
_ Shiii... – Ele sussurrou novamente, e logo a silenciou com um selinho nos lábios. – Olhe pra mim… — Ele pediu, ela abriu os olhos, tendo de ser aparada por ele para manter-se de pé com as pernas tremendo como estavam. – Sarah… Você vai ser minha… E eu vou esperar… esperar até que você venha até mim. – Ele voltou a lhe abraçar e lhe beijou o topo da cabeça. Logo depois se afastou, andando rapidamente para fora da casa.
Sarah caiu no chão, desabando, literalmente.
“Você vai ser minha… E eu vou esperar… esperar até que você venha até mim…”
Aquela declaração pareceu impregnar em cada um de seus poros. Ela aparteou o ventre com as mãos, tentando conter o frio que lhe subia. Ela não sabia o que pensar, não sabia o que seu coração tentava lhe gritar, aquela voz distante ou apavorantemente próxima… Logo ela não só ouviria aquela voz, como a deixaria sair de si.
****************
_ Então? Está tudo certo por aqui? – Sarah perguntou, entrando no quarto de Charlie e encontrando os enfermeiros lhe ajudando com as muletas.
_ Perfeitamente doutora. – Ele falava mais devagar que o comum, sua fala ainda não estava absolutamente fluente, faltaria algumas seções de fonoaudiólogo ainda, mas Isabella seria a responsável por estes cuidados agora, Sarah já havia feito por Charlie muito mais do que costumava fazer por seus pacientes. O visitava mais que o comum, acompanhava de perto todo o seu progresso na fisioterapia, monitorava a alimentação, até o fazendo comer as sopas que ele dizia odiar. Agora ele estaria indo embora. Era o dia, era a alta.
_ Então está pronto para ir pra casa Charlie? –Ela perguntou, sorridente, enquanto assinava a alta na frente de Charlie. Os enfermeiros deixaram Sarah e Charlie a sós, saindo em direção ao corredor. A médica não entendeu, quase os chamando de volta para que eles auxiliassem na saída de Charlie, mas este lhe fez um sinal, a chamando.
_ Preciso… falar… com você, Sarah. – Ele pediu, lentamente, e ela entendeu que Charlie deveria ter pedido para que os enfermeiros saíssem antes que ela chegasse.
_ Bom, eu… estou toda a ouvidos. – Ela sorriu, já acostumada com Charlie lhe chamando pelo primeiro nome.
_ Eu sei que você não deixou minha filha me visitar pelo que ela é… e não por uma doença qualquer… — Charlie sussurrou, pronunciando silaba por sílaba pausadamente.
_ Charlie… — Sarah tentou argumentar, mas tinha se assustado com a objetividade dele. Quase pensou que ele não sabia da condição sobrenatural de sua filha. Ele lhe interrompeu.
_ Não precisa dizer nada… eu… eu só queria te agradecer, pelo que fez por mim, apesar de não … “simpatizar” muito com minha família.
Sarah se aproximou dele e sorriu, pegando-lhe a mão.
_ Não precisa agradecer. Fiz porque quis. E valeu a pena. Você é uma pessoa boa Charlie, merece cuidado.
Charlie apertou a mão dela, sorriu de um jeito torto, tentando mexer os músculos ainda rígidos de sua face.
_ Você que é uma pessoa boa, minha filha. Boa demais. Nunca vou me esquecer do que fez, das vezes que você ajeitou meus travesseiros na cama e das vezes que colocou meus pés um na frente do outro com as… próprias mãos, na fisioterapia. Muito obrigada minha filha! – Charlie finalmente terminou sua fala e parecia um tanto desconfortável por se expressar daquele jeito, não perecia fazer parte da personalidade dele aquele tipo de atitude.
O sorriso da morena ficou mais largo e ela, suavemente, abraçou Charlie, envolvendo-o com ternura.
_ Fique bem Charlie! E inteiro! Agora não está mais em minhas mãos. – Ela disse, ele apenas balançou a cabeça. – Agora vamos? Sua família está esperando na frente do hospital, conforme o combinado.
Charlie se saiu do abraço caloroso e pegou suas muletas.
_ Quer que eu chame ajuda? – Sarah perguntou, mas Charlie negou.
_ Quero ir andando.
E assim eles foram. Sarah sabia que Bella não estaria ali, somente Edward e os da sua família que fossem mais controlados, para poderem resistir ao cheiro da médica. Lentamente eles chegaram às portas do hospital. Edward saiu de seu Mercedes do ano e sorriu ao ver Charlie passar pela porta, logo depois veio de encontro de Sarah e do sogro.
_ Charlie! Fico feliz que está bem, saindo daqui. Bella está preparando tudo para a sua chegada em casa. – Edward falou ponderado, Charlie acenou com a cabeça para o genro. – Doutora, obrigado por tudo o que você e sua equipe fizeram.
Sarah deu um meio sorriso, mas estava com os olhos fixos dentro do carro, encarando retinas cor de chocolate que também estavam fixas nela. De dentro do carro de Edward vinha o som leve e ritmado de um coração batendo em alta velocidade. O rosto que lhe encarava parecia ser de um anjo. Era sereno, com traços perfeitos, cabelos anelados e compridos de suave cor ruiva. A moça anjo desceu e Sarah teve receio e uma outra emoção que ela não soube definir. Que criatura era aquela?
_ Charlie! Se lembra de mim? – A moça disse, sua voz lindamente aveludada. Ela se aproximou e o cheiro doce e brando veio até as narinas de Sarah. Pelos traços que ela tinha, a médica pode ter certeza que se tratava a filha de Edward e Bella. A meia vampira.
Uma espécie de agonia lhe vinha conforme ela se aproximava dela e de Charlie, cada vez mais perto, com o andar suave. Os músculos de Sarah ficaram tensos, ela apertou as mãos em punho e endureceu o olhar. Edward percebeu a súbita reação de Sarah. Tentou conter Renesmee para não ir de encontro com Charlie, mas a menina não percebeu e, assim que recebeu o sorriso acolhedor do avô, um sorriso de aconchego e não de repúdio, o medo de ser rejeitada por sua “anormalidade” desapareceu e só o que havia era alívio. Charlie não estava rejeitando-a por ser uma meia vampira e isto era maravilhoso. Ela passou pelo pai sem perceber a hesitação dele e foi abraçar o avô.
Os olhos de Sarah se tornaram fendas quando aquela criatura envolveu Charlie com os braços, entranhando a cabeça perto demais de seu pescoço e inspirando. Sarah não viu a alegria de Renesmee, ela viu a ameaça para Charlie. Seu corpo reagiu quase em modo automático, ela se virou para os dois, quase subitamente, e elevou a mão para tentar separar Renesmee dele e…
“Não! Não toque nela… não a machuque, você não pode machucá-la!” Uma voz pediu em completo desespero em sua cabeça. A voz lembrou a voz de Jake, mas não era a voz de Jake, só parecia. Ela se virou, procurando a origem da voz ao redor, deixando claro o susto em sua expressão.
_ Sarah? Está tudo bem? – Edward lhe perguntou, mas ela apertou os olhos e voltou a olhar para a meia vampira, que praticamente sustentava o peso de Charlie com o braço ao seu redor.
_ Solte… — Sarah disse, dando um passo na direção da moça, mas assim que fez isto sentiu uma agonia absurda no peito.
“Não! Por favor! Você não pode negar um pedido meu! Não a machuque, guarde ela pra mim! Proteja ela por mim! Não machuque ela!” A voz pediu ainda mais conturbada, com um timbre doloroso e torturante. Sarah sentiu seu sangue parecer revolto dentro de si, como se outra alma estivesse dentro dela, fazendo ela sentir aquilo. Ela olhou novamente para os receosos olhos cor de chocolate e todo a desconfiança e ameaça que ela poderia ter pela meia vampira, caiu por terra. Ela sentiu uma vontade absurda de proteger aquela menina.
_ Como é seu nome? – Sarah sussurrou, e era como se outra pessoa quisesse saber daquilo, como se alguma pessoa dentro dela desejasse saber o nome daquela criatura.
Renesmee olhou pra Sarah completamente confusa, depois olhou para Edward e para o avô. Ambos estavam com a boca aberta, o humano doente e o vampiro cordato. Edward muito mais espantado por não entender metade das sucessivas reações da médica.
_ Renesmee… Renesmee Cullen. – Ela respondeu e sorriu tímida para Sarah. Inacreditavelmente Sarah sorriu de volta.
_ Cuide bem do seu avô. Vou confiar ele a você. – Sarah respondeu, de repente sentindo uma confiança no sorriso de Renesmee.
“Cuide dela… cuide dela até que eu chegue…” A voz, tão parecida com a de Jake, lhe sussurrou na mente, quase desaparecendo. Não havia explicação para aquilo, mas Sarah já via e ouvia tantas coisas inexplicáveis que não tentou entender.
Renesmee sorriu mais confiante e estendeu a mão para Sarah. Edward lhe direcionou um olhar de repreensão, mas ela ignorou.
_ Pode confiar! – Ela disse, de um jeito mateiro, com um sorriso largo e jeito de quem ganhava um doce. Renesmee se lembrava de seu pai lhe alertando para a hostilidade da médica e pelo cheiro singular e saboroso. Mas, naquele momento, Renesmee não sentia hostilidade vindo dos olhos da morena. O cheiro? O cheiro era bom, incrivelmente bom, mas não tanto capaz de fazer ela perder o controle.
Sarah olhou para a mão delicada estendida e sabia que o atestado de sua loucura seria dado caso pegasse aquela mão. Mas, novamente espantada, ela se viu apertando a mão macia e morna da hibídria. O toque lhe provocou um choque, seu corpo sentiu uma espécie de eletricidade sendo passada da meia vampira para ela…
“Você sentiu a alma dela… não se assuste… ela tem alma… completa o que os pais dela não possuem… você pode sentir a alma dela enquanto eu não posso. Proteja esta alma, ela saiu de perto de mim e está perto de você agora… Ela não é inimiga…”
Sarah largou a mão de Renesmee abruptamente, mais veloz do que poderia. Charlie percebeu, mas Edward e Renesmee arregalaram os olhos e passaram a encará-la desconfiados.
_ Eu… eu tenho que ir. Até mais ver Charlie! – Sarah virou as costas e entrou quase correndo no hospital, indo se refugiar na sua sala.
Sharon lhe disse qualquer coisa, mas ela não deu ouvidos, entrou com tudo no consultório e trancou a porta, encostando a testa nela.
Um sopro lhe veio na nuca e logo depois ela sentiu uma presença atrás de si. Olhou pra trás e quase gritou… Colocou as mãos na boca e tentou conter o pânico, mas era impossível. Ele estava lá, olhando pra ela com imagem fantasmagórica… bem ali, na sua frente.
O que estava acontecendo com ela? Por que ela estava vendo aquilo?
“Não se assuste…” Ele disse, e embora a imagem estivesse na sua frente, era dentro da sua cabeça que a voz ressoava. Outra voz, não a voz rouca e leve que parecia fazer parte dela, mas a voz dele.
_ Você está morto! – Ela gritou, mas não produziu som, sua boca se mexeu, mas nenhum som saiu. Ela se espantou, se virou e tentou destrancar a porta desesperadamente, mas a sombra de outra mão cobriu a sua. Uma mão com pele azulada, com desenhos que pareciam ter sido feitos por um artista mestre. Era uma imagem fantasmagórica também, ela não queria olhar quem era seu dono.
Forçou a fechadura com força suficiente para estraçalhá-la, mas nada aconteceu. Ela como se ela não tivesse relado na porta. Tentou gritar novamente, mas não conseguiu emitir som.
Jake… Ela pensou.
“Olhe pra mim, meu amor! Minha princesa… é o único momento que poderemos. Só agora! Olhe pra mim…”
O elfo morto pediu… ela nunca tinha ouvido aquela voz tão perto, tão de dentro, mas sabia, era a voz de seu pai. Temerosa ela ergueu os olhos, encontrando o sorriso magnífico de Lairon e os seus próprios olhos colocados em outras orbitas.
_ Pai… — Ela choramingou e, naquele momento, pode ouvir o som da sua voz.
“Não vai durar muito esta sua sensibilidade meu anjo. Mas você pode, pode ver almas, pode nos tocar, mas logo isto vai acabar… Algo não permitido aconteceu, o destino se concretizou… acontecerá, eles virão e eles virão através de você, minha filha.”
_ Pai… pai…- Sarah deu passos na direção do elfo Lairon, mas ele se afastou.
“Não posso meu amor, não posso deixar que me toque. Não pertenço ao seu plano. Só entenda…
_Entender o quê?
“O motivo pelo qual nos vê, Sarah.” A outra presença, que Sarah quase havia se esquecido que estava ali, lhe falou novamente. Ela respirou fundo e encarou os olhos do garoto vampiro que ela viu Leah matar. Henrique!
“Você é humana suprema… sensível a nós… você pode ver além do que vive, por isto eu fui até você. Sarah, minha alma está presa. Eu preciso me libertar, eu fui morto como vampiro, como eu existe outros. Vim em nome de todos eles…”
Sarah sacudiu a cabeça.
_ O que está acontecendo? – Ela perguntou desesperada para a figura magnífica do pai.
“Meu amor, você e todos que em você se completam, serão capazes de livrar, de entender muitas destas almas… destas que estão presas… Nem Quendra entende isto, ela não pode entender. Mas será inevitável… É você, minha filha, você é a detentora da preciosidade… haverá guerra…”
Sarah não podia compreender tudo o que o pai lhe dizia, a voz dele desaparecia e sumia, ela escutava somente fragmentos.
_ Pai eu não entendo… Não consigo entender… Por que eu vejo tudo isto? Por que eu vejo este vampiro destruído?
“Hoje você pode nos ver, porque sua sensibilidade está maior, você foi tocada por uma alma… uma alma um tanto atrevida. Ela fugiu de nós… Mas ela fugiu porque vocês deram o aval, algo está se unindo… Finalmente… por isto aquelas almas estão cada vez mais perto da condição humana…”
Lairon disse sorridente, com um brilho orgulhoso nos olhos.
_ O que? Eu não entendo! – Sarah exclamou exaltada, quase gritando. Tinha vontade de se beliscar, pra sair daquele sonho pitoresco.
“Você pode me ver… eu lhe agradeço que você tenha me entendido… eu nunca quis, nunca quis me alimentar de outros humanos… eu nunca quis ser um vampiro… Você sabe agora como somos. Você é uma das poucas que saberá reconhecer uma alma digna de ser salva… Você reconheceu, tocou a alma dela… de Renesmee…” Henrique lhe disse, a imagem dele quase desaparecendo. Mas Sarah parou e sacudiu a cabeça furiosa.
_ É loucura! É mentira!
“Não é mentira meu amor… não é! Você nos vê, estamos aqui, juntos de você neste momento. O entendimento só vira com o tempo, mas de agora adiante, confie naquilo que você sente, naquilo que você vê Sarah… Esteja firme meu amor, esteja preparada para o que virá!”
A voz de Lairon se tornou quase inaudível, Sarah queria que tudo aquilo parasse, mas ao mesmo tempo não queria. Ela queria que seu pai falasse com ela só mais um pouco. Ela queria sentir o amor em sua voz quando ele a chamava de filha…
_ Do que você está falando pai?
Ele balançou a cabeça e sorriu:
“Fico feliz pelo rumo que está seguindo. Ficamos com medo de que se perdessem. Ele conseguiu, ele abriu as portas do seu coração… Você também fez isto… agora você sentirá… Vocês estarão juntos… você sentirá…”
A imagem do vampiro Henrique desapareceu por completo e a do seu pai se tornou quase transparente.
_ Pai, espera! Não faz isto, não desapareça! O que você quer me dizer? Eu não entendo! O que?
“Seja feliz no seu casamento… estaremos te abençoando…” Naquele instante a voz se tornou dupla, dobrada em um dueto com outra voz, uma voz feminina… a voz de Laura, sua mãe. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Sarah e a imagem de Lairon desapareceu. O som externo do hospital veio com força aos seus ouvidos, ela sentiu um solavanco dentro do peito, seu coração se sacudiu.
Ela estava sozinha novamente, não havia nada em seu consultório. Olhou para a porta: estava intacta e fechada. Ela levou as mãos pra lá e, um tanto tonta, girou a chave. A porta se destrancou facilmente. Poderia ter sido ilusão?
No mesmo instante que ela pensou aquilo, uma brisa passou por ela, um perfume singular e calmante se fez sentir. Era o cheiro de seu pai, ela tinha certeza. Havia sido real.
“Confie naquilo que você sente… confie naquilo que você vê…”
Sarah voltou a fechar a porta do seu consultório e se sentou, encolhendo-se como menina na sua confortável poltrona. Aquilo foi um prenuncio, um prenuncio de muitas coisas que ela passaria em sua vida, Sarah sabia. Coisas que ainda não faziam sentido, mas que a envolvia… e talvez envolvesse Jacob também… Ela fechou os olhos e tentou clarear a mente, recuperar o controle, perder o medo.
A primeira imagem que lhe veio à mente foi a de Jacob, sorrindo pra ela, acariciando seus cabelos. O conforto se enraizou nela quase imediatamente, fazendo-a sorrir. Agora ela sabia, sabia a fonte da sua força, do seu sentir. O que quer que ela tivesse pela frente, valeria a pena enfrentar.
Agora ela sentia!
Notas finais
P.S.: pra quem já leu, estes cap. sofrerão algumas alterações.
Bjs....
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