The Precious Blood
59 O OCULTO SE DESVELA - Parte I
Notas iniciais
"Segure em minhas mãos,
Os portões se abriram para uma nova era.
Tudo o que verá daqui para frente são montanhas e abismos,
Todavia teus poderes são novos.
Porém da mesma terra que comeu nossa antiga carne,
Nasce a vida paciente,
Que tudo suporta e tudo espera.
Já é hora; vamos entrar pela entrada das sete chaves.
Sorrir talvez seja doloroso.
Talvez tu grites por conta de algumas chagas,
Como eu também gritaria.
Nem tudo deve ser fácil,
Mas deve ter sentido.
Viva com a paciência de quem espera
O Sol numa noite de inverno.
Vá, e não se esqueça de que tu não está sozinho.
Guarde para si o segredo das chamas e dos infernos,
Que toda dor jamais será em vão.
E, quem sabe num futuro distante, chegaremos a um glorioso destino."
By Rhodys de Rodrigues Sigrist – Versão adaptada.
Um mês depois...
Era um pesadelo. Não tinha como ser realidade. Mary não acreditava em nada daquilo, os boatos na televisão e internet, o pânico das pessoas, as notícias corriqueiras nos jornais: nada daquilo fazia sentido. Tudo só podia fazer parte de uma psicopatia mundial. Alguma seita de desocupados que resolveram brincar com a imaginação das pessoas e que ganhou adeptos em todo o mundo.
O problema era que antes somente os noticiários mais sensacionalistas se valiam da desculpa de criaturas sobrenaturais e ocultismo para justificar os números cada vez maiores de mortes e desaparecimentos. Porém agora, grandes e respeitados jornais e veículos de notícia discutiam em suas matérias as mesmas coisas: criaturas sobrenaturais... vampiros!
Mary, secretária, 30 anos, sem filhos, jamais acreditaria que vampiros ou qualquer outro tipo de monstro existisse. Tal como ela, muitos se mantinham firmes na convicção de que tudo era mentira. Eram os céticos, os mais apegados a certeza de supremacia humana, da exclusividade da raça animal sobre a Terra. Estes se esquivavam dos fatos absurdos que as notícias apresentavam, chamavam de loucos aqueles que relatavam experiências estranhas.
No entanto, era impossível que qualquer humano negasse os tempos sombrios que pairava sobre o seu mundo, antes tão regrado, tão controlado. Mortes e mais mortes, pessoas enlouquecendo, alegando visões e experiências inexplicáveis diante de qualquer pensamento racional...
... Desaparecimentos e o medo se enraizando e se alastrando por todos os cantos do mundo, sob todas as formas. Os humanos se sentiam no escuro, suas certezas, tão firmadas naquele século XXI, começavam a ruir pouco a pouco. Eles tinham medo do que não conheciam. E deste medo ninguém podia fugir.
E haviam armas, bombas, radares… Mas o perigo estava nos becos mais escuros, além do lugar onde as vistas humanas podiam enxergar, mais rápidos do que pudessem pensar em atirar.
Algumas cidades eram mais atingidas por ataques e mortes, mas os avanços tecnológicos e a rapidez com que as noticias se disseminavam ajudava a espalhar o pânico para o mundo todo. Seattle era uma das cidades que mais sofriam com ataques, mortes, desaparecimentos e fatos inexplicáveis. Tanto que durante a noite as ruas ficavam desertas, todos os estabelecimentos fechados... a cidade parava. Cético ou não, poucos ousavam demais naqueles últimos tempos.
Exceto Mary. Ela parecia sentir necessidade de provar a si mesma que tudo aquilo era só uma fase negra da humanidade. Um absurdo retrocesso de inteligência humana.
Até aquela noite.
Ela saiu da empresa tarde, adiantando seu trabalho para o dia seguinte. Mas por uma tremenda falta de sorte, seu carro parou de funcionar de um momento a outro, no meio de um beco qualquer de Seattle. Os amigos haviam a alertado sobre não ficar até tarde fora de casa, mas ela não dava ouvidos aquilo.
Não fazia sentido este medo por coisas infundadas. Mas foi ali, naquele beco vazio, que a prova viva de que nada do que corria pelas notícias era mentira lhe foi dada. Foi ali que Mary se arrependeu de não ter acreditado no que lhe diziam.
_ Precisa de ajuda, princesa? – Uma voz melodiosa lhe disse, enquanto ela tentava, inutilmente, chamar socorro pelo celular sem rede. A cidade estava parada ás dez da noite.
Ela poderia sentir alívio por aparecer alguém, quando quase a cidade inteira estava se refugiando em suas casas. Mas tudo o que ela sentiu ao ouvir a voz foi medo. Puro e genuíno. Ela tentou se acalmar, repetindo em pensamento que para todos os efeitos, poderia ser algum policial que vistoriava o local e a ajudaria.
Mas seu coração acelerou de um segundo a outro quando, rápido demais, sentiu a presença de um homem fungando seus cabelos ruivos.
_Deliciosa… — ele sibilou ao pé do seu ouvido, dedos gélidos passando levemente pelo braço da mulher. Gelado demais para uma noite amena como aquela.
Mary engoliu em seco, apertou os olhos e rezou fervorosamente. Sentiu a presença longe de si. Tal como havia aparecido, o homem desapareceu de perto dela. Mary se virou e sondou o lugar escuro. O medo fazendo seu corpo parecer gelatina. Não havia ninguém. Ela respirou fundo, tentando se convencer de que tudo não havia passado de um devaneio de sua mente cheia de bobagens.
Mas por via das dúvidas ela iria sair dali. Se abaixou, arrancou os saltos e saiu quase a correr do beco, procurando a área residencial próxima dali. Mas então, ela escutou uma explosão e as luzes dos poucos postes que iluminavam o seu caminho desapareceu. Com a adrenalina a comandar suas ações, Mary gritou de susto, largou os sapatos e se pôs a correr.
Assim que ela ouviu uma risada escancarada atrás dela, muito perto, ela soube que sua vida dependia daquela corrida. Logo ela podia vislumbrar um vulto a rodeando, fazendo-a desviar do caminho e indo, sem perceber, para um local cada vez mais afastado da área populosa de Seattle. Quando ela se deu conta disto, já parecia tarde demais.
Continuou a correr, mas logo soube ser inútil, quando um homem começou a aparecer do nada em sua frente. Não importava o lado que ela corresse, o homem estava lá: rindo. Apesar da escuridão, Mary pode ver os olhos vermelhos cintilantes cada vez que dava de frente com a criatura, assim como os dentes brancos e perfilados se mostrando para ela. Ela começou a chorar em seu pânico e a gritar por socorro, ao ponto que seu perseguidor ria cada vez mais alto.
Só podia ser um pesadelo… e ela precisava acordar antes que tivesse um enfarto.
_ Chega de brincar. – Ela o ouviu dizer e no segundo seguinte estava presa. Era como braços de aço ao seu redor, lhe esmagando com uma força absurda. Mary sentia que se ele apertasse um pouco mais, poderia espatifar todos os seus ossos.
Ela chorava e se debatia descontroladamente, mas era inútil. Sentiu algo como pedra de gelo acariciar sua coxa e subir a saia de seu vestido.
_ Não! – Gritava inutilmente, mal sabendo que seu desespero aumentava o prazer assassino do seu perseguidor.
_ Gostosa em tudo. – A voz branda sussurrou em seu ouvido. – Excelente caçada hoje.
O vampiro girou a mulher para frente dele, exibindo seus dentes e sua expressão de monstro sedento para aumentar seu pânico. O cheiro de medo que vinha dela parecia deixar tudo mais saboroso. A moça gritou mais, porém o vampiro se preparou para dar o bote final, já vislumbrando o ponto pulsante da jugular.
Inspirou profundamente antes de mordê-la, mas foi aí que identificou um cheiro estranho. Havia mais alguma criatura ali. E não era humana ou vampiro. Porém o predador não teve tempo de fazer mais nada. Um rugido cortou o céu de Seattle e Mary caiu no chão, seu predador havia sumido. A moça abriu os olhos a tempo de ver o vampiro ser imediatamente destruído por uma imensa criatura.
Sua boca se abriu sem voz assim que o animal glorioso e imenso voltou-se para ela. Tinha olhos negros que exalavam um poder aterrador. Perturbada, a mulher não resistiu e perdeu os sentidos. Logo após um tempo ela voltou a ser envolta por braços de aço. Mas estes eram muito mais quentes.
_ Vou levá-la pra casa. – A voz grave disse aos outros. – Façam o cerco sobre Seattle. Há outros pela cidade.
Os outros dois lobos concordaram, sem questionamentos, a ordem do Alpha.
_ Seth avisou que estão limpando a área de Port Angles. Forks está por conta dos Cullens e La Push estão com as garotas vampiras e os lobos mais jovens. Sarah está selando o maior numero de casas em Port Angeles. – O outro lobo, recém chegado ao círculo anunciou.
_ Certo, Paul. – Jacob disse, acomodando a mulher ruiva nos braços. A pulsação dela voltava ao normal aos poucos, breve despertaria. – Voltem ao trabalho.
Os lobos se afastaram. Jacob segurou a mulher com apenas um braço e com o outro, acendeu o isqueiro que trazia no bolso do jeans, ateando fogo nos restos mortais do vampiro recém-criado. Aquele era um dos piores, pela forma como o cheiro do medo de Mary estava alastrado no lugar, ele a havia feito o temer quase ao ponto de enlouquecer.
Acomodando a moça melhor em seu braços, Jacob se preparou para novamente vê-la e reparar na mulher que um dia fora sua amante. Mary… sua secretária ruiva. Não fazia mais de um ano a ultima vez que a teve em uma cama, mas aquilo parecia absurdamente distante de si, daquilo que havia se tornado. Mas o destino, caprichoso como nunca, a colocou em seus braços novamente... talvez para que ele pudesse reparar o erro de tê-la feito um objeto de prazeres fugazes.
O alpha caminhou com passos seguros ao lugar que sabia que ela morava, esperando que não tivesse se mudado. O prédio não estava muito longe dali, logo chegou com ela nos braços. De fora dos portões pode ver o porteiro se desesperar com a visão de um homem carregando uma mulher desmaiada.
_ Abra! – Ele disse, pausadamente, usando o tom de Alpha sem esperança de ser obedecido.
De dentro da guarita, o homem paralisou, talvez de medo, talvez apenas por não saber o que fazer. Impaciente, Jacob esticou a mão e forçou o portão, abrindo-o sem grande esforço. Aquilo fez o porteiro se mexer, desaparecendo edifício adentro. Jacob não se preocupou com ele, seguindo até o elevador e subindo ao décimo terceiro andar com o cenho franzido. No saguão do prédio já pode sentir: vampiros, pelo menos dois, haviam passado por ali há algum tempo. Ele podia colocar Mary em seu apartamento, mas ela não estaria segura ali nunca.
Depositou a ruiva na cama que já conhecia, tentando não se lembrar de nada impróprio, e se dirigiu a janela do quarto. A noite estava bonita, iluminada, estrelada, mas estranhamente silenciosa para uma cidade daquele tamanho. Do alto da sacada, Jake sentiu novamente o medo por aquilo que quase não podia controlar.
Os lobos e os Cullens decidiram estender sua área de “proteção”, pois querendo ou não, havia uma infestação de vampiros por ali. Agiam pela proteção dos outros e de si mesmos. E os humanos tão perdidos, tão incapazes de ver ou agir de uma forma coerente. O Alpha suspirou com pesar.
Seus pensamentos foram interrompidos quando ouviu um suspiro atrás de si. Mary. Ele não podia abandoná-la ali, na frieza de um apartamento.
Por isto fechou os olhos e se concentrou. Pensou nela. Havia pouco tempo tinha descoberto este dom que se desenvolveu entre eles. Ela podia senti-lo, podia descobri-lo onde quer que estivesse e ir até ele, encontrá-lo sem precisar de nenhuma explicação, sem precisar ser guiada pra isto.
“O que aconteceu?” Rapidamente a voz dela soou em sua mente.
_ Estou bem. – Ele murmurou para o vazio. – Preciso dos seus dons.
Houve um momento de silêncio, ele só podia ouvir a respiração entrecortada de Mary e sua pulsação constante. Não tinha certeza se ela pode ouvi-lo. Jacob ainda não sabia como aquilo tudo funcionava, Sarah vinha se descobrindo cada vez mais poderosa, mas muita coisa de sua origem élfica ainda permanecia oculta.
Sarah não respondeu mais nada e Jacob desistiu de tentar algo assim que ouviu a mulher se mover atrás de si, despertando. Andando muito calmamente, ele se sentou na beirada da cama.
Mary abriu os olhos, piscou algumas vezes, mas logo sua pulsação se acelerou, ela começou a arfar. Tentou se levantar no impulso e gemeu ante uma dor que tomava todo o seu corpo.
_ O que…? – Ela sussurrou, confusa. Estava em seu apartamento? Tudo não havia passado de um pesadelo, realmente? Então de onde vinha a dor em seu corpo, como se ela realmente tivesse sido prensada pelos braços de um homem estranho…?
Ela tentou se mexer de novo, parecendo sentir mais dor, soltando outro gemido.
_ Evite se mexer. Está tudo bem agora. – Mary paralisou. Toda a linha de raciocínio que ela tentava montar se perdeu ao som daquela voz. Ela conhecia aquela voz. Seus olhos procuraram a fonte, confirmando suas suspeitas.
Eram os mesmos olhos negros, mas estavam diferentes. Havia uma força diferente naqueles olhos. Antes o olhar de Jacob era pesado, denso, carregado de uma espécie de rancor. Mas agora, seu olhar exalava um poder capaz de fazer Mary estremecer, uma profundidade que a fez se perder de si mesma ao primeiro contato com aquelas íris. De uma forma instantânea ela percebeu que ele estava acima de qualquer outra pessoa que tivesse conhecido antes, acima de qualquer outro humano.
_ Jacob? – Ela murmurou. A moça paralisou, o rosto voltou a empalidecer de repente, imcapaz de olhar para nada mais além daqueles olhos.
Depois ela sacudiu a cabeça devagar, como se negasse. Fechou os olhos apertados e começou a murmurar: – É só um pesadelo, tudo um pesadelo… pesadelo. Por favor Deus, me acorde… um pesadelo.
Ela começou a balançar o corpo para frente e parar trás, a despeito da dor aguda em seus músculos, até sentir mãos quentes e suaves em seus braços. Um toque quente demais, em completa oposição ao outro toque que recebera… gelado demais. Nada daquilo poderia ser natural.
_ Um pe-sa.... pesad... – Ela começou a chorar histérica em seu murmúrio e Jacob viu novamente os efeitos que o mundo sobrenatural tinha sobre alguns humanos. Ela estava a beira de um colapso.
O toque quente cessou, Mary abriu os olhos para ver ao redor. Não havia ninguém com ela, era só o seu quarto. Mas então ela viu a silhueta na cozinha. Gritou.
_ Mary. Mary! Pare! Está tudo bem agora. Sou eu, Jacob Black. Não vou te fazer mal. – Num instante ele estava na sua frente, lhe afagando os braços e dizendo palavras de conforto em um tom macio, que ela jamais havia ouvido de Jacob Black antes. Jamais.
_ Tome. Tome isto. – Ele tornou a dizer, lhe estendendo um copo cheio do que parecia ser água. Ela continuou a soluçar, ao ponto que Jacob insistiu com ela, pegando suavemente em sua nuca e ele mesmo levando o copo até seus lábios, com delicadeza extrema. – Tome, é pra te acalmar.
Soluçando, com os grandes olhos verdes encarando Jacob, ela tomou dois ou três goles da água doce que ele lhe oferecia.
_ Só mais um pouco. – Ele insistiu, mas a moça recuou, voltando a se recostar em sua cama.
Jacob via nos olhos dela inúmeras perguntas, mas não sabia como responder a elas sem que Mary recordasse todo o pânico que viveu há menos de uma hora. E ele não sabia como devia proceder. Poderia deixá-la a própria sorte e sair dali. Mas sentia que não devia. A ultima vez que se viram ele lhe dera as costas enquanto ela chorava. Por causa dele. Jacob sentia um certo dever de reparação para com ela.
_ O que… que aconteceu? – Ela finalmente perguntou, com a voz chorosa e trêmula, mas parecendo um pouco mais calma.
Jacob respirou fundo.
_ Do que se lembra? – Perguntou, sondando.
Mary lhe olhou, novas lágrimas de pânico inundaram seus olhos. A moça enterrou os dedos entre os cabelos e apertou os olhos. Jacob sentiu o cheiro do medo dela se disseminar pelo ar. Provavelmente se recordava dos detalhes.
Mas então o ambiente pareceu mudar para Jacob. Ele sentiu uma eletricidade lhe pulsando nas veias e soube imediatamente que Sarah estava perto. Ele mal entendia como ela havia chego ali tão rápido, mas ela estava ali. Antes mesmo de ouvir seus passos, sentia seu cheiro mais perto dele, seu coração batendo mais veloz em reconhecimento.
Não demorou muito ele escutou passos no corredor.
_ Jake? – Ela murmurou.
_ Aqui.
Ele se levantou e abriu a porta do apartamento de Mary bem em tempo que Sarah apareceu em frente a ela. Sarah o escrutinou com o olhar, como se procurasse algum arranhão, a sensação de perda ainda não a tinha deixado completamente. A quase morte de Jacob foi algo grande demais para que ela se esquecesse tão facilmente.
_ Estou bem. – Jake disse, com um sorriso nervoso. Ele não parecia tão bem. Sarah se precipitou para dentro e foi então que sentiu o cheiro. Seus olhos se fecharam em fendas, passou direto por Jacob até chegar ao quarto e ver Mary, a ultima amante de Jacob, deitada na cama.
Jacob a seguiu e teve receio ao ver os punhos de Sarah cerrados. Mary esbugalhou ainda mais os olhos e encarou a mulher de postura tão ameaçadora a sua frente. Ainda que estivesse com a mente turva, reconheceu-a. A morena não estava tão impecavelmente vestida como naquela festa, não havia resquícios de maquiagem em seu rosto, mas era a mesma postura de dona do mundo, a mesma beleza pura e inalcançável, o mesmo olhar denso.
_ Por que está aqui? – Sarah murmurou entre dentes. Jacob soube que a pergunta era para ele.
_ Fazendo o que devo fazer. Protegendo humanos de ataques.
Sarah suspirou.
_ Pensei que tudo se resumisse a matar as criaturas que pudessem atacá-los.
Sarah sabia que estava sendo irracional, sabia muito bem o motivo de Jake estar ali. A moça a sua frente estava péssima, ela sentia o medo, ansiedade e terror exalando da humana, atingindo-a como em ondas. Ele seria incapaz de abandona-la naquele estado.
Mas ela não podia se controlar, o gosto amargo do ciúme e rancor estava em sua boca, seus sentimentos, aliás, andavam muito mais voláteis ultimamente.
_ Faça que ela esqueça. Proteja o apartamento. – Jake pediu para que Sarah fizesse aquilo que podia fazer, mas ela engoliu em seco.
_ Não posso. – Ela virou as costas para Mary,que ainda permanecia muda em cima da cama, e encarou Jake. Ele rebateu o seu olhar sério, apesar de ele estar lhe pedindo algo, era inegável que ele colocava certeza em seu tom. A contra gosto Sarah era obrigada a enxergar razão em seu pedido. Mas ainda assim, negou. – Não sou capaz de fazer ninguém esquecer nada, este é um truque que Koraíny ainda não me ensinou. E nem seria bom. Quanto mais ignorantes os humanos permanecerem, mais riscos eles vão correr. E não vai adiantar muito eu selar este lugar, tem vampiros neste prédio, há uma infestação na cidade, maior até do que em Forks.
Jake apertou a mandíbula.
_ Não é a melhor solução, mas temos que tentar algo.
Sarah desviou o olhar e confirmou com um aceno de cabeça. Sim, eles tinham que fazer o máximo que pudessem. Logo ela andou para Mary, fazendo esta se encolher involuntariamente. A morena ainda não sabia muito bem como controlar seus dons, mas descobriu que algumas coisas eram intuitivas. Colocou as mãos nas têmporas de Mary e capturou seu olhar.
_ O que vocês são? – Mary sussurrou, tremendo.
Sarah sorriu de lado. Mary pensou no quão linda e perigosa ela parecia com isto.
_ Não somos aqueles aos quais deve dedicar alguma preocupação. – Ela disse. – Se acalme agora.
De longe Jacob pode distinguir a voz de sua mulher mudar quando ela pronunciou a ultima frase, assim como o ambiente todo pareceu irradiar uma energia diferente. O cheiro do medo de Mary foi desaparecendo aos poucos, assim como seu coração foi desacelerando. Quando Sarah retirou as mãos de Mary ela estava visivelmente mais controlada.
_ O que sente? – Sarah perguntou já em outro tom. Fria, direta.
_ Dor. – Mary se limitou a responder.
_ O vampiro quase a esmagou antes mesmo de tentar mordê-la. Era um recém-criado, não tinha consciência da sua força. – Jacob disse, fazendo Mary lançar imediatamente um olhar brilhante em sua direção.
_ Vampiro?
_ Sim. Um vampiro. Existem muitos deles por aí ultimamente. Você foi atacada por um. – Sarah despejou aquilo pra moça impiedosamente, mas esta não se alterou, ainda sob efeito das influências de Sarah.
Depois disto ela se virou bruscamente, sem se importar em usar toda a sua velocidade, farejando o ar em busca do cheiro de um analgésico pra medicar Mary. Mas antes que pudesse chegar até onde queria, Jacob lhe agarrou o braço.
_ O que está sentindo? – Ele murmurou, enrugando o cenho. Sarah bufou. Sério que ele não sabia? Tinha acabado de chamá-la pra cuidar de sua ex-amante e não sabia o que ela estava sentindo? Ela só o encarou, mas titubeou quando enxergou certa mágoa brilhar no olhar dele. – Você duvida do que sinto por você? – A pergunta fez a morena engolir em seco. – Isto me ofende! – Jake quase rosnou.
Com um movimento brusco Sarah se desvencilhou dele com uma súbita vontade de chorar e gritar. Sentia-se sufocada e… enjoada.
Correu para o banheiro, lugar onde sentiu o cheiro de remédios. Mas fez isto rápido demais. Antes de chegar a porta parou abruptamente sentindo a cabeça rodar. Isto quase a fez perder o equilíbrio, se não fosse Jacob a lhe segurar quase imediatamente ela suspeitava que teria caído. Subitamente um cheiro novo encheu suas narinas: o cheiro do seu próprio sangue. O cheiro pareceu tomar conta de tudo, como se ela, repentinamente, estivesse vertendo sangue por todos os poros. Impossível! Seu estomago deu voltas.
_ Sarah? Amor? O que foi? – A voz de Jake ficou mais rouca e veloz enquanto perguntava.
Sarah fechou os olhos, mas aquilo não surtiu efeito. Deixou seu corpo tombar no de Jacob, se sentindo muito melhor ao ser envolta por seu calor. O cheiro de seu sangue parecia um mal agouro que a fez sentir um arrepio doloroso. E então, tão rápido quanto surgiu, o cheiro absurdo sumiu, ao seu redor só os odores de antes. Ela abriu os olhos, estranhando, temendo ver seu sangue escorrendo e manchando todos os lugares possíveis.
_ Sarah? – A voz de Jake tinha ficado mais urgente.
Respirando fundo, ela pode ver que tudo aquilo foi uma espécie de alucinação. Ainda estava um pouco tonta, mas não ao ponto de perder o equilíbrio.
_ Eu estou bem. É só que ando abusando de mim mesma, não durmo a mais de 40 horas, não comi direito hoje e ando gastando muita energia. É isto. – Disse, baixinho, querendo acalmar o marido.
Se sentindo mais segura ela se virou para ele e sorriu. Jake não correspondeu.
_ Só vou dar um analgésico pra ela, cuidar de proteger este lugar e vamos embora, okay?
_ Não acho bom você usar mais magia. – Ele disse, desconfiado, os braços ainda a prendiam fortemente contra si.
_ Uma a mais ou a menos não vai fazer diferença. – Ela deu de ombros, salpicou um beijo nos lábios quentes e se afastou andando devagar.
Jacob observou enquanto Sarah medicava Mary e lhe dizia algumas palavras tranquilizadoras em uma espécie de hipnose.
_ Existem muitos outros preocupados em acabar com os vampiros, empenhados em fazer os ataques diminuírem. – Ela disse, novamente cordata, lidando com Mary como se ela fosse uma humana qualquer.
Logo depois ela “sugeriu” que a ruiva dormisse, o que não demorou a acontecer.
_ Eu preciso que você saia Jake. – Ela pediu, já com o olhar distante, o semblante concentrado.
_ Tem certeza que pode fazer isto? – Ele disse, se aproximando. Ela apenas acenou que sim.
Jake se abaixou e deu um beijo terno em sua testa. Mas antes que pudesse sair pela porta Sarah voltou a murmurar.
_ Saia do prédio. Vou tentar estender a magia o mais longe que puder.
Jacob franziu o cenho, com receio de que ela voltasse a passar mal, mas ela lhe sorriu.
_ Eu posso fazer isto. Confie em mim.
Jake reparou no brilho diferente que tinha em seu olhar, na voz suave e segura que tinha, na forma como seu cheiro se desprendeu como um encanto poderoso. Mal pode responder e se afastou. E quando ele saiu, Sarah voltou-se para si mesma.
Há um mês ela estava sendo treinada pelos elfos para assumir um posto que estava vago depois do sumiço inexplicável de Quendra. A morena ainda se recusava a admitir que a elfo desaparecera de um momento a outro, abandonando-os no momento mais tenso e complicado de todos. Ela e nenhum dos outros elfos conseguiam entender. Eles haviam tentado se comunicar com a rainha por incontáveis vezes, mas sempre eram repelidos em certo ponto, era como se a elfo estivesse além do alcance de qualquer um deles.
Sarah respirou fundo e buscou em sua mentes os últimos ensinamentos dos elfos:
“Tudo está em você. O poder e a fonte para alcançá-los. Basta se concentrar”.
Ela se lembrou das palavras de Koraíny enquanto ele lhe ensinava a magia que estava prestes a realizar. Algo muito antigo, que há séculos atrás foi usada pelos elfos, mas que há muito não era praticada. Era a magia que resguardava os lares em que residiam humanos. Estes eram selados e nenhuma criatura não-humana poderia invadi-lo sem permissão.
“O livre arbítrio dos homens. Este é o limite dos nossos poderes e influência sobre eles. Podemos manipular a mente de alguns, mas se eles quiserem, irão se lembrar. Podemos fazer alguns dormirem, mas se eles não quiserem assim, nada terá efeito.”
Koraíny havia lhe explicado. Esta magia foi muito usada pelos elfos quando os vampiros começaram a existir, quando ouve uma pequena infestação em algumas lugares e havia somente os elfos com poder suficiente para lutar contra. Então eles selavam todas os casas que podiam, para que, ao menos em seu lares, os humanos ficassem seguros. A magia não durava muito, dado que, a partir do momento em que um humano liberasse a “visita” de uma criatura sobrenatural, toda a magia era rompida imediatamente. E se, por algum acaso, o humano que residisse no local não considerasse aquele o seu lar, então tudo também não tinha efeito algum.
“Foi isto que originou o mito entre os humanos de que vampiros não entram sem ser convidados.”
O elfo lhe explicou.
Sarah olhou ao seu redor, avaliando o confortável apartamento de Mary buscando alguma dica de que aquilo era um lar e não um mero abrigo. Encontrou algumas fotos de família, alguns desenhos em uma escrivaninha ao lado da cama. Eram desenhos impecáveis, traços muito delicados. Sarah voltou a olhar para a ruiva exuberante na cama e novamente para os desenhos. Realmente, não parecia que ela os fazia, mas havia uma assinatura comprovando que sim, os desenhos eram de Mary. Vários tipos de lápis estavam postos em copos plásticos coloridos, a cadeira impregnada com o cheiro da humana era confortável. Ela parecia ficar um bom tempo ali.
Nervosa, Sarah foi para o centro do apartamento de cômodos conjuntos. Ela tinha que tentar. Jamais tinha feito aquilo sozinha, sempre tinha um elfo junto de si quando ousou, mas agora não havia outra forma e, além de tudo, ela queria testar seus limites.
Se agachou, sentando-se no chão e fez o que Koraíny e Niadhi tinham lhe ensinado: concentrou-se em si mesma. Procurou acalmar sua respiração, fechou os olhos, curvou a cabeça, tentou calar os sons ao seu redor. Mergulhou dentro de si até se deparar com a imensidão instável de seus próprios mistérios, lugar em que era tragada com tanta força e facilidade. Sentiu seus pelos se eriçarem, a garganta fechar e a pulsação acelerar. Suas têmporas começaram a formigar tal como as extremidades de seus dedos. De um momento a outro ela passou a ter consciência de todo o seu corpo, que pulsava enérgico.
Mudou a postura, pondo-se sobre os seus joelhos. Encontrou a fonte do poder dentro de si, mas ela buscou por mais. Apertou os olhos, seus lábios se abriram, soltando ofegos e gemidos baixos e descontrolados. Sentiu a magia lhe golpear com força, parecia se apoderar dela de uma forma assustadora. Sarah mal tinha consciência, mal tinha controle. Seu peito começou a se aquecer, sentiu este calor se espalhar por todo o corpo. Abriu os olhos, que ardiam, mas não enxergou as paredes que a encerravam naquele lugar. Não. Ela se deparou com uma gloriosa tempestade de luzes.
_ Deus! – Ela murmurou, maravilhada.
Estendeu as mãos, procurando alcançar os raios de luz que dançavam a frente de seus olhos. Com alarme percebeu que as luzes pareciam sair da ponta de seus dedos. Era algo que ela jamais tinha feito, jamais tinha se deparado. Sabia que estava no centro do lugar onde toda a sua magia começava e, naquele instante, só precisava aprender a usar tudo aquilo.
“Peça. Peça, porque este poder não vem de nós”. As palavras do seu elfo querido lhe soaram nítidas novamente.
Então ela pediu.
_ Permita que eu possa.… permita que eu possa proteger estes lares. Estender sobre cada canto onde residem homem, coração e espírito a muralha que os resguardem. – Mal houve tempo para que Sarah pudesse estranhar o som distinto das palavras que saia dos seus lábios. Como um golpe muito forte, sentiu a magia poderosa saindo de si.
Fora do edifício, Jacob sentiu este momento em particular. O chão abaixo dos seus pés tremeu, ele olhou pra cima, para o ponto de luz que irradiava e que se espalhava a uma velocidade espantosa.
O vento ficou mais forte, de um momento a outro, chicoteando no corpo de Jacob.
“Vou tentar estender a magia o mais longe que puder.”
Ela tinha dito. E foi com assombro que Jacob viu a luz se erguendo e se espalhando pelo céu de Seattle, cobrindo tudo. Ao longe, apesar do barulho do vento forte, ele pode ouvir uivos assustados dos outros lobos, pode sentir o pânico deles.
_ Meu Deus! – Jacob murmurou, sua boca seca.
A magia se alastrava rapidamente, formando uma bolha ao redor de Seattle. Jacob sentiu o ar que lhe golpeava ficar pesado, como se passasse a comprimi-lo, rejeitá-lo. Ele sabia que isto era reflexo da magia. Nenhuma criatura mágica tinha poder contra ela. Somente outro humano ou elfo.
Então a grande bolha mágica eclodiu de repente, caindo do céu como uma tomba d’água. Foi tão forte que Jacob teve que se encolher no chão e se proteger da melhor forma com os braços. Como Alpha que era, soube que a magia havia feito todos os lobos ao redor entrarem em fase, obrigados a voltarem a ser humanos. O impacto da aparente “explosão” teve força pra reter seu poderoso corpo ao chão e ele não conseguiu e não pode se levantar até sentir o vento se acalmar.
Sentiu o corpo dolorido, pesado. Com receio se mexeu, testando os movimentos aos poucos. Sim, ele podia permanecer ali. E parecia que seus ouvidos haviam ficado ocos. Não podia ouvir som algum exceto os da natureza. A cidade pareceu ficar ainda mais silenciosa, como se ainda sofresse o impacto daquela magia.
Respirando com dificuldade ele se levantou, fechou os olhos, concentrando a sua mente a procura dos outros lobos. Paul era o que estava mais perto e logo Jacob pode vê-lo caminhar lentamente para perto, como se arrastasse.
_ Cara! Que diabos foi isto? – Ele sussurrou e se Jake não tivesse uma excelente audição, mal teria percebido, ainda que estivesse muito perto.
Paul chegou perto de Jake e desmontou no chão, caindo sentado.
_ Sarah. – Jacob respondeu, olhando pra cima. Ela precisava descer logo. Jake precisava ter certeza, que depois de tudo aquilo, ela estaria bem. – Sarah. – Ele repetiu, desta vez mais forte. Mas não teve resposta, tão pouco ouviu algo vindo do prédio a sua frente.
Ele se precipitou pra frente, mas quando tentou entrar no prédio imediatamente sentiu um golpe e recuou. Ela tinha conseguido proteger todo o edifício?
_ SARAH! – Ele gritou.
_ Ela tá aí dentro? – Paul perguntou, ainda com voz fraca.
_ Sim. Ela está lá e só tem humanos lá dentro.
_ Então relaxa, Jake. Ela tá segura. – Paul respirou fundo, como se tentasse recuperar o fôlego. – Isto daí que ela fez, foi aquilo de selar as casas contra vampiros? – Jacob confirmou com um movimento de cabeça. – Cacete! Isto me pareceu bem mais eficiente do que ela e os outros elfos fizeram lá em La Push e em Forks. Acho que espantou os vampiros que estavam por aqui por um bom tempo. Tem certeza que ela fez tudo sozinha? Não tem nenhum outro elfo aí dentro?
Jacob franziu o cenho.
_ Não. Não tem nenhum outro elfo aí dentro. Eu deixei ela sozinha.
Sozinha.
Mas Jacob estava enganado. Sarah não estava somente com humanos lá dentro.
A criatura tinha entrado antes mesmo que Jacob saísse, tinha seguido Sarah durante todo aquele mês caótico, em que lobos, elfos e até mesmo os Cullens tentavam se proteger de uma guerra iminente. Ela viu como Sarah evoluiu aos poucos, viu como absorvia de forma surpreendente cada ensinamento de Koraíny e viu como o poder dela era triplicado. Mas ela, Quendra, sabia muito bem o porque Sarah estava tão poderosa quando nem tinha requerido o trono élfico da forma como deveria ser.
E aquela noite tinha sido o ápice. A bendita mulher tinha alcançado a ligação direta com os tesouros que ela carregava dentro de si, sem ao menos ter consciência disto. Quendra se curvou sob o corpo desmaiado de Sarah, observando a face pálida da moça. Ela tinha feito muito esforço, abusou. E agora, estava tão… vulnerável…
Delicadamente Quendra passou os dedos pelos cabelos de Sarah, espalhados pelo tapete. Quendra ouviu o grito de Jacob e sorriu. A própria Sarah tinha cuidado para que ele se mantivesse do lado de fora. As duas estavam praticamente sozinhas. A rainha atual e a prometida ao trono.
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