The Precious Blood
12 NOITE TURBULENTA
Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=ukLxtHoAQqo
“Lute contra a morte, mas se ela realmente quiser vir…Nada poderás fazer.
Mas diante dela, quando suas forças não parecem suficientes
O mais poderoso dos reis, o mais forte dentre as realezas,
o rígido e impenetrável…
…cai e simplesmente…
…Implora…
_ Morte, não tome de mim meu bem maior e secreto!”
Jacob conseguiu pegar Sarah nos braços antes que ela caísse no chão. Ele estava assustado, pois naquele momento não sentia só o cheiro bom que vinha dela, mas o cheiro de medo. Os batimentos dela estavam fracos, a pele morena estava desbotada, sem brilho algum, mas os lábios estavam vermelhos, muito vermelhos e secos. Ele não escutava e nem prestava a atenção na balbúrdia que havia envolta dos dois, de vozes alteradas, choro de criança, nada. Levantou-se com ela nos braços e partiu veloz pra dentro da casa.
Todos se debruçaram envolta deles, na cama de Sarah, preocupados. Ela ainda estava desacordada. Leah se aproximou, colocou-se ao lado de Jacob pegando as mãos da morena.
_ As mãos dela estão muito frias, mas a pele está quente. Por Deus, está quase chegando a nossa temperatura, Jacob!
_ É febre e das altas, temos que levar ela pro hospital. – Rachel dizia, o coração palpitando.
_ Eu bem suspeitei que ela estava doente. Se não fosse pelos lábios vermelhos ela ia estar com cara de morta! – Kim também estava assustada.
_ Ela sentia alguma coisa que tentava esconder de nós. Esse mal estar veio com uma preocupação, mas qual? – Sue, índia experiente, achou muito estranho a mulher saudável e vivaz daquela tarde, ficar daquele jeito de uma hora pra outra. Não achava que aquilo fosse só um problema de saúde.
Jacob estava confuso demais, sua cabeça girava. Ele só tinha certeza de uma coisa: não poderia levá-la ao médico, alguns exames e o segredo da natureza de Sarah ficaria exposto. Mas ela estava mal, muito mal. Ele se levantou bruscamente, pegou um vaso que tinha em uma mesinha do quarto e jogou as flores longe. Molhou a mão e passou na fronte de Sarah.
_ Acorde, acorde, de um sinal de vida merda! – Ele sussurrava. Como se atendesse ao chamado dele ela deu um sinal, mas não foi algo reconfortante. Ela gemeu, dos lábios dela escapou um gemido doloroso, angustiante, os olhos dela se apertaram, por entre os gemidos ela soltou uma palavra:
_ Vampiro… — O sussurro foi tão baixo que Jacob teve que se inclinar para ouvir. De repente outra voz soou na mente dele, forte, tão forte que fez seus músculos tremerem. Mas ele tinha certeza que só ele ouvira, porque era a voz de Quendra: “Tire todos da casa, agora! Não quero ninguém, absolutamente ninguém por perto. Faça!”
Não seria fácil simplesmente tirar todos ali, mas ele não ia ser delicado, todas aquelas pessoas estavam sufocando, deixando tudo pior. Com olhos de raiva ele se levantou, a voz engasgada e rouca:
_ Saiam, sumam daqui, eu não quero ninguém aqui!
_ Jacob você tá maluco? Como não quer ninguém? Nós temos que ajudar Sarah! – Leah, sempre Leah pra enfrentá-lo, as outras mulheres já haviam se encolhido diante de sua fúria desmedida.
_ Eu vou dar a ela tudo que precisar. Mas vocês aqui não vão ajudar. Saiam, saiam todos da casa, vão pra longe. AGORA! – Ele catou braços que não prestava a mínima atenção de quem eram e empurrou porta afora. Alguém chorou, um homem o xingou, tentando ir pra cima dele, uma mulher morena se pôs na frente, impedindo. Ele não viu quem era, podia ser qualquer uma.
_ NÃO! Não, eu vou ficar! – Leah não iria embora sem um enfrentamento duro. Os olhos de Jacob se estreitaram. Mas, fazendo os dois virarem as cabeças, praticamente um grito veio de Sarah, só não foi mais alto porque ela estava fraca. A moça, em delírio, esfregou uma das mãos no pescoço. Leah voltou para o lado dela.
“Peça a Leah Jacob, você vai ter que pedir. Ela confia em você, apenas peça, ela pode ajudar para que todos saiam!”. Não era a voz de Quendra, e sim, de Niadhi que soou branda na cabeça dele.
Ele pegou o rosto de Leah nas mãos, seus olhos duros encararam os dela, profundamente…
_ Solte ela seu desgraçado… — Embry vociferou tentando passar por Rachel, que chorava ruidosamente.
_ Não Embry, ele não vai machucá-la, olhe!
Nenhum dos dois ouviu o rompante de Embry. Negro sob negro, os olhos dos lupinos de conectavam. Leah sentiu que pela primeira vez em anos, ela realmente via algo por trás do muro de pedra: era angústia, desespero e algo que… Alegria começou a alterar os batimentos da loba ao ver nos olhos dele uma centelha daquilo novamente.
_ Leah, por favor, confie em mim: ninguém pode ficar, só eu posso ajudar Sarah. Saia, leve os outros, eu … eu… — Ele hesitou um instante – Eu vou cuidar dela, ela vai ficar bem! – A voz dele soava como um trovão.
A loba sorriu, pra espanto de Jacob, ela sorriu. Uma lágrima desceu de seus olhos. _ Sim Jacob, eu confio em você! – Ela tirou as mãos de um Jacob estático do seu rosto e beijou cada uma delas, beijou as mesmas mãos que um dia a ferira. _ Só avise quando ela ficar bem.
Leah inclinou-se na cama e deu um beijo na testa fervente de Sarah. Ela se virou para os humanos-estátuas parados na porta do quarto e os chamou pra ir embora, e eles foram. Jacob não ouviu o que ela disse para convencê-los disso.
Tão logo eles fecharam a porta da sala, o quarto de Sarah se encheu novamente, mas não eram humanos e sim elfos, haviam muitos deles. Quendra passou por Jacob sem ao menos olhá-lo e colocou cada uma das mãos nas têmporas de Sarah.
_ O que está acontecendo? O que ela tem? – Jacob perguntava em desespero, mas a rainha não respondia. Ela se abaixou e colou a fronte na testa de Sarah, esta soltou outro gemido, o corpo moreno tremeu por inteiro.
_ Sarah está vendo algo Jacob. – Koraíny lhe respondeu, os olhos focados nas silhuetas na cama.
_ Vendo algo? Vendo o que? – Os elfos tinham livre acesso na mente deles, com certeza sabiam o que era.
_ Não Jacob, nós não sabemos! – Niadhi falou angustiada, sem o olhar sapeca, sem o semblante suave de pelúcia. – A mente de Sarah está trancada, nenhum de nós consegue ver nada do que se passa. Só Quendra, mas mesmo pra ela está difícil!
Jacob voltou a olhar as duas na cama. Quendra estava debruçada sobre Sarah, quase deitada em cima dela, suas mãos esfregavam as têmporas da morena enquanto sussurrava um bando de palavras indefiníveis. As palavras começaram a ser sussurradas pelos outros elfos.
Sarah soltou uma exclamação rouca, um espasmo de medo e dor, Quendra se levantou bruscamente, dizendo um raivoso: _ NÃO! — Agudo, muito agudo foi o grito da elfo, extremamente brilhante, um humano não ouviria. E por isso mesmo, foi horripilante.
As pupilas da rainha se dilataram, muito mais que o normal, espalhando-se sobre toda a órbita castanha: seu olhar ficou completamente negro. Os elfos pararam de rezar imediatamente, Jacob sentiu o tremor que passou na fileira das criaturas. Quendra balançou a cabeça, sussurrando um não novamente, ela estava perturbada. Voltou a envolver o crânio de Sarah com as mãos, sob a casa caiu uma onda pesada de silencio, os ouvidos de Jacob pareceram se tampar, não conseguia ouvir nada, só via estarrecido a cena que se seguia.
Alterada, dizendo palavras que mais pareciam soluços de dor, Quendra começou a pressionar o crânio de Sarah. A morena começou a gemer baixinho, suas mãos trêmulas foram em direção as de Quendra, envolvendo-as. Mais pressão… Jacob notava que a rainha mórbida estava pressionando as mãos na cabeça de Sarah como se quisesse penetrá-la. Viu Niadhi cair de joelhos ao seu lado, uma lágrima escapando dos olhos, ela movia os lábios, mas Jacob não escutava o som. Leu o movimento e ela dizia:
_ Recebam-na, a recebam, recebam Sarah! – Jacob sentiu o coração pular pra garganta, se convulsionando dentro dele.
Quendra continuava apertando, o gemido doloroso de Sarah penetrou o tampão que Jacob tinha no ouvido. Sarah abriu os olhos: estavam fora de orbita. Ela gemia, agonizava. Os gritos roucos dela eram fracos, mas poderosamente torturantes. Quendra apertou mais, enquanto sacudia a cabeça dizendo suas preces insanas. Sarah começou a se debater, suas mãos faziam gestos de quem tentava desesperadamente tirar a pressão da cabeça, mas não conseguia. Mais força… Sarah arqueou o corpo e gritou no delírio da dor com toda a força que lhe restava: seu crânio tão resistente não suportaria por mais tempo aquela pressão…
Foi então que os músculos do lobo criaram força, ele sentiu que algo que o mantia preso se rompeu, quando deu por si estava agarrando o braço de Quendra, mas não conseguia mover um milímetro. Gritou:
_ NÃO, PARE! PARE, VOCÊ VAI MATÁ-LA! — Ele tentava impedir, mas os braços de Quendra continuavam a pressionar. _ SUA MISERÁVEL, PARE AGORA! – Sem perceber, ele usou a voz dual de Alpha para a elfo e então… ela parou como estava.
Os sons voltaram de repente, enchendo a casa, os elfos rezavam, mas aquilo mais parecia um canto agourento. Os olhos assustadores de Quendra fitaram Jacob: ele havia ousado lhe dar uma ordem, ousado usar o poder que ela tinha lhe dado para enfrentá-la. Ele havia xingado sua soberana? Os belos lábios da elfo se contorceram em um sorriso demoníaco, muito rápido ela agarrou o pescoço de Jacob com apenas uma mão e o pressionou contra a parede em um baque surdo, uma rachadura se fez no concreto.
_ Por que devo parar Alpha? Me diga porque! – os elfos pararam de cantar, ficaram um uma fileira estática. Sufocado Jacob respondeu.
_ Porque você vai… matá-la!
_ E você se importa com isto Alpha? – A maldita e miserável criatura continuava a sorrir, Jacob queria ter forças pra estraçalhá-la. _ Você está disposto a me enfrentar para defender uma mulher que você não gosta Black?
Onde ela queria chegar? Que espécie de demônio era ela?
_ Eu não sou um demônio Jacob, eu sei o que faço! Acaso você sabe o que Sarah está prevendo por repetidas vezes? Acaso você sabe o vislumbre de futuro que ela está tendo? É uma certeza, vai acontecer, mas eu não posso permitir, não para aquele vampiro, pra ele NÃO!
Ela tinha enlouquecido, só podia ser. Jacob não conseguia responder, lhe faltava ar, ele sufocava.
_ Sarah vê a mesma cena repetidas vezes… – o cheiro de Sarah infestou tudo de repente, sem controle, mas isso amainou os olhos de Quendra em um único momento – Isole todas as portas e janelas da casa, não deixem o cheiro ir pra fora – dois elfos desconhecidos partiram imediatamente do quarto, ela voltou sua atenção a Jacob – Sarah vê e muito mais do que isso, ela vê e sente um miserável vampiro sugando o seu sangue. Ela está desse jeito, porque este seria o efeito que o veneno teria nela, ela ficaria fraca desta forma, não poderia fugir, daria a ele o quanto de sangue e poder ele quisesse! MAS ISSO NÃO PODE ACONTECER!
Os olhos de Black se arregalaram, Quendra realmente não deixaria que isto acontecesse.
_ Não a ma… mate. – Ele tentou dizer aquilo com mais força, mas a voz saiu fraca e esganiçada devido a pressão que tinha no pescoço. Seus pés não tocavam o chão.
_ Quendra, talvez Jacob esteja certo, talvez matá-la não seja a melhor solução! – a voz de Koraíny também estava embargada. Jacob sentiu as mãos da rainha tremerem. Ela fechou os olhos e, pela primeira vez em seus quatro milênios de existência, uma lágrima brotou das órbitas castanhas.
Ela aliviou a pressão no pescoço de Jacob, e falou baixo, pesarosa:
_ Vocês acham mesmo que eu quero matá-la? Acham que eu quero destruir uma mulher como ela? – Quendra finalmente soltou Jacob que acabou por cair no chão, tossindo. Ela foi até a cama onde Sarah jazia fraca. Jacob se precipitou para frente, quase engatinhando, tentando impedir Quendra de chegar até Sarah novamente. Mas não pode, a rainha se sentou na beirada da cama e acariciou os cabelos úmidos de suor de Sarah. – Isso não podia ter acontecido Sarah, eu não podia amá-la da forma que amo. Isto torna as coisas mais difíceis, mas eu não posso pensar só em mim, não posso ter o amor egoísta dos humanos, você não pode ser uma fonte de poder para vampiros, eles acabariam com tudo. Principalmente este vampiro que você vê querida!
_ Majestade, tente pensar em outra coisa, não é egoísmo, é só tentar achar outra solução. Vamos tentar, a visão talvez demore pra acontecer. Poderá haver outros meios de proteger Sarah. – Niadhi disse aquilo olhando pra Jacob.
_ Talvez… talvez, um tempo… — ela estava se convencendo, ia deixar Sarah viver.
Ela se lembrou de Lairon, de quando ele lhe pediu pela filha: “Acabar com a existência dela, pra não permitir que o pior aconteça nem sempre é a melhor solução. Nós nunca vamos conseguir acabar com eles, você sabe disto irmã. Coisas ruins podem acontecer, mas, por vezes, para que a luta seja vencida, nós temos que enfrentar pesadelos, coisas que saem de nosso controle. Deixe-a viver Quendra, deixe. Ela pode nos ensinar que controlar o mundo sobrenatural não é só esconder fontes de poder. Ela pode nos ensinar que talvez, a força maior não está em nosso sangue, mas nos nossos corações. O amor que os humanos podem sentir é magnífico, você sabe disto Quendra. Ela terá isto, minha filha poderá ser mais fonte de amor do que de força. O que vale mais Quendra?”
Quendra se virou para Jacob que estava encostado na parede olhando pra ela, ainda respirando com dificuldade. Ela se levantou da cama e foi em direção a ele, se ajoelhou em sua frente e olhou o lobo mais do que fisicamente, ela procurava desvendar tudo que estava escondido dentro da alma do rapaz. Ela sorriu:
_ Se eu não matá-la Black, o que você pode me garantir em troca? – A reposta dele seria vital, daria a ela o conhecimento de que precisava, a ponta de certeza que faltava para se convencer de que realmente valeria a pena deixar Sarah viver e enfrentar as conseqüências disto.
_ Eu vou … eu posso… eu – Jacob se atropelou nas palavras, estava tenso: a vida da mulher estirada na cama dependia dele? – Eu farei de tudo pra protegê-la, pra não deixar que esta visão se realize! – Ele disse com uma firmeza que o assustou: era a firmeza de uma promessa. De onde veio aquilo?
_ Pra sempre? – Quendra perguntou.
_ Enquanto eu… viver. – Ele respondeu, tenso. De novo ele não controlou o que disse.
A rainha sorriu, branda, a fileira dos elfos relaxou. Quendra se levantou e ofereceu a mão para que Jacob se levantasse. Receoso e espantado, ele aceitou. A figura a sua frente havia se metamorfoseado completamente, ela não estava mais sinistra, perigosa. Suas belas feições não pareciam mais agourentas e opressivas. Os olhos tinham um brilho cálido, acolhedor, o sorriso dela estava aconchegante, novamente exuberante, as mãos pareciam novamente delicadas, extremamente macias.
_ Eu deveria saber que eu não poderia matá-la na sua frente Black, eu deveria saber que você a defenderia. Você assume então que é isto o que você fará daqui pra frente: protegê-la, sob todas as formas?
Jacob olhou pra Quendra confuso, ainda sentia o coração palpitando em sua garganta, no entanto sentia um extremo vazio no peito. Ele não entendia porque fazia aquilo, porque agiu daquela forma, Sarah não era nada pra ele… nada.
_ Se ela não é nada pra você, por que eu não posso matá-la Black?
Ele virou a cabeça em direção a cama: ela estava estática, os braços soltos ao lado do corpo, a luz do início da noite deixava sua cor ainda mais doentia, sua face tinha uma serenidade opaca, muito parecida com alguém que perdera a vida. Era angustiante ver aquilo, pensar que ela poderia realmente estar… morta. Era inadmissível pensar nela morta, inadmissível vê-la tão fraca, quando ele se lembrava de tudo que já havia visto dela. Lembranças dela, mais lembranças do que ele pensou que tivesse guardado, lhe vieram em uma avalanche de confusão…
… a prepotência e arrogância que ela teve enquanto lutava com ele, a forma como ria debochada enquanto o subjugava… linda arrogância nos traços dela…
…os olhos cálidos que o envolvera, no carro, no dia em que chegaram na casa… a voz macia, tão terna e tão poderosa naquele único instante, o fez sentir conforto, qualquer um sentiria…
… o sorriso inebriante que por vezes ela dava… o riso gostoso e descontrolado do dia anterior, o brilho dos olhos, dos dentes… o carinho que ela conquistou dos quileutes em dois dias de convívio…
… o vigor e notável êxtase de quando dançava, a aura iluminada que a envolveu quando ela se deixou embalar pelo som…
… os pacientes, o zelo e cuidado na profissão… o respeito que os colegas de trabalho tinham por ela… Micheal, o homem que por ela estava vivo, que teve uma chance de lutar graças à doutora, como muitos outros que passaram por suas mãos…
_ Por que Jacob? Por que você se importa com a vida dela? Por que você quer que ela viva? – Era um murmúrio a voz de Quendra, mas parecia um grito para Jacob, um grito que retumbava nos seus tímpanos, que turbava tudo. Os olhos secos dele ardiam, a respiração ainda dificultosa, era como se Quendra continuasse a sufocá-lo. Ele não queria falar nada, ele nunca falava nada, nunca dizia o que se passava em suas emoções, ele não tinha emoções, não tinha!
_ Estamos só nós aqui Jacob, assim como nosso segredo é teu o teu será nosso. Por quê? Diga, por quê?
_ Eu não sei! – Quendra olhou pra ele ainda mais terna, parecia um anjo agora.
_ Sabe sim Jacob, você sabe!
_ Ela é… ela não pode morrer porque…
_ Sim, é só dizer, diga, deixe as palavras saírem anjo, diga…
Ele ia ter que explicar? Por que ele tinha que explicar, se ele não sabia? Não sabia o que o fez quase se engatinhar pra tentar impedir Quendra, mesmo sabendo que não era forte o bastante. Por que algo tremeu dentro dele quando ele ouviu o gemido agonizante de Sarah? Não, ele ia sentir aquilo por qualquer pessoa, qualquer pessoa ia provocar aquilo…
_ Qualquer pessoa Jacob? Qualquer pessoa ia provocar tudo isto? E em você?
_ Sim – Ele quase não teve forças pra dizer aquilo.
_ Esta não é uma resposta que eu preciso ter Jacob, esta é uma resposta que você precisa ter: por que você não quer Sarah morta? – Ele ficou quieto, o semblante rígido. Mas Quendra sabia o que o impeliria a dizer.
E então ela sorriu, mas voltou a sorrir do jeito mórbido, diabólico. Jogou as palavras pra Jacob cruelmente – Não precisava agir assim por causa do juramento de proteger a vida humana que seu ancestral me fez Jacob. Eu posso decidir pela morte de Sarah e se é por causa disto que você tentou impedir, então pode se considerar livre deste dever!
Jacob olhou pra ela, o espanto novamente em seu rosto. Quendra tinha um olhar que fez Jacob temer, sentir um medo que nunca pensou que pudesse sentir. Contra aquele olhar assassínio ele não poderia lutar, ela venceria, mataria.
_ Eu não posso confiar na promessa que você me fez Black! Se ela é pra você como qualquer um, você não faria de tudo pra protegê-la! Ela não pode dar poder a um maldito vampiro! – A voz da elfo era arranhada, parecia o sibilar de duas cobras em um macabro dueto dissonante. A voz entrava com mais força que o normal pelos ouvidos de Jacob, sacudindo suas entranhas. O olhar de pupilas dilatadas dizia: nada seria capaz de impedi-la.
_ Não! – Jacob sussurrou, se colocando na frente da cama.
_ Você vai me enfrentar? Você vai tentar me enfrentar? – Os dentes suntuosamente brilhantes de Quendra se insinuaram para Jacob como a essência de uma pura loucura. Ela deu um passo em direção a cama.
_ Não! – ele disse mais alto, não pensava, só defendia. Sua postura se encurvou, seus joelhos se flexionaram. Uma posição de ataque. Quendra riu incrédula com o pobre lobo a sua frente.
_ Você não vai me impedir de fazer o que é certo! SARAH NÃO VAI ACABAR COM A NOSSA MISSÃO! – Ela começou a gritar.
_ Não! – A palavra se arrastou de dentro dele, carregada de ódio, medo e obstinação.
_ Não tente se colocar contra mim! Você me deve obediência! Se você não suporta ver alguém morrer na sua frente, nós fazemos isto longe Black, longe de você. Depois eu te mando o corpo, eu deixo o corpo, você faz o velório com as honrarias humanas, finge que ficou viúvo e você fica livre do casamento… não é isso que você quer? Eu dou!
_ Não, não! — A cena de Sarah carregada em um caixão veio clara como água em sua mente. Ele começou a tremer, mas não era o tremor da transformação, era um tremor que sacudia seu peito, que começava por dentro e chegava aos seus músculos, pele.
_ VOCÊ NÃO PODE CONTRA MIM BLACK! Koraíny pegue ela, vamos fazer isto longe daqui. – Mas Jacob soltou um rosnado que fez os objetos do quarto tremerem.
_ Não adianta tentar Black… basta uma ordem e você sai da minha frente…
_ Não…
_ Uma única ordem!
_ NÃOO!!! — Ele gritou tão alto como não pensou que fosse capaz de fazer, chegou a obstruir seus próprios tímpanos. Os elfos trataram de conter a propagação do som.
_ POR QUE NÃO JACOB? – Quendra perguntou, gritando da mesma forma que o lobo, quando o não dele ainda ressoava pelas paredes da casa.
_ POR QUE ELA É MAIS IMPORTANTE DO QUE EU! – Ele gritou, agarrando os cabelos, o peito em erupção, os olhos queimando como fogo, mas sem lágrimas, secos e desesperados. — Ela tem que viver por que ela é tudo que eu não posso ser, ela dá as pessoas o que eu penso ser ilusão, ela é… é tudo que eu não acredito existir! – As palavras se precipitaram para fora da boca de Jacob sem controle, ele começou gritando, mas depois, a medida que ele tomava consciência do que dizia, sua voz foi enfraquecendo, terminou sem som algum, apenas moveu os lábios na ultima frase. Terminou com os ombros arriados, os olhos conturbados, como se tivesse perdido uma batalha.
Sentou-se na cama, pois suas pernas enfraqueceram, os gemidos de Sarah ainda eram constantes, o que deixava tudo pior. Durante todo o conturbado momento ele escutava ela gemer, indefesa, com a morte rondando sua cabeça. Ele olhou pra cima e um belo e terno anjo o olhava. Um blefe! Quendra blefou! Blefou e conseguiu arrancar dele o que queria. Os olhos ferozes do lobo ficaram protetores, mas também temerosos quando Quendra começou o seu jogo… ele caiu, perdeu o controle e caiu na armadilha e nem sabia como e porque caíra.
_ Sim Jacob, eu acredito: você realmente fará de tudo pra protegê-la! – Quendra disse ternamente para o lobo, segurando suas mãos quentes que puxavam os próprios cabelos. Ela já não parecia o Demônio, mas um anjo, um anjo de Deus com pureza e poder confortador. Mais uma lágrima cristalina caía pelos desenhos azulados de sua face, escorrendo até morrer no seu sorriso terno.
_ Rainha, não dá! Nós isolamos a casa, mas o cheiro está muito forte, está saindo da casa e os lobos estão perto. – Um dos elfos que havia saído voltou dizendo aquilo. Quendra afirmou, pensando no que iria fazer. Pôs a mão debaixo do queixo de Jacob e levantou até que seus olhos se encontrassem.
– Jacob, nós não temos poder o suficiente para ocultar o cheiro de Sarah, só ela pode fazer isto. Mas nos podemos amenizar um pouco, se estivermos todos juntos. Por isso nós vamos sair agora, vamos ficar ao redor da casa até que ela volte a controlar o cheiro. Eu cuido dos lobos, pra que os postos que você ordenou sejam reorganizados. Agora você precisa ficar e cuidar de Sarah, ela vai ficar bem assim que a visão passar, mas vai precisar dos mesmos cuidados de uma humana agora. Faça isto.
Ele olhou a criatura sem nada dizer, sem se mover, mas ela sabia que ele faria, ele cuidaria de Sarah. Quendra virou as costas para o lobo e, olhando paras os elfos, procurou lhes passar calma. A soberana sentiu o quanto eles ficaram tensos quando ela quase matou Sarah. A um sinal todos eles se preparavam para sair, mas a voz de Jacob chamou baixo…
_ Quendra… — fraca, um murmúrio tão fraco foi a voz dele.
_ Sim?
_ Eu não quero que ela saiba. – Ele disse sem forças, deixando sua fraqueza aparente em sua expressão, em sua postura, seus pensamentos.
Seria só aquela noite, só por aquela noite ele se deixaria enfraquecer, não havia testemunhas e fazia tanto tempo, ele estava tão cansado… Sentia-se como alguém que ficou encolhido por muito tempo, em uma postura tensa, e que depois relaxava: os músculos ficavam cansados, dormentes. Ele sentiu que seus anos de austeridade fizeram aquilo com ele, naquela noite ele se permitiria descansar, deixar sua severidade de lado, depois… depois ele iria se recuperar, não ia fazer mal, era só por uma noite… só aquela noite…
_ O que você não quer que ela saiba Jacob?
_ De tudo… de tudo que eu te disse… que eu disse que eu ia … que eu vou fazer por… por …ela – O fôlego lhe faltava, ele não queria mais falar.
_ Jacob… — Quendra sussurrou como uma mãe pesarosa – Por que quer esconder a atitude mais honrosa que você tomou em todos estes anos, a mais bonita?
_ Ela não precisa saber, ninguém precisa saber de nada desta noite, ninguém! – Quendra suspirou.
_ Se você quer assim, assim será. Quando Sarah acordar ela vai estar confusa demais, provavelmente não vai se lembrar de quase nada do que viu. É bom mesmo que ela não saiba o que realmente significou esta visão. Seja evasivo nas explicações, não diga que estivemos aqui, ela pode estranhar, diga simplesmente que ela passou mal, só isto! Ninguém vai saber Jacob, não por mim…
Eles desapareceram antes que a rainha terminasse de falar, todos os elfos. Jacob sabia que eles tinham ido pra fora, o cheiro estava realmente avassalador. Ele não tentou se conter, inspirou o bálsamo, com o nariz, com a boca, deixando o odor entrar no seu corpo, tentando o degustar, cheirava-o como um viciado… só naquela noite… Se debruçou sobre a mulher febril e tremula na cama e afundou o nariz em seus cabelos, inspirando, se inebriando, tentando se entorpecer, só por uma noite. Depois tudo voltaria, suas dores, seus ódios, suas descrenças, seus rancores.
Ele se levantou e olhou para a morena, naquele exato momento não sabia o que fazer. Pegou as mãos dela, estavam realmente frias, mas o resto do corpo estava quente, mais de quarenta graus, ele tinha certeza. Pra ela era uma temperatura muito alta, ela tinha os mesmos 36°C de um humano. Os gemidos que Jacob escutou durante todo o tempo eram na verdade delírio da febre, ela falava coisas, muito, mas muito baixinho.
_ Não… não me morda… eu não… aguen…mais, vampir… dói… ta doen…ai… ah…
As mãos dela se mexiam minimamente, a testa se enrugava vez ou outra, ela suava, suava muito. O que ele tinha que fazer, o que? Banho! Água morna, quase fria, abaixar a febre. Isso, ele tinha que dar um banho para abaixar a febre dela.
Ele se levantou da cama, foi até o banheiro luxuoso e espaçoso, ligou os misturadores da banheira, dosando a temperatura certa. Fuçou nos armários, pegou duas enormes toalhas brancas. Uma deixou no banheiro e outra levou para o quarto, estendeu na cama ao lado da moça.
Alguma erva, ele sentiu o cheiro de alguma erva quando entrou na casa com Sarah nos braços. Ervas no banho poderiam ajudar, os índios usam muito isto, ele havia aprendido muitas coisas vivendo na reserva, com as tradições. Correu desembestado pra cozinha, o delírio de Sarah sempre o acompanhando onde quer que fosse.
_ Calma, calma Sarah! — Ele dizia enquanto analisava os pacotinhos de ervas secas que tinha na cozinha, coisa dos elfos, poderiam servir pra algo. Pegou algumas delas e subiu veloz. Jogou tudo na banheira quase cheia, sacudindo a água. Voltou para o quarto, olhou na cama e engoliu em seco.
Despir… ele precisava despi-la. Ela não ia gostar se soubesse daquilo, não ia mesmo, ele tinha certeza. Mas ele podia esconder o banho não é mesmo? Poderia ter sido só uma compressa de ervas não é? Isso, esta seria sua desculpa. Devagar ele se aproximou dela, com cuidado lhe tirou as sandálias rasteiras dos pés, jogou no chão. O vestido! Ele subiu o olhar lentamente, como é que ele ia tirar o vestido? Onde ficava os botões, o zíper, o que fosse? Merda! Ele sabia esse tipo de coisa, teve época que despiu uma mulher a cada dia da semana, muitas roupas femininas… se o fecho não estava visível era porque ficava nas costas, claro!
Inclinou-se sobre ela, passou um dos braços pelas costas e a fez se sentar. Para dar apoio, ele se sentou de frente pra ela e a encostou em seu peito, ela estava mole, parecia um boneco. Desceu o zíper do vestido devagar, não havia sutiã, as costas estavam lisas. Ele tornou a deitá-la, e puxou o vestido pra baixo, devagar…
_ Não…- ele parou imediatamente com o sussurro dela, olhou pra cima e… os olhos dela estavam abertos, levou um susto – Não… não…, pare…não me … morda…não… — Ele soltou a respiração ruidosamente, era só um delírio. Os olhos dela não viam nada do que se passava ali, mas viam algo muito pior, algo que a fazia sofrer, sentir dor. Era tão… tão ruim saber disto!
Jacob voltou a seu trabalho, delicadamente, como nunca havia sido ao despir uma mulher, ele tirou o vestido, desvelando aos poucos o belo corpo, o corpo de uma deusa. Eram formas tão harmoniosas, tão divinamente desenhadas. Os belos seios, de tamanhos precisos e redondos, firmes, se moviam no ritmo titubeante da respiração doentia dela. Ele não sentiu desejo naquele momento angustiante, mas não pode evitar o fascínio, algo que fez os olhos dele brilhar. Permitiu-se admirar, ninguém saberia, nem mesmo ela. Sem tocar ele passou as mãos por cima do corpo quente, acompanhando as curvas, só admirava. Outro gemido…
O que ele estava fazendo? Tinha que cuidar dela, não olhar e… enfim. Mas ainda faltava a parte mais difícil, Sarah ainda vestia uma peça: pequena, preta, sem rendas ou fricotes, mas muito perturbadora.
Não! Aquilo não! Ela tinha que ter outra parecida porque ele não podia tirar dela e… ele não ia tirar e … e ver… vê-la tão exposta. Correu para o closet da moça, abriu todas as gavetas até achar a que queria. Impaciente caçou algo parecido em meio às inúmeras lingeries, tentava não prestar a atenção no que encontrava longe de seu objetivo. Achou: preta, igual, só um lacinho na frente para atrapalhar, mas… ele arrancou a coisa mínima que atrapalhava os seus planos e pronto: ficou idêntica! Colocou-a ao lado da toalha e pegou Sarah nos braços, levantando-a da cama.
Como ela estava muito mole, ele teve que manter suas costas seguras o tempo todo na banheira, enquanto espalhava as águas pelo corpo com a outra mão. Ficou com ela lá até sentir que a temperatura amenizava, não fazia a mínima idéia de quanto tempo levou. O que importava era que a expressão conturbada dela se suavizava, os delírios diminuíam aos poucos, a angústia passava.
A tirou da banheira encostando o corpo molhado no seu, a pele nua de seu dorso despido junto a dela, ambas quentes. Outro tipo de tremor tomou conta de Jacob, ele sacudiu a cabeça, ignorou aquilo. Tentou colocá-la de pé, mas teve que segurar todo o peso com um braço, enquanto alcançava a toalha com o outro. Novamente a pegou e levou pra cama, colocando-a no meio da toalha estendida, como se faz com um bebê. Secou cuidadosamente cada milímetro da pele morena, a cor mais viva voltava aos poucos.
Só então ele pegou a outra calcinha negra, colocando por cima da outra molhada mesmo. Assim que terminou de vestir a seca, Jacob respirou fundo e pegou as laterais da que estava por baixo e puxou, arrebentando o tecido. Com o coração na boca ele tirou devagar demais a calcinha rasgada de baixo da nova, fazendo Sarah soltar um gemido, gemido que ele pensou se tratar de um novo delírio e não pelo o tecido que era tirado dela daquela forma, passando por sua pele sensível lentamente. Ela gemeu, mesmo desacordada ela sentiu, ainda que não tivesse a consciência do que realmente era. Jacob teria que esconder aquele tecido, ela jamais poderia encontrar aquilo.
O banho ajudara consideravelmente a febre baixar. Jacob ainda preparou um chá que o pai lhe ensinou há muito tempo. Fez ela tomar a muito custo, colocando o liquido na boca muito lentamente. Depois a colocou deitada nos braços e esperou: agora ela ia melhorar. Ele ficou assim, com ela encostada em seu peito, sussurrando algo vez ou outra, até que a respiração se acalmou, a temperatura voltou ao normal, a cor lhe veio novamente, o brilho da pele, a umidade dos lábios e o cheiro que começou a se abrandar. Ela parou de delirar e caiu em um sono profundo, com Jacob lhe acariciando os cabelos distraidamente… era só por aquela noite…
“Só esta noite!” ele pensou cansado, deixando-se abraçar mais relaxadamente a mulher, deitando-se junto dela na cama grande…
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