Notas iniciais
O Nyah estava me trolando! Haha... mas até que enfim, voltei a postar... nem demorei tanto!
Bom, a fic vai passar por um momento tenso... está chegando o tempo das revelações! Uiaaa!!
Boa leitura!

“Onde está a força que nos fazia suportar?

A resistência que nos fazia rígidos?

O controle para esconder a nós mesmo dos outros?

Perdemos o controle, estamos exauridos…

Nossos segredos se revelam,

Nossas dolorosas verdades escapam

da jaula que estavam presas!”

A equipe estava tensa. Sarah entrou na sala de cirurgia já consciente de que aquele caso seria difícil, mas precisava conter as reações de sua equipe. Tratava-se de uma grave laceração do tecido cerebral, houve o chamado rompimento das meninges e o mesmo acontecia com os vasos intracranianos.

_ Houve perda significativa de sangue com o desprendimento do escalpo doutora. Lesão grave escore 4.

_ O sangramento já está contido?

_ Fizemos o possível com a compressão direta. Dá trabalhar agora. – A enfermeira respondeu. Sarah avaliava precisamente a dimensão da lesão naquele cérebro. A fratura foi expressiva, na base do crânio, este sofreu um afundamento com o violento acidente que aquele jovem havia sofrido. Moto, o capacete se desprendeu de sua cabeça no segundo grande impacto com o chão.

_ Nível de consciência? – Sarah tornou a perguntar.

_ Nula. – Grace, a enfermeira chefe, respondeu.

Sarah logo reconheceu que houve perda de substância encefálica. Os fragmentos ósseos estavam comprimindo o cérebro. As chances naquele caso estavam quase nulas. Mas ela trabalhava.

_ Precisamos conter a hemorragia intracraniana. Vamos nos concentrar nisto primeiramente, certo? – Sarah disse com voz calma, enquanto começava a manusear os instrumentos cirúrgicos sem um único descontrole em seus movimentos, direcionando a equipe numerosa que rodeava a mesa. – Caminharemos então para a redução cirúrgica.

A equipe concordou, logo passaram a se concentrar exclusivamente nas orientações de Sarah, ela chefiava todo o processo, sem ter sequer um vacilo. Mas estava difícil, muito difícil, o semblante dela estava concentrado, os olhos focados como os de uma águia.

_ Não está funcionando.

_ Ainda é cedo para afirmar. Vamos continuar. – Disse Sarah, depois de uma leve complicação dada por uma alteração na pressão encefálica do paciente.

Por cinco horas eles permaneceram debruçados naquela mesa. Mas o resultado não foi bom. O trabalho dos médicos estava se restringindo a angustiante espera por uma reação do paciente, mas Sarah sabia que aquilo não ia acontecer tão facilmente. Durante os dois dias seguintes ela já sabia que iria perder aquele garoto, que tinha só 17 anos. Mas ainda assim não abandonava nem a ele, nem a sua família. Tentava já preparar os pais de Erick Janckson, mas a mãe estava irredutível, dizia a todo momento que seu filho ia acordar e chamar por ela. Não aceitava que não podia ficar ao lado do filho na U.T.I.

Sarah só voltou para casa para tomar banho, comer e dormir umas poucas horas. Logo voltava para o hospital, completamente esquecida de si mesma, ela vestia as roupas mecanicamente, sem se importar com isto.

Como ela previra, as reações de Erick não foram boas. Depois das horas necessárias para que o diagnóstico fosse afirmado, Sarah atestou aquilo que sabia ser inevitável.

_ Perdemos. – Ela disse, os ombros de todos que ela podia ver se abaixaram. Os médicos que estavam ao redor daquela cama de U.T.I estavam com o semblante compenetrado, sendo isto perceptível apesar das máscaras que eles usavam.

_ Doutora Black isto é…

_ Morte encefálica. Não posso recuperar a função cerebral, é tarde demais.

_ Pupilas não reativas, reflexo de tronco cerebral ausentes…

_ Não há esforço ventilatório espontâneo… — Começaram então os diagnósticos daquilo que Sarah já havia afirmado.

Era preciso o atestado de mais médicos para que a morte encefálica (ME) fosse garantida, para evitar qualquer avaliação precipitada. Ela era a especialista, e não costumava dar uma sentença daquelas sem que estivesse certa, mas aquele era o procedimento padrão, absolutamente necessário.

_ Temperatura abaixo dos 32,2º C. Você fez os devidos testes doutora Black? – Perguntou-lhe o Dr. Hanson, diretor do hospital.

_ Não houve respostas satisfatórias do paciente na tentativa de manutenção arterial. Utilizei o máximo de luz possível nas pupilas, cheguei a fazer uso de uma lupa para ampliar o reflexo, mas não houve réplica pupilar. Também não houve respostas nos testes de reflexo corneano. Todos os demais testes foram realizados. Também foram feitos dois EEG, uma Angiografia e uma Ultrassonografia. Todos os resultados apontam para isto. – Sarah respondeu prontamente, com seriedade.

_ Creio então que devamos informar a família. Não há mais dúvidas, o paciente Erick Janckson sofreu morte encefálica. Ele é doador doutora?

_ Sim, é. Eu vou encaminhar o paciente para que os seus órgãos sejam avaliados, aqueles que forem passíveis de doação.

_ Certo Sarah. – Dr. Hanson disse. – Providenciarei o transporte para os lugares conforme a fila de espera. Já temos que organizar a equipe para a coleta.

_ Sim. – Ela disse, respirando fundo pelo cansaço, aquele plantão foi exaustivo.

Depois que todos os procedimentos burocráticos foram tomados, Sarah foi cumprir a pior função de sua profissão: informar a família o óbito de um paciente. As reações nunca eram boas.

Na sala de espera estava a mãe, já apática e com os olhos inchados, ela segurava firmemente um rosário na mão. O pai andava de um lado a outro, o cabelo grisalho e ralo estava bagunçado. Estavam ainda a irmã e alguns tios do jovem Janckson.

_ Doutora! – A Sra. Janckson suspirou assim que viu Sarah apontar na porta, queria saber notícias do filho. Mas o que ela perguntava a Sarah já não fazia parte do equilíbrio total de uma pessoa. Aquela senhora sempre perguntava:

“Erick já acordou? Posso falar com ele agora?… Doutora, você pode tirar aquelas ataduras horríveis da cabeça dele?”

Sarah olhou então para a irmã mais velha, a mais plausível de se direcionar em uma conversa como aquela.

_ Boa tarde. – Sarah disse cordial. Mas Karla, a moça de 23 anos, irmã de Erick, não respondeu, apenas olhou o semblante grave de Sarah e se sentou lentamente no sofá.

_ O que aconteceu doutora, como está meu irmão? – Ela perguntou com voz insegura, sua mãe começou a manusear o rosário enquanto o Sr. Josh Janckson foi para a esposa segurar-lhe os ombros.

_ Nós fizemos o possível para reverter o caso. Mas o grau da lesão provocada pelo impacto do crânio de Erick no chão foi muito elevado. Não pudemos evitar a perda significativa de massa encefálica e isto diminuiu drasticamente as chances de recuperação de seu irmão, Karla.

Karla achou a voz ponderada e macia de Sarah absolutamente fria por falar do cérebro de seu irmão daquela forma, dos ferimentos tão violentos que ele sofreu, assim. Ficou olhando a doutora de forma impassível. Porém Sarah não ficou parada em pé na porta, mantendo a segura distância emocional que os médicos costumavam manter dos familiares naquela situação. Ela se aproximou e se sentou ao lado de Karla, pegando as mãos da moça e apertando suavemente.

_ O que isto significa doutora? – O pai, Josh, lhe perguntou.

_ Em casos assim, Sr. Josh, as consequências, nem tão boas, não podem ser evitadas. Seu filho teve áreas vitais irrevogavelmente lesadas, isso traria seqüelas expressivas. Porém, devido a quantidade de massa encefálica, de tecido cerebral eu quero dizer, perdida, seu filho infelizmente não pôde resistir. O cérebro dele já não possui o funcionamento necessário para que ele possa continuar vivendo. Não é mais o cérebro de seu filho que mantém o funcionamento básico do corpo, mas as nossas aparelhagens, e ainda assim, por pouco tempo. Erick sofreu o que chamamos de morte encefálica, em que as funções do cérebro não podem mais ser recuperadas, logo, o corpo de seu filho não pode mais se manter vivo.

Sarah terminou seu discurso já acariciando as costas de Karla que soluçava baixinho e dizia repetidos “não’s”. Ela esperou, eles estavam em um estado aparente de choque, estáticos, absorviam as informações.

_ Você quer dizer que meu filho está morto? – Sra. Janckson perguntou, derrubando seu crucifixo no chão.

_ Não há como ele se recuperar. Seu filho faleceu, infelizmente. – Sarah disse.

Foi somente um segundo de silêncio. Depois disso o grito nauseantemente sofredor daquela mulher pareceu invadir todos os cantos daquele hospital. O choro se fez presente em todos os familiares dali, e a única reação que Sarah poderia ter ela teve: mandou que a enfermeira injetasse tranquilizante na veia da mãe, não para que ela parasse de se debater, mas para que não sofresse uma crise hipertensiva.

Depois de controlados os ânimos, de tomadas as devidas providencias com o pai e a irmã de Erick para a doação dos órgãos do rapaz, Sarah pode voltar a sua sala.

_ Doutora, você recebeu duas ligações de sua cunhada. Ela quer saber se você vai passar na casa dela. Disse pra ligar assim que pudesse.

_ Obrigado Sharon. Faça a ligação pra mim, irei atender lá dentro. – Ela respondeu a sua secretária.

Sarah se sentou em sua cadeira desamarrando os cabelos e sacudindo-os. Parecia que os gritos da mãe de Erick continuavam em sua cabeça.

“Ele está vivo! Ele me prometeu, não é Karla? Você e seu irmão me prometeram que não iam morrer antes de mim! Ele está vivo, meu amor não morreu… meu filhooo!”

Inevitável, não importa quantas habilidades os médicos desenvolvessem, a morte parecia sempre inevitável. Eles, os médicos, sabiam que quando ela decidia vir, ela vinha e vinha com força, subjugando as valorosas técnicas medicinais.

Sarah respirou fundo e massageou a cabeça, se despedindo de Erick mentalmente, pois ele já não estava sob seu poder. Pouco tempo depois ela atendeu a ligação que pediu.

_ Sarah! Você mora em La Push ou neste hospital? – Rachel lhe disse brava.

_ Oi pra você também Rach. – Sarah disse, tentando sorrir.

_ Há três dias eu estou tentando falar com você e nada! Jacob falou que era plantão, mas por três dias?

_ Um caso complicado Rachel. Eu não podia ficar em casa por mais de cinco horas.

_ É minha querida, eu sei. Foi aquele acidente horrível com o filho caçula dos Janckson não é? Nossa, está todo mundo abismado.

_ Sim Rachel, este mesmo.

_ E como ele está? – Rachel perguntou com voz mais tensa do outro lado. Sarah pode ouvir o barulho da cadeira de Billy se aproximando.

_ Conseguiu falar com a Sarah?- Ele sussurrou do outro lado, mas Rachel não pareceu ter respondido o pai.

_ Infelizmente ele faleceu Rachel – Sarah respondeu.

_ Oh! Meu Deus, que coisa horrível! Semana passada mesmo topei com ele no mercadinho de Forks! Ele me ajudou a carregar as compras. Meu Deus!

_ O que aconteceu? – Billy voltou a sussurrar do outro lado. Mas foi Paul quem respondeu.

_O filho dos Janckson morreu, Billy!

_ Quem que morreu? – Sarah ouviu a voz de Elisa perguntar.

_ Está todo mundo aí? – Ela perguntou a Rachel.

_ Não, só nós e as meninas: Leah, Emily e Kim.

_ Faça o seguinte então Rachel, eu só preciso assinar o atestado de óbito e já saio do hospital, então eu vou pra aí. Pode ser?

_ Ai Meu Deus Sarah! Você tem certeza que consegue falar de casamento saindo deste meio de morte aí? – Rachel disse com voz embargada.

­_Quem morreu mamãeee? – Elisa insistia.

_ Ninguém querida, ninguém que você conheça. Agora deixa a mamãe conversar. ­- A voz de Emily disse.

Sarah inspirou fundo.

_ São os ócios do ofício Rachel. Lidamos ao mesmo tempo com mortes e nascimentos nesta profissão. O pesar existe, mas são coisas inevitáveis. Eu vou indo pra aí sim, não se preocupe. Aproveite e prepare um prato pra mim porque eu ainda não almocei hoje.

_ O que? Como não almoçou? São quatro da tarde! Leah tem razão, você não trabalha, você se mata!

Sarah desligou o telefone rindo da preocupação excessiva da cunhada. Ela estava tentando adiar aquele encontro há dias, mas seria inevitável. As mulheres de La Push já estavam cuidando de quase todos os preparativos do casamento quileute de Sarah, mas ainda não haviam conversado direito com a noiva para explicar as tradições, falar detalhadamente como era o ritual da cerimônia e tudo mais.

Uma hora mais tarde Sarah desceu de seu carro em frente a casa de Billy, que havia passado por uma reforma para que Raquel continuasse ali com o pai e com a família. A antiga garagem de Jacob havia virado quartos, a varanda estava maior assim como a cozinha e a sala. Era a casa de Billy a segunda maior de La Push agora, porque a primeira era indiscutivelmente a casa de Sarah.

_ Foi complicado querida? Você demorou! – Rachel lhe disse, enquanto abraçava ternamente a cunhada e tirava o jaleco branco de Sarah, já amarrotado pelo uso, colocando-o no pedestal perto da porta.

_ Estas coisas nunca tem prazo certo Rachel. Mas não vamos falar mais disto.

_ Tiaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!! – Jason pulou com tudo em cima de Sarah e ela fingiu sofrer com impacto leve dando um passou pra trás.

_ Ei garoto, vai estrucidar a Sarah deste jeito! Seu tio vai te pegar hein?

_ Paul, não põe medo de Jacob no menino!

_ Eu não tenho medo do tio Jacob mãe! – Jason disse, inflando o peito orgulhoso. Sarah riu.

_ Mentirosoooo!!! Ô mãe, tia, tia, o Jay tá mentindo! Ele morre de medo do tio Jacob sim! Ele disse que o tio Jacob tem olho de lobo Dark!

_ Eu não falei não!

_ Falo sim!

_ Não falei menina besta! Ô mãe ela tá mentindo!

_ Parem os dois! Que coisa é esta de lobo Dark? – Rachel perguntou.

_ O papai que falo que o Quil chama o tio Jacob assim! – Jason disse, apontando Paul, que, no momento, se protegia do olhar da esposa atrás de uma almofada.

_ Será possível que vocês nunca vão crescer, Paul?

_ É claro que não Rachel. Estes daí vão continuar sendo os mesmos garotos idiotas de sempre! – Leah disse, saindo da cozinha com um prato de lasanha na mão.

_ E você Leah, vai continuar sendo a mesma chata de sempre. – Paul disse, tacando a almofada nela. Ela desviou mantendo o prato perfeitamente equilibrado.

_ Obrigada Paul! — Leah respondeu com um gracejo forçado.

_ Por nada!

_ Vocês podem parar de caluniar Jacob pelas costas e ainda por cima levarem as crianças juntas nesta! Não é Sarah? – Rachel ralhava com o marido e buscava reforço na cunhada.

_ Hein? – Sarah disse, disfarçando.

_ Ah, qual é amor!? Até a Sarah sabe que o Jacob é um porre às vezes! Isto porque ela não tem ele vasculhando sua mente o tempo inteiro. Aquele lá desempregado é um tormento pra matilha. Pior que a irmã dele de TPM! – Paul sussurrou a última parte pra Sarah.

_ Paul! Quer o divórcio? – Rachel ralhou novamente.

_ Ei meu amor, eu estava só brincando! É claro que eu não penso isto do seu irmão. – Paul disse todo sedutor e carinhoso pra Rachel, fazendo ela se derreter.

_ Mãe, o papai tá cruzando o dedo nas costas. Ele tá mentindo! – Jason disse rindo.

_ Ei garoto, não dedure seu próprio pai… ai! – Paul disse para Jason, mas logo levou um tapa de Rachel na cabeça.

_ Que você tá falando “ai” Paul? Você não sente nada!

_ Amor, você é uma Black! Você pode não ser loba, mas tem mais força que o comum! Tá no seu sangue! Seu tapa incomoda Rach! – Ele disse, fazendo biquinho. Raquel rolou os olhos bufando, mas logo depois se aproximou sorrindo para beijar o marido.

_ Já disse para vocês não fazerem isto na frente das crianças! Vocês se empolgam de vez em quando. – A voz de Billy irrompeu na sala, enquanto ele repreendia a filha e o genro.

_ É vovô, é nojento! – Elisa disse, fazendo careta.

_ É bom que você continue achando isto nojento pelos próximos quarenta anos mocinha! Isto não é pra você! – Paul disse, cruzando os braços.

_ Ah vai nessa Paul. Se tua filha puxar a Rachel ou a Rebecca, ela vai mudar de opinião logo, logo. Estas gêmeas eram “as pegadoras” da escola. Eu me lembro bem.

_ Leah! Não era bem assim… — Rachel disse, enrubescendo.

_ Pegadoras? – Sarah perguntou faceira, enquanto comia a lasanha deliciosa que Leah havia trazido.

_ Vamos parar com este assunto! Temos um casamento pra organizar. Homens, se mandem! Agora a conversa é entre mulheres!

_ Os velhos podem ficar? – Billy perguntou.

_ Se os velhos forem homens… não!

_ Porque é que eu fui dar tanta autoridade pra Rachel mandar nesta casa? Agora ela virou um general! – Billy saiu resmungando pra Paul enquanto se afastavam da casa.

_ Eu chamo isto de mal dos Black! Já reparou que todos vocês são mandões sogrão? – Paul foi respondendo, fazendo Sarah balançar a cabeça sorrindo. Era verdade.

_Este Paul me enlouquece às vezes! – Rachel disse, com voz risonha.

_ Normal, o Paul enlouquece todo mundo! – Leah disse, também se sentando na mesa junto de Rachel e Sarah.

Sarah nada dizia, apenas sorria e comia a lasanha, pois só agora tinha percebido o quanto estava com fome.

_ Bom querida, mas vamos ao casamento… O EMILYYY TRÁS O VESTIDO!

Leah se encolheu tampando os ouvidos com o grito de Rachel.

_ Ei? Dá pra gritar menos? Meu ouvido é sensível, esqueceu? – Leah ralhou.

_ Desculpe Leah, eu esqueci. Mas é que a Emily tá lá dentro…

Sarah ficou realmente impressionada enquanto Emily e Rachel derrubaram por cima de seu corpo o que seria seu vestido de casamento. O que era mais impressionante era a renda, tão fina, tão delicada. Os desenhos que ela formava eram flores, feitas ponto a ponto pelas índias mais velinhas da tribo. Pouco a pouco elas teciam aquela renda, com desenhos únicos, formando exatamente os contornos precisos para ornamentar o vestido de Sarah. Aquela renda fazia jus a mais cara das rendas francesas.

Emily tinha mão boa para costura, ela era nitidamente uma mulher que nasceu para ser do lar. Suas habilidades naquele sentido eram inesgotáveis, era ela que estava montando o vestido de Sarah e o arranjo de seus cabelos. Além disso, ela fazia a roupa de Jacob. Emily fora a escolhida, em alguma espécie de reunião repleta de miticismo quileute, organizada por Sue, para cuidar das roupas dos noivos, que teriam de ser lavadas, assim que ficassem prontas, com uma infusão de pétalas de flores típicas dali, juntamente com um canto espiritual quileute.

Rachel também cantava um canto suave e melodioso enquanto Emily fazia as medições no vestido em Sarah. A voz da cunhada tinha, no fundo, uma suave rouquidão, mas que não chegava a ser acentuada, era como um toque a mais para suavizar o timbre de sua voz, que era de uma soprano menos brilhante, mais escura, porém linda.

_ São tantas minúcias Leah. É mesmo necessário tudo isto? – Sarah perguntou, enquanto Kim ajudava Rachel e Emily a decidir as pedras mais propicias ao bordado do vestido.

_ Bom, Sarah… grande parte da tribo pensa que este casamento está sendo assim, porque Jacob quis e o Billy fazia questão. Na verdade, Billy faz mesmo questão, mas o fato é que estes rituais específicos são mais direcionados aos “líderes quileutes”. Para nós, integrantes do mundo das lendas, sabemos que os líderes quileutes não são somente aqueles que integram o conselho e tudo mais, mas sim “Os Alphas”. O casamento do Sam… bom… o casamento deles foi parecido, mas o Sam não quis fazer tudo porque, segundo ele, a linhagem real dos Alpha é de Jacob. – Leah disse, enquanto tateava as amostras de flores para a decoração que Rachel havia trazido para que Sarah escolhesse.

_ Não imaginei que vocês ainda mantivessem estes costumes, Leah. Vocês parecem fazer parte daquelas comunidades que já se enraizaram com os costumes dos “brancos”. – Sarah disse, fazendo aspas no ar ao dizer a palavra “brancos”.

_ Bom, na verdade, nós somos em muitas coisas, mas os velhos do conselho continuam mantendo firme com as coisas, sabe? Com a morte do velho Quil, há três anos, a gente pensou que eles iam relaxar um pouco. Mas acabou que minha mãe é a pior deles! Não sei se você percebeu ela no seu pé? – Sarah deu um riso suave, que era uma afirmação do que Leah dizia. — Então… eu só aviso que é bom ter paciência, porque você vai ter que ficar andando com um bando de índias velhas que vão ficar rezando pra você, cantando, te dando banho e te contando uma cacetada de histórias monótonas.

_ Eu não me importo, é gostoso participar disto, é bonita esta crença, este cuidado por um casamento.

_ Sarah… — Emily escutou a conversa entre as duas e finalmente resolveu opinar. – O mais sagrado entre nós, quileutes, é o amor. Quando se trata dele, todos nós temos cuidado e respeito. O casamento pra nós é o significado de toda esta preciosidade e magnitude. Ele é a consagração de um amor, é o início de uma família. Por isto há este cuidado na benção dos noivos querida.

Sarah engoliu em seco, afirmando constrangida. Era tanta dedicação, tanta ritualidade naquele ato e ela não se sentia digna daquilo, sentia que deturpava uma crença. Mas disfarçou.

_ E é tão bonito! Eu nunca cheguei a ver um casamento assim, igual ao seu Sarah, que é mais das linhagens mais “nobres”, só ouvi minha mãe contar e parece tão lindo só de ouvir. Você vai gostar! – Kim disse sorridente, ela também não tardaria a se casar, Jared já havia pedido a mão dela e os dois agora, começavam a montar sua casinha.

_ Tia Sarah, posso fazer seu penteado do casamento? – Elisa perguntou, com um pente e umas flores campestres na mão.

Sarah sorriu e afirmou. A pequena foi então mexer no cabelo da tia tagarelando de que deixaria uma trança do lado com uma flor pregada na ponta, uma outra flor de baixo da orelha, outra prendendo a franja… Sarah quase dormiu com as mãozinhas suaves dela mexendo em seus cabelos, provavelmente embaraçando todo, enquanto as outras mulheres conversavam.

Elas ficaram matraqueando por muito tempo ainda, Sarah estava absolutamente aliviada de que elas tinham toda a empolgação para cuidar de seu casamento, uma vez que ela não a tinha. Mas Leah, como sempre, tinha a atenção focada na amiga. Mas, por incrível que pareça, não fazia mais uma única pergunta comprometedora sobre aquele casamento à Sarah. Mal sabia a médica que a loba fazia aquilo por causa de um pedido de Jacob.

Eram sete horas da noite quando Sarah ouviu a voz de Jacob a uns cem metros de distância da casa. Seus músculos se retesaram e não demorou Leah avisou.

_ Guardem qualquer coisa da noiva porque o noivo ta chegando!

_ O que? Aí meu Deus! Está tudo espalhado! Jacob: NÃO ENTRA! – Rachel gritou, enquanto fazia uma algazarra para guardar alguns retalhos do tecido do vestido.

Sarah mais sentiu do que ouviu quando ele se aproximou da porta e ficou parado lá, respirando profundamente. Embry estava ao lado dele, também muito quieto.

_ Posso entrar? – Ele perguntou, depois de alguns minutos.

Rachel não respondeu, apenas foi abrir a porta. Assim que ela escancarou a porta esbaforida, ela parou e ficou olhando para o irmão, sorrindo timidamente.

_ Desculpe te fazer esperar Jacob, mas tradição é tradição, você não pode ver nada. – Rachel dizia com voz baixa, mexendo nas mãos nervosamente.

Jacob olhou pra a irmã compenetrado por um instante. Depois suavizou a expressão e confirmou com a cabeça, entrando dentro da casa. Porém, ao passar por Rachel, ele fez um gesto mínimo, mas que fez o coração dela voar e seu sorriso aumentar: ele pegou a mão da irmã e deu um beijo rápido e suave.

Sarah observou aquele gesto com olhos aguçados. Ela mantia sua expressão suavemente sorridente, seus olhos quase ternos, mas ela estava mais fria com Jacob, quase não falava com ele. Ele também não forçava, quase não tinha coragem de olhá-la nos olhos. Mas naqueles momentos, na presença dos tão empolgados quileutes para o casamento, eles mantiam uma certa reserva, e se punham a interpretar.

Jacob já havia ficado habituado em se aproximar dela e beijá-la suavemente, colocando a mão em sua nuca e dando um leve carinho antes de soltá-la. Sarah também não recusava, sempre fechava os olhos quando ele vinha, e seu coração sempre mudava para um pulsar angustiado.

Jacob entrou na casa e não fez diferente, mas antes reparou no rosto dela. Estava exausto, cansado. Ela havia prendido o cabelo em um coque com uma caneta, mas uma mecha caia nos seus olhos e ela não parecia se incomodar para retirá-la. Ela estava sentada recostada no sofá, com as pernas cruzadas em cima, sem os sapatos.

_ Está cansada. – Ele afirmou. – Ainda tem que voltar para o hospital?

Sarah olhou pra ele e sorriu de leve: “Não o julgue tão irrevogavelmente…” Ela se lembrou da voz de Quendra.

_ Não hoje.

Ele afirmou levemente, logo depois se voltando para Leah, que começou a falar com ele.

_ Conseguiram descobrir mais alguma coisa? – Ela se referia as suspeitas que Jacob havia levantado sobre a proliferação de vampiros recém-criados na região.

Ele pensava seriamente que poderia haver um outro vampiro interessado em montar um exército, ou fazendo residência ali. Mas o problema é que não fazia sentido! Se era um exército, por que os novos sanguessugas ficavam soltos por aí? E se era um vampiro guloso, por que ele não matava as vítimas ao invés de transformá-las?

_ Nada. Eles aparecem, mas não são treinados, agem por instinto, são muito fáceis de vencer. E eles não vem de um só lugar, às vezes aparecem do norte, às vezes do sul, do oeste… É impossível saber o que os está atraindo pra cá! – Embry falou pensativo. Leah enrugou o cenho e Jacob olhou para Sarah imediatamente.

_ Mas Sam me disse que você iria viajar com uma parte da matilha pra tentar descobrir a causa de tudo isto, Jacob. – Emily disse.

_ Não, eu pensei nisto, mas não é prudente desfalcar a matilha assim. Não temos certeza do que é, então é melhor que todos fiquem juntos por aqui.

_ E Jacob, o casamento vai precisar ser adiado por causa disto? – Rachel perguntou.

Jacob respirou fundo e olhou para Sarah, querendo saber se ela queria que o casamento fosse adiado. Ela nada disse, mas seu olhar indicava que a decisão estava nas mãos dele.

_ Não Rachel, não vai. Mas de qualquer forma, alguns lobos não poderão ir ao casamento, terão de ficar em ronda.

Rachel fez uma careta e confirmou. Elisa estava encostada em Sarah, no lado oposto do sofá ao que Jacob havia se sentado. Ela esticou o pescoço por baixo do abraço de Sarah e olhou o tio com olhinhos cautelosos.

_ Tio Jacob? E se um vampiro escapar e pegar a gente? – Ao dizer aquilo o coração da pequena acelerou, Sarah a abraçou mais terna. Jacob olhou pra ela e logo depois para Sarah, pensando no que Elisa tinha dito.

_ Nenhum vampiro vai escapar Lisa, eu não vou deixar, nem eu e nem nenhum da matilha certo? – Ele disse, suave. Ela balançou a cabeça, afirmando. – Confie em nós! – Ele sussurrou, passando a mão delicadamente na cabeça dela. Elisa se encolheu no abraço de Sarah, que lhe beijou o topo da cabeça.

Rachel pensou em abraçar a filha para acalmá-la, mas desistiu ao ver que ela se confortava no meio de Sarah e Jacob.

_ Vocês serão bons pais! – Ela disse sorrindo. — Mamãe estava certa Jacob, ela estava certa em dizer que você seria um bom pai de família.

Sarah sentiu um frio por dentro a sacudindo… mãe? Como ela seria mãe? Não foram só Jacob, Embry e Leah que perceberam a angustia que tomou conta dela, com as reações nervosas de seu corpo, mas os outros, quando ela fechou os olhos e engoliu em seco. Ela não fez um comentário sequer a respeito daquilo, apenas continuou a acariciar a cabeça de Elisa. Jacob também ficou desconfortável e nada falou.

_ Bom, Jacob, agora é sua vez! Nós temos que decidir o ponto da praia que vamos fazer a festa, e você e os garotos tem que montar o altar e… — Rachel começou a falar ininterruptamente para se livrar do clima que ficou. Jacob continuou sentado, somente ouvindo. Sarah ainda voltou a conversar, brincando por vezes.

Logo Paul, Billy e Jason chegaram. Jason fazia algazarra e olhava pra Jacob com olhar desafiador, como para atestar que não tinha medo dele. Mas na única vez que Jacob franziu o cenho pra ele, o pequeno virou as costas disfarçadamente. Leah riu e Elisa começou a caçoar o irmão, fazendo ele ficar bravo e pular em cima dela. Paul e Rachel foram socorrer e separar os filhos, que não sediam e se pegavam.

_ Meu Deus, crianças, assim vocês botam fogo nesta casa! – A voz de Billy soou profunda e grave, fazendo os netos prestarem a atenção no avô e pararem de brigar.

_ Obrigada pai.

_ Estes pequenos tem um gênio que vou dizer! Ainda matam seu avô de infarto crianças! – Billy disse, ainda carrancudo.

Jacob viu quando Sarah olhou para Jason e Elisa, fazendo um gesto de abraço e apontando Billy disfarçadamente. Os pequenos entenderam o que ela quis dizer e logo estavam em cima da cadeira de Billy beijando o avô e pedindo desculpas.

_ Ou! Hey, eu desculpo sim. Sou um avô bem bobo, não é? Sempre desculpo! Mas não se matem!

Jacob se levantou em meio aos risos.

_ Nós precisamos ir. – Disse olhando Sarah recostada com olhar mole no sofá. Ela olhou pra ele e se levantou também.

_ Sim, precisamos.

_ Haaaa!! Tia, não vai não! – Elisa e Jason vieram lhe agarrar as pernas.

_ Meus amores, eu preciso. Titia está cansada.

_ Dorme aqui, eu te empresto minha cama! – Jason falou. – Daí eu te conto história pra dormir, aquelas que o vovô Billy conta. Você gosta de história de terror?

_ Jay, não se conta história de terror pra dormir! – Elisa disse brava.

_ Conta do que então?

_ De princesas!

Ele fez uma careta.

_ Princesas são chatas!

_ Mas é coisa de menina e tia Sarah é menina. E ela vai dormir no meuuuu quarto, tá?

_ Ei, ei crianças, não vão começar a brigar de novo. Hoje eu não posso ficar aqui, mas quando eu puder, eu fico e cada um conta a sua história pra mim, certo?

_ Certo! – Eles responderam, dando um beijo nela e voltando correndo brincar com o pai, que era a diversão dos dois.

Jacob se despediu cordialmente de todos, mas em Sarah cada um dava um abraço e conversava. Emily resolveu conversar alguma coisa que tinha esquecido sobre o vestido e arrastou Sarah pra dentro novamente. Jacob foi para fora esperá-la.

_ Então? Como ela está com você? – Era Leah, que veio atrás dele. Ele balançou a cabeça e sorriu.

_ Educada.

_ Boa relação entre marido e mulher. Tudo que um precisa do outro. Educação! Tipo, bom dia e boa noite?

_ Não, tipo aceno de cabeça na chegada e aceno de cabeça na saída. Quando muito: “tem comida pronta”.

_ E o que você faz? – Leah disse, colocando a mão na cintura.

_ Como assim, o que eu faço?

Ela bufou e colocou a mão na testa, sussurrando: “E eu que pensei que ele era inteligente!”

_ Eu ainda não fiquei surdo Leah. – Jacob ergueu a sobrancelha. Ela bufou novamente.

_ Jacob! Será possível que eu vou ter que te ensinar como dobrar uma mulher durona?

_ O que?

_ Jacob, se ela não fala com você, fale com ela oras! Eu sei que você não é tão idiota assim pra não saber puxar uma conversa amena! E você já olhou esta sua cara aí? Já tentou fazer uso dela pra conseguir algo? Tipo, um olharzinho…

_ Ei! Pera aí! Leah, você está me dando aula de sedução?

_ Você tá precisando!

_ Ah, eu to precisando? Você ficou é muito intrometida!

_ Eu sempre fui assim.

_ Tem razão, você sempre foi. E comigo mais do que com os outros! – Ele fechou a cara. Leah riu.

_ Mas no final vale a pena! – Ela deu uma piscada, sussurrando enquanto ouvia os passos de Sarah se distinguir dos demais. Jacob rolou os olhos.

_ E confie nas minhas dicas. Porque eu consigo dobrar pessoas duronas! – Ela disse, apontando para ele.

_ Inclusive você mesma?

_ Engraçadinho!

Sarah abriu a porta a tempo de ver Leah dar um tapa nos ombros de Jacob, sorrindo.

_ Eles estão se dando bem ultimamente. – Embry lhe sussurrou pelas costas, fazendo Sarah se virar pra ele.

_ E você está com ciúme? – Sarah perguntou também muito baixinho para que Leah não escutasse. Ela quase estava falando a ele que não havia motivos para ciúme, mas Embry foi mais rápido.

_ É claro que não! – Ele disse sorrindo. – Só comentei, ele tá diferente. É mais com ela, mas está.

_ Diferente? Diferente com a Leah? Diferente como? – Sarah perguntou, voltando pra dentro da casa com Embry aos sussurros, fingindo ir pegar o jaleco que tinha esquecido. Jacob e Leah estavam longe o suficiente para não ouvir.

_ Está com ciúme? – Ele perguntou. Sarah fez uma careta, ele riu. – Sei lá, eles estão conversando, isto não acontecia muito.

_ Humm... – ela murmurou.

_ Por que?

_ Por que o que?

_ Por que você pareceu ficar espantada Sarah!? Leah é sua amiga, ela vive na sua casa, por que você ficou espantada por ela estar conversando com Jacob? Você devia achar isto mais natural do que eu.

_ Bom, é que isto não depende do meu grau de influência sabe? Aqueles dois não são tão manipuláveis assim. – Aquilo era uma meia verdade.

_ É, não são.

Eles voltaram pra fora de novo e Embry acompanhou Sarah até onde Jacob e Leah aguardavam.

_ Posso saber o que vocês dois sussurravam tão secretamente? – Leah perguntou a Embry assim que o abraçou. Mas foi Sarah que respondeu.

_ Só se vocês falarem o que vocês sussurravam tão secretamente!

_ Boa Dona Alpha! Agente fala se vocês falarem!

_ Isto é um complô? – Leah perguntou, apontando Embry e Sarah. Eles riram e Embry apontou para Jacob e Leah e perguntou:

_ Isto é um complô?

_ Talvez seja, mas é para uma boa causa. – Leah disse, penetrando Sarah com os olhos. A morena devolveu o olhar apertando os olhos, desconfiada.

_ Bom, temos que ir. – Foi a única coisa que Jacob falou.

_ Sim, vamos. – Sarah falou aquilo um tanto desanimada, enquanto tirava a chave de seu carro do bolso.

Mas Jacob passou a mão na dela e pegou a chave, fazendo ela estranhar.

_ Eu dirijo, você está quase dormindo.

_ Tudo bem. – Ela respondeu se virando para o carro. Mas, pelo reflexo da lataria ela viu Leah sorrir pra Jacob e fazer um aceno de positivo. Virou as costas e Leah imediatamente disfarçou, beijando o rosto de Embry, que também fazia uma cara desconfiada, e acenando um tchau.

Sarah olhou pra Jacob, e ele só fez um gesto para que ela entrasse no quarto. Ela estreitou novamente os olhos e entrou no carro. Jacob logo deu partida, ficando em silêncio e se encostando ao máximo no banco, dirigindo suavemente. Sarah olhava pra ele constantemente.

_ Diga… — Ele falou, depois de alguns minutos.

_ Dizer o que?

_ Você quer perguntar algo, então pergunte.

_ Não me diz respeito. – Sarah confessou.

_ Por que não diz? Por que é entre mim e Leah? – Sarah respirou fundo, ela nunca havia tocado naquele assunto com ele, ficou desconfortável com a forma como ele estava sendo direto. – O que quer saber? – Ele voltou a insistir ante o silêncio dela.

_ Ela… Ela não… esquece Jacob!

_ Se ela me perdoou? Se ela me perdoou por eu ter agido covardemente com ela?

_ Jacob… — Sarah se mexeu desconfortável no banco. – Não quero entrar em qualquer assunto que acabe em discussão.

_ Por que acabar em discussão? Por quê? Você tem vontade de fazer o que comigo? Diga Sarah, pode fazer o que quiser, jogue na minha cara o que eu fiz! Discuta, mas não reaja mais como um ser inanimado!

_ Um ser inanimado não incomoda, e é assim que precisamos ser um para o outro pra suportar este casamento! Não vou impor meus achismos à você, Black! – Ela já estava alterada. Qual era o conselho de Leah mesmo? Ah, sim, uma conversa amena…

Aquilo estava muito tranquilo certamente. Jacob resolveu ficar quieto e respirar fundo para completar o caminho. Eles entraram na casa em um silêncio angustiante, Jacob não agüentava mais aquilo.

_ Você não precisa passar por isto se quiser! – Ele disse, enquanto ia para a cozinha beber água e tirava a camisa no caminho, jogando em qualquer lugar.

_ Por isto o que? – Ela disse, arrancando o jaleco novamente.

_ Por mais este casamento. Quanto menos atividade melhor não é? Então deixe que as opiniões se danem e nós apenas nos suportemos nesta casa. Acabamos com os teatros que te incomodam tanto.

_ Pensei que isto fosse importante pra vocês. Digo, os quileutes.

_ Não é nada do que eu não possa me livrar. – Ele suspirou. Já com uma jarra de água na mão.

_ Pensei que Billy fizesse questão.

_ Sim, ele faz questão sim. Mas é mais por outra coisa do que pela tradição. – Sarah percebeu Jacob vacilar. – Mas eu posso falar com ele.

_ Não, não precisa, eu não quero magoá-lo. Eu posso fazer isto. – Ela disse um pouco mais branda, logo parando de falar e ficando olhando Jacob beber um litro de água de uma só gole. Ele olhou para ela novamente e disse:

_ Pergunte.

_ O que? – Ela disse confusa. Como ele sabia quando ela estava encanada com algo?

_ Você quer saber algo de novo: diga. – Ela encarou o chão.

_ Pelo que Billy faz questão deste casamento então?

_ Pela minha mãe. – Jacob disse, deixando a jarra de água na pia e se sentando na mesa de centro da cozinha.

_ Sua mãe?

_ Sim, ela. Minha mãe, antes de morrer, deixava bem claro que queria que os filhos constituíssem família, nos contava as lendas de amor quileutes… Ela dizia que eu seria um guerreiro e teria um casamento de guerreiro quileute, com todas as honras, porque eu era um Black. Eu era pequeno, mas me lembro bem disto. – A voz dele estava entre o seu habitual controle e o saudosismo. Sarah desfez sua rigidez por um instante.

_ É por ela que Billy faz questão então?

_ Sim, não só ele, mas Rachel e Rebecca também. De nós, só Rachel fez um casamento mais dentro das tradições. Minha mãe era uma sonhadora, ela gostava daquilo. De preparar os detalhes, de cantar os cantos quileutes, das nossas lendas, de nossas crenças.

_ Você também quer este casamento por ela Jacob? – Sarah perguntou baixinho, se sentando na cadeira próximo a ele.

_ Não.

Sarah engoliu em seco.

_ Por que não? – Perguntou, se sentindo boba por fazer aquela pergunta.

_ Porque eu sei que ela queria um casamento verdadeiro. – Ele disse grave, colocando a cabeça entre as mãos.

_ Eu… sinto muito… — Sarah novamente abaixou os olhos. Jacob suspirou. – Por não poder ser assim…

Jacob deu um sorriso irônico. Sarah resolveu mudar de assunto.

_ O que Leah pretende?

_ O que você quer dizer? – Ele se virou pra ela.

_ Eu vi ela te acenando quando você decidiu dirigir pra mim. – Jacob riu, Sarah franziu a testa.

_ Leah é maluca.

_ Ela quer que eu te perdoe. – Sarah disse, se levantando bruscamente, dando um riso de escárnio. Jacob se irritou.

_ Se você sabia, por que perguntou?

_ Diga a ela que não tem por que eu te perdoar, o que você faz não me diz respeito.

_ Posso dizer a ela que você também não concorda que ela tenha me perdoado? – Jacob sentia novamente um incômodo no peito ao encarar os olhos de Sarah retomar sua dureza.

_ Se você sabe, por que pergunta? – Ela disse, ainda mantendo a expressão sarcástica.

Jacob se levantou também, com os nervos a flor da pele. A situação entre os dois deixavam aquela casa como um vulcão em atividade: prestes a explodir.

_ Certo. Você não acha que tem motivos pra me perdoar, porque isto não lhe diz respeito, mas acha que tem motivos pra me julgar?

_ Tem razão, eu também não posso te condenar por coisa alguma. O problema é entre você e ela, então vocês que se resolvam! – Ela virou as costas.

_ Não me vire às costas! – Ele disse exaltado, com voz ríspida, o peito subindo e descendo rapidamente.

Sarah se virou pra ele raivosa.

_ Por que não devo virar as costas? Por que se eu te desobedecer você vai me bater? – Ela disse rancorosa, mas meio segundo depois do que disse, quando ela viu os olhos de Jacob se arregalarem e a expressão dele se contorcer em agonia, ela se arrependeu, ficando parada em frente a ele.

_ Isso… diga Sarah, diga o que pensa de mim! Diga que eu sou um monstro! Diga que me odeia e me despreza, seja sincera! – Ele disse, sorrindo loucamente.

Ela ficou quieta, parada olhando pra ele. Jacob continuou a falar:

_ Você tem razão, não é? Então diga, grite e faça o que você tem vontade! – Sarah engolia em seco enquanto observava Jacob respirar cada vez mais agoniado.

_ Não… — Ela sussurrou. – Eu não quero fazer nada! – Ela falou atordoada, voltando a virar as costas para sair de lá.

_ Eu não te entendo! Você diz ter raiva, você despreza claramente e não tem coragem de rechaçar quando lhe dão a oportunidade? – Ele foi atrás dela, Sarah tampou os ouvidos. – Acha que eu sou capaz de te bater? Acha que eu sou este tipo de covarde que espanca sem qualquer motivo!? Você tem nojo de mim Sarah!

_ Não… — Ela voltou a dizer atordoada com a voz dolorida dele.

_ Como não Sarah!? Como não!? – Jacob se aproximou dela ainda mais, fazendo com que ela parasse de andar. – Você tem pesadelos comigo Sarah! Você pensa que eu não escuto seus gritos nas poucas horas que você vem dormir aqui? Pensa que eu não escuto quando você grita para o monstro dos seus sonhos? De você dizendo que tem nojo dele? Para que ele não te bata? Você até grita que quer que eu morra!

Ele escutava! Jacob escutava os pesadelos infernais que ela tinha, escutava e pensava que era ele.

_ Jacob não… — Ela tentava dizer, mas ele estava um tanto descontrolado. A angustia de tantos dias suportando aquilo estava sendo extravasada.

_ Pois eu suporto você dizer isto pra mim Sarah, mas diga isto acordada. Se livre disto para que eu pare de atormentar seus sonhos e …

_ NÃO É VOCÊ! – Ela gritou, caindo ajoelhada no chão. – Não é você o monstro dos pesadelos Jacob, você não é aquele monstro, não é!

Jacob só se lembrava dela fragilizada daquela forma quando eles brigaram da última vez, quando ela disse…

“NÃO ENCOSTE EM MIM! EU TENHO NOJO DISTO, EU TENHO NOJO DE VOCÊ XAVIER!”

Ela havia dito outro nome, um nome que ele já havia escutado, mas não se lembrava de onde.

_ Então quem é Sarah? — Ele perguntou, exaurido de tantas discussões.

_ Não importa… — Ela sussurrou com voz entrecortada.

_ É Xavier o nome dele? O que ele fez com você? – Ele começou a dizer novamente tenso, sentindo o aperto no peito aumentar. Mas Sarah fugiu quando ele tentou tocá-la.

_ Não importa! Isto não importa a ninguém Black! Eu já disse que não lhe interessa!

_ Sarah. Importa sim… o que te faz ter pesadelos quase toda noite?

_ Não, você não tem que saber! NINGUÉM VAI SABER!

_ Por que Sarah? O que você esconde? O que te deixa assim?

_ O que lhe importa a maneira que eu fico Black? Me deixe em paz! – Ela enfiou as mãos nos cabelos e apertou os olhos. Se sentia oprimida, atacava feito um bicho acuado. Não, ninguém podia saber!

Nesta hora o telefone toca, ela sai feito louca e atende.

_ Sarah… — é tudo o que ela diz ao atender.

_ Doutora! Nós tentamos lhe ligar no celular, mas você não atendeu.

_ Diga o que é! – Ela quase ordenou, tentando conter o tremor em sua voz. Se virou para longe das vistas confusas de Jacob.

_ Uma emergência doutora! Eu sinto lhe importunar agora, mas a garota foi muito ferida e tememos algum trauma no crânio e…

_ Estou indo pra aí! – Ela disse, desligando e saindo procurar um novo jaleco e as chaves do seu carro.

_ Você não pode ir deste jeito. – Jacob segurou a mão dela quando ela tentou pegar a chave.

_ Me solta…

_ Sarah escute, você não está em condições! Fique, passe as orientações a outras pessoas…

_ Não tente me aconselhar! Eu sei o que faço! – Ela se livrou rudemente da mão dele e pegou a chave.

_ Você está tentando fugir Sarah, mas não está em condições disto…

_ Você não é ninguém pra me dizer isto Black! – Ela continuava com a voz extremamente aguda e trêmula.

_ Não Sarah…- Ele correu até ela e pegou-lhe pelos braços, fazendo com que ela se virasse para ele. Ela abaixou os olhos, ele pegou o queixo dela e o elevou. – Você sabe de coisas demais sobre mim e porque você se esconde tanto do que eu posso saber de você? Olha como você está Sarah, olha como você treme tentando esconder o que for! Me conte, eu posso ajudar…

Ela riu.

_ Não, você não pode ajudar! E por isto não adianta você saber!

_ Sarah… — Ela se desvencilhou dos braços dele e correu veloz até o carro, não demorando a partir.

Como? Como ela havia deixado a conversa ter chagado aquele limite? Ela não devia ter insultado Jacob de início. Se sentiu extremamente mal ao ver a dor e vergonha passar pelo rosto dele quando ela disse que ele poderia batê-la. E depois sofria com ele pensando que os gritos desesperados, que o seu travesseiro não conseguia abafar, eram por horror a ele. Doía nela saber a agonia que estava provocando em Jacob durante todo aquele tempo… Ela não tinha este direito, não tinha!

Mas agora também lhe atormentava o olhar que ele deu a ela quando chegou tão perto de sua ferida, quando a viu frágil. Parecia que ele compartilhava sua angustia, parecia realmente que ele queria fazer algo… Mas ele não podia… e era péssimo pra ela imaginar que alguém pudesse descobrir aquilo, sua fraqueza.

Sarah entrou novamente no hospital forçando o seu corpo a um tipo de estado mecânico e sem emoção, se direcionando a sala de emergência. Mas antes esbarrou com um médico de sua equipe, Dr. Marlon.

_ Doutora! Sentimos muito em ter que incomodá-la, mas os únicos que podiam examinar a paciente são homens e ela está um tanto irredutível para nós. Achamos que uma presença feminina iria acalmá-la.

_ Ela está consciente? – Sarah perguntou.

_ Estava, mas agora nós tivemos que sedá-la. Ela sofreu concusões muito fortes na cabeça e desmaiou logo em seguida. Acordou enquanto a examinávamos e teve uma crise nervosa.

_ Crise nervosa? – Sarah conversava com Marlon voltando a andar rumo à ala onde a paciente deveria estar. – Do que se trata o acidente?

Marlon parou um instante, suspirando fundo, obscurecendo a expressão.

_ Não foi um acidente.

_ Não foi um acidente? Então o que foi?

_ Estupro. O nome dela é Amanda, tem 15 anos e foi violentada.

Sarah estacou onde estava, sentindo o que parecia ser um soco no estomago.

Notas finais
Jacob, aos pouquinhos mudando... perceberam?? Ho-ho... mas Sarah não é uma pessoa tão fácil! No próximo capítulo, teremos de ter fôlego... um draminha básico!!
Comentem lindas!!