The Precious Blood
39 KADINAH
Notas iniciais
Sem falatório hj!
Não se esqueçam de comentar!
Até lá em baixo!
Ele ergueu a cabeça, coberta pelo capuz largo do manto negro que vestia, para mirar a entrada da caverna onde aquela criatura lhe aguardava. O vento naquela região era forte e gelado, o oxigênio já estava escasso, considerando a altitude elevada daquela montanha. O dia lá era cinzento, nuvens escuras cobriam o céu em um peso quase esmagador. Não havia som de uma alma viva sequer, somente o sussurro constante do vento cortando as rochas das montanhas.
Mas ainda assim, ele aguçou os ouvidos o máximo que pode, vasculhando o lugar com sua audição privilegiada. Ninguém poderia saber que ele estava lá. Ninguém, absolutamente ninguém, poderia chegar naquele lugar, descobrir o que ele escondia por séculos. Respirou fundo, procurando distinguir cheiros, mas só havia o odor acre dela. Estava só, como tinha de ser.
Ele deixou de perder tempo, se moveu ligeiramente para a caverna oculta por entre as rochas irregulares do extremo da montanha. Como um vulto negro cortando a neblina do dia cinzento, ele se assemelhava muito a um morcego agourento.
A caverna em que ele entrou não era assim, tão comum. Não se parecia com a imagem tradicional de uma caverna sombria, sem luz, coberta de estalactites e musgo. Das rochas irregulares que formavam o interior daquele buraco de rochas, luzes vermelhas e azuis se projetavam como pequenos raios, dançando soltos por entre o vácuo negro e impiedoso. Qualquer olho que não fosse aguçado suficiente, não seria capaz de enxergar onde era o chão ou o teto da caverna, muito menos perceber o lago negro de aguas imóveis que cobria a maior parte da extensão daquele lugar. Ele sabia que mesmo para uma criatura sobrenatural como ele, cair naquele lago era o fim: as aguas tragavam qualquer coisa para dentro com uma força insuperável, e o engolia para o resto da eternidade. Não havia chances.
_ Que surpresa aparecer por aqui meu caro... não pensei que voltasse tão cedo. – Ela riu, o som do seu riso era funesto, sua voz era distorcida, gutural.
_ Como se você não soubesse que eu viria. Você me chamou aqui Kadinah. O que quer? – Ele exigiu a resposta, com voz impaciente.
_ Um velho vampiro ranzinza, é isto que você se tornou. – Kadinah riu novamente. O som da sua voz parecendo ser projetado das paredes rochosas da caverna escura. Estava por toda parte. — Eu lhe chamei aqui somente porque tenho mais informações sobre o seu tesouro... Mas não fique parado aí, entre no meu humilde reino. – Kadinah disse, se fazendo visível no outro oposto da caverna, para além das luzes dançantes. – Que tal mais um passo?
O vampiro olhou pra ela com cara de deboche. Havia o lago entre eles, ele não poderia simplesmente saltá-lo. A força daquela lagoa o puxaria para baixo irrevogavelmente, mesmo que ele não tocasse os pés na água.
_ Cubra o lago Kadinah! Não tenho a eternidade a sua disposição! – Ele disse, com voz monótona. A criatura bisonha apenas gargalhou.
_ Ashonovrak... – Kadinah sussurrou, e uma trilha de rochas se ergueram do lago para que o vampiro passasse.
Ele finalmente chegou até ela, que lhe virou as costas e entrou mais a fundo na caverna, passando por um corredor sem luz alguma. Mas, de repente, o corredor de pedra estreito e escuro se abriu para um salão amplo, circular, com seu teto se projetando a dez metros de distância do chão e se estreitando no cume como a ponta de um cone. Aquele lugar tinha a decoração grotesca e distorcida de um recinto real do período gótico. As cores eram apenas variações de cinza e todos os móveis (espécies de mesas e poltronas), eram feitas ou de um cristal fosco ou de uma estranha rocha branca, lapidada.
No meio do salão, uma parede quadricular de cristal se erguia. Dela vinha toda a luz do lugar.
_ O que tem pra mim? – Kadinah perguntou, se sentando em uma das poltronas do salão. – Como andam as coisas?
Kadinah... aquela era, com certeza, uma das criaturas mais bisonhas que poderia existir. O rosto dela tinha algo de humano, embora a pele parecesse uma película clara, lisa e dura demais pra ser natural. Tinha os olhos iguais aos de uma mulher humana, mas ninguém ousaria olhá-los em um momento de fúria... eles se tornavam a própria personificação do demônio, distorcendo-se em cor de fogo, causando agonia extrema. Seus dentes, nem tão brancos, eram mais delicados do que o poder daquela criatura, poderia até dar-lhe a capacidade de um sorriso brando. Mas isto, também, eram só aparências. Da cabeça de Kadinah, ao invés de cabelos, saiam um emaranhado de coisas estranhas, que mais pareciam raízes grossas de uma arvore, ou então... chifres entrelaçados. Destes chifres, uma estranha luz branca reluzia fracamente, bem no centro de sua cabeça.
_ Como sempre. – O vampiro respondeu a ela, mirando a parede de cristal como se ansiasse por algo extremamente prazeroso. Há séculos ele a conhecia, já tinha deixado de ter repugnância ou meramente espanto com a aparência de Kadinah. Estava mais interessado em outras coisas...
_ Eu quero saber dos lobos... porque, como eu já te disse, chegando nos lobos teremos uma porta de acesso para atingir os elfos e o seu tesouro maior...
O vampiro deixou seus olhos cintilarem quando, na parede de cristal surgiu a imagem de sua maior fonte de poder. Ele já esteve tão perto dela... porque não podia simplesmente agarrá-la? Kadinah bufou e a imagem na parede desapareceu, dando lugar a imagem de uma poderosa elfo, em enfrentamento com um dos irmãos de Kadinah, a mais de mil anos... Não seria tão fácil enfrenta-los... ou liquidá-los. O vampiro disfarçou suas emoções ao vislumbrar aquela elfo, como era tão capaz de fazer.
_ Não quero mais esperar meu caro....humm... devo te chamar de Volturi... ou rei dos vampiros disfarçado? – Kadinah disse, risonha. O vampiro ignorou.
_ Como não quer mais esperar? Não era você que me impedia de chegar até ela?
_ Sim, mas eu sinto que se não agirmos logo, eles podem evoluir... criar algo mais poderoso... definitivamente, este não é meu interesse.
_ Ela teve um alerta quando pretendi atacar, da primeira vez. Ela me viu. Quendra acabou por me ver também. Não quero isto.
_ Quendra saberá que será você assim que demos um passo. Acho que por todos estes séculos você já aprendeu como agir com ela não? O que importa é que aquela elfo miserável ainda pensa que pode controlar você, por causa daquele acordo maldito... Mas não é bem assim, não é? – Os olhos de Kadinah começaram a adquirir aquela chama de ódio incontrolável. – O fato é que eu já dei tempo demais pra eles... – A criatura elevou sua mão para a parede de cristal e voltou a mostrar a forma como os elfos dizimaram seu povo, há muito tempo. Só ela sobreviveu, justamente por causa do vampiro que a olhava estático. – E eu sinto que finalmente está chegando o momento dos elfos perderem seu lugar tão elevado de controle do mundo... e vamos usar deles mesmos para eliminá-los. – Kadinah soltou um som gutural de satisfação.
_ O que pretende fazer? – ele perguntou, tentando conter sua expectativa. Frieza era o melhor... sempre. Ele se manteria frio, tão frio quanto sua pele.
_ Eu vou dar ela em tuas mãos... mais rápido do que imagina...
Ele riu, riu incrédulo e debochado, de uma maneira que irritou a criatura. Depois parou e, mais rápido que a luz, chegou na frente de Kadinah com os olhos vermelhos ardendo em uma descrença rancorosa.
_ E como você pretende fazer isto? Não seja tola! – Ele disse baixo, raivoso. – Ela está protegida! Envolta em uma redoma maior do que ela mesma e do que os elfos imaginam que ela esteja! Me diz como posso tê-la sem ser destruído antes? Se por todos estes vinte oito anos você não encontrou solução nenhuma para que eu pudesse tê-la, agora você me diz que vai trazer ela a mim? Está planejando me trair sua miserável?
_ Não seja tão imbecil! Eu não vou te trair, porque você é minha única possibilidade de vingança, você é a única forma de atingir aos elfos... em romper definitivamente todo o equilíbrio que eles lutam pra manter!
_ Ela está protegida! Quase inalcançável! Como se não bastasse todos os elfos protegendo sua princesa, que na verdade é sua maior arma, ainda há uma legião de espíritos tolos de vampiros que querem alcançar a redenção! – O vampiro riu furioso. Ninguém que convivia com ele, a não ser Kadinah, tinha vislumbrado aquele tipo de descontrole vindo de si. – Isto é tão patético!
_ Eu sei disto sim, meu caro. – A voz de Kadinah se tornou, repentinamente, mansa. Ela deu um sorriso de lado, os olhos excedendo expectativa e algo mais. – Mas eu vou voltar a agir... aos poucos... Está na hora de você me libertar desta caverna. – Ela encarou profundamente os olhos do vampiro. – E então nós vamos brincar um pouco mais sério com eles, até deixa-la exposta e... perturbada o suficiente.
_ Ela é descendente de elfos... diante de qualquer perigo ela não se perturba, ela se torna mais forte.
_ Ela ficará perturbada... confie em mim. – Kadinah riu novamente. – Há nela uma fraqueza, e é nesta fraqueza que vou agir...
_ Qual? – Ele perguntou, um pouco mais calmo e curioso.
_ O lobo... o lobo Alpha é a fonte de tudo. E graças a você, eu já sei como ele pensa, como age... eu sei como as patas dele se movem no chão, eu sei os movimentos de suas mandíbulas em um ataque e eu sei... como atingi-lo. Ele não vai mais poder protegê-la.
O vampiro deu um sorriso de lado, seu olhos cintilaram.
_ Acho que está na hora de sair ao sol Kadinah... É verão em La Push... um ótimo lugar para se visitar. – Ele respondeu, logo depois acompanhando o riso da criatura.
***********
_ Bem vinda de volta doutora! Você fez falta, por aqui. – Marlon disse, realmente demonstrando alívio. Sarah sorriu, um sorriso brilhante, cheio de vida e vigor.
_ Eu disse que podia me ligar caso tivesse qualquer problema, Marlon!
_ Realmente, eu não sou tão louco pra fazer isto. Porque eu tenho certeza que se te ligasse e te tirasse do seu marido um segundo sequer, eu ia ser caçado por ele o resto da minha vida! Não... eu acho que foi mais prudente tentar dar conta do que só você parece ser capaz. Eu fiz o possível, mas... – Marlon fez um muxoxo, entortando os lábios.
_ Marlon, você deu conta das coisas muito bem sim! Não vi nenhum problema desde quando cheguei. – depois ela olhou para o médico com enormes olheiras embaixo dos olhos, a pele cansada, a roupa descuidada, tal como os seus cabelos. – Ok, o problema está com você. É justo um descanso Marlon, eu cubro você. Tire uns dois dias, pelo menos, pra descansar, ou melhor, durma pelo menos doze horas! – Ela disse e voltou a sorrir.
Mas eis que o médico ficou olhando pra ela como se contemplasse uma obra de arte, com a boca abrindo ligeiramente.
_ Como ele foi capaz de fazer isto? – Ele perguntou, mais para si mesmo do que para Sarah.
_ Como assim? Quem?– Ela questionou, confusa.
_ Seu marido... Te deixar tão mais linda... com esta cara de felicidade... Fica difícil não se deslumbrar com você, Sarah.
_ Oh, não... não faça isto Marlon... – ela disse, e abaixou os olhos, se deixando corar.
_ Se acalme. Ficar maravilhado com a beleza de uma mulher não te torna fatalmente apaixonado... eu acho… – Ele riu e Sarah também.
_ Eu espero que sim, Marlon! – Sarah disse, com um fundo de alerta em sua voz. – Mas… mudando de assunto…
_ Muito prudente de sua parte… — Marlon respondeu, fazendo Sarah rir novamente. – mas, continue.
_ Bem, você viu a Milla pelo hospital estes dias? – Ela perguntou, precisava resolver aquele problema com Milla, por Seth…
“Ela ficou muito assustada… e disse pra eu não procura-la… eu não posso contrariá-la, mas preciso saber se ela está bem... por favor, Sarah, faça isto por mim!” Ele havia lhe dito, profundamente transtornado.
Isto tudo porque Milla havia descoberto toda a origem mística dos quileutes. Ela foi convidada para mais uma festa da fogueira, pra ir junto com Seth, há uns três dias. Ela estava junto dele, mas parecia de alguma forma desconfortável, como se não acreditasse que um homem quase 10 anos mais velho, fosse se apaixonar de uma hora pra outra por uma garota de colegial como ela. Na reunião, além do dia marcante em que um imprinting ficaria sabendo do maior segredo dos quileutes, foi o dia em que Jacob entrou para o conselho, por força da imposição de Billy.
“Seu velho não vai durar pra sempre... o legado Black tem que continuar Jake!”
Jacob não ficou assim, tão feliz, mas aceitou mais aquela responsabilidade. E foi ele que contou a parte tão significativa da lenda da tribo naquele dia, com uma voz nova, forte e vigorosa. Ele contou tudo com o cuidado de olhar diretamente para os olhos de Milla. Foi inevitável, ainda que não quisesse acreditar, Milla sentiu a verdade na voz e olhar de Jacob, um ser que fazia parte daquela lenda.
Mas ela não reagiu bem, principalmente quando ela e Seth foram conversar a sós e ele se transformou pra ela. Milla nunca esteve nem perto de uma realidade daquela, gostava da sua humanidade, da sua normalidade, saber de tudo aquilo foi como um terremoto que abriu o chão aos seus pés.
_ Bom, isto é estranho, Sarah. Ela apareceu aqui ontem e disse que estava mal, que queria uns dias de folga. Não faltou médico para querer examiná-la, ela é muito querida, vê-la abatida assustou todo mundo. Mas ela não deixou, disse que o problema não era o corpo. – Marlon lhe respondeu.
_ Hanson deu dispensa pra ela? – Sarah perguntou, com o cenho franzido.
_ Não, não é ele que cuida da cantina. Quem deu dispensa pra ela foi a Johane, responsável da cantina. Mas Hanson conversou com ela, pra saber o que ela tinha… espera! Você sabe o que deu nela? – Marlon perguntou, estreitando os olhos. Sarah suspirou.
_ Sim, eu sei e acho que preciso falar com ela. Acaso a Johane sabe onde Milla mora? Ela nunca disse isto a ninguém.
_ Acho que sim, eu…
“Doutora Black, comparecer ao setor de emergência imediatamente… doutora Black…”
O auto falante do hospital soou alto interrompendo a conversa. Sarah quase tinha se esquecido daquela rotina de hospital. Se levantou, sendo acompanhada por Marlon.
_ Faça o seguinte, vou falar pra ela passar o endereço da Milla pra Sharon. Vou passar na cantina antes de ir embora mesmo. – ele disse, saindo do consultório de Sarah com ela do lado.
_Eu ficaria imensamente grata. – Ela sorriu.
_ Então já está feito! Bom retorno ao trabalho. – ele disse, e ambos tomaram rumos opostos.
De volta à ativa, Sarah abriu as portas da emergência e recebeu mais um paciente, com extrema competência. Os afazeres no hospital consumiu praticamente todo o seu dia. Na hora do almoço Jacob lhe ligou, os dois conversaram menos tempo que Sarah realmente queria, mas ela tinha que voltar a trabalhar.
_ Hospital: meu maior rival! Vou ter que conviver com isto? – Jacob havia dito, entre irritado e brincalhão.
Ele também havia dito que Seth estava desatento e cabisbaixo pelos cantos e que Leah estava intragável com isto, o que resultou em uma briga dos irmãos que Jacob teve que interferir com uma ordem expressa.
_ Lee, na verdade, não suporta ver o irmão dela daquele jeito. Ela sempre teve esse espírito protetor aflorado. – Jake explicou, ainda por telefone. – Mas o fato é que ela não precisava ter xingado a Milla de “humana imbecil e fraca” perto dele! Nenhum lobo imprinting suporta isto. Eu entendo perfeitamente ele ter saltado no pescoço dela.
_ Leah não tinha adorado a Milla? – Sarah perguntou.
_ Sim, mas eu acho que ela é mais o Seth. – Jacob disse.
_ Bom, vou tentar resolver isto.
_ Ok, mas não demora. Preciso de você esta noite… toda noite, pra ser mais exato.
_ Humm... contando que posso receber um chamado do hospital a qualquer momento... tenho as noites pra você.
Jacob bufou.
_ Estou em segundo plano? Este hospital pensa que é quem? Eu sou Jacob Black, o lobo alpha gostoso e SEU marido! ... seu marido carente… — ele sussurrou a ultima frase. Sarah riu, e se despediu penosamente de um lobo manhoso e dramático do outro lado da linha.
Foi só no finsinho da tarde que ela pode, finalmente, ir até a singela casa de Milla. Era uma residência pequenina, menor do que muitas casas de La Push e ficava no bairro mais afastado de Forks. Milla vivia só com a mãe, o pai havia falecido e ela era filha única. Algo que lembrava Sarah de sua própria história. As duas não tinham muitas condições financeiras, por isto Milla começou a trabalhar cedo.
Sarah parou o carro na frente da resistência e o luxo de sua BMW pareceu brusco demais para aquele lugar. Assim que ela pisou os pês para fora do carro, sentiu a presença de Seth ali. Ele estava escondido no fundo das arvores que rodeavam o outro lado da estrada que cortava a frente da casa de Milla, longe das vistas de qualquer humano. Ela suspirou e foi em direção a porta.
Havia mais gente do que duas pessoas na casa, mais ou menos umas dez. Conversas um tanto animadas vinham de lá de dentro, mas Sarah não podia ouvir a voz de Milla.
_ O bolo é simples, mas a vovó fez de coração querida!
_ Está delicioso, dona Jane. Milla, eu sempre te digo que sua vó é uma cozinheira e tanto! – Uma voz juvenil se dirigiu a Milla, mas ela não respondeu audivelmente. Parecia uma festa pequena de aniversario, pelas conversas. Seria de Milla?
Sarah apertou o embrulho nas mãos e sorriu. Agora achava mais fácil Milla aceitar aquele presente, usaria a desculpa do aniversário para ter trazido.
_ Eu tenho um presente pra você filha, eu mesma fiz. Espero que goste. – Houve um momento de silenciosa expectativa. Sarah parou na porta para dar um tempo a todos eles. Não queria interromper aquele momento.
_ Eu adorei mãe! Obrigada! – Ela disse baixinho.
Sarah considerou seriamente voltar depois. Mas decidiu ser ousada e acabar logo com aquilo. Bateu na porta.
_ Oh! Será que falta mais alguém? – Aquela que parecia a mãe de Milla.
_ Deixa que eu abro. – Milla disse, com voz inalterável. Sarah escutou os passos da garota e armou um sorriso aconchegante no rosto.
A porta se abriu e Milla, com o rosto pálido e abatido, muito, muito diferente do que era, demonstrou a surpresa que era ver a doutora ali. Sarah sentiu um aperto no peito ao ver a expressão tristonha de Milla, aquilo definitivamente não era pra ela. A médica sentiu uma necessidade absurda de arrancar aquilo dali! Imediatamente. Mas um sentimento macabro dizia que a felicidade de Milla tardaria a voltar. Um sussurro triste em sua alma dizia que aquela garota enfrentaria coisas difíceis.
Ignorou aquilo o máximo que pode, não podia ser! Lutou e conseguiu manter seu sorriso inalterável.
_ Você… aqui?
_ Vim te visitar… mas parece que atrapalho algo? – Sarah indagou, esticando o pescoço para ver atrás de Milla.
_ Não quero ouvir nenhum recado. – Ela sussurrou, tentando parecer firme. Sarah balançou a cabeça.
_ Vim lhe trazer um abraço Milla… é seu aniversário, não é? Você não quer isto de mim? – Sarah fez um muxoxo, parecendo estar emburrada como uma criança.
_ Não seja mal educada filha! Deixe a moça entrar. – Uma senhora disse, fazendo um sinal para que Sarah entrasse. Ela, no entanto, buscou confirmação no olhar de Milla.
A garota hesitou um pouco, mas acabou cedendo, com um sorriso tímido. Sarah entrou e a sala estava apertadinha de pessoas e muito quente. Alguns colegas de escola de Milla, os avós, uma tia e a mãe dela estavam lá. Todos muitos gentis, pareciam fazer de tudo para Milla se alegrar. E ela sorria, chegava a brincar, mas havia sempre uma ruguinha em sua testa. Ela se manteve afastava de Sarah, conversando com os outros, ou agarrada na mãe.
Tanto a mãe quanto os avós de Milla tinham um sorriso aberto e a capacidade de aconchegar com facilidade todos com que simpatizavam. Sarah foi uma destas pessoas, recebida com simpatia entre eles, fazendo o seu desconforto por invadir aquela reunião intima quase desaparecer.
_ Milla sempre falou muito bem da senhora! Não é querida? – o avô de Milla, senhor Jhones, lhe disse.
_ Por favor, sem cerimonias! Me chame de você. – Sarah disse, ao perceber Milla corar com o que o avô disse.
_ Oh, sim. Então… só pelo o que ela me dizia a seu respeito eu sabia que você era um bom exemplo pra minha neta. Mas eu pensava que a senho... digo, você… – Sarah sorriu para o senhor baixinho. -… fosse mais velha! Veja bem, é quase tão menina quanto minha neta!
_ Vovô! – Milla ralhou e todos riram.
Sarah deixou que a festa acabasse, tomando o cuidado de ficar por ultimo ao ver que todos se despediam. Engatou num papo com a mãe de Milla e ficou enrolando por lá, até que a jovem aniversariante se despedisse de seu último convidado.
_ Ok, pode me dizer o que você veio dizer. – Milla entrou na cozinha onde Sarah e sua mãe conversavam falando apressadamente, interrompendo as duas e se encostando na porta com os braços cruzados.
Dona Celeste, sua mãe, fez menção de reprimir a filha, mas Sarah fez um sinal claro de que estava tudo bem.
_ Podemos ter um momento a sós então? – Ela perguntou.
_ Bom, eu vou subir. Se precisarem é só chamar. Foi um prazer conhece-la Sarah. – Dona Celeste se despediu carinhosa, deu um beijo na filha e foi para o seu quarto. Milla passou por Sarah e foi para o lado de fora, se sentando em um banco que havia na varanda, colocando os pés com os tênis surrados em cima e apoiando a cabeça nos joelhos. Sarah a seguiu e se sentou ao seu lado.
_ Ele está aqui!
Milla disse a Sarah, e elaa sabia que a garota falava de Seth, ainda escondido nas arvores.
_ Se é pra falar sobre ele prefiro que ele não ouça. Será que ele pode nos dar esta privacidade? – Ela disse, carrancuda. Sarah suspirou e disse, com voz nem tão baixa e nem tão alta.
_ Vá Seth, por favor, querido. – Ela pediu e Milla suspirou, segurando algo que parecia um soluço. Houve um leve farfalhar nas folhas e então Sarah viu o lobo correr pra dentro da mata. Logo depois um uivo muito distante foi ouvido por elas, um tanto sofrido. Milla deixou o soluço escapar e virou o rosto.
_Eu trouxe um presente pra você. – Sarah disse, finalmente tirando o embrulho que havia escondido dentro de sua bolsa. – E acredite, foi EU que escolhi. Não trouxe por ninguém. – a médica deixou claro, caso Milla pensasse que era de Seth. Mas a garota ignorou.
_ Você também é normal ou faz parte daquele mundo de aberrações? – Ela disse de repente, com uma agressividade que não pertencia a ela. Auto-defesa! Ela mesmo, Sarah, já havia reagido assim. A morena suspirou e abaixou a mão com o embrulho.
_ Se você quer saber, eu faço parte do mundo de aberrações tanto quanto você Ludimilla Werner! Quer você aceite ou não, todos nós fazemos parte disto, porque isto existe. E se é normal ou não, faz parte disto aqui que você chama de mundo e é real! – Milla voltou a virar o rosto, tentando esconder a lágrima que caiu. – E, se resta algo mais a saber, eu sou daquele tipo de aberração chamado de humanos sabe? Aquelas criaturas que matam, que morrem, que também mordem, que estupram, que matam criancinhas, que esquartejam um marido ou esposa infiel, que assaltam a mão armada, que criam bombas nucleares que dizimam uma boa parte do mundo, que julgam um ser superior ou inferior pela cor da pele, pela religião… Eu sou daquela espécie de aberração que causou guerras mundiais que mataram milhões de pessoas pra pegar um pedaço de terra ou por qualquer outro interesse político. Eu e você Milla, somos desta espécie. Então agora eu vim aqui conversar com uma aberração adolescente que está com medo de outra, mas que no fundo, está resistindo pra não cair na boca do lobo. Está bom pra você? – Sarah despejou e quase sorriu com a cara de espanto que Milla fez quando ela terminou seu discurso, tudo em um folego só. Ela conseguiria arrancar algo do que estava entalado na cabecinha daquela garota.
Milla abaixou a cabeça e balançou os pés.
_ Você é boa nisto. – Disse baixo. – mas não me julgue tá bom? Como você disse eu sou só uma aberração adolescente que viveu sua vida inteira com esta simplicidade aqui que você está vendo, completamente ignorante de lendas, achando tudo isto uma baboseira e de repente descobre que está completamente… sentindo por alguém algo completamente bizarro, que faz o seu corpo ter reações completamente esquisitas e o seu coração ficar numa batedeira só… e… e que de repente você descobre que a pessoa que te provoca tudo isto é… oh Deus, é um lobisomem do tipo bonsinho que limpa o mundo de vampiros maus e… que ele sente algo por você que será pela vida inteirinha dele, irrevogável… e que você, uma aberração que passava despercebida no meio de um monte de outras aberrações mais atraentes, passa a ser tudo para alguém que não é da sua família. Que droga! Eu… eu posso não me achar capaz de administrar tudo isto? Posso querer fugir disto pra ter a ilusão que vou conseguir controlar a intensidade do … do… — Milla engasgou e entranhou os dedos nos cabelos loiros. — … meu primeiro amor? Droga, amar pela primeira vez, principalmente quando você pensa que isto nunca vai acontecer com você, já é difícil, depois amar alguém tão mais bonito e atraente que você e saber que ele te quer ainda é mais complicado de entender… e então amar alguém com tudo isto de ser sobrenatural e magia a mais… eu… — ela baixou ainda mais o tom de voz, tornando-o apenas um murmúrio. – estou com medo.
Sarah sorriu e puxou Milla para mais perto. A garota resistiu, mas acabou por ceder e aceitou o abraço de Sarah, se encolhendo nele.
_ A coisa boa é que você acabou de admitir que ama o Seth, então você já deu um grande passo… — Milla levantou a cabeça confusa e percebeu que, realmente, antes daquele seu desabafo, ela não tinha admitido nem pra si mesma que o que sentia pelo belo quileute era amor. – E eu sei que é muita carga despejada ao mesmo tempo sobre os seus ombros, sei ainda que você está assustada com a possibilidade do seu primeiro amor ser assim, mais definitivo que o usual. Normalmente as garotas tem este tempo pra conhecer o amor, cometer loucuras, descobrir que foi um engano, terminar tudo, ter uma saudável briga de fim de relacionamento, se reunir com suas amigas para chorar e xingar o ex e tudo mais. Você e eu sabemos que se você aceitar fazer parte de tudo isto, sua vida não será assim.
_ É algo assombroso… porque é grande demais, doutora…
_ Oras Milla, me chame de Sarah, okay? – Milla sorriu quando a médica bufou, lhe dando um tapinha na coxa.
_ Tudo bem… Sarah! Mas é assustador, porque eu sinto a presença dele mesmo quando eu não estou o vendo, sabe? Eu sabia que ele estava me vigiando aqui em casa, todos os dias depois daquela festa em La Push. E eu tenho certeza que sentia ele triste, mesmo de longe. Mas eu ficava morrendo de medo dele invadir a minha casa no meio da noite, porque ele realmente pode fazer isto. – Milla começou a desabafar, com olhos baixos. – E eu briguei comigo igual uma doida quando eu sonhei com isto: um lobo aparecendo no meio da minha sala, de noite… mas depois ele virou aquele garoto lindo e… ai! Que droga! Eu não sabia se sentia medo ou vontade de ser… bem, você sabe… — O rosto dela corou e Sarah riu.
_ Agarrada? Prensada na parede em uma velocidade absurda e ser beijada por uns lábios quentes e mais apaixonados que pode existir? – Sarah brincou.
_ Oh Deus! – Milla disse, e se arrepiou diante daquele pensamento.
_ Acredite, eu sei bem como é! – Sarah disse, risonha.
_ Sabe? Oh, é claro. Jacob é um lobo, não é? – Milla perguntou.
_ Sim, ele é um lobo. Mais do que um lobo, ele é o lobo Alpha, chefe da matilha.
_ Vocês também tem um... imprinting? – Milla perguntou, ficando avida por informações de repente. Sarah sorriu novamente.
_ Mais ou menos isto… pode-se dizer que temos uma ligação reforçada por magia sim! – Ela respondeu e Milla suspirou, torcendo as mãos.
_ Como você soube dele? … como… como reagiu? – Ela perguntou, baixinho.
_ Bom, eu soube de Jacob desde o início. Eu o vi pela primeira vez como lobo e digamos que ele me salvou de uns vampiros que me cercavam. Dizem as más línguas que eu tenho um cheiro bem atrativo para os vampiros. – Sarah disse, em tom de segredo. Levantou as pernas e pôs os pés no banco, como Milla.
_ É sério? – a garota respondeu, curiosa.
_ Sim, é verdade. E teve um tempo que eu também rejeitei Jacob, rejeitei o que ele era pra mim. Como você eu fiquei com medo de tudo… de me entregar.
_ Tá brincando! Não pode ser! Você teve medo? – Milla disse incrédula.
_ Tive, muito até. Eu também fui bem durona para o Jake, mais até do que você está sendo para o Seth. E sabe o que aconteceu com o meu medo depois que eu decidi aceitar tudo?
Milla riu.
_ Desapareceu! – Ela disse, quase com deboche, como se a resposta fosse óbvia.
_ Não, ele virou outro. O único medo que eu tenho agora é de não ter mais Jake comigo. E Milla, o meu lobo é melhor do que qualquer homem que poderia surgir na minha vida. Ele é homem e é o certo pra mim. Deus sabe das coisas melhor do que nós, e temos que confiar quando coisas divinas como estas acontecem. Acredite em mim Milla: Seth é o melhor pra você! Aconteça o que acontecer na sua vida, se torne você o que for, ele continuará sendo o melhor pra você. E se você permitir e quiser, você também será o melhor pra ele.
A garota balançou a cabeça e sacudiu os pés, apertou os olhos fortemente e disse:
_ Será? – ainda parecia receosa, temorosa.
_ Sim. E você já tem a certeza que isto é verdade, basta admitir. Mais do que qualquer um que pudesse entrar no teu caminho Milla, Seth vai respeitar os seus momentos, suas vontades, os seus tempos. Se você for até ele não será como um casamento… não precisa nem sequer ser um atestado de namoro. Se você se sentir melhor ele será perfeitamente capaz de se tornar o melhor amigo que você possa ter. Então… é só ir até ele, não precisa explicar nada, vai ser natural, fluir sem esforço algum e toda a insegurança que te perturba vai sumir. – Milla suspirou depois que Sarah terminou de falar e fitou o nada por um tempo.
_ Pode abrir meu presente agora? – Sarah disse, voltando a exibir o pacote pra Milla. A menina olhou pra ela e pegou o embrulho dourado sorrindo.
_ Como você sabia que era meu aniversário? – Ela perguntou.
_ Coisas do destino…
_ Entendi… você não sabia! – Ela bufou. – Então porque o presente?
_ Abre e eu explico.
Milla fez uma careta e abriu, se deparando com um delicado vestido perolado de babados em renda. Era delicado e caro, pelo visto. A menina não pode deixar de ficar maravilhada com aquela peça.
_ Estive pensando aqui… e eu adoraria te ver estreando este vestido nesta noite mesmo, na festa de inauguração da B&C Car’s. Vi este vestido na vitrine e achei perfeito para estar em você nesta ocasião. Poderá ser uma noite bem agradável, sabe? – Sarah disse.
_ Festa de inauguração? É nesta empresa que ele trabalha não é? A nova super oficina de Forks? – Milla disse.
_ Isto é um mero detalhe. Mas eu acho que seria um bom lugar para uma garota, com recém 17 anos completados, se divertir. Pode levar sua mãe se quiser! – Sarah disse.
_ Você está querendo armar um encontro! – Milla disse, abaixando o vestido.
_ Ok, eu não consegui disfarçar isto muito bem. Então? Aceita? – Sarah insistiu, com olhos meigos.
_ Acho que um encontro não é um bom lugar pra levar a mãe… só isto.
_ Ok! Eu converso com ela! – Sarah disse, empolgada. _ E eu e Jake podemos passar aqui pra te pegar as nove? Você tem bastante tempo para se produzir ainda…
_ Ei, ei, ei! Calma aí doutora! Eu não disse sim ainda.
_ Ah não? – Sarah colocou as mãos na cintura. – Devia ter dito! Eu me esforcei aqui pra conseguir um sim sabia?
Milla gargalhou.
_ Bom, vamos fazer o seguinte… se eu for eu… eu… apareço! Não precisa vir me buscar e não diga pra ninguém me esperar ok? – Ela disse, se levantando do banco.
_ Eu vou ter que aceitar isto não é mesmo? Não tenho outra escolha… mais saiba que eu vou estar de esperando… esperando a menina destemida e forte que eu sei que você é!
_ Ok! Vai nessa! – Milla disse, fechando a cara. Mas Sarah lhe deu um beijo estalado na bochecha e sussurrou:
_ Vou indo… até mais tarde!
E saiu andando graciosamente até o seu carro. Assim que se viu sozinha Milla olhou o vestido em suas mãos e depois fitou as arvores que ela sabia que escondeu Seth por dias. Sorriu decidida e correu para o banheiro tomar um banho.
_ Mãe… vou sair! – Ela gritou.
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Na caverna de Kadinah, a imagem de Sarah e Milla conversando aparecia nitidamente na parede de cristal. Ele olhava para as duas satisfeito.
_ Acho que isto pode ser interessante. Um bom começo… — Kadinah continuou a dizer ao vampiro.
_ Pode ser… — ele disse, ponderando.
_ Posso te colocar lá sem que seja percebido. – Kadinah voltou a insistir. – Mas precisarei ficar perto, o tempo inteiro.
_ Os elfos poderão descobrir que você sobreviveu a seu povo. – Ele ponderou.
_ Vale o risco. – Ela respondeu. O vampiro ponderou um pouco mais.
_ Certo, vamos fazer isto.
Ela sorriu.
Notas finais
Comentem!!! Bjss!!
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