The Precious Blood
21 ENTRE JAKE E LEE
Notas iniciais
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É o amor também a irmandade de seres
que se dão àquela cumplicidade descompromissada
que chamam de amizade.
E este é aquele tipo de sentimento ininteligível,
cuja decodificação não pertence a nós.
Pois há nele a compreensão, o abraço, o perdão.
Neste sentimento se compartilham sorrisos e lágrimas.
Sarah caminhava com os pés na areia, silenciosa, há mais de vinte minutos. Seu olhar direcionado a imensidão do mar negro da noite de First Beach. Ela pensava em cada detalhe daquela noite, não queria, mas as lembranças lhe vinham precisas demais. Mas o que ela não esquecia, o que continuava a atormentar a sua mente, era o olhar de Jacob, o último olhar que ele lhe dera antes que ela saísse com Leah de casa: conturbado, pesaroso, dolorido.
Parecia que havia um peso ao invés de um coração no peito dela, um incômodo, uma melancolia.
_ Eu sabia que vocês não estavam bem… — Leah sussurrou baixinho.
Sarah suspirou e não disse nada por um tempo.
_Nós estávamos Lee… — Aquilo saiu dela sem que pensasse que tivesse dito em voz alta. Nem mesmo Sarah tinha consciência de onde o sentido daquela frase surgiu… nem como…
A voz de Jacob soava clara em sua mente.
“…Não confia em mim?… eu vou ser bom pra você…
…Fiz sexo com Mery enquanto você estava em Washington…
… nosso teatro não inclui fidelidade…
… Me escute, eu não sou tão canalha a este ponto…”
Leah observou quando Sarah colocou as mãos na cabeça e se agachou, fechando os olhos. O coração dela tinha um pulsar inconstante, assim como a respiração rarefeita. A loba se aproximou da amiga, acariciando os ombros tensos dela.
_ O que aconteceu Sarah? – Leah perguntou como sempre perguntava: não era uma exigência ou uma curiosidade mórbida. Aquela pergunta significava um “confie em mim!”.
_ Não importa Leah, não importa.
_ Como não importa Sarah? Ele te magoou? – Sarah continuou agachada na areia branca da praia de La Push, ainda com os olhos fechados. – Sarah, olha pra mim, me diga, pode me dizer… o que ele te fez?
De repente Sarah soltou um riso trêmulo, se levantando bruscamente.
_ Por que você não confia em Jacob, Leah?
Leah desviou os olhos de Sarah rapidamente, assim que percebeu a amiga espreitando perspicazmente suas reações. A índia se sentou na areia e passou a olhar o mar.
_ Eu só quero saber o que te fez ficar com este olhar Sarah… — Leah disse com voz aparentemente normal. Mas Sarah já conhecia o suficiente aquela mulher pra reconhecer o mínimo vacilo na voz dela. E quando Leah tentava esconder isto, era porque havia algo.
_ Por que você não confia em Jacob, Leah? – Sarah repetiu a pergunta, percebendo Leah travar a mandíbula, seu coração alterar as batidas. Ela não respondeu nada, continuou olhando as ondas quebrando na praia.
_ Lee… — Sarah começou a falar… ela não queria saber a resposta, mas precisava. – Por que você pensou que Jacob me bateu?
_ Não Sarah… eu… eu não pensei isto, eu não quis dizer isto quando eu…
_ Leah! – Sarah interrompeu ríspida. – Não minta!
Ela se colocou na frente de Leah e segurou o seu rosto firmemente entre as mãos, para que ela não fugisse de seu olhar.
_ O que você quis dizer com: “comigo você pode fazer qualquer coisa: eu me curo… com ela não!”?
_ Não leve tão a sério o que eu digo Sarah! Eu tava nervosa e uma loba nervosa você sabe que…
_ CHEGA LEAH! – O grito de Sarah saiu agudo, assustou Leah. As mãos da médica começaram a tremer tanto quanto as de um lobo em iminência de uma transformação. – O que Jacob te fez? – Sarah disse com voz trêmula, fechando os olhos.
Quando ela conseguiu encarar os negros olhos de Leah novamente, eles estavam úmidos, os lábios dela tremiam levemente. Sarah observou Leah fechar os olhos e segurar um suspiro choroso.
_ Leah… o que ele te fez? Por que você agiu daquela forma? – Leah não respondia, o coração dela em uma angustia que jamais Sarah percebeu antes.
Ainda atormentada, sentindo a garganta raspar, Sarah fez a pergunta a qual tinha suspeitado da resposta desde quando observou a reação de Leah com Jacob, há alguns tantos minutos.
_ Não minta pra mim… Jacob te bateu Leah?
Leah sugou o ar com força, ainda de olhos fechados uma lágrima escorreu lenta por seu rosto, os lábios tremiam ainda mais. A índia abriu os olhos e encarou melancólica a amiga.
_ Não o deixe Sarah… não importa o que aconteceu… Sarah! – Leah chamou no impulso assim que viu a amiga se afastar perturbada, praticamente rugindo.
_ Não! – Ela exclamava. A morena não queria acreditar naquilo, não podia ser… não, ele era igual… Jacob era igual a ele…
Sarah colocou a mão em seu próprio rosto, lembrando-se claramente da dor que sentiu ao apanhar do padrasto, há treze anos. Mas por que ela sofria por pensar em Jacob fazendo aquilo? Por que ela tentava arrumar algo em sua mente para que aquilo fosse mentira?
Ela sentiu Leah lhe pegar os ombros e a abraçar por trás, enquanto sussurrava em seu ouvido explicações sem sentido.
_ Nossos genes às vezes nos torna um tanto incontroláveis e… e eu e Jacob juntos então! Meu anjo, isto não importa, passou!… Sarah, eu conheço Jacob, eu conheço o coração dele… isto… isto não foi nada, isto foi boba…
_ Não diga que foi bobagem! – Leah estreitou os olhos pela forma brusca com que Sarah se desvencilhou dela. Ou ela estava segurando leve demais ou Sarah tinha tido uma força além do comum para afastá-la? Mas a agonia da amiga era mais importante naquele momento.
_ Não diga que foi bobagem Leah, porque uma coisa assim não é bobagem! Eu sei muito bem o que eu falo… — Sarah se refreou no momento que ia falar que conhecia a dor que aquela violência provocava, e como aquilo estava a deixando tão frágil ultimamente, como as lembranças estavam mais nocivas e latentes.
_ Procure entender que eu fiz com que Jacob…
_ Chega Leah! Chega! Não fale mais nada! E não se preocupe… eu não posso deixar aquele… eu não posso deixar Jacob tão facilmente! – Sarah falou com voz entristecida.
_ O que…
_ Me deixe sozinha!
_ Sarah, não! Vamos conversar, eu preciso explicar, eu…
_ Não! Eu não quero saber mais nada! Me deixe sozinha… por favor Leah!
Leah suspirou, mas não insistiu em ficar ali. Se aproximou de Sarah e deu-lhe um beijo terno e quente em sua bochecha. Só disse uma única frase antes de ir…
_ Assim como todos erram, todos merecem perdão Sarah…
E partiu, voltando a sua ronda no extremo norte da floresta de Forks.
Sarah passou a concentrar suas forças para controlar sua fragilidade emocional, sua vontade de não conter as lágrimas, seu desejo insano de gritar. Lentamente ela foi se encaminhando para o mar, até que seus pés tocaram a água.
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Era primavera no noroeste pacífico, logo seria o verão, mas, apesar disto, a água daquele mar não era tão quente. As águas de La Push eram gélidas, não eram propícias a roupas de banho pequenas e cavadas. Mas aquela temperatura, que fazia eriçar os pelos, estava sendo boa para Sarah, pois afastaria as lembranças do calor dele…
Assim que Sarah se aproximou da água, ela observou dois lobos se movimentarem para a orla da floresta, na beirada dos penhascos, um de cada lado em que ela se encontrava. Eram Seth e Jared que, com certeza, se puseram a guardá-la a pedido de Leah. O mar ainda era uma fraqueza para a matilha.
Sarah não se importou se eles estivessem vendo, queria afogar-se na imensidão negra e fria daquelas ondas pra esquecer, pra fugir da confusão que havia dentro de si, de sua ferida antiga que voltara a latejar, dos sentimentos confusos em relação a Jacob, de suas próprias vontades. Começou então a desabotoar seu vestido, fazendo este descer lentamente por suas pernas. Ficou com os pés nas águas, trajando apenas uma lingerie preta, pequena.
Seth e Jared continuaram ao longe, com os focinhos elevados, enquanto varriam o mar com os olhos precisos. Havia neles um respeito majestoso e bonito por Sarah, pelo corpo dela quase desvelado com roupas tão intimas, tão mínimas. Ela era mais do que a esposa de seu Alpha, ela era a esposa de um irmão, de alguém que integrava a corrente daquela matilha, corrente que os unia em um só. Não importava a distância emocional que Jacob impôs a seus irmãos, eles continuavam integrados em algo muito mais profundo, continuavam a se respeitar, a se proteger. Todos viam Sarah como uma irmã e assim cuidavam dela: como uma frágil irmã humana, que, com um olhar triste, mergulhava lentamente no mar.
As ondas quebravam na cintura dela conforme adentrava mais a fundo. Foi só quando Sarah finalmente submergiu no mar, que ela deixou que as lágrimas saíssem de seus olhos, misturadas e ocultadas pela imensidão das águas salgadas. Ninguém as percebia ali, nem mesmo ela as sentia descer de seus olhos. Submersa, mantendo sua respiração presa, Sarah chorou. Não havia soluços, não havia gritos. Havia somente o barulho surdo que a pressão do mar provocava em seus tímpanos, o desaconchego da temperatura baixa que não a podia fazer tremer, mas que tirava seu conforto. Havia aquela imensidão das profundezas oceânicas a revelar a pequenez de Sarah diante da vida. Pois lá, outra vida existia, sem ar, sem sol, mas ainda assim pulsante e bela.
Raramente Sarah voltava à superfície, só o fazia porque sabia que Seth e Jared continuavam a espreitá-la. Passou muito tempo nadando, deixando-se livre nas águas, afastando de si todo e qualquer pensamento. Só quando se achou controlada o suficiente, voltou para a praia. E, conforme ela voltava, percebeu que nem Seth e nem Jared estavam por perto. Caçou-os com os olhos pelo meio das árvores ao longe, mas nada.
Porém, assim que olhou pra frente compreendeu o motivo.
Jacob estava lá. Ele continuava em seu terno, porém este estava aberto. Também não calçava nada. Ele estava com os braços cruzados rijamente, olhando para o ponto onde Sarah surgia. Ela veio andando devagar, assim que chegou a areia pegou seu vestido nas mãos, sem fazer menção de vesti-lo novamente. Jacob nunca a vira daquela forma, vindo com o corpo molhado, os cabelos pesados descendo até o início de seus quadris. A água havia os deixado ainda mais escuros.
Jacob estava na direção que levava a casa, mas Sarah passou por ele como se não o visse, os olhos distantes. Ele lhe segurou o braço. Ela parou feito um robô e só virou o pescoço na direção dele.
_ Você está bem? – Ele perguntou com voz mais rouca e seca que o comum.
Ela não respondeu a pergunta dele, apenas intensificou o olhar e sussurrou baixinho:
_ O que você fez com ela…?
Poderia ser uma pergunta, mas parecia mais um lamento. Jacob soltou seu braço, virando o rosto para o outro lado. Ele sabia que Sarah falava de Leah.
_ Qual a diferença? – Ele disse aquilo com os dentes apertados.
Os dedos dela foram sutilmente para o queixo dele. Jacob deixou que o toque aveludado e delicado o guiasse. Mas os olhos dela ainda estavam fortemente angustiantes.
_ Apenas a diferença entre um homem e um monstro Jacob… — Ela abaixou a cabeça, sua voz estava controlada, tal como sua pulsação. – E eu conheço o que monstros assim causam…
Por que ela dizia aquilo? Por que Jacob sentia um peso doloroso nas palavras dela?
_ E o que eles causam Sarah? – Ele disse, tentando conter sua vergonha.
Ela sorriu, um sorriso amargo.
_ Não queira saber. Saiba apenas que não é bom, e não é admirável… não é… — Ela disse, novamente se afastando. Mas Jacob voltou a retê-la.
_ Saiba que eu não me orgulho disto…
_ Não se orgulhar… o que é deixar o orgulho de lado Jacob? É se arrepender? Em que o seu arrependimento pode apagar as marcas que sua atitude deixou? O que você fez em relação a isto?
Os questionamentos ficaram no ar, Jacob não mais a segurou, deixou que ela partisse.
Nada! Ele nunca havia feito nada em relação a um de seus erros mais desprezíveis. Ele só fugiu e depois escondeu aquela cena de si mesmo e dos seus, agradecendo a Leah internamente por ela jamais ter deixado que aquilo escapasse em seus pensamentos para a matilha. Mas era doloroso lembrar do rosto ferido dela, das lágrimas em meio a sangue que ela derrubou, e das palavras que ela repetia…
“…eu te amo amigo, volta, nós ainda te amamos…”
E o que ele tinha feito em relação aquilo? Enterrado a lembrança pensando que estava tudo certo?
Mas naquele noite ele percebeu que Leah ainda carregava as marcas pelo o que ele fez…
“Nela eu não perdôo NUNCA!”
Estava insuportável agüentar aquilo, insuportável reviver aquilo. Jacob soltou os braços, deixando a brisa bater em seu rosto, pra lhe dar clareza. No ar ele ainda podia sentir a suavidade do cheiro de Sarah.
Ele permaneceu daquela forma por algum tempo, apenas sentindo o vento e caminhando pela areia. Chegou até o meio da praia, havia um pedaço do que um dia foi um enorme tronco esbranquiçado. Ali era um lugar marcado, marcado por Isabella. Jacob olhou para o pequeno pedaço de tronco como se pudesse ver a primeira vez que se sentou ali com Bella, com ela passando a mão delicadamente pelos cabelos castanhos e lhe dando um olhar adocicado cor de chocolate que, naquele dia, fez seu coração pulsar. Ele também se lembrou do sorriso que deu a ela: sincero, intenso, feliz…
À Isabella ele deu aquele sorriso, mas e à mulher, que mesmo ferida, chorou por ele? E a mulher que disse que lhe amava, que continuaria a lhe amar apesar de tudo e que não iria lhe virar as costas? O que ele deu a ela? O que ele deu a Leah? Nem sequer uma atitude honrosa…
Quando Jacob percebeu, estava sentado na varanda dos Clearwater, ouvindo o ressonar de Sue. Ele esperaria Leah chegar da ronda, o que não tardou a acontecer.
_Jacob? – Ela perguntou, saindo do meio das árvores, ainda a uns cinco metros de distância.
Jacob só ergueu os olhos pra ela, que se aproximava rapidamente.
_ O que você está fazendo aqui?- Ela lhe perguntou.
Ele continuou mudo, sentado na varandinha, olhando a loba fixamente. Leah chegou até ele e sentou ao seu lado, e também ficou quieta. Jacob sentia uma trava na garganta, sabia o que precisava falar a ela, mas de repente a coragem lhe faltava. Como se soubesse, Leah esperava ao lado dele, respirando calmamente, direcionando seu olhar a lua parcialmente oculta pelas nuvens.
Uma hora se passou assim…
_ Vai ficar a noite inteira assim? – Jacob finalmente falou algo, sua voz em um sussurro rouco. – Sentada com este maluco na frente da sua casa?
_ Gosto de avaliar comportamentos de malucos! – Ela disse, fazendo Jacob rir baixinho.
_ Isso é muito arriscado… nem sempre as consequências são boas. – Ele completou, abaixando a cabeça. Leah só suspirou, não forçaria nada, deixaria que Jacob conduzisse aquela conversa como ele preferisse. E ele, então, prosseguiu. _ Uma coisa que eu nunca imaginei, é que você, a insuportável Leah, aquela que fazia todos fugirem, inclusive eu, se tornasse… você de agora… Alguém muito melhor do que eu…
_ Eu não tenho tanta certeza disto Jacob. Não acho que eu possa ser tão melhor do que você.
_ Sim Leah, você é. Você não desisti, não desiste de … amar. A sua amizade Leah, mesmo que você ainda seja muito… muito arrogante e chata… — Leah riu, balançando a cabeça. Jacob a acompanhou, dando um sorriso, mas ainda mantendo os olhos baixos. – Ainda assim, sua amizade é verdadeira e pura. Poucos são dignos dela e eu não sou um deles.
_ Jacob… não seja imbecil!
Ele finalmente olhou pra ela, fazendo uma careta e logo depois abaixando os olhos. Parecia novamente um garoto. Ela bufou e pegou o rosto dele, erguendo-o pra ela.
_ Ok, você é mesmo um imbecil. Mas os idiotas também são bons! – Jacob sorriu sem mostrar os dentes. – Você esqueceu que nós dois somos mais parecidos do que qualquer um daquela matilha? Acho que o fato de nós não termos nascidos irmãos foi um mero acidente do destino. Nós passamos pelas mesmas coisas Jacob, nós sentimos as mesmas dores, sofremos a mesma decepção, alimentamos uma mesma amargura. Eu conheço os seus sentimentos assim como eu sei que você conhece os meus! Se você não se acha digno de minha amizade Jacob, então quem é?
_ Você sabe muito bem Leah, que eu feri muito mais do que você!
Leah sorriu, seus dentes surgiram brilhantes demais, iluminando o rosto da índia e enchendo-o de uma luz alegre. Jacob franziu as sobrancelhas para a expressão repentina de Leah.
_ Não foi uma piada. – Ele disse baixo. Ela gargalhou, e Jacob percebeu que ela chorava também, seu rosto umedecendo com as lágrimas.
_ Ah, eu sabia Jacob, sabia que um dia você me diria o que está dizendo agora, que você veria o que está vendo agora. A cura pra qualquer coisa que você tenha causado é este teu olhar de novo Jake, é o seu sorriso que nunca mais foi o mesmo. Você sente Jake, você não é insensível, você voltou a sentir por nós! – Ela disse suave, com sorriso e lágrimas.
Jacob apertou os olhos, fazendo uma careta angustiada. Jake… há quanto tempo ele não ouvia aquele apelido?
_ Eu não sei Leah, eu não sei se eu posso ser o mesmo, porque eu não vejo a vida como eu via antes. Eu mudei, inevitavelmente eu mudei. Sorrir pra mim não é natural como era, uma corrente me prende… eu não sei… se posso… não sei se posso sentir como eu sentia. Não sei se isto é recuperável Leah.
_ Ah Jake… não seja… não seja idiota! – Leah disse soluçando novamente. Rápido demais ela fez algo que nunca fez antes, nem quando eles eram apenas garotos.
Ela quase pulou em Jacob e o abraçou. Ele sentiu pela primeira vez os braços quentes dela o envolverem e, apesar da postura firme que ela tinha, aquele abraço era aconchegante, confortável. Ele não recusou, como uma criança tímida ele envolveu seus braços na cintura dela e enterrou sua cabeça em seus ombros. Jacob era maior que Leah, mas naquele momento, parecia que as dimensões haviam se invertido.
Ele tremia, um tremor suave, ainda tinha os olhos apertados e a convulsão de arrependimento, provocada pelas lembranças de Leah ferida, o torturavam por dentro. Era uma tortura extremamente poderosa, que rompia com amarras que ele mesmo atara em volta de si. Leah o abraçava e chorava e sorria e dizia…
_ Nós dois somos uns idiotas!
Mas Jacob ainda não estava tão feliz quanto ela. O tormento dentro dele exigia algo, exigia uma atitude, algo que tinha que sair de muito fundo, do lugar onde ele não procurava ter acesso há muito tempo.
_ Lee… — Ele disse ainda muito baixinho, muito rouco. – Lee… — Ele tinha que dizer, mas era difícil, era vergonhoso, pois ele estaria enfrentando face a face o seu erro. Leah ficou quieta, só acariciando as costas de Jacob. – Me perdoa Lee… me perdoa…
Finalmente as palavras saíram, e vieram em um atropelo, saíram dele levando um peso imenso, uma âncora.
_ Ah Jake… — Ela dizia, o apertando mais. – Eu sempre esperei por isto… sim, eu te perdôo… perdôo porque eu nunca guardei mágoa de você! – Ela disse com voz séria, mas tremula.
E então veio dele o soluço grave e rouco. Ele se permitiu chorar, deixou que suas lágrimas caíssem não somente por Leah, mas para Leah, diante dela. Por aquilo valia finalmente quebrar sua promessa. Ele chorava abertamente por uma mulher.
Leah o envolveu nos braços enquanto ele se encolhia ainda mais nela.
_ Xiii... se acalme Jake… — Ela dizia com a voz suave, mais parecendo um acalanto. – Está tudo bem, eu te perdôo sim!
Jacob nada respondeu, lentamente ele se desvencilhou dela, largando sua cintura e levando as mãos para o rosto da loba. Passeou os dedos quentes na também pele quente do rosto dela. Havia uma ternura incomparável naquele toque, era como se ele acariciasse asas de borboleta. Os traços belos e expressivos do rosto de Leah alcançaram certa candura conforme ela fechava os olhos e deixava Jacob acariciá-la.
Como uma mãe faz com o machucado de um filho, Jacob passou a dar leves e lentos beijinhos no rosto de Leah, a cada vez que os lábios dele encostavam no rosto dela, um soluço saia de cada um deles.
_Me perdoa… — um beijo terno na bochecha esquerda – …pela dor… — outro beijo na testa – que eu lhe causei. – Outro beijo na bochecha direita.
Leah balançou a cabeça minimamente afirmando.
_ Ei, eu não sou tão frágil assim esqueceu? – Ela falou com voz entrecortada. – Vamos parar com isto porque tá ficando muito meloso pro meu gosto. – Leah saltou dos braços de Jacob, de repente, se sentindo envergonhada.
Ele sorriu.
_ Sim, chega. – E também se levantou, secando as lágrimas de seu rosto. Lentamente ergueu seus ombros, criando coragem novamente para encarar Leah nos olhos. – Por hoje chega. Eu vou indo. Tchau.
Jacob colocou as mãos no bolso e foi se afastando lentamente. Leah ficou parada, atordoada pela cena que acabara de protagonizar. Foi real mesmo? Jacob lhe pediu perdão? Eles se trataram como irmãos?
Ela ainda processava tudo e, por isto, demorou a perceber que Jacob se afastava.
_ Jacob! – Ela chamou quando ele já estava de costas.
_ Sim? – Ele se virou novamente para ela.
_ Me desculpe você, eu deixei … eu cometi um erro grave, eu … deixei que ela percebesse, eu não devia ter me metido, ela sabe agora e ela…
_ Leah pare! Eu não estou entendendo nada!
A índia parou um instante e fechou os olhos, suspirando.
_ A maneira como eu agi, eu deixei transparecer pra Sarah e… bom ela suspeitou e é muito difícil enganar ela e então… então ela sabe que… sabe…
_ O que eu fiz com você. – Jacob completou, obscurecendo o olhar novamente e enrijecendo a voz. Leah soltou outro suspiro.
_ É, ela sabe e… ela reagiu muito mal.
_ É, eu sei.
_ Jacob me perdoa, eu não deveria ter me metido entre vocês dois, eu não devia…
_ Leah, Sarah não está errada em me julgar, em reagir mal. E você não cometeu erro algum, ela precisa saber com quem vive. – Jacob falou com voz rígida.
_ Jacob… — Leah se aproximou dele. – Não deixe que Sarah se vá, não deixe que ela lhe escape pelos dedos. Ela é um tesouro, um tesouro de mulher que caiu direto em suas mãos. Ela pode te fazer feliz, nela você pode confiar sua felicidade, eu sei disto!
Jacob fechou os olhos.
_ É mais complicado do que você imagina Leah.
_ Mais complicado o que? Os seus sentimentos ou a situação?
Novamente a intensidade do olhar de Jacob invadiu os olhos de Leah. Ele ficou a olhando parecendo ver para além dela.
_ Os dois Leah, os dois!
Leah estreitou os olhos.
_ Jacob Black, não perca Sarah por idiotices! – Ela disse com o cenho franzido, a voz tensa e ríspida, cruzando os braços.
Jacob não resistiu, rolou os olhos e depois riu. Aquela era Leah Clearwater.
**************
Sarah chegou em casa, segurando o vestido, se encaminhou direto para seu quarto, mas antes reparou que não havia mais um caco de vidro espalhado na sala, e em cima da mesinha que havia sido derrubada por ela havia um ramo de tulipas azuis. Tulipas azuis grandes e impecavelmente lindas. Coisa de elfos.
Ela se lembrou do aviso que Niadhi havia lhe dado mais cedo. Ela sabia que ia acontecer algo…
“Segure firme este coração esta noite! Aconteça o que acontecer não perca o controle!”
Sarah sempre gostou das tulipas azuis dos elfos. Mas era sempre Koraíny quem as dava, logo após as horas que ela passava com ele, cansada pela tensão que fazia para aprender a controlar seu cheiro, cansada de desviar dos golpes que Koraíny lhe dava para que ela treinasse, de correr até a exaustão enquanto, tanto Koraíny quanto Quendra, lhe pediam mais e mais velocidade. Nesses dias em que ela adormecia extremamente exausta, sempre acordava com um ramalhete de tulipas azuis por perto.
_ Por que me deixa estas flores Koraíny? – Ela perguntou certa vez, sorrindo enquanto as cheirava.
_ É para que a suavidade do azul lhe traga forças. Uma recompensa de beleza após seu esforço. Eu lhe dou as flores, você sorri, e nós continuamos a seguir em frente…
Era o que ele havia lhe dito naquele momento, há tantos anos.
Ela virou o rosto e foi para seu banheiro. Tirou o que restava de sua roupa e entrou no chuveiro para tirar a água salgada de si. Lavou os cabelos, escovou os dentes e vestiu um pijama de mangas longas. Ela não conseguia dormir, sentou-se na cama e se encolheu, enfiando a cabeça entre as pernas.
O que era aquilo que não saía dela? Sarah tentou extirpar aquele sentimento de dentro si de todas as formas possíveis, mas ele continuava lá, a remoendo por dentro, trazendo o olhar de Jacob pra suas lembranças como uma chaga que não se podia fugir. Por que Quendra havia feito ela se casar, viver tão perto dele por tanto tempo? Era pra aquilo? Pra que ela sofresse? Pra que fosse humilhada e tivesse que permanecer casada, como se concordasse passivamente em ser traída?
_ Não Sarah, não foi por isto. – Sarah ergueu a cabeça assim que ouviu a voz de Quendra. Ela estava sentada aos pés de sua cama, o rosto suave.
_ Então por que foi? – Ela perguntou raivosa. Quendra se aproximou, elevando sua mão para acariciar o rosto de Sarah. Mas esta se levantou veloz, se afastando com brusquidão.
_ Não faça assim anjo… Você precisa, me deixe abraçá-la! – Quendra pediu terna.
_ Apenas responda! Teu abraço não me adianta nada enquanto me obrigar a viver neste inferno! Por que me fez casar com ele? Por que não me livra disto logo de uma vez!?
Quendra abaixou a mão, desistindo de oferecer conforto a Sarah, ela nunca aceitava.
_ Inferno? Sarah, eu não acho que você pensa mesmo isto! Dor e inferno nem sempre são as mesmas coisas. E agora, você não esta sofrendo sozinha. Alguém compartilha o sentimento que está aí dentro de você da mesma forma… ou até pior.
Sarah riu.
_ Que bonito … alguém também sofre o mesmo que eu? Deixa eu pensar em quem pode ser… humm... acho que um tal Black, não é? – Ela disse sarcástica. – Ele acaso sofre uma humilhação? Sofre por não conseguir… não conseguir…
_ Não conseguir o que Sarah?
Sarah de repente emudeceu, voltando a se sentar na cama, porém no lado oposto ao de Quendra.
_Não conseguir afastar a lembrança de quem lhe causou mal? Não conseguir afastar o pensamento dele? Ter uma fé estranha dentro de si para que os erros que ele cometeu, e que te machucaram, fossem mentira? _ Quendra disse.
Sarah continuou quieta.
_ Eu sinto que você está próxima de saber o motivo real pelo qual eu ordenei que vocês se casassem. E também está chegando perto da única coisa que pode fazer a minha ordem ser revogada. – Sara franziu o cenho para o que Quendra disse.
_Eu só queria que tudo acabasse… — Ela sussurrou cansada, deixando seu corpo cair na cama.
Na cabeça de Sarah o pensamento da traição de Jacob, da confissão dele e depois… do pior, daquilo que fez Sarah realmente sentir raiva dele… saber que ele foi covarde o suficiente para bater em Leah, bater de uma forma que ela sabia, Jacob não tinha direito.
Ela fez uma careta. Por que ele era assim?
_ Eu sei que é difícil pra você compreender isto Sarah, mas vocês se precisam: Jacob precisa de você e você precisa de Jacob.
_ Eu não quero mais Quendra! Eu não suporto mais ficar perto dele, eu não quero viver com ele nem mais um segundo. Jacob é… Jacob é o meu tormento! Acabe com isto, acabe com isto, por favor! Eu não quero mais! – Ela disse arfando, com a voz grave e funda.
_ Minha ordem não será revogada Sarah. Você sabe como funcionam as coisas, uma vez que eu disse, não volto atrás. Jacob é sim seu tormento, tormento porque você tem medo do quanto ele pode chegar até você, o poder que ele pode ter sobre você, sobre seus sentimentos. Você está com medo Sarah, medo. Mas você não terá escolha, cedo ou tarde você vai ter que enfrentar o seu pior medo, não adianta escondê-lo e você sabe disto. Vocês se precisam Sarah, Jacob precisa de você… Ele cometeu erros sim, fez uma escolha que eu mesmo reprovo.
Sarah se virou para a frente de Quendra, perturbada demais com o que ela lhe dizia.
_ O quê?
_ Sim querida. Desprezo sim! Mas eu não posso me dar ao luxo de sair crucificando todos aqueles cujas atitudes não me agradam. Eu sabia que Jacob enfrentaria as consequências e assim está sendo.
_ E você quer que eu passe por isto pra que ele aprenda!? Você quer me sacrificar junto!? E ainda diz que despreza os atos dele?
_ Jacob se tornou alguém intragável, espalhando amargura por todos os lados, justificando-se pelo sofrimento que um dia passou. Mas o que ele passou nunca poderia lhe dar propriedade o suficiente para causar a dor que causou aqueles que se dedicavam a ele, nunca lhe daria o direito de recusar o amor deles e ainda por cima, desprezá-lo. Jacob conservou e quis que o rancor tomasse conta dele, preferiu isto a encarar a dor. Nem a pouca idade que ele tinha justifica isto, porque ele cresceu, amadureceu, e ainda assim permaneceu na mesma atitude, deixando-se cair mais fundo naquele abismo escuro.
_ Se você sabe disto, por que quer que eu o compreenda? Por que quer que eu o ajude? Por que você faz isto comigo Quendra? – A morena dizia, apertando os punhos.
_ Porque você também poderia ter feito a mesma escolha que Jacob meu amor… você poderia ter se tornado uma pessoa muito pior do que ele e, no seu caso, seria tão mais compreensível! Oh meu anjo, o que você passou, a violência que você foi submetida, tão jovem. E você passou por tudo sozinha, pensava não ter ninguém por si. Sarah, naquele momento, quando você acordou apática naquele hospital, com os olhos tão impenetráveis eu temi… temi que você se tornasse alguém rancorosa, que você se achasse no direito de fazer os outros passarem pela dor que você sentiu…
Sarah ficou estática, olhando Quendra com um olhar pétreo, sem esboçar reação alguma.
_Tantas mulheres, tantas meninas passam por isto, todos os dias… ah meu anjo, nenhuma delas, nenhuma deles jamais se esquecem. E as que continuam, que vivem com esta marca, merecem sim ser admiradas, mereceriam estar sempre acariciadas e confortadas… Naquele dia Sarah, você poderia ter feito a mesma escolha de Jacob, poderia ter escolhido ser dominada pelo rancor para fugir daquela dor, mas não. O que você fez foi enterrar o trauma dentro de si e continuar vivendo. E pra isto você se agarrou firmemente ao sentimento mais belo e puro que pode existir neste mundo querida… Você se agarrou ao amor que sentia por sua mãe, você teve consciência, mesmo ferida, de que havia algo que poderia lhe anestesiar, que faria você ter uma vida digna, que tem força suficiente pra te fazer seguir…
Quendra parou, indo para perto de Sarah e se sentando em frente aos pés dela, se colocando em um nível inferior ao dela. Sarah ainda permanecia imóvel e impassível.
_ O amor que você escolheu para viver minha querida, lhe fez crescer uma mulher honrosa, lhe fez reconhecer a preciosidade de bons valores, lhe fez ser dedicada a outros, lhe deu suavidade para tratar com os outros… Pois você nunca quis impor a ninguém a carga dos sentimentos ruins que quase te destruíram por dentro. Como Sarah, como eu posso não te admirar? Como eu posso permanecer impassível e não te amar? E como eu posso aprovar e sequer aceitar a escolha que Jacob fez? Diante do que você passou e do que ele passou, os motivos dele pareceram a mim tão… tão menores, tão efêmeros. Vocês tinham a mesma idade, a mesma boa criação, eram amados e porque ele se tornou o que se tornou? Eu só vejo uma resposta: fraco, Jacob foi fraco. Então você é o oposto dele, você é aquilo que ele não achou possível existir, e, ainda que você confesse a si mesma sua própria fraqueza, você sabe melhor do que ele como lidar com a dor… e como lidar com o amor.
_ Não encha de beleza e glorifique demais algo Quendra! Não faça isto comigo e não me compare a Jacob porque isto não é o certo. – A voz de Sarah estava mecânica. — Nem você Quendra, que pode ter vivido milênios e milênios, nem você pode prever o que a dor, seja ela pelo que for, pode causar as pessoas. Se ódio ou amor. Não eleve demais o que eu vivi porque eu fiz o que era necessário fazer, eu reagi quase inconsciente e naquele momento o que me guiou foi mais do que eu mesma. Eu não posso fazer por Jacob o que ele tem que fazer sozinho, então não me incuba esta tarefa. Se é por isto que você quer que eu permaneça casada, então desista. Não é razão suficiente.
Quendra suspirou.
_ Será Sarah? Será que não é razão suficiente?
Sarah mordeu os próprios dentes e não disse nada.
_ Pois eu não penso assim. – Quendra disse, se levantando. – E como eu disse, minha palavra não será revogada. Você e Jacob permanecerão casados. E se você acha que não é possível mensurar, ou até mesmo julgar o que a dor pode causar as pessoas, então não condene Jacob tão irrevogavelmente. E apenas conviva com ele. Não lhe cobro mais nada.
Sarah sabia que a resposta de Quendra seria exatamente aquela. Mas antes que ela fosse embora, Sarah a chamou.
_ Sim anjo? – disse a elfo, já sentada majestosamente na sacada do quarto.
_ Não foi para que os lobos me protegessem que você me fez casar com Jacob, não é?
_ Elfos não mentem Sarah, foi pra que você fosse protegida sim. Mas digamos que isto não foi o mais importante.
_ E o que foi então? – Sarah perguntou, realmente esperando que Quendra desse uma explicação elaborada e racional, que justificasse toda aquela loucura.
Mas ao invés disto, ela disse simplesmente:
_ Você sentirá a resposta querida. – Desaparecendo logo depois.
Sarah agarrou a cadeira que havia no canto de seu quarto e jogou na direção em que a rainha desapareceu, rugindo frustrada com as respostas de Quendra.
Notas finais
Verdades profundas ditas por Quendra, né? Adoro esta personagem, mas aviso desde já, esta rainha é o maior dos meus enigmas! Bjss lindas... até breve!
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