The Precious Blood
2 CONTINUE, POR MIM!
Notas iniciais
CAPÍTULO 1
CONTINUE, POR MIM!
“Canta pra mim, que é na sua voz que me encontro a paz.
Canta pra mim, que é no seu tom que eu chego aos sonhos.
Canta pra mim, todos os dias ao acordar,
e todas as noites antes de me deitar.
Canta pra mim, que é no seu canto que me encanto,
que é na sua melodia que me fiz.
Canta pra mim apenas um refrão, que por hoje me tire da solidão.
Canta pra mim, assim sem compromisso, apenas por cantar...”
A vida de Laura Teindder nunca foi fácil. Pobre, vivera em uma aldeia no Noroeste Pacífico dos E.U.A, na cidade litorânea de Gold Beach. Seu pai, um pescador e a mãe, uma singela dona de casa. Porém, a beleza pura e graciosa lhe dava ares de princesa, tanto que a chamavam de Princesa do Mar. Comiam pouco quando os peixes eram escassos. Nada de luxo, não dormiam em colchões, mas em esteiras.
Porém Laura sempre adorou viver na casa pequena, infestada pelo cheiro de mar, com pai e a mãe a fazerem todos os mimos que pudessem. Ela era filha única do casal, objeto de amor e carinho. Ah! Como era bela. Era uma beleza sutil, natural como a natureza em meio a qual vivia. A pele morena bronzeada tinha brilho especial; os olhos castanhos como os de sua mãe, emoldurados por longas e espessas pestanas, davam-lhe um olhar doce; os cabelos, com belos e pequeninos cachos negros, caiam-lhe pelas costas.
A simplicidade e pureza com que fora criada, fez de Laura uma moça boa, naturalmente boa e, por ser assim, não enxergava a maldade, era submissa as vontades dos outros, queria deixar todos a sua volta felizes, com o mesmo sorriso fácil que tinha. Não era difícil se encantar pela moça, que enfrentava a árdua pobreza de forma tão sutil. Não era difícil amá-la, não era difícil desejar seu belo corpo. Mesmo só observando-a, podia-se amá-la.
E foi assim, que nem mesmo uma criatura mágica, distante das paixões avassaladoras humanas, dos desejos que os consumiam, se envolveu com Laura.
Lairon era um elfo, cuja natureza era cuidar dos humanos, protegê-los de serem massacrados pelas criaturas sobrenaturais, pra que sua existência persistisse. Eles eram o equilíbrio entre os dois mundos, a força invisível que os controlava. Os elfos concebiam que a vida na Terra girava em torno daqueles seres criados por Deus. O mundo sobrenatural tinha de ser escondido deles, para que os mesmos vivessem em paz com sua própria natureza. Isso era o que eles chamavam de missão.
Os humanos, não poderiam saber deste mundo, pois tinham o pérfido desejo que lhes contaminava o coração, de serem sempre mais, de terem sempre mais poder, de serem superiores. Com isso, tais segredos revelados aos humanos iriam causar um caos nesta raça, tão única, redentora de um amor divino sublime. Não eles não poderiam permitir isto. Já bastava o que causavam disputando poder, glória e amor entre si mesmos. Logo, as criaturas mágicas mais poderosas da Terra, usavam suas virtudes sábia e rigorosamente, protegendo a humanidade, cumprindo a missão.
Eles, no entanto, andavam entre os humanos sem que estes os percebessem, observavam a maneira como amavam, como odiavam, intenso, era tudo assim intenso. Os elfos não concebiam os sentimentos da mesma maneira que os humanos. Nasciam sem quaisquer desejo que pudesse fazê-los enlouquecer, querer matar ou morrer. Não tinham o desejo carnal de forma tão vivo como o dos humanos. A razão, a sabedoria de milênios de vida, o instinto protetor era o que lhes dominavam.
Mas ainda assim, mesmo com sentimentos naturalmente calmos, controlados, os elfos, poucos, muito poucos, caiam no fascínio do amor humano e não resistiam. Se apaixonavam. Só que esta não era sua natureza. Eles eram fortes, absurdamente resistentes fisicamente, magicamente, eram justos, unidos, mas a única coisa que não podiam suportar, aquilo que não foram concebidos para sentir era a paixão humana. Das relações entre fêmeas e humanos nasceram, em 4 milênios, sete elfos puros sangues, cujas mães morreram logo após o parto.
Já entre os machos e humanas acontecia uma mistura perigosa. Os homens elfos não tinham força suficiente para suprimir o sangue humano como tinha as fêmeas de sua espécie. Por isso, um ser nascido de uma relação de um elfo e uma humana eram essencialmente humanos, porém com habilidades físicas características dos elfos e, mais importante, e perigoso, tinham no sangue o poder mágico dos elfos.
Lairon não resistiu à bela Laura. Ela era a humana de coração mais puro que conhecera, ele não sentia paixão, era um amor profundo, cálido, eram duas naturezas boas que se encontravam, se completavam. O elfo passou a deixar que a humana o visse, se aproximava sem suas características élficas, mas ainda sim um belíssimo ser. Eles conversavam sempre ao por do sol, nas margens da praia de Gold Beach, quando Laura regressava de seu trabalho. Logo, o peito da bela jovem não se continha diante de Lairon, explodia em uma felicidade devota.
Ela tinha medo, medo que ele não a amasse, por isso não dizia nada. Calava-se. Não iria forçá-lo. Se ele queria só sua companhia, era isso que ele teria. Mas Lairon a observava, ficando cada vez mais ciente de suas delgadas formas, cada vez mais consciente de seu cheiro de alfazema, do peito dela que batia tão furiosamente cada vez que seus olhos se encontravam. Cada vez que se encostavam... Intuitivamente, sem pensar, apenas deixando-se sentir absolutamente humano, em uma de suas tardes de sol, capturou os lábios da moça com os seus. Quando ela correspondeu, aquilo se tornou um mundo, um universo, sim ele morreria por mais, valia a pena.
_ Laura, Laura...eu te amo – as palavras saíram sufocadas devido a emoção nunca sentida pelo elfo – eu te quero meu amor, mas eu não posso te dar... ah Laura....
Não ele não poderia viver com ela, ele morreria, morreria assim que consumassem seu desejo. Laura via confusão, amor, dor e ardência, fogo nos olhos castanhos tão distintos de Lairon. Mas seu corpo estava louco, suas pernas bambas. A boca daquele rapaz, tinha um gosto forte e suave ao mesmo tempo, era doce, mas lhe queimava a pele, era algo que ela tinha certeza que jamais iria esquecer. Ela perdeu o prumo, a razão, suas pernas tremiam...
_Esqueça anjo... esqueça tudo, não me prometa nada, eu só preciso ser sua – os olhos serenos de repente ficaram em chamas, Lairon arfou, agarrou o corpo dela junto ao seu – me ame, da forma que você quiser... eu ... eu sei que será tudo pra mim...
Ela se aproximou mais uma vez e dessa vez ela iniciara o beijo, que se multiplicou em intensidade e em quantidade, Lairon só teve forças pra se separar dela porque precisava dizer…
_ Morrerei meu amor, Laura eu estou condenado à morte – espanto tomou conta da face de Laura, o elfo a pegou nos braços e a levou para trás de uma parede de pedras próxima da costa, ela chorava silenciosa.
_ O que? – conseguiu dizer.
_ Meu amor, minha humana, eu tenho morte marcada, mas não posso deixar de viver isso – ele colocou os dedos nos lábios assim que a moça fez menção de falar – por favor, não me nege isso, não tente entender nada, sei que será uma única vez, mas será tudo... Você... Laura eu..
Dessa vez foi ela que o interrompeu, com um ato que dizia tudo. Com as lágrimas caindo, ela se levantou, e começou a desabotoar cada botão do vestido florido. O vento lhe batia nos cabelos, ela fechou os olhos e continuou e logo, sentiu braços lhe envolverem rapidamente, sentiu a boca em seu colo e o seu vestido indo pra longe.
Laura nunca mais voltou a ver Lairon, se ele realmente morrera, como morrera, jamais soube. Mas a felicidade daquele dia, único, perdurou até seu último suspiro. Seu misterioso amor lhe deixara uma filha. O susto dos pais não impediu que eles acolhessem a filha grávida, que enfrentou conversas e acusações maledicentes dos habitantes da pequena aldeia por ser mãe aos vinte anos, sem que ao menos o nome do pai fosse revelado.
Mas, ainda assim seu destino se mostrou mais difícil. Seu pai morreu em um naufrágio de seu barco em uma tempestade repentina. Sua mãe, mesmo com a filha ao seu lado, não suportou a vida sem seu precioso amor, adoeceu aos poucos, definhava e não adiantaram os cuidados de Laura, quando a moça completava sete meses de gravidez, sua mãe morrera. Seus pais não conheceram a neta, não tinham parentes próximos, os distantes não se importavam, ela enterrou os pais com uns poucos vizinhos, pescadores companheiros do pai e só.
Depois a esqueceram na pequena casa a beira mar, se não fosse uma parteira idosa e carinhosa lhe ajudar teria tido a filha sozinha. Antonia, a parteira ajudou as duas da maneira que podia, trazendo comida enquanto Laura se recuperava do parto. Sarah foi desmamada cedo, sua mãe tivera que trabalhar pra alimentá-las. Dobrava turnos em um hotel chique para turistas da cidade, deixando sua princesa aos cuidados de D. Antonia. Laura, no entanto, sofria muito por ficar longe da filha, por vê-la na maioria das vezes dormindo. Mas uma proposta poderia mudar tudo isto, bastava que ela aceitá-la.
Xavier era dono de inúmeras propriedades pelo mundo, dono de uma rede de hotéis e uma importante construtora, a X&X. Em mais um de seus audaciosos projetos, a X&X tinha em vista a construção de um luxuoso hotel a beira mar em Gold Beach. Xavier fora então para a cidade conhecer o terreno e lá se encantou pela bela morena que lhe arrumava o quarto de hotel. Possessivo e obsessivo como era, decidiu que a teria, ela era bonita e tinha um porte altivo, com um bom trato seria uma excelente companheira para eventos. Era a companheira ideal. Nada mais importava do que isto. Com um telefonema descobriu toda a vida da moça, sobre a sua filha, sobre o trabalho, sobre sua relação esquiva com a vizinhança e, por incrível que pareça, a casa da moça, que ficava justamente no terreno onde seria construído se Gran Hotel.
Soube então quais argumentos usar para conquistá-la: sua filha, o bem estar da linda e esperta garotinha. Ele se aproximou galante, com cuidado, fingindo querer somente negociar a casa da moça. A muito custo, após oito incansáveis meses ele conseguiu: ela disse sim, se casaria com ele. Era mais pela bondade que via no homem imponente e gentil, que demonstrava um amor por ela e um carinha pela sua menina. Sarah não sofreria a dureza que ela sofrera. Daria a ela uma família, uma vida digna.
_ Mãeeeeeeeeee!! Manheeeeeeeeeee!!!! – a menina gritava saltitante logo que o motorista do carro lhe abriu a porta.
Sarah chegava do colégio balançando uma folha, e passando como um vulto pelas empregadas da bela mansão em que moravam.
_ Mãe, mãezinha olha o que eu consegui.... eu ganhei, eu ganhei!!
Laura desceu as escadas correndo, empolgada pela alegria aparente da menina que pulava em cima do sofá gigantesco da sala de visitas.
_ Sarah, pelo amor de Deus, quer me matar de susto? O que foi que te deu? E para de correr deste jeito, céus parece um furacão!- a mãe dava a “bronca”, com sua característica voz meiga, e ainda ria do rompante de euforia da filha.
_Tá eu paro, mas olha, olha!!- Sarah esticou a folha que carregava como a um troféu nas mãos para a mãe. Era uma redação com um enorme “Parabéns!” em vermelho logo no início da folha – eu ganhei o concurso de redação!! Ganhei com o texto que eu escrevi pra você e... e ganhei de todos aqueles grandões chatos que me chamam de pirralha nerd. È meu presente pra você mãe.
Laura riu, o mesmo sorriso fácil e cativante que tinha em todas as situações. Pegou a menina nos braços e a encheu de beijos, enquanto a mesma se sacudia gargalhando fingindo querer fugir dos braços maternos. Sarah se referia aos seus colegas de sala como “grandões chatos” porque, devido sua inteligência incomum, fora adiantada duas séries de sua escola. Os maiores sempre implicavam com a pequena, que, no entanto, era voluntariosa e sempre lhes respondia a altura as provocações, ora com discursos ora com notas, as maiores da turma.
_ O que está acontecendo aqui? – uma voz grave e séria interrompeu imediatamente os risos de Sarah. Ela se endireitou e olhou séria o padrasto. Ela não gostava dele! Não importava o que a mãe lhe dizia, ela não gostava. Ele praticamente escravizava sua mãe, que sempre lhe fazia suas vontades. Nas vezes que se embebedava em festas, jogava-lhe na cara que ela devia lhe dar tudo o que quisesse porque ele pagava para mantê-la como quisesse, dando-lhe tudo e sustentando a “garota”, no caso a filha, Sarah. A criança escutava as brigas ou melhor, os gritos de Xavier, escondida da mãe, mas quando ela comentava algo com ela, a mãe sempre o defendia.
_ Ele só fica um pouco nervoso e descontrolado às vezes minha princesa! Mas ele é muito bom conosco, ele é bom meu anjo, cuida de nós!
Era sempre assim, mas ela definitivamente não gostava dele, embora às vezes ele fosse até carinhoso com a mãe e educado e cordial com ela.
_ Ela ganhou o concurso de redação na escola querido – Laura respondeu ao homem sisudo diante das duas.
_ Pra variar! Mais demonstração de esperteza, é isso mesmo garota, sinal de que vale a pena pagar seus estudos. – A menina virou o rosto e deu uma leve bufada, “lá vem”, pensou – estude que assim você vai ser esperta o suficiente para dominar e se dar bem.
_ Eu não quero dominar e nem me dar bem Xavier, eu vou estudar para cuidar de pessoas, vou ser médica e salvar um monte de gente!!
_ Médica! Muito esforço e pouco dinheiro. Menina deixe este tipo de profissão para os altruístas tá legal? Quando você crescer com certeza vai arrumar algo mais, hum, rentável pra fazer e deixar estas ilusões de criança pra lá. Bom eu vou indo e não me arrume gritaria quando eu chegar porque meu dia vai ser cheio e eu vou querer paz! – Ele deu um beijo na mãe e bagunçou o cabelo da menina ao sair.
Assim que ele virou as costas Sarah fez uma careta murmurando um “algo mais rentável” cheio de ironia.
_ Por Deus criança onde aprendeu isto? – A mãe disse observando a filha – não faça assim!
_ Aprendi com ele mesmo. Já vi ele fazendo cara de deboche pra um monte dos clientes dele no telefone!
_ Sarah! – A menina riu com a cara de espanto da mãe, dando um beijo estalado na bochecha dela – Desculpa – disse com carinha inocente demais para não parecer sapeca. Mas a mãe soltou um muxoxo, fazendo uma careta absurdamente desconfortável, ficando branca de repente.
_ Ei mãe desculpa, não faço mais ta legal!
Mas o que veio a seguir fez a pequena estremecer. A mãe se encolheu e a voz, sempre baixa e branda converteu-se em grito agudo, doloroso e agonizante. A menina se assustou tanto que acompanhou o grito com a mãe. Todos os empregados correram para a luxuosa sala, e Xavier voltou correndo. Todos encontrando Laura pálida, desfalecendo no tapete felpudo, com a filha a gritar por ela.
Aquilo fora só início de um sofrimento imenso para a ainda garota de dez anos de idade. Depois dos exames feitos naquela mesma tarde identificaram um câncer cerebral na mãe. Não havia possibilidades cirúrgicas para a retirada do tumor. Começaram imediatamente as seções de quimioterapia, nos hospitais mais caros, mas nada adiantou. A bela Laura definhou rapidamente, perdeu seus belos cabelos, o corpo se tornou magro, quase esquelético, seu sorriso se apagou.
Das poucas vezes que a mãe estava em casa durante os noventa dias de tratamento, Sarah se encolhia na cama , mordendo o travesseiro, escutando os gritos abafados vindos do quarto da mãe. Xavier permanecia o mais distante possível do tratamento, não suportava, pagava mais empregados, médicos, enfermeiros para cuidarem da esposa, mas se mantinha afastado, visitando a mulher por poucos minutos durante o dia e durante a noite. Equipou o quarto como uma ala de hospital, quando Laura lhe implorou que não queria morrer longe da filha, em um quarto frio. Ela sabia que iria morrer, mas só se importava com a sua princesinha.
Ah! Ela suportava a dor, suportava tudo, menos o olhar sofrido da pequena, que sempre lhe trazia presentes feitos por ela mesma em suas engenhosidades, e conversava com ela durante o tempo que os médicos permitiam ver a mãe. Lhe trouxera uma rosa de um metro, feita com papel dobrado; uma escultura de argila em formato de coração, que ela coloriu e escreveu as iniciais das duas; enchia as paredes com belos desenhos e colocava enfeites coloridos em volta da cama, já que não podia trazer flores.
Mas a noite em que Laura já não tinha mais forças para lutar pra se manter viva chegou, chovia, parecendo que até os céus choravam com o que estava por vir. A mulher não tinha forcas ao menos pra gemer, só uma coisa lhe dava forças: a necessidade de falar com a filha uma última vez. Tirou a mascara de oxigênio do rosto e pediu, com voz fraca, para que chamassem a filha e não descansou até que a enfermeira saísse do quarto.
Sarah estava em seu quarto, acordada ainda, abraçando as pernas e sacudindo o corpo para frente e para trás, num ritmo desolado. Não estava com um bom pressentimento. A enfermeira a higienizou, deu-lhe a máscara e acompanhou a menina até o quarto.
_ Mami, você está bem? – o rosto pálido e esquelético de Laura se contorceu no que era pra ser um sorriso.
_ Vou estar bem se você ficar bem meu amor. Pode ter certeza disso. – A voz estava tão baixa que a garota teve de se aproximar, parecia mais um espectro do que um dia fora a mulher maravilhosa que conhecia como mãe.
_ Mamãe quer conversar com você anjo – ela deu um leve esgar – preciso que me prometa uma coisa...
_ Mãe num fala nada agora, descansa mamãe você precisa. Olha se você não descansar num vai ficar bem logo e você tem que tá bem forte pra me levar na formatura... – a menina tagarelava, mas uma lagrima teimosa queria lhe escapar dos olhos, ela parou pra respirar e fungar o nariz.
_ Eu só posso lhe falar agora meu bem... – a mão magra com os tubinhos de coisas que ela não sabia bem o que era, ergueu-se e tocou-lhe o rosto, tinha um negocinho no indicador da mãe ligado a um aparelho que apitava incessantemente – eu vou estar com você sempre, porque nunca se separa uma mãe de uma filha, um dia você vai entender isto, nunca se separa!
Ela parou pra tomar fôlego, olhou o olhar agoniado da menina, sabia que a filha estava ciente do que estava acontecendo. Sua mãe estava se despedindo.
_ Eu vou sentir o que você sentir meu bem, se você estiver triste eu estarei, se chorar eu vou chorar, se sorrir eu vou ser feliz, se amar, minha vida terá valido a pena. Quando você amar minha querida se entregue, viver um amor verdadeiro nunca é um erro.
_ Mãe, num faz isso, mãe não fala isso. Mãe me promete que não vai embora.... Mãe..mãe não me deixa, eu só tenho você, eu só amo você, eu não posso viver sem você mamãe.
_ Shiiii.... pequena, não diga isso, você pode e você vai. Eu já disse eu nunca vou te deixar, vou estar viva em você enquanto o seu coração bater e depois...
A menina se levantou bruscamente:
_ Não mãe, eu não vou conseguir, você não pode fazer isto comigo, não pode...
_ Venha aqui Sarah, não faça isso comigo você! – Sarah estremeceu e voltou pro lado da mãe – Eu sei que você vai ser feliz, que você vai ser muito amada, vai ser muito importante. A minha menina vai ser uma grande médica não é? – Sarah balançou a cabeça afirmando, o coraçãozinho a se apertar – então! Filha, tem coisas que não cabe a nós decidir, não podemos viver pra sempre, mas podemos viver e ter uma vida bela, que realmente vala a pena, a minha valeu por você!
_ Eu não quero viver sem você! – os olhos suaves da menina estavam amargurados.
_ Sarah se você me ama, se realmente me ama, me promete que vai continuar vivendo, aconteça o que acontecer você vai resistir e vai continuar e viver.... Aii! Filha me prometa agora – Os olhos dela de Laura de repente ficaram desesperados – Por favor, por favor, se você me ama anjo prometa! Que vai continuar por mim... continue por mim...
_ Mãe.. eu... prometo. Mãe eu prometo! – a menina falou rápido, preocupada com a agonia aparente da mãe.
_ Sim, obrigado anjo, agora eu posso ir em paz. Sim meu amor, eu sinto, eu tenho certeza, você vai ser importante pra muitas pessoas. Você vai amar um amor tão bonito quanto o meu pelo seu pai, eu sei que vai. Vai ter uma família linda, vai ser forte, sim valeu a pena por você! – Laura olhou pra menina que se segurava pra não chorar diante da mãe, tentou sorrir, ignorando a dor – Canta pra mamãe dormir?
Sarah nada disse, apenas deitou no peito da mãe e começou um canto sussurrado e entrecortado por um soluço ou outro que lhe escapava. Cantava uma melodia sem letra, com sua voz de sopranino, suave. Um canto como os muitos que a mãe lhe cantava pra lhe acalmar toda vez que por um motivo ficava nervosa. Aos poucos uma calma tomou-lhe o corpo, ela fechou os olhos e continuou cantando, no silêncio pacífico do quarto, somente com o apito ritmado dos aparelhos médicos.
Mas um som a despertou, o ritmo do aparelho se modificou, ela olhou pra tela e só via uma linha, sem ritmo, sem vida. Passou o olhar de repente para mãe. Ela estava de olhos fechados, com expressão serena, sem o brilho da pele.
_ Mãe?_ a pergunta saiu atropelada com um soluço – Mãe, mãe, acorda mãe, abra... aiiiiiii, mãe abra os olhos, anda, anda logo, sorria, acorda, fala ... comigo!!
Braços lhe pegaram, arrastando-a do quarto a muito custo. Uma força incomum para uma menina de seu tamanho se fez presente enquanto ela se debatia e chorava desesperada. Médicos e enfermeiras rodeavam a cama e a separavam de sua mãezinha.
A partir daquela noite Sarah começou a cumprir sua promessa, continuaria por sua mãe, só por ela, mesmo estando sozinha, somente com a presença de Laura em seu coração. Ela só não sabia como viveria, mas viveria.
“Continue por mim...” era o pensamento que lhe fazia acordar dia após dia.
Notas finais
Sobre o pai dela, Lairon, muitas coisas serão esclarecidas. Foi muito difícil e intenso escrever este capítulo, principalmente na cena da morte de Laura. Acreditem ou não, exatamente duas semanas depois de eu escrever esta cena, minha avó materna faleceu da MESMA doença, na mesma situação. Eu tive que viver tudo aquilo que eu escrevi e por muito tempo eu não consegui reler este capítulo. Por isto ele é, de uma forma um tanto dolorosa, muito marcante pra mim! No aguardo de comentários... estou curiosaaa!! Bjos e até a próxima!
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