The Precious Blood
24 CONFIE EM MIM
Notas iniciais
Ousei falar sobre coisas impossíveis de se medir: dor e amor.
Comentem meus amores! Boa leitura!
“Então vem, repouse os seus medos nos meus ombros. Adormece o seu cansaço nos meus braços. Descanse suas pálpebras nos meus olhos. Deságue um pouco dessas lágrimas nos meus dedos. Encaixe a sua alma bem aqui, nesse espaço largo que eu chamo de coração… Deposite a sua vida no meu colo e deixe-me cuidar de você… Esquece tudo e ama, porque isso basta!”
Érica Gaião
_ Sarah… ah Sarah o que você fez? Onde você se permitiu chegar? – Quendra lhe dizia com aquela voz afinada e cadenciada. Ela falava com Sarah balançando a cabeça com pesar.
_ Agora não me admira mais Quendra? – Ela disse irônica, seu sorriso continuava louco. A elfo suspirou.
As duas continuavam no banheiro espaçoso e claro da suíte de Sarah. Esta estava na exata posição que Koraíny lhe deixou: parada rigidamente em frente a pia, mirando Quendra na porta.
_ Isto é só fraqueza… mas sucumbir a fraqueza não lhe dá o direito de matar…
O riso de Sarah interrompeu o dizer da elfo.
_ E o seu poder não lhe dá o direito de me julgar… Não me venha com o seu saber nobre e inquestionável dizendo estas coisas bonitinhas e certinhas, isto é tolice Quendra! – A voz dela estava grave e arranhada.
_ Sarah as palavras são poderosas… tome cuidado com o que diz. Você não está em boas condições, poderá dizer coisas que realmente não acredita… — Quendra avisou, tentando recuperar um pouco da consciência e controle que ela sabia que Sarah tinha. Mas ela riu.
_ Eu estou cansada dos teus discursos Quendra! Cansada dos teus malditos discursos, dos sermões de vocês, malditos elfos! Estou cansada da maneira como vocês se intrometem na minha vida! Me deixe enlouquecer em paz!
_ Não grite! – Quendra novamente falou. – Contenha-se Sarah!
Sarah riu da maneira autoritária com que Quendra falava, como se quisesse ordenar que ela voltasse a razão. Ela saiu apressada do quarto descendo as escadas sem saber ao certo aonde ir, só querendo fugir da elfo.
_ Você não vai a lugar algum! – Quendra apareceu diante da porta, barrando sua saída.
_ O que você quer? Quer me manter presa aqui pra que eu escute mais um de seus sermões? O que você vai me dizer? Que eu não podia matar aquele verme porque eu tenho sangue élfico? Que eu desobedeceria a mais valorosa de todas as leis dos elfos de nunca fazer mal a um humano?
_É exatamente isto Sarah! Não importa a situação que você estivesse, nós jamais poderíamos aceitar que você se tornasse tão desprezível quanto aquele homem que você tentava matar! Mas nós não podemos tratar você como uma criança Sarah! Você é mulher e apesar de ferida, de estar a um passo da loucura, você sabe muito bem o que é certo e o que é errado. Você sabe que matar aquele homem só duplicaria seu tormento!
_ Que ele fosse duplicado! Que este maldito tormento aumentasse até que eu realmente não pudesse mantê-lo dentro de mim e morresse com ele! Ao menos acabaria e eu não precisaria mais encarar isto! O fim, eu só quero o fim!
_ Sarah… — Quendra suavizou a sua voz, a sua expressão.
_ O que é a minha vida Quendra? O que eu tenho? O que é suportar isto mesmo lutando tanto pra esquecer? Eu não me acho capaz de esquecer e quando eu tento então tudo volta com aquela garota. EU ME VI NOVAMENTE QUENDRA! – O peito de Sarah inflava e ela andava de um lado a outro no hall de entrada em uma velocidade absurda. – Eu me vi novamente naquela jovem ferida e machucada, presa na cama daquele bendito hospital! E eu senti tudo de novo… tudo de novo…
Quendra nada disse, deixou que a mulher desabafasse seu desalento, coisa que nunca antes havia feito. Ela gritava, tinha os olhos vermelhos e brilhantes com as lágrimas que não permitia cair. Mas ela estava ali, a elfo pensava, sob as suas vistas, contida nas paredes daquela casa, longe da liberdade que lhe faria matar em um momento de loucura.
_ Mas não foi só a dor que voltou Quendra, foi o ódio! O ódio que eu sentia daquele miserável, a única criatura que me fez ter medo. E é isto, eu fiquei tempo demais tendo medo dele, tendo medo de me lembrar dele, do que ele fez! Mas eu queria poder matá-lo, esganar sua garganta com as minhas próprias mãos e vê-lo implorar pra não sentir dor, eu queria poder matá-lo e…
_ Ferí-lo não te faria sentir melhor! Você não o esqueceria… — Quendra continuava a dizer com parcimônia.
_ E O QUE ME FARÁ ESQUECÊ-LO? – Ela vociferou para a elfo. – A minha morte? É isto?
_ Não Sarah, não é isto…
_ O que é então? – Ela não suportava mais. Suas pernas cederam, seus joelhos se dobrando com o peso de sua angústia, ela caia lentamente no chão frio. – O que é…? – Ela passou a sussurrar cansada.
_ O que esta acontecendo agora Sarah. Deixe este trauma sair de você, coloque pra fora e deixe ir… não tente esconder tanto isto, não foi sua culpa… Não guarde dentro de você as emoções que isto lhe provocou… deixe ir Sarah… — As palavras da elfo pareceram incitar algo dentro de si. Ela deixou que escapasse de seus lábios os pensamentos absurdos que lhe atormentavam.
_ Vocês estavam lá, assistindo… assistindo tudo… você gostou Quendra? Gostou de ver Xavier montando em cima de mim enquanto não fazia nada? – Sarah falou aquilo em um sussurro rancoroso, vendo novamente a cena daquela noite. Então ela finalmente conseguiu atingir o controle tão rígido da Rainha. Mesmo com os olhos turvos, Sarah enxergou a postura de Quendra enrijecer e seu peito belo estremecer.
_ Não diga… isto… — Ela disse baixo, não querendo acreditar que Sarah havia guardado aquela mágoa.
_ Vocês se acham nobres por quê? Por que Quendra? Mas claro! É porque os elfos são protetores dos humanos, eles não ferem nenhum deles, mesmos os mais indignos. Ah! Mas eles resguardam os inocentes e os puros de coração… que bonito… — Sarah se levantou a custo, pendendo a cabeça de um lado enquanto olhava os olhos de Quendra se obscurecerem. – …e sabe como eles te protegem? Ah… eles deixam você sofrer, olham você sofrendo e depois dizem: “você tinha que passar por isto para crescer, para se tornar digno”.
_ Não é assim Sarah… existem certas coisas que não podemos evitar…
_ Claro… esta é a desculpa favorita de vocês não é? “Não podemos interferir no destino de alguém Sarah… fazemos só o que é permitido”… E não era permitido impedir aquele verme de me violentar, só era permitido ver ele me espancar e… e…
_ Você não sabe o que está dizendo! Por você Sarah, por você, nós elfos compartilhamos o sentimento mais torturante que pode haver…
_ A PENA? EU NÃO QUERO PENA… — Sarah interrompeu gritando agudamente.
_ NÃO FOI PENA SARAH, FOI DOR! – Ainda que Sarah esbravejasse com todo o seu furor, o seu gritar não teria o impacto que teve o grito de Quendra. Sarah foi silenciada com o eco que a voz da elfo fazia em seus ouvidos. – Nós compartilhamos a sua dor e sentimos de uma maneira que jamais sentimos antes… tão de perto… tão de dentro… Não seja ingrata e cega Sarah! Agora, se você quer que eu admita que nós, elfos, somos também fracos e insuficientes… eu digo: nós somos fracos! Nós não podemos tirar das pessoas a dor que a vida lhe reserva, não somos personagens de um conto de fadas capazes de salvar o mundo, os livrando do sofrimento! Somos poucos, mas nós somos algo! Não desmereça o que fizemos por você, não desmereça o amor que fez Koraíny desobedecer e fugir a regra de seus irmãos para te impedir de se tornar uma assassina! Ele me desobedeceu, mas mais do que isto, ele foi chamado pelo seu desespero, pelo seu coração que estava a um passo de ser maculado! Não despreze o afeto maior que sentimos por você!
Sarah sacudiu a cabeça e voltou a se jogar no chão, se balançando para frente e para trás.
_ Desapareça Quendra… eu não quero ouvir mais nada… eu quero ficar sozinha…
_ Sarah… por Deus meu anjo… você não precisa passar por isto sozinha!
_ Me deixe Quendra… isto vai acabar, vai acabar hoje…
_ Não, não Sarah, não pense nisto… – Quendra se aproximou de Sarah novamente, impelida pelo que vislumbrou nos pensamentos confusos da moça, mas ela se esquivou gritando:
_ É A MINHA ESCOLHA! ME DEIXE! – Disse com voz entrecortada, virando as costas para Quendra.
Logo depois ela sentiu somente um farfalhar suave do vento as suas costas indicando a partida da elfo. Ela estava só… ela e sua ferida que parecia ter criado vida, lhe atacando ferozmente, dizendo-lhe que era mais forte. Doía de novo… Tinha que parar, tinha que acabar…
Trôpega, ela caminhou rumo à cozinha até a adega, o local reservado a bebida que ela gostava de apreciar, mas agora Sarah queria que servisse de anestésico… Catou as garrafas tão bem armazenadas e quebrou o gargalo na pressa de fazer o líquido descer pelo seu esôfago e se espalhar em sua corrente sanguínea.
Uma, duas garrafas e… nada! Não adiantava! Ela tomava o vinho com mãos trêmulas, o líquido tinto caindo-lhe por entre os lábios, manchando sua roupa clara, e a dor continuava firme, as lembranças continuavam pungentes.
Ela queria algo mais forte!
Vasculhou em suas coisas e encontrou um frasco de remédio que receitava a alguns de seus pacientes, era algo que serviria… Ela sabia que não iria morrer fazendo aquilo, muitos humanos “normais” faziam aquilo em tentativa de suicídio, mas seu organismo era mais forte, não sucumbia assim…
Sarah buscava a embriaguez que a levasse pra inconsciência, pra onde tudo findasse.
Ela se sentou no sofá, já com tontura, e juntou mais algumas garrafas. Os comprimidos foram espalhados no chão e ela os pegava e engolia com a ajuda do vinho que já estava insípido, sem sabor algum.
Aos poucos ela foi sentindo um formigamento lhe subir pelos dedos, adormecendo e retardando seus movimentos. Tudo ao redor girava e em seus ouvidos surgiu um zumbido forte que parecia vir de dentro de seu cérebro. Seu corpo pendeu de lado no sofá, ela sentia dificuldade de respirar normalmente, a musculatura de seu peito parecia dormente demais para se contrair e relaxar puxando o ar pra dentro e jogando-o para fora. Mas ainda assim ela pegava os comprimidos e os engolia, empurrando-os com o vinho para dentro.
Logo não tinha mais forças para segurar ou até mesmo abrir outra garrafa de vinho. Seus olhos turvos a impedia de enxergar onde estavam mais comprimidos… A escuridão em sua mente quase escondendo o rosto de Xavier…
Ela sorriu mole…
Quem sabe tivesse a sorte de não resistir?
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_Você não vai me dizer o que é? – Leah insistia preocupada.
Jacob havia aparecido em sua janela a olhando angustiado. Ela imediatamente foi pra fora, perguntando o que havia acontecido, mas ele nada disse. Ele havia lhe conduzido para a praia e se sentou com ela na areia muito quieto.
_ Não posso… — Ele respondeu a sua pergunta. Ela já havia feito a mesma pergunta umas cinco vezes e só agora ele respondeu.
_ Se você não consegue dizer então a gente se transforma e você me deixa ver seus pensamentos. Você não precisa falar. – Ela disse, tentando arrumar uma solução pra a agonia aparente dele.
_ Não Leah. Eu não posso mostrar isto a ninguém. Não vou me transformar enquanto não tiver forças pra esconder isto dos meus pensamentos. Não é algo que pertence a mim. – Ele disse baixo.
_ O que você quer que eu faça pra ajudar então? – Ela perguntou, pegando na mão dele em um ato automático.
_ Só fique comigo enquanto eu penso.
Leah enrugou a testa.
_ Pensar? Pensar vai te ajudar?
_ Não sou eu quem precisa de ajuda Leah! – Ele disse irritado.
Leah enrijeceu de repente, entendendo o que poderia causar aquele surto em Jacob.
_ Sarah! É ela que precisa de ajuda? O que aconteceu? – Havia certa urgência em sua voz.
Jacob fechou os olhos, bufando. Ele era tão transparente assim? Por que aquela loba sempre conseguia desvendá-lo e ir direto ao alvo do problema?
_ Leah, não tente saber… não é algo que possa ser exposto… por favor, não insista. – Ele apertou os olhos ao dizer aquilo. Leah percebeu que ele não brincava, mas lhe afligia a expressão dele… era algo sério.
_ Há algo que eu possa fazer então? – Ela sussurrou, apertando a mão quente dele.
_ Como se cura uma dor? Como se alivia um martírio? – Ele encarou Leah confuso, esperando dela a receita de uma fórmula mágica. Os olhos perturbados de Sarah ainda lhe estavam claros na mente. O corpo trêmulo, o coração acelerado, a aflição resguardada em sua voz ao falar com aquela moça no hospital, também.
“Doeu… doeu tanto!”. Ela havia dito.
Ah! Porque aquilo era tão insuportável? Ele se sentia impotente, inútil e miserável sabendo daquilo e não podendo fazer nada. Ela não merecia aquilo, aqueles olhos não podiam abrigar uma dor tão profunda. E ela estava tão longe… tão longe dele, tão longe do lugar que ele queria que ela estivesse: bem ali, nos seus braços. Não sabia o momento exato em que aquela vontade se enraizou com tanta força dentro de si, mas Jacob tinha a impressão que poderia oferecer algo a ela em seu colo, tinha a necessidade de dispensar a ela um carinho, um certo cuidado que esqueceu que era capaz de oferecer.
A aflição por ela era tanta, que ele se esquecia de si mesmo, só pensava nela, partindo desorientada pra longe dele, exigindo solidão.
Ele foi à casa dos penhascos assim que saiu do hospital, mas lá, o lugar que guarda o cheiro dela, o som da voz dela, o deixou ainda mais inquieto. Foi aí que decidiu procurar Leah e agora olhava pra ela esperando por uma resposta que poderia ser o bote salva-vidas em um naufrágio.
A índia suspirou, seus traços tornaram-se cálidos. Era a candura que poucas vezes se contemplava no semblante de Leah Clearwater, a poucos ela reservava aquilo.
_ Eu só sei um jeito. – Ela disse, olhando com mais intensidade para Jacob.
_ Que jeito? – Ele perguntou, com pressa febril.
_ Pode parecer uma piada se você não entender isto direito, mas é mais sério do que qualquer coisa que eu possa dizer. – Sua voz estava cordata.
_ Fala logo Leah! – Jacob exigiu.
– Amando Jacob. Só com o amor se consola a dor. Se você quer tirar a dor dela então simplesmente a ame. Clichê isto não é? Mas eu acho que certos clichês vem de verdades que tem de ser repetidas inúmeras vezes pra que os outros aprendam. Então os idiotas dizem que é bobagem, que é tão clichê, e acabam por não fazer o que é mais simples, o que está aí, na cara. Amar para curar, até rima.
Jacob engoliu em seco e ficou encarando Leah sem, ao menos, piscar. Ela estalou os dedos na frente dele após algum tempo, vendo sua rigidez. Ele pegou os dedos da loba no ar, logo depois abaixou os olhos e sorriu amargo. Sabia que Sarah merecia amor, mas…
_ Como é que se ama? – Seu pensamento escapou em voz alta. Jacob tinha fugido daquilo por tanto tempo, que agora não se sentia capaz de cumprir com o conselho de Leah.
_ Não é tão difícil Jacob – Leah não questionou aquela pergunta desconexa de Jacob, nem sequer procurou refletir sobre ela. A índia apenas sorriu e acariciou com o polegar a palma de Jacob. – É muito mais difícil não amar. Você vai ver só! – Ela sorriu.
Jacob ergueu os ombros, se sentando mais ereto. Uma impaciência maior veio até ele, parecia que ouvia a voz de Sarah lhe chamando, parecia que via ela caída em algum lugar escuro esperando por ele, precisando dele. Onde ela estaria? Pra onde ela havia ido?
Idiota! Ele deveria tê-la seguido! Jacob se levantou, soltando a mão de Leah e enfiando os dedos em seus cabelos.
_ Onde ela está? – Leah perguntou.
_ Gostaria de saber. – Ele disse, seus pés formigando para correr e procurá-la.
_ Quer encontrá-la? – Ela voltou a perguntar.
Sim ele queria! Mas se a visse o que faria? E se ela recusasse sua ajuda novamente? E pior, e se ela O recusasse? Ele suportaria ouvir ela dizendo que ele não era ninguém para se meter na vida dela? E se ela não aceitasse mais ele, se ele visse novamente a recusa no olhar dela, ele suportaria vê-la obrigada àquele casamento falso por mais tempo do que já tem visto?
_ Posso te ajudar a procurá-la… se você quiser eu falo com ela e… — Jacob não escutou mais o que Leah lhe dizia, mesmo a uma boa distancia, ele pareceu ter ouvido o eco de um grito vindo de sua casa.
Se virou imediatamente para lá, apertando os olhos para a bela construção elevada pela inclinação dos terrenos costeiros, no outro extremo do lugar onde estava. E de novo, parecia a voz dela, de Sarah.
_ Ouviu isto? – Ele perguntou a Leah.
_ Isto o que? – Ela se levantou e se pôs em alerta, seus ombros se juntando para trás e seus olhos percorrendo tudo ao redor.
_ Parece que… parece que ouvi Sarah… na casa… — Ele falou, sem despregar os olhos da casa que, daquela distância, parecia vazia, não havia luzes acesas.
_ Sarah? Mas agente só ouviria Sarah daqui se ela realmente soubesse gritar Jacob! Até para nós é difícil, nós mal vemos a casa daqui. Está muito longe e… eu não ouvi nada.
Mas agora ele sentia um imã lhe puxando pra lá. Poderia ser delírio dele, mas ele podia ouvir a voz de Sarah, e parecia vir de lá. Parecia ser um chamado. Não dava pra ver o interior da casa daquela distancia, mas ele sabia que ela estava lá, que ela precisava dele lá.
_ Eu vou até lá. – Ele disse, já andando apressado rumo a sua casa.
_ Ei! Jacob! Ao menos me avise se ficar tudo bem! – Ele parou e se virou pra ela. – Não precisa explicar nada é só dar um sinal de ok! Eu preciso saber. – Ela disse, parada com os braços cruzados e a expressão tensa.
_ Certo. – Ele disse, voltando a seu caminho.
Leah observou Jacob se afastar sentindo uma movimentação atrás de si. Era seu irmão, Seth.
_ O que ele tem Lee? – Ele perguntou baixinho, com cuidado para que o Alpha não ouvisse.
_ Nada que seja da sua conta. – Apesar do que disse, a voz de Leah estava mansa ao se dirigir a Seth.
_ Tá ficando intima do impenetrável Jake hein? – Ele lhe disse, se chegando ao lado dela e lhe dando um leve empurrão com o ombro.
Leah olhou pra cima, procurando os olhos dele. Quando é que Seth havia crescido tanto mesmo? Leah continuava achando que seu irmão, o Seth, aquele garoto sonhador, não tinha o direito de ser maior que ela. Ele tinha que ser eternamente o “irmãozinho chato”.
_ Nem mais tão impenetrável assim Seth. – Ela respondeu. Voltou a olhar para Jacob, que desaparecia a distância enquanto corria.
_ Eu sei disso Lee… eu conheço aquele cara. – Leah notou que novamente havia a nota de admiração na voz de Seth ao falar de Jacob, como havia quando o seu irmão era um pequeno magricela que seguia qualquer rastro que Jacob deixasse. Parecia uma outra vida. – Aquele Jacob eu conheço e reconheço.
Leah sorriu, afirmando com a cabeça levemente, enquanto ainda mirava a direção que Jacob havia partido fazendo uma prece interna: uma prece por Jacob e por Sarah.
****************
Por maior que estivesse sua velocidade, ainda parecia pouca. A casa nunca estava próxima o suficiente e a escuridão e o silêncio que havia naquela direção deixava os pelos de sua nuca eriçados.
Quando Jacob chegou ao quintal quase se sentiu desanimar. O carro dela não estava lá. Ele parou um instante, sem saber o que fazer. Foi então que pode ouvir uma respiração rasa e um coração pulsar lento dentro da casa. Tinha certeza que era ela.
Saiu novamente desembestado pra dentro da casa, abrindo a porta rapidamente. Não tinha uma única luz acesa. Ele não precisava acender a luz, mas foi o que fez, como se a luz fosse aliviar o medo de encarar Sarah novamente. O cheiro dela estava controlado, mas a respiração que vinha tão perto de onde ele estava, era árdua, pequenos espasmos acompanhavam. Junto ao cheiro dela Jacob reconheceu o cheiro forte de álcool, de bebida fermentada, que chegava até a irritar suas narinas.
Criando coragem ele caminhou para dentro, e logo que chegou a sala a viu. Suas pernas travaram e seus olhos se arregalaram. Parecia que uma mão apertava seu coração querendo impedir de bater.
Sarah estava caída na beirada do sofá, suas pernas pendidas pra o lado de fora, os cabelos embaraçados e soltos estavam espalhados pra trás de sua cabeça. Um dos braços dela descansava em sua barriga que se movimentava lentamente no ritmo da respiração. O outro braço estava caído do lado de fora do sofá, perto de sua mão solta, uma garrafa de vinho derrubava o liquido vermelho no tapete. Os lábios dela estavam abertos, era pela boca que ela respirava; suas pálpebras fechadas tremulavam como a de alguém que tinha uma convulsão.
Jacob correu para ela, pegando seu tronco e elevando seu corpo para o sofá em uma posição mais coerente.
_ Sarah… Sarah … acorda… fala comigo! – Ele sussurrava em desespero, tirando a franja de sua testa, a sacudindo levemente. As pálpebras dela tremeram com mais força, seus lábios se moveram minimamente, um gemido fraco saiu deles, quase inaudível. – Sarah! O que você fez?
Ele olhou ao redor mais atentamente e viu cerca de sete garrafas de vinho quebradas no chão. Um frasco transparente jogado perto delas. Jacob pegou o frasco e percebeu o aviso escrito na embalagem. A tarja preta indicava que aquele medicamento era de uso extremamente controlado. Passando os olhos ele conseguiu ler que os comprimidos tinham efeitos sedativos, agindo diretamente no sistema nervoso central. O frasco estava vazio, dois ou três comprimidos restavam no chão.
_ Sarah? Sarah você tomou isto? Você tomou tudo? – Jacob perguntou, mas ela continuou da mesma maneira, mole como uma geléia em seus braços. Aquilo era forte, muito forte e com a bebida… — Você queria se matar, é isto?
Jacob deu leves tapinhas no rosto dela, sentindo naquele momento o seu coração vacilar ante a possibilidade de ela ter conseguido cumprir seu intento suicida. Ela era resistente, mas era médica também, sabia muito bem como causar uma morte.
_ Sarah fale comigo… — Ele pediu novamente, com uma voz apertada.
Os olhos trêmulos se abriram minimamente. Sarah sentia um calor a envolvendo, um hálito envolvente soprando em seu rosto e uma voz chamando… Sob a sombra de seus cílios ela viu o rosto de Jacob muito perto, com seu cenho franzido, sua voz a chamando sem cessar.
_ Isso Sarah! Abra os olhos, fale alguma coisa… — E ela falou…
_ Não deu certo… estou viva… — Ela tinha certeza que estava viva, pois nunca sentiu braços a segurando tão protetoramente, tão seguramente. Nunca sentiu tanto calor a sua volta.
_ Sim você está viva e é assim que você vai permanecer! – Ele disse aquilo com tanta intensidade que mesmo com os sentidos completamente latentes, Sarah sentiu a voz forte a sacudir por dentro.
_ Eu não agüento mais… — O sussurro dela foi como um golpe duro nele. Sarah desistia, desistia de viver? Não, não e não!
_ Vem, vem comigo… — Ele disse, já a erguendo do sofá.
Sarah abriu completamente os olhos: estavam vermelhos, brilhantes e dolentes.
_ Não… — Ela sussurrou, tentando empurrá-lo com as mãos, mas estas não tinham força alguma.
_ Eu só vou cuidar de você! Você não pode continuar assim…
_ Não… — Ela sussurrou novamente, pendendo a cabeça pra trás, fechando os olhos, se esquivando de Jacob.
Ele olhou pra ela, pra sua roupa manchada de vinho, no colo havia vinho seco também, mas ele se surpreendeu com o que distinguiu em meio as manchas de vinho na blusa branca. Era sangue, sangue seco sem sombra de dúvida. E não era sangue dela.
Ele passou os dedos pelas gotas secas de sangue na blusa.
_ O que aconteceu Sarah? Onde você estava? – Ele acariciava os cabelos dela, seus dedos se enroscando nos nós que havia, retirou folhas ainda verdes dos fios.
_ Tentando… tentando me livrar disto… — Sarah colocou a mão no peito, e ainda que fraca, conseguiu se arranhar. Jacob pegou a mão dela e segurou firme entre as suas. – Eu estava matando… matando o verme que fez aquilo com a gente… — Enlouquecido, ela só podia ter enlouquecido. O sussurro fraco não acompanhou a intensidade dos olhos vermelhos de Sarah.
Ela passou a encarar Jacob rigidamente, suas mãos ainda tentavam empurrá-lo. Ora ou outra ele percebia o queixo dela tremer, ela esconder um soluço, seus olhos brilhantes encarcerarem lágrimas.
Ainda que ela protestasse, ele a apertou mais nos braços, querendo fazer aquilo tudo parar. Era loucura, ela não era assim, ela não podia estar daquela maneira tão lamentável. Jacob sentiu a conhecida força do ódio lhe perturbar as entranhas. Era ódio pelo homem que causou tudo aquilo, homem que ele jamais tinha visto, não sabia nada sobre ele, mas o odiava. Odiava por ela… pelo que ele tinha feito a ela.
Mas ele não podia fazer nada contra quem quer que fosse aquele homem. A única coisa que estava a seu alcance era Sarah.
_ Não toque em mim… não… — Ela continuava a cochichar alterada. Jacob esqueceu então o ódio que estava sentindo e passou a se concentrar na angustia de Sarah. A deitou um pouco mais inclinada no sofá, sentou-se ao lado dela e pegou suas mãos delicadamente.
_ Olhe pra mim Sarah… — Ele pediu, encostando a testa quente nas mãos dela. Sarah abriu os olhos, e passou a encarar Jacob silenciosa, sua cabeça pendia no braço do sofá. – Eu sei que não mereço… que não mereço sua confiança… mas acredite em mim! Por favor Sarah… eu te peço, eu… eu te imploro, confie em mim, me deixe te ajudar! Eu posso, eu sei que posso, mas eu preciso que você confie em mim! Acredite em mim, eu só quero fazer algo por você… Confie em mim…
Jacob deixou de encarar os olhos dela e abaixou a cabeça, tentando conter o arranhar de sua garganta. Ele deixou que sua cabeça pendesse até cair na barriga dela.
_ Confie em mim… — Ele disse mais uma vez, nunca sentindo tanta necessidade de ouvir um sim. Mais do que isto, ele queria merecer aquele sim, queria ser útil porque ele simplesmente precisava que ela ficasse bem. E ele faria tudo pra isto… mas ela precisava confiar…
Sarah nada disse, Jacob sentia a respiração lenta dela, que não era calma, apenas conseqüência da dopagem que ela se sujeitou. Ele não tinha coragem de erguer os olhos e ter que encarar uma recusa, pois aquela recusa não prejudicaria somente ele, mas Sarah principalmente.
Demorou, mas Jacob sentiu mãos trêmulas e quase frias tocaram delicadamente sua cabeça. Ele respirou fundo e ergueu-se, voltando a encarar Sarah… Ela o olhou por um instante e depois fechou os olhos. Respirou fundo, soltou o ar de forma irregular, com fortes solavancos no peito. O movimento que ela fez a seguir foi lento, mas claro. Sarah balançou a cabeça para cima e para baixo, em um sinal de afirmação, depois apertou a mandíbula para conter um novo tremor de seu queixo.
Sim, ela estava deixando-se nas mãos de Jacob, ela havia aceitado. Ela confiaria nele.
Jacob não precisou de mais, logo voltou a circundar o corpo de Sarah com seus braços para poder erguê-la do sofá. Sarah sentiu que ele a segurava firmemente e com delicadeza. Ela se sentia uma criança sendo abrigada nos braços de um adulto amoroso e condolente. Pensou que se sentiria desconfortável naquela posição, mas não. Ele lhe cheirava os cabelos e andava lentamente, seus passos ainda mais cuidadosos, ele não queria que ela sentisse a brusquidão de movimentos.
Sarah queria perguntar o que ele faria, pra onde ele a levaria e se ele seria capaz de tirar de dentro dela o que nem o tempo, nem uma vingança e tampouco a dopagem de remédios e bebida conseguiram tirar. A dor, o trauma.
Algo insistente martelava na cabeça dela, como um medo algoz, gritava ao fundo de sua mente: “ele é homem, ele também deseja… ele é controlado pelo desejo… ele vai te querer desta forma…”. Nestes momentos um calafrio tomava conta de seu corpo e ela estremecia, tentava retrucar para seu inconsciente: “Não… não… eu confio…” Repetia isto, mas ainda se sentia fraca pra lutar com a imensidão oculta de sua mente.
Porém, cada vez que Sarah estremecia, Jacob a envolvia ainda mais terno e pedia novamente:
_Confie em mim… — Como se soubesse que para ela, aquela certeza era vital.
Um vazio e desproteção repentina aconteceram quando Sarah se sentiu longe do calor envolvente, com suas costas encontrando com algo frio e rígido demais. Abriu os olhos de repente e reconheceu, novamente, seu próprio banheiro. Mas e Jacob? Ele havia a deixado?
Não, logo Sarah sentiu as mãos dele em seu rosto, então o distinguiu em meio ao borrão de sua visão embaçada.
_ Você precisa de um banho… Vai melhorar este seu estado. – Ele dizia, a voz baixinha e com a rouquidão que tinha tanto o poder de ser sombria, como de ser aconchegante e envolvente. Sarah confundia em sua cabeça estas duas características da voz. Ela piscou e continuou a olhar pra ele apaticamente.
Jacob se levantou e ligou o chuveiro, queria não ter que causar qualquer desconforto a Sarah, que estava sentada inseguramente no chão do banheiro. Mas a água, para despertá-la, teria de ser fria.
Ele foi então em direção a ela, se ajoelhando a sua frente. Seria a segunda vez que ele faria aquilo, mas a diferença era que, naquele momento, ela estava acordada. Ele respirou fundo e olhou para os olhos inertes de Sarah. Entristeceu-se com o que via. Ele queria ser detentor de alguma magia que desse um brilho de felicidade que retirasse as sombras dos olhos dela.
Delicadamente, e sem quebrar por um segundo sequer o contato visual, Jacob começou a retirar a blusa suja de Sarah. Porém ela não reagiu bem aquele movimento. Jacob vislumbrou os últimos resquícios de resistência nela. Sarah debateu as pernas tentando se afastar e levou as mãos rapidamente para cima das de Jacob, empurrando-as, dizendo um assustado…
_ Não!
Ele ergueu as mãos acima e mostrou o fato de que não queria forçá-la. Ela continuou a encará-lo desconfiada, perecendo querer se enterrar na parede para fugir. Paciência, muita paciência era o que Jacob sabia ser necessário.
_ Eu não vou fazer nada com você… — Ele disse, ainda com olhar fixo nos olhos dela. Abaixou a mão delicadamente, fazendo questão de demonstrar a ela cada mínimo detalhe de seu gesto. Tocou o seu rosto e acariciou levemente. Sarah pareceu relaxar um pouco, ao menos parou de se afastar. – Você precisa de um banho, sua roupa está suja, é preciso retirá-la… só isto.
Jacob percebeu ela prender a respiração tensamente. Acariciou com dedos suaves a linha da mandíbula dela, enquanto torcia pra que conseguisse convencê-la.
_ Eu não vou fazer nada com você Sarah. Nada de ruim. Eu só vou cuidar de você. Me deixe fazer isto… só por hoje. Eu prometo que não vou deixar seus olhos, não vou olhar para nada além dos seus olhos, só eles me interessam. Confia em mim? – Jacob continuava em sua prece para que ela aceitasse, mas na verdade esperava uma recusa.
Por isto se surpreendeu quando, mais uma vez, ela afirmou com a cabeça, abrindo mais os olhos e fixando-os nele. Ele sorriu suavemente. Daquele momento em diante Jacob cumpriu a risca sua promessa. Nada mais lhe interessou além daquelas órbitas castanhas e profundas. Enquanto ele retirava a roupa dela, sem ver, apenas por reflexo, percebia que havia uma linha muito escura que circundava as pupilas dela. Era quase negra. Esta linha ela mais clara ao redor da íris, um marrom café que se desfazia pra dentro da íris clareando em reflexos de um castanho brilhante, era como uma terra encobrindo ouro. O brilho dourado conseguia passar por sobre a sobriedade do marrom e iluminar de forma singular uma cor tão fechada.
Sarah se sentia tragada pra dentro de um espírito profundo e insondável q ue eram os olhos de Jacob. Era quente lá, havia um calor que causava um aconchego que fazia formigar as bochechas. Mergulhada nos olhos dele e vendo ele tão concentrado em seu próprio olhar, as mãos dele mantendo seu corpo completamente nu em baixo da água fria ficaram em segundo plano.
Aos poucos suas terminações nervosas voltavam a se conectar mais rapidamente, seus sentidos se aguçavam novamente, mas seus músculos continuavam desobedientes e moles demais. Ela conseguia firmar seus pés no chão, mas suas pernas tremiam.
Ele a tirou da água, sua roupa molhada por ter ficado com ela praticamente dentro do chuveiro. Mas aquilo não importava. Ele pegou a toalha grande e branca e jogou por cima do corpo dela e a secou. Só deixou de ver os olhos de Sarah quanto colocou a toalha na cabeça dela para secar os cabelos compridos, esfregando levemente.
Jacob sentiu sua tensão aliviar quando percebeu um riso fraco vir por baixo da toalha. Ele retirou a toalha da cabeça de Sarah e um emaranhado de cabelos escondiam o rosto dela. Ela ajudou, com movimentos lentos, ele reordenar um pouco os seus cabelos. Juntos eles livraram o rosto dela dos fios longos e embrenhados. Seus olhos puderam se encontrar novamente, mas os dela continuavam sombrios e tristes.
Ele a enrolou na toalha e ofereceu sua mão. Sarah abaixou os olhos e ficou encarando a mão direita de Jacob, sem ter certeza do que aquele gesto significava. Elevou sua mão e a encaixou na dele e ficou observando os dedos dele cobrirem sua mão, a envolvendo quase totalmente, como uma lagarta num casulo.
Ele a guiou para o quarto, para a cadeira em frente a sua penteadeira, com um belo espelho. Sarah se deixou sentar e quando se olhou no espelho percebeu que somente uma toalha ocultava sua nudez de Jacob. Procurou o olhar dele e, mesmo pelo espelho, ele só mirava seus olhos. Seu ventre estremeceu com aquele olhar e não foi de medo.
Ela teve que sorrir com o que ele se prestou a fazer. Jacob pegou a escova que estava no móvel e passou a pentear seus cabelos, como se ela fosse uma criança que não soubesse fazer isto. Ela tentou pegar a escova para fazer sozinha, seus movimentos ainda estavam muito lentos, mas ela seria capaz de dar conta daquilo. Mas Jacob pegou sua mão e a pôs de volta no colo, fazendo um gesto negativo com o indicador. Sarah abaixou a cabeça e deixou que ele continuasse a penteá-la. Penteá-la com carinho… cuidado… nada mais do que isto.
Ela tentou segurar, mas a gota salgada escapou de seus olhos antes que ela pudesse contê-la. Abaixou ainda mais a cabeça para que Jacob não visse. Mas os movimentos da escova só pararam momentos mais tarde, quando ele disse:
_ Vem… — Já a pegando nos braços e a erguendo sem que ela sequer raciocinasse.
Jacob a deitou na cama e ficou alguns minutos acariciando sua cabeça. A respiração dela voltava ao padrão de repouso, seus olhos começavam a se fechar e sua pulsação a se normalizar. O corpo dela, em sua mágica capacidade regenerativa, já se recuperava por si só dos efeitos das drogas tomadas.
Os olhos melancólicos finalmente se fecharam. Jacob se levantou da beirada da cama, se afastando dela, rumo a seu quarto. Um passo na frente do outro ele se direcionou para a porta, sentindo que mesmo ali, naquele quarto, era um lugar muito frio para deixá-la sozinha. Abriu a porta ainda pesaroso, mas então ouviu a voz fraca e sonolenta chamar…
_ Jake… Jake… — Ah! Aquele chamado tão delicado… sentiu seu coração disparar ao ouvir o seu nome ser chamado daquela forma por ela. “Jake”, mas do que um apelido, aquela era uma forma tão mais íntima, tão mais carinhosa de se dirigir a ele.
Jacob largou a porta e em um instante estava ao lado dela novamente.
_ Eu estou aqui… — Ele murmurou, levando os dedos automaticamente para o rosto dela.
_ Fica Jake… fica comigo… fica aqui… – Ela falava com voz trêmula, a fragilidade ainda mais evidente.
_ Eu fico, eu fico. – Era o mínimo que ele podia fazer: atender o pedido dela. Se levantou e retirou a roupa molhada. Para não ter que se afastar demais, correu ao banheiro em busca de um roupão.
_ Jake… Jacob… — Ela sussurrava.
_ Estou indo. – Ele respondeu, já se deitando ao lado dela na cama.
Jacob a puxou para si, fazendo-a aconchegar-se em seu peito. Ela o envolveu com os braços e apertou-o com a força que lhe restava. O tremor do peito dela chegava a sacudir Jacob e ele tentava enroscá-la mais em seus braços.
_ Estou aqui… — Ele disse novamente. – Nada de ruim vai acontecer… acabou Sarah, ficou no passado, não vai mais acontecer…
Um gemido esganiçado saiu dela, ela fincou as unhas nele e rangeu os dentes, sua respiração começou a ficar presa. Ela estava se contendo, tentando segurar o descontrole dentro de si mais uma vez.
_ Deixe isto sair de você Sarah. Chore, grite. Só eu vou escutar. Chore…
E aquilo foi como o quebrar de correntes pesadas que a aprisionavam. Um choro doído se libertou dela, choro que fazia seu corpo se sacudir e mesmo com Jacob a segurando firme, ele sacudia também. As lágrimas caíram, finalmente, livres por seus olhos, molhando o roupão branco que Jacob havia encontrado nos armários.
_ Nããããooo.... – Ela gritava enquanto soluçava e chorava. E a cada grito era como se uma estaca se enfiasse no peito de Jacob o quebrando por dentro.
_ Ahhhhh... Eu não queriaaa.... – E doía nele aquele lamento. Ele a apertava procurando também se conter, mas não pode. O choro e o desabafo dela o tocaram de forma tão absoluta que ele nem teve consciência de quando seus sentimentos se misturaram aos dela.
Abraçado a Sarah, enquanto ela se desmanchava em lágrimas e gritos, ele também chorou. Dividiu com ela o pranto e deixou a dor, antes oculta, se esvair em lágrimas.
_ Vai acabar… — Ele conseguia murmurar.
_ Ah… a-ah… Jake-eeee… doeu… — Eram as lamúrias soluçantes dela, a mulher que havia voltado a ser a garota de anos atrás.
_ Eu estou aqui… vai passar… — Consolava, tentando controlar seu próprio soluçar.
Não queria saber mais nada além do que havia ouvido ela contar no hospital e do que estava ouvindo em suas frases soltas durante o pranto. O que importava era que ela se livrasse daquilo, que se refizesse.
Ela chorou, chorou tanto que sentia seu peito murchar se esvaziando de um conteúdo amargo e torturante que a preenchia. Aquilo parecia a deixar ainda mais fraca, pois ela perecia sentir que as lágrimas sugavam suas forças. Mas não parou. Chorou, gritou, libertou sua chaga em choro nos braços de Jacob Black… no colo de Jake…
http://www.youtube.com/watch?v=PPuB13oZ558&feature=fvwrel
“[…] só no momento em que eles confiarem um no outro é que
o amor entre ambos ultrapassará as barreiras que os impede de
serem verdadeiramente felizes juntos[…]”
(Clau, comentário 19/01/2012)
Notas finais
Por isto, falem, comentem, perguntem... como se estivessem uma conversa... Eu amo isto!
Bjs e mais bjs e até breve!
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