The Precious Blood
25 DESPERTAR
Notas iniciais
Mais um cap...
“Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos,
à ira, ao pior julgamento.
Repara, ela renasce e brota nova rosa.
Atravessou a história, foi queimada viva,
Acusada desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada.
Retorna inteira, maior, mais larga
Absolutamente poderosa.”
Eram três horas da tarde. Como raras vezes acontecia naquela parte do mundo, não chovia em La Push. O sol tentava se infiltrar em meio a pesadas nuvens, vez ou outra um raio clareava o tempo que era quase sempre fechado.
Jacob olhava da cama um raio de sol entrar no quarto, iluminando a pele exposta do corpo moreno e feminino. O raio não chegava a ser quente, mas já fazia a pele de Sarah resplandecer.
Ela dormia um sono exausto há mais de treze horas, ele não ousou acordá-la. Saiu da cama apenas a alguns momentos, para atender ao telefone em seu quarto.
_ Você a encontrou? – Leah lhe perguntara do outro lado da linha.
_ Sim… — Jacob havia respondido simplesmente, com notável alívio.
_ E está tudo bem?
_ Vai ficar Leah, vai ficar.
_ Eu sei que vai Jacob!
Jacob respirou fundo novamente, jamais havia ouvido um choro tão pesado como ouviu o de Sarah. Ela chorou por um bom tempo naquela noite, pegando no sono por volta das duas da manhã, mas ainda suspirava vez ou outra durante um tempo. Até que ela parou, voltando a respirar profundamente em um sono mais tranquilo. Foi só aí que Jacob conseguiu dormir, com o dia quase amanhecendo. Agora ela estava ali, agarrada a ele, com o semblante sereno, encolhida no abraço que ele não ousava afrouxar.
Assim ela acordou pouco tempo depois. Demorou a abrir os olhos. Sarah sentia o que jamais sentiu ao despertar: o peso de um braço lhe envolvendo a cintura, um peito macio ao qual se recostava. Sua cabeça subia e descia suavemente com o movimento da respiração profunda de Jacob. Ela ainda sentia suas pernas próximas às dele, quase entrelaçadas.
A noite anterior lhe veio em cada mínimo detalhe em sua cabeça. Ela esperou que sucumbisse aos fatos turbulentos, mas ao invés disso, Sarah só sentiu um cansaço entorpecente. E se lembrava também de Jacob, da voz dele, de seus olhos, de seu cuidado. Ela estava ali, ainda enrolada somente em uma toalha, mas a única coisa que conseguia sentir era conforto. Sentia que depois de tudo o que passou, não haveria lugar melhor para estar.
Sarah jamais compartilharia com outra pessoa a história de seu trauma. Mas agora Jacob sabia, ele que testemunhou toda a sua fraqueza. Não havia nenhuma máscara que ela pudesse manter diante dele… e nenhuma resistência.
Ele estava acordado, ela sabia, mas completamente silencioso, vez ou outra acariciando sua cabeça. Uma certa cumplicidade nascia ali, ela não tinha certeza se queria falar sobre o que havia passado, mas se falasse, Jacob seria seu confidente.
Abriu os olhos, vislumbrando os raios de sol que iluminavam o quarto. Um feixe de luz dançava na frente de seus olhos, ela levantou a mão e colocou na luz que, perto do calor da pele de Jacob, era fria.
_ Dizem que é bom aproveitar os dias de sol para sair. Eles não são muito duráveis por aqui. – Jacob falou, não mudando sua posição na cama.
Sarah somente sorriu, logo depois bocejou, mexendo o corpo suavemente para se espreguiçar. Sentiu que sua toalha havia se desprendido, sua face esquentou. Ela ergueu a cabeça envergonhada, observando as linhas que desenhavam o pescoço de Jacob. Ele havia se vestido: uma bermuda, uma camiseta de algodão. Ela o encarou, tendo medo de se levantar e derrubar a toalha.
Mas ele grudou seus olhos nos dela e ela sabia: ele não olharia para mais nada. Ele soltou os braços de sua volta e, lentamente, ela se levantou e arrumou a tolha em volta do corpo.
_ Bom dia… — Ela finalmente disse. Sua voz estava rouca, sua garganta seca. Ela abaixou os olhos e se sentou na cama. Sarah não sabia muito bem como reagir. Ela estava dando bom dia pra alguém que acordou com ela… na cama dela.
_ Acho que seria boa tarde… — Ele disse, levemente.
_ Sério? – Ela tentou dizer, mas a rouquidão era tanta que saiu só um vento de sua garganta. Ela tossiu discretamente.
_ Deve ser quatro horas agora…
Ela arregalou os olhos.
_ Dormi demais… — Sussurrou, coçando os olhos e voltando a bocejar. Propositalmente ela deixou que seus cabelos longos fossem pra frente de seu colo, o cobrindo.
_ Eu acho que não… Você precisava.
Jacob observava ela se encolher ao seu lado, ficou com receio do que ela pudesse pensar, de como reagiria. Fez menção de se levantar, mas o reflexo de Sarah foi imediato e inesperado. Ela lhe segurou a mão.
_ O que foi? – Ele perguntou, mas ela estava com a cabeça baixa.
_ Você ficou? O tempo todo? – A voz estava contida, tímida.
_ Você pediu… eu fiquei… — Jacob viu a graça daquela mulher, que ele sempre concebia tão imponente e segura de si, ao se encolher enrubescida.
_ Por que você ficou? – Ela perguntou, ainda mais baixo, com o coração a acelerar.
_ Porque você precisava… — ele soprou enquanto levava os dedos para erguer a cabeça dela no nível da sua. — …e porque eu queria… eu precisava.
Sarah sentiu um estranho formigamento no queixo, lugar que ele sustentava sua cabeça.
_ Precisava? – Ela perguntou, olhando pra ele.
Jacob sorriu, fechando os olhos por um momento. Os dedos dele começaram a fazer leves movimentos no rosto dela. Sarah pendeu a cabeça de lado na mão dele, esperando a resposta.
_ Lhe ver bem… só isto! Eu precisava que você ficasse bem.
Sarah sentiu o peito embargar, não sabia o que dizer diante daquela resposta. Ela colocou sua mão sobre a dele em seu rosto e a apertou. Logo depois levou a palma quente aos lábios, depositando lá um beijo demoradamente terno.
_ Obrigada… — Disse. Jacob voltou a sorrir condolente. – Me perdoe… — Ela sussurrou logo depois.
_ Pelo que?
_ Eu te julguei mal… muito mal… você é melhor do que eu pensava.
_ Isto foi um elogio? Se você quer saber não acho que isto seja algo para se pedir perdão… Porque eu também me julguei mal… mas eu não estou livre de defeitos… graves. – Jacob falou a última frase colocando uma tensão exagerada na voz. Sarah riu.
_ Ninguém está livre disto.
Eles ficaram em silêncio por um momento, Sarah ainda com a cabeça pendida na mão de Jacob e ele lhe acariciando o rosto com os dedos.
_ Eu vou descer. Preparo algo pra gente comer, enquanto você se arruma. – Ele foi sutil ao dizer “se arruma” ao invés de “se veste”, afinal ela estava praticamente nua. Sarah percebeu aquilo e, sorrindo, apenas afirmou com a cabeça.
Dedo a dedo Jacob tirou sua mão da face dela, sem pressa alguma pra concluir o movimento. Ele se levantou e Sarah ergueu a cabeça para poder mirar a altura dele. Mas ainda assim, ela não conseguia vislumbrar um homem ameaçador e gélido como via há algum tempo. Os olhos dele haviam alcançado um brilho cálido e acolhedor, seu semblante, sempre tão tenso, estava terno naquele momento.
Ele voltou a se inclinar para ela antes de virar as costas, lhe depositando um beijo na testa.
_ Fique bem garotinha… — Ele lhe sussurrou, com uma voz levemente risonha. – Você tem o calor de meu abraço para se refazer…
E saiu, sem dizer mais nada. Mas aquela frase, exatamente a mesma frase que ela disse a Amanda, fez Sarah sentir a emoção lhe dominar novamente. Ele havia dito “meu abraço”… Suas pernas fraquejaram e ela agradeceu estar sentada na cama, caso contrário teria caído no chão. Ela chorou novamente, desta vez um choro suave e meramente emocionado.
_ Ah Jake… — Ela disse, abrindo um sorriso apertado em meio às lágrimas, que lhe caiam lentas.
Durante um tempo ela se permitiu deitar novamente, apenas digerindo suas emoções, pensando mais claramente no que faria dali em diante. Sarah sentia que algo havia se desprendido de si, em um cassar penoso. Era como uma chaga que lhe foi arrancada do peito. Ela já havia se acostumado a viver com aquele cilício e a ausência dele dentro de si trazia um relaxamento dolorido, uma leveza vazia e inóspita.
Ela se levantou e caminhou para a sacada iluminada pelo sol, deixando que os raios fracos banhassem seu corpo e lhe secasse as lágrimas do rosto. No andar de baixo, Jacob se movia silencioso, atento a cada vão suspiro que ela dava.
Quando Sarah desceu, havia sobre a mesa da cozinha comidas leves e cheirosas. Torradas, geléia, panquecas, ovos, iogurte, mel…
_ Há quanto tempo você não come? – Ele lhe perguntou, sentado na mesa de braços cruzados.
_ Não me lembro… — Ela disse, com a voz mais firme, menos falhada.
_ Pois é bom que você coma bem então! – Ele disse autoritário, mas abrindo um sorriso espontâneo logo depois.
_ Certo! – Ela disse, batendo continência.
Mas logo que ela pôs as panquecas na boca parou, apertando os lábios risonha.
_ O que foi? Está tão ruim assim? – Jacob parou de comer e perguntou.
_ Ou estas são as mesmas panquecas de Niadhi, ou as panquecas de Niadhi sempre foram as tuas. – Ela disse. Jacob sorriu tímido, abaixando os olhos. Ele se lembrou de que ocasião ela estava falando.
Há meses, quando ela sofrera aquela visão perturbadora, ele havia cozinhado e dito que foi Niadhi. Sarah tinha um paladar refinado e uma excelente memória, o gosto daquelas panquecas não lhe foi esquecido.
_ Você já fez isto antes. – Sarah afirmou, tinha agora a certeza absoluta que ele já havia cuidado dela com tanto zelo quanto demonstrou naquela noite. – Por mim…
Jacob desfez o riso e a olhou sério, sem nada dizer.
_ Eu lhe crucifiquei tanto… lhe julguei tanto…
_ Você pensava que eu era um monstro. – Jacob disse baixo, remexendo a generosa porção de ovos com bacon em seu prato. – Talvez porque eu me aproximei muito de ser um.
_ Porque Jacob? O que lhe fez ficar assim?
_ Não importa… não mais. – Ele trincou o maxilar e virou o rosto.
Sarah se levantou e foi até ele, não tendo mais receio de pegar em seu rosto e fazer com que ele a olhasse.
_ Confie em mim? – Ela disse. Jacob sorriu.
_ Rejeição. Foi isto que aconteceu. Eu depositei tudo em algo que não valeu à pena. A ingratidão foi o que eu recebi de volta.
_ Você depositou tudo em algo… ou em alguém? – Ela perguntou cautelosa. Uma sombra passou pelos olhos dele. Jacob apertou os olhos.
_ Eu pensei que ela fosse tudo. Então eu fui inteiro para ela. Me perdi nela…
_ E quando ela te recusou, tudo que você era ficou nela?
_ Talvez… — Ele murmurou.
Sarah respirou fundo, tirando as mãos do rosto dele e se sentando novamente. Tomou um gole de suco fresco para acalmar a impaciente inconstância de seu coração.
_ Não, não ficou nela Jacob. Talvez a tua visão tenha sido rasa demais. Você tinha medo de ir mais fundo, de encontrar o que havia lá… se mais dor ou que simplesmente você poderia viver sem ela.
Jacob ficou silencioso, remexendo-se inquietamente na cadeira.
_ O que você passou a ser não é tão incompreensível assim. Eu bem sei que é muito mais fácil ficar de mal com o mundo, ao invés de sorrir, quando sentimos que tudo que fazia sentido pra nós acabou. – Sarah soltou um suspiro e voltou a atenção as suas panquecas.
Jacob enfiou duas garfadas de ovos na boca e mastigou sem vontade alguma. Olhou para Sarah comendo de cabeça baixa. Ela não parecia muito incomodada por ter descoberto algo sobre uma “ex” dele. Ele franziu o cenho. Mas que idiota ele era, aquela mulher estava passando por um furacão de emoções e ficaria preocupada com suas paixões frustradas?
_ Eu também tive um amor assim. – Ela disse de repente. Jacob parou de mastigar, seus músculos travaram, sua pulsação acelerou e sua visão se turvou. Ela havia dito que teve um amor…? — Pra mim este amor era tudo… e continua sendo, não importa o que nos separa. Eu nunca fui rejeitada, mas imagino que se em algum momento tivesse sido, eu não suportaria. Eu agüentaria qualquer coisa, menos isto. – Jacob engoliu o bolo de alimento, fazendo este passar cortando em sua garganta fechada. Ela amou… ela ainda amava… outro?
_ Como? – Ele soltou engasgado. Só então Sarah ergueu a cabeça e encarou Jacob. Ela não entendeu inicialmente a expressão pasma dele. – Digo… quem … quem é? – Ele perguntou, meio que tossindo, desviando o olhar dela. Então ela compreendeu a confusão que ele estava fazendo com seus dizeres.
Sorriu e balançou a cabeça.
_ Jacob… — Ela disse suave. – Não existe só um tipo de amor pelo qual vale a pena depositar sua vida sabe? – Ele lhe olhou confuso. – O maior amor da minha vida sempre foi minha mãe. E eu sempre a amei de uma maneira que eu não sei ao menos explicar, e ela também me amou desta forma, eu sei. Mas se não tivesse sido assim, se ela tivesse me rejeitado em algum momento, então eu seria… eu seria…
_ Descrente, amargurada e infeliz? – Jacob soltou aquelas palavras juntamente com sua respiração, que ficou pressa por todo aquele momento. Mas é claro, ela só poderia estar falando de sua mãe. Se havia algo evidente sobre os sentimentos daquela mulher, era a quase devoção que ela tinha por sua progenitora.
_ Sim. – Ela respondeu, franzindo o cenho. Ela soltou outro suspiro.
Os passos suaves dele chegaram até ela. Jacob se agachou a sua frente e acariciou com os dedos as rugas de seu cenho franzido até que elas se desfizessem.
_ Isto não é pra você. – Ele disse, se referindo à expressão da moça. — Você fica bem melhor com um rosto sapeca do que com um rosto triste. – Sarah sorriu levemente. – Como você está? – Ele sussurrou pra ela, cuidadoso, como se temesse tocar em algo delicado demais.
_ Eu não sei bem… meio que com um buraco aqui dentro. – Ela disse, esfregando o peito.
_ Me promete uma coisa?
_ O que? – Ela ergueu os olhos pra ele.
_ Eu preciso sair, reunião com a matilha. Me prometa que eu não vou precisar te encontrar daquele jeito de novo, Sarah. Me prometa que você vai se manter bem.
_ Eu não vou tentar me matar. Não dá muito certo.
_ Não brinque com isto. – Ele lhe acariciou os cabelos. – Não pense em nada que vá lhe fazer mal. Apenas fique bem.
Os rostos deles estavam próximos, suas respirações se cruzando. Ela via nele uma necessidade absurda ao lhe pedir aquilo.
_ Tudo bem. – Ela respondeu pacífica.
Jacob sorriu e se levantou, andando de costas até sair da cozinha e deixá-la sozinha. Ela escutou os passos dele saírem da casa, atravessarem o portão, entrar em contado com o chão irregular da estradinha que circundava o imóvel e então não ouviu mais nada. Estava sozinha, ou nem tanto. A lembrança de uma voz rouca e suave lhe fazia cócegas enquanto se alimentava, a recordação de um calor lhe envolvia enquanto arrumava a casa, a negritude incompreensivelmente segura de um olhar fazia-a mais firme diante dos estremecimentos que vez ou outra lhe acometiam.
Assim ela passou o dia, caminhando pela casa com suas inconstâncias, no seu dia de ressaca da sua loucura dolorosa e embriagante. Sentia que era aquele um novo marco, um novo começo. Novamente ela havia feito uma escolha, seguiria em frente, continuaria. Mas ao contrário das outras vezes, o cheiro remoto de uma flor lhe guiava os sentidos. Era uma flor que poucas vezes ela vislumbrava e, por isto, não recordava de onde ela era e que espécie de efeito causava.
Mas aquela era a flor que alguns costumam chamar de esperança. Ela se encontra na beirada de precipícios cinzentos. É uma flor colorida, de uma beleza rara com cheiro doce de recompensa, de reciprocidade e notas frescas de alegria. Guiar-se pelo seu aroma dava a sensação de que ela encontraria logo a razão de ser, de crer, de seguir vivendo…
****************
Há tempos eles não se reuniam para uma reunião com seu Alpha sem estarem transformados. Nestas ocasiões, Jacob costumava ter o controle da matilha observando seus pensamentos, por isto as reuniões eram sempre com todos transformados. Mas naquele dia estavam todos sentados, em sua forma humana, no chão em uma área remota da praia de La Push, em um lugar cercado por grandes pedras que dificultava o acesso de humanos. Jacob estava em pé, recostado em uma pedra falando mais calmamente que o comum.
_ Estes projetos de vampiros estão me irritando já! Nunca vi uma proliferação tão grande por estas bandas desde … desde o problema de alguns anos atrás. – Jared dizia, ocultando um fato particular da vida de Jacob.
_ Desde que a vampira ruiva estava montando um exército, você quer dizer. – Leah completou, os pescoços se voltaram para Jacob quando ela disse aquilo. Ele não esboçou nenhuma reação agressiva, mais uma vez surpreendendo os lobos.
_ Definitivamente não é um exercito. Mas meu faro diz que tem alguém por trás disto. – Jacob simplesmente disse.
_ Alguém? Como assim alguém? Você acha que tem alguém interessado em acabar com a matilha? – Seth perguntou, deixando os cabelos de todos ali em pé.
_ Acabar com a matilha com o que? Com um bando de sanguessugas inexperientes, presa fácil para nós? Bom este alguém é imbecil, só está nos garantindo diversão. – Caleb disse.
_ Foram dez humanos mortos durante estes ataques. Isto não é muito divertido Caleb. – Jacob advertiu, porém nem tão brusco. – E também acho que se for alguém interessado em nós, ele é muito mais esperto do que imaginamos. Este alguém, que nos oferece um banquete de sanguessugas, pode estar agora extremamente ciente de como agimos.
_ Jacob, você está suspeitando que tem um sanguessuga espertalhão nos vigiando? – Paul disse, engolindo em seco.
_ É mais uma sensação minha. Não vamos fazer alarde a ninguém por enquanto. Vamos continuar agindo como estamos.
_ Mas Jacob, nós estamos em ronda por toda a redondeza. Como alguém poderia nos ver sem que o percebêssemos? – Leah questionou, todos afirmaram com a cabeça.
Jacob obscureceu o olhar.
_ Não sei. Só sei que o tempo não é pra ficarmos relaxados demais. Aumentem os sentidos de alerta. Não estou com uma boa sensação, definitivamente. – O grupo ficou tenso. – Além do mais, Collin captou um rastro estranho ao norte de Forks estes dias. – Todos olharam pra Collin.
_ Foi numa ronda minha. O Jacob estava junto, mas nós não encontramos nada e logo o cheiro desapareceu. Era estranho porque era meio acre, meio doce, lembrava o dos vampiros, mas nem tanto. Tinha algo de mais repugnante, parecendo enxofre.
_ Só que mais a frente, nós encontramos o corpo de uma humana. E o cheiro de dois sanguessugas. Um era aquele que pegamos no outro dia, o velho de cabeça branca. O outro nunca mais deixou rastro por aqui. Não o pegamos. – Jacob completou.
_ Algo que eu não entendi. Por que um vampiro transformaria um velho de quase oitenta anos? – Embry perguntou.
_ Nada está fazendo sentido nesta coisa toda.
_ Teremos mais companheiros na matilha em breve. – Jacob soltou.
_É mesmo?
_ Quem?
_ Já começou o processo?
_ Da onde?
_ Pra quando é?
Uma avalanche de perguntas começou e só pararam quando Jacob deu um grito pedindo silêncio.
_ Não consigo responder 50 perguntas por segundo, merda! – Ele disse. – Na verdade, eu sei que isto vai acontecer. Não me perguntem como eu sei, porque eu não sei como eu sei. Só sei que sei.
_ Nossa, muito claro isto. – Paul ralhou. Jacob catou uma pedrinha a seu lado e, muito rápido, tacou no cunhado, acertando sua cabeça.
_ EI! — Ele gritou.
_ Isto é pra você deixar de ser idiota. – Jacob disse carrancudo.
_ Putz! Então vai precisar de muita pedra Jacob, porque este seu cunhado… — Leah disse sarcástica.
_ Lá vem a mulher loba mais purgante do universo! – Paul respondeu por baixo do fôlego, enquanto esfregava sua recém formada cicatriz na testa.
_ Acho melhor você calar a boca Paul! — Embry advertiu. – Ou a próxima coisa que vai parar na sua cabeça é meu punho fechado.
_ Ok, chega! Temos coisas mais importantes do que isto pra discutir. – Jacob chamou a atenção novamente. Eles voltaram a ficar quietos, embora Paul ainda resmungasse uma coisa ou outra_ Nós vamos manter as rondas como estão e…
_ Não seria melhor partir pra ação, tipo “alerta vermelho”? – Quil interrompeu Jacob. O Alpha olhou para o irmão erguendo a sobrancelha. Quil se arrependeu do que disse, nunca era bom interromper Jacob em um discurso.
_ Não Quil. Se tem alguém realmente de olho em nós ou não, não é bom mostrar tudo que sabemos pra ele… Acho que não poderemos acabar com a proliferação de vampiros por enquanto. Então, por agora, vamos ficar estagnados, se for o planejamento de alguém, uma hora ele se cansa e mostra as caras, tentando algo mais ousado.
_ Hãã... ok… certo. – Quil respondeu um tanto boquiaberto. Ninguém ali esperava que Jacob simplesmente respondesse a pergunta intrometida de Quil, mas sim que ele desse uma bronca e continuasse com suas ordens sem justificar coisa alguma. Seria o normal para o Alpha mal humorado, mas os lobos percebiam e sentiam nos pensamentos de Jacob a mudança de suas atitudes e sentimentos. De todos ali, só Leah não se surpreendia mais.
_ O que temos que nos preocupar é em rastrear estes sanguessugas novos o mais rápido possível, para que eles não cheguem aos humanos e causem ainda mais estragos. – Jacob completou.
_ É, a polícia já tá toda alvoroçada. O chefe Swan ainda se lembra dos ataques de anos atrás. Estão querendo sair por aí caçando ursos gigantes de novo. – Seth contou mais precisamente a Jacob. Este respirou fundo e olhou para ele.
_ Vamos precisar da sua mãe Seth, Leah. – Ele disse.
_ O que? Minha mãe? Pra que? – Leah desencostou-se do corpo de Embry, enrijecendo os músculos das costas. Seth olhava para Jacob com cara completamente confusa.
_ Ela é a que tem melhor relação com Charlie ainda. Precisamos de alguém que o convença que nós arrumamos um grupo de caça que pode cuidar disto. Não quero mais ninguém metido nestas florestas por aí. – Jacob falou com olhos baixos.
_ Acho que é melhor você mandar o TEU pai de bode expiatório Jacob Black. Porque minha mãe não tem mais nada a ver com aquele velhote! – Leah respondeu exaltada. Jacob bufou.
_ Eu não afirmaria isto com tanta certeza Leah. As relações da família Black com Charlie estão distanciadas, mas nem por isto eu deixo de saber o que acontece com o chefe policial de Forks. Acredite em mim, sua mãe é a melhor pessoa para isto.
_ Mas que merda você está dizendo Jacob? – Leah ralhou.
_ Como assim, minha mãe tá encontrando com o Charlie as escondidas? Mas que velha hein! – Seth disse risonho.
_ Cala a boca pirralho! – Leah voltou a ralhar. Ela sabia que Seth odiava quando ela ainda o chamava de pirralho. – E eu acho melhor você explicar direitinho esta história Jacob…
_ Chega Leah! Aqui não é lugar para discussões familiares. Sua mãe é membro do conselho e também tem a função de ajudar na proteção da tribo. – Leah calou-se a contragosto, engolindo em seco. Ela olhou ainda de cara fechada para Jacob. Ele sabia que a conversa não estava encerrada ali. Ele teria que enfrentar Leah mais tarde e, ainda por cima, dobrá-la para livrar a Dona Sue de uma briga com a filha. – Isto nós resolvemos mais tarde.
Jacob passou a dar as orientações para as rondas.
– Vou repetir de novo: enquanto estiverem em ronda não deixem que nenhum pensamento humano demais invadam a cabeça de vocês. Se os pensamentos de vocês estiverem guiados unicamente pelo instinto lupino o foco é maior, os sentidos são mais aguçados e o nosso senso de direção mais aprimorado. Caleb, você é o que mais se distrai. Você pensa na velocidade ainda com deslumbramento. É muito diferente e extasiante do que podemos ter em nosso corpo humano, mas em ronda, a velocidade de suas patas não pode ser um atrativo para o seu pensamento, muito menos para seus olhos. Foco. E não se esqueçam: nosso faro é o que mais ajuda nisto tudo, o principal.
_ Resumindo, nem pensar em lobos resfriados. – Caleb disse, rindo sozinho de sua própria piada. – Qual é? Isto foi até que engraçadinho… — Ele parou sem graça assim que a mal humorada Leah lhe fuzilou com o olhar.
_ Bom, os horários são os mesmos. Por hoje é só, podem ir. – Jacob finalizou.
Todos se levantaram, limpando as roupas sujas de areia e caminhando de volta para a aldeia. Por obra e graça era o começo da ronda de Leah, ela tinha que sair imediatamente. Jacob agradeceu por isto, não estava com cabeça para argumentar com ela, “a loba linha dura”.
_ Embry… Você pode ficar? – Jacob pediu inseguro. Tinha tomado coragem para dar corpo a idéia que há algum tempo matutava.
_ Eu? – Ele disse, apontando para o próprio peito, descrente. Leah voltou-se para Jacob com expressão interrogativa.
Jacob teve vontade de responder: “Você? Não, é claro que não. Estou falando da minha irmã, ela agora se chama Embry.” Mas ao invés disso…
_ Sim. Pode ou não? – Perguntou novamente.
_ Bom… eu… posso.
Ele colocou as mãos nos bolsos e ficou parado olhando para Jacob. Leah ficou ao lado do namorado, ainda com uma interrogação exigente nos olhos.
_ É só o Embry, Leah. Está na hora de sua ronda, pode ir. – Jacob lhe falou. A loba não pareceu ter gostado muito. Com uma careta ela se afastou.
Jacob olhou para o antigo melhor amigo sem graça. Por onde começar?
_ Eu ainda acho que você merece um troféu por amolecê-la. – Disse, apontando o lugar que Leah desapareceu. Foi a primeira coisa que conseguiu dizer. Um começo bem idiota. Mas funcionou: Embry sorriu, quase deu pra ouvir uma parede de gelo se trincar.
_ Às vezes é bem difícil mesmo. Acho que eu merecia um troféu sim…
Jacob balançou a cabeça. O ego de Embry continuava, como sempre, nas alturas.
_ Certo. Deixa ela escutar isto! – Jacob desafiou.
_ Ela pode escutar. Porque o troféu que eu mereço eu ganho: o sorriso dela… — Jacob ergueu as sobrancelhas. — Ok, antes que você diga alguma coisa, sim, ela também me deixa mole…
Os dois riram novamente. Outra rachadura na parede de gelo.
_ Eu sei como é… — Jacob pensou alto.
_ E eu sei que você sabe. Deixa eu pensar: experiências próprias com a doutora Black?
_ Pode ser que sim… — Ele respondeu a Embry, ainda mantendo um resquício de sua reserva habitual. Mas a resposta daquela pergunta era mais do que clara, era transparente.
_ É… bom, o que você… o que seria que… o que você queria me falar? – Embry perguntou gaguejando.
_ Você já arrumou um emprego Embry? – Jacob resolveu não enrolar mais. Foi direto em sua pergunta.
_ Bom, não um fixo, fixo… Ando fazendo contabilidade pra algumas lojas de Forks e da aldeia também. Mas são bicos, que se encaixam nos meus… horários. – Ele respondeu, estranhando a pergunta.
_ Sei. – Jacob falou pensativo.
_ Por quê?
_ Bom, é que… é… eu estive pensando que você poderia… — Agora foi a vez de Jacob gaguejar, fazendo Embry estranhar mais. Ele resolveu começar aquele assunto de outro jeito. – Como você sabe, eu também estou sem emprego. Só que eu não posso ficar assim muito tempo. Recebi uma proposta de uns chineses, antigos clientes da fabrica que eu trabalhava em Seattle, e resolvi investir em um negócio…
Jacob olhou para Embry e ele lhe mirava completamente confuso. Ele bufou e prosseguiu.
_ Eu não pensei nisto de primeira porque a área de Forks não é muito rentável para o ramo. E eu não queria me afastar de La Push para trabalhar de novo. Mas com a proposta dos chineses, é mais garantido de dar certo se eu abrir uma oficina especializada em tuning de carros. Só que, com a matilha, eu não posso dar conta de tudo em um negócio meu, então… eu precisaria de ajuda para isto… principalmente na parte burocrática… — Jacob parou de falar e deixou a frase solta, para que Embry captasse sua proposta embutida no discurso.
Este parou e franziu o cenho, logo depois colocou a mão no queixo e esfregou. A demora estava começando a irritar Jacob.
_ Você acaso está propondo que eu trabalhe com você? – Embry finalmente respondeu, parecendo incrédulo.
_ Não Embry… — A expressão de Embry ficou ainda mais confusa. – Na verdade, eu estou querendo lhe propor uma sociedade.
O queixo de Embry imediatamente caiu, seu coração dando um salto vertiginoso de espanto.
_ O que? – Agora sim, ele estava completamente incrédulo. Sua cara era a mesma de alguém que estava prestes a se beliscar para conferir se estava sonhando. – Mas eu não tenho um tustão pra isto! Não tenho nem onde cair morto… e o que eu entendo de carros são só as coisas que você e eu e o Quil fazíamos há anos na garagem da sua casa… digo da garagem da casa do Billy… E … e … como assim? – Ele falava como uma matraca.
_ Posso falar agora? – Jacob perguntou quando Embry parou pra tomar fôlego.
_ Pode…
_ Eu nunca tive despesas muito altas durante os anos que eu trabalhei em Seattle, exceto com roupas… — Embry maneou a cabeça, roupas eram sempre um problema para homens lobos, uma vez que eles estão em constante ameaça de arrebentá-las em uma transformação. – Enfim, a empresa pagava bem e deu pra juntar uma boa quantia, além do mais, meu acerto foi maior do que eu esperava. – Sim, a ameaça que Jacob fizera a Rick Manson surtiu bons lucros no pagamento de suas contas. – Eu também pretendo trocar meu carro por uma moto se precisar, é mais econômica e assim sobra um bom dinheiro do carro.
_ Realmente Jacob, seu carro… Uulll… é um sonho de consumo pra qualquer cara. Você transformou ele numa máquina! – Embry se recostou em um paredão de pedras próximo a Jacob.
_ Então, ele rende uma boa grana. Enfim, eu tenho dinheiro pra começar bem. Você precisaria entrar nesta sociedade cuidando de todas as partes mais burocráticas, administrativas… hãm… financeiras. Eu entraria com o dinheiro e com a mão de obra, entendeu? – Jacob perguntou, dando uma entonação clara de: “você é uma besta se não aceitar”.
_ É serio isto? Você disse sociedade?
Ele voltou a questionar, fazendo Jacob revirar os olhos.
_ Eu tenho cara de um piadista?
_ Tá mais pra índio canibal nos últimos tempos. – Embry respondeu. Jacob segurou o riso. Ótimo: não importava a idade que Embry tivesse, ele teria sempre aquele espírito brincalhão. – Vamos com calma, deixa eu me organizar um momento… — Ele disse, abaixando a cabeça, sua expressão aos poucos ficando compenetrada.
Jacob cruzou os braços esperando. Embry agora havia deixado suas brincadeiras de lado para pensar como um profissional de sua área. Começou a analisar todas as possibilidades daquele possível empreendimento. Ele não conhecia os tais chineses que Jacob disse ser garantia de lucro. Logo, o que pesou mais, acabou sendo a confiança que ele ainda tinha em Jacob.
_ Parece uma proposta valiosa. – Ele finalmente disse.
_ Isso quer dizer que aceita? – Jacob indagou.
_ Sim, eu aceito. Algo me diz que isto vai dar certo.
_ Algo também me diz isto. – Jacob respondeu. As mãos dos dois se encontraram no ar com um estalo ruidoso, selando a parceria.
_ Valeu cara! — Embry disse, ainda segurando a mão de Jacob, coisa que há tempos não acontecia.
_ Era o mínimo que eu poderia fazer. Não me esqueci que eu te fiz perder um grande emprego.
Embry nada disse, apenas sorriu com fervor.
_ Bom, se você quer saber, eu também não esquecia disto cada vez que olhava pra minha carteira. _ Jacob sorriu, mas ainda desconfortável com a situação. – Mas se esta sua idéia for boa, acho que vai compensar, não?
_ Espero que sim. – Jacob respondeu.
_ Então, agora… eu preciso saber o que exatamente você tem em mente. Quero saber os detalhes! – Embry de repente pareceu ávido. Jacob tinha a impressão de que se ele colocasse todas as contas de uma empresa com seis meses de atraso ele faria a contabilidade em dois segundos, dada a empolgação. Leah tinha razão, ele gostava daquilo, se dedicaria com toda certeza.
_ Hoje não. Teremos tempo. Não sei se você vai gostar desta parte, mas nós vamos nos ver com muito mais frequência que o comum daqui pra frente.
_ Bom, eu preferia algo mais feminino e bonitinho pra aturar, massss… são ócios do ofício, fazer o que? – Ele deu de ombros.
_ To começando a me arrepender da proposta…
_ Ok, parei! – Embry elevou as mãos. – Vou te liberar pra voltar pra Sarah agora chefe… digo sócio!
_ O que? Voltar? – Estava tão claro que ele queria ver Sarah?
_ Jacob! Você olhou naquela direção… — Embry apontou a construção que se elevava nos penhascos. – Umas quinhentas vezes, no mínimo.
Jacob coçou a cabeça, nem ele tinha se dado conta disto. Foi algo completamente involuntário. Mas porque negar? Ele realmente queria ir vê-la.
_ Certo… então eu vou…
_ Vai lá! Mas… espera!
_ O que foi? – Jacob perguntou. O que mais ele iria querer saber?
_ É bom te ter de volta Jake! – Foi só o que ele disse antes de virar as costas e sair saltando veloz as pedras escorregadias que circundavam o local.
Notas finais
Indiquem a fic!
Bjs da Déh!
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