The Precious Blood
56 ABRA SEUS OLHOS
Notas iniciais
Se sintam abraçadas por mim, um abraço de genuíno agradecimento!
A música no meio do capítulo é uma espécie de "resumo'' da história entre Marcus e Quendra... hehehe....
Espero não decepcionar com este capítulo... podem ser sinceras nas opiniões, sem medo de represálias!
Com carinho, mais um capítulo....
“Para bem ou para mal,
Eis que os amantes amados sempre regressam.
O amor nobre há de engrandecer almas,
O amor vil há de condená-las”
A magia dela lhe trouxe até ali. Em um segundo atrás, ele estava em meio a uma guerra, agora, não mais. Ela não havia trazido de volta nenhum dos vampiros que ele ordenou que o acompanhasse, tão pouco Kadinah, que a uma hora dessas ele sabia que já estava morta. Quendra a queria morta. Da última vez que se viram, Quendra disse a ele que não a pouparia.
Apesar de tudo o que lhe dissera, apesar do que ela confessou… a elfo ainda não estava ao lado dele.
_Se eu fosse humano ainda, Quendra… se estivesse perdido na vida humana… você não lutaria por mim? – Ele ainda se lembrava do que havia dito a ela, há dias atrás, quando ela seguiu Kadinah para Voltera.
_ Sim… lutaria.
_ O amor que Hector, o humano que eu era, lhe tinha… ainda está aqui. Em mim. Não pode mais lutar por isto? Não quer mais lutar por mim?
Os ecos da conversa conturbada que o vampiro teve com a elfo ainda parecia ressoar nele. Ele ainda se lembrava dos olhos castanhos dela o queimando enquanto estavam fixos nele e só nele. Marcus poderia oferecer tanto a Quendra… tanto! Mas ela ainda se recusava a se entregar.
_ Como você a descobriu? Como descobriu Sarah? Foi a maldita Ukhaha? – Ela perguntou.
_ Não gosta que eu a tenha? Não gosta que uma Ukhaha, a única criatura capaz de descobrir os segredos dos elfos, esteja ao meu lado?
_ A magia que ela usa pra isto é pútrida… nefasta… Te contamina ainda mais! — Ela lhe dizia indignada, como que tentando convencê-lo a se afastar da Ukhaha para poupar sua ‘alma’... Como se tentasse convencer a si mesma que aquilo era inaceitável.
_ Minha querida… não existe magia boa ou má… existem apenas as que são poderosas e as que não são. Não temos que escolher o lado negro ou redentor… Apenas o que nos garante maior poder…
_ Não é assim… – Ela insistia, mas não parecia tão convencida disto.
_ É… você sabe que é. Fique ao meu lado, entregue a filha de Lairon em minhas mãos… nós podemos ter tudo Quendra! Tudo! E eu só seria capaz de dividir meu poder contigo. Você sabe! Sabe que o seu amor é a única coisa que me impede de perder-me completamente… Venha para mim Quendra…
_ Não…
Ele pensou que a teria.Os olhos dela, que estavam tão sofridos enquanto ele lhe confessava o amor intacto depois de séculos e séculos, pareciam mostrar que ela ainda o queria… Quendra o queria! Mas o maldito dever élfico ainda a impedia.
E foi isto que a fez ir até La Push aquela noite, o tirá-lo de lá… tirá-lo de tão perto de Sarah Black! A elfo ainda tinha o dever de proteger a preciosa Sarah. E para isto ela tinha que sepultar seus próprios sentimentos, seus próprios desejos. Malditos sejam os elfos e Aquele que os ordenava!
_ Malditos! – Ele sibilou.
Marcus entrou então pelos corredores subterrâneos de Voltera, furioso. Esteve tão perto… quase pode sentir o gosto dela em sua boca. E tudo saiu de controle. E além de tudo, perdeu Kadinah…
Ele estava sem a Ukhaha, que burlava a proteção dos elfos, sem Quendra e sem a humana-elfo, que estava cada vez mais poderosa.
Seus passos apressados não produziam som, seu manto negro e pesado era o mesmo que o da batalha, ainda guardava um pouco do cheiro de Sarah. Seus pensamentos deixaram sua paixão frustrada para trás e se focaram na mulher de sangue precioso. Um rugido soou do peito do vampiro sisudo. Ele constatou por si mesmo o que Kadinah professava há tempos: Sarah estava a cada dia mais forte. Ele esperou muito tempo. Precisava tê-la antes que não tivesse forças pra lutar contra ela.
Mas agora ele não tinha Kadinah e sua magia funesta para mostrar onde andava a moça, mostrar o que ela fazia. Antes ele tinha pouco, mas ainda assim tinha. Agora ele teria que fazer tudo por conta própria.
Entrou em seus aposentos impaciente, pouco se importando com a outra figura de manto negro ao canto do cômodo.
_ Planos frustrados? – Aro disse. Marcos retirou suas vestes e nada disse enquanto se encaminhava a um banheiro espaçoso. O choque térmico provocado pela água férvida na pele fria do vampiro o fez soltar um suspiro. — Você não quer mais a família Volturi? – Aro voltou a perguntar.
Aro sabia que aquele Marcus que conheceu quando ainda era humano nunca tinha morrido. E agora ele despertava, Aro podia ver novamente o ódio lascivo no olhar que por tantos séculos foram os mais apáticos que conhecia. Por alguma razão, a força sombria de Marcus regressava com força, os gestos voltaram a ser mais firmes, a frieza mais dura, as frases mais cínicas. E agora ele dava ordens a Aro. Coisa que Marcus não fazia desde quando se firmou o reinado do clã Volturi.
Por ordem de Marcus, Aro impediu que os vampiros da guarda caçassem vampiros arruaceiros. Por ordem de Marcus, Aro mandou Heidi transformar humanos e deixá-los a solta em áreas populosas. Por ordem de Marucus, Aro recomeçou a recrutar mais menbros para a guarda. E naquele dia, Marcus havia desaparecido, levando alguns dos melhores vampiros de combate da guarda consigo.
Nenhuma explicação.
Aro não gostava daquilo, pois ninguém, jamais, era capaz de saber o que poderia vir de Marcus… Nem o próprio Aro, quando procurava lhe tocar para invadir sua mente.
_ Não faz mais diferença. – Marcus disse, ao voltar para o aposento, vestido em um roupão negro. Um canto dos seus lábios se ergueu, um meio sorriso de escárnio tomou a face pétrea. – Com medo de perder o posto?
Aro estava certo: o antigo Marcus despertava. Talvez isto estivesse relacionado ao segredo tão bem guardado na mente dele, um segredo que Aro nunca pode ter acesso na mente de Marcus. Havia no vampiro um abismo oculto. Aro nunca teve problemas com seus poderes, exceto quando Isabella Swan apareceu em seu caminho. Mas com Marcus, o vampiro que lhe transformou, sempre foi assim. Havia uma parte da mente dele, do passado de Marcus, que Aro nunca pode ver.
Até ali, a relação de união e poder entre os líderes vampiros se manteve oculta. O império Volturi alicerçado sob mentiras e histórias mal contadas.
_ Você o quer? O meu posto... quer tudo só para si novamente? Como era no início?– Aro disse. Tentou esconder de si próprio a raiva que lhe dava só de pensar em ter que abandonar seu status de poder que toda aquelas farsas lhe garantiu. Escondia ao máximo, porque Marcus sabia muito bem aqueles que eram fiéis a ele, ou não.
_ Pode continuar com seus jogos de poder, Aro. Pode continuar brincando com suas coleções de talentos, se divertindo com seus peões… Eu lhe disse que daria isto ao te transformar, eu te dei isto por séculos e não vou tirar.
Marcus andou em direção ao enorme espelho que tomava quase uma parede inteira de seu aposento. Se olhou: ele já foi mais belo. Sua pele estava porosa, parecia frágil. Seus olhos já não tinham aquele brilho que tanto causavam terror e impacto. Seu corpo de atleta grego, seus traços harmoniosos … tudo parecia escondido pela opacidade do tempo. Já se sentiu mais belo, mais poderoso, mais invencível. Há tempos não se sentia assim, há tempos não tinha sequer vontade de se sentir assim. Tudo pela maldita elfo… pelo que Quendra lhe fez perder.
Mas há oito séculos atrás, surgiu uma esperança… e só agora ele estava perto de alcançar o poder que tanto almejava.
_ Meus planos são maiores que isto. – Ele terminou de dizer a Aro. – E foi muito bom o papel que representou até aqui… eu nunca quis nenhuma espécie de foco sobre mim. Você é um dos poucos que sabem disto… — Marcus se virou para o vampiro que ousava lhe chamar de “irmão”. – Mas não se esqueça que nunca ocupou uma posição acima de mim… e nem vai ocupar. Ninguém vai. – A voz gelada e monótona disse.
Aro riu aquele riso exagerado dele. Marcus abominava aquilo. Seres que riam daquela forma louca, não contendo seu nervoso ou expectativa, não tinham controle de si mesmos. E jamais eram dignos de ter o controle de tudo. Aro sempre achou que tinha este controle… mas nunca passou de um imbecil lunático. Mais imbecil que ele somente Caius. Mas Aro foi muito providencial para a vida de Marcus, no entanto. Conseguiu, através dos séculos, montar um “império” com muitos soldadinhos úteis. Jane, Alec e principalmente Chealsea. Tinha grandes planos para esta ultima.
_ Eu sempre permaneci fiel a você… Marcus. – Ele lhe disse.
Marcus virou as costas para ele.
_ Eu sei.
_ Os seus… planos maiores… — começou ele.
_ O que tem eles? – Marcus interrompeu a falação de Aro bruscamente.
_ Bem… eles continuarão a envolver a nossa inércia em relação aos ataques de vampiros nada discretos aos humanos? Tudo está tomando proporções incalculáveis. – Aro terminou de perguntar. Os olhos de Marcus se estreitaram.
_ Eles atacam porque eu quero que eles ataquem. Os vampiros são meus… existem todos por minha causa, eu sou a origem desta raça. E em breve os humanos também serão meus… em breve…
“…Quando eu tiver força o suficiente pra que nenhuma criatura ouse lutar contra mim”. Marcus completou em sua mente. Novamente pensou na filha do elfo Lairon. Sua boca se encheu de veneno. Precisava dela.
_ Não seremos mais seres ocultos? – Aro tornou a perguntar. Diante da falta de resposta ele voltou a dizer. – Isto vai ser o caos… poderemos perder o controle.
De repente um sorriso pleno brotou nos lábios de Marcus, surpreendendo Aro. Mas o que o vampiro tagarelava já não importava a Marcus.Ele havia sentido a presença dela… ele sempre sentia. Desde que nasceu ele sempre sabia quando ela estava perto.
_ Não Aro… eu nunca perdi o controle de nada. – Ele disse, se virando para porta, onde uma silhueta aparecia. Marcus sorriu mais, ficando belo com o ato. Uma beleza fúnebre. – Vieste pra mim… – Ele disse a ela, que deu um passo a frente. — … Quendra…
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Seus sorriso sempre seria aquilo de mais belo que ela teria. E Jacob sorria, suas mãos quentes afagaram seu rosto.
_ Com saudade de mim? – Ele perguntou, enquanto suas mãos desenhavam as curvas de seu corpo. Estavam deitados em uma cama espaçosa, confortável. Era tudo muito claro e os lençóis brancos aumentavam aquela sensação de paz.
_ Sempre… — Sarah respondeu, se permitindo sentir aquela presença tão viva de Jacob perto de si.
Ele lhe abraçou mais forte, beijou seu rosto. Quente… se sentiu aquecida.
_ Está tudo bem. Eu disse que ficaria com você… não disse?
Sarah estremeceu. Não, ele não disse que ficaria.
_ Você não disse… não disse! – Ela soluçou. Chorava.
_ Mas digo agora: estou aqui. Vou ficar com você. Está tudo bem, Sarah. Está tudo bem meu amor…
… Está tudo bem… está tudo bem…
Não, não estava tudo bem. Não estava nada bem. Novamente ela mergulhou na escuridão, a esmo. Sentia seu espírito longe de seu corpo e maior. Ela sentia que estava maior e mais poderosa. Queria ela ter poder sobre tudo, mas não tinha. Estava em um mundo etéreo, mas, ainda que sofrida, jamais se sentia sozinha.
Como podia aquele amor a sustentar quando ela queria deixar-se ir, se perder? Como podia o sol resplandecer dentro dela quando tudo estava cinza? Aquele sol que morava em seu peito a aquecia, quase lhe dava a certeza de que eram os braços dele que ainda a envolviam, a embalavam. Ainda havia o tom de seu riso morando dentro dela, o sabor do nome tatuado em seu coração a tentar forçar uma alegria nela. Uma alegria que não fazia sentido funcionar.
Ela continuou no fundo do abismo, naquela nuvem de escuridão do vácuo que assola uma alma perdida. Mas a voz dele, de alguma forma, parecia chegar até ela, dizendo:
_ Acorda amor… está tudo bem… eu sempre estarei aqui. – O timbre rouco que estremecia seu ventre, acalentava seus ouvidos.
Mas ela não voltava… ela não queria acordar. Não ia funcionar. Aquela alegria não ia funcionar.
Ele não estava mais lá. Ela não poderia mais voltar, deitar a cabeça em seu peito largo e adormecer ouvindo o som do seu coração, simplesmente porque não havia mais coração a bater.
Era isto não era? Tinha acabado? Garras acabaram com tudo? E agora ela estava perdida…
Perdida a esmo, seu espírito chegou a um portal.O véu de prata que dividia os dois mundos era uma parede sem início e sem fim. Sarah sabia que foi levada lá. Ela tinha que fazer algo ali.
“Liberte os elfos” Uma voz conhecida lhe disse.
Ela tocou o véu. Estava rígido. Acariciou-o lentamente e aos poucos tudo foi cedendo e o véu desapareceu.
_ Eu sabia que podia fazer isto. – Seu pai lhe disse. Lairon estava lá, ao lado dela. Ele pegou sua mão e a puxou para sentar embaixo de uma árvore enorme e linda. A relva macia acomodou bem as suas costas quando Sarah não só se sentou, mas se deitou ao lado do pai.
_ Que lugar é este? – Sarah perguntou. Mal reconhecia sua voz. Era um sussurro esparso, ventoso.
_ Nosso lugar… da nossa família. – Ele respondeu, acariciando os cabelos dela.
_ Nossa família?
_ Nossa família. – Outro alguém respondeu. Era a mesma elfo que Sarah havia visto em outro sonho, a que carregava o belo colar com um coração azul. – Sou sua avó, meu amor. Évora.
É claro. Sarah já sabia quem era ela. A mãe de seu pai, a rainha que cedeu a vida para que Lairon nascesse… para que ela, Sarah, nascesse.Como ela sabia disso? A sabedoria parecia fluir pra dentro dela.
_ Jamais fiz coisa melhor do que gerar o seu pai. O pai de Sarah, a humana-elfo. – Évora sussurrou, se sentando imponente ao lado da neta. – Nós estaremos sempre juntos agora, Sarah. Juntos temos um longo caminho pela frente. – A primeira rainha élfica suspirou. Tinha algo a revelar a neta. Lamentava que fosse naquele momento, mas assim tinha que ser.
_ Pra que caminhar? Pra que seguir em frente? — Sarah murmurou. O espírito da moça parecia confuso. Por isto estava angustiado ainda.
_ Porque precisamos, Sarah. Porque devemos. Caminhar sempre em direção ao bem. Lutar por isto. Muitos dependem de nós. – Lairon lhe sussurrou, complacente.
_ Devemos… Mas porque eu? Por que eu? – A voz de Sarah ecoou.
Évora suspirou.
_Um dia, uma pessoa muito importante, cometeu um erro muito grande.– Começou ela, prendendo a atenção da neta. - Tentamos evitar… mas não somos nós quem comandamos o destino. E nós não sabemos, não entendemos os caminhos que ele segue. Tudo que sabemos é que o destino tem que seguir, sempre.
Sarah se encolheu, se aconchegando no colo de seu pai.
_ Eu fui esta pessoa Sarah. – Évora disse. – Foi eu quem cometeu o erro que condenou muitas almas. Por isto teria que vir de mim, do meu sangue, o único ser capaz de salvar estes perdidos. Este ser sempre foi você.
A humana-elfo abriu os olhos, encarando Évora, surpresa. Atrás dela uma outra figura apareceu. Sarah se levantou de um impulso e como uma menina correu para os braços dela: sua mãe. Laura a recebeu com fervor, sorrindo.
_ Minha menininha! – A doce voz da mulher a fez chorar. Chorar de pavor, de amor, de dor, de medo. – Mal cabe nos meus braços agora. – Laura riu. Sarah pensou que tivesse preservado bem a memória de sua mãe. Mas estava enganada. Nenhuma memória vazia poderia fazer jus aquilo. – Vem, vamos nos sentar.
Laura puxou Sarah novamente para o lado de Lairon e os três ficaram de frente para Évora. As mãos da bela humana, tal como Sarah se recordava, eram macias ao acariciar as costas da filha. O sorriso de Laura, sempre tão doce, foi acalmando Sarah aos poucos, dando a impressão de que não havia porque tanto desespero.
_ Que família linda é esta. – Évora disse, sorrindo. – Mas bem… você tem um longo caminho pela frente Sarah… eu te peço perdão… o erro foi cometido por mim.
_ Que erro? – Sarah perguntou, já tranquila, se sentido protegida no meio dos pais. Évora suspirou novamente.
_ Um dia me foi Dito que eu deveria matar uma criança. Me foi Ordenado que eu deveria sacrificar o corpo de uma criança para que a alma dela e de muitos outros fossem preservadas. Era uma ordem Suprema. Me foi dito que os meus teriam compaixão por esta criança, que me influenciariam a querer poupá-la. Mas ainda assim, eu deveria matar esta criança assim que a visse pela primeira vez. – Évora desviou os olhos de Sarah, passando a observar a copa da arvore.
_ Mas eu não a matei… eu enfraqueci. Eu não tive coragem de mata-la… não pude e… desobedeci. Dois anos depois esta criança foi usada como instrumento do maligno e por meio dela uma raça maldita se alastrou pela terra dos humanos, criaturas de Deus, e condenou almas preciosas. Eu não tinha a Sabedoria para saber que uma criança inocente era na verdade uma praga. Confiei em meu próprio julgamento um dia sequer… e foi fatal.
_ A criança que deu origem aos vampiros… – Sarah sussurrou, lembrando-se de uma história antiga contada por Quendra.
_ Sim… esta. Depois eu a matei, mas já era tarde.
Sarah nada disse. Sua mãe apertou as suas mãos, beijou o topo de sua cabeça, ternamente. Sarah fechou os olhos.
_ Você precisa voltar, meu amor. Há muito para ser feito… — Sarah não permitiu que seu pai prosseguisse.
_ Não! – Ela não queria voltar, não queria acordar.
_ Isto não é um sonho querida… nós sempre estaremos aqui, dentro de você, morando em seu espirito. Mas agora você precisa voltar a si. Aqui você não poderá fazer nada nem pelos outros, nem por si mesma.
_ Não! – Como ela iria voltar? Voltar para viver o que? Ela não podia mais suportar a vida… Ela tinha uma estranha sensação de que não poderia suportar o que havia lá.
_ Querida, está tudo bem. Confie nisto. Confie em você…
_ Volte....
_ Acorde Sarah… volte. – Uma voz sussurrava para a moça que há muito permanecia desacordada.
Enquanto Sarah estava perdida dentro de si mesma, outros lhe aguardavam despertar.
_ Não adianta. Nós já tentamos isto. – Leah disse, se aproximando do leito.
_ Ela sofre…
_ Sim. Mas agora está melhor do que nos primeiros dias. Ela vai precisar encontrar força em si mesma antes de despertar.
_ Eu sei. – Ele disse. Com uma ternura infinda ele acariciou os cabelos de Sarah e depositou um beijo em sua testa.
_ Você vai precisar cuidar da matilha. Eles não estão sabendo o que fazer agora que… bem… agora que tudo esta deste jeito. – Leah disse, colocando a mão no ombro dele.
_ Eu sei. – Ele suspirou, se levantando da cama. – Cuide bem dela. – disse, sorrindo.
_ Pode confiar. – Leah disse, retribuindo o sorriso.
_ E cuide bem deste garotão. – Disse ele, enquanto acariciava a barriga da índia.
_ Quem disse pra você que é garotão? Não tive tempo e nem como ver isto ainda!
_ Ora, eu sei que é! – Ele riu, deixando um clima mais leve.
Na cama Sarah se mexeu, chamando a atenção. Porém permaneceu desacordada. Era sempre assim durante aqueles dias a fio. Um suspiro dela punha a todos em expectativa. Mas nada a despertava.
_ Bom, vou indo. Qualquer coisa me chame. – Ele disse, saindo.
Mas não houve coisa alguma por mais sete dias. Dentro de Sarah havia sempre a luta de querer voltar e ter medo disto. Mas também havia nela aquela presença imponderável do bem amado, aquela certeza de que Jacob estava sempre muito perto… sempre muito vivo. Ele estava em cada vão dos seus pensamentos, dissipando qualquer sinal de dor, de desalento.
A alma dele era imensa e forte e possuía, envolvia sempre a bela moça em sonhos sutis tão reais. Era como se ele existisse dentro dela e lá a amasse com infinda liberdade... não havia tamanho.
E no fim das contas, foi o amor dele que acalentou o seu coração, foram as lembranças do seu sorriso que a fez submergir aos poucos, foram os sonhos doces que tivera com ele, em que sentia nitidamente os braços firmes ao seu redor,que a fez despertar no fim de uma tarde de domingo.
Abriu os olhos, reconhecendo de imediato o ambiente, o cheiro dele ainda parecia estar incrustrado ali. Na cama onde tantas vezes se amaram e que agora ela ocupava sozinha. No fim os lençóis, como em quase todos os seus sonhos, eram brancos. Era o quarto deles, a casa deles, a cama deles.
Virou a cabeça e se deparou com as janelas largas abertas, o vento frio cheirando maresia entrava por ela. O tempo estava cinzento.
_ E no fim das contas, fui eu quem te viu despertar. – Alguém lhe disse. Um elfo lhe disse. Koraíny.
Sarah se ergueu lentamente, se pôs sentada e o olhou sem emoção.
_ Foi você quem nos libertou… todos os elfos. E por alguma razão inexplicável, conseguiu me libertar também. – Koraíny sorriu, Sarah não esboçou emoção.
_ Quanto tempo? – Uma voz robótica saiu dela ao perguntar aquilo. Koraíny não ficou em dúvida quanto ao que ela perguntou. Sabia que ela queria saber há quanto tempo esteve desacordada.
_ Quarenta dias. Exatamente quarenta dias. – Ele respondeu. Sarah elevou as sobrancelhas. Olhou ao redor verificando se havia algum resquício de que Carlisle havia passado por ali. Mas não: nada de soro, nada de sonda, aparelhos monitorando. Nada.
É claro, os elfos estavam ali, eles tinham outras formas mais eficientes de mantê-la bem.
_ Muito tempo… — Novamente uma voz robótica, vazia ao falar.
_ Sim. Eu suspeitava que isto acontecesse na primeira vez que você perdesse seu sangue.
Perder sangue… por Jacob. Sarah inquietou-se, mas nada disse.
_ Seu sangue pode se regenerar do nada, mas da primeira vez seria mais demorado.
_ Do nada? – A moça indagou. Mas ela não havia tirado todo o seu sangue, até onde se lembrava.
_ Sim, do nada. Você fez questão que não restasse uma gota sequer. –Koraíny disse aquilo e, ao ver a face confusa de Sarah, tratou de esclarecer. – Não foi preciso doar todo o seu sangue. Mas, mesmo depois de desacordada, você continuou a induzir Nessie e Milla por um tempo. Você tentou usá-las pra tentar aplacar sua possível dor. Fez com que elas lhe mordessem e sugassem todo o sangue que lhe restava.
Sarah abaixou a cabeça. Não se lembrava disto… mas dada as circunstâncias, ela entendia o porque fez isto… e faria de novo, se pudesse. Só lamentava por ter usado as meninas daquela forma, ambas confiavam nela.
_ Você não precisava ter feito aquilo. – Koraíny lhe repreendeu. Sarah riu com escárnio.
_ Você não sabe de nada disto! – Murmurou raivosa. – Não entende!
_ Você não precisava ter feito aquilo! – Ele repetiu. – Só fez todos sofrerem mais! E depois, você podia ter acordado antes se quisesse. Mas você quis fugir disto.Quis ficar desacordada pra não enfrentar tudo, sem saber o que realmente acontecia… as pessoas sofreram por vocês. Inclusive o…
_ Chega! – Ela implorou. – Por favor, chega!
_ Tudo bem. Não sou eu quem deve te contar isto mesmo.
Koraíny se afastou.
_ Irei avisar os outros… tem muitas pessoas te esperando acordar. Talvez você queira tomar um banho, se levantar desta cama. Por favor, faça isto Sarah! – Ele pediu.
De cabeça baixa ela respondeu que sim. Koraíny abriu a porta, Sarah saltou da cama.
_ Koraíny… vocês o… enterraram? – Ela perguntou, sentiu as pernas bambas, voltou a se sentar.
O elfo lhe olhou profundamente, pelo castanho dos olhos dele passou um brilho que Sarah não identificou. Estava tonta, dolorida.
_ Não foi enterrado. – Foi só o que elfo respondeu antes de sumir.
Sarah se deixou cair na cama e chorou. Chorou desesperadamente, mesmo sentindo que aquilo, aquele choro, não fazia sentido. Ela procurava sentir aquela ausência, aquele buraco dentro de si… mas não sentia! Como ele poderia estar tão vivo dentro dela? Ela parecia embriagada em algo impróprio, falso. Pois tudo nela insistia que ele nunca esteve tão vivo. Sarah poderia acreditar que realmente ele estivesse, mas ela havia visto o momento exato em que o espírito do alpha abandonou o corpo e se dispersou em tudo ao redor. Não se enganara sobre aquilo. Sabia que não.
Depois de um tempo ela se levantou, tomou um banho da cabeça aos pés. Ainda molhada vestiu um roupão que… tinha um cheiro bom. Tinha o cheiro dele. Penteou os cabelos e encarou sua face no espelho. Não parecia que um dia seu coração ficou algum tempo sem ter sangue pra bombear. Não parecia que ela esteve em um “coma” durante quarenta dias. Estava com cara depressiva, mas saudável. Se é que isto era possível.
O que fazer agora?
Ela escutou uma movimentação no lado de fora dos portões da casa, mas não se importou com isto. Não percebeu que uma criatura rondava a casa há tempos, a ouviu chorar, e a ouviu chamar “Jacob” enquanto se banhava.
Desatenta, passo a passo, ela saiu do quarto. Fechou os olhos, se poupou da visão, e andou perdida pelos cômodos, tateando paredes, móveis, objetos, como se neles fosse encontrar a forma do corpo amado.
Sarah caminhava descalça, havia arrancado do armário uma camiseta dele e vestido, os cabelos soltos estavam mais compridos e cheios. A moça tinha uma face triste e singela, mas parecia um espírito de fada fluindo por cada canto.
Saiu da casa vestida como estava. Quase nua. Inspirou o ar frio, que lhe golpeou a face. Sarah sentiu algo que a fez sorrir, não soube identificar exatamente o que, mas seguiu andando.
Havia alguém ali. Havia alguém pairando ao seu redor. Havia um cheiro ali… um cheiro forte, presente, conhecido, ao mesmo tempo diferente. Era o cheiro amadeirado, másculo. Um cheiro terrestre, fresco, amado, misturado a uma outra essência, algo diferente que parecia tão familiar ao seu próprio cheiro.
O sussurro do vento, o silêncio da tarde que já virava noite, tudo beirava ao desalento. O mundo humano enegrecia. Mas aquele era somente um plano, um estágio dos viveres. Naquele momento Sarah buscava algo mais profundo, algo mais eterno e verdadeiro. Ela caminhava para algo que pudesse a fazer ser luz no meio de qualquer escuridão, por mais opressiva que fosse.
“Vem aqui.” Ela já esperava ouvir a voz de Jacob, mas ainda assim sentiu seu corpo estremecer com uma deliciosa surpresa.
Não queria pensar que novamente tinha caído no sono, se deixado perder no mundo dos sonhos. Ela caminhou, em direção ao riso dele.
“Você é tão boba! Devia confiar mais no poder que tem no seu sangue… e nas suas vontades…”
Jacob conversava com ela como se estivesse ao seu lado, mas a voz dele só soava em sua mente. Sarah não ousou responder, absorta demais em senti-lo da maneira que pudesse sentir. Sozinha seguiu pela noite daquele domingo vazio, sem perceber que havia lobos ao longo de seu caminho, a acompanhando silenciosos e atentos a cada passo dela. Seus pés descalços começaram a sujar de terra úmida da floresta de La Push.
“Você devia abrir os olhos, doutora.” Jacob disse, com ar de riso. “Vai tropeçar.”
“Não quero acordar…” Ela finalmente sussurrou de volta. “Me guie.”
Ele novamente sorriu. Ela quase podia sentir o sorriso dele na pele. Jacob perecia ainda estar longe, mas ainda assim estava incrivelmente perto. Ele estava em tudo. Ela caminhou ainda por um tempo, os olhos bem fechados.
De repente sentiu como se uma atração magnética a sugasse para algo. E este algo caminhava em direção a ela. O vento parecia mais frio, o oxigênio mais rarefeito, o chão mais íngreme. E ela estava subindo em direção a algo.
Os lobos que a seguiam, a um sinal, recuaram, se viraram e partiram. Não precisavam mais protegê-la. A moça estava em um local seguro, com o único que poderia lhe proteger mais do que se toda a matilha a rodeasse.
Então era como se realmente houvesse alguém. Perto, ali. Bem ali. Sarah parou, o coração indeciso: não sabia se parava de bater ou se acelerava absurdamente. Abaixou a cabeça, apertou ainda mais os olhos e abraçou o próprio corpo para conter seus repentinos tremores.
_ Se não abrir os olhos, não vai poder me ver. – O sussurro dele parecia mais próximo.
Então ela passou a ouvir passos, circundando-a, leves, sutis, certos. Se aproximava dela… e seu corpo se aquecia, de dentro pra fora. Sua alma, que vagou em si mesma por tantos dias, se aquecia. Seu corpo estremecia, seus pelos se ergueram e eram sensações tão intensas, que ela sentia sua pele doer.
Estava perto… ela só precisava abrir os olhos. Mas ainda havia covardia nela… a mesma covardia que a manteve desacordada por quarenta dias.
_ Se eu abrir os olhos, posso não te ver. – E este era o maior medo. De olhos fechados ela pensava em Jacob e somente nele. Sua imaginação era preciosa, sua memória dele quase palpável.
_ Abra os olhos. – Ele pediu… voz branda… voz amada, rouca. Tão perto, tão viva. Porém, embora sutil, a voz dele tinha uma impetuosidade desconhecida, algo solene demais. Algo que inspirava confiança e uma certa obediência.
Ela mordeu os lábios, respirou fundo e abriu os olhos. Sua visão desfocou-se por ela ter mantido as pálpebras tão fortemente fechadas durante todo aquele tempo. E também havia uma camada de lágrimas frias embaçando o seu ver. Mas ela ainda não podia ver nada… nada além de uma clareira verde, limpa e a luz prateada que a lua incidia sobre o lugar.
Sim, a lua já estava brilhando com todo o seu vigor, e dali, um lugar tão alto, parecia maior e mais soberana. Sarah sentia que caso erguesse as mãos, esticasse os dedos, poderia tocá-la. A moça não viu Jacob a sua frente, embora seu coração e corpo ainda tremesse com uma certa proximidade, ele não estava diante de seus olhos.
As lagrimas caíram pouco a pouco, enquanto a moça fixava seus olhos nos céus, nas estrelas que brilhavam no manto negro sem que nenhuma nuvem cinzenta as encobrisse. Era uma visão tão doce,era um lugar lindo bem no alto de uma colina… Nunca tinha estado ali.
As pernas dela enfraqueceram, perdia as forças, ia cair… se não fosse abraçada ia cair. Mas ela foi abraçada, envolvida por um calor terno e intenso. E o aquecer que envolveu a sua alma durante todo aquele caminho, floresceu para sua pele, para o seu corpo. O abraço quente e cheiroso lhe juntou os pedaços, lhe encheu de jubilo.
Seu rosto corou, ela abandonou seu corpo em meio aquelas sensações tão únicas e sorriu. Seu corpo parecia ser tomado, cada polegada de sua pele acariciada. Outro corpo misturava-se ao seu, bem maior do que ela, mais forte do que ela. Um som grave e constante a enchia de riso. Sua cintura foi envolta por um toque firme, foi puxada para mais perto, foi aconchegada. Um inalar em seus cabelos, uma respiração forte soprou em seu pescoço, um rosnar baixo e ameaçador pareceu amedrontar até mesmo o vento. Não eram os seus pés que a sustentavam em pé. Outra força sustentava seu corpo… talvez a mesma força que dava sustento ao seu espírito.
À suas costas Sarah sentia ainda uma pulsação constante, forte, vital. Seu ventre se contorceu, suas pálpebras tremeluziram e se fecharam. Estava nervosa diante daquela presença. Suas mãos foram pegas, conduzidas a sentir a textura suave e rígida da cútis, uma forma sinuosa que parecia ter tanta força. Sentiu seu corpo girar, teve que se manter por si mesma sob os próprios pés. As mãos de Sarah foram conduzidas novamente, a passear por um novo contorno, parecia uma forma conhecida, mas com algo a mais. Suas mãos pararam em um centro quente, onde algo parecia bombardear suas palmas.
Um coração. Um coração poderoso. Um coração vivo.
Sarah abriu a boca e sugou o ar com força e foi golpeada pelo cheiro devastador de um rei, ao mesmo tempo sua boca foi possuída, levada a experimentar um sabor tão conhecido e tão novo. Era um toque íntimo, húmido, cheio de ardor e vida. Um toque que resplandecia algo tão mais profundo e sublime do que qualquer coisa que possamos pegar, ver ou medir. Era um beijo. Um beijo fundo. Sarah era beijada, com as mãos ainda apoiadas em um peito firme, quase tocando um coração, ouvindo os sons graves dele ecoando em seus ouvidos.
Iluminou-se em meio ao sabor daquele beijo e renasceu. O beijo despertava Sarah e sua força, despertava a energia de seu espírito e este se encontrava com outro espírito tão ou mais forte que o seu.
O toque cessou. O beijo acabou. Os lábios dela foram abandonados.
_ Abra os olhos! – O voz soou não mais tão branda, nada sutil. Estava mais rouca, impaciente e forte.
Brilhantes, os olhos castanhos de Sarah se abriram. Se abriram para ver, para realmente ver a imponência de uma criatura consagrada diante de si. Para ver o feitio caprichoso da mão de Deus nos cabelos negros, muito mais cheios de vida. Abriu os olhos para tremer diante de íris escuras e densas, cuja intensidade lhe roubou o ar. Fascinada contemplou a pele de cor marcante, tal como o desenho do nariz, da boca… Ergueu o pescoço para comtemplar sua altura. Sarah abriu até mesmo seus olhos d’alma para vislumbrar a aura magnânima dele.
O coração, que batia forte, quase gritava pra ela: “vivo, vivo, vivo”.
Ele abriu os braços.
_ Você foi a força que me prendeu a vida. – Ele disse.
_ Jacob! – Finalmente o nome amado escapou de seus lábios. Sarah sorriu, sorriu porque sua alma sorria.
Notas finais
Gente... não vou falar mais nada, a gente conversa nos comentários... pode ser??
Bjs e mais bjs!!
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