The Portrait of Rose Weasley
2 Sobre Conversas e Refeições
Notas iniciais
Um cheiro de lavanda no ar. Ao abrir meus olhos, percebo que estou deitada em um lindo campo de flores, a margem de um lago cristalino. Uma sensação de leveza me consome, como se pudesse flutuar nas nuvens de um céu nublado.
De repente, o barulho alto e constante de um trovão vai destruindo o horizonte. Quando noto, estou caindo em um buraco negro, que começa a sugar todas as minhas energias vitais...
— Weasley, faz a droga dessa coisa trouxa parar! — Uma voz embargada resmungou em algum canto do cômodo.
Fui retirada brutalmente de meu estranho sonho (ou pesadelo, ainda não decidi) pelo som de meu despertador e pela queixa de Paige Frey, minha colega de quarto — essa foi a primeira frase que ela troca comigo desde o terceiro ano, quando pediu para que eu parasse de andar com alunos de outras Casas, porque poderia sujar o "status" da Sonserina.
Olhei para ela sem emoção, ignorando-a de propósito, deixando o despertador apitar por mais um tempo. Levantei de minha cama, abafada pelas pesadas cortinas de veludo verde no dossel, seguindo em direção ao banheiro, ao mesmo tempo que ouvia um palavrão da outra garota.
Ao me analisar no espelho sob a pia, fiz uma careta ao constatar que eu continuava com o mesmo rosto infantil de cinco anos atrás.
Na verdade, havia uma diferença: fortes olheiras, produto de longas noites sem dormir no ano passado, quando estudava para meus NOMs (Níveis Ordinários de Magia).
Não que essa experiência tenha adiantado de alguma coisa, já que o máximo que consegui foi um único Ótimo, em Poções. Essa estatística resultou em uma bronca gigantesca de minha mãe, além de um castigo que durou dois meses, para que eu pudesse repensar a importância do ensino em minha vida (como se eu não soubesse e tivesse escolhido nascer sem a capacidade de cuidar de plantas, por exemplo — te odeio, Herbologia).
Acredito que nem é preciso dizer que eu sou a maior decepção para quase todos os professores de Hogwarts ao falhar no objetivo de repetir os mesmos feitos de Hermione Weasley, apenas a maior bruxa a passar por esse castelo desde Albus Dumbledore.
Enfim, acabando com meu momento de auto piedade, continuei me arrumando para o primeiro dia de aula de meu sexto ano. Sorri ao detectar que esse seria um tempo mais tranquilo em minha vida, sem aquelas provas exaustivas.
Desci as escadas de acesso ao dormitório rapidamente, passando despercebida pelo luxuoso Salão Comunal da Sonserina, que era um amplo espaço, com sofás e poltronas de couro preto, pesados tapetes persas e a famosa e claustrofóbica janela, cuja vista era o fundo do próprio Lago Negro. O ambiente estava quase vazio, como sempre.
Depois da Segunda Guerra Bruxa, cada vez menos alunos eram sorteados para minha Casa. Não existiam motivos oficiais, apesar de todos saberem que a justificativa é o medo dos novatos de se tornarem "magos das trevas" ou "novos Comensais da Morte".
A minha própria relação com a Casa da cobra é complicada. Vivo praticamente em uma mistura de amor e ódio. Ao mesmo tempo que tenho orgulho de usar as cores verde e prata, nunca consegui criar vínculos com nenhum de meus colegas, que são extremamente frios e prezam pela cautela e pelo silêncio. Eu, por outro lado, sou a definição humana de impulsão e temo a quietude e a solidão, apreciando muito os ruídos comuns de uma conversa, por exemplo.
Ao sair da Masmorra da Sonserina, iniciei meu caminho pelos corredores da parte mais inferior da fortificação. Fui impedido ao dar de cara com a Peste Potter (ou James, mas prefiro usar o primeiro termo).
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei com cara de dúvida, não conseguindo conter minha curiosidade.
— Não te interessa, "prima", continue seu caminho, fuxiqueira. — Recebi mais uma de suas incrivelmente gentis respostas, criadas exclusivamente para mim (reparem no deboche em sua fala).
Encarei-o com uma expressão de puro tédio, retomando meu trajeto, fazendo questão de esbarrar em seu ombro (deve ter doído mais em mim que nele, mas o que vale é a intenção).
Ao passar pelas portas do Grande Salão, onde o café da manhã era servido, procurei pelas madeixas chamativas de Laurie, que, hoje, estava sentada na mesa da Corvinal, acompanhada de Scorpius.
Essa era um de nossos costumes. Como acabamos em Casas diferentes, fazíamos rodízio de lugar. Geralmente, os desjejuns matinais eram feitos em "terras" corvinais ou lufanas, os almoços eram sonserinos, enquanto o jantar era degustado com os grifinórios.
Marchei na direção de meus amigos, animada. Porém, acabei sendo parada por Jack Lenney, um quintanista chato da Casa dos leões e amigo do idiota do meu primo (estou falando de Sev, dessa vez — sei que vocês pensaram em Sirius).
— Eu não vou ser chamado para a festa de Albus? — Pisquei atordoada com a intromissão, mas me restabeleci e consegui fazer minha maior cara de falso espanto.
— Meu Deus, como assim você não recebeu seu convite? — Abri os braços, de forma bem dramática. — Sua presença é imprescindível para nossa pequena comemoração, pode ter certeza que vou conversar com Laurie e corrigir esse absurdo. — Dei duas batidas em seu braço, o que parece ter diminuído sua irritação. Percebi que ele queria continuar a conversa, então cortei seu pensamento. — Bom, tenho que ir, ainda não comi nada, bom dia para você! — Mandei um beijo no ar, enquanto retomava (novamente) minha deslocava-me até meu antigo destino, rindo sozinha.
— Olá, otários! — Sentei ao lado de Scorpius, pegando uma de rosquinha de baunilha de seu prato. — Lau, o enfadonho do Lanney veio me perguntar de novo o motivo pelo qual ele ainda não foi chamado para o aniversário de Albus. — Contemplei sua face, que parecia enfadada. — Não quero continuar iludindo o coitado, acho que vou jogar a real e dizer na cara dele: o seu ego é muito grande para a Sala Precisa, pode sufocar os convidados.
Não recebi nenhuma risada (ou crítica, o que seria o mais provável) para minha piada, nem uma resposta de menina ou uma saudação de algum dos dois em retorno, o que me fez ficar indignada.
— Mas que ignorância é essa? Da Smurfete é até cabível, mas até tu, Brutus? — Com referência ao episódio histórico envolvendo o Imperador Júlio César, que só foi entendida pela nascida-trouxa, fiz mais uma pose comovente, digna de Oscar, ganhando a atenção de meus dois supostos melhores amigos (embora eu esteja repensando esse título).
— Você roubou minha rosquinha.
— Não quero conversar.
Eles me bombardearam ao mesmo tempo, com rispidez.
— Por favor, Scrop, foi só uma, para de show. — Revirei os olhos para seu surto de imaturidade. — E estou sem paciência para seu mau humor matinal, Laurie. — Completei, lembrando de minha tia Angelina, que é símbolo do otimismo, não suportando pessoas que já não acordem cantando sobre a beleza que é viver.
— Era minha preferida! — Scorpius continuou com essa discussão chata e ultrapassada, afinal, isso foi há cinco minutos, sendo desmerecido por mim.
— Então, a senhorita poderia ao menos me responder se conseguiu as bebidas para sexta? Precisa de ajuda? — Indaguei Laurie, que fez uma careta mínima, mas não disse nada. Voltei a ficar entusiasmada ao constatar que faltavam dois dias para a comemoração. Eu amo as festas dadas nessa escola e a celebração para Sev seria a primeira organizada por nosso grupinho (quer dizer, Scorpius não quis participar dessa "clandestinidade" — essa foi realmente a palavra usada por ele). — Cadê Albus, falando nisso? — Olhei para a mesa da Grifinória, porque meu primo é extremamente popular e acaba nos trocando por seus colegas de time em algumas ocasiões. Só encontrei uns dez Weasley, menos o dito-cujo.
— Ouvi alguém dizer meu santo nome? — O merdinha apareceu atrás de mim, sem aviso prévio.
— Você vai ter que ser melhor que isso para atingir seu objetivo de me assustar. — Dei meia-volta, encarando-o com um olhar risonho.
Ele sentou ao meu lado, dando de ombros.
— Bom, eu tinha que tentar. — Reparei que ele encarou Laurie. — E aí? Conseguiu falar com a Diretora McGonagall? — Fiquei em dúvida com sua pergunta.
— O que aconteceu? — Eu e minha facilidade de me preocupar com qualquer coisa, aliada a uma bisbilhotice única. Scorpius se ajeitou na cadeira, demonstrando que também não sabia nada sobre essa história.
— Merlim, Rose, relaxa. — Albus replicou, zombando. — É apenas mais uma das ideias malucas da Smurfete.
A garota pareceu revoltada com o comentário de meu primo, argumentando com firmeza:
— Pois eu tenho certeza dessa vez, ok?
— Alguém poderia nos explicar? — Rebati, apontando para mim e para Scorpius, ainda curiosa, contudo sentindo mais tranquilidade ao entender que não era nada grave.
— Bom, estava me esforçando para manter segredo porque não queria ninguém se alarmando sem confirmações, mas como vocês insistem... — Ela criou um clima de mistério, recebendo uma revirada de olhos de minha parte. — Decidi minha profissão nessas férias. — Ela completou, sorridente.
— Sério? — Perguntei, tentando não soar decepcionada. Bom, me desculpem, mas criei expectativas altas para essa revelação bombástica, achando que seria algo emocionante ou pelo menos divertido.
— Sim. Eu sei que ninguém perguntou, mas eu quero seguir a carreira de... — Ela hesitou, como se temesse nossas reações. — Medibruxa. — Terminou, batendo palmas animadas para si mesma.
Albus estava certo. Esse realmente é um dos pensamentos mais absurdos que já foram expelidos pela boca dessa louca — e isso é algo impactante, já que essa garota só fala merda.
Para que haja um melhor entendimento, analisando friamente, Metcalf realmente tinha um dom para cuidar de pessoas. Ela ajudou Sev quando ele quebrou a perna em uma partida de Quadribol e ainda auxilia Scorp durante suas crises de enxaqueca. Por outro lado, a medicina mágica exige um vasto conhecimento na área pocionista, que é uma matéria em que Laurie é péssima — ela não saberia apontar nenhuma diferença entre o preparo de uma Veritaserum e de uma Amortencia.
— Você quer matar os pacientes? — Não sei o que fez esse comentário soar tão engraçado. Se foi o tom chocado expelido por Scorpius, ou o engasgo de Albus ao rir do menino enquanto comia, ou a braveza de Laurie ao ouvir minha gargalhada chamativa.
Ela não mexeu nenhum músculo enquanto esperava que retomássemos nossa seriedade. Depois de uma crise de risos que durou cerca de dois minutos, consegui expressar algumas das muitas perguntas que rodeavam minha cabeça.
— Qual a relação da Diretora com isso? Como Sev descobriu sobre isso? E, por último e mais importante, como você chegou nessa maravilhosa decisão? — Scorpius concordou veementemente com a cabeça, enquanto Potter deixava de nos dar atenção para paquerar uma corvina ao seu lado.
— Na verdade, foi através de uma história que impactou minha vida como nenhuma outra coisa. — Ela começou a gesticular, contando-nos sobre a ocasião.
"Era uma vez, em um começo de férias tediosas, uma garota, no caso, eu, que foi às compras pela Londres trouxa, com o objetivo de me atualizar em relação às novidades da moda, quando distingui um tumulto se formando em um canto da rua. Ao me aproximar, para conferir o que estava acontecendo, analisei uma cena única: uma equipe médica realizava um parto em plena calçada. Eu achei a cena incrivelmente linda e foi paixão instantânea com esse trabalho digníssimo. Fim"
Ela terminou, com um sorriso sonhador.
— Não vou negar que realmente deve ter sido uma experiência bonita, para quem gosta desse tipo de coisa, como sangue, que no meu ponto de vista só é nojento. — Dei de ombros.
Scorpius, por outro lado, não pareceu tão conformado.
— E sua réplica para as outras perguntas? — Laurie observou cansada Scorpius.
— Calma, seu chato. — Retrucou, deitando a cabeça na mesa. — Infelizmente, tenham em mente crianças: para realizarem seus sonhos, sacrifícios serão necessários. — Comentou, como se tivesse a sabedoria de uma anciã. — No meu caso, é fazer Poções esse ano. — Sim, minha amiga ama uma hipérbole.
— Mas você não tirou apenas um Aceitável nos NOMs? Porque lembro de reclamações de sua parte por meses, dizendo que tinha se matado de estudar. — Era tão incrível a capacidade do Malfoy de acabar com a força de vontade de qualquer pessoa. Dei uma risada anasalada.
— Credo, sai daqui negatividade. — Defendi Lau dos ataques desse energúmeno.
— Obrigada pelo apoio, Rose, você é uma VERDADEIRA amiga. — Ela aumentou o tom no adjetivo. — Vai se ferrar, Hyperion. — Ri baixo com o deboche, Laurie sabe o quanto Scorpius odeia seu nome do meio, fazendo por merecer o título de lufana mais sonerina que eu já conheci. — Enfim, como você fez questão de lembrar, minha nota não é suficiente para participar das aulas do sexto ano. — Agora foi a vez de Scorpius de dar uma risada zombeteira. — Porém, meu querido amigo, você não contava com minha inteligência e se engana ao pensar que eu não estava preparada. — Apontou para o rosto inexpressivo do garoto. — Já conversei com Prof. Janney, que me disse que pode aceitar meu Aceitável. — Ela terminou, teatralmente.
Bati palmas para Laurie. Ah, nada como a sensação de humilhar Scorpius e sua mania de se achar melhor que...
— E eu poderia saber se a Diretora concordou com isso? — Droga, comemorei cedo demais. Esqueci que o ego de Scorp é insuperável, como um bom membro da Corvinal. Fiquei menos animada ao ver Laurie murchar em sua cadeira.
— É exatamente sobre isso que Albus estava falando. — Apontou para meu primo, que voltara a prestar atenção em nossa conversa. — Ele me viu enviando uma solicitação de uma mini reunião com McGonagall, pois a única exigência da Prof. Janney foi a aprovação dona desse recinto, que ainda não teve tempo para me atender. — Bufou, exasperada.
Scorpius deu um pequeno sorriso vitorioso. Me assusta a felicidade desse monstro para com a desgraça dos outros.
Observei o ambiente, reparando que o café da manhã havia acabado e quase ninguém ainda estava presente. Conferi o horário e dei um grito agudo.
— Merda, gente, nós estamos atrasados para a aula de Transfiguração. — Falei, enquanto levantando rapidamente.
Scorpius também de um pulo em sua cadeira, como o bom nerd que é, e Albus suspirou, também se arrumando. Smurfete apenas sorriu.
— Meu primeiro tempo é livre.
Resmunguei um xingamento. Laurie tem essa capacidade especial de distrair as pessoas com o diálogo. Eu não sei quando ela descobriu esse dom, mas faz alguns meses que havia reparado. É como se eu caísse em uma hipnose, quase impossível de ser superada. Para entender a gravidade da situação, eu acho que nenhum dos meninos percebeu ainda.
Deixei minhas divagações de lado, puxando os dois pela camisa.
Corremos o mais rápido possível. Porém, para nosso grande azar, não foi suficiente e chegamos atrasados de qualquer maneira. Para aumentar o pacote, era a aula do Professor Saike, que não me tolerava — e o sentimento era recíproco.
Tentei adentrar sem ser pega por esse carrasco, mas o desgraçado do meu primo tropeçou em uma das carteiras. Quis dar um chute em sua canela, mas me contive ao notar o olhar felino, de pura alegria ao me pegar fazendo algo errado, que a autoridade da sala dirigiu até nós.
— Bom dia, Sr. Malfoy e Sr. Potter, encontrem seus lugares, por favor. — Os dois tomaram a deixa. Me preparei para segui-los, quando fui interrompida.
— Está atrasada, Srta. Weasley. — Parei onde estava, virando para encará-lo com minha expressão de culpa mais falsa.
— Desculpe-me, Professor, não se repetirá. Posso me sentar?
Ao receber uma expressão maldosa como reposta, constatei que não iria me safar facilmente.
— Me perdoe, mas como a Senhorita parece considerar minha matéria indigna de pontualidade, presumo que já tenha conhecimento prévio do conteúdo do dia.
Revirei os olhos mentalmente para sua “bronca”, negando com a cabeça.
— Foi o que eu imaginava. Espero que sua mãe não fique aborrecida quando receber um bilhete detalhado sobre seus atrasos. — Continuei parada, silenciosa, aguardando o fim daquele circo. — Sente-se, Srta. Weasley, já atrapalhou o suficiente.
Me acomodei ao lado de Scorpius e Albus, que me deram tapinhas consoladores nas costas, enquanto eu jogava minha cara na carteira, aborrecida.
O resto da quarta-feira discorreu vagarosamente, ao passo que estive ocupada com os estudos durante o dia todo.
No jantar, decidi que iria sentar sozinha para aproveitar o silêncio.
Porém, como esse desejo é aparentemente muito grande para Merlim atender, é claro que deu errado. Mal tinha colocado a primeira garfada de purê de batata com abóbora na boca, quando fui interpelada por um garoto de minha Casa.
— Oi, você é Rose Weasley, certo? — Perguntou, com cordialidade. Não o reconheci. Era alto, com cabelos e olhos castanho-claro, além de um nariz bem delineado e lábios finos.
— Sim, e quem é você? — Engasguei com minha comida ao falar, como a dama de alta classe que sou, ao mesmo tempo que reparei em como tinha sido rude. O resultado foi muitos pedaços da refeição sendo expelidos contra minha vontade de minha boca, fazendo-me corar de vergonha, provavelmente ficando parecida com um tomate humano.
— Meu Merlim, eu sinto muitíssimo! Que mico. — Tapeava sua capa do uniforme, dispersando a sujeira.
Com uma risada tímida, o estranho sentou ao meu lado, começando a se servir.
— Está tudo bem, mesmo. — Fez um joinha, para confirmar sua sentença. — Meu nome é Brandon Ryder, muito prazer. — Estendeu a mão.
Aceitei seu cumprimento, achando graça de sua formalidade.
— Qual é o problema? — Inqueriu, franzindo o cenho.
— Nada, só achei sua abordagem para conhecer novas pessoas inusitada. — Deu de ombros, como se ouvisse sempre esse tipo de coisa.
— Minha família é muito rígida, fui ensinado a tratar todos com polidez desde os três anos de idade. É difícil se encaixar na informalidade dos jovens. — Esse menino é um idoso de 80 anos preso em um corpo adolescente.
— Certo, a minha é o oposto. — Meu pensamento escapou por meus lábios, gerando mais uma risada retraída de sua parte.
— Senti na pele. — Dei um soco fraco em seu braço, mostrando como eu crio intimidade facilmente com outras pessoas, mesmo que elas não me tratem da mesma forma.
— Então, Sr. Ryder, a que devo a honra? — Forcei um sotaque britânico mais singular, como se fosse um Duque ou Lord (é interessante notar como essa palavra perdeu sua força ao ser associada com Voldemort).
— Recentemente tenho enfrentado problemas nos testes de Poções, então fui obrigado a pedir ajuda da Prof. Janney, que infelizmente é muito ocupada. Porém, ela acredita que eu possa ser tutorado por alunos que são excelentes na disciplina. A primeira recomendada foi vossa senhoria. — Continuou na brincadeira, apontando para mim, com um sorriso charmoso. Não pude deixar de ficar feliz que a mestre pocionista tenha pensado em mim como uma ótima aprendiz.
— Não entendo como todas as pessoas parecem ter dificuldade nessa mateira. — Sussurrei, recordando da situação de Metcalf.
— Desconheço o motivo dos outros bruxos que você conheça, mas o meu é o fato de achar os preparos, ingredientes e mexidas em sentido horário ou vice-versa extremamente... entediantes. — Recitou, sendo enfadonho. — Só faço porque sou obrigado por meus pais.
Expressei com um suspiro meu cansaço em ser uma das raras admiradoras dessa subestimada aula, meneando a cabeça em concordância.
— Creio que possa te ajudar nos finais de semana, caso você queira. — Sou muito prestativa, não criando nenhum tipo de interesse próprio nessa oferta.
Ok, admito que contemplar esse rosto bonito por várias horas talvez seja considerada uma vantagem.
— Muito obrigado, Srta. Weasley, aceito sua oferta com muita animação. — Agradeceu com um beijo em minha mão.
— Como eu nunca te vi por aqui? Eu me recordaria. — Tinha certeza disso.
— Ah, deve ser porque eu entrei em Hogwarts no final do ano passado, quando todos estavam preocupados com os NOMs. — Esclareceu, tornando a situação mais cabível. — Era educado em casa.
— Entendi, e o que tem... — Minha frase se perdeu com a chegada de um furacão.
Traduzindo: Laurie e sua afobação. Essa garota não respeita nenhuma das convenções da sociedade, como a educação.
— Rose, estou com problemas! — Praticamente gritou, sentando em minha frente. — Eu sei que fiquei responsável pelas bebidas da festa de Al, na verdade, essa foi minha única tarefa, o que me faz pensar que talvez vocês duvidem de minha capacidade. — Me encarou, acusatória.
— Imagine, eu tenho certeza que você lidou com sua parte com extrema precaução. — Formei um sorriso apaziguador em meu rosto.
— Certo. — Fez cara de culpada, enquanto eu batia em minha própria testa, sabendo que ela falhou na pequena coisa que lhe foi pedida. — Então, eu tive problemas com meu fornecedor, que só vai poder entregar antes da festa metade do que a gente precisava. — Gesticulou, desesperada. — O resto só chega na noite do aniversário, durante a festa. — Terminou, com uma expressão de loucura e confusão. — Epa, quem é esse menino e por qual razão ele está nos encarando? — Reparou em Brandon, que realmente nos observava perdido.
— Peço perdão pelo comportamento de Metcalf, ela não é domesticada. — Recebi um muxoxo da menina, mas não tenho culpa se suas ações são injustificadas. — De qualquer forma, que falta de educação de minha parte. Laurie, este é Brandon Ryder, meu mais novo aluno. Senhor Ryder, esta é Laurie Metcalf, minha melhor amiga e maior fardo de minha vida.
A Smurfete esnobou minha piada, enquanto ele oferecia um aperto de mão. Aparentemente, ela também achou graça.
— Você é bem estranho, hein, mas é bonito. — Disse, como se não quisesse nada. — Mas não é sobre isso que vim falar. Então, Rosie, o que eu faço? E como assim "seu mais novo aluno"? — Arqueou uma sobrancelha, duvidosa.
Não sei por qual razão, mas Laurie sempre me procurava quando tinha algum problema para resolver. Por acaso ela achava que eu tinha cara de psicóloga ou conselheira?
Porém, a verdade é que eu sempre cedia e acaba ajudando-a.
— Eu vou ser tutora de Poções para ele. — Expliquei. — Enfim, voltando ao verdadeiro problema, nós duas podemos ir buscar o restante no meio da festa, não vai ser uma adversidade. Na realidade, é bem simples e tenho certeza que meu primo não irá se importar com nossa ausência de cinco minutos. — Laurie ficou inexpressiva, parecendo chocada.
— Meu Merlim, como não pensei nisso? Sou muito burra.
— Nos conte uma novidade, por favor. — Scorpius surgiu, com o veneno de sempre.
— De onde você veio, estrume? — Laurie perguntou, chateada.
— Do meu tempo de Adivinhação. Foi péssimo, a propósito. — Declarou, servindo-se de fígado de morcego.
— Por que vocês insistem em fazer matérias que não suportam? — Bufei, irritada. Eu não sei, mas acho que todos são masoquistas e não querem admitir. Eu mesma, na primeira oportunidade, larguei todas as aulas que considerava uma perda de tempo e segurei em minha grade apenas aquilo que me agradava.
Quer dizer, Brandon e Laurie possuíam boas justificativas — em partes para Ryder, afinal, fazer algo obrigado pela família é complicado. Agora, Malfoy tinha uma mente muito fechada para ser bom em Adivinhação. Era difícil imaginar um garoto tão racional acreditando em borras de chá, por exemplo. Uma perda de tempo para seu cérebro objetivo.
— Eu quero passar no máximo de NIEMs possíveis, você sabe disso. — Ele me deu um olhar expressivo, trazendo à tona uma memória de uma conversa nossa, compartilhada em uma aula de Feitiços, no terceiro ano, que era conjunta entre Sonserina e Corvinal.
"- Merda! Eu desisto. — Joguei minha varinha longe, brava.
— Você tem que ter paciência, Rose, manter a calma e tentar de novo. — Scorpius comentou, executando o encantamento de reparação com um floreio exemplar.
— Você não entende, Scorp. — Abaixei a cabeça, exausta. — Primeiramente, você é inteligente, sabe fazer esse tipo de coisa. Em segundo lugar, é muito complicado ser uma Granger-Weasley. Qualquer ensinamento vira uma nuvem de pressão colocada em meus ombros: eu tenho que saber tudo, conseguir tudo, ser incrível em tudo. — Sussurrei, com vergonha de minhas palavras.
É claro que Malfoy ouvira, com sua audição atenta.
— Eu entendo mais do que você imagina, ruiva. — Comentou, distraído com outro objeto quebrado. — Afinal, ser filho de um ex-Comensal da Morte pode ser tão complexo quanto, se não mais. — Encarei seu rosto, frio e duro.
E, com um estalo, depois de dois anos, consegui compreender de algum modo a preocupação de Scorpius em ser a melhor versão de si mesmo. Ele não fazia pela fama, pelos elogios ou pelas oportunidades que abriria, mas pela vontade de restaurar o nome de sua família e deixar seus pais orgulhosos.
Meus olhos marejaram com sua abertura, mesmo que mínima e usada como manobra para me deixar melhor.
— O que você est...? — Cortei sua frase com um abraço, cheio de amor, apertando-o entre meus braços.
— Você é incrível, Scorp. Não deixe que te digam o contrário. Eu, Laurie e Albus te amamos muito e o apoiamos de todas as formas imagináveis. — Tentei encorajá-lo ao máximo com minhas palavras.
Se antes ele nem sequer havia se movido, após esse estímulo, deu uma apertada desajeitada em meus ombros, que provocou um riso anasalado de minha parte.
— Sr. Malfoy, Srta. Weasley, sem demonstrações excessivas de carinho, por favor. — Prof. Flitwick passou por nossa carteira, sem dar tanta importância ao fato quanto pedia a regulamentação escolar.
Eu e Scorpius rimos juntos."
— Rose, você está aí? — Pisquei, nervosa. Laurie passava a mão em frente ao meu rosto, ficando aliviada quando meneei a cabeça em afirmação. Reparei que Scorpius e Brandon também me encaravam. — Garota, essas suas sumidas me deixam assustada.
— São apenas lembranças. — Dei de ombros, tranquilizando-os.
— Ok, ok. — Fez sinal de descaso. — Ryder, você está oficialmente convidado para a festa surpresa de Albus. — Um convite surgiu em suas mãos, tirado de algum lugar de suas vestes. — Aí estão todos os detalhes, mas já adianto que vai ser na Sala Precisa e a melhor coisa do ano nessa escola, porque tudo o que toco vira ouro. — Um pouco convencida, talvez.
— Para de ser boba, Laurie. — Balancei a cabeça, entre risos. — Mas o convite é real. — Tentei soar convidativa.
— Eu nem conheço o Sr. Potter. — O menino respondeu, meio sem-jeito. — Quer dizer, eu sei quem ele é, mas nunca trocamos palavra alguma.
Estava pronta para responder que sua decisão de não comparecer era compreensível, porém Scorpius foi mais rápido.
— Então essa é sua chance. — Apontou para a entrada do Grande Salão, onde Severus se encontrava junto a minha prima, Dominique. Ele procurou por nós, acenando ao nos encontrar. Se despediu da loira, vindo em nossa direção.
— E aí, gente? — Sentou ao meu lado, sorridente. — Tiveram um ótimo dia?
— Esse seu bom humor me enoja. — Scorpius fez cara de asco, ainda comendo.
— Estou tão preocupado com sua opinião. — Albus ironizou, ganhando uma revirada de olhos. — Quem é esse ser? — Indicou o outro moreno com o dedo.
— O nome dele é Brandon Ryder, um "colega" Casa. Não o trate como objeto. — Enfatizei, com o cenho franzido. Severus o cumprimentou, com um pedido de desculpas silencioso.
— Entendi.
— Que milagre. — Debochou Metcalf, ganhando uma risada debochada de Malfoy, aparentemente em concordância.
— Credo, a grosseria de vocês é de um nível extremamente baixo. — Comentei, exasperada, antes que meu primo começasse uma discussão.
— Olha quem fala, a pessoa mais bruta do mundo. — Minha cara foi de pura cólera, enquanto Laurie espreguiçava-se, nem notando (ou não se importando) com minha reação.
— Cala a boca, sua lixosa! — Proclamei em réplica a tal absurdo.
Brandon riu alto com nosso comportamento animalesco, criando um paradoxo com sua origem e postura aristocrática. Encaramos-lhe, alarmados.
— Perdão, é que vocês são divertidos. — Justificou-se, ao terminar de rir de nossa cara.
Continuamos inexpressivos enquanto observávamos sua face.
— Meu Merlim, mil desculpas, não foi minha intenção ser rude e ofender vocês, que parecem ser criaturas incríveis... — Continuou tentando se explicar.
Não aguentei manter minha pose neutra, explodindo em uma gargalhada, sendo acompanhada pelos outros três patetas.
Somente quando consegui enxugar minhas lágrimas foi que reparei no cenho franzido de Brandon.
— Vocês realmente possuem grandes problemas, mentais talvez. — Proferiu, vagarosamente, como se ditasse cada palavra.
— É melhor ir se acostumando. — Dei de ombros, enquanto o respondia.
Albus, Scorpius e Laurie concordaram com a cabeça. Afinal, não havia motivo para negar constatações verdadeiras. Como diria um psicólogo formado (segundo meu conhecimento mínimo na área), aceitar sua loucura é o primeiro passo.
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