–Wilson, você não me ouviu? Ele está querendo re-erguer este Hospital! É claro que eu vou facilitar as coisas pra ele!

O médico observava a diretora e amiga mexer desordenadamente na papelada em sua mesa. Uma de suas mãos esbarrou na xícara de café frio e a derrubou, espalhando o resto do seu conteúdo em cima de alguns prontuários.

–Merda!

–Calma, calma, deixa eu ajudar.

O bondoso doutor afastou a mão dela e pôs-se a limpar a bagunça. Um olhar tímido foi trocado entre eles, porém aquela faísca foi logo esquecida quando ele trouxe o assunto à tona outra vez.

–E a Dra. Cameron? Quando se muda para o novo departamento?

–Ela ainda não foi avisada sobre a promoção. Robert Chase pediu para dar a notícia ele mesmo. Imagino que ele esteja tentando conquistá-la e que pense que com isso terá um bônus com ela. James, o ponto não é este, ok...? – ela enfim achou o que procurava: uma planta da estrutura do prédio — Ele quer conhecer o Hospital... As instalações. O porão.

–O porão?! – Wilson parou no meio do que estava fazendo.

–E você vai permitir?

–Eu já falei: tudo que for preciso para conseguir melhorias para o Hospital.

Ele maneou a cabeça, indeciso. As coisas andavam calmas demais, e ele sabia, não continuariam assim por muito tempo.

Do porão ele pôde ouvir os passos e as vozes dos homens, articulando a melhor maneira de entrar em seu território. SEU território. Ele não podia permitir. Foi então que ouviu um som conhecido... Dra. Lisa Cuddy e sua voz estridente. Ele odiava isso; julgava ser uma agressão aos seus ouvidos. Em seguida, distinguiu outra voz... masculina... possuía um sotaque carregado e trejeitos de quem tem posses.

Se fosse apenas outro benfeitor querendo re-construir o velho prédio ele já tinha decorado tudo que precisava fazer para desestimulá-lo desta idéia... Mas o estrangeiro queria roubar-lhe mais... queria sua garota e ISSO ele não podia permitir... impune ele não sairia.

[i]“Insolent boy!
This slave of fashion
Basking in your glory!

Ignorant fool!
This brave young suitor,
Sharing in my triumph!”[/i]

O grupo chegou até a porta de acesso ao subterrâneo. Robert Chase tomou a frente e forçou a entrada, em vão... Estava trancada.

–Dra. Lisa, você tem a chave?

–Sim...Mas – ela hesitou — ...Não sei se devemos... Porque não terminamos de conhecer os corredores da ala oeste?

–Por favor, dei-me a chave.

Ele estendeu a mão num gesto imperativo, não deixando outra saída à aflita doutora senão ceder aos seus comandos. Ela abaixou a cabeça, esperando algo acontecer... Algo terrível acontecer.

Quando a fechadura girou, um barulho ensurdecedor foi ouvido por todos ao mesmo tempo em que a pouca luz que havia ali se apagava por completo.

–Fiquem calmos! Está tudo sob controle...

“Devo ter um isqueiro aqui em algum lugar” – ele vasculhou o bolso em busca do objeto, sorrindo triunfante quando alcançou o material gelado entre os dedos. Acendeu, mas a chama foi logo apagada por uma onda de vento frio.

“SAÍAM DO MEU HOSPITAL!!!”

–De quem é essa voz? Quem está aí?

Uma parte dos senhores que acompanhavam a visita deram meia volta, batendo uns aos outros no caminho. Eles só queriam sair dalí. Chase olhou confuso ao redor, procurando alguma coisa para se situar, e recebendo em troca apenas o conforto das mãos nervosas da Dra. Cuddy.

–Vamos, vamos embora.

–Nós vamos, mas você vai me explicar o que está acontecendo...

Já na segurança do consultório da Diretora (...)

–Será que a Senhora pode me explicar o que foi aquilo?

Ele olhava sério para ela, sendo acompanhado de perto pelo Dr. Wilson, que se mantinha calado esperando pela explicação que não vinha. A porta se abriu de repente, trazendo uma Allison bastante aflita para perto do jovem.

–Você está bem?!? O que aconteceu??

–É isso que estou esperando ouvir.

Os três olharam para a diretora enquanto ela tentava explicar como aquilo acontecera e quem estava provocando tudo. Enquanto ela falava, Allison empalidecia na cadeira sem conseguir deixar de associar o ‘fantasma do porão’ com o homem misterioso que lhe aparecia em sonhos.

–Allison, meu amor, você está bem?

Ela ouviu Chase perguntar de longe... longe... a voz dele foi sumindo aos poucos, assim como sua visão e tudo mais ao redor.

Ela acordou do desmaio já em um dos quartos do Hospital. Um soro injetado no braço lhe doía, assim como sua cabeça.

–O que aconteceu?

–Você teve um desmaio... Há quanto tempo está sem se alimentar?

Chase estava a seu lado tirando uma mecha de cabelo do rosto dela enquanto contava o que se passou. Ele pensava se deveria acrescentar ao diálogo a surpresa que tinha ajeitado para ela — sua promoção no Hospital, mas julgou que era cedo para contar.

–Eles acham melhor que você passe a noite aqui. Posso ficar com você se...

–Não! Não é necessário Robert... Sei que você tem coisas a resolver, e ficar aqui não é nada confortável. Por favor, vá pra casa... Eu ficarei bem.

Depois de se despedir, Allison suspirou profundamente e fechou os olhos. Deixou-se levar pelo cansaço e adormeceu.

***