The Phantom Of The Opera

14 Wishing You Were Somehow Here Again


Notas iniciais
Hey! Estive ausente e negligenciei a postagem semana passada. Meus últimos dias estão um pouco turbulentos em questões profissionais e, diante destes, acabei por me perder de outros compromissos. Este capítulo, para acrescentar em minha ausência, foi particularmente difícil de escrever, o mais difícil de todos. Nele, tive que tomar uma decisão acerca do enredo. Eu me perguntei, desde que comecei a história, o que poderia fazer para dar a minha particularidade a ela além do óbvio. Temi, ainda temo, pois sendo minha obra predileta, há muito temor em sair dos trilhos e perder tudo o que nela me é importante. A decisão, porém, tinha de ser tomada. Estamos prestes a seguir por caminhos um tanto tortuosos e eu espero que apreciem o que tentarei lhes trazer. Obrigada sempre por sua paciência e gentileza. :) Sem mais delongas, ao capítulo. Música-título: Andrew Lloyd Webber - Wishing You Were Somehow Here Again Boa leitura. :)

Uma procissão lamuriosa atravessa Paris e sua longa estrada até Perros. Madame Eva era a única consciente de que Robin de Locksley crescera na pequena cidade litorânea e sugeriu, quando deteve seu próprio pranto, que levassem imediatamente o corpo velado para ser enterrado onde está o túmulo com os ossos de seu filho e o túmulo simbólico de sua esposa, cujo corpo perdeu-se nas profundezas do oceano. São artistas, aprendizes, lanterninhas, quietos admiradores. Para um homem solitário, muitos comparecem para chorar sua partida.

No majestoso cabriolé puxado por dois fortes corcéis, Guinevere debulha-se em lágrimas contra o marido que, embora deseje consolá-la, é incapaz de tirar os olhos de seu irmão, que é também incapaz de tirar os olhos da comitiva ao longe cercando a charrete com o belo caixão dado por Madame Van Straten. O Visconde Daniel Pendragon mantém-se alerta especificamente na singela visão de uma bailarina em negras vestes, fitando o céu enquanto acaricia a crina macia de Rocinante.

Cochichos debatem a respeito da presença dos grandes nomes da Ópera que, como todos sabem, nunca foram os mais respeitosos ou gentis para com o maquinista-chefe. Zelena e Walsh encaram, em sua bela carruagem, os três homens apertados no assento à frente, August W.B., Erik Mer e o inspetor Graham de Chasseur, pois seu assistente delegado David Berger cavalga ao lado da tristonha Marie Margaret Blanchard, enquanto Killian Jones, em silêncio envergonhado, tenta acompanhar o cavalo de Ruby. A bailarina, atenta à sua irmã adotiva, que ainda tem seus olhos para os céus somente, sequer deseja vê-lo após a humilhação que colaborou para que Regina sofresse nas mãos de Walsh.

— Eu entendo. Sou um tolo. Eu peço o seu perdão. – Sussurra para a jovem.

— Não. – Finalmente o fita, permitindo que Regina cavalgue sozinha por um breve momento, seus olhos em profunda amargura para o Maestro. – Robin era um tolo. Um bom homem tolo. Você, Killian Jones, como todos os outros capachos de Zelena e Walsh, é um corrupto vil e desprovido de compaixão. Fique longe de mim e, pelos deuses, Killian, fique longe de minha irmã.

— Ruby! – Grita para alcança-la, mas a bailarina volta ao lado de Regina, ignorando-o.

Quando o Maestro observa como Marie Margaret parece aconchegada e segura nos braços de David, sente-se ainda mais gravemente um tolo merecedor de desprezo.

Madame Eva divide uma carruagem com Madame Van Straten, seu marido Viktor e sua filha Lilith, pai e filha silenciosos enquanto ambas conversam em sussurros ilegíveis.

— Como Jekyll e Hyde estão lidando com a repercussão do ocorrido, Eva?

— Quando os levou para assumir a Ópera, minha cara, sei que, assim como eu, percebeu você que não são homens capazes de enxergar muito além do lucro e da luxúria. Talvez Henry Jekyll mantenha seu decoro, mas ambos estão em agonia apenas com a possibilidade de ir à falência.

— Ora vamos, minha querida Eva... – Sorri em escárnio. – Estamos falando de dois broncos, de fato, mas não há a menor dúvida do que deve ser providenciado para que a Ópera Fée não encontre em breve sua ruína.

— Você diz, minha cara...

— Regina Mills. – Suspira. – Regina Mills é a chave, ou melhor, o tesouro que estes paspalhos administradores desperdiçam. Não me tome por uma mulher cruel, Eva. Suas filhas são talentosas, todas as nossas meninas são. Zelena é um grande primor. Mas Regina, o Rouxinol de Paris, foi uma revelação de proporções imensuráveis.

— E o Fantasma da Ópera a protege! – Lilith, que estava repousando com a cabeça no colo do pai, ergue-se pálida e trêmula para exclamar.

— Fantasma da Ópera? – Eva sorri o mais docemente possível. – Minha jovem Van Straten, de que disparate está falando?

— Foi quem, ou o que enforcou Robin de Locksley, não foi? Não tente me enganar, mamãe, nas poucas aulas que frequentei de balé, as aprendizas não falavam de outro assunto que não a figura misteriosa que assombra a Ópera Fée e nunca é vista, mas que roubou o coração de Regina Mills.

— Lilith. – Madame Van Straten enrijeceu. – Não é direito intrometer-se em assuntos que não lhe dizem respeito. Seja lá quem for, não há provas concretas de que possui algum envolvimento com Regina Mills. Afirmá-lo seria sugerir que Regina compactua com a vilania cometida contra Robin e isto não é justo para sua imagem.

— Vamos, querida. – Viktor tenta amenizar a reprovação da esposa. – Deite-se e descanse para conseguir manter os olhos abertos em Perros, está bem?

— Concordo plenamente com o que diz. – Eva retoma o assunto particular. – Para salvar a credibilidade da Ópera Fée, Henry Jekyll e Edward Hyde precisam de sua carta mais poderosa.

— Eu falarei com os administradores. – Conclui. – Os farei perceber seus deslizes e providenciar uma obra que deixe Paris de joelhos para ela novamente e seus bolsos transbordantes de ouro e elogios. E o seu dever, minha cara Eva, é garantir que Regina Mills, depois de toda esta balbúrdia, esteja preparada.

— Ela estará. Um Rouxinol, em lamento ou rejúbilo, sempre está.

(...)

O padre desfia palavras floreadas sob a sepultura enquanto os artistas deixam flores e lembranças pessoais, em particular os aprendizes do maquinista-chefe. Cores destacam-se entre os presentes de luto, resignados e mudos, como nunca antes amantes da arte estiveram e como nunca esperaram estar.

— Vá em paz, caro Locksley. – Pronuncia Walsh, interrompendo o padre. – E saiba que, mais cedo ou mais tarde, seu assassino será capturado e enviado ao inferno que é o seu lugar!

— Walsh, este não é o momento. – August sussurra entredentes.

— Pois todos nós, sim, todos nós sabemos onde habita a criatura que cometeu tamanha barbaridade! E se os administradores não fizerem algo, alguém fará, e não será com o decoro da lei, mas sim com a violência merecida! E...

— Basta! – Exclama o Conde Arthur Pendragon, aflito e aborrecido pelo estado emocional de sua Condessa. – Deixe seus pronunciamentos para o tempo apropriado, Monsieur!

Walsh, constrangido, cala-se.

— Veja só, irmã. – Ruby sorri debochadamente. – Este canalha não perde a oportunidade de tornar-se o centro das atenções. Você acha que...? – Seus olhos buscam ao redor. – Regina? Regina, onde está?

Cascos ecoam distanciando-se. A jovem bailarina estica-se para procurá-la na multidão, apenas para encher-se de curiosidade ao vê-la desaparecer com Rocinante entre os túmulos do grande cemitério. Sua irmã adotiva simplesmente esgueirou-se como um camundongo e fugiu. Ruby espera que, ao menos, Regina tenha partido antes de ouvir as palavras odiosas de Walsh.

— O túmulo de seus pais. – Daniel sugere, aproximando-se. – É para onde ela vai, não é?

— Como sempre o faz quando aqui visita, eu suponho. – Sorri para o acanhado rapaz.

— Desejo estar com ela neste momento. Diga-me, Mademoiselle, serei um tolo se cavalgar imediatamente ao seu encontro?

O Visconde pigarreia em seu rubor e Ruby o encara com as sobrancelhas franzinas. Em sua real honestidade, deveria dizer-lhe para cessar com suas tentativas românticas embaraçosas. Deve admitir que, embora não conheça o responsável, Regina está cercada por um amor incompreensível e sigiloso, que nada ela lhes diz, mas seus olhos demonstram o tempo inteiro buscar outro rosto, outra forma, outra presença, quando encontra qualquer outrem. A bailarina deve confessar que sim, Daniel será um tolo se for ao seu encontro quando claramente sua irmã procura a solidão, como sempre o fez.

Mas Regina pode, talvez deva receber um amigo num momento doloroso como este. E mesmo que seu coração retorça-se de angústia e ciúme, não pode negar que ela permitirá muito mais facilmente a entrada de Daniel em suas emoções do que a entrada de sua irmã adotiva.

— Vá, Visconde Pendragon. – Murmura frustrada. – Cuide da minha irmã.

(...)

Há lágrimas em seu rosto e desordem em seus cabelos quando o vento a atinge ante ao veloz Rocinante e seu comando para debandar para longe do enterro de Robin e de todas as mentiras estúpidas que qualquer um deles pudesse proferir. Pois não é necessário lembrá-la.

As manchetes ainda ecoam em seus pensamentos.

“Ela, a misteriosa espreitadora, Fantasma da Ópera, assassinou brutalmente Robin de Locksley no regresso triunfal de Madame Zelena à Ópera Fée”.

Regina Mills correu desenfreadamente do palco uma noite atrás. Há quem diga que correra de pavor para seu camarim, porém, o que ninguém poderia ter visto, é que a bailarina corria através dos corredores escuros para tentar alcançar a temida Fantasma da Ópera. Regina precisava vê-la, precisava encará-la e enxergar em seus olhos as palavras que provavelmente se recusaria a lhe dizer. Um arrependimento, uma razão secreta. Qualquer pista de que ela não poderia ter simplesmente assassinado Robin de Locksley, o homem que de tudo tentou para dar-lhe um lar, que tanto a estimou e, embora impotente, tentou proteger.

Mas Regina não a encontrou. Desde então, desde ainda no anoitecer, deixou-se cair exausta sobre as roseiras que Robin lhe apresentou, as roupas grossas do boticário da peça cobrindo-se de espinhos afiados. Permitiu-se ceder nas flores e inspirar seu aroma, como se o perfume rubro pudesse desnorteá-la dos olhos de Emma Swan e de seus aspectos de geleiras verdejantes e perniciosas no lugar dos olhos, até que Madame Eva fosse buscá-la para a cerimônia.

Desde que conheceu Emma Swan, ainda apenas como uma voz de mistérios na capela silenciosa, fora inundada por sua companhia, pela amabilidade delicada de seu tom, por sua intrigante presença invisível. Hoje mais do que nunca Regina sabe estar perdidamente apaixonada por ela, porém, nunca antes sentiu-se tão sozinha. É uma solidão esmagadora, uma solidão temerosa.

Quem dera fosse o medo, porém, proveniente dos melancólicos e vazios olhos verdes da noite anterior, mas parece fato que nada nela, seu Anjo da Música, pode apavorá-la. Seu terror recai sobre os comentários, os burburinhos da Ópera mais cedo: Assassina! Encontrem-na! Decapitem-na! Todos no teatro lamentaram ou enfureceram-se de sua mera lembrança.

. Sua angústia acentua-se quando percebe que existe apenas uma no mundo inteiro com a qual conseguiria dividir suas emoções transbordantes e conflituosas. E ela, para o seu próprio terror, é a responsável por essas emoções.

Emma Swan é a única com a qual Regina sente-se capaz de expor vulneravelmente tudo o que está sentindo. Há imagens, profusas e monocromáticas imagens em seus pensamentos, como lembranças nubladas: Seus pais mortos no palco do Teatro Manzana de Oro e a imensa dor desta perda que ainda a cerca. Assassinato, o crime que julga, desde aquela trágica noite, mesmo com tão pouca idade, imperdoável.

Imperdoável. – Quão denso e definitivo é o significado desta palavra?

É como se o seu adorado Anjo da Música possuísse duas identidades. Uma é humana, a outra é Fantasma. Uma é bela, a outra é medonha. Uma é benevolente e sonhadora; a outra é vingativa e animalesca.

Regina não sabe, porém, se a bondade está na face e a maldade está na máscara, ou se, em algum mistério profundo, pode ser justamente o contrário. Estariam, então, Anjo e Demônio coexistindo dentro dela?

A mera impressão a apavora. Nunca! – Clama para o próprio silêncio enquanto cavalga. Emma Swan é uma criatura iluminada cujo coração conheceu apenas a dor e é impossível que a morte de Robin de Locksley tenha sido um simples impulso furioso.

Regina declarou que aceitaria todas as faces dela.

Ainda assim, poderia perdoá-la? Caberia a ela perdoá-la? A dúvida, com o passar dos minutos silenciosos, a corrói cada vez mais dolorosamente. E diante dela, sentindo-se vulnerável e em solidão imutável, parte para o único lugar longe de Emma Swan onde sente que poderá ser minimamente compreendida, onde ainda lhe resta aconchego. O túmulo para seus pais.

(...)

Daniel não demora a encontrar Rocinante saboreando capim fresco, as rédeas presas aos galhos de uma árvore e uma sela vazia. Seu próprio cavalo é liberto ali, como e o Visconde sequer estivesse raciocinando corretamente para pensar em amarrá-lo antes de seguir os rastros da bailarina. Sendo um péssimo caçador e com os primeiros flocos de neve misturando-se à terra, o Visconde teme perdê-la no labirinto de sepulturas, porém, uma melodia o alcança como se as portas do paraíso se abrissem melancólicas para recebê-lo.

Ela está cantando.

Indubitavelmente Regina está cantando. Este é o seu refúgio, sua vida, afinal. A Música. O Visconde recorda-se saudoso das tardes de sua infância nas ondas, sob o fraco Sol da manhã, ouvindo-a entoar belas canções. Contudo, desta vez, não se trata de uma cantiga alegre que ela compartilharia para fazê-lo sorrir. Ecoa como um lamento desesperado que vem em um tom tão triste que as lágrimas acumulam-se incontroláveis nas pálpebras do rapaz.

Ele a segue como um menino tímido, vendo-a caminhar lentamente com a voz a plenos pulmões, carregando consigo uma única e rubra rosa. Os tais minúsculos e ainda suaves flocos de neve cobrem sua negra capa e véu, quase cobrindo a fúria agonizante de seus olhos. A rosa, no entanto, como se pudesse estar encantada, mantém-se intacta, intocada, apertada sob seus dedos enluvados, mas vermelha e vibrante como um botão recém-aberto.

E o Visconde, o jovem Daniel Pendragon, atormenta-se no quão sofrida é sua canção, melodia fúnebre e nostálgica que o faz regressar aos dias em que velou seu pranto de saudade dos pais, quando Granny permitia que dormissem juntos para que o menino pudesse distraí-la de suas tristezas. Estranhamente, Daniel percebe agora que sua maior angústia não é somente não receber o coração dela, mas também descobrir que sequer podem chamar-se de amigos nestes dias, como se estivessem mais afastados e inalcançáveis do que antes.

Seria, de fato, um eterno tolo não correspondido?

(...)

O que impede Regina Mills de desabar em soluços é a canção que canta com a imagem de seus pais pairando sobre suas memórias. A Música, Henry Mills dizia, nunca deve ser interrompida ou dada à menores importâncias. Uma vez que inicia-se, deve soar até a última nota, ou todo o encanto da obra se perderá. E Cora Mills, em sua magnífica dança, dizia que deter uma coreografia antes do último movimento era exatamente como estar na travessia de uma longa estrada e, de repente, perder-se em suas curvas, podendo jamais regressar à jornada.

Caminhando ao longo das pequenas pedras, cercada de esculturas de rochas cobertas de musgo, de imundo ouro e de rachado mármore, imagens de anjos que sorriem e guiam as almas para os céus, cruzes retorcidas pelo tempo, nomes desbotados e flores a murchar, com todos os primórdios do inverno, arduamente busca em si o equilíbrio para não destoar e clamar por respostas que, ao menos de seus pais, jamais viriam.

Recorda-se de sua primeira queda no estúdio particular de balé. De como Cora a tomou nos braços, bela e vívida como a mulher sempre fora, prometendo-lhe uma vida de grandezas independentemente de todas as possíveis e prováveis quedas. Recorda-se de tortas doces ao pé da lareira enquanto Henry rodopiava na espaçosa sala ao redor da própria poltrona com seu violino, animado e teatral, enquanto a mãe e esposa os observava nas pausas de suas leituras diárias. Recorda-se com languidez imensurável do dia em que os perdeu, em que suas vestes claras e elegantes tingiram-se de vermelho sobre o palco e o último suspiro de seu pai foi a promessa da vinda de seu Anjo da Música.

Regina amaldiçoa-se. É como se todas as suas lembranças fossem gigantesca onda que a arrasta de volta para o oceano turbulento e de profundidade desconhecida que é Emma Swan, este seu Anjo da Música que, embora não seja o que Henry prometera, mostrou-se muito mais inimaginável e devastador, como se nem mesmo o mundo dos sonhos, mundo mais livre e lúdico que qualquer um conheceu ou conhecerá, pudesse prever que alguém como ela viria para acalentá-la de toda a dor da memória.

Poderia temer o palco, temer perder sua vida sobre ele como ocorreu com seus pais. Poderia temer a imperfeição, medo que Henry e Cora nutriram secretamente desde que a Arte tornou-se o ofício de suas almas. Mas seu único temor, a única razão para encolher-se em si mesma, incapaz de decidir se há razão para temer ou se está sendo tola por não poder evitar é, desde que Emma Swan iluminou seus dias e noites e todas as horas de sua consciência e inconsciência, ver-se sozinha novamente. Como sente-se neste exato momento.

O túmulo de mármore resplandece diante dela. Encontrar esculpidos os nomes e pseudônimos de Henry e Cora Mills, quase intactos após tantos anos, é como alcançar o derradeiro destino de uma viagem exaustiva e repleta de desilusões. Regina deixa-se deslizar no vazio até atingir a fina camada de neve sobre a terra, repousando a rosa ao seu lado. Suas mãos unem-se apertadas contra o peito, como se prestes a rogar, como se prestes a sufocar.

Na escuridão que a assola, mesmo uma resposta silenciosa valerá o pesar.

(...)

Daniel esconde-se atrás da grandiosa estátua e meros metros os separam. Consigo, quase no subconsciente, sabe que não deveria estar ali, que deveria permitir-lhe a privacidade de visitar seus pais. Segrega-se que precisa aproximar-se vigilante, como se estivesse irredutível de que a segurança da bailarina estará ameaçada se deixá-la sozinha. Sua meninice ingênua em par com seu coração perdidamente apaixonado, sabe o Visconde, o faz cego para os sentimentos dela por outro alguém. Fortifica-se esta certeza quando a vê prantear solitária e o responsável por enfeitiçá-la não está por perto para confortá-la.

— Sinto como se não os visitasse há séculos. – Começa diminuta e Daniel espia discreto e silencioso da estátua. – Como se regressasse de uma longa viagem e os encontrasse grisalhos e alegres à minha espera com chá e o cheiro do entardecer na “Playa de Las Catedrales”, na Galícia. Vocês me receberiam de braços abertos e diriam... – Suspira. – “O pior já passou, pequena rainha”.

É tão densa a dor da ausência que Daniel Pendragon prende o próprio respirar e quase denuncia sua presença com um sopro sufocado. No tom de sua voz, o Visconde nota como ela contém os soluços para não interromper-se.

— De algum modo, eu regressei. Não compreendo como, papai, mamãe, mas sei que regressei de uma viagem aos confins de minha própria alma e não soubesse mais como existir em meu exterior.

As sobrancelhas de Daniel unem-se em confusão. Pergunta-se no silêncio se Regina não está agindo profunda e exageradamente ferida com a morte do maquinista-chefe. Independentemente do quão próxima pudesse estar de Robin, a imensidão de sua languidez não lhe parece justificável.

— Hoje, como nunca, preciso de vocês. Henry, meu querido pai, não para ler-me contos Incas ou para tocar-me o seu violino nas tempestades mais cruéis, trazendo com a melodia uma paz necessária. Cora, minha querida mãe, não para abraçar-me e sorrir quando cair desajeitadamente no estúdio de balé ou para ajudar-me a encontrar as conchas mais bonitas. Eu não preciso de vocês neste instante para tortas e cidras de maçã. Preciso que me guiem. Que me mandem um sinal. Uma única luz neste caos.

O ruído engasgado de suas lágrimas alcança os ouvidos de Daniel e, surpreendentemente, o Visconde percebe-se igualmente a chorar, suas belas e nobres vestes ensopando-se depressa, como se a dor da bailarina fosse sua dor e o pesar dela fosse o seu pesar.

— Eu preciso que me ensinem como amá-la. – Soluça. – Como protegê-la e cuidá-la, quando me sinto tão incapaz de proteger e cuidar de mim mesma. Como posso lidar com cada uma de suas feridas expostas, se mal me reconheço cicatrizada das minhas? Como posso aceitá-la inteiramente, se me apavoram as possibilidades de perdê-la para o seu próprio eu a deteriorar-se em amarguras?

Como se abatido mortalmente, Daniel finalmente compreende do que se trata e todas as suas certezas amedrontadas tornam-se categoricamente verdadeiras. Regina Mills, aquela que o Visconde acreditar ser o único e puro amor de sua vida, a quem entregou seu coração desde que conheceram-se na praia, com os cavalos e salpicos da maré alta, está apaixonada pela criatura sem identidade que assassinou brutalmente Robin de Locksley.

Daniel Pendragon nunca sentiu uma dor tão excruciante.

— Eu temo pelo destino deste amor. – O pranto contido faz-se em sussurros trêmulos e assustados, como se fosse ela novamente uma garotinha que acabara de perder seus pais, que os viu perecer diante de seus olhos. – Quando criança, minha memória guarda, tentaram ensinar-me que nenhum bem material ou nobre título, que nem mesmo as mais fundas emoções poderiam equiparar-se ao amor. Mas o que posso fazer se possuo nas mãos somente este amor etéreo do qual falavam-me? Se eu não possuir benevolência, temperança, compaixão e coragem, como este amor se sustentará? Como eu...?

Sôfrega e pequena, as palavras a abandoam com suas lágrimas irrefreáveis. Daniel quer revelar-se, acolhê-la e prometer que tudo ficará bem, mas suas pernas são incapazes de dar um único passo. Se é egoísmo, medo da rejeição ou a fraqueza para absorver tudo o que ouvira, o jovem Visconde não sabe responder-se.

De repente é demasiadamente insuportável. Esvai-se sua cautela, o rapaz ignora a possibilidade de que Regina, ainda encolhida, abraçada ao próprio corpo em choro profundo, possa notá-lo, disparando em sua própria agonia para longe dali. Cambaleia como um bêbado desiludido, como um soldado ferido, atravessando o cemitério vazio que aos poucos cobre-se da fina neve. Salta sobre a cela de seu cavalo que pastava com Rocinante e desaparece. Arthur Pendragon, já retornando ao cabriolé com Guinevere, o vê cavalgando ao longe e clama por seu nome, mas Daniel não pode ouvi-lo. Daniel deseja ser surdo, mudo e cego, sem tato e sem aroma, sem alma, sem lembrança.

Ainda pode vislumbrá-la em seus pensamentos como uma assombração divina, suas vestes negras destacando-se na brancura dos primórdios do inverno, a rubra rosa reluzindo em suas mãos e lágrimas mornas escorrendo em seu rosto empalidecido de uma noite em claro. Ainda sente que precisa dar meia volta e oferecer-lhe a mão, oferecer-lhe uma palavra carinhosa, como quando eram pequeninos curiosos e sinceros como somente a mais tenra juventude permite ser.

O Visconde Daniel Pendragon, porém, não olha para trás. Em sua fuga repleta de vergonha, covardia e medo, distancia-se do cemitério, de Perros, do mar. Ferido pela impossibilidade, o jovem desiludido pergunta-se, pela primeira vez, se este é finalmente o momento em que precisa esquecer completamente Regina Mills.

(...)

Na Rue de Seine, as cortinas carmesins das inúmeras janelas reluzentes da Mansão Van Straten estão fechadas esta noite. Jovem e popular, Lilith promove bailes particulares com nobres íntimos todas as semanas, festas dignas de jornalistas curiosos ao redor de sua casa. Esta noite, porém, Madame Van Straten não pode suportar mais nenhum jornalista impertinente, não quando durante cada segundo do caminho de Perros para Paris estes abutres a cercaram com perguntas indelicadas a respeito de Robin. Embora não se expresse com lágrimas, a antiga administradora da Ópera Fée encontra-se em profunda tristeza por sua perda.

Viktor, com a filha adormecida nos braços, a observa engolir quase ferozmente a taça quase transbordante de seu vinho mais forte, os dedos trêmulos sobre o cristal e os passos agitados pela luxuosa sala de visitas.

— Não seria prudente recolhermo-nos por hoje, minha querida?

— Repouse por agora. – Esforça-se para sorrir-lhe. – Permanecerei aqui providenciando uma declaração honrosa e esclarecedora à imprensa sobre os eventos da noite passada. O comando da Ópera Fée não me pertence mais, mas meu amor por sua grandeza não mudou e não permitirei que afunde-se em fracasso por seus novos administradores serem incapazes de lidar com o público.

— É uma resposta agressiva. – O médico observador ressalta. – O que não é do seu feitio. Não há vergonha em expressar raiva quando a tristeza não pode ser expressada.

— Tivemos um dia turbulento e isto é tudo, meu caro marido. Acomode nossa filha em seu quarto nesta noite fria e faça o mesmo em nossa cama para sua leitura diária. Estarei com você em alguns minutos e livre de todo e qualquer vestígio do vinho e do aborrecimento dos últimos fatos. É lhe prometo.

Com um sorriso suspirado, Viktor Van Straten não permite transparecer a ciência de que sua promessa não será cumprida e que ele adormecerá com o livro nas mãos, preocupado com seu estado emocional. E assim concretiza-se: Madame Van Straten não trabalha em sua declaração, apenas caminha em círculos com a taça cheia e as dúvidas em colapso.

Poderia, enlouquecendo, desmaiar pelo excesso de álcool ali mesmo, sobre a tapeçaria indiana, despertando com os remédios e os olhos preocupados e reprovadores de Viktor, porém, quando a segunda garrafa de vinho esvazia-se e o último gole rasga sua garganta, quando está agitada demais e sente-se correndo de uma extremidade à outra da sala, batidas na porta sobressaltam-na.

Quem poderia ser tão tarde? Com sua nata bravura e coragem líquida correndo por suas veias, inconsequentemente a mulher caminha até o saguão como se estivesse esperando uma visita misteriosa, embora assustada com a incerteza das intenções de quem quer que seja o visitante inoportuno.

Um momento para respirar e a porta é aberta por suas mãos trêmulas apenas o suficiente para identificar a presença desconhecida.

Para seu espanto, não há ninguém. Nem mesmo o som de passos, um vulto suspeito, uma sombra fugitiva sob a luz do luar. Diante de seus pés, porém, há uma carta. Um envelope vermelho de molduras douradas e negro selo em delicado formato de cisne. Uma carta reconhecível e assustadora, a qual já vira muitas vezes nas mãos de Robin no Teatro.

Uma carta marcada pelo Fantasma da Ópera.

As palavras lidas, pronunciadas pelo fino espaço murmurado entre seus lábios como uma oração proibida, como um segredo criminoso e inafiançável se pronunciado em alto e bom tom, que arrepiam-lhe a espinha e seu corpo estremecido desliza fraco pelo batente da porta até a sempre tão imponente Madame Van Straten transformar-se em uma frágil criatura encolhida e prestes a desabar em lágrimas, estampam a superfície do papel com a caligrafia oblíqua e sinuosa sentenciando um sombrio adeus.

“Eu lhe sou grato, Madame Van Straten. A Ópera Fée acolheu-me e deu-me uma vida quando minha única crença era a perdição. Contudo ela, sim, ela, Fantasma da Ópera, e eu lamento e rogarei no mundo dos mortos para que um dia possas perdoar-me, minha cara Senhora... Tornou-se a minha própria vida. ”

Notas finais
Aqui estamos nós. Eu não costumo debater sobre processos criativos, mas gostaria de dizer que foi muito interessante executar esse capítulo e eu adoraria saber o que vocês pensam a respeito dele. Primeiro, porque ingressaremos em um enredo importante a seguir. Segundo, porque... Esse momento, a protagonista no cemitério a cantar para o túmulo de seu pai, existe de formas diferentes no livro e no musical. No livro ela é praticamente igual a uma cena do capítulo 6 dessa fanfic que mostra Daniel e Regina em Perros, quando Daniel escuta Emma cantando no cemitério, embora não a veja, e desmaia. No musical, é uma espécie de reflexão solitária da protagonista para seu pai após o assassinato do maquinista-chefe no meio do espetáculo. Foi difícil projetar como eu poderia dar uma emoção tão intensa quanto esse momento do musical, uma das minhas cenas favoritas, uma vez que aqui tecnicamente estou desprovida de música e totalmente desprovida de imagens diretas. Eu espero, sinceramente, que tenham apreciado. :) E enfim... Para onde essa carta do falecido Robin nos levará? Nos vemos no próximo. :) Obs.: Essa música não é um deleite?