Notas iniciais
Hey! Muito obrigada pelas suas impressões do último capítulo, me foi muito importante recebê-las. Vocês provavelmente perceberam que o capítulo da semana passada também faltou. Como agora os capítulos prontos terminaram e possuo apenas a estrutura da história, provavelmente os seguintes podem levar mais de uma semana, mas não se preocupem, tudo está encaminhado e eu não me excederei na ausência. :) Caríssima DiFabray, eu também gostaria de deixar mil palavras para expressar minha gratidão pela sua recomendação. Sua gentileza me inspirou, me encorajou e me deixou muito mais feliz do que sou capaz de mensurar. Muito, muito obrigada por permitir-se ler esta história, compartilhar suas opiniões comigo e apreciar as músicas e detalhes de cada capítulo. ♥ Música-título: Sarah Brightman - Angel O terceiro consecutivo com uma música dela? Espero que não se importem, não posso me salvar diante da minha predileta. :) Boa leitura. :)

A Mansão mais bela e iluminada da Avenida Quai d’Orsay recebe convidados num amanhecer sombrio do inverno. Por razões distintas, ambos os homens parecem agitados. O Conde, porque ainda está a ruminar seus próprios planos mirabolantes, questionando-se a respeito da eficiência de suas persuasões. O Visconde, por outro lado, muito mais simples, questionando-se todos os possíveis motivos que o fizeram abandonar a miséria de seu quarto, onde estava isolado lamentando sua má sorte. Acredita-se que os Pendragon, originários da Inglaterra, descendem de reis lendários e corajosos, mas Daniel, diferente de Arthur, embora Arthur mostre-se muito menos honesto e gentil, nunca fora encorajado a lutar pelo que deseja.

— Ainda não entendo o que estamos fazendo aqui. Esta trupe tentou prejudicar Regina em sua peça e você me exige presença nesta visita inoportuna? Eu nada tenho com eles e nem me permitirei ter.

— Diz o rapaz que limitou-se a observar a humilhação pública da jovem Mills ao invés de intervir? – Arthur arqueia as sobrancelhas sem encará-lo, esperando que atendam-no à porta.

— Eu nunca... – Daniel arregala os olhos. – Não se atreva, meu irmão! Estava em pânico, não sabia como proceder!

— Tolices! – Resmunga. – Terminamos aquela noite com o pobre homem enforcado e ainda assim você foi incapaz de verificar o estado daquela menina. O amor é uma batalha, pequeno Daniel, sempre foi e sempre será. E aqueles que não estão dispostos à coragem desta batalha, perecem sozinhos e miseráveis. Você é um solitário miserável, Daniel Pendragon?

— Nunca. – Encolhe-se. – Meu amor por Regina não me permite ser miserável. Está em constante e eterna chama abrasadora e assim se manterá.

— Então, sacuda a poeira de suas roupas e equilibre esta gravada, hoje será o...

— Meu bom Conde Pendragon, Arthur! – A porta abre-se bruscamente para revelar Walsh cheirando a álcool com um copo de whisky quase transbordando nas mãos, interrompendo-os bruscamente. – E o jovem Visconde Pendragon, sejam bem-vindos ao meu lar! Aceitam uma bebida?

— Seu whisky mais forte para o meu caro irmão, Walsh, o rapaz está precisando. – Arthur adianta-se pelo saguão, deixando aos serviçais sua cartola, bengala e casaco, enquanto Daniel, provido apenas da camisa e do colete, acanha-se ao lado do irmão mais velho para dentro.

Zelena está recostada sobre seu divã à janela, acariciando sua víbora enrolada como um filhote em seus braços, arrepiando todos os pelos de Daniel. Como sempre, August W.B., Erik Mer e Killian Jones estão espremidos no elegante sofá, bebericando whisky em silêncio enquanto observam a soprano entretendo-se com Hiss. Walsh gesticula para que sentem-se frente à frente com o diretor, o coreógrafo e o maestro, servindo-lhes depressa, como se estivesse muito ansioso por sua chegada. Em uma poltrona isolada, o inspetor-chefe Graham encara o teto em artes barrocas com um assovio fraco, entediado e sonolento.

— Como vai sua bela Condessa, Arthur? – Walsh sorri, acomodando-se casualmente.

— Sentindo-se melhor, eu creio. – O reverencia. – Ainda posso ouvi-la lamentar-se pelos cantos da casa, mas não há mais prantos para o maquinista-chefe assassinado, felizmente.

— Oh, as mulheres, como lamentam...! – O tenor zomba.

— Nós mulheres lamentamos tanto quanto vocês homens usam-nos constantemente para escárnios dos quais ninguém verdadeiramente satisfaz-se em riso, mas sim em pensamentos não expressados do quão patéticas são suas tentativas de diversão. – Zelena manifesta-se, erguendo-se elegantemente do divã para encarar superiormente ao seu redor. – É fortuno que não estejamos aqui para lamentações, tampouco para troças.

— Certamente que não estamos, Madame Zelena. – August contempla apaixonado.

Daniel observa seus olhos de fogo e pergunta-se se esta mulher é realmente a monstruosidade que nela julgou existir desde a primeira vez que deparou-se com seu comportamento arrogante e ardiloso.

— Às vossas ordens, minha querida. – Walsh pigarreia.

— Messieurs, Walsh irá conduzi-los até nossa biblioteca, onde há uma reserva saborosa de whisky e cartas o suficiente para distraírem-se do tempo. Eu os dispenso por agora.

— Eu o farei? – O esposo espanta-se.

— Com imenso prazer, é o que espero. – Inabalável, a soprano enfeita-se de seu mais belo sorriso.

Um a um, devotos admiradores, cumprimentam-na com um beijo nas costas das mãos e seguem um rabugento Walsh com a víbora Hiss apertando suas mãos escadarias acima, exceto por Daniel, impedido de levantar-se pelo próprio irmão, que lança à Zelena um olhar cauteloso. Seja lá o que está por vir, o Visconde parece cada vez mais desconfortável em seu assento.

— Madame Zelena... – Sorri gentilmente. – Devo dizer que é um imenso p...

— Não é necessária sua cortesia, Visconde. – Ri despretensiosamente, sentando-se onde antes apertavam-se seus três súditos admirados. Suas pernas cruzam-se suavemente e sua postura finalmente permite que Daniel relaxa os ombros rígidos. – Você não foi informado do porquê está aqui, eu suponho.

— Acredito que meu irmão tenha deixado o grande mistério à artista! – Ri sem fôlego, tentando soar simpático àquela intimidante criatura.

Embora casual, o Visconde encontra seus olhos e sabe estar sendo meticulosamente analisado.

— Você é gentil, eu posso concluir. – Suspira. – Soa como um ingênuo, mas como um bom rapaz. Um casamento ao seu lado poderia ser, em sua maioria, satisfatório.

— Pelos céus, Madame Zelena... – Alarma-se. – És uma mulher casada e eu...

— Oh, eu imploro. – Revira tediosamente os olhos. – Somente o mais troçável dos ingênuos pensaria que Madama Zelena nutriria mero interesse romântico num Visconde a sair de suas fraldas. Está zombando de mim, Daniel Pendragon?

— Eu nunca ousaria. Peço o seu perdão. – Mira o chão, envergonhado.

— Você se casará com Regina Mills, meu jovem Visconde. – Proclama. – Você se unirá para sempre ao Rouxinol de Paris.

— Creio que neste momento é a Madame quem zomba de mim. – Ergue-se contrariado e ferido. – Não profira para mim tamanha sandice quando rastejo por aquela que não me aceita ou me deseja como tanto a desejo e amo!

— Sente-se. – Rosna. – Você veio aqui para ouvir-me, menino, não para esbravejar. Eu o convoquei até mim, não o contrário. Recomponha-se antes que eu o desclassifique como um companheiro apropriado para Regina Mills.

— Companheiro apropriado? – Franze as sobrancelhas, aturdido.

— É o que desejo para ela. Você terá sua amada e Regina Mills terá a chance de não mais perseguições, manchetes nefastas ou mesmo um destino cruel nas mãos de uma criatura assassina.

O Visconde arregala os olhos em pavor.

— Madame, eu suplico! Diga-me o que sabe a respeito dessa criatura!

— Recomponha-se, Visconde Pendragon, é a segunda vez que levanta a voz para mim. Seja qual for o tom, eu não o aprecio.

— Eu lamento. Não se repetirá, Madame Zelena.

— Você é como um menino ansioso. – Resmunga. – Eu nada sei a respeito da criatura. Apenas sei o que sabem todas as bailarinas que já estiveram na Ópera Fée desde que Regina Mills para lá fora levada. Que ela possui tutela musical misteriosa, embora todos deduzam e segredam que trata-se do famigerado Fantasma da Ópera. E ambos sabemos, Daniel Pendragon, que tal Fantasma é o responsável pela morte de Robin de Locksley.

— Sim. – Busca autocontrole para não exaltar-se. – Arthur não quis me ouvir e Guinevere disse que Regina jamais se envolveria com um tipo destes, mas eu sei, sei que é quem tomou-lhe o coração.

— Isso significa, jovem Pendragon, que este é o seu momento de ser o herói que ela precisa. Regina viu os pais serem assassinados, como acha que a pobrezinha está lidando com a imagem do bondoso Robin enforcado sobre o palco?

— Espere. – Desconfia. – Vocês a estavam humilhando naquela noite. Por que está preocupada com Regina tão depressa? Não me diga que por ela tens afeição...

Os olhos de Zelena, aos quais o Visconde estava atento até então, nublam-se. A grande soprano levanta-se e guia-se para a janela, mirando o dia cavalgar Mansão afora. Seu próprio reflexo na vidraça é tão amargo que, em pensamentos melancólicos, teme que o vidro espatife diante de seu rosto.

— Não tenho ou pretendo afeição por quem quer que seja, Daniel Pendragon. Eu desejo ver Regina Mills longe da Ópera Fée, mas não desejo sua aniquilação e miséria. Desejo que tenha uma vida em paz.

— Eu deveria saber que suas intenções não seriam simplesmente nobres, que estariam cobertas de objetivos soturnos...

— Minhas pretensões, embora eu as tenha revelado, não lhe dizem respeito, tampouco alterariam meu discurso. Seu querido irmão Arthur está satisfeito com a fortuna que Regina Mills herdará de seu distante avô paterno, mas sei que ele não compactua com essa união pelo simples capricho de ansiar ordenar cada passo da vida de seu caçulo. Você é uma marionete nas mãos do Conde e eu sou a única que está lhe dizendo a verdade que deve ouvir acima de qualquer outra.

— E onde é que iremos chegar com toda esta falácia sombria, Madame Zelena?

— Regina Mills está vulnerável. – Vira-se outra vez para voltar a encará-lo taciturna e gélida como uma rocha nas encostas violentadas pelo furor dos oceanos. – Como a criança de finitos e frágeis oito anos que assistiu ao assassinato de seus queridos pais, todos os seus pesadelos mórbidos regressaram, tenha certeza disto. Regina Mills está exposta e ferida.

— Está me pedindo para aproveitar-me de sua fragilidade?

— Estou aconselhando-o a ser o que ela necessita. O herói. O ombro. O confidente. Seja um homem de uma vez por todas, Daniel Pendragon, e esteja ao seu lado neste momento de dor. Alguém de confiança informou-me que ela está confinada em seu quarto e na capela desde que chegou de Perros há quase dois dias, para nada ausentando-se. Enquanto isso você está aqui, amaldiçoando seu suposto destino como uma criança cujos desejos infantis não são cumpridos pelos adultos. Você é fraco.

— Eu não sou fraco! – Brada.

— Sim, você é, Visconde Daniel Pendragon, nasceu fraco, foi criado e ensinado para ser um fraco à sombra de seu irmão e um fraco é tudo o que lhe resta ser se não estiver disposto a fazer o necessário para conquistá-la!

— Madame Zelena... – O rapaz esmorece ao ver como seu corpo parece trêmulo, como se prestes a ceder.

— Todos estão tão ocupados em lamentar o que não possuem e desejam, tão perdidos em suas existências ínfimas que nunca serão capazes de encontrar a coragem necessária para adquirir o que buscam! Tolos! Não conhecem o significado de sacrifício, o significado de sentir-se desumano e imperdoável por seus próprios atos e ainda assim não deter-se em seus objetivos!

— Madame Zelena! – Exclama em tom de súplica e terror ao ver os olhos dela vermelhos em lágrimas duramente contidas a inundá-los.

— Eu sou Madame Zelena, gran-artista, a voz mais sublime de Paris! Eu sou imparável, Daniel Pendragon, e nada me deterá em minha jornada para conseguir tudo o que desejo. Muitas vidas minhas mãos já destruíram, incontáveis sonhos e...! – Sufoca-se num soluço.

Daniel, em sua ingenuidade e bondade, corre de seu assento e toca-lhe o rosto embebido, tentando afastar o pranto que o choca tão profundamente com sua mão trêmula, enquanto a outra alcança a dela, tão trêmula e rígida quanto, as veias furiosas saltando sob a pele. É quase um garotinho assustado diante de Zelena e a soprano teme desabar-se sobre ele.

— Eu sinto muito, Madame Zelena... – Sussurra diminuto.

— Eu sou imparável, Daniel Pendragon. – Repete em tom ameaçador e arrependido, mas também determinado e enfurecido consigo mesma. – Não permita que eu destrua a vida de sua adorada Regina Mills também.

Rompido, ele a abraça. Não teme pela rejeição e, embora os braços de Zelena continuem imóveis rentes ao tronco em espasmos de soluços aprisionados, seus olhos chorosos desaparecem nas vestes do rapaz, abafadas e ininteligíveis palavras de dor.

Submersos, não percebem que Walsh surgira nas escadas assim que seus corpos se encontraram no abraço piedoso de Daniel. Que o tenor torce seu nariz comprido em indignação, pois nem mesmo para o próprio era concedido o direito de abraçá-la livremente. E que, deste instante adiante, quando retorna à biblioteca sem denunciar-se, sua a mente maquiavélica começará a girar retorcidamente suas engrenagens até compreender sua própria ira.

(...)

No findar do entardecer, munido de bravura, Daniel não lamenta novamente quando Madame Eva lhe oferece um olhar compadecido informando-lhe de que Regina não estava disposta o suficiente para receber visitas. Embora não deseje mentir ao bom Visconde, jamais poderia dizer-lhe o que de fato há com a bailarina. Pediu que a dançarina de “confiança” de Zelena lhe dissesse que Regina estava recolhida em seu quarto, porém, durante quase dois dias tem ouvido seus passos em círculos em seu camarim trancado. A cada chamado, nenhuma resposta. Nem mesmo para alimentar-se, banhar-se, nem mesmo um único pedido de solidão. Caminha em seu camarim particular como se tentasse decidir por deixá-lo para respirar ou, como somente Eva e o aprendiz de Robin, Aladdin, poderiam saber, abrir a porta espelhada e descer aos subterrâneos da Ópera Fée.

Sua aflição de Perros ante ao túmulo para seus pais ainda não a abandonou. Ainda se sente frágil e incerta de tudo, porém, tais incertezas assolam seus delírios: Emma Swan, seu Anjo da Música, sua Eros, Fantasma da Ópera, não a procura desde a trágica noite de execução.

Desde que a conheceu, Regina poderia jurar sentir, sob seus pés, vibrações delicadas e quase imperceptíveis constantemente. Sim, sempre as sentia e segredava consigo que era o seu Anjo da Música ecoando melodias nos subterrâneos da Ópera Fée. Quando detém seus círculos furiosos no camarim, o chão lhe parece mais estável e silencioso do que jamais esteve.

Como num súbito instante de desespero, lança-se ao espelho e invade os corredores escuros, para baixo e para baixo, sem hesitação. Batalha inconsciente de seus atos em fúria contra suas emoções inegáveis. Está preocupada, temendo pelo pior, apavorada com a possibilidade de Emma Swan desaparecer novamente de seu mundo, deixando de ser até mesmo a bela Voz das escuridões.

Antes o confronto inevitável – sussurra para si na descida abismal – que a perda muda e lânguida de seu Anjo da Música.

Através de rosas, umidade, o remo desajeitado sobre a fórcola da pesada gôndola em passagens estreitas e inundadas, no silêncio denso dos porões, a jovem alcança o estimado “Palácio do Lago”, tão calado quanto todos os andares superiores.

Como o mais terrível e assustador dos desfechos de uma tragédia em cinco atos distintos e desenfreadamente consecutivos, o grito de Regina regurgita e queda-se em sua garganta num espanto soluçado. Um grito que morre impalpável, mas quase pálido em sua invisibilidade.

O Primeiro Ato: A provocação de um vilão Roméo.

O Segundo Ato: O assassinato de um miserável de bom coração.

O Terceiro Ato: Um velório no despertar do Inverno.

O Quarto Ato: As dúvidas temerosas de uma bailarina.

O Quinto e último Ato: A queda de um Anjo, a aniquilação de um Demônio e o nascimento de uma menina, sim, respeitável público, uma simplória menina sem cor e sem partido, fitando o teto de uma caverna pintada de melodias. Regina a encontra nua da cintura para cima, descalça e abandonada sobre a gôndola onde repousara tantas vezes, seu corpo da cor de um luar adoecido, os olhos verdes quase perdidos na palidez apavorante de sua pele, a máscara intacta como um bem que não pode ser restituído. Não há sinais de prataria ou mesmo garrafas, sugerindo que não comera, tanto quanto as pálpebras vermelhas e olheiras profundas denunciam que não dormira.

— Oh, Emma... – Inclina-se suavemente ao lado da gôndola, tocando-lhe o rosto gélido.

Emma Swan estremece e bruscamente procura pelos olhos dela, como se estivesse completamente inconsciente de sua presença até então. Equidistantes à última noite em que a viu, não lhe parece vazia ou mesmo fantasmagórica. Seu Anjo da Música a olha com terror e escuridão, mais sombria e acuada do que nunca.

— Poderia o Circo de Aberrações reivindicar-me ao seu comando outra vez?

A questão é lançada contra ela como se questionada para ninguém, frágil e sussurrada, e quebra o coração de Regina.

— Ninguém poderá reivindicá-la nunca mais, meu Anjo da Música.

— Detesta-me agora, não é? Não há traição pior do que a queda de uma máscara intocável.

— Eu nunca poderia detestá-la. – Espreme os olhos como se tentasse impedir qualquer tentativa de lágrimas fugitivas.

— Mas você pode temer a mim.

— Eu temo. – Seus olhos encontram-se novamente e Regina não é capaz de lhe negar a verdade. – Eu estou aterrorizada, Emma Swan. Por minha alma, desejo lhe dizer que foi pelo assassinato de Robin. Em minha honestidade crua, estou com medo porque a crueldade que você é capaz de cometer consigo mesma aterroriza-me muito mais do que qualquer gênero de crueldade que pode cometer a qualquer outro.

— Robin... – Sussurra. – Perdeu-se para sempre.

Regina suspira exausta. Esta ainda tão misteriosa mulher diante dela tem o hábito de ser vaga e distante, mas desta vez, é como se estivesse perdida dentro de si mesma, quase incapaz de discernir o que é real é o que é fruto de sua mágoa e autopunição.

Mas os olhos verdes transbordantes de dor alcançam os dela e todas as devastadoras reflexões do cemitério soam como memórias inalcançáveis dentro da bailarina. Quão estranho sentir-se tão inevitavelmente tocada e invadida pelo esplendor de um único olhar.

Seu gesto é, como se todo o resto pudesse esperar, gentil. Regina a impulsiona para sentar-se sobre a gôndola, o corpo entorpecido e frio sob suas mãos. Erguem-se desajeitadamente, mas a bailarina não a deixará cair. Um braço apoiado em seus ombros e, com esforço mútuo, caminham em silêncio para o quarto através das cortinas. A repousa em sua outra bela gôndola, sobre a maciez dos lençóis. Emma Swan senta-se a observá-la, inconsciente do pesar que ela tenta ocultar.

Regina desaparece entre as cortinas e regressa com a tina d’água e panos limpos, suspirando consigo, evitando encará-la. Ajoelha-se diante de seu Anjo da Música, sem uma única palavra, inclina-se sobre ela para libertar as pregas das calças abarrotadas, deslizando-a de suas pernas com uma delicadeza que a faz retrair-se. Contemplando-a despida, a bailarina finalmente percebe cada uma de suas marcas e cicatrizes. Os pulsos e tornozelos. O seio e a clavícula. Seu corpo é como um mapa de memórias excruciantes.

Ela o tecido macio e inicia a travessia suave e vagarosa em suas mãos trêmulas, seus braços e coxas e pernas trêmulas, as costas, o tronco, o pescoço, afastando seus cabelos de lua e, surpreendentemente, usando de toda a sua cautela para não tirar-lhe a máscara. O respirar de seu Anjo da Música é vacilante e ruidoso, como temesse o toque.

Regina não a culparia se temesse diante do que Robin lhe contou sobre o Circo de Aberrações.

Vasculhando entre suas roupas em busca de algo confortável, pergunta-se se Emma Swan estava sempre vestida elegante e excentricamente, nunca permitindo-se algo em cores neutras e tecidos aconchegantes. Um breve pensamento a atinge e pergunta-se se o seu Anjo da Música sequer é capaz de adormecer tranquilamente por uma noite inteira. Cheia de questionamentos irrespondíveis por hora, a bailarina toma as vestes mais leves que encontra e, com a mesma delicadeza, cobre-lhe o corpo ferido e ainda trêmulo.

Um silvo estupefato escapa da garganta de Regina quando sente-se envolvida pelos braços dela, as mãos seguras e suaves em sua cintura. É curioso observá-la assim, de cima. Estes olhos verdes parecem abrandados pelo seu cuidado, embora ainda distantes e dolorosos. São os olhos que apenas Robin de Locksley enxergava, olhos de uma criança forçada a crescer depressa e arduamente para adaptar-se a um mundo que a julgou monstruosa por sua face, sequer importando-se em conhecer seu coração.

De algum modo, Regina sabe que o conhece. Sabe estar repleto de grandeza e do sonho de uma vida em paz onde sua meia face deformada não fira, não apavore, não cause riso. Onde vejam-na como grande artista e amável ser que a todos seria capaz de encantar se uma chance lhe fosse oferecida.

Suas frontes se encontram e os olhos se fecham. É como um regresso para os braços dela, ainda que incompleto, ainda que temeroso e tão cheio de incompreensões. As palmas permanecem quentes em sua cintura e Regina acaricia os fios quase pálidos e finalmente libertos, os dedos sobre a nuca e vagando sobre a meia face descoberta. Habituaram-se ao deleite de seu “Palácio do Lago” com melodias somente delas, porém, o instante é silencioso e frágil. É a melancólica sensação de uma fleuma passageira.

E Regina sabe que, quando abrir os olhos para a claridade de uma pergunta aterrorizantemente necessária, este momento de aconchego irá se esvair. Num suspiro, afaga os ombros rígidos de seu Anjo da Música e aconchega-se em seu colo quando os corpos caem sobre o acolchoado da gôndola.

Esta noite, Regina Mills e Emma Swan atravessarão juntas o universo dos sonhos. Pela manhã haverá confronto, haverá exigência, haverá dor outra vez, a imensa angústia que sempre parece estar entre elas. Pela manhã. Esta noite, ela precisa de um único tempo de carícias e silêncios nos braços de seu Anjo da Música.

Notas finais
Bem-vindos! Tivemos uma face no mínimo curiosa da Zelena neste capítulo, mas fiquem atentos, nem tudo será como provavelmente lhes parece ser. Espero que tenham apreciado esse momento de complexidade e afeto entre nossas protagonistas e prometo que em breve todas as perguntas serão respondidas. :) @dokkstormur .