The Phantom Of The Opera
16 Dark Waltz
Notas iniciais
Regina desperta com o soar delicado de uma branda melodia através do Palácio do Lago, sentindo-se despertar num sonho vívido de uma paz quase inexistente nos últimos dias sombrios. Seus pés tocam o frescor do chão e guiam-na para a canção como um Rouxinol guia-se para o chamado dos seus, suave e curioso, necessitado do que o espera no destino.
Sob a cálida luz das velas, seu Anjo da Música a deslumbra em vestes Borgonha com o violino firmemente posicionado entre o ombro e o queixo e os braços movendo-se contra o instrumento como se manuseasse um precioso tesouro, reverenciando-o em sua execução.
— Eu nunca soube que você era capaz de entoar tão divinamente o violino...
Seu comentário impulsivo interrompe-a e, de repente, o silêncio impera. Emma desarma-se do violino e vira-se para ela com olhos mornos, guardando ainda o seu inteiro pesar, mas também dotados da sua infinda devoção. Regina pensa, por um breve instante, em correr e alcançá-la, cair em seus braços uma vez mais, como se houvesse saudade, como se temesse permanecer por muito distante. Antes de suas pernas moverem-se involuntariamente, porém, ainda com olhos afáveis, as mãos de Emma Swan, erguendo-se cautelosamente, transpassam os cabelos cor de lua firmemente presos, revelando, surpreendentemente, que há mais máscaras nela do que a bailarina poderia suspeitar.
A peruca pálida escorrega em suas palmas e choca-se macia e silenciosa diante de seus pés. Os dedos reclamam os grampos um por um, tantos deles, cada um libertando um punhado de cachos dourados. Regina sabe que seu coração está depressa, quase desesperado. A cor vívida emoldura seu rosto, há tons de luz ao seu redor acentuados pelas velas nos castiçais.
— Rogo que não haja aspectos meus que você não saiba tanto quanto existem aspectos meus que nem mesmo eu posso reconhecer, minha Psyché.
Regina não se permite retomar fôlego ou ciência, simplesmente solando velozmente em sua direção, envolvendo-a em seus braços para imiscuir mãos ávidas nos cachos cor de sol, trêmula diante da maciez que encontra sua pele gelada de ansiedade. Seu Anjo da Música deixa-se inclinar até que suas frontes caiam juntas e os olhos se fechem na apreciação da carícia íntima e descoberta, o som da respiração afogueada da bailarina como música, a única música entre elas.
— Meu Anjo da Música... – Sussurra em angústia e alívio embaraçados. – Por quê...?
— Por quê? Haverá alguma chance de obter o seu perdão diante das minhas razões?
— Isto não é sobre perdão. – Afasta-se para encará-la. – É sobre clarividência.
— Era chegado o dia de sua morte derradeira e Robin estava ciente disto tanto quanto eu. Não me tome por uma assassina cruel e impiedosa.
— Assassinato é assassinato. Não peço sua condenação, peço o seu motivo. O seu, o dele, não importa quais tenham sido os critérios.
— Na noite em que não voltou para os meus braços, dois dias antes de Roméo et Juliette, Robin esteve aqui. – Confessa. – E esta é toda razão pela qual decretou-se o seu fim àquela noite de aplausos e humilhações.
— Não é o suficiente, Emma. Paris viu um homem destroçado pela vida enforcado sobre o palco da Ópera Fée. Eu vi um bom homem, um homem que a amava, morrer diante dos meus olhos.
— Robin há muito desejava abandonar este mundo. E o amor dele por mim o impedia de extinguir-se, de abdicar da vida. – Desfaz-se de seu abraço e seus passos se afastam dela. – O que mais há para justificar?
As sobrancelhas da bailarina franzem em reprovação.
— O que há, Emma Swan, é que não se pode assassinar outra pessoa simplesmente porque ela lhe pediu. Nem sempre é um desejo constante e há um preço alto a se pagar pelo impulso de cada um dos nossos atos. Você era tudo para ele.
— Você convive com uma sociedade deturpada de leis que aprisionam. – Repentinamente, seu tom se torna sombrio e rancoroso. – Se acredita realmente que assassinato é o pior dos crimes, Regina Mills, nada você sabe a respeito da atrocidade que o mundo é capaz de cometer.
— Eu vi meus pais perecerem num palco diante de mim e carrego esta dor ainda hoje tão excruciante e devastadora quanto naquela noite. – As palavras estremecem agonizantes em seus lábios. – Como ousa você, Emma Swan, que manteve-se reclusa nos subterrâneos da Ópera por tantos anos, insinuar que não conheço a crueldade do mundo?!
— Sabes bem porque vivo nesta pocilga, o seu mundo negou-me a luz do Sol, as graças de uma vida mundana onde poderia eu caminhar pelas ruas de Paris sem os uivos de terror de toda a gente! Você, como a mais bela entre todas as mulheres e homens, não se atreva a comparar-nos!
— Oh, isto é perfeito para nós, não é? – Sua voz abranda-se dolorosa e seus olhos enchem-se de lágrimas contidas. – Amparando-nos uma contra a outra, disputando quem de nós possui a maior carga de dores veladas, como se fôssemos juntas uma estúpida tragicomédia de desacertos irremediáveis.
— Você não é uma estúpida tragicomédia de desacertos irremediáveis. – Os olhos de Emma encontram-na com extrema angústia e arrependimento.
— Não. – Soluça. – Você, meu Anjo da Música, muito menos. Juntas, no entanto... É como se você estivesse sempre ao meu alcance e eu nunca pudesse alcançá-la. – Volta a se aproximar lentamente, tocando seu rosto trêmulo. – Tivemos um piquenique à luz de um luar deleitoso... – Seus dedos com delicadeza escorregam para acariciar os lábios. – Quando eu a beijei pela primeira vez e descobri que este mundo, que sempre julguei tão bárbaro e vazio, continha beleza e ternura, e que tais sensações provinham somente da sua presença... E então, dias depois, eu vi em seus olhos esta barbaridade, este vazio, enquanto Robin de Locksley pendia silencioso sobre o palco com os gritos ao nosso redor. E senti como se estivesse completamente ausente. Como se não ver o que vejo agora, esta doçura que seu olhar guarda para mim, significasse voltar para a escuridão da minha vida solitária antes de você.
— Eu lhe causei dor. – Decreta. – Isto é o que sempre temi desde que a encontrei aos prantos na capela.
— Emma... – Suspira exausta e exasperadamente, fechando os olhos como se pudesse fugir da tristeza que as envolve.
Novamente, como se a ferisse tocá-la, esta criatura que transformou tudo o que Regina Mills conhecia em seu mundo, afasta-se de seu toque acalentador. Seu Anjo da Música, a passos largos para longe de seu calor, inclina-se bruscamente contra o piano empoeirado, recolhendo para o peito com as mãos um livro surrado de capa negra preso por uma fita. Seus olhos verdes, perdidos em melancolia uma vez mais, buscam os castanhos dela sob a luz trepidante das velas, cintilam como os olhos de uma criança cuja travessura secreta ainda não fora descoberta.
— Desde a noite em que arrancou-me a máscara, em que sua curiosidade não lhe permitiu deter-se, naquele instante em que você não fugiu da minha monstruosidade, minha Psyché, as portas do céu abriram-se pela primeira vez para mim. – Como uma sombra, mantém-se distante, sondando-a como se temesse nova aproximação. – Passei a habitar um desconhecido e pernicioso mundo de sonhos, onde uma vida de alegrias me seria finalmente possível. Mas o mundo talvez seja muito mais cruel e desprovido de compaixão do que eu e você, meras crianças, somos capazes de dimensionar. – Novamente inclina-se contra o piano como um corvo abatido, tomada pela escuridão. – Você pede que eu abandone esta máscara, mas creia em mim, Regina, de todos os que nos cercam, a mais transparente das máscaras é a minha.
Depressa o corpo da bailarina choca-se contra o seu, uma das mãos apertando carinhosamente seu ombro e a outra deslizando do peito à máscara fria, o rosto pressionado em suas costas rígidas.
— Esta não é a única máscara, meu Anjo da Música. Eu não sei o que você anseia, Emma Swan. Da vida, de mim, da música. Estou em sua escuridão, incapaz de discernir o que você verdadeiramente pretende.
— Você possui o meu amor. – Encontra outra vez seus tristes olhos. – É tudo o que tenho a oferecer, o que nunca pude oferecer a ninguém. Eu estou à mercê dos seus desejos, Regina. Você quer a Ópera Fée? Quer a maestria de todas as artes? Quer que as próprias estrelas brilhem para reverenciar a sua voz? Eu lhe darei.
Regina Mills não saberia expressar coerentemente se seus olhos lacrimejam pela ternura ou por não compreender mais se é realmente isto, o patamar mais divino da arte, o que realmente deseja.
— Oh, meu Anjo da Música... – Sibila quase muda.
Na ponta dos pés, trêmula e delicada, seus lábios tocam os dela como se pudessem apaziguar as imensas dúvidas que lhe acometem, mas o sussurro dela quebra seu encanto.
— Você deve partir. O diretor terá uma nova peça, você receberá um novo papel, pois a arte jamais detém-se para velar pelos que se foram. A arte prossegue.
— Você não compreende? – Seu tom é de um lamento. – Eu não posso, Emma Swan. Eu não posso prosseguir a menos que me ajude a entender porque assassinou o homem que amou durante toda a sua vida. Eu não posso atravessar este limite sem você, meu Anjo da Música. Não me expulse do que a fere, do que a consome. Deixe-me... – Afaga a superfície lisa sob os dedos. – Deixe-me desmascará-la. Sem violência. Sem repúdios, Emma. Eu nunca a machucaria voluntariamente.
— E eu um dia pude jurar que jamais a machucaria, voluntariamente ou não. – Suspira pesarosamente. – Se eu não feri-la, minha Psyché, o mundo me forçará a isto como forçou na noite em que a sentença de Robin de Locksley foi cumprida. O horror é grande demais para que eu lhe conceda a narrativa e... – Por um instante apenas a contempla com sua imensa devoção, empurrando-lhe suavemente o livro surrado de capa negra nas mãos. – E é por isto que eu a concedo a sua própria voz. Prometa-me que a decifrará em sua solidão e, talvez, em seu coração, possa perdoar-me e aos meus atos que tanto a debilitaram.
A bailarina abraça o livro velho e aconchega-se nos braços dela em concordância silenciosa, exausta para pedir-lhe mais. Há tantas perguntas não proferidas em escândalo dentro de si, tantas interrogações ainda feridas pela morte de Robin. Seu Anjo da Música a carrega novamente através dos corredores escuros, escadarias acima, tão delicada e cautelosa que poderia jurar, de olhos fechados, recostada em seu peito, estar flutuando de volta ao seu camarim.
As flores deixadas por Daniel naquela tarde jazem perfumadas sobre a penteadeira e um novo romance que o bibliotecário mandou entregar exclusivamente para sua apreciação a espera sobre a mesa, mas Regina, enfim de olhos abertos, fitando as expressões resignadas dela, acariciando-lhe os recém-descobertos cachos dourados, sequer é capaz de notar que chegaram ao destino. Emma Swan, como de costume, a repousa no divã e a observa antes de partir. Desta vez, a bailarina toma-lhe pelas vestes e as deixa tão próximas que pode sentir quando a respiração de Emma torna-se densa e audível.
— Chegará o dia em que não teremos mais que dizer adeus, meu Anjo da Música?
Ela, misteriosa e imponente Fantasma da Ópera, sorri fracamente, mas tão dócil quanto uma garotinha.
— Chegará o dia, minha Psyché, em que todos os seus desejos se realizarão. Se em minhas mãos poder houver, eu lhe darei tudo o que ansiar.
— Neste momento, então, temos o adeus...
— Eu temo. Adeus, minha Psyché. – Beija-lhe reverente as costas das mãos.
— Adeus, meu Anjo da Música.
Cada passo regredido é uma aflição inconfessa. Emma Swan afastando-se da luz das velas, voltando para as sombras outra vez, longe de seu toque, longe de sua presença inefável. Em postura altiva, mas trepidante, como se hesitasse deixá-la, porém, detém-se diante da porta espelhada, virando-se uma última vez para sentenciar-lhe.
— Regina Mills, por minha alma... Se após as confissões deste livro eu não me transformar em um monstro para você, encontre-me no telhado, onde a lua alta iluminará o inverno e os flocos de neve festejarão sobre nós. Mas se for eu, após sua leitura, o monstro que acredito ser, eu lhe imploro, não me permita ver o terror em teus olhos. Nunca. Não nos teus.
Antes que a súplica se esclareça em seus pensamentos, Emma Swan desaparece para longe de seus olhos e o camarim torna-se gélido e silencioso, embora seu coração pulse incontrolavelmente agitado, quase apavorado.
Estes olhos que esperavam mais um vislumbre de seu Anjo da Música caem sobre o colo, onde agora espera o livro aberto na primeira página. Em garranchos borrados, a tinta escorrida nos pontos finais de cada frase, o título exibe o primeiro passo de sua descoberta.
“Este Diário pertence à Robin de Locksley”.
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