Notas iniciais
Hey! Lamento meu desaparecimento, estive de férias e perdi um pouco o fio. Estou definitivamente de volta para que possamos alcançar até o fim dos mistérios dessa história. :) Música-título: Tarja Turunen - Into The Sun Boa leitura. :)

Fumaça escapa lenta e acalentadora da xícara de chá sobre a mesinha entalhada. Recostada sobre o divã no alojamento das bailarinas, Regina Mills descuida-se da bebida a esfriar, encarando o diário obscuro em suas mãos. É como se abrir a pequena capa de couro negro significasse abrir sua própria caixa de Pandora e deparar-se com um pesadelo sem fim, como cair num abismo ainda mais fundo.

O que poderia haver entre os segredos de Robin de Locksley? O bom homem que conheceu, o único incapaz de proferir-lhe crueldades a respeito de seu Anjo da Música, segredaria a si próprio algum gênero de horror que não ousava compartilhar com ninguém mais? Por que Emma Swan teme sua reação ao ler as confissões do miserável falecido, ainda que de bom coração, maquinista-chefe?

A xícara de chá jaz gelada e sem fumaça.

Diário de Robin de Locksley, primeiro relato: Tempestade.

Hoje o último par de botas que Madame Eva me concedeu da última edição de “Alexandre” perdeu-se num rasgo nas ruas escuras de Paris. A chuva devasta a cidade enquanto nela deslizo sem rumo, embriagado. Vejo gotas infindas caindo sobre a criança recém-nascida que chora inconsolável. Se ela chora pela tempestade ou por esta meia face deformada que mesmo uma alma sem corpo lamentaria, nunca saberei dizer. Sou um andarilho perdido na gélida noite parisiense, encarando a ponte e a correnteza abundante sob as pedras. Que os deuses me perdoem por estender as mãos e deixar o cesto escorregar entre meus dedos, quase caindo no rio profundo. Não posso! Por todas as divindades, não posso livrar-me de uma criatura inocente.

Lamparinas vermelhas cercam-me na escuridão e o grande Le Cirque Bizarre ofereceu-me cinco mil francos para ficar com ela. Vi sua caravana partir de Paris e o choro da criança perturba meu regresso à Ópera Fée como se estivesse impregnada em meus ouvidos. Um choro de dor. Um choro de morte.

Diário de Robin de Locksley, décimo sexto relato: Tormento.

Que diabos, que diabos! O cheiro do sangue do domador de lobos ainda fere minhas narinas, porco abatido na tenda escura do Cirque Bizarre. Sete anos se passaram, sete anos de tragos ácidos a me afogar. Onde está, onde está ela? Ela não é mais um bebê que os deuses não permitiram nascer belo. A máscara de pano imunda e manchada do vermelho-ferro esconde seu rosto amaldiçoado, mas os olhos, os verdes olhos, são tão inocentes quanto antes. Que tolo sou, crendo poder salvá-la pela inocência dos olhos, logo os olhos, que nunca mentem. A carrego desmaiada nos braços para as galerias subterrâneas: Escondida do mundo.

Diário de Robin de Locksley, quadragésimo terceiro relato: Ódio.

Ela cortou minha palma, oh meus deuses, cortou tão fundo a minha palma. Endiabrada criança, ataca-me pela manhã e chora sem medida ao anoitecer. O cheiro de sangue me maltrata desde que Roland nasceu e Marian quase nos deixou naquele parto difícil. Agora escorre da minha palma como as chuvas escorrem dos céus. Maldita esta criança que me encara com seu par de olhos muito verdes, perturbada e só, com essa máscara de pano imunda que só me permite ver os olhos. Pobre criatura, pobre pequeno diabo. De tudo ela se desfaz. Do bom pão assado, das fatias de queijo nobre que Madame Van Straten me concede após seus chás, o leite, o mel. As roupas encurtadas dos figurinos passados, ela me odeia! Meus deuses, eu a quero cuidar, mas ela me odeia em cada um de seus grunhidos de bicho.

Diário de Robin de Locksley, centésimo nono relato: Silêncio.

Onde está Rose? Vasculho o Teatro, mas a pequena aprendiza órfã desapareceu desde que lhe pedi para deixar no lago o pão e o ensopado para ela, criança mascada cujo nome não me diz, no subterrâneo. Eu a orientei muito bem, disse-lhe quais as escadarias, quais corredores, a água e o ar gelado.

Temo confessar a este diário o horror que me esperava ao descer até o último nível quando a noite caiu e nenhum sinal de Rose me foi dado. Seria possível a criança mascarada tê-la mantido e entretido, teria ela feito uma amiga? Esperanças vãs, delas vivo, delas me alimento! Tolo homem, pobre tolo, este sou eu.

Pesadelos de olhos abertos tenho eu ao me recordar. O ensopado no chão como o vômito dos bêbados da meia noite, espalhado. O pão fresco nos resquícios, despedaçado. O pano que os envolvia, esvoaçante. Ela, criança mascarada, empoleirada sobre a pedra com os olhos vidrados transbordando melancolia a observar o lago. Olhos mortos, olhos de névoa.

Na superfície do lago, um pequeno corpo sem vida a boiar.

Diário de Robin de Locksley, centésimo quinquagésimo segundo relato: Marionete.

Por quê?! Oh, por que?! Meus deuses e anjos e santos e entidades e até mesmo os demônios do mais denso e agourento inferno, por que?! Meses atrás eu lhe disse, eu supliquei a ela que não fizesse mal aos outros, que fosse iluminada! Por que, meus deuses?! Ela o fez, ela o matou! Pobre do meu primeiro aprendiz, coitadinho, pobre Peter, bom menino! Que maldita esta criança, ela tem apenas dez anos!

O corpo magro balança na corda, enforcado, mudo, posso jurar que mesmo os curtos cabelos loiros de Peter perderam a cor após sua vida ser arrancada. Ela puxa a corda e a cabeça do defunto se contorce como boneco! Como pode uma criança mascarada de dez anos enforcar um rapaz de dezesseis deliberadamente, como magia, as mãos limpas e macias como se esforço algum fizesse? Maldição, meus deuses! Por que eu o mandei levar-lhe as roupas? Por quê?!

Diário de Robin de Locksley, trecentésimo septuagésimo quarto relato: Ilusão.

Encontro a terceira vítima quando ela completa quinze anos. Lamento muito, lamento ao ver o velho e rabugento Leroy sufocado e estirado no chão, meu assistente, companheiro embriagado, pobre deste homem que decidiu descobrir porque eu tanto venho aqui embaixo.

Mas o que me intriga não é a morte, não mais. São os olhos, precisamente o seu olhar. Ela observa das sombras o cadáver outra vez com os olhos tingidos de morte e melancolia, vazios e perversos, mas quando me encaram, quando seus olhos verdes encontram os meus, eu nada vejo em perversão! São puros e profundos, tristes e inocentes!

Estou certo? Estou cego? Deparo-me com ilusões nos olhos dela, fruto da minha imaginação cansada? Teria ela estes olhos para mim, intensos e imaculados; e para suas vítimas, olhos horrendos e poderosos?

Diário de Robin de Locksley, trecentésimo septuagésimo sexto relato: Correntes.

Eu a temo, perdoem-me os deuses, mas eu a temo como jamais antes temi homem ou criatura em minha vida. Temo como ela me afasta ao invés de me ferir. Temo como me observa sombria, mas brilha com pureza. Temo como ela os mata, como simplesmente os degola, afoga, sufoca. Quando estou no palco, sob as cordas dos pesos, temo que ela surja e me capture em sua eterna escuridão. Cada canto, cada esquina, cada escada deste Teatro esconde seus olhos no silêncio.

Temo seus poucos quinze anos. Será jovem demais para arriscar matar-me? Haverá nela para mim algum gênero de piedade ou gratidão?

Tudo que dela ou de seu refúgio se aproxima é uma ameaça. Nunca há arrependimentos em seu olhar, nenhum traço de compaixão nos dedos trêmulos. É apavorante e muda, não mais encolhida diante de um corpo ensanguentado, somente observante e gélida.

Eu a temo, por isso a aprisiono. Não posso levá-la da Ópera, os médicos não podem descobrir e estudar sua deformidade, não podem buscar curá-la, não tenho em minhas mãos nada para aplacar os pesadelos de sua meia face tão horrenda. Ela deve permanecer para sempre nas galerias do Teatro, para sempre um anjo de asas rasgadas, um demônio de travessuras limitadas, não, não, eu não posso lhe dar uma vida sob o Sol! Perdoe-me, perdoe-me recém nomeada Emma Swan, meu pequeno triste anjo assassino, eu a temo! Eu a temo!

Diário de Robin de Locksley, trecentésimo septuagésimo sexto relato: Terror.

Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo!

Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo!

Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo!

Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo!

Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo! Eu a temo!

Espero o dia em que ela me levará, seja lá quando o dia virá!

Regina inspira o ar como se inspirasse veneno e fecha bruscamente o diário. É arisco e fatal, ardendo violentamente em seu corpo com as lágrimas que ardem no rosto empalidecido. Repentinamente todo o horror incontrolável que sentiu ao presenciar a morte de Robin de Locksley torna-se insuportável diante de tantas outras tragédias. Como se, em seu Anjo da Música, de fato houvesse um demônio pernicioso oculto, liberto inexplicavelmente, sem itinerários, sem autocontrole.

Robin foi o responsável por levá-la ao Cirque Bizarre, o culpado, junto aos inconsequentes e cruéis genitores que dela livraram-se, pelos abusos violentos que sofrera na mão do domador de Lobos. Embora tardio, seu arrependimento o fez salvá-la, mas o dano começara desde que a abandonou nas mãos da cruel trupe e fugiu na calada da noite. O tempo inteiro aquele bom e gentil homem decidiu dá-la aos vis, atirando um bebê inocente, amaldiçoado por ter nascido com uma deformação em seu rosto, mas ainda puro e de infinitas possibilidades a crescer em seu coração, a uma infância de desesperos. Isso destrói seus gestos bondosos e gentis ou somente o faz mero humano errante, como quase todos os outros?

Diário de Robin de Locksley, quadringentésimo sexagésimo oitavo: Pesadelo.

Não nasceu a aurora, mas o álcool infecta meu sangue como um castigo divino. Cada gole, cada copo e garrafa, um temor a me assombrar. Vejo os rostos serenos de Marian e Roland, vejo a criança angelical de face medonha que me incumbiram de atirar à correnteza violenta, de extinguir do mundo, vejo em meus sonhos e somente neles meu maior desejo: esta pobre criança sorrindo para mim como nunca em vida irá me sorrir. Sonho que a ela dei uma vida de alegrias e que pude alcançar seu coração com amor. Mas estou convencido, e confesso com pesar a estas páginas, que Emma Swan ama um único ser neste mundo, ela, a bailarina Mills, Regina, sua aprendiza, detentora de sua inspiração, comandante de sua genialidade.

Sou eu o maior dos tolos por sentir o ciúme e a inveja corroendo-me as veias? Sim, o maior de todos os tolos. É como se em cada horror que ela viveu em sua estadia no Cirque Bizarre incendiasse seu olhar para mim a ponto de eu não compreender se ela me acusa inconscientemente do que fiz ou se acuso a mim próprio. O que importa afinal, raios?! Ela escolheu a bailarina, Regina Mills, para amar, não a mim. Agora, mais do que nunca, sei que Emma Swan jamais será a filha que desejei cuidar e proteger.

Eu a condenei para sempre ao carregar aquele bebê no cesto.

Diário de Robin de Locksley, sexcentésimo quinquagésimo quinto relato: Beijo.

Não consigo deixar de observá-la nesta madrugada fria. Posso transfigurá-la diante de meus olhos num espírito livre a flutuar pelo lago, o pincel deslizando tinta nas paredes, as notas crescentes, as melodias célebres que saltam de suas mãos como se a música pertencesse somente a ela. Talvez pertença. Talvez toda a meia face terrível que os deuses lhe impuseram seja o preço por tão inigualável talento e poder. Esta madrugada, porém, parece mais sublime e íntegra. Foi o beijo – nada me dirá o contrário – o beijo que Regina Mills lhe deu nos bosques em seu imprudente piquenique noturno.

O beijo a mudou.

Um beijo feito de amor muda a todos nós.

Emma Swan está amando e eu volto a ser o bêbado inválido. Ela está amando e não precisa, nunca mais precisará de mim novamente, pois este sentimento preencheu seu coração e em nada mais ela pensa. Não preciso mais preocupar com sua solidão imposta, porque ela jamais estará sozinha outra vez.

Agora, o Fantasma da Ópera sou eu.

Diário de Robin de Locksley, sexcentésimo quinquagésimo quinto relato: Adeus.

Marian, minha amada, guardava um diário sob o travesseiro. Ela dizia que diários são os companheiros mais ternos e leais. Tentei, como tentei, oh, compartilhar deste afeto mudo das páginas em branco e a tinta que escorre melancólica sobre elas. Desejei aprender o amor de Marian e pensei ter conseguido até que o mais cruel do destino nos separasse.

Sinto-me velho, arrastando-me sem propósito. Roland se foi, Marian se foi.

Emma Swan se foi.

Registro aqui meu último relato, caro companheiro terno e leal. Abandono nas mãos do acaso o futuro dela, Fantasma da Ópera, criança amaldiçoada. Que a sorte não permita que encontrem seu refúgio. Que a bondade divina não permita que ela perca toda a sua luz.

E que, em nome de tudo que é mais sagrado, que Regina Mills, esta romântica e curiosa bailarina que tive o prazer de conhecer antes de deixar este mundo, compreenda as consequências, as alegrias e, sobretudo, o significado de amar a um monstro.

É como sua primeira noite no palco, mas ao invés de estar diante de uma plateia calorosa e atenta, mesmo que ainda incerta de suas capacidades, Regina sente-se à beira de um precipício. As palavras nublam a coerência de seus pensamentos, gritam sem som em seus ouvidos, torturantes e assustadoras.

Em tremores, contesta tudo o que leu. O comportamento, as mortes, a inocência intocável e irreconhecível numa alma juvenil que tudo um dia possuiu para ser nobre e límpida. Regina furiosamente protesta em silêncio: Emma Swan não é um monstro. Emma é seu Anjo da Música e anjos jamais poderiam ser monstruosos. Há mentiras a respeito de Robin, que foi o segundo, após os pais de identidade não revelada, a arruinar as chances brilhantes que sua vida poderia ter, independentemente da maldita deformação em seu rosto. E há segredos a respeito de Emma, que já assassinou antes e Regina teme perceber que não duvida que ela o faça novamente.

Regina retoma páginas e rasga àquelas que mais a desesperam, tentando em vão descobrir o que Robin de Locksley quis dizer com “compreender o significado de amar um monstro”. Pois a jovem bailarina não sabe se pode amar um monstro, se pode alimentar suas emoções para com um. Neste instante doloroso e febril, não conhece o limite de amar monstro e anjo se coexistirem dentro dela, seu Anjo da Música. Como intitula-se, afinal, aquele que é capaz de amar alguma forma e gênero de monstruosidade?

Ela não sabe e não consegue pensar. Sua mente é névoa e caos e a imagem de Emma Swan no telhado, à luz do luar, esperando-a, a apavora como jamais pôde imaginar com relação a seus sentimentos para seu Anjo da Música.

Derrotada, não vai ao seu encontro. Aprisiona-se em seu camarim sem explicações para os que questionam, no caminho do alojamento, inclusive Ruby e Marie Margaret, a razão pela qual se parece agora com um espírito pálido e desiludido. O diário apertado contra seu peito absorve as infindas lágrimas que desejam fluentes libertar-se de seus olhos.

Eu a temo? Eu a temo? Eu a temo.

Encolhida, solitária e devastada, Regina Mills é abraçada para adormecer exausta na escuridão de seus próprios medos. Sem roseiras, sem corcéis, sem melodias.

Sem Anjos.

Notas finais
Eu tinha uma intenção muito clara com este capítulo e foi difícil escrevê-lo justamente por causa dela. Espero que, independentemente das razões, vocês tenham apreciado! :) Nos vemos no próximo. :) @dokkstormur .
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.