The Phantom Of The Opera
8 Walking In The Air
Notas iniciais
De volta à Ópera Fée, Regina sente-se em seu lar. Apesar de descobrir a presença de Daniel no cemitério noite passada e de ter que carregá-lo em seu cavalo, desmaiado, deixando-o sob os cuidados de Granny para voltar para Paris, está radiante.Como se emanasse nova e casta luz de si. Isto, claramente, é notado por poucos instantes, não houve nem mesmo tempo para Henry Jekyll e Edward Hyde, os administradores, chegarem até ela e a questionarem sobre seu desaparecimento, além de comunicá-la do regresso de Zelena ao palco. Regina, uma vez mais, esvaneceu misteriosamente de seu camarim. Ou não tão misteriosamente assim, para ela. A passagem do espelho é aberta e o caminho é novamente feito de um silêncio confortável.
“Como é possível?” – Ela se questiona. – “Como é possível que eu tenha sentido tão dolorosamente a ausência de seus braços, se estive apenas por dois dias longe dela?”
Há um novo aspecto no “Palácio do Lago”, como Regina o resolve chamá-lo. Parece mais alegre, há tons vibrantes nos tecidos, tinta vermelha em algumas das partituras das paredes, velas maiores, irradiando claridade, o órgão dourado agora é livre de fuligem e ferrugem. Há comida e bebida em prataria sólida e até mesmo Rocinante recebera uma nova e bela sela. E ela, Fantasma da Ópera, abandonara a capa, vestida em simples algodão branco na chemise, azul-marinho nas calças e mesmo as botas compridas são em escuro tom rútilo. A máscara não a abandona, porém, Regina a sente, de algum modo... Alcançável.
— Como é o mar? – Distante, dedilhando suavemente as teclas do órgão em soando Armand-Louis Couperin, “La du Breuil”, pronuncia-se sem olhá-la.
Regina abandona a poesia de Rimbaud, Verlaine e Boyer, imediatamente capturada pela doçura entorpecente de sua voz. Estica o pescoço para cima, recostada sobre as almofadas da gôndola, curiosa com os ares de inocência que daquela pergunta vêm. E que pergunta estranha! A bailarina jamais pensou que um dia a ouviria, visto que todos os parisienses que conhecia já viram ao menos uma vez o mar e, os que não viram, sequer interessavam-se em ver.
— O mar é um sonho azul. É um espetáculo aquém de toda a Ópera e de qualquer artista. É mistério de dança e som em perfeita sincronia. Pode ser, ao mesmo tempo, encanto e prisão; sentença e plenitude. É belo... É tão belo... – Suspira.
— Belo... – Sussurra. – Belo como você, Regina?
— Como eu? – Ri baixinho, corada. – Nada se compara ao mar.
— Nada se compara a você. – A sinceridade transborda de sua voz. Não é galante, não vem para causar impacto. Flutua de sua garganta à sua língua, naturalmente.
Por um instante, Regina foge da intensidade de seus olhos, tomada por emoções assustadoras. Levanta-se delicadamente da gôndola, lentamente tirando as pernas debaixo do escombro de livros de poesia. Caminha sobre instáveis nuvens até ela, invadindo seu espaço, ultrapassando uma muralha invisível que seu Anjo da Música ainda impunha.
Sem a atmosfera de hesitação ao seu redor, toma uma de suas mãos, afastando-a das teclas, interrompendo a melodia de “Grande Valse Brillante, Opus 34, No 3”, Fryderyk Chopin. Lamenta o cessar da valsa, pois é a primeira vez em que ela, Fantasma da Ópera, lhe concede o prazer de uma canção divertida em Allegro. Emma costumava encantá-la através do Grave e do Adagio, limitando-se à solene melancolia. Contudo, o desejo que lhe despertam as palavras delaa leva a acomodar-se entre a poltrona do órgão e suas pernas, aconchegando-se em seu peito.
— O mar é... Você.
— Eu? – O corpo enrijece sob o seu e as mãos a rodeiam, soando novamente as teclas do órgão. Desta vez entoa “La mort d'Ophélie”, Hector Berlioz. – Por que diz isso?
— Você. – Sorri. – O mar é feito de imensidão e mistério. É feito de melancolia, fúria e solidão. É água que concede e tira a vida na mesma proporção. Em Perros, eu morei perto do mar. Sentia-me, com ele, embalada, protegida, extasiada. Senti-me num trono ao mesmo passo em que senti-me devota. Tive... Medo. Eu o temi ao mesmo passo em que desejei atirar-me nele.
— Você teme a mim? – As teclas simplesmente param de soar quando seus dedos sobre ela estremecem. Através dos tubos sonoros prateados, Regina pode perfeitamente observar o triste olhar refletido.
— Não. – Encolhe-se em seu colo. – Mas temi quando nos conhecemos. Temi antes de atirar-me. Temi estar enlouquecendo e ouvindo uma voz que ninguém mais poderia ouvir... Eu... Eu temi que fosse literalmente um Anjo, um espírito enviado por meu pai, que eu jamais poderia ver.... – Desliza uma de suas mãos belo braço coberto de veludo, até alcançar os dedos trêmulos nas teclas. – Que eu jamais poderia tocar...
Um suspiro fundo projeta-lhe o peito e soa de si como uma confissão.
— ...
— Mas ainda assim...! – Apressa-se a bailarina em acrescentar. – Ainda assim você é o meu Anjo da Música. Você será sempre o meu Anjo da Música.
Sem respondê-la, volta a tocar com a graça angelical de sua natureza. Soa docemente nos ouvidos de Regina “"Prelude in A Minor", do compositor britânico William Byrd. Embora o órgão não fosse nada parecido com um piano de cravo, o instrumento ideal para entoar tal obra, há uma delicadeza esplêndida no modo como o som se propaga a partir da força e habilidade de seus dedos. A bailarina recosta-se em seu corpo e sente-lhe palpitar depressa o coração.
Ou seria o seu próprio em constante disparada?
Mal encerra-se a canção e outra desliza em suas mãos: Do grande Carl Maria Von Weber, conhecido como o pioneiro do romantismo na Alemanha, “Invitation to the Dance". Apesar da fama do compositor, há um ritmo suave e alegre nesta obra em particular. Regina ri de como o corpo dela treme contra o seu, de como sons quase imperceptíveis saltam de sua garganta na passagem veloz das notas. Alegretto! – E as gargalhadas da bailarina ecoam no “Palácio do Lago”.
Quando termina, Regina nada mais tem a oferecer além de um sorriso franco e maravilhado.
— Cante para mim... – Emma pede para a sua aprendiza. – Se você não cantar, Regina, eu perecerei como um Anjo caído. Se não cantar, eu voltarei a ser somente uma Sombra andarilha na Escuridão do Mundo.
E Regina canta. Não é uma ordem obedecida, mas sim um apelo concedido. É o último desejo do condenado. O ninar para a criança da noite amedrontada. É o sopro de vida do moribundo. O milagre ao coração despedaçado. Sua voz retumba nos subterrâneos da Ópera Fée e, para ela, Fantasma da Ópera, retumba em sua pobre alma solitária, retumba em seus olhos de languidez verdejante, retumba em sua existência como a mão que afaga e o chicote que flagela.
Ela, Emma Swan, sente a voz de Regina retumbar-lhe como o mar.
“Feitade imensidão e mistério. De melancolia, fúria e solidão. É água que concede e tira a vida na mesma proporção. A embala. A protege. A extasia. A coroa em um trono ao mesmo passo em que a escraviza de joelhos. A voz de Regina a faz ter medo. A teme ao mesmo passo em que deseja, procura, necessita, obriga-se, precisa atirar-se nela.”
Nada comparável a ela.
— Por favor... – Ao último verso da música, Regina sussurra. – Vá ao Baile de Máscaras comigo.
De imediato, não há resposta. Tensa, rígida, como se simplesmente fosse capaz de deter a própria respiração, silencia-se o corpo e os dedos entoam, desta vez, “Les Ombres Errantes”, do barroco François Couperin. Opondo-se a Carl Maria Von Weber, esta expressa atmosfera de triste reflexão. Há solidão em cada eco melódico nas paredes do “Palácio do Lago”. Regina pergunta-se se esta é a sua resposta musicada.
— Responda-me... – Captura-lhe os dedos correntes para o regresso do silêncio.
— Isto é impossível.
— Então, eu ficarei. – Suspira. – Descerei com a máscara carnavalesca e teremos um baile no Lago. O nosso Baile.
— Você deve comparecer ao Baile. – Replica. – Deve estar presente quando Edward Hyde anunciar o retorno de Zelena e Walsh.
— Por quê? – Desvencilha-se lentamente de seus braços, afastando-se, encarando-a em desconfiança.
— Quando este anúncio for executado, enviarei um lembrete a todos que estiverem valsando no Salão de Mármore.
— E do que se trata este lembrete?
— Trata-se de seus administradores, artistas e público discernirem com os próprios olhos a conseqüência de desafiar o que lhes foi ordenado.
— Você me guiou pela escuridão até a maestria da Música. – Embora minguante, infla o peito e as narinas em altivez. – Forçá-los a colocar-me onde quer que você deseje não é mérito, não é justiça. Preciso alcançar este trono através dos olhos deles, não do seu.
— Os meus olhos veem, Regina Mills, o que os deles não podem ver. Estão cegos de luxúria, de ganância e de inveja. Cegos de pecados funestos. E esta cegueira oprime a arte, oprime a Música! Eu não permitirei, não em minha Ópera!
— Eu não sou um tolo peão do seu Xadrez! – Rosna.
— O que ousa insinuar para mim?! – Ergue-se da poltrona do órgão, investigando-a com olhos predatórios.
— A Música que você me deu elevou-me o espírito. – Enfrenta-a. – Eu não preciso destruir o legado de Zelena, ou mesmo de Guinevere, para dar significado a esta Música.
— Quando finalmente estiver neste trono, Regina, será a minha própria Música que ecoará a sua voz. Quando estiverem hipnotizados por você e confusos por sua ascensão, finalmente “O Fantasma da Ópera”, a minha obra, será apresentada a todos os cidadãos de Paris, a obra que venho compondo desde que nossos olhos se encontraram pela primeira vez. E todos, todos saberão... Todos compreenderão, aprisionados, o que é a verdadeira essência da Música!
— Portanto, é exatamente o que me parece! – Afasta-se dez passos, aturdida, magoada, frustrada, enraivecida. – É isto o que eu sou? É por isto que interceptou-me a sua voz na capela há quase quatro anos? – A encara com um desgosto transbordante. – Para usar-me ante à Ópera Fée? Eu não passo de uma serva lograda para os seus fins?
— É nisto que acredita?! – Velozmente coloca-se diante dela, agarrando-lhe os pulsos e invadindo-a com seu olhar de fogo. – É o que pensa de mim?! Diga-me!
Regina viu a melancolia.E sua cor era verde-esmeralda.
— O que quer? – Sussurra. – O que você verdadeiramente busca?
— Você.
Não há tempo para fugir. O tempo resume-se a um minúsculo grão da ampulheta. Os braços de seu Anjo da Música a apanham como um felino apanha uma presa há muito observada. Apanham-na quase com a confiança que esta presa quer e necessita ser devorada. Se estes braços não a segurassem com tanta destreza e força, definitivamente cederia sobre as próprias pernas, pois sente-se imediatamente rendida e trêmula. O encontro galopante de seus olhos e o desejo venerado que ambos os pares expõem trazem em trovoada o coração de Regina.
Contudo, em meio ao caos apaixonado de seus olhares, Regina faz ecoar dentro de si o som da última palavra que ouvira. “Você”. “Você” dita não em tom de afeição, devoção, confissão. “Você” em tom de amargura, pavor, fuga.
— Não... – Comprime os olhos, virando a cabeça para os lados, evitando a expressão consternada dela. – Não me tente dessa maneira! Estou magoada, não vê?!
— Sim, eu vejo, eu reconheceria seus olhos tristes mesmo em mil olhares de profunda e imensa alegria, Regina. – Mantém uma das mãos em sua cintura, prendendo-a, tomando-a delicadamente pelo queixo com a outra para que se encarem. – Mas agora eu simplesmente não o compreendo.
— Diga-me a verdade. – Suplica. – O que você deseja?
Quando libertada, tenta manter-se de pé. A observa afastando-se nas sombras, fugindo da luz das velas nos candelabros, fugindo dela. Esgueirando-se até órgão novamente. A bailarina não identifica a música agora entoada. Somente é capaz de sentir imensa dor consumindo-a, o choro prestes a escorrer das pálpebras, tamanha é a tristeza da obra. Regina sabe, de algum modo, que a canção pertence a ela. Pode ver-se dançando sem os pés no chão, como se todo o mundo ao seu redor ficasse cada vez mais distante e diminuto, como se seus dedos tocassem as estrelas e seu corpo fosse atropelado pelos cometas em travessia. Como se flutuasse na escuridão do céu noturno e pousasse na magnitude solitária da Lua.
— Eu desejo a Luz. O Sol. As Ruas, aromas, vozes e carruagens. – Profere em tom de poema enquanto a música continua a ressoar. – Eu desejo a paz de dar passos despreocupados pelas avenidas de Paris, sem cruzar a cidade através de esgotos e escuridões. Eu desejo a liberdade, Regina. Eu desejo ser como são as pessoas comuns, com seus empregos comuns, suas mortes comuns, seus lazeres comuns. Amar e ser amada como alguém comum.
— Por quê? Por que ser como todos os outros quando você é extraordinária?
— Há uma grande diferença entre o extraordinário que resplandece e o extraordinário aprisionado, assustador, inaceitável.
— Há uma grande diferença entre a covardia e a impossibilidade. – Insiste.
— Covardia? – Ergue-se novamente da poltrona, mais consternada do que antes. Uma como palha, a outra como faísca: O mínimo toque incendeia o que pela frente vê. A aproximação é igualmente perigosa e Regina sente-se, como sempre, a perder o ar. – Tire-a! Tire-a, você já desejou ver-me uma vez! Tire a máscara! Arrance de mim a máscara e me enfrente. Deixe-me ver se seus olhos não expressarão o terror e a pena! Prove para mim com a sua expressão que não sou o monstro que só sei ser!
O nó que se forma na garganta da bailarina é sufocante. Cada vez pensar no quanto seu Anjo da Música maltrata-se com palavras ríspidas é um aperto doloroso dentro de si, intocável e latejante. Como é triste o seu olhar! Como ela teme a rejeição!
— Por todos os Deuses, você é tão linda... – Regina atrai-se para seus braços, a única reação que suas emoções conflitantes permitem. Esconde o rosto sobre a malha fina de suas vestes, inspirando o aroma suave, aconchegada, sua. – Vá ao baile comigo, Emma. Dê a mim essa honra. Desafie-os.
— Em breve. Pela minha Música, eu juro. Em breve estaremos em todos os bailes de Paris.
— Disse desejar que sua Arte seja ouvida através da minha voz. – Sussurra. – Se alcançarmos o que busca, você sairá para a luz do dia finalmente...?
— É o que espera ou deseja que eu faça?
— Eu desejo que abandone o medo. E que possamos... – Enrubesce, tímida.
— Não há nada que não possa me dizer, minha Psyché. – Ajoelha-se diante dela como um cavaleiro à uma rainha, fitando-a. – Diga-me.
— Que possamos apreciar as Primaveras de Paris. E observar o mar em Perros. Cavalgar nos bosques e estradas. Que sua Música possa ecoar em mim mais profundamente do que nunca quando a Liberdade a encontrar. E que todo este mundo de caprichos, títulos e disputas fique para trás.
— Será feito conforme a sua vontade. Eu prometo. – Curva-se.
— Não... – A toma pelo queixo pálido, sorrindo fracamente. – Não conforme a minha vontade. Se estivesse em meu poder, nós já estaríamos muito longe desde o momento em que me disse que Zelena voltaria ao palco da Ópera Fée.
— A Música é o seu sonho... – Tomba a cabeça para o lado suavemente, analisando-a intrigada. – E você será maior do que Zelena, maior do que Guinevere. Você será ímpar. Será venerada. Isto a desagrada?
— Não, não... – Acaricia suavemente a meia face exposta. – Apenas prometa-me que, o que quer que esteja fazendo, não me levará para longe de você. Prometa-me que eu não a perderei para o que quer você ainda esconda de mim.
— Oh, Regina... – Retraída, foge de seu olhar. – Se os seus olhos vissem, se soubessem...
A densa amargura que escorre de seu sussurro faz a bailarina cair em seus braços novamente, apertando-a com uma força desconhecida, força de escudo, força de muralha. Força de amor.
— Você não pode firmar esta promessa?
— Sim! – Como se despertasse, retribui seu abraço esmagador. – Eu firmo esta promessa diante de você. Você não sabe, minha pupila, minha Psyché, minha amada Regina, rogo aos Deuses que nunca saiba! – Estremece. – Criança amaldiçoada, Criatura de todos os Infernos, Gárgula das Catedrais, Horrendo Abismo é o que sou, é o que sempre fui!
— Pare! Por que está dizendo isso?! – Agarra-lhe o rosto, carne e fria máscara, consternada.
— Para que saiba, Regina, para que jamais se esqueça. – Novamente a cor vibrante da melancolia está em seus olhos. – Minha própria mãe não me suportou ver. Nem mesmo meu pai pôde resistir em repudiar-me. Em toda a minha vida não passei de um trapo destroçado, um rato esmagado na sarjeta, uma prisioneira do ódio e da mágoa.
— Não! – A bailarina imediatamente percebe a inundação arder em seus próprios olhos.
— Eu estava nos alçapões naquela noite. – O verde, tal qual o castanho, começa a turvar-se em lágrimas. – Eu estava no alto, subindo e subindo com a corda. A corda em perfeito laço, era o fim de toda a minha existência. Foi quando ouvi sua voz. Sua voz ecoando na capela e eu soube, eu finalmente soube que havia luz. E que eu deveria proteger esta luz, cuidar-lhe. Você vê? – Pressiona uma das mãos dela contra o próprio peito. – Meu coração entregou-se a esta luz e assim eu não poderia deixar de amá-la. Você e a Música são tudo que amo, Regina. Novamente eu lhe firmo esta promessa, porém, se promessa alguma houvesse, ainda nada seria forte o suficiente para levar-te para longe de mim.
O silêncio as domina. Não é incômodo ou ferino. O silêncio é quase gentil. Os braços dela, Fantasma Da Ópera, mantêm a bailarina contra si, traçando padrões ondulados em suas costas. Os de Regina delicadamente acariciam seu rosto de mármore, os cabelos de luar, os ombros de pedra e torre. A máscara de dor.
Regina desliza suavemente os dedos de uma mão até sua nuca. A pele arrepia-se sob sua palma. A outra mão guia-se pelo peito, pelo coração palpitando ansioso dentro dele. O impulso, um estranho impulso, a faz agarrar-lhe o pescoço frio. Prisão. O alcance dos lábios de Emma está aprisionado. Está em seu poder. E a bailarina respira contra o seu Anjo da Música como se aqueleverde melancólico e assustado lhe roubasse o fôlego. Como um passo na escuridão, aproxima-se dela. Fecham-se os olhos, não há nada para ver. Ignoram o som da água e os relinchos baixos de um Rocinante devorando cenouras no lago, não há nada para ouvir. Esquecem-se das adversidades e dos temores, não há nada a temer. Não há chão, parede e estrutura. Não há limite, imposição, não há beleza e não há feiura.
— Você deve voltar à superfície. Evitaremos assim outro desaparecimento digno de todas as manchetes e cochichos parisienses.
Não há frustração em sua distância.
— Prometa-me que não haverá nenhum lembrete neste baile. Eu preciso alcançar tal patamar de prestígio e influência, que Zelena possui, por mim mesma. Não pode interferir violentamente sempre que achar que me devem uma chance... – Segura ternamente seu rosto frio. – Se desejar ser como as pessoas comuns... Comecemos mostrando à elas o que há de melhor. O que há de bom, de honesto e amoroso.
— O mundo é tão cruel. – Sibila entredentes. – O mundo pode ferir-te tão facilmente. Eu não posso permitir que...
— E não permitirá. – Sorri em sua interrupção. – O que me fez sentir protegida durante os últimos anos foi saber que eu estava sob suas asas, que você estava comigo em toda parte, em todo tempo. Tacitamente, eu sei que estava...
— A cada passo, em cada sonho, cada lua...
— Eu provarei a eles. – Ri como se imediatamente inundada da mais nobre felicidade já sentida. – Nós provaremos a todos eles quem você é, provaremos sua Música e provaremos sua Arte. E não importará, no fim, como você seja no exterior. Estarão tão encantados com o interior que todo o resto será trivial. Prometa-me.
— Eu prometo. – Assente. – Tem a minha palavra de que não importunarei esta comemoração.
Sem tocar os pés no chão, carregada pelos braços dela, o caminho, que começava a tornar-se familiar, é feito em profundo silêncio. Regina está, ao mesmo tempo, decepcionada e aliviada. Aliviada por saber que ela não os enfureceria com sua presença, assim não poderiam feri-la ou persegui-la. Contudo, decepcionada em não tê-la como acompanhante. Não deveria, porém, impressionar-se... Levara quatro anos para finalmente vê-la em carne e osso diante de si.
Novamente em seu camarim, há alvoroço ao lado de fora. Todos comentam sobre o Baile de Máscaras e sobre os pares que nele dançarão. Arranjam-se flores e trinta serviçais limpam os salões do chão ao teto, minuciosamente, cada grão de poeira deve ser eliminado. O piso deve refletir perfeitamente a forma de cada dançarino mascarado na grande noite de festas. O vinho deve ser da melhor e mais cara safra. Deve-se usar cetim negro ou algodão vermelho? Brincos de puro ouro ou gravatas de seda fina?
Embora os sons exagerados do burburinho invadam a paz do quarto, Regina está alheia a eles. É delicadamente colocada sobre o divã, como a rara joia é colocada sobre o veludo da caixa esmerada.
— Sua aparição neste baile será impecável. Não há dúvidas de que, mesmo que não saia de sua boca uma única nota, estarão novamente todos de joelhos.
Corada, Regina sorri.
— Eu poderei vê-la quando o baile acabar?
— Regina...
— Por favor. – Apressa-se em segurar-lhe o rosto retorcido em negação. – Leve-me ao “Palácio do Lago”. Eu preciso dançar ao menos uma música nos seus braços...
— Eu...
— Por favor. – Sussurra. – Por favor, Emma...
Prestíssimo! O Maestro é lançado contra o fosso. Estouram as cordas dos violoncelos. As teclas do piano fogem pelo ar como borboletas em ascensão. O público grita e aplaude de pé, fascinado. Fogo. Fogo em toda parte. As cortinas em furacão, as quarteladas em terremoto, o lustre cantando arranhões de cristal, as pinturas saltando umas dentro das outras, comemorando. Ali está, pela primeira vez, Regina a proferir o seu nome.
Não mais Anjo da Música e Órfã Solitária. Não mais Fantasma da Ópera e Bailarina Promissora. Não mais Tutora e Aluna. Não mais, nunca mais. Dera o primeiro passo para uma intimidade incógnita, simplesmente Regina Mills e Emma Swan.
— A porta estará aberta para você. E ninguém mais além de você, Regina.
No cair da noite, Regina recebe um convite formal e selado para ir ao baile com Daniel Pendragon, o Visconde, seu amigo deixado em Perros depois de uma dolorosa discussão. Com o alvoroço das bailarinas e o conselho de Madame Eva que, sua cúmplice, a convence que será melhor acompanhar-se do rapaz que já conhece, com muita relutância e preocupação, responde ao Visconde que ficará honrada em acompanhá-lo como bons amigos que sempre foram e, ela crê, sempre serão.
Ruby, muito atenta, não deixa de observar que o convite não a alegrou. Marie Margaret, sempre compreensiva com a irmã de consideração, garantiu que encontraria um lindo vestido e distraiu-a de seus temores mostrando-lhe os modelos e falando sobre as máscaras a serem escolhidas. Com as meninas em festa, Madame Eva ditando regras e as irmãs de consideração tentando resgatá-la da longitude, Regina sequer notou a presença do maquinista-chefe, Robin, nos cantos do alojamento, vigiando-a e lançando-lhe um olhar retraído ao vê-la aceitar o convite de Daniel. Se ela o tivesse visto, certamente ouviria uma voz apavorada saindo de seus olhos “Você, menina, Regina, nunca fira o coração dela!”
Mas a verdade é que Regina em nada pensa. Nada a cerca. Nada a toca. Em meio a mil cores e tecidos e danças improvisadas e sorrisos das bailarinas ela, em silêncio, desaparece de si mesma.
Por dentro, está absorta nos olhos inexatos de Emma Swan.
O seu Fantasma da Ópera.
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