Notas iniciais
Hey. Como vão vocês? :) Este capítulo foi... Divertido. Complicado, mas divertido em muitos aspectos. Música-título: Andrew Lloyd Webber - Masquerade. Boa leitura. :)

Trombetas ecoam pelo salão de mármore e estremecem as taças de cristal nas bandejas de prata. Luz e música e dança, por favor! Finalmente é chegado o grande dia. Nem mesmo nas mais grandiosas apresentações dos mais grandiosos artistas há tanta elegância na Ópera Fée. É preciso conter emoções invasivas ao deparar-se com a decoração e vivacidade do Teatro.

Há rubras cortinas de veludo nos vitrais, como se tudo lhes fosse um palco. Há cercos de flores púrpuras nas colunas reluzentes, há tanta graça que se pode jurar, depois de uma taça ou duas de champanhe, que as figuras dos quadros e vasos dançam junto aos convidados.

Os fraques e vestidos; as cartolas e penteados; os saltos e botas; todos chamejando entusiasmo. Há vestes de todos os cantos do mundo, fragrâncias do mais remoto país do Oriente, sorrisos milagrosos e passos ecoantes em toda parte. Há nobres e plebeus, bêbados e sóbrios, coloridos e monocromáticos, todos ímpares, mas todos compartilhando uma alegria em comum: O Baile de Máscaras.

Um arlequim! Um pierrô! Uma columbina! Como rodopiam!

Edward Hyde surge com ouro e branco, esbanjando bom gosto e altivez, com um sorriso brilhante, de braços dados com uma aristocrata, filha de importadores de peles, Anita Lucas. Ao seu lado, de braços dados também com uma jovem aristocrata, herdeira do império inglês de livros de bolso, Belle French, Henry Jekyll sorri timidamente, vestido em couro e verdes tons. Os dois homens com máscaras de fauno e as damas com máscaras de ninfas. Com os pares, Erik Mer e a bailarina Ariel; e August Wayne Booth e a jovem filha de Madame Van Straten, Lilith Van Straten, que raramente era vista em sociedade, também fizeram sua entrada. Lilith sente-se o tempo inteiro sob o olhar atencioso da mãe e de seu pai, o excêntrico médico Viktor* Van Straten.

Logo após sua aclamada entrada, todos os olhares esbanjam devoção à Zelena e Walsh, os astros da Ópera Fée. Com um penteado extravagante e o vestido esmeralda, enfeitado para assemelhar-se a uma cobra, combinando com a máscara de semelhante réptil, sola pelo mármore com o nariz empinado e um sorriso confiante. Walsh a acompanha com igual arrogância, com suas vestes também esmeraldas e uma curiosa máscara de primata.

A fila de casais não se detém.

Marie Margaret aproxima-se vestida como uma princesa, de braços dados com o assistente delegado David Berger, vestido como um príncipe. Os desinformados poderiam até mesmo curvar-se para ambos e suas máscaras venezianas.

Ruby, com um elegante e longo vestido vermelho, de pequenas flores-de-lis em bordado, e a máscara prateada de Lobo cinzento, sorri de braços dados com o orgulhoso Maestro da Ópera Fée, Killian Jones, com seus trajes negros como a noite e uma máscara de crocodilo. O rapaz a convidara de última hora com uma estranha timidez, culpado por não tê-lo feito antes.

Madame Eva é acompanhada por Georges, o cuidador de cavalos, sendo calorosamente recebida pelos presentes e apressando-se para cumprimentar àquela que já foi uma de suas aprendizas: Guinevere, acompanhada do esposo, ambos com máscaras douradas venezianas, quase iguais às da tutora de balé e do cuidador.

Se os olhos dos convidados foram como raios tempestuosos para Zelena e Walsh, como cometas devastadores vão para Regina Mills e Daniel Pendragon. Ainda aérea, mas com um sorriso alegre, a jovem acompanha o bom amigo pelas escadarias do salão.

E que par formam diante da sociedade burguesa!

Regina dispara o coração dos mascarados, embora esteja vestida com o menos previsível e mais simplório dos trajes: O uniforme tradicional da bailarina. Este unido a uma máscara parcial, semi-aberta, fazendo seu rosto assemelhar-se ao de uma boneca. Como um digno par, Daniel está vestido como um Soldadinho de chumbo, o Quebra-Nozes, com direito à uma espingarda descarregada transpassada nas costas com uma baioneta cega e uma máscara como a dela.

Cada vez mais pares preenchem o salão e os corredores de cor e encanto.

— Prometo esforçar-me para dançar dignamente ao invés de observar o desempenho da orquestra sem mim, minha bela dama. – Killian segreda divertidamente à Ruby.

— Eu gostaria de estar em casa treinando minha esgrima, caro Monsieur, assim como sei que você gostaria de estar nos braços de Madame Zelena. Esperemos ser companhias agradáveis neste tempo, portanto. – Sorri para August a filha de Madame Van Straten, Lilith.

— Você está corando, princesa? Não fique nervosa. Eu sequer posso expressar minha alegria em estar aqui, dançando com você. – David Berger sussurra para Marie Margaret.

— Espero que não se esqueça do que proclamará ao público, Monsieur Hyde. Ordenamos que Regina Mills não se aproxime mais do palco como a estrela em nenhuma de suas apresentações! – Walsh firma-se diante dos administradores.

As conversas são obstruídas pela música que ecoa em cada canto. E iniciam-se as danças, seja em círculos particulares de casais apaixonados, sejam as coreografadas. As crianças aprendizas empurram-se atrás das mesas, curiosas para apreciar o espetáculo. Os garçons dançam mesmo com as bandejas, rodopiando entre os pares. Para e

Para esta noite soam os grandes: Ludwig Van Beethoven, Antonio Vivaldi, Georg Friedrich Händel, Johann Sebastian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart, Henry Purcell, Franz Schubert, Joseph Haydn, Fryderyk Chopin.

Há tanta empolgação e energia que esgueirou-se entre os presentes o assistente aprendiz de Robin como segundo maquinista-chefe, um jovem árabe que Madame Van Straten abrigou na Ópera Fée desde que o menino tinha oito anos de idade. Aladdin é um jovem esperto, astuto, criativo e com um dom inigualável para contar histórias. Travesso e responsável pelos cabelos brancos perdidos nos fios claros de Robin, mas um bom ajudante com facilidade de aprender e criar soluções para o que quer que fosse necessário. Na distração dos dançarinos, o jovem surrupia todas as garrafas de vinho que é capaz de carregar, levando-as para os alojamentos da Ópera, onde os que dispensam bailes formais divertem-se em uma orgia de suor e cantoria.

Regina tenta retomar o controle de suas emoções e não pensar tanto nela, seu Anjo da Música. Daniel é um excelente dançarino e age como se o transtorno que viveram recentemente na praia em Perros jamais tivesse acontecido, sorrindo-lhe encantado a todo tempo, comentando as fugacidades e belezas do baile. Até mesmo lembranças felizes de quando eram apenas duas crianças vêm à tona, arrancando sorrisos finalmente sinceros da bailarina. É como receber de volta seu melhor amigo.

Embora não se manifeste a respeito, sente todos os olhares sobre si. O salão transborda rumores e suposições sobre seu suposto envolvimento com o Visconde e tais falatórios a aborrecem profundamente. Não a agrada ter seu nome na língua de todos correndo como se ela estivesse apaixonada por Daniel. Não deseja que esses boatos possam chegar até Emma Swan. Ela o disse ao amigo e nada poderia revogar: Seu coração não pertence a ele e, agora, tampouco pertence a si própria.

Seus pensamentos interrompem-se com o Gran Finale dos dançarinos da Ópera Fée. Talentosos e suaves, executam uma performance sob a luz do lustre e os degraus de mármore, com suas fitas e leques e rodopios. Cantam e saltam, enrolam-se e deslizam. Que deleite. Em sintonia arrancam ovações e aplausos dos casais que não podem evitar cessar suas próprias danças para admirá-los.

Ao final, com acenos e reverências, afastam-se para dar voz a Edward Hyde e Henry Jekyll.

— Honorável público, respeitáveis artistas, saudações! – Hyde sorri. – Sejam muito bem-vindos! Esta noite não é apenas uma comemoração à nossa recente aquisição a Ópera Fée, mas também uma oportunidade de, em uma celebração alegre, concedermos a vocês a mais formidável das notícias!

— Não creio que já está para aposentar-se, Monsieur Hyde! – Killian grita da multidão, arrancando um riso contido de Ruby que aquece seu coração.

— Você adoraria isso, Maestro, mas não é o caso! – O administrador suspira e sorri. – Estamos aqui diante de vocês para, na verdade, anunciar o regresso de nossos maiores artistas, Madame Zelena e Monsieur Walsh!

No salão, aplausos. Dentro de Regina, silêncios.

Então, ela, Fantasma da Ópera, estava certa. Zelena está de volta aos palcos.

— E o que mais...? – Walsh inclina-se um degrau acima sobre o ombro de Hyde e sussurra.

— E... – pigarreia. – É com grande pesar que devo lhes dizer que Regina Mills, o Rouxinol de Paris, voltará a ser uma bailarina do coro, deixando à nossa Musa o papel de soprano mor. Ela desempenhou com graça o ofício de Madame Zelena, porém, seu posto renovado a impede de tornar a nos encantar. Esperamos que continue, Mademoiselle Mills, a nos deleitar com as outras bailarinas!

De repente, o burburinho. Protestos e uma salva de palmas ao mesmo tempo. Madame Eva, estarrecida, assim como suas filhas. Daniel, indignado. Madame Van Straten, muda. O Maestro, o Coreógrafo e o Diretor, ausentes.

— Isto é um absurdo! Como podem?! – Ruby liberta-se dos braços de Killian Jones e aproxima-se das escadarias, encarando os administradores.

— Ruby... – A mãe tenta acalmá-la.

— Não, mãe, nós não podemos ficar calados diante dessa injustiça!

— Eu concordo. – Marie entrelaçou os dedos nos de Ruby. – Regina provou seu talento sem par e conquistou todos os ouvidos parisienses, seu nome estampou há alguns dias cada um dos jornais desta cidade! Não podem descartá-la assim!

— Que ânimos alterados, Mademoiselles! – Hyde ri nervoso. – Não há necessidade de tamanha algazarra e consternação!

— Devo pedir que se afastem e cessem a gritaria. – O inspetor Graham coloca-se como uma muralha entre os administradores e as bailarinas. – Estão criando um conflito desnecessário.

— Eu não compreendo, Monsieur! – Clama, inesperadamente, a Condessa Pendragon, a Grande Rainha, Guinevere, com sua delicadeza habitual. – O que nos impede de ter o privilégio de ouvir duas artistas talentosas e de impecável excelência? Isto é um Teatro, não uma Monarquia.

As vozes ao redor são ouvidas por Regina, mas não absorvidas. Seus olhos estão presos aos de Zelena e neles enxerga um brilho cruel e vitorioso, ao mesmo tempo em que enxerga, nos lábios comprimidos e trêmulos, incômodo. Seria culpa? Zelena é capaz de sentir-se culpada?

— Há uma única estrela a brilhar na Ópera Fée, Condessa, sempre houve. – Jekyll replica com obviedade. – Assim como em seu tempo, Grande Rainha, você era a única a reinar.

— Está partindo de uma premissa de que as regras não podem ser mudadas, Monsieur Jekyll. – Guinevere advertiu. – Seria no mínimo excitante e, de certo modo, revolucionário dar-nos a chance de ver duas estrelas no céu dourado desta Ópera!

— Meu amor... – O Conde Arthur sussurra em aborrecimento ao ver todos os olhos em si.

— Estamos estendendo uma conversa sem objetivos aqui, meus caros! – Edward Hyde, como sempre, choca sua bengala de bronze contra o chão. – Não estou disposto a sofrer transtornos, não esta noite!

— Mas está certamente disposto a um transtorno causar! – Regina finalmente pronuncia-se, arrancando sua máscara e atirando-a ao chão.

A bailarina é movida por uma força irrefreável, ferina e inconsciente. Uma força que acende em seu âmago e espalha-se como fogo dentro de si. Seus olhos escuros e fundos demais fixam-se nos olhos atônitos de Edward Hyde e é como se nela surgisse um vislumbre de seu próprio corpo crescendo, de suas unhas rasgando, de sua pele incendiando, de uma soberania oculta em seu coração manifestando-se, toda a fulgência de uma ousadia e de uma bravura desconhecidas enchendo seus pulmões, a brutalidade de uma revolução correndo em suas veias.

— Mademoiselle...? – Henry Jekyll ergue as sobrancelhas.

— Vocês, Messieurs, estão rendidos às condições perversas de Zelena e Walsh. – Regina prossegue involuntariamente, sentindo o coração pulsar furiosamente. – Por ambos foram comprados, são corruptos, marionetes! E não ignoro que junto a vocês estão Killian Jones, Erik Mer e August Wayne Booth! Não passam de um bando acorrentado à luxúria e tirania dos dois, esmagando a todos os outros artistas, nós, nossos sonhos, o significado de nossas vidas!

— Mademoiselle, está excedendo os limites... – Graham, o Inspetor, adverte.

— Limitam a oportunidade de brilhar e deleitar a apenas dois artistas, como se todos os outros fossem parte de um cenário inanimado! Vocês ignoram a Arte, ignoram que a Música é que nos move, o que mantém muitos de nós vivos! Sequer imaginam que pode haver dezenas de talentos aqui mesmo, neste salão, dezenas de vozes clamando para serem ouvidas, que seja por uma única ária, um único ato!

— Precisa se acalmar, Mademoiselle Mills, talvez eu deva levá-la para... – Graham tenciona descer os últimos degraus em sua direção.

— Alto, Graham. – David, o inspetor assistente, intervém. – Não estamos em serviço esta noite e não permitirei que toque nesta dama por ela estar expressando sua opinião.

— Não se aborreça nem por um minuto a mais, Edward Hyde. – Regina pontua, ignorando os inspetores. – A travessia do destino da Ópera Fée não está mais nas mãos de seus administradores.

Estas são as últimas palavras da bailarina antes de virar as costas a todos e rumar para longe dali. Cochichos espalham-se pelo salão antes de Henry Jekyll recobrar a plena consciência e acenar depressa para que a orquestra recomece a valsa. Aos poucos os convidados dissipam-se. A alegria diminui consideravelmente, porém, ainda é uma noite alegre após a grande tensão, exceto para Arthur Pendragon, que profundamente se enfurece ao ver o irmão desaparecer no encalce de Regina Mills.

No saguão vazio do Teatro, Regina sente que lhe roubam todo o fôlego. Lágrimas ameaçam inundar-lhe. Seu corpo ameaça ceder. É como se seu sangue galopasse, como se uma tempestade a devastasse por dentro. O que ela havia feito?

Não reconhece nenhuma de suas palavras ou atitudes. Jamais sentiu-se movida a tal discurso em tom de ameaça, com tamanha fúria. Seu coração não se acama, palpita vigorosamente, salta de si. Acabara de enfrentar a supremacia estabelecida desde que a Ópera Fée foi fundada e não está arrependida, tampouco amedrontada com os possíveis efeitos, mas ainda assim não compreende o impulso, o clamor.

— Regina! – A voz de Daniel a desperta.

— Daniel...! – Suspira. – Este não é o melhor momento, eu lamento.

— Você foi... – O rapaz sorri. – O que fez àqueles pomposos foi incrível! Digno de uma heroína!

— Não, não foi. Foi uma estupidez. – Franze as sobrancelhas. – Edward Hyde e Henry Jekyll podem providenciar para que eu nunca mais suba em palco algum em Paris em um estalar de dedos. E Zelena... Zelena e Walsh, eu sequer consigo imaginar o que podem fazer.

— Ninguém ousará atentar contra você. – Curva-se diante dela. – Minha família fornece o maior patrocínio à Ópera Fée. Eu não permitirei que toquem em um fio de cabelo seu.

— Não! – Retrai-se, afastando-se. – Não interfira nisto, Daniel. Prometa-me que ficará longe de tudo que diz respeito aos conflitos desta Ópera. Este não é o seu caminho. É o meu.

— Você os enfureceu, Regina. – Insiste, levantando-se. – Mas você é o Rouxinol de Paris, os encantou noites atrás e os estarreceu nesta. Nada podem fazer sem prejudicar a si mesmos. E eu garantirei que esteja protegida!

— Daniel, não faça isso. – Adverte. – Não preciso de proteção e não posso permitir vê-lo envolver-se nisso. Precisa entender de uma vez por todas, por que não pode deixar-me como estou e manter-se como peço, meu amigo, meu apoio? – Vira-se e observa o céu estrelado pelas grandes portas escancaradas do Teatro, exausta.

— Eu estou aqui. – Aproxima-se. – Estou aqui, pronto para viver por você, morrer por você. É você quem precisa entender de uma vez por todas!

— Não desejo que morra por mim, tampouco que viva por mim. E se dessa maneira tenta firmar o seu amor para mim como se eu fosse capaz de retomar meu coração e dá-lo a você, eu lamento... – Entristecida sussurra, soltando os ombros ao respirar fundo. – De nada adiantará. Eu quero que viva, Daniel. Que viva longe das sombras da Ópera Fée e deixe-me seguir minha própria jornada. Se ainda não pode aceitar, peço-lhe que vá. Vá e deixe-me sozinha.

— Eu não posso... – Sussurra, derrotado. – Regin...

— Não sei o que faço aqui. – O interrompe. – Ela. Sim, ela. Ela está a minha espera.

— Regina, espere!

— Eu preciso vê-la, Daniel! – Vira-se abruptamente, afobada.

— Eu lhe imploro!

O gesto a faz chocar-se contra o Visconde. Seus olhos se encontram e Regina vê nele uma dor irremediável, lamuriosa, uma dor implacável. Juraria que o rapaz começará a chorar a qualquer instante. Com a respiração, falha, Daniel segura seu rosto gentilmente com ambas as mãos, movendo os lábios como se tentasse dizer algo, mas a voz se afogasse em sua garganta.

— Daniel... – Ela tenta uma vez mais. – Eu sinto mui...

Não pode sentenciar até o fim. Desesperado, o Visconde Daniel Pendragon, seu amigo, a traz para perto de si e a beija. Não o faz com brutalidade, é o puro instinto de dizer a ela, de firmar-lhe algo que suas palavras não conseguiam expressar. Ao sentir, porém, os lábios de Daniel contra os seus, assim que se unem aos seus em sua determinação, Regina o empurra bruscamente, cobrindo a boca, apavorada.

— Não...! Daniel... O que fez? Não!

E então, o colapso. É tarde demais para dizer-lhe qualquer coisa.

Um grito medonho atravessa a noite. Rasga a Ópera Fée em duas e faz jorrar o sangue de toda a sua arte e memória para todos os lados em um infinito vermelho de dor. É apavorante, delirante. É o gemido da morte, o suspiro final. O coração de Regina lhe explode o peito e a bailarina sente-se trêmula, fraquejando, empalidecendo. A voz, ela reconheceria falando. A voz, ela reconheceria cantando. Mas reconhecer a voz gritando de terror, como um lamento sombrio, decepcionado, traído, mastigado, exposto, a faz desejar gritar com ela, gritar dentro de si mesma e perder a consciência ao ser pelo grito ensurdecida.

Daniel ouve o grito e arregala os olhos, buscando com eles de onde o vem o som. Os dançarinos no Baile de Máscara ouvem o grito e a orquestra simplesmente detém-se, o arrepio na espinha de todos é inevitável. E com os olhos amedrontados, também buscam de onde emite tamanho terror.

Regina, contudo, não precisa buscar com os olhos. O grito vem de sua própria alma. O grito está dentro dela, dentro de seus olhos, ela vê, em um desespero alucinante, Emma, seu Anjo da Música, Fantasma da Ópera, uivando em destroços.

E Regina corre. Corre com toda a velocidade e força que suas pernas podem aguentar, os saltos perdidos na escadarias com o apelo de perdão que vem de Daniel Pendragon. Ela atravessa o salão de vozes curiosas e especuladoras, atravessa os corredores vazios, os alojamentos também cheios de olhos confusos e caçadores. Vê num canto o maquinista-chefe, Robin de Locksley, a olhando assustado, a voz fraca do homem finalmente lhe ecoando: Você, menina, Regina, nunca fira o coração dela!”

"Não. Não. Não, nunca. Nunca a feriria. Nunca!" Diz a si mesma.

Irá ao “Palácio do Lago” e a trará nos braços para repetir, "nunca, nunca, nunca"...

Quando alcança seu camarim, escuridão.

Tateia a moldura. Busca uma fechadura. Seus dedos deslizam firmemente por cada borda. Seus punhos pressionam-se contra o espelho, que não se move, que não se quebra.

A única passagem que conhece para levá-la até ela está trancada. E quando, em desespero descomunal e derrota, deixa que seu corpo escorregue pelo vidro, sentada, abraçando os joelhos e preparando-se para ceder todas as suas forças, Regina ouve. Ouve claramente e, se antes lhe aterrorizava, agora a inunda de uma dor inexperimentada.

Emma Swan, em seu lago nos subterrâneos da Ópera Fée, solitária, não mais grita.

Seu Anjo da Música simples e compulsivamente... Pranteia.

Notas finais
Se eu fosse vocês, estaria aborrecida e transtornada em ler este final, creio eu. Mas é importante, muito importante e necessário o que nos espera nas curvas à frente. O incidente me soou como um clichê de histórias dramáticas, mas esta história veio para ser dramática (o musical é muito mais um romance, o livro é muito mais um suspensa investigativo), onde este acontecimento acarreta ciências essenciais para Regina, especialmente para suas compreensões a respeito de Emma. E embora a atitude imatura e impensada provavelmente os faça desgostar mais de Daniel, o perdão é uma dádiva e nosso Visconde ainda tem muito a nos oferecer. :) Espero que tenham gostado e ficarei feliz em saber de suas impressões! Nos vemos no próximo. :)