Notas iniciais
Hey! Não tenho muito a me estender sobre este capítulo. Diria que ele é essencial para a nossa trama, mas tento fazer com que todos eles sejam, portanto, espero somente que o apreciem. Música-título: Andrea Bocelli - Nessun Dorma Esta bela canção pertence à Giacomo Puccini e foi interpretada por grandes e vários artistas, incluindo a ilustre Sarah Brightman, minha predileta. Por alguma razão, a versão de Bocelli cativou-me para o capítulo. :) Boa leitura. :)

Regina Mills, o Rouxinol de Paris, a jovem que foi de Corista à Estrela, que fez do Baile de Máscaras uma Galeria de Estátuas sem cor, sem fôlego e sem voz; que desafiou seus administradores e desclassificou-lhes a capacidade de liderar a Ópera, caiu doente.

Simplesmente adoeceu. Madame Van Straten trouxe com urgência seu esposo, Viktor, médico de renome, mas nem mesmo o brilhante Doutor soube diagnosticá-la. Que tragédia! As meninas pranteiam o estado febril e catatônico dela, todos os artistas se compadecem, buquês de flores vêm de Norte a Sul de Paris.

No alojamento das bailarinas, Viktor pede que as coristas dançarinas deem espaço à Regina, tentando em vão expulsá-las. Todos estão aflitos: Regina nada diz. Nada expressa. Parece estar cega, entorpecida. Não se alimenta. Não dorme. Como se sua alma e consciência desaparecessem, deixando um corpo oco e gelado para trás.

Contudo, Robin de Locksley, o maquinista-chefe, sabe exatamente qual o seu diagnóstico. Sabe o que a faz parecer um cadáver de olhos abertos, mirando o teto como se clamasse em silêncio que os deuses a levem de uma vez. Não! As lágrimas que escorrem dos cantos de suas pálpebras como a chuva torrencial dispensam à Robin todas as explicações. O grito horrendo dela, Fantasma da Ópera, ainda ecoa nos ouvidos do pobre homem.

— A menina saiu às pressas do Teatro no Baile de duas noites atrás. – Robin interrompe o falatório investigativo de Viktor com as bailarinas e a esposa. – Doutor, ela estava exposta ao frio com um fino traje de balé! E também, o Monsieur sabe, esteve agitada no salão...

— O Monsieur tem razão. – Viktor suspira, fechando sua maleta. – Perdoe nosso nervosismo, Monsieur Locksley. Mas minha cara esposa pediu-me que fizesse o impossível para descobrir o que se passa com a pequena. Ela sempre tem extremo cuidado com as meninas.

— O Doutor sabe como são os jovens! – Ri falsamente o maquinista. – Adoecem e curam-se repentinamente, como milagres!

— Mas esta paciente, bem sabe, é especial, Robin. – O homem sorri. Gosta do maquinista que sempre foi educado e gentil com ele e sua família. – O Rouxinol de Paris precisa estar disposto e preparado para nos deleitar novamente! O que foi aquilo, aquela noite de estreia de Hyde e Jekyll? A menina deixou-nos atordoados!

— Foi um encanto, Doutor. – Assente um tanto impaciente. – E o que me diz a respeito de deixarem-na descansar?

— Perfeitamente, tem razão! – Sacode a cabeça como se despertasse. – Vamos, meninas e minha querida esposa, voltaremos em breve para examiná-la.

A porta se fecha, restando apenas Robin de Locksley e Regina Mills no quarto. A bailarina surpreendentemente tomba a cabeça para o lado e observa como os punhos do maquinista tremem. Parece-lhe que a qualquer instante o homem irá esmurrar qualquer coisa que estiver à frente até destruir tudo a sua volta.

— Eu a avisei. – Ele sussurra. – Eu avisei, nunca a magoe. Você não poderia tê-la magoado. Não sabe o que fez!

Quando, transtornado, aproxima-se da porta para deixá-la, finalmente a voz dela retorna ao corpo como um trovão.

— Não, Monsieur Robin, não se vá! – Implora. – Eu preciso vê-la!

— Se ela desejasse ser encontrada, viria até você, não é, não é? – Vira-se e a analisa com seus olhos circulados de roxo, fundos como os de um cadáver. – Eu a avisei para não ferir-lhe o coração!

— Eu jamais escolheria feri-la, nunca propositalmente, jurarei a você pelas almas de meus pais se necessário for, Monsieur! – Esbraveja firmemente, determinada a fazê-lo mudar sua mente. – Eu preciso vê-la agora!

— Ela está oca, oca como um tronco podre! Está escura, escura como um abismo! Está chorando, chora como um rio violento de correnteza assassina! Não posso, eu não posso!

— Robin... – Ergue-se da cama, vacilante, pousando suavemente uma mão em seu ombro, fazendo-o encolher-se. O pobre maquinista estava acostumado às pessoas lhe tocando para esbofeteá-lo, não para afaga-lo.

— Não posso, não posso... – Foge de seu olhar.

— Olhe para mim. – Toca-lhe o rosto barbudo e grosseiro, ecoando-lhe suplicante e necessitada voz. – Ela nunca me machucaria. Tenho esta certeza em mim como a certeza de que os dias eternamente nascem e morrem, como a certeza de que as chuvas vêm no verão, de que os flocos de neve vêm no inverno, as cores e aromas vêm na primavera e a nudez e nostalgia vêm no outono. Eu imploro, Robin, leve-me até ela. Se meu destino está lançado à esperança de que ela acredite ou não em mim, que assim seja. Ninguém mais pode me socorrer além de você.

Não há palavras, mas sim um triste sorriso. Tudo em Robin de Locksley é triste de algum modo. O maquinista castamente lhe oferece uma das mãos e castamente Regina a aceita. Em profundo silêncio, pontuado apenas pelos suspiros breves do homem, os quais fazem-na crer que a qualquer momento ele se arrependerá e desistirá de ajudá-la, caminham pela Ópera Fée. Pelo proscênio, a coxia. A calmaria de uma segunda-feira.

De repente, os passos do maquinista silenciam-se como sua boca. Chegam aos jardins do Teatro, tão belos quanto todo o resto. Ainda assim, apesar das cores, dos cheiros, da beleza, vazio. Robin a guia até a majestosa roseira, circulando-a e agachando-se atrás do arbusto. Há uma escada ali. Uma escada que Regina jamais vira, embora admirasse constantemente o jardim e as rosas.

— Você encontrará o caminho. – Volta a sussurrar. – Não sou capaz de me atrever a dar um único passo além daqui.

— Sei que existem inúmeras passagens dentro da Ópera. Por que escolheu esta?

— Porque esta me é especial. – Sorri fracamente. – Esta foi a primeira passagem que ela, Fantasma da Ópera, conheceu. A primeira porta de entrada para seu caminho à Ópera.

Por um momento, Regina vê-se contrariada ao perceber que Robin de Locksley sabe muito mais sobre seu Anjo da Música do que ela própria.

— Antes que eu me vá, preciso saber. E sei que ela não me contará. Por favor, Robin.

Ele suspira.

— Estou neste Teatro há muitos anos, Mademoiselle. Quando perdi minha Marian e meu filho, a Ópera Fée tornou-se minha casa. E sou eu o responsável por trazê-la aqui. Eu levei Emma ao subterrâneo do Teatro. Há quinze anos eu lhe dei abrigo.

— Conte-me, eu lhe peço. – Pede ansiosamente.

— Emma era... – Seus olhos marejam. – Emma tinha apenas sete anos, Mademoiselle Mills. Ela tinha uma voz inacreditável e olhos tão bonitos quanto os que tem hoje, embora não fossem tão ameaçadores naquela época. – Vira-se suspirando, tocando gentilmente as pétalas das rosas. – Eu a conheci em um momento terrível demais para confessar... O que vi naquela noite, no Cirque Bizarre, o que fizeram a ela...

— Robin... – Segura firmemente em sua manga, tocando seu rosto banhado em lágrimas.

— O que fizeram a ela... – Repete, fungando e sacodindo a cabeça. – É imperdoável!

— O que ela fazia em um circo...? – Sua voz trepida como uma tempestade.

— O rosto. Sim, o rosto... – Arregala os olhos como se alucinasse. – A meia face deformada. Ela cresceu no Cirque Bizarre, cercada de bêbados inescrupulosos, ladrões esfarrapados, fornicadores irracionais. Quando James, o domador de lobos, deixou o pobre lobo sem comer por quatro dias e o animal atacou um contorcionista, o dono do circo, Rumplestiltskin, assassinou todos os lobos. Foi no mesmo dia em que uma criança indesejada pelos pais, de nada mais que dois anos, foi deixada no picadeiro, desamparada. Emma. Desde então ela se tornou o brinquedo de James, parte de seu espetáculo. Ele a chamava de... “Enfant Diabolique”. A criança infernal.

A mão de Regina desliza de seu rosto e, perturbada, a bailarina abraça o próprio corpo, sentindo-se perder o fôlego e o chão sólido.

— Mais... Eu preciso saber mais.

— Você deveria vê-la, Mademoiselle. – Atormentado, tenciona afastar-se.

— Não, espere! – Agarra-lhe novamente pelo braço, nas mangas. – Eu preciso saber mais. Eu posso suportar...

— Você pode?! – Retorce os lábios em mágoa. – Porque eu não posso. Todas estas lembranças, Marian, Roland, Emma, marcam a alma. – Respira fundo, fechando seus tristes olhos azuis. – Os meninos, meus aprendizes, insistiram que eu os levasse ao Cirque Bizarre quando a trupe estava em Paris. Naquela noite eu conheci Emma. E você quer saber como, Mademoiselle Mills? – Agarra uma rosa nas mãos e a esmaga, trêmulo. – Ela estava enjaulada, sendo chicoteada por James, que gritava “Dance, pequeno diabo”, “Dance, pequena monstrinha”. – A esta altura novas lágrimas lhe escorriam. – Estava com um colete fino e calças curtas; descalça; e a pele suave de menina coberta de vergões, de cicatrizes, de cortes abertos. Mandei os meninos para o Teatro, não poderia permitir que assistissem, mas não pude sair! Eu não pude! Fiquei ali, vendo-a chorar, apavorada, maltratada. Mas ela tinha olhos tão, tão lindos, tão puros... Oh, Mademoiselle.... Ela é, de fato, um monstro...

— Não ouse dizer isso! – Indigna-se.

— Eu ouso! – Rosna. – Não apenas um monstro, mas dentro dela há um monstro horrível, vil, incontrolável. Dentro dela há uma escuridão apavorante. É o que ela conhece. É o que ela aprendeu a ser naqueles anos de tormento no Cirque Bizarre!

— Como o Monsieur a abrigou aqui?

— Não... Não... Não... – Pranteia, negando.

— Como Emma veio para a Ópera Fée, Robin? – Insiste.

— Era noite... – Sussurra, escondendo o rosto nas mãos. – Todos dormiam, embriagados, inconscientes. Invadi o acampamento do circo. Por um momento, eu quis incendiar tudo e todos. Mas eu não podia, Mademoiselle Mills, eu precisava salvá-la. Morreria naquele acampamento antes de deixá-lo sem ela. Quando encontrei a tenda do domador James.... Ouvi seu choro. Ela chorava encolhida no chão, com uma espada do engolidor de fogo nas mãos. E James, morto, caído, degolado. Ela o matou, Mademoiselle. Com sete anos, ferida por aqueles loucos desde os dois anos, ela o matou. Estava esgotada. Eu a tomei nos braços e desaparecemos dali. Sabia que fariam perguntas, então, decidi levá-la ao subterrâneo e lá lhe construí abrigo. Cuidei de seus ferimentos, ela teve tantas febres, tantos pesadelos.... Desde então, lá ela vive. Você entende, Regina? Entende agora por que você não pode magoá-la?

— Eu... – Mostra-se confusa.

— Quinze anos. Quinze anos e hoje eu a temo! Eu não pude tornar-me seu pai, seu amigo, seu confidente, ou seu protetor. Como uma concha, ela se escondeu no fundo de um oceano de sangue, de ódio e.... E de Música. A Música foi sua única família, amiga, confidente, protetora. Eu fui apenas o homem que a tirou do Cirque Bizarre, embora ela já estivesse quase livre após degolar o domador.... Você é a única neste mundo, para ela. Você.... Você é o mundo dela, Mademoiselle Mills. E quando ela estava em meu colo com sete anos, desacordada, enquanto eu a trazia para a Ópera... O cheiro, o sangue, as marcas, as lágrimas secas, o terror.... Eu sabia. Eu sabia que a haviam machucado de todas as formas possíveis! Que a haviam quebrado de todas as maneiras que alguém pode resistir!

O coração de Regina explode violentamente dentro de seu peito. Poderia comparar-se a um trem ou uma terremoto. A um campo de batalha em revolução ou o estrondo de uma bala de canhão. Mas não... Agora percebe-se mais como uma flor murchando no inverno, numa dor que encolhe e que enruga lentamente, quase imperceptivelmente e, de repente, congela em agonia duradoura.

Inclina-se para beijar suavemente as costas ásperas das mãos do maquinista-chefe. Encara mais uma vez seu triste olhar, finalmente compreendendo-o de alguma maneira. E é a vez dela de ter os olhos inundados. Suas pernas fraquejam, mas não sua alma, não o seu ser. Degrau por degrau, desce na direção dos porões, do subterrâneo, do “Palácio do Lago”, de seu Anjo da Música.

Avançando pela escuridão, de repente, há melodia. A Sonata “Pathétique”, de Ludwig Van Beethoven, ecoa em toda parte. Retumba em todas as paredes. Vibra. Regina aperta seu passo, tomada pelo desespero e vontade de vê-la, de fazê-la ciente de que tudo não passou de um engano provocado por Daniel Pendragon.

O “Palácio do Lago” está irreconhecível.

As partituras, frangalhos esvoaçantes. As almofadas da gôndola, penas dançantes. Os espelhos antes cobertos, cacos cortantes. Um violino, um bumbo, despedaçados. Marcas de unha tingidas no chão, nas bordas do barco. E novamente escondida sob a negra capa, ela, Fantasma da Ópera, comandante da amarga canção de Beethoven, inclinada sobre o piano como se prostrada sobre um túmulo.

— Emma... – Chama.

Um eco de notas cruas e rudes. E o silêncio.

Quando se levanta e encontra seus olhos, Regina sente-se atordoada. Somente um cego não saberia dizer o quanto ela havia chorado, o quanto está sofrendo, como está fraca e ainda mais pálida, vazia de tudo, como se estivesse prestes a findar.

— Robin...? – Deduz.

— Sim. Eu o pressionei, Emma. Eu o levei ao limite e exigi que ele me indicasse o caminho. Não o culpe.

— ... – O silêncio recai como um sopro da morte.

— O Baile de Máscaras, eu pre...

— Não! Se por isso você veio, trate de desaparecer! Não me recorde! Céus, você está tentando me matar?! – Engasga nas próprias palavras, bradando.

— Emma! – Corre na direção dela, atirando-se em seus braços. – Eu tinha de vê-la para dizer-lhe que eu não o beijei. Eu não desejei, nem mesmo por um segundo, tocar os lábios de Daniel Pendragon. Eu pensava em você quando ele me interceptou de surpresa, somente em você, sempre em você. Não posso suportar que me odeie!

— Eu não a odeio! – Seus braços continuam soltos e trêmulos, deixando-a solitária no abraço, tremendo da cabeça aos pés. – Eu nunca poderia odiá-la!

Estas belas, mas frias palavras, permanecem flutuantes quando ela se afasta para voltar ao piano. Regina sente-se novamente consumida pelo desespero. Não. Não pode esperar. Não pode observar as sutilezas dela, seu caminhar, sua Música. Precisa saber imediatamente.

— Se não me odeia, por que desapareceu?! – Indaga sua súplica em um grito esganado.

Nenhuma resposta. Nem mesmo um sussurro. Somente seus dedos pálidos descendo contra as teclas do piano como se fosse este uma adaga com a qual ela rasga o próprio estômago e pescoço, observando melodiosamente o espirrar do sangue na garganta e o som grotesco e repulsivo de seus órgãos desabando para fora do corte inferior. Entoa "Fantaisie Impromptu, Opus 66”, de Fryderyk Chopin e há tanta fúria em seu ecoar, que Regina poderia jurar a qualquer momento o instrumento estourar e ruir nas mãos dela.

Uma vez mais concentra-se dentro de Regina uma força incontrolável. Um desespero ditador, um desejo tirano de obter pontos finais a todas as suas perguntas. A jovem bailarina está, mais do que nunca, odiando a si mesma. Odiando a si mesma por estar rendida de amor por alguém a está ferindo.

Ela nada sabe sobre Emma. Emma é um mistério lírico e divinal, que a eleva ao mais sublime paraíso celestial para em segundos atirá-la ao mais capcioso e ardente dos infernos. Colérica, avança ao seu lugar e fecha a tampa do piano sem sequer atentar-se às mãos dela. E ali está ela novamente, a melancolia verde-esmeralda, queimando suas retinas. Mas desta vez Regina não está disposta a ceder.

— Olhe para mim! – Exige. – Olhe para mim, dentro dos meus olhos, e responda-me, Emma Swan! Se não me odeia, por que desapareceu?! Diga-me de uma vez! Deteste-me, agrida-me, mas não ouse dar-me o silêncio! – Sua voz embargada a domina. – Não você, maestra de toda a minha Música.... Não o silêncio...!

— Eu sou a escuridão. – Ergue-se da poltrona, fazendo-a afastar-se, seguindo com seus passos até encurralá-la contra a beira do lago. – Eu sou o monstro. Eu fui, mais do que poderia controlar, o mais terrível dos monstros naquela noite. E se eu a tivesse visto, faria o Visconde Daniel Pendragon esfolado, agonizante, com nada mais que um abismo oco em seus olhos por cobiçá-la, um desespero oco na boca ao ter sua língua arrancada por ousar tocá-la! Eu arrancaria seu coração e o esmagaria diante de você! Diga-me se é isto o que você gostaria de ter visto naquela noite!

Involuntariamente, a bailarina recua. Retrai-se. Suas mãos recolhem-se ao peito.

— Não. – Sussurra. – Não é o que eu gostaria de ter visto.

— Esta é a razão pela qual desapareci. – Ri amargamente. – Seu precioso Daniel Pendragon estaria a sete palmos da terra agora!

— Estive só, em pânico. – Confessa diminuta. – Quase acreditei que nunca mais a veria, que desmoronaria a Ópera de cima a baixo e jamais a encontraria novamente.

— Decerto é o que eu deveria fazer. – Notoriamente perturbada, afasta-se. – Eu deveria livrá-la de mim. Um petulante, ingênuo e imaturo menino é este Visconde, mas ele...

— Ele...? – Seus olhos brilham em amargor.

— Ele a ama. – Apoia-se contra a moldura de um dos espelhos estilhaçados e esmurra as beiradas, terminando de espatifar os vidros, ignorando os pequenos cortes que os cacos faziam nas articulações de seus dedos sob a luva. – Ele a ama! – Eleva o tom, grunhindo como se sua alma doesse. – Maldição! Maldito seja Daniel Pendragon e seus caprichos, seu belo rosto, seus belos modos, seu caráter impecável! Eu deveria livrá-la para que você escolha um anjo ao invés de um demônio! Não se pode amar um monstro!

Regina está cansada de ouvir tais palavras. E suas analogias fazem-na recordar-se da história contada por Robin. É tomada, desta vez, por emoções que ferem mais do que incendeiam, que abatem mais do que se elevam. Sente-se puxada para baixo e, de um instante a outro, está no chão, desajeitadamente sentada sobre as pernas com as mãos no rosto tentando conter uma tempestade catastrófica de lágrimas.

— Emma...

— Eu a libertarei. – Sussurra sombria. – O trato selado há quatro anos, eu a libertarei. Eu os vi, Regina. Eu os vi e foi belo. Um gesto errôneo de um coração desesperadamente apaixonado, mas belo. Que beijo inocente! Você muito mais bela do que ele, mas os meus olhos não têm enganos. Se você o desejar, pela minha alma condenada, eu a libertarei.

E o choro da bailarina intensifica-se em terror.

Contudo, não por Emma julgar que Daniel a merece mais. Não por Emma ter desaparecido. O que lhe ocorre é perceber, finalmente, que o Visconde roubara o seu primeiro beijo. Essa verdade estranhamente a desespera. Sente-se como uma menina tola e sonhadora, amante de contos de fadas, que ansiava ter o seu primeiro beijo com alguém que lhe despertasse o coração.

— Não me diga isso... – Sua voz é um fino fio.

— Minha Psyché... – Emma ajoelha-se diante dela e toma seu rosto ensopado e vermelho nas mãos, olhando-a com uma ternura abrasadora. – Não chore assim, eu não quis lhe causar sofrimento. Nunca. Eu prometo nunca mais desaparecer. Também pela minha alma condenada, eu nunca mais a deixarei com a solidão indesejada. Mas eu não poderia estar com você ou trazê-la a mim. Eu mataria Daniel Pendragon. E você para sempre me odiaria.

— Não... – Funga e encolhe-se nos braços dela. – Deveria ser seu. Deveria ter sido somente seu. Desejei que fosse seu desde que nossas mãos e olhos se encontraram pela primeira vez! O meu primeiro beijo eu havia destinado a você!

Regina a sente estremecer em seu aperto, mas não obtém dela uma palavra. E ainda assim, sabe o que a revelação deve ter lhe causado. Deseja que Emma entenda, através de pequenas confissões, que seus corações agora estão expostos um para o outro. Regina deseja, necessita que Emma entenda que não há mais controle ou hierarquia. Que mesmo que tentasse confrontar, mesmo que caísse nos braços do Visconde Daniel Pendragon, não poderia retomar seu coração.

Por alguma razão, esteve o tempo inteiro crédula de que Emma jamais a faria cumprir seu estranho trato se ela o repudiasse.

Através de breves palavras e breves segredos, Regina almeja que Emma dispa-se dos pais sem nomes que a abandonaram. Que dispa-se de James, o domador de lobos e sua trupe maléfica e repulsiva. Que Emma não pense mais em quantos a chamam de monstro, ou demônio, ou mesmo Fantasma da Ópera. Que ouça apenas a sua voz a chamando de “Meu Anjo da Música”. Que Emma nunca mais julgue-se inferior à Daniel ou a qualquer outro, pois não a conquistou com joias, promessas, títulos, vestidos, passeios, mansões. Não a abraçou com ouro e prata; com seda e luxúria.

Emma lhe deu a única coisa que sempre acreditou possuir. Sua Música. Sua Arte. Era tudo o que tinha a oferecer. Era sua fortuna, educação, graça, sonho. Seu maior tesouro.

E é Emma quem a desestrutura com a quebra do silêncio.

— Quando você está comigo, não me sinto mais como um fantasma, um espectro vazio preso no purgatório terrestre de eterna solidão. Não me sinto ridicularizada, pisoteada, ferida pelos belos, pelos que têm o Sol. Eu não me sinto invisível. Quando você está comigo, minha Psyché... Eu me sinto existir.

Regina toma seu rosto, espalmando a rigidez pálida de um lado e a maciez pálida do outro. Cuidadosamente beija sua testa, incapaz de não exibir um sorriso que a abranda como a cura de todos os males e angústias.

— Eu sou o seu mundo. – Leva a mão de Emma ao seu peito e a sua própria ao peito dela, ambos pulsantes como o galope de mil corcéis furiosos. – E você é o meu. Você e a Música são as minhas primeiras e únicas felicidades plenas desde aquela noite terrível em que perdi meus pais. Não compreende o seu valor?

E para a elevação de todas as suas alegrias, é Emma quem sorri. Ainda há traços suaves de melancolia em seus olhos, mas quanto mais se observam, mais essa melancolia dissipa-se, esvai-se. Emma a toma nos braços e volta a acomodar-se no piano com a bailarina em seu colo. Regina deseja que ela nunca mais a solte, nunca mais a faça suportar sua distância e sua mudez.

Como se pudesse ouvir seus pensamentos, os dedos dela, Fantasma da Ópera, encontram novamente as teclas do instrumento, desta vez delicadamente, entoando “Nessun Dorma”, de Giacomo Puccini. Sua voz projeta-se pelo lago, projeta-se dentro de Regina, reverberando tudo ao seu redor. É como Robin disse: Inacreditável. Tão cheia de esplendor. Tão cheia de dor e de amor coexistindo em um único timbre, um único soar...

No vigor e comoção desta melodia, Emma Swan e Regina Mills redefinem o conceito de lar.

— Faremos um piquenique. – Regina toma novamente seu rosto nas mãos, sorrindo-lhe com os olhos transbordantes. – Ao anoitecer. Apenas eu, você e o luar. Eu não pedirei que venha para a luz Sol, mas posso pedir que venha para a luz da Lua, onde ninguém nos saberá. E que não se preocupe se estiver amedrontada... Eu não soltarei sua mão. Eu nunca mais soltarei da sua mão, Emma. Eu irei... Irei cuidar de você.

Não há palavras que esmerem suficientemente o que Regina vê ao seguir.

Ela vê, pela primeira vez, em um sorriso aberto com pequenas covinhas, um suave tom corado e uma lágrima solitária escorrendo pela pele, não pela máscara, a belíssima pureza em seus olhos que apenas Robin de Locksley vira em toda a sua vida.

Notas finais
Finalmente conhecemos as "origens" da Emma e qual a participação do Robin em sua história. Espero que tenham apreciado! O próximo capítulo é simplesmente o meu predileto até agora, com uma das minhas músicas favoritas no mundo inteiro e estou muito ansiosa para a semana que vem. :) Nos vemos no próximo. :) @myrkurstormur