Notas iniciais
Hey! Eu estava muito ansiosa para este capítulo. Eu amo sobre o que ele nos conta e amo muito, muito mesmo esta canção. Eu simplesmente não contenho minhas lágrimas cada vez que a ouço. Por isso, por favor, permitam-se conhecê-la? Eu prometo que não haverá arrependimentos. Música-título: Sarah Brightman - Unexpected Song. Boa leitura, caros. :)

Deleite é a noite em Paris. Drôle! Drôle! C'est magnifique! L'amour est dans l'air! Há luz em toda parte, o mundo gira em um compasso festeiro e elegante. Paris é uma cidade de sonhos, suas carruagens, seus trajes finos, lamparinas, dançarinos, mansões e casebres, todos de beleza única. Todas as noites parisienses são feitas de alegria, vinho, música e paixão.

Nesta noite, porém, Paris pertence à sutileza de um passeio silencioso.

Regina a aguarda ansiosa. Esteve agitada em sua noite de estreia na Ópera, a noite em que finalmente se encontraram, porém, desta vez, a ansiedade é inexperimentada. Um mistério que explode em seu estômago, eleva-se, eleva-se, eleva-se um pouco mais e explode na língua como um cubo de açúcar.

Sob a luz de uma lua cheia, como uma luz que se acende exclusivamente para ela, Emma surge vacilante por entre a passagem dos subterrâneos secretos de Paris que se conecta com a Ópera Fée. E a sensação, como a sensação da explosão açucarada, torna-se doce festejo dentro de Regina.

Os olhos de Emma pousam na lua e um sorriso enfeita seus finos lábios como uma criança ante a um brinquedo novo. Os dentes levemente desalinhados apresentam-se quase cobertos pela máscara abstrata, alegre e.... Amarela. Não negra, não branca, não rubra. Alegremente amarela. Jonquil, cheia de formas geométricas irregulares na superfície. E não há capa. Sobre a camisa branca e justa há um belíssimo colete dourado de botões de puro bronze e mesmo as calças justas rútilo são uma novidade encantadora. Ela, Fantasma da Ópera, sempre carrancuda, imponente e altiva, está agora caminhando lentamente na direção de Regina, acanhada como uma garotinha, com um chapéu redondo, palheta, quase achatado sobre seus cabelos.

Quando se aproximam, Regina não evita um largo sorriso ao ver o conjunto e a curiosa peça em seu rosto. Emma escolheria suas máscaras para espelhar suas emoções, talvez...?

No fim, poupam-se de palavras. A bailarina entrelaça seus dedos, guiando-a pelo caminho de árvores através do tapete de folhas, com os “Hoos” “Hoos” das corujas. Quando uma brisa agitada por elas passa, Emma praticamente salta, arregalando os olhos, arrancando de Regina um riso espontâneo e amável. No subterrâneo, quando há alguma corrente de vento, é concentrada e fraca, diferente deste frio noturno que as cerca, livre e dançante.

Quando acomodam-se no interior do bosque, Regina lhe faz perguntas. Sua primeira música, seu primeiro sonho. Emma lhe conta que seu primeiro brinquedo fora um macaquinho de pano com um címbalo estridente e enferrujado em cada mão, o único brinquedo que lhe foi dado durante seus anos no circo. Também lhe conta que, ao ser levada por Robin à Ópera Fée, acordou em um dia qualquer e havia, sobre sua gôndola, um macaquinho de pelúcia que lhe parecia quase real, com címbalos dourados, de turbante vermelho, sentado sobre uma caixinha de música. Regina percebe que, embora dele não fale e embora ele tanto a tema, Emma faz suas referências a Robin com uma suave e quase imperceptível devoção.

Emma também, apesar de hesitante, faz perguntas. Sorri a cada resposta dos músicos prediletos dela, de suas memórias favoritas, de sua estação predileta. Da cor que julga indispensável e em um breve debate sobre como Erik Mer e August W.B., respectivamente o coreógrafo e o diretor, pecam na distribuição e marcações dos atores e dançarinos sobre o palco, ignorando que a Ópera Fée possui o mais extenso palco de todos os Teatros de Paris. E quando a própria Emma zomba alegando que os dois são tão falhos por perderem tempo demais com seus olhos em Zelena ao invés das peças, a risada travessa e grave de Regina ecoa pelo bosque.

A verdade é que, conforme avança a noite, estão ambas cada vez mais secretamente fascinadas. Não há muito em comum, mas há uma sintonia inexplicável em cada palavra, em cada olhar. Emma aprecia o vigor e altivez das Grandes Valsas, mas Regina é dada às obras do Grand Ballet. Ambas, no entanto, são apaixonadas pelas Sonatas ao Piano. Emma prefere o Outono, pois as folhas secas sempre voam até o telhado da Ópera Fée e permitem que ela as pisoteie e delicie-se com o som. Regina sorri derretida com este passatempo de seu Anjo da Música, mesmo que ela própria prefira milhares de vezes a Primavera, quando o mundo se enche de cor e aroma. Ambas, no entanto, amam o espetáculo que é a neve do auge do inverno e as tardes quentes de verão.

Emma aprecia a literatura medieval e a poesia realista. Regina aprecia a literatura dramática e a poesia romântica. Mas curiosamente, ambas são natas apreciadoras de lendas e contos de fadas. Como seus equidistantes são harmoniosos. Nem mesmo na música concordam. Emma é feita de Rapsódias e Barcarolas; mas Regina ama Serenatas e Boleros. Porém, sabem o que este passeio recheado de doces e amenidades significa. Para Regina significa desvendar, acolher, entregar. Para Emma significa confiar, ceder, aceitar.

O encanto, a intimidade, o conhecimento de seu mundo, tudo que a cerca atinge o coração de Regina como uma flecha enfeitiçada. E quando a bailarina zomba despretensiosamente das costeletas grosseiras de Edward Hyde e de seu jeito bronco de andar, as tais flechas que acertaram em cheio seu peito incendeiam-se, incendeiam-na: Emma simplesmente gargalha de sua imitação do administrador. Gargalha de uma forma, a princípio, tão estranha! É como se ela não soubesse como rir, o riso falha, engasgado, a boca entorta aberta em demasia, até que, como se estivesse acostumando-se à própria reação, transforma-se em uma risada doce e tão cheia de meninice que Regina não resiste em tocar-lhe o rosto, acariciar sua pele e máscara, permitindo-a saber de seus próprios olhos marejados.

— Por que você chora? – Emma sussurra. – Você chora tão constantemente. Eu não quero que você chore, nunca mais.

— Nunca mais? – Abre-lhe um frágil sorriso, encantada com sua doçura sincera.

— Nunca mais.

Regina ergue-se da toalha ainda cheia de iguarias e de mais uma garrafa de vinho, estendendo-lhe a mão em uma reverência que dispensa formalidades. É com tanta maestria que Emma a toma nos braços para dançar. A verdade é que poucas pessoas na França, ou talvez somente em Paris, ou quem sabe no mundo inteiro, conhecem a verdadeira magia de valsar, de dançar em par.

O primeiro passo é o encaixe. O recostar de dois corpos, as quenturas e friezas que se anulam e aconchegam. O segundo passo é o silêncio, para que seus olhos e mentes possam conversar sem nada dizer, apenas divinalmente interligados por uma força irrefreável, maior do que o par em questão, maior do que tudo que conhecem e compreendem. O terceiro passo é a confiança, e este é o passo mais difícil. É entregar-se às mãos e movimentos do outro, guiar e deixar-se guiar. Ter a fiúza de rodopiar no ar e em capturar o par após o rodopio.

Regina se lança nos braços de seu Anjo da Música como se lhe entregasse a alma.

Não há dúvida. Não há temor.

O farfalhar das folhas, Percussão. Os pios das corujas, Cordas. O vento veloz, Sopro. E toda a noite abrilhantada pela lua, Cenário. A paixão calada é a Maestra. Rodopios no escuro, silhuetas girando no bosque vazio. Um suspiro, um riso surpreso. Regina erguida nos braços dela, será que pode voar? Emma impulsionando o corpo dela para um salto, rodopiando uma, duas, três vezes para frente, segurando-a no tempo ideal, o riso da bailarina fluindo até seus ouvidos em uma corrente sem fim, inundando sua alma.

Encantata! Encantata!

E tão assustador é para ambas. O que sentem agora inspira tanto medo, ansiedade, precaução. Mas Regina não deseja falar a respeito, ainda não. Ainda não deseja questionar o que Emma deseja dela, qual o seu real significado para ela no fim de todos os atos. Não sente a necessidade de indagar-lhe o que pretende acerca dos acontecimentos da Ópera Fée, por que exigiu que ela fosse ao Baile de Máscaras para ouvir Edward Hyde e Henry Jekyll anunciarem o retorno de Zelena.

Contudo, há uma pergunta estalando em sua língua. E nela estala há mais ou menos quatro anos, infindavelmente.

— Emma... – Cessam os rodopios, mas não o fixo olhar. – Por que eu? Por que, depois de todos estes seus anos na Ópera, escolheu a mim?

Ela, Fantasma da Ópera, enrubesce. Regina observa corar seu rosto no pequeno espaço dele ainda exposto sob a máscara. Observa as mãos trêmulas que as suas seguram e como os olhos verdejantes guiam-se para essas mãos, fugindo dos castanhos dela. Como os dedos fazem estripulias nos seus timidamente, mas confortavelmente.

— Quando a vi entrar na Ópera Fée... Vi-me em você. Sua perda. Seu desespero. Sua solidão. Vi a mim mesma, mas bela. Embora você fosse e ainda seja a mulher mais linda que os deuses conceberam e embora eu fosse e ainda seja o mais terrível que eles também conceberam, ou permitiram que demônios concebessem, soube que o que estava em seu coração é o que sempre esteve no meu.

— Você me entristece tanto quando fala dessa maneira! – Afasta-se, consternada.

— Eu não entendo. O que você quer ouvir? Imploro que me diga e eu saberei para sempre como não magoá-la. Mas não posso mentir, nunca devo mentir. Sou este cadáver amaldiçoado, você sabe, nem mesmo meus pais suportaram ver-me, eu já lhe disse. Se nem mesmo os que me trouxeram ao mundo são capazes de me amar, quem será? E eu a amo, Regina, eu a amo como amo a Música. Mas você não pode, não pode amar um monstro, não pode aplacar meu destino, não pode curar minha feiura. Quando soube que a amava, chorei, chorei até que as lágrimas transformassem-se em pó, convenci-me de que estava arruinada por amar alguém que jamais poderia me amar.

— Este é o meu coração! – Desespera-se. – Que poder tem você sobre ele? Como pode determinar que eu não posso amá-la quando lhe dei minha própria alma através da minha Música?

— Desejei e fiz-me seu Anjo porque não cri que me amaria como uma mulher, um ser humano. E a barganha exigida pela essência magistral da minha arte foi seu coração, Regina, somente porque jamais poderia eu crer que aceitaria dá-lo a mim simplesmente em troca do meu. Eu... – Seu ofegar apavorado, vulnerável como nunca antes, quase faz com que as pernas de Regina quase despenquem. – Minha música existe por você existir. Minha música voeja por você deter as asas. Minha música encanta por você ser o próprio encanto personificado em corpo, espírito e voz. Mas eu... Eu serei eternamente esta criatura deformada diante de você...

Regina tenciona responder, mas cala-se ao ver seus olhos marejados. Silenciosamente, suas dores são compartilhadas. Ela compreende, embora Emma acredite que não. Enxerga nela esta enfadonha carga. Como sofre o seu Anjo da Música! Quer lhe arrancar todo este horror, quer lhe banir todas as mágoas. Percebe agora, mais do que nunca, o que o mundo fez a ela, como Robin de Locksley lhe disse.

A crueldade do mundo quase a aniquilou.

Se a deformação em seu rosto não existisse, se o abandono não a tivesse corroído e devastado, Emma seria o ser mais amado, protegido e aplaudido do mundo. Seria ilustre, requisitada, adorada. Se aquela única parte de si que considera tão imperfeita não estivesse ali, o mundo inteiro estaria aos seus pés, venerável à sua Música.

Há pessoas belas em todos os lugares. Bem vestidas, perfumadas, de muitas posses, belos corpos e elegâncias. Mas bela como Emma, não há nenhuma. Sua beleza é intocável, distinta, sua, somente sua. É uma beleza da alma que não pode ser corrompida, pois não é alcançável pelos mortais, a beleza pura de uma criança que tudo ama e tudo inspira. E Regina está cercada, conhece este mundo de caprichos onde as pessoas são julgadas e subjugadas por sua aparência e riqueza. Se a alma de Emma o mundo pudesse ver, jamais a definiriam como definem, jamais a diminuiriam e temeriam como o fizeram.

Emma, mesmo em profunda amargura, é capaz de amar tão sublimemente.

Regina depressa regressa aos seus braços, afastando com os polegares as primeiras lágrimas que escorrem sob a máscara. Sorri para ela como se nada do que foi dito a afetasse, como se nenhuma de suas duras palavras fosse considerável.

A bailarina desliza uma das mãos a sua nuca, arrepiando-a. A outra mão mantém-se em seu rosto, aquecendo-a. Os pés impulsionam-se para cima por sua diferença de altura. O arregalar apavorado e ansioso dela é ignorado quando Regina fecha os olhos. Tudo o que lhe importa está a centímetros de distância.

— Consegue se lembrar do dia em que nos conhecemos, Emma?

— Você foi a primeira luz morna do meu mundo de confortáveis escuridões. Eu jamais poderia me esquecer.

— Desde o primeiro instante em que ouvi sua voz, desejei algo de você. Desejei tão intensamente que pensei que enlouqueceria antes de nos encontrarmos. Dê-me isto agora, Emma. Dê-me faça parar ou enlouqueça-me de uma vez por todas.

— Regina...!

Regina a beija. Já desejou beijá-la antes, contendo-se. Já esteve tão próxima quanto está agora, detendo-se. E se não pode convencê-la ou confortá-la com palavras, expressaria cada um de seus sentimentos conflituosos através do toque suave, mas imperioso, de um beijo há muito ansiado, sedento, apaixonado.

Embora ainda desaprove os atos de Daniel, compreende agora o seu desespero em querer confessar-lhe algo que as palavras não traduzem, não transmitem.

Emma estremece e grunhe de dor e comoção contra seus lábios, abrindo-os, o desfecho para que a bailarina serpenteie sua língua, rendendo-a irreversivelmente. Os braços a contornam e finalmente a abraçam. Regina sente o estômago congelar, o peito incendiar, as pernas cederem, as mãos tremerem, o bosque encolher, a noite cantar, o mundo fulgir. Uma sinfonia de sentires, a mais transcendental das artes que um dia conheceu ou conhecerá.

Emma, enfim, chora.

Ela chora desesperadamente através da liberdade, da salvação.

A lua cheia está tão perto, tão brilhante, quase dourada. As estrelas cintilam como fogos de artifício silenciosos. A Música está em ambas, mas neste exato momento, nada dizem, nada cantam. Tudo é, finalmente, silêncio. Regina experimenta, com a palma das mãos, palpitar suavemente o coração dela. Sente o calor de seus braços firmes. Sente a doce tontura dos rodopios do vento que as envolve. Sente a fome e o saciar coexistindo. Como Emma havia lhe ensinado na Música, o conhecimento íntegro de uma emoção requer entrega, afasia e reflexão. Trata-se de abandonar o medo e abraçar os abismos e os paraísos na mesma proporção.

Ali, Regina emudece, reflete, entrega-se sem medo e atira-se neste abismo com a ciência de que é no fundo dele que o paraíso está. É no fundo que ela, seu Anjo da Música, esconde-se nas sombras.

E quando seus lábios trêmulos se afastam e, detendo o rio de lágrimas, um sorriso deslumbrado e letárgico forma-se suavemente no rosto dela, Emma Swan, Eros, Anjo da Música, Fantasma da Ópera...

Regina recebe, num ingênuo e divino acalento, o primeiro vislumbre do conhecimento íntegro do amor.

Notas finais
"I have never felt like this For once I'm lost for words Your smile has really thrown me This is not like me at all I never thought I'd know The kind of love you've shown me..." @myrkurstormur Nos vemos no próximo. :)