Notas iniciais
Hey you! Perdoem-me por não postar ontem, tive um final de semana atarefado. Este capítulo é muito importante para o decorrer de nossa história e espero que seja apreciado. :) Música-título: Andrew Lloyd Webber - Prima Donna. Boa leitura. :)

Zelena está aborrecida e ácida. Apesar de não ser necessário motivo algum para tal desagradável humor, as manchetes são, desta vez, as responsáveis. “O Rouxinol de Paris provou à Ópera Fée não ter apenas uma voz sublime, mas também uma língua afiada e audaciosa! "E com a imagem cobrindo meia página do olhar mortífero e incendiário da jovem bailarina "Regina Mills, o Rouxinol de Paris, aterrorizou os corações pomposos dos ilustres administradores da Ópera Fée e emudeceu os grandiosos artistas Walsh e Zelena em uma demonstração inédita de irreverência e elegante rispidez! "

Há até mesmo o comentário de uma das jornalistas mais influentes de Paris, Anita Loup: "Que vigor há nessa moça! Eu me ofereceria coberta de tributos e de joelhos para obter sua atenção!"

A lareira da Mansão da Avenida Breteuil nunca sustentou suas chamas com tantos jornais rasgados e amassados. Ela sobe ao escritório para observar a graciosidade de Sir Hiss, enquanto a serpente sibila como se pudesse aconselhá-la, rememorando o discurso vibrante da jovem bailarina e só desperta da visão quando duas mãos calejadas, mas também macias e grandes e fortes demais para pertencerem à Walsh, cobrem-lhe os olhos.

— Se a sua afeição e fidelidade não fosse dada a outro, eu jamais a deixaria sozinha para inundar-se de pensamentos danosos, Madame. Eu a cobriria de beijos e galanteios até que sua mente concentrasse-se apenas em minhas mãos no seu corpo. Não como uma mulher. Não como uma mulher prostituta ou como uma mulher da nobreza. Em minhas mãos seria você, Madame Zelena, uma deusa.

O sussurro a estremece e faz suspirar. August W.B., o Diretor de Arte da Ópera Fée, seu admirador declarado, seu servo devoto. O único que compactua com suas decisões sem contestações.

— Oh, Monsieur Booth. – Suspira. – Este é o fim do meu império. Uma nova flor desabrochou e esmagou minhas pétalas gastas. Embora ela não passe de uma fedelha insolente, assim são eles, sempre preferem as meninas jovens demais!

— Guinevere não teve seu trono tomado, se bem me lembro, Madame. E estava na mesma idade que você, com grande prestígio.

— Todos pensam que Guinevere casou-se por amor, quão ingênuos são! – Ri amargamente a ruiva. – Talvez haja afeto de algum gênero em seu casamento com o Conde, mas não havia quando ela se casou. Foi por insistência de seu pai, um marquês falido, Leodegrance, e pela amabilidade quase estúpida do Conde Pendragon. Caso não ocorresse, não duvide que ela seria em breve substituída.

— Leodegrance? – Arqueia as sobrancelhas. – O grande luthier* falecido há três anos?

— Um grande luthier depois de perder sua fortuna e título, meu caro. O Conde Arthur o salvou, embora a fama e graça de Guinevere dispensassem o ouro de mil príncipes. Se Guinevere tivesse permanecido na Ópera, veria muito em breve sua aposentadoria lhe ser imposta não só pela administração, mas também pelo público.

— E agora seu irmão está enfeitiçado também por uma artista! – August expressa seu bom humor com um largo sorriso, aquietando-se ao lado dela com as mãos entrelaçadas nas costas, rígido em sua postura. – Uma fantástica ironia para um homem tão preocupado com falatórios, casar-se com Guinevere e ter o caçulo e, por enquanto, único herdeiro de suas posses, caindo de amores por Regina Mills.

— Regina Mills, Regina Mills! – Revira os olhos, aborrecida. – Esse nome indigesto daquela menina tira-me a paz, August!

— Minta para o seu tolo marido, para Jones, para Mer, mas seja honesta comigo, Madame Zelena. Por que se sente tão ameaçada pela jovem Mills?

— Isso não lhe diz respeito, Monsieur. Abandone seus questionamentos.

— Eu não o faço. – Insiste. – Sou o túmulo dos seus segredos, sabe que sou.

— Olhe para ela, August! – Rosna. – Você certamente estava em sua noite de estreia. Sua voz, seus movimentos... Como se estivesse sendo pela música guiada, sem escolha, sem direitos, mas livre. Ou talvez com um único direito, o de que absorver cada nota, cada silêncio. Como eu poderia não me sentir ameaçada?!

— Minha Dama, eu não posso acreditar que...!

— Madame! Madame! – Sua empregada Glinda invade o escritório, afobada. – Madame Zelena, é o Conde! O Conde Arthur Pendragon está aqui para vê-la!

— O que diabos quer este homem? – Suspira, desgostosa. – Não estou disposta a receber este Conde de barba horrenda e temperamento frágil. Mande-o embora e que só retorne à minha casa se for para uma visita cordial acompanhado de minha querida Guinevere.

— Mas Madame, ele tem sua carta, a carta que Dorothy entregou na Mansão Pendragon dias atrás! – A mulher persiste.

Zelena franze as sobrancelhas e, num consentimento mudo, ruma escadarias abaixo para encontrar-se com o Conde, seguida por August como um cão fiel. Apressada em saciar sua curiosidade, não cumprimenta formalmente quando depara-se com Killian Jones, Erik Mer, Walsh e o Inspetor Graham em sua sala, enchendo-se de seus vinhos.

— Madame Zelena! – Arthur a reverencia.

— Conde. – Assente. – Pensei que tivesse endereçado esta carta, este convite, ao seu irmão, e não ao Monsieur.

— Certamente. – Sorri educadamente. – Mas tenho severas suspeitas a respeito do teor desta carta. Daniel não sabe de sua existência e vim para descobrir suas intenções, Madame.

— Um homem direto. – Ela ri, tomando sem delongas a garrafa de vinho das mãos do esposo e entornando-a como um marujo bêbado. – Muito bem, Monsieur. Eu estava disposta a tratar do casamento de seu irmão.

Metade dos presentes cospe o vinho, engasgando-se e tossindo.

— Casamento...?

— Sim, Arthur. Eu quero tramar o casamento de Daniel Pendragon com Regina Mills.

— Isso é um disparate! – Rosna. – O que a faz pensar que eu poderia compactuar com isso, Madame?!

— Já ouviu falar, aposto, em Henry Mills, o falecido pai de Regina, o violinista, o “Rei”.

— Certamente que ouvi, Madame.

— Henry Mills era filho de um Conde inglês da alta sociedade, Monsieur. Mais rico do que nós dois juntos, talvez um dos homens mais ricos da Inglaterra. E este seu pai, o Conde Xavier, faleceu recentemente devido à idade. Sabe o que isto significa, Monsieur?

Walsh, Graham, Killian, August e Erik arregalam seus olhos, atônitos.

— Henry Mills era seu único filho?

— Sim, Monsieur. – Sorri servindo o Conde, agora interessado em suas palavras, de uma taça de vinho. – Regina Mills é sua única herdeira. Em termos legais, ela é uma Condessa, um título ainda mais nobre do que o de seu irmão, que ainda é um franzino Visconde.

— Se Daniel casar-se com ela...

— Perfeitamente, Monsieur! – Lança-lhe um olhar perspicaz. – Eu quero Regina Mills longe dos palcos da Ópera Fée para sempre. Você quer um rumo para a vida de seu caçulo nos braços de uma mulher que seja tão nobre quanto ele, ou ainda mais. Acredito que você esteja prestes a refutar seu comportamento um tanto grosseiro desde que entrou em minha casa. Aliados seremos muito melhor recompensados, você não acha?

O Conde lhe toma uma das mãos para beijar.

— Indubitavelmente, Madame. Mas diga-me... Como sabes que o avô da jovem menina faleceu, se a própria não deve sabê-lo? Se soubesse, certamente contaria à Daniel, ou os jornais anunciariam ser ela provavelmente a Condessa mais jovem do século.

— Ora, meu caro Conde... – Finge-se tímida e resignada. – Uma mulher como eu jamais revela suas fontes.

Zelena lhes traça um plano maléfico. Com toda a sua sensualidade e elegância, convence cada um daqueles homens a cumprirem sem justificativas ou rodeios as suas exigências. August W.B fica com a mais difícil tarefa, a de ser o responsável por todos os baixos papéis de Regina Mills nos próximos espetáculos previstos. Erik Mer, de dar-lhe as danças mais curtas e posicioná-la onde quase ninguém poderá vê-la. Killian Jones, de aproximar-se da jovem Ruby, que se mostra cada vez mais sorridente a ele, e descobrir mais sobre o secreto amor de Regina, o qual ninguém acreditaria ser o famigerado Fantasma da Ópera. Walsh, seu esposo, cuidará de pressionar Edward Hyde e Henry Jekyll para que a fama de Regina seja prejudicada diante dos jornalistas e do público. Arthur será responsável por encorajar Daniel e seus sentimentos, mostrando-se solícito e conivente com seu desejo de amor. Graham, o Inspetor, deverá permanecer atento para, quando chegar a hora e Killian obtiver as informações necessárias, trancafiar e fazer desaparecer este flerte segredado da jovem bailarina, livrando o caminho para Daniel.

Poucos sabem como Zelena martiriza-se com sua estratégia vergonhosa. Poucos compreenderiam a inveja que sente agora da voz daquela menina e ouvi-la a esmaga, a diminui sem a intenção, a destrói de dentro para fora. A verdade é que a jovem Regina de nada tem culpa, ter uma voz sem par não é um crime. No entanto, bravamente ela conquistou seu trono e não permitiria que uma pobre criança que cantava como as outras e de repente canta como os céus, tome o seu lugar.

Henry Jekyll e Edward Hyde anunciaram por toda Paris o regresso de Zelena e Walsh e cumpriram com maestria o papel de escandalizar e marginalizar a imagem de Regina Mills depois de seu discurso abrasador no Baile de Máscaras. Alguns jornais atreveram-se a refutar-lhes, alegando que a jovem fora a mais corajosa e sincera, ressaltando até mesmo a beleza inflamada de seus olhos. Um grande jornalista australiano do mundo das artes, Sidney Glass, fez questão de ressalvar até mesmo como a voz de Regina era belíssima tanto no suave canto quanto na feroz acusação. Ainda assim, negação não pode haver: A reputação dela foi prejudicada e isso foi crucial para que o retorno de Zelena e Walsh fosse calorosamente mais ansiado.

Nos dias seguintes Zelena foi tratada como uma imperatriz e, alguns ousaram pensar, uma deusa. Seu camarim foi recheado das mais belas e raras flores, talvez alguns buquês sequer tivessem vindo da França. Restabelecera seu posto com graça e discrição, distribuindo seus sorrisos sedutores e suas frases impactantes. Walsh a acompanhava como um cachorro adestrado aonde quer que fossem e isso a aborrecia severamente. Ninguém havia cogitado substituí-lo, seu trono na Ópera Fée manteve-se intacto após a surpresa causada por Regina. Seu único acalento era, curiosamente, a companhia de Sir Hiss e as palavras enérgicas e devotas de August W.B.

Há também um consolo: Zelena foi informada pelo Conde Arthur de que Regina e Daniel conheceram-se há anos, quando apenas duas crianças. Embora ainda sinta-se e saiba-se vil por tentar arranjar-lhe um casamento com o Visconde, convence-se de que será mais do que vantajoso para a jovem casar-se com um bom e nobre homem. Ela ainda poderia exercer sua música.

Desde que muito, muito longe da Ópera Fée.

(...)

A Avenida Quai d’Orsay parece cinzenta e gelada. A Mansão Pendragon perdeu sua cor, encanto e elegância. O caçulo Visconde está desolado em seu quarto, fitando o teto desde o Baile de Máscaras. Seu sorriso gentil desapareceu e ainda não regressou. Seus modos e palavras impecáveis silenciaram-se. Sequer deseja trocar as roupas, como um morto andante pelos cantos da mansão.

— Vamos, meu querido... – Guinevere agacha-se para acariciar-lhe os finos e curtos fios de cabelo castanho. – De nada adiantará lamentar.

— Minha ansiedade e precipitação arruinaram tudo, Gwen. – Choraminga. – Se Regina havia dito que se alegrava em ter-me novamente como seu amigo, embora não pudesse me dar seu coração, o que será de mim agora que ela sequer suporta ver-me?

— Ela pode estar magoada, Daniel, por isso está ignorando suas cartas. Você deveria comparecer à próxima apresentação, com o retorno de Zelena ao palco, para desculpar-se pessoalmente de seu comportamento no Baile. Não seja tão severo, vocês dois são jovens e têm um longo caminho para cometer erros. Se você a ama, não pode simplesmente desistir.

— Mas ela não me ama, Gwen! – Lamenta. – Ela nunca poderá me amar como eu a amo. Está enfeitiçada por este... Este tal Anjo da Música!

— Oh... Você sabe sobre o Anjo, querido?

— Ela também lhe contou? – Arregala os olhos. – Diga-me, Guinevere, minha amada cunhada, ajude-me a entender o que é este amor estranho que Regina mantém tão secretamente!

— Acalme-se, Daniel. – A Condessa agarra suas mãos, apertando-as. – Não a conheci quando vocês eram crianças, mas esta Regina que conheço não é de muitas palavras. Ela foi, desde o início, uma bailarina solitária, embora seja capaz de imensa amabilidade quando permite-se. Tudo o que sei é que Regina tinha um tutor misterioso que estava a lhe ensinar a música como ninguém mais poderia. Sabe que não demorei muito a aposentar-me do Teatro, portanto, não tive a oportunidade de descobrir mais. Seja lá quem for, a menina nutre grande estima para com este ser.

— Estima! Estima ela nos tem, Gwen. – Suspira, voltando a fitar o teto. – Por este tal tutor, Regina está cega e entregue. Eu sei que está.

— Ora, vamos, meu querido menino. – Sorri. – Esse não é o Daniel que eu conheço! Não pode desistir tão facilmente. Na juventude os sentimentos são incertos e muitos amores são passageiros. Talvez Regina possa lhe dar seu coração, mas não se você declarar e içar a bandeira da derrota. Se você a ama, lute por ela. A conheça. Deixe-a saber que você permanece ao seu lado apesar de todos os pesares.

— E se, no fim, ela não me amar nunca? – A encara com pesar.

— Então, talvez venha a ser o seu momento de dar seu coração a outro alguém.

Com um muxoxo lânguido, o rapaz ri fracamente.

— Talvez você esteja certa, Gwen. Mas não sei se compreende. Não acho que seja possível reaver meu coração agora que o entreguei à Regina Mills!

(...)

Regina figurativamente flutua pela porta através do espelho, de volta ao seu camarim, depois de gastar as primeiras horas do dia repousando na gôndola e observando Emma Swan acariciar o piano suavemente, entoando grandes composições de Schültz à Haydn; de Vivaldi à Salieri, preenchendo o “Palácio do Lago” de tão majestosa melodia que Regina poderia jurar alucinar as notas em cores de mil tons diante de seus olhos. Ela suspira ao cair deitada em seu divã, recordando-se da troca de poucas palavras e incontáveis olhares.

— “Swan”... Por que escolheu este sobrenome?

— O Lago dos Cisnes, do grande Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Robin furtivamente me levou ao Camarote 5, o único vazio, para apresentar-me ao meu primeiro balé. Então, eu finalmente tinha um sobrenome na única origem da qual me orgulho.

— Não desejava despertar seus tormentos do passado, me perdoe. Ele é belíssimo. Há algum significado por trás da sua escolha?

— Eu... – O lado descoberto de seu rosto está corado e isso faz Regina sorrir. – Senti imediatamente um grande apreço por Odette, mas também por Odile. Siegfried pode ter sido enganado por Odile, mas acreditei diante daquele palco que ele poderia se apaixonar por ela, realmente. Que ela não estava fadada a ser apenas um instrumento de Rothbart para prejudicar Odette. Desejei que houvesse algo mais...

— Mas Odile não era simplesmente má, meu Anjo?

— Há como afirmarmos que sim em apenas quatro atos da peça? Talvez secretamente ela também desejasse ser amada por um príncipe devoto. Eu me lembro de estar aqui, no lago, quando Robin disse que eu deveria me chamar Emma White. Mas Madame Eva lhe disse que achava Odette muito simplória e frágil, e que eu deveria homenagear a força e ardileza de Odile chamando-me Emma Black. Então... Então, pensei no quanto me sentia frágil, Regina. No quanto me sentia simplória diante da grandeza da Música, da Arte. Mas sabia que tinha de ser forte para sobreviver, embora Robin tentasse fazer de mim uma menina comum. A ardileza viria como um complemento depois que eu... Que eu...

— Emma, você não precisa...

— Que eu matei James. Sei que Robin lhe contou. Com sete anos decapitei o domador do Circo. Eu nunca mais me tornarei inocente outra vez, nunca leveza serei outra vez. E o peso que carrego por este rosto meio deformado nunca se comparará à lembrança de lutar com James enquanto ele tentava chicotear-me pela décima vez naquele dia, de tomar a espada, de seu sangue espirrando sobre mim, de vê-lo agonizar. De lamentar a morte de um homem que merecia morrer. Com essa memória terrível, eu sabia que poderia ser ambos. Que tudo o que fui ensinada resumia-se a ser Odile, mas que meu coração desejava ser Odette. Eu sabia. Por isso escolhi Swan e... E... Regina... Regina, você está chorando... Eu lamento se a assustei com o que disse sobre James. Eu fui este monstro, ele ainda está dentro de mim, mas eu prometo nunca o direcionar a você. Você me faz desejar não ser um monstro.

— Você não é. Nunca. Você é meu Anjo da Música e nada, nada mais.

— Regina...

— Você está em meus braços, agora, como eu sempre estive nos seus. Você é meu Cisne Negro e meu Cisne Branco, com toda a sua luz e suas as suas escuridões. Eu sou seu Príncipe Siegfried. Eu aceito, Emma Swan, todas as suas faces.

Quantos suspiros cantarola enquanto está perdida neste instante compartilhado? Talvez muitos para contar. Tonta de emoção em seu divã, encarando o nada como se ainda observasse Emma inclinada devotamente sobre o piano, nada pode arrancar-lhe a alegria na qual navega dentro de si mesma.

Ou era o que acreditava até o baque da porta se abrindo.

— Regina! – Ruby invade o camarim aos tropeços, ofegante, com Marie Margaret em seu encalce.

— Sim? – Ainda entorpecida, sequer vira-se para cumprimentá-las.

— August, Erik e Killian estão designando os papéis de “Roméo et Juliette”!

— E todos sabemos que você é a mais nova estrela desse teatro! – Marie sorri orgulhosamente. – Com certeza lhe será dado um papel à altura! Vamos, não posso perder a mortificação dos administradores quando August proclamar o seu!

(...)

— Isto é um absurdo! – Madame Eva protesta. – Como se atreve, August Wayne Booth?!

— Recomponha-se, Eva. – August suspira. – Nem todos recebem o luxo de estrelar todo o tempo!

O Diretor está cercado de artistas debandando a falar. Alguns reclamam indignados ao lado de Eva, outros mostram-se quase hostis diante do anúncio sobre “Roméo et Juliette”. Killian e Erik observam discretamente como a Dama Zelena sorri para August e como o homem parece inescapavelmente enfeitiçado por ela. Seus olhares para a Soprano são tão vorazes que um dos palhaços ousa gritar no meio da multidão, alegando que o papel de Regina foi designado com o propósito de diminuí-la diante de Zelena.

Quando Regina, Marie e Ruby adentram o palco, todos silenciam-se. O trio cora e quase dá um passo para trás diante do coro de olhos arregalados em sua direção.

— Basta, vadios, isso não é um circo! – Erik revira exaustivamente os olhos.

— Exatamente, meu caro. – August assente. – Seus papéis foram entregues e os ensaios começarão imediatamente. Não estão aqui para contestar minhas decisões, mas sim para fazê-los vibrar com sua arte. Dispersem-se!

Madame Eva aproxima-se com pesar de suas meninas, exasperando um suspiro decepcionado.

— Eu lamento, minha querida. – Estende para Regina as folhas dobradas, afastando-se imediatamente para os cenários onde Robin trabalha neste dia com seus homens. O que ela poderia desejar com ele justamente nesse momento, nenhuma delas saberia deduzir.

— Uma pena que August já os tenha entregue! – Marie deixa caírem os ombros. – Bem, Regina, mostre-nos o seu papel, não nos deixe ansiosas!

Mas Regina se cala. Respira profundamente, trocando as folhas nas mãos com os olhos vidrados no papel e os dedos tremendo na finura branca. Não há nada. Apenas um título em escasso nanquim e um movimento. Sem diálogo. Sem canção. Nem mesmo coro. Nada.

“O Boticário”.

— Oh, não! – Ruby arranca o roteiro dela, franzindo as sobrancelhas. – Isso está errado! Tem que estar!

— Lamento informar que está mais do que correto, jovem bailarina. – Killian reverenciou-a, culpado.

— O Boticário sem falas?! – Marie rosna, pousando uma mão no ombro de Regina, que permanece paralisada diante deles. – Como ousam rebaixar assim o Rouxinol de Paris?!

— O canto de um rouxinol é sempre belo, Mademoiselle Blanchard. – Zelena sorri com sarcasmo e desdém. – Mas o que acontece a um rouxinol quando de cantador celestial torna-se um gritalhão insolente?

— Isso não é obra de Edward Hyde ou Henry Jekyll, que foram afrontados na noite do Baile de Máscaras! – Ruby acusa. – É obra sua, que parece ser incapaz de aceitar o talento de Regina, Zelena!

— Oh, eu amo esta impetuosidade, Mademoiselle Ruby! – A soprano sorri lascivamente.

— Coloque-se no seu lugar, corista! – Erik a encara esnobe.

— Monsieur Booth... – Regina interrompe a possível troca de insultos para sussurrar assustada nos olhos do diretor. – O Boticário é um papel sem falas. Um personagem que permanece durante um minuto em cena e em um único ato...

— Sim, Mademoiselle Mills. – August ergue as sobrancelhas. – Encare o fato como uma lição para que nunca mais ouse destratar a Grande Madame Zelena diante de toda a Paris novamente. Isto é tudo, eu lamento.

Regina não tem chances de responder quando os presentes se aglomeram ao redor de August. Ruby segura uma de suas mãos e Marie ainda um de seus ombros, ambas a acariciando como se pudessem consolá-la de algum modo.

Surpreendentemente não o Teatro, Madame Eva ou a Condessa Pendragon, mas sim Emma Swan, ensinou-a sobre como cada elemento na arte é essencial. Regina ainda se lembra de como Emma exemplificou seu parecer: Um pintor talentoso precisa do pincel, o pincel da tinta, a tinta da palheta, a palheta da mão do pintor. Mas o pincel também precisa da tela, da flanela, da água. E a tinta? Também. A tinta precisa da tela, do pintor, do pincel. É um ciclo de mil possibilidades e todas indispensáveis. A obra em si precisa tanto do pintor quanto o que o pintor usa para criá-la. Emma lhe disse que assim seria para sempre em todos os aspectos da arte.

Portanto, alguém precisa ser o Boticário sem falas que permanece durante um único minuto na cena de um único ato. E qualquer um deveria sentir-se honrado em representá-lo, pois o Boticário também é uma peça essencial para que o espetáculo seja executado.

Mas Regina não sente essa satisfação. Sente que pode mais. Que precisa demais. E August Wayne Booth deixara evidente que se trata de uma perseguição pessoal pelo que ocorreu na noite do baile. E não há poder contra o diretor, nem mesmo os administradores poderão demovê-lo de suas decisões. O Rouxinol de Paris foi, ao menos até o ato seguinte, silenciado.

Os protestos dão lugar ao clamor. August anuncia orgulhosamente Zelena como Juliet e Walsh como Romeó. A Musa é carregada por braços firmes, aclamada por aplausos fortes. Há presentes e flores surgindo diante de seus olhos e o encontro dos olhos de Regina com os dela é aterrorizante quando Zelena apenas abre um sorriso vitorioso e quase cruel. Todos, como sempre, curvam-se a ela.

Com um suspiro frustrado, Regina sorri fracamente para as irmãs adotivas. Se tinha de representar o papel, estaria preparada como pudesse. É tudo o que pode fazer.

Contudo, houve um detalhe imperceptível. Ninguém o notou, sequer alguém suspeitou. Mas quando August anunciou, sob as ordens de Zelena, que Regina interpretaria o mudo e breve Boticário, Emma Swan estava nas sombras das coxias, observando-os.

E ela, Fantasma da Ópera, com uma corda comprida pendendo lentamente entre dedos e os olhos fixos no Diretor e na Soprano, aborreceu-se do que ouviu.

Pois um pintor precisa de seus elementos de pintura, de fato, tanto quanto os elementos de pintura precisam do pintor.

Mas Regina não é uma tela, uma flanela, uma palheta, uma tinta, ou mesmo água.

Regina não é um pintor.

Regina Mills, diante de seus olhos verdes mergulhados em fúria, é uma obra de arte. Obras de arte necessitam somente de apreciação, do olhar de espectadores que sabem admirá-la. Agora, estes espectadores vilipendiam descaradamente uma destas obras de arte, tratando-na com mero amadorismo e desprezo.

E o desprezo pela arte é tudo o que ela, Fantasma da Ópera, jamais poderá aceitar.

Notas finais
E então? Parece que Zelena sabe como arquitetar uma trama! Acreditam que ela pode obter algum gênero de sucesso, considerando que Emma estava lá para ouvir tudo o que foi feito? :) Sobre o trecho onde Emma conta à Regina a respeito de seu nome, eu me perguntei muitas vezes se o "Swan" da Emma na série estava diretamente relacionado à obra e quis imaginar como ela poderia tê-lo escolhido. :) Nos vemos no próximo. :) Obs.: Luthier – Profissional capacitado e responsável pela fabricação e manutenção preventiva e corretiva de instrumentos musicais.