The Phantom Of The Opera
13 Fleurs du Mal
Notas iniciais
Três semanas se passaram. Três semanas nas quais Regina observou em silêncio o grandioso ensaio para Roméo et Juliette. Resignada, assistiu aos atos do gracioso balé, a alegria da orquestra, a soberba do elenco principal. Seus olhos quase lacrimejaram ao notar que Zelena trazia uma Juliette de solar arrogante, de olhares esnobes e sorrisos ardis; e que Walsh trazia um Roméo com ombros covardes, expressões preguiçosas e diálogos sem paixão. Como é possível interpretar o lendário Roméo de William Shakespeare sem a paixão incrustada em cada frase? Como a Soprano tem a audácia de interpretar a apaixonada e densa Juliette com tamanho egocentrismo?
Regina sente que ambos, junto ao Diretor August, o Coreógrafo Erik e o Maestro Killian, estão arruinando a beleza de uma arte sincera, a arte necessária, a que apresenta nessa obra ao mundo o idealismo de um amor sem fronteiras, independentemente de seu trágico final. Com seu egoísmo e astúcia, não fazem jus à essência tocante do autor da peça e do compositor de tão belas melodias.
“Você como um boticário sem falas tem gran-maestria, muito acima de todos eles juntos, querida! ”— Ruby diz em uma noite no alojamento das bailarinas coristas.
“Deixe estar, Regina. Em breve todos reconhecerão a sua excelência! ” — Marie Margaret garante com um largo sorriso após os ensaios.
Nada a convence. Madame Eva, desde que a recebeu como aprendiza, declamou incessantemente, assim como alertou aos administradores Edward Hyde e Henry Jekyll, que não há meios que impeçam um Rouxinol de cantar. Após três semanas, Regina não se sente este Rouxinol. Sente-se silenciada, engaiolada e diminuta.
Em quase todas as noites, porém, ela adormece nos braços de seu Anjo da Música. Emma Swan entoa habilmente com uma única mão uma canção de ninar de sua autoria sobre as teclas enquanto sua outra mão carinhosamente acaricia os cabelos da bailarina encolhida em seu colo. Ela nada diz. Espera somente que, mais cedo ou mais tarde, Regina deseje falar.
Dois dias antes da estreia da peça, as palavras finalmente soam.
— Que a voz Juliette fosse entregue à Zelena e todos os papéis principais, eu não me importaria. – Sussurra em seu ombro. – Desde que não me impedissem de cantar, eu não me importaria.
Sombriamente ela, Fantasma da Ópera, somente murmura em retorno.
— Isso se desvanecerá tão depressa quanto o dia se faz noite, pois noite pertence às sombras. E as sombras... Pertencem a mim.
Regina não responde à afirmação. Perturbada, não desce mais ao subterrâneo da Ópera, no Palácio do Lago, para vê-la. Esconde-se em seu camarim pelos dois dias inteiros, retrocedendo não somente o que lhe foi dito, mas sua entonação, o ar ruidoso em seu peito, a tremulação contida em sua voz. A cada palavra que Emma Swan proferiu a ela, a bailarina sentiu-se acalentada, protegida e, quase sempre, encorajada. Por alguma razão que não ousa refletir a respeito, essas últimas palavras trocadas causaram-lhe um alvoroço assustador. Emma nunca decretou uma certeza de forma tão sombria.
— Regina? Você está aqui, minha querida? – Uma fraca batida e a porta é aberta para revelar Madame Eva, elegante como sempre, segurando uma rosa com um laço de fita em seu caule. – Oh, céus, você ainda não está vestida! O espetáculo começará em breve!
— Para alguém que não possui falas e representará uma única cena, Madame Eva, não vejo muitas razões para me apressar. – Arqueia as sobrancelhas tentando, como nas últimas três semanas, esconder sua decepção.
— A rosa, como sabe, é para você. – Pousa a flor sobre sua mesa. – Não esteve com ela nestes dois últimos dias e ela deseja que aprecie a peça.
— Ela... – Franze os lábios, aplacando uma estranha culpa. – Ela não se parecia com o meu Anjo da Música na última vez em que nos vimos. Eu precisava estar em solidão para pensar.
— Oh, não pense, minha querida, nem mesmo por um segundo, que isso a desagrada. Na verdade, ela parece inesperadamente entusiasmada para esta noite. Eu chamarei Ruby e Marie para ajudá-la a aprontar-se, sim?
— Madame Eva, espere. – Pede antes que a tutora deixe o camarim. – Fale-me sobre ela. É ela quem lhe entrega as flores. Algumas cartas à administração também foram entregues à senhora. Entretanto... A senhora nunca a menciona.
— Bem, minha cara, asseguro-lhe de que a conhece muito melhor do que eu. O que poderia eu oferecer a você? – Sorri.
— O que a senhora significa para ela? – Não hesita em pressioná-la. – Você e Robin... São como seus pais ou tutores?
— Seus pais? – Arregala os olhos. – Nós nunca poderíamos ser como seus pais, Regina, realmente! – Seu riso nervoso ecoa no quarto.
— Conte-me. – Soa como uma súplica. – Eu preciso saber.
— Robin a encontrou. – Ela suspira profundamente. – Disto você já deve estar ciente. Robin a salvou da escravidão e humilhação no circo, ele a trouxe para a Ópera Fée. Tomei conhecimento de sua presença quando ouvi uma melodia estranha ecoar nestas paredes. E foi simplesmente... – A lembrança a faz sorrir. – Simplesmente sublime. Nunca houve nada igual neste Teatro, nada que meus ouvidos reconhecessem. E, provavelmente, nunca mais haverá.
— A senhora já a viu... Sem a máscara? – Pigarreia.
— Devo confessar que não, embora muito desejasse. Robin fez sua primeira máscara com madeira e retalhos coloridos, ele é o único que a viu.
— Se ela era apenas uma menina, o que os impediu de encontrar-lhe uma família?
— Ela se apegou de uma forma tão espantosa à Ópera que não poderíamos tirar-lhe isto. Eu tinha Ruby e Marie para criar, mas Robin tentou dar-lhe tudo ao seu alcance. Ela aceitou sua companhia, desde que silenciosa. Aceitou suas máscaras com uma gratidão reverente. Aceitou seus instrumentos e pautas e tinta, ela aceitou cantar e musicar para que ele pudesse ouvir. Mas o amor, Regina... O amor fraternal dele ela nunca pode aceitar. Tampouco o meu quando a conheci em sua adolescência. Você quer saber o que mais me impressiona no que quer que vocês duas nutram juntas?
— Sim. – Sussurra. – Sim, eu quero.
— Ela repele o amor. Ela expulsou toda a forma de afeto, minha e de Robin, todas as tentativas. É como se a ferisse, a sufocasse. Talvez ela não acredite no amor. Talvez ela somente não saiba amar. Ou não possa.
— Ela pode. Ela sabe! – Ofende-se. – Ela pode amar de uma maneira que nunca vi. Ela é pura, embora relutante. Há muito mais amor e bondade nela do que dizem as aparências.
— Ou talvez seja você, minha querida... – Sorri tristemente. – Talvez seja o seu amor por ela o que a impede de ver o que a máscara esconde.
— Não me importa o que a máscara esconde, Madame Eva. Ela é bela por si só e nenhum destrato ou deformação pode mudar isso.
— Não, Regina... Eu falo do que está por baixo da máscara da devoção dela para com você.
— Do que está...?
A pergunta é interrompida pela entrada agitada de Ruby e Marie Margaret. Eva lhe oferece mais um sorriso abatido e apressadamente desaparece do camarim, deixando-a a mercê de suas dúvidas.
— Não importa que você não tenha fala alguma. – Marie pousa as mãos heroicamente na cintura. – Você será a mais bela do palco. Vamos!
Não há outra opção que não seguir em frente e tornar-se o que o Diretor a designou.
Ruby e Marie silenciosamente observam-na pelo reflexo do espelho. A roupa de um boticário não lhe cai mal, mas as páginas em branco, sem notas, sem tom, sem melodia, a assombram. Sente-se um pássaro enjaulado. Sente uma desesperadora leveza no corpo e dor insuportável na alma, como se lhe cortassem brutalmente as asas. Que ironia! Depois de chamarem-na de Rouxinol em cada canto de Paris, enforcam-na!
— Vamos, querida Regina, dê-nos um sorriso... – Ruby suplica, acariciando seus ombros.
— Zelena está com medo de ser substituída e tem grande influência com August, mas isso não significa que isso vá acontecer novamente. – Marie encoraja. – Não vejo como é possível desperdiçarem uma voz como a sua, seria estupidez!
— E o que são eles além de estúpidos arrogantes? – Rebate sombriamente, transtornada.
— Eu aposto que até o final do espetáculo o público estará clamando por você. – Ruby inclina-se para abraçá-la. – Você é uma estrela como nenhuma outra e todos sabem disso.
Regina quer discordar. Quer dizer que, enquanto existir a corrupção e injustiça no coração de seus superiores, vozes serão silenciadas e sonhos serão esmagados, como muitos já foram. Quer revelar que está com medo do rebuliço que ela, o mistério, Fantasma da Ópera, poderá causar ao ver suas ordens desobedecidas pelos diretores. Quer gritar que tudo o que sempre desejou foi cantar livremente, com toda a sua alma.
— Vocês devem ir se preparar. Eu ficarei bem, obrigada. Significa muito para mim que vocês duas estejam aqui.
— E não iremos a lugar algum, querida. – Marie deixa um beijo em sua fronte antes de deixar o camarim.
Quando Regina finalmente sente-se livre para exalar suas frustrações em um grito, a porta se abre novamente. Para sua surpresa, porém, quem entra mais bem vestido e limpo do que nunca é Robin, o maquinista-chefe, com uma rosa exatamente igual à de Madame Eva nas mãos, exceto que não era vermelha, mas tão negra quanto a mais densa noite.
— Um humilde empregado tem permissão de presentear uma Estrela? – Ele sorri.
— Você é bem-vindo, Monsieur Locksley. Eu não esperava que duas rosas viessem.
— A rosa vermelha de Madame Eva é um desejo sincero de sucesso e maestria em sua apresentação, Regina. Esta rosa, porém, é um pedido de perdão.
— Perdão...? – Agita-se. – Fui eu quem desapareceu nos últimos dois dias. Nenhuma ofensa contra mim ela cometeu.
— Emma é uma criatura preciosa, Regina. – Inesperadamente o homem ajoelha-se diante dela, repousando as mãos em seus joelhos. – Ela pode conter o mais magistral dos amores e também o mais horripilante dos ódios. Ela pode curar os males da dor, mas ferir irreversivelmente as dádivas da alegria. Você compreende? Ajude-a, Regina. Ajude-a a encontrar um caminho longe da destruição de seu passado, dos agouros de seu fardo. Ajude-a.
Regina o encara e o arrepio gélido é como o sopro da morte em sua pele. Aquele homem sempre tivera olhos tristes, mesmo quando ela era apenas uma menina trazida para a Ópera nas mãos de Madame Van Straten. Sob a luz das velas no camarim silencioso, agora, não lhe parecem mais. Parecem ansiosos. Como o pássaro aprisionado que sabe um dia voltar a voar. E ele a olha com doçura, como uma mãe olha para a cria. Por quê? Por que os olhos de Robin parecem tão apaziguados somente neste instante? Por que seu sorriso soa como a genuína imagem do adeus?
Antes que possa responder, as trombetas soam como o primeiro aviso.
Robin se levanta e oferece-lhe um braço confortável para guiar.
É hora do espetáculo.
(...)
A casa, como bem esperado, está cheia. Edward Hyde e Henry Jekyll degustam champanhe em seu camarote com Madame Van Straten e seu marido, Doutor Viktor Van Straten. Madame Eva verifica o estado de suas bailarinas, o Maestro Killian Jones verifica o bom humor de sua orquestra, o Coreógrafo Erik Mer sapateia de um lado para o outro observando todos os dançarinos, e o Diretor August W.B. tem seus olhos somente para Zelena nas vestes da jovem e bela Juliette Capulet. Walsh, preocupado com as cores das tintas em seu rosto límpido, vestido como o vigoroso e travesso Rómeo Montague, sequer percebe o carinho que cerca sua esposa e o diretor. Zelena tampouco se importa: August atendeu a cada um de seus pedidos com uma devoção assustadora.
— Este é o seu momento. Se depender de mim, Madame Zelena, os momentos serão sempre gloriosos. E serão sempre seus.
— Comemoremos então, meu caro Diretor, que dependa de você.
As chamas crepitam no palco, o cenário dá vida ao fundo, as cortinas vermelhas se abrem. Inicia-se a música e os bailarinos fazem uma entrada graciosa e sincronizada para o primeiro ato. É, como sempre, uma visão versada em talento e excelência, como nenhum outro Teatro poderia oferecer. A peça em si não é novidade, mas nunca antes havia sido interpretada na voz aclamada de Zelena. Regina observa atentamente cada um de seus movimentos e cada uma de suas expressões, esperando sua vez de vir ao palco, em sua única cena como o boticário que vende o veneno à Roméo.
A plateia eufórica aplaude as ironias inventadas de Zelena e as performances canastronas de Walsh. Edward Hyde e Henry Jekyll parecem mais do que excitados em seu camarote, saboreando champanhe e distribuindo acenos e sorrisos. Regina sabe, dolorosamente sabe que isto não é arte visceral. Sabe que não passa de um entretenimento barato que não comove, tampouco paralisa. Não lhes rouba o fôlego e as lágrimas, somente risos exagerados e breves, incapaz de alcança-los por dentro, de encontra-los onde suas vidas cotidianas não permitem, por baixo de burgueses luxuriosos e indiferentes.
— Três minutos, Senhorita Mills. – A voz de Hansel, o pequeno garotinho acolhido pelos cavalariços que em todo espetáculo gostava de ajudar os contrarregras, a desperta.
O quarto ato desenrola-se e Regina sequer havia percebido, aprisionada em observar o público e os atores, em especial mirar acima e perguntar-se, com um frio e estranho arrepio em sua espinha, a razão de encontrar o Camarote Número 5 ainda completamente vazio.
Onde está Emma Swan?
Não há tempo para questionar-se, tampouco temer. Inspira o ar para seus pulmões com uma força absolutamente suave e impecável. Ela é, nesse exato momento, o boticário mudo que entrega a libertação da ruína ao jovem e triste Roméo. Ela o encarará com solene relutância e prepara-se para dar-lhe o frasco de veneno.
Contudo, arruinados em amargura e soberba, os protagonistas da peça lhe reservaram outro destino quando Zelena ergue-se do jazigo de uma Juliette inconsciente antes do momento do ato na peça, atraindo toda a atenção de seus espectadores.
— Juliette! – Walsh faz-se um Rómeo incrédulo. – Estás viva! Quão vil és tu, soturno boticário, para entregar-me tão complacentemente este veneno de fel sabendo que minha amada vivia? Pensei que fostes meu amigo!
Regina arregala os olhos, estremecendo. O que Walsh está tramando? O que pretende lhe causar? Roméo deveria receber o veneno e tomá-lo para morrer ao lado de Juliette.
Então, é como se, num estalo, tudo se iluminasse. Mudanças na Ópera ocorrem o tempo inteiro por seus Diretores, mas ela finalmente percebe porque mudou-se a ordem e veracidade dos fatos. Percebe porque alterou-se o decorrer do boticário, fazendo-o entrar em cena quando todos os outros personagens estão presentes, em especial Walsh e Zelena. Esta é a razão pela qual o boticário, seu papel, está ali para entregar o veneno ao casal e não fora abordado por Roméo em sua loja e porque Juliette desperta antes da hora, porque tinha de ser cena tão precisa e sugestiva à possível vilania de seu personagem.
Fizera tudo parte de um plano para prejudicá-la.
— Desejastes a minha morte, não é?! – Clama o tenor. – Planejou-a com meus inimigos desde o início, deixando minha amada à mercê destes porcos!
Ela está paralisada. Nunca havia improvisado e o improviso também nunca fora uma técnica recorrente na Ópera. Poderia encarnar nova persona e tomar sua parte na peça, mas as palavras amontoavam-se em medo, presas em sua garganta. Zelena como Juliette, até então esperando pacientemente próxima ao cenário pelo retorno de Roméo e o veneno, aproxima-se impaciente dos dois, servindo apenas para elevar seu desespero.
— Oh, meu amor, este boticário maligno conspirou contra nós... – Seus olhos encontram os de Regina e a Soprano detém-se, apontando uma das mãos na direção dela, assumindo uma expressão dolorosamente assustada.
Como um doloroso e breve arrependimento ao vê-la acuada e trêmula.
— Juliette, minha amada, estás branca como um fantasma! – Walsh a toma nos braços, um péssimo ator, como sempre o fora. – O que este vilão lhe causou? Pensei que estivesse morta!
— Meu bom e adorado Roméo, ele nos vigiava! – Zelena desfalece, gaguejante a encará-la nas vestes de um boticário vilão.
Para Regina, é um horrendo pesadelo.
— Desconfiei assim que meus olhos nele pus! – O tenor desembainha seu florete do cinto, apontando a lâmina para Regina que, atônita, deixa cair o frasco com o líquido. – Pretendias me matar e receber alguma recompensa, não é, canalha?! E depois pretendias matar minha Juliette?
— Eu... – É o único som que consegue emitir. – Eu não... – Está tão estarrecida e despreparada que as palavras simplesmente não se fazem ecoar.
— Alto, seu maldito! – Insiste o falso Roméo. – Pegue-! –Atira-lhe uma espada, armando-se de sua própria e assumindo a postura de combate. – Lute por sua vida, covarde!
Acolhe trepidante a espada em seus braços, mirando ao redor do palco como se clamasse por socorro. O Camarote Nº5 continua vazio e o público mantêm grande expectativa nos olhos, os murmúrios surpresos e risonhos começando a brotar na elegante multidão. Seu único apelo possível desaparece quando percebe que o Duque Pendragon está na plateia, mas não a Condessa ou mesmo Daniel, o Visconde; e que, na coxia Erik Mer e August W.B. seguram firmemente Ruby, Marie e as outras bailarinas agitadas, impedindo-as de intervir.
— Ousas conspirar contra mim, mas não me enfrentar?! – Walsh esbraveja. – Defenda-se, portanto, ou morra!
A espada, embora falsa, desce violentamente contra a sua, lhe ferindo as mãos. Nada sabe sobre a arte da cavalaria, incapaz de simular um duelo apropriado. Sua única defesa é manter a espada erguida, deixando-se golpear pelo ódio velado de Walsh, sob os gritos e risos excitados dos espectadores. Com a força superior e a trapaça estalando nos ossos, porém, o falso Rómeo atinge um de seus dedos na madeira pintada da espada, fazendo-a soltá-la.
Regina afasta-se instintivamente e, ultrapassando talvez os limites de seu próprio divertimento, Walsh toma o frasco usado para o “veneno” nas mãos e o atira em seu rosto, a água que o representa manchando-lhe todas as cores de seu rosto, ofuscando sua visão. E a plateia alheia ou talvez ainda mais cruel que o artista, apontam e riem profusamente quando a bailarina cambaleia para trás com as mãos nos olhos, o chapéu das vestes de boticário caindo e deixando clara a sua identidade, causando mais risos esganiçados e medonhos a ecoar pela Ópera em sua humilhação.
Surpreendentemente, Zelena não está rindo das vilanias do marido. Seus olhos um tanto perdidos encontram os de Killian, o maestro no fosso que, também surpreendentemente, expressa uma compaixão e culpa em seu olhar que reflete tão inesperadamente o olhar dela.
Walsh roubara sua modéstia e Regina sente-se violada diante da plateia que a venerou noites atrás. Em um plano tolo de uma vingança sem razão, mais do que nunca a arte fora, diante de si, vilipendiada e troçada por um egocêntrico sem talento. Ela não compreende como não pode reagir. Inexpressavelmente, a dor de uma vergonha que não deveria ser sua, corrompe seu coração de imensas emoções e a jovem resigna-se a manter as palmas contra o rosto, impedindo-se de ver os risos saltarem como coisas vivas e vis das bocas de cada cidadão parisiense presente nesta noite.
Contudo, no terror circense da Ópera Fée, dois pares de olhos observam atentos acima do palco, sobre a grade.
— Dê-me uma razão, alguma prudência, para não descer ao palco e arrancar a língua deste miserável. – A voz sombria faz Robin de Locksley arregalar os olhos em uma expressão que mescla fascínio e pavor.
— Sim, oh, sim... – Aponta para a plateia ainda histérica de tanto gargalhar. – Estão zombando dela. Estão humilhando a jovem bailarina, pobrezinha, querida Regina...
— Tramam e ousam diante dos meus olhos! Em meu Teatro! – A figura alta e imponente detém-se ao seu lado. O homem afoito a olha de soslaio, mas não ousa encará-la. – Isto eu não permitirei.
— Este é o dia! – Sacode a cabeça, trêmulo. – É este, não é? Eu sabia que seria quando vi a jovem Regina mais cedo. – Vira-se aflito para vê-la.
— Sim. – O fita com seus intensos olhos esmeraldas. O que por baixo da máscara está parece assustadoramente mais profundo, como se ela pudesse enxergar de duas formas completamente diferentes o mundo ao seu redor. – Você está com medo?
— Medo?! – Ri escandalosamente, unindo as mãos com uma garrafa de vinho e derramando-a em todo o rosto, banhando-se nele como se estivesse se embebedando em uma fonte de vida eterna e anestesiadora, o roxo espalhando-se a ensopar sua camisa. – Oh, minha menina, Emma Swan, eu sempre e sempre em minha vida sonhei sobre como seria dançar sem os pés no chão! – Lágrimas escorrem em seu rosto também manchado da púrpura bebida.
— É o seu último ato, diga-me que compreende o valor deste papel. – Sussurra dando o nó na grade com a corda sob sua capa negra, passando o grosso e apertado laço no pescoço do homem que tremelica da cabeça aos pés.
— Sim, oh, sim! – Em excitação, exclama. – Este é meu triunfo, você bem disse, eu a ouvi, eu aceito o que me tem a oferecer! É mais do que qualquer um proporcionou-me! Antes que meu ar se esvaia, minha menina, eu ouvirei os gritos como se aplausos fossem!
Ela rosna, seus olhos brilhando lágrimas inescapáveis de sua própria prisão.
— Não chores por mim, Emma Swan! Nunca por mim! Chore pelo que é bom e puro, como sei em meu coração que você é!
— O palco está pronto, Locksley! – O pressiona contra a grade, segurando-o pela camisa tingida e cheirando a álcool. – O que lhes dará esta noite? O que você lhes despertará?
— Medo... – Sussurra risonho. – Um medo que congelará seus ossos! Uma curiosidade que atiçará todos os homens da lei de Paris...! – Fecha os olhos muito suavemente, como se estivesse em paz. – Uma sombra em seus corações levianos e pífios! Eles estão rindo dela, da sua jovem Regina Mills, minha menina, eles não pararão de rir até que lhes entreguemos o aviso, o alerta, o que todos devem saber...!
— Sim! Este é o dia em que saberão e se aterrorizarão, o dia do qual jamais se esquecerão, que os assombrará daqui até o resto de suas malditas vidas miseráveis! E quando acordarem enlouquecidos em suor e grito em suas camas confortáveis, no temor do escuro, ainda se lembrarão! – A voz rasga-lhe a garganta.
— Sim, minha menina... Emma Swan! – Tomba a cabeça para trás, suado, abrindo os braços, sem forças. – Eu os encontrarei agora, Marian, Roland...!
— O dia em que se lembrarão para sempre que destino aguarda àqueles que ousam desobedecer e afrontar... O Fantasma da Ópera!
— Eu sempre a amei, Emma Swan, deves sempre lembrar-se desta verdade!
Em sua sentença final, melodia fúnebre que lhe fere a alma, empurra-o sem mais delongas. E Robin de Locksley, o maquinista-chefe, o homem que passou sua vida inteira nos bastidores, ansiando por um momento de glória à luz do espetáculo, diante do olhar esperançoso dos espectadores e das palmas orgulhosas destes para enfim unir-se em outros mundos com sua família, tem o seu instante vitorioso. Seu corpo é leve, está voando, voando para baixo, como uma gota de chuva parando no tempo e espaço, congelando antes de chegar à terra.
E então, o derradeiro desfecho: Glorioso e algoz de todas as cordas vocais que se esgoelam quando o laço se fecha em seu pescoço e a veloz e incontida dança de seus pés se faz longe do chão, junto aos espasmos dos braços, o revirar os olhos e o canto sem notas que sai de sua boca, engasgos nocivos, o auge de sua tragédia que em tragédia se encerra.
Zelena desmaia nos braços de Walsh. Regina arregala os olhos, sabe que ela esteve ali, seu Anjo da Música. E como esperava, o público entra em súbito e incontrolável pânico, seguido de todos os bailarinos, o coro, figurinistas, o maestro, o diretor, o coreógrafo, uma profusão de gritos apavorados. Edward Hyde e Henry Jekyll passam seus lenços nos rostos molhados de temor, pedindo que todos se acalmem, clamando para explicar um acidente que jamais poderia acidente ser. O último passo de Locksley é gracioso e, de repente, para. Silêncio em si, o último ato.
Robin de Locksley jaz embalado nos braços da Ópera Fée, seu lar e sua prisão.
E quando o rosto de Regina Mills se ergue, acompanhando o fio pesaroso da corda ainda suavemente a balançar, agonia entorpece seu ser, pois, através da escuridão, as esmeraldas nos olhos inexatos de Emma Swan estão mais vazias e fantasmagóricas do que jamais estiveram.
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