Notas iniciais
Hey you! Que alegria receber o carinho de vocês! Na verdade, que alegria sentir-me tão bem recebida! Vocês merecem uma história escrita com dedicação e cuidado, e é exatamente o que busco fazer com The Phantom of the Opera. Isso é, acreditem, muito importante para mim. Eu já disse que é a minha obra predileta? Sim, eu sei. 7000 palavras. É um capítulo grande. Mas o terceiro, por exemplo, tem apenas 3000. Perdoem-me por me estender demais, mas eu garanto que foi necessário para o desenvolvimento da história. >.< Música-título: Andrew Lloyd Webber - Think of Me. Eu optei por não inserir a música-título ao longo do capítulo. Se vocês preferirem de outra maneira, podemos conversar, sempre. Ainda pelo encarecidamente que permitam-se ouvir. Boa leitura. :)

Este episódio foi o início da ruína da Ópera Fée e do misterioso destino de Regina Mills. Edward Hyde e Henry Jekyll não aceitam os protestos e argumentos, nem mesmo os de August W.B, Erik Mer e Killian Jones, que sempre mantiveram voz ativa nas decisões competentes ao espetáculo em si. A conversa em seu novo gabinete solucionou-se nas seguintes vertentes:

Primeiramente, Madame Van Straten os instruiu a não desafiar àquela que chamam de Fantasma da Ópera, tampouco tentar desvendá-la. Quando questionada e dada como suspeita, a antiga administradora insiste com toda a sua elegância que os cavalheiros chamem o inspetor mais impecável de Paris, Graham de Chasseur*, bem como seu delegado e braço direito, David Berger*, para que investiguem o Teatro de cima a baixo. Cada canto, camarim e corredor; cada poltrona, pilastra e pano de cenário; cada andar, armário e alçapão. A sábia mulher afirma, com distinta convicção, que não encontrarão nem mesmo a sombra da criatura.

Segundamente, a jovem Marie Margaret Blanchard desembestou a falar dela, Fantasma da Ópera, como se falasse de uma divindade que teme e adora na mesma proporção. Nenhuma de suas afirmações foi concreta. Cada palavra foi como fumaça soprada de seus lábios, servindo apenas para confundi-los ainda mais.

Terceiramente, Madame Eva intercedeu pela filha, que já recebia olhares impacientes e acusatórios, tomando seu lugar para dizer-lhes que ninguém podia se aproximar e dialogar com ela. Disse-lhes que ela, Fantasma da Ópera, não poderia ser encontrada a menos que desejasse e permitisse, e que tentar realizar tal façanha resultaria em decepções e em suspeitas de suas próprias sanidades.

Em uma quebra, como um intervalo após o terceiro ato de uma peça, Hyde explodiu com suas tantas dúvidas, enchendo-as de perguntas ríspidas e deselegantes sobre ela. Jekyll, o mais amável, tentou contornar toda a rudez de seu sócio, apelando que viessem a crer que ambos desejavam apenas compreender como tratar com o devido respeito àquela Ópera.

Quartamente, foi a vez de Madame Zelena expor toda a sua impaciência e insatisfação, atingindo a todos com sua insuperável ira e repulsa aos mais baixos. Ofendida e dramática como uma ninfa raptada por um Deus-Menor, fincou seus saltos no chão do gabinete da administração, apontou suas unhas de felina para cada um dos presentes e jurou que jamais voltaria a incendiar o palco da Ópera Fée com suas apresentações deleitosas e de tão incomparável perfeição.

Sim, a artista mais consagrada e reverenciada que já habitou a Ópera Fée, desaparece pelos corredores em direção à saída aos gritos e insultos, com sua dama de companhia Glinda e seu orgulhoso esposo Walsh, anunciando publicamente que não mais se apresentaria. Para Monsieur Hyde e Monsieur Jekyll, este é o mais temível pesadelo.

— Uma catástrofe sem precedentes, Edward! – Jekyll deplora. – Todas poltronas compradas, todos os mais célebres nomes de Paris virão à estreia de nossa administração! O que faremos?! Estamos arruinados antes de começarmos!

— Cale-se, homem! – Hyde ordena. – Deixa-me pensar!

O silêncio arrasta-se no gabinete escuro. Jazem reflexivos os dois administradores, Madame Van Straten e Madame Eva, uma vez que saíram cabisbaixos e desolados os três rapazes, diretor, coreógrafo e maestro. O que fazer? Ainda havia uma soprano que já encantou mil plateias, Guinevere, mas esta afastou-se das artes ao se casar pelas promessas de amor com o Conde Arthur Pendragon. Para a desgraça de Hyde e Jekyll quando ambos pensam em Guinevere, recordam-se de que o Conde Arthur e seu irmão, Visconde Daniel Pendragon, comparecerão à estreia com o anúncio formal do patrocínio de sua nobre família à Ópera Fée. Proposta arranjada pelo próprio Arthur para agradar o coração de sua esposa saudosa.

— Há uma solução! – Madame Eva os arranca de seus devaneios desesperados. – Uma solução promissora, um investimento!

— Desembuche, Madame, imploro-te! – Jekyll quase ajoelha-se diante dela.

— Regina Mills... – Sussurra como se lhes segredasse.

— Regina Mills? A bailarina órfã? – Hyde ergue as sobrancelhas.

— Absurdo! Uma pobre corista, uma aprendiza! – Jekyll afasta-se, contrariado.

— Espere, bom Henry! – Hyde aponta-lhe sua bengala. – Devemos permitir que Madame Eva nos dê explicações transparentes à respeito!

— O que pretende com isso, Eva...? – Madame Van Straten não aparenta agradar-se da ideia.

— Nada que já não seja de seu conhecimento quanto às minhas opiniões. – A professora dá de ombros, orgulhosa. – Ouçam-na cantar, Messieurs. Ouçam e confiarão em mim à primeira nota que soar em seus ouvidos. Regina Mills é um talento desconhecido pela sociedade porque Killian Jones, August W.B. e Erik Mer são escravos babões de Zelena e não permitiram que ela cantasse uma única ária ao público. Infelizmente não posso interferir em tamanha crueldade, mas os senhores podem.

— E por que exatamente interferiríamos, Madame Eva? – Hyde desafia.

Sem responder uma única palavra, Eva sola para fora do gabinete, sabendo-se ser seguida pelos três. Os guia por corredores estreitos, cujos caminhos eram desconhecidos até mesmo pela própria Madame Van Straten, decidida a abrir os olhos – ou os ouvidos – de Edward Hyde e Henry Jekyll. Bastam mais alguns passos para que reconheçam os alojamentos humildes das bailarinas e seus semblantes duvidosos tornem-se imediatamente curiosos, sedentos.

Uma voz lhes alcança como um sussurro e Madame Eva sorri consigo mesma, suspirando. Sabia que ela estaria cantando.

Ela sempre está cantando.

A mulher arguciosa abre discretamente uma das portas, fazendo-se silenciosa como um camundongo. E ainda mais silenciosa, como se sua própria voz não passasse de um sopro fumacento, sibila para os dois homens e a mulher confusa:

— Porque mesmo engaiolando em ferro sólido, arrancando as pequenas asas e torcendo o pescoço de um Rouxinol, Messieurs, jamais poderão impedi-lo de cantar.

A afirmação é como o soar das trombetas celestiais que anunciam as escadarias do paraíso. Jekyll, um homem um tanto couto; e Hyde, um homem um tanto bruto, abrem seus olhos e bocas como se prestes a gritar, pois, como Eva lhes disse, a primeira nota que soasse em seus ouvidos faria das palavras por ela ditas a mais derradeira e indubitável das verdades.

Regina Mills, em um simplório vestido negro de seda remendada, descalça e deitada sobre a única peça no alojamento que não era feita de feno e madeira, um presente da antiga soprano Guinevere às bailarinas, um divã de estofado branco com bordas e pés acobreados. Regina Mills, um retrato de seus pais abraçado contra seu peito, com lágrimas acumuladas nos olhos, olhando para cima como se rogasse aos deuses, cantando em tons de maresia noturna a obra de Giacomo Puccini, da Ópera Gianni Schichi, Ato I, “O Mio Babbino Caro”.

Não! Não é um canto – pensam eles – não pode ser! É uma anunciação. Uma profecia. É a voz de Perséfone e a voz de Maria. E como ecoa em eterna agonia, como esfola os tímpanos e os acaricia ao mesmo compasso e tempo, uma única voz para a alegria e sofrimento...


“O mio babbino caro
Mi piace è bello, bello
Vo'andare in porta rossa
A comperar l'anello!
Sì, sì, ci voglio andare!
E se l'amassi indarno
Andrei sul ponte Vecchio
Ma per buttarmi in arno!
Mi struggo e mi tormento!
O, Dio, vorrei morir!
Babbo, pietà, pietà!”


— Edward... – Jekyll murmura enlevado. – Nós encontramos... Esta é a nossa estrela!

Henry Jekyll descobrirá, em um futuro não muito distante, que Regina Mills será muito mais que uma estrela da Ópera Francesa. Pois nem ele, tampouco seu sócio, sabem dos segredos que vagueiam através daquelas paredes, das sombras no coração de uma jovem cuja inocência fora roubada muito antes do suposto tempo devido.

Regina nasceu na Espanha, em Barcelona, a poucos metros do mar, em um belo dia de outono. Fora planejada e aguardada como um diamante escavado e cuidadosamente lapidado, com a diferença de que, para os pais, nada neste mundo poderia comprá-la. Henry, seu pai, fora provavelmente um dos homens mais bondosos que já desceram à terra. Quando jovem, foi um estudante da música enviado da Inglaterra à Espanha para aperfeiçoar seus conhecimentos. Em meio a um concerto durante seu promissor caminho para as grandes orquestras e futuros solos, Henry avistou, diante de uma plateia de dezenas de pessoas, uma bailarina vigorosa a dançar, nos bastidores laterais do palco, a obra que naquela noite era executada. O rapaz ficou tão fascinado por seus movimentos e impetuosidade, que o último som feito por ele fora o de seus passos apressados no encalce da bailarina. Seu pai, Conde Xavier, um dos homens mais nobres da Inglaterra, somente enviou-lhe uma carta deserdando-o por ter desonrado sua família de violinistas talentosos ao abandonar o concerto.

Isso, para Henry, sequer fez cócegas na alma, pois o rapaz ainda faria uma reviravolta triunfal. Em sua afobação pela moça, encontrou-a e envolveu-a em extensa e agradável conversa, ávido a descobrir tudo sobre ela. A bailarina chamava-se Cora e, para o desconhecimento dele, estava cotada para um dos papéis mais ilustres e cobiçados da dança Espanhola. Impedido de voltar à Inglaterra pela rejeição do pai, Henry conheceu o Duque Gerry, o pai da misteriosa bailarina que, ao ouvir o que o rapaz podia fazer com um violino, decidiu que transformaria a ele e a própria filha em uma dupla que faria a Espanha tremer de Barcelona a Gibraltar, do mais sublime dos céus ao mais ardente dos infernos. Não havia como negar o dom de Gerry para os negócios, tampouco duvidar da música de Henry e da dança de Cora. Dito e feito. Apelidados de Rei e Rainha, conquistaram cada palco, cada esquina, cada sarjeta e cada mansão da Espanha.

Mas o que ambos realmente desejaram, alcançaram e nutriram com todo o amor, foi a vinda de sua primeira e única filha, Regina. Como Regina era amada. Como era bendita. Desde que proferiu suas primeiras palavras, a música e a dança foram inseridas em sua existência, tomando cada segundo de seu desenvolvimento. Com nove anos, Regina já era um prodígio deleitoso. Mas todo o amor, os sonhos e cuidados foram destruídos quando, em uma apresentação grandiosa no Teatro Manzana de Oro, em Madrid, Henry e Cora foram brutalmente assassinados à sangue frio. Sua filha estava na plateia naquela noite fatídica, onde sua vida mudaria para sempre.

Acerca dos acontecimentos no dia do assassinato, o mais importante deles, ou o mais importante que um deles viria a desencadear, foi o que veio das últimas palavras de Henry, pouco antes de vir a óbito, estirado no palco ao lado da esposa já morta. Regina, com apenas dez anos, chorando compulsivamente onde sabia que seria o túmulo das almas artistas de seus pais, ouviu tais palavras e delas jamais viria a se esquecer.

“Não, não chore, minha pequena Rainha. Não lamente nossa partida, mas celebre nossas conquistas. Saiba que a amamos de todo o nosso coração e que, quando os céus nos deram você, foi quando realmente eu e sua mãe conhecemos o sentido de viver. Não se preocupe, por favor, não chore, pequenina! Se prometer-me que não chorará, eu lhe prometo, promessa de pai, que do paraíso lhe enviarei o Anjo da Música e ele a protegerá de todos os males, além de manter sempre viva em você a arte que foi concedida à sua essência, muito mais do que foi concedida à nossa...”

Desde então, Regina passou a crer com todas as forças de sua alma no Anjo da Música. Seu avô materno, o Duque Gerry, já havia falecido há cerca de dois anos. Ao saber que o avô paterno que nunca vira, o Conde Xavier, estava disposto a acolhê-la e criá-la na Inglaterra apenas por saber de sua inclinação para a música e da fortuna deixada por seus pais, a menina revoltou-se como se fosse verdadeiramente uma Rainha como Henry a chamava. Era sensível e generosa como o pai, mas também severamente determinada e geniosa como a mãe, mesmo com tão pouca idade. Assim, foi levada para a França, em Perros, onde Granny Luccas, que fora a primeira tutora de balé de sua mãe, pela qual Cora tivera imensa estima, acolheu-a como a uma filha, tomando as rédeas de suas lições líricas e educação social. Contudo, mesmo com a amabilidade de Granny e o carinho que Regina passou a nutrir pela mulher, a menina guardava segredos apenas consigo mesma, além de uma busca anormal pela solidão. Teve apenas um amigo, Daniel, que esteve na escola naval em Perros, mas que partiu quando a menina completou quatorze anos.

E finalmente esses passos encontram-se com o que mudaria o decorrer dos destinos da Ópera Fée. A promessa do pai Henry Mills: O Anjo da Música.

Com quase quinze anos, Regina foi levada para Paris. As luzes, as gentes e os sons, elevaram-na. Estava na Capital da França e nenhum outro lugar lhe pareceria mais belo e encantado do que aquele. Recordar-se-ia para sempre da mulher imponente e elegante que foi até Perros à sua procura. Granny havia enviado uma carta à Ópera Fée, diretamente à administradora, relatando o talento e esforço ímpares da jovem, convencendo-a a tê-la como aprendiza em seu Teatro. Madame Van Straten, em roupas negras, com seus olhos caçadores e soberanos, encantou-se imediatamente pela beleza, graça e intensidade da menina, crendo nela uma carreira próspera. Na época, uma das bailarinas, Zelena, havia acabado de tornar-se a soprano-mor da Casa, escolhida por sua própria antecessora, Guinevere, que estava às vésperas de casar-se com o Conde Arthur Pendragon, um dos homens mais poderosos de Paris. Guinevere ainda permaneceria como professora ao lado de Madame Eva por mais alguns anos, ciente da falta que sentiria da Ópera, do palco e das jovens meninas sonhadoras.

Sendo assim, pela graça das circunstâncias, Madame Van Straten precisava de uma nova bailarina. Apesar de positivamente surpreendida, jamais esperaria encontrar em Perros, em uma casa tão simplória em tão humilde vila, um talento como ela. Em sua belíssima carruagem, como se tirada do mundo da fantasia, levou-a consigo, dobrando-se como pôde para alegrar a menina que, longe de Granny, sentiu mais uma vez a gravidade da solidão.

Madame Eva e Guinevere, ali já como Condessa Pendragon, receberam-na e fizeram o impossível para que se sentisse em casa, porém, Regina tornou-se um infinito obscuro de reclusão, estudo árduo e expressões profundamente indecifráveis. Ninguém jamais saberia dizer como estava se sentindo ou no que poderia estar pensando. Como uma concha fechada. Mas havia uma pérola dentro de si e Madame Eva tinha certeza de que ela surgiria com um brilho incomparável. Suas filhas, Ruby e Marie Margaret, foram o mais próximo de uma amizade que Regina encontrou em sua juventude na Ópera Fée.

No fim, Madame Eva, Madame Van Straten, A Condessa Guinevere, as bailarinas Ruby e Marie, e mesmo Granny Luccas, são apenas meras coadjuvantes da travessia de menina à mulher de Regina Mills. Entre os tantos cômodos da Ópera Fée, apetecia a ela frequentar a capela silenciosa e cercada de velas de brandas chamas, para cantar em sussurros para seus pais. Acreditava que ambos a vigiavam dos céus e fervorosamente esperava pelo Anjo da Música.

E foi numa noite invernal, na capela, quando Regina estava em prantos incontidos e sôfregos por recordar-se que seus pais naquele mesmo dia, seis anos antes, foram tirados de seus braços, que o Anjo veio. A jovem, no primeiro instante, ficara confusa. Confusa, pois, das sombras, emergiu uma voz suave, hipnotizante e acalentadora. Em nada parecia melodiar com uma obra dos grandes ou pequenos palcos. Ímpar e magnífica, soou em seus ouvidos como um convite. E somente a voz. Madame Eva, a partir daquele dia, permaneceu como sua professora no balé, mas a tutela de sua música passou a pertencer somente a ela, Fantasma da Ópera, que Regina acreditava ser, ao mesmo tempo, o seu Anjo da Música, o presente de seu pai.

É misteriosamente que aquela jovem tímida e contida, apesar do talento sem par, finalmente permite que venha à tona seu poder de voz. Esplendida. Estupenda. As bailarinas, os pierrôs, os arlequins, as colombinas, os musicistas, maquinistas, lanterninhas e porteiros, cada um dos presentes que com clareza pudesse ouvir, ouviu a majestosa e delirante voz de Regina Mills.

Dos dezesseis aos dezenove, Regina aprendeu e fascinou-se pela criatura das sombras que lhe tutelava a música. Durante três anos, somente uma voz, um vulto, um calor, perto, tão perto que poderia jurar tocar-lhe os ombros, abraçar-lhe a cintura, transitar-lhe o pescoço. Mas nada. Ninguém havia, nunca havia, mesmo com a voz a soar como se estivesse sempre ao seu lado.

Dos dezesseis aos dezenove, o mundo de Regina Mills mudou. Não seus ares de solidão, tampouco sua nostalgia de um tempo onde Henry e Cora a amavam e protegiam, mas havia, agora, uma espécie de aura etérea a cercando e elevando. A menina dizia à Madame Eva que até mesmo seus sonhos mudaram desde que conheceu a Voz.

Se antes Regina era um talento latente, dos dezesseis aos dezenove transformou-se gradativamente em um talento célebre e invejável. Apesar do burburinho e dos admiradores que começaram a sondá-la, a jovem parecia também cada vez mais inalcançável. Os boatos foram muitos. O primeiro espalhou-se com a suposição de que Regina interessar-se-ia somente por gente do alto escalão, uma vez pressagiada a ser uma ilustre estrela em seu devido tempo. O segundo foi cochichado entre as bailarinas, em debates sobre Regina ainda ser apaixonada por Daniel, o amigo e primeiro amor juvenil de seus quatorze anos, em Perros, cujo não via desde aqueles dias. O terceiro e, provavelmente, o mais intrigante, foi segredado a guinchos de camundongo, como se para evitar um escândalo. Todos os que sabiam que Regina era ensinada por uma Voz misteriosa e, aos olhos deles, invisível, passaram a crer que seu coração a esta voz pertencia, e jamais poderia ser reavido. A menina trilhava caminhos nebulosos e distantes, como se a Voz a colocasse em um estado de torpor.

“O que Regina Mills sente? ” – Perguntam-se. Quando era a tímida e talentosa bailarina corista, já era um enigma irresolvível. Então, como desvendá-la sendo a ardente e extraordinária soprano, uma descoberta prodigiosa e arrebatadora?

Ruby e Marie Margaret, sempre atenciosas e preocupadas com a irmã que adotaram em seus corações, jurariam a qualquer um que perguntasse que Regina não só era ensinada pela voz, mas com ela também conversava. Descrevia as aflições e humores de seus dias, contava de vez em quando uma nova história de seus pais na juventude, debatia sobre como Walsh era um péssimo tenor e ator em “La Traviata”, de Giuseppe Verdi, interpretando Alfredo Germont com Zelena como Violetta Valéry. Disseram as moças que Regina até zombou maldosamente, dizendo que Walsh encaixava-se perfeitamente com o tolo Barão Douphol; e que a Voz riu avidamente de suas palavras. Madame Eva encorajou diversas vezes as filhas para que tentassem fazer com que Regina se enturmasse desde que chegou à Ópera Fée, porém, desde que conhecera a Voz, a cantora tornou-se devota a ela. E o sorriso... Em nome do clamor de todos os deuses do universo, o sorriso que em seu rosto enfeitou-se dos dezesseis aos dezenove anos, provavelmente seria capaz de incendiar os olhos de qualquer homem, mulher ou criatura, tamanha a beleza e veridicidade de sua curvatura larga.

Diante agora de poucos meses aos pés de seus vinte anos, Regina Mills encara o espelho circundado de ouro, do chão ao teto, muda e sisuda. Na penteadeira de polido carvalho francês, nos tapetes orientais, na cama de dossel de lençóis de seda e até mesmo nos castiçais ao redor de seu novo camarim, flores em mil cores em mil formas, como se fossem elas os incentivos para a apresentação daquela noite de estreia.

A verdade, porém, é que Regina ainda sente as pernas trêmulas. As palavras de Edward Hyde e Henry Jekyll ainda ecoam dentro de si. Substituir Zelena, a estrela da Ópera Fée, sucessora de Guinevere. Apresentar-se ao público da alta Paris para abrir com honras a nova administração da Casa pelos dois cavalheiros que tão encarecidamente lamentaram ter duvidado de sua capacidade, depois de invadirem aos trancos o alojamento das bailarinas ao ouvirem-na cantar. A Ária “Think of Me”, não era simples tarefa a uma cantora inexperiente, o que a fez hesitar como nunca antes.

Mas a Voz... A Voz, como se lhe tocasse o corpo e a abraçasse suavemente, fora a única capaz, depois das tentativas de Madame Eva, Ruby e Marie Margaret, de acalmar seu coração assustado. A Voz tocou-a mais uma vez sem as mãos, apenas com palavras de uma devoção que a desmanchou, que a fez fechar os olhos e suspirar sofregamente, convencida a dar-lhe sua inteira alma.

Embora o fascínio lhe transborde, não aguça-lhe somente o mistério da face que comanda a Voz, mas também a perturba desconhecer seu nome. A nomeia de Anjo da Música, Voz e Musa e Mestra, mas jamais pôde solicitá-la com um nome que pudesse guardar consigo e pronunciar no silêncio das noites glaciais. Em cada um de seus sonhos a Voz estava presente. Sonhava que ela viria das escadarias do paraíso com suas asas alvas e seu timbre celestial, cantando-lhe sublimes melodias, tocando-a com mãos que curam e protegem, embalando-a em seus braços a sussurrar canções indeléveis em seus ouvidos. Não apenas uma ou duas, mas incontáveis foram as vezes em que Regina acordou banhada em suor e néctar, encharcada entre as pernas, ruborizada pelos pensamentos ardentes que derretiam-na de dentro para fora. E a jovem cansou-se de tatear as paredes e os móveis em busca de seu paradeiro.

Nada além de música e sombra.

O vestido branco lhe cai bem. É como uma Rainha prestes a ser coroada, e mais além, uma mulher santa prestes a ser canonizada. Bela, não, belíssima! Justa silhueta, pálido e deslizante cetim, renda creme, fina, tênue, delicada. Os cabelos presos em um alto e majestoso penteado, libertando completamente a visão do rosto tingido de negro nos olhos e vermelho nos lábios.

— Regina... – Suspira Ruby, ancorada na porta do camarim. Isso é o que, quando mais jovens, ela, Regina e Marie, sonharam: O divã dourado, as almofadas turquesa, os tons de vermelho nas paredes em arabescos do Oriente, os móveis de madeira escura, o espelho soberbo de bordas acobreadas. – Você está mais que bela, minha amiga!

A bailarina a olha pelo reflexo do espelho com as sobrancelhas franzidas para baixo, opostas, expressando uma melancolia que a outra não imaginou ser possível ver em uma noite como essa. Regina não deveria estar radiante?

Marie revela-se sobre o ombro de Ruby, intrigada.

— Onde está o seu belo sorriso, cara Regina? – Incentiva. – Deve se orgulhar deste grande dia!

— Permitam-me uma palavra em particular, minhas queridas, sim? – Madame Eva depressa as interrompe, tocando seus rostos pintados para o coro do espetáculo. – Posso convencê-la a sair deste camarim com um sorriso jamais antes apreciado, eu lhes garanto.

— Mesmo que Regina suba no palco com uma carranca aterrorizante, quando sua voz soar, será como o canto dos pássaros na primavera, mamãe. – Marie assente, confiante.

— Esperaremos por você! – Ruby acena, arrastando a irmã consigo.

Com as portas fechadas, Madame Eva encara a jovem aprendiza por breves instantes, notando como seu peito projeta-se veloz sob o tecido do vestido, tamanho o descompassar de seu coração.

— Fale a mim, cara menina. – Sorri. – O que a aflige?

— Ela. – Confessa em um sussurro. – Esta noite me foi uma surpresa não tão agradável, Madame Eva. Enlouquecerei antes que as cortinas se fechem se ela...

— Ela não a reprovará, Regina. – Contesta. – Se orgulhará. Por que duvida de si mesma justamente quando está prestes a subir ao palco?

— Esta noite é para ela. Eu canto por ela, somente por ela. – Sussurra em insegurança. – Não poderá ser nada menos do que perfeito, Madame Eva. Deve estar à altura de sua magnitude.

— E ouvirá, minha querida. – A mulher destranca o fecho dourado de uma caixa de cristais em suas mãos, revelando uma alva Dama da Noite envolta pela fita de seda negra. – Se é verídico que por ela você canta, creia em mim quando afirmo que é por você que ela vive.

— Dama da Noite... – Sorri. – “Uma flor a cada anoitecer para perfumar de açúcar os seus sonhos”. – Cita algo que a Voz lhe dissera tantas vezes.

— E hoje, antes que me esqueça, há também essa. – Da mesma caixa retira uma rubra e bela rosa envolta pela mesma fita negra da outra flor. – Com esta lhe vem a mensagem de que esta noite é o início de uma nova vida. Da sua... E da dela, minha cara.

— Amor... – Toma a rosa com toda delicadeza possível, fluindo o ar para seus pulmões como se subitamente necessitasse de fôlego.

— O Maestro a chama. – Eva lhe dá passagem, apontando um dos braços abertos para a porta do camarim silencioso. – Vá, Regina. Este é o seu dia de glória.

(...)

As chamas cercam o palco como um círculo flamejante e ardente que guarda a belíssima jovem diante de tantas expressões incrédulas e sombrias. No fosso de orquestra, os musicistas estão posicionados, apenas à espera do comando do Maestro. Em cada poltrona há um par de olhos mais julgador do que o que ao lado está, como nem mesmo um único espectador acreditasse que Regina Mills, a bailarina corista, órfã de Henry e Cora Mills, fosse capaz de executar um papel que pertencia à Zelena.

Contudo, Regina está preparada. Sente a extraordinária maestria percorrer seu corpo como se estivesse fervendo seu sangue e despertando-lhe os sentidos com um rugido de fogo sobre sua consciência, subindo por sua garganta com o clamor da vitória.

Na densa reflexão na qual se encontram seus pensamentos, apenas uma: Ela. A Voz. A Voz como uma âncora, um cais, uma rocha, um navio e um caminho secreto em águas obscuras, um vento Norte, uma bússola e uma calmaria inquebrável para o oceano tempestuoso que é sua alma e seu coração. Com a confiança de que nem mesmo o mais terrível dilúvio pode atingi-la enquanto direcionar todas as suas crenças e esperanças para a Voz, finalmente concede o sinal ao Maestro Killian Jones e dá início ao que seria uma noite memorável para a Ópera Fée, para Paris, para toda a França.

Sua voz ecoa aguda e suave, elevando-os, inundando seus olhos e lhes transbordando as almas. Zelena retorce os finos lábios, furiosa, pois não haveria quem pudesse negar, jamais alguém contestaria: “O Rouxinol de Paris”, ela é triunfal, uma aparição magnífica e sem precedentes. Zelena sabe não ser mais a Musa, sim, alguém tomara seu lugar, e esse alguém é a jovem Regina Mills, misteriosa e ímpar, mirando a todos na plateia como se nada temesse.

Se a ruiva orgulhosa permanecesse, veria, pouco antes de dar seus passos firmes e grosseiros para o saguão, para onde guiou-se o firme olhar de Regina e porquê este tornou-se tão vacilante. Porque Regina mira na direção do camarote número 3 e o vibrato preenche a sala, esvaindo-se de sua garganta como um grito trêmulo e comovido. Ao vê-la, o rapaz que ocupava a cadeira sorri alegremente. Daniel, o Visconde Pendragon, a quem conhecera quando menina, acredita que seus olhares se encontram e o encontro a emociona, porém, em seu encanto pela soprano, não sabe quem a observa no camarote supostamente vazio acima, o número 5, não percebe para quem seus profundos olhos castanhos realmente atentam-se. Os olhos de Regina, em pleno auge do espetáculo, encontram-se com seu Anjo da Música.

A decorrência de seu comparecimento e a licitude do ardor de seu olhar são imediatas. A voz de Regina projeta-se pelo corpo como a voz dos deuses ecoando em cada uma das almas, pecaminosas ou castas, elevando-as. Mesmo Madame Eva, Madame Van Straten e as outras bailarinas, que já ouviram-na cantar tantas vezes, espantam-se com a maestria de sua canção. Esvai-se entre seus lábios como um sopro de vida, atinge os ouvidos dos espectadores como cânticos celestiais e lhes cura e dilacera interiormente na mesma proporção.

Passeia através das notas e acidentes, dança nos compassos, desliza sobre as pausas, brinca de magia com os sons e com os silêncios. A partir desta noite, diriam para sempre uma verdade incontestável: Zelena é perfeita. Não há desafinos e tropeços, não há temulência e erosão. É constante e belíssima forma sonora.

Mas Zelena não possui o que Regina possui até demais.

Alma.

No palco, está entregue. Entregue à música, entregue ao público, entregue à melancolia saudosa do que a canção expressa em tão doce disfarce de luz e graça. Secretamente, Regina está entregue ao seu Anjo da Música, seu coração está seguro e ela acredita que este só esteja mantendo-se dentro de seu peito porque ela, a Voz, está ali, em vestes negras, em profundo olhar. Sente-se sob suas asas, velada por sua devoção. O que faz os olhos de Paris transbordarem é sua entrega. O que faz o céu garoar, como se debulhando de emoção, é sua entrega. É a sua própria alma dada a arte de bom grado, incondicionalmente.

O Visconde Pendragon está por ela tão hipnotizado quanto todos. Levanta-se de sua poltrona, eufórico, deixando seu irmão, o Conde Arthur; e sua cunhada, a Condessa Guinevere, ex-bailarina da Ópera Fée, que jaz orgulhosa em prantos por Regina, totalmente confusos com sua fuga abrupta. E dirige-se o joveníssimo rapaz pelas escadas, guiando-se às portas dos alojamentos para não perder um segundo sequer e conseguir interceptar Regina Mills após o espetáculo. Há anos não percebe-se tão ansioso.

Em Perros, na cabana do mar, Daniel conheceu Regina. Estava na Escola Naval e um dia, sendo um menino solitário, saiu para cavalgar na praia. O cavalo desgovernou-se e o único motivo pelo qual o rapaz não se feriu gravemente, foi a aparição graciosa de uma jovem morena que, cavalgando em um belo corcel, conseguiu apaziguar o animal, salvando-o. Desde então, foram bons amigos, melhores amigos, até o dia em que o Conde Arthur, mais velho e perspicaz que o pobre Daniel, observou com olhos desagradáveis a aproximação de seu irmão com uma mera artista órfã, levando-o de volta à Paris. E nunca mais os pequenos puderam se reencontrar, ao menos até esta noite.

O que Daniel Pendragon ainda não sabe é que Regina sequer o enxergou na plateia. Regina só tinha olhos para um camarote, para uma poltrona. Seu coração disparava e acalmava-se concomitantemente apenas por ela, a Voz, seu Anjo da Música, Fantasma da Ópera. E, para sua extrema infelicidade futura, Daniel ainda não sabe que essa voz, esse Anjo e Fantasma, o viu entrar, o viu olhar para Regina e o viu sair. Observou-o atentamente, como um predador observa a caça antes de abatê-la e devorá-la sem compaixão. Ela viu como o Visconde empolgara-se, como seu peito inflou de alegria.

A Voz, Fantasma da Ópera, o viu. E detestou o que vira.

(...)

Ocultar-se nas cortinas vermelhas e deixar o palco sob mil aplausos calorosos e comovidos é, para Regina, uma espécie de despertar. Os olhos desdenhosos do público enchendo-se de lágrimas conforme o espetáculo iniciou-se. Os olhos admirados e incrédulos dos administradores, os primeiros a duvidar de tamanho troféu. Os olhos incentivadores, mas não muito convictos, dos artistas da Ópera Fée. Principalmente: Os olhos de seu Anjo da Música perseguindo-a aonde quer que fosse em seu deslizar suave pelo espetáculo. Cada um dos olhos ainda está flutuante em seus pensamentos enquanto, pela coxia, dirige-se ao seu camarim.

Através dos corredores, um tapete vermelho feito de pétalas, palmas e ovações. O alvoroço patusco de seus companheiros de dança e coro e arte; a recompensa, o apogeu. Fotógrafos, jornalistas, boêmios, nobres e balconistas; homens e mulheres da alta sociedade e do subúrbio atiram-lhe flores. Na porta do camarim, aguarda que Ruby e Marie terminem de acomodar os imensos e tantos buquês perfumados. Então, finalmente consegue respirar quando restam ela e Madame Eva no recinto.

— Ah, menina querida! – A mulher sorri, extasiada. – Eu sabia, eu sempre soube...!

— Onde ela está, Madame Eva? – Interroga, ignorando seu elogio emocionado. – Rogo por saber antes de mais nada.

— Acalme-se, minha bela. – Sorri ao estender a mão direita com uma rosa negra de caule verde escuro envolta por uma fita branca. – Aqui está sua resposta.

— Oh, Eva! – Exclama e duas lágrimas brotam em seus olhos. – Sim, sim! A resposta é sim!

Sua empolgação provém de uma afirmação feita pela Voz quando seus árduos ensinamentos começaram. “Dar-te-ei uma Dama da Noite a cada luar. Dar-te-ei uma rosa escarlate a cada despertar. Mas a negra rosa, a rosa do seu Anjo da Música, lhe será dada somente quando estivermos às vésperas de nos encontrar”.

E Regina compreende. Sabe que finalmente a alcançará, finalmente terá sua confirmação de que a Voz é real e não apenas um fruto de sua imaginação combinado à ilusão alimentada por Madame Eva. Não possui ainda ciência indubitável de quando, como, nem mesmo onde, mas a certeza de que muito em breve estaria diante dela, renasceu-lhe todo o fôlego e a paz roubados durante a apresentação.

Um baque bruto na porta a arranca de suas expectativas.

— Ninfa Calíope! Filha de Afrodite! Que conquista sem par! – Hyde adentra seu camarim de braços abertos, sorrindo escancaradamente, como nunca se havia visto, nem mesmo o próprio Henry Jekyll.

— Não há palavras! – Jekyll o segue com o mesmo sorriso, além de olhos inchados e pele avermelhada de pranto. – Não há poesia que delineie apropriadamente o significado desta noite!

— Deixem-me passar, deixem-me passar! – Uma voz jovem ecoa do lado de fora e Regina, prestes a prestar seus agradecimentos aos elogios dos patrões, franze as sobrancelhas por reconhece-la.

— Observe, Edward. – Jekyll adéqua os óculos no rosto. – Não é o irmão caçulo do Conde Pendragon, esposo da Grande Rainha, a consagrada Soprano, Guinevere, Daniel Pendragon, o Visconde?

— Sim, Henry! – Admira-se. – Venha, meu rapaz, devemos apresentá-lo à nossa estrela!

Com roupas de gala, testa suada, fios rebeldes e um sorriso de rasgar as mandíbulas, Daniel passa pelos administradores cego de amores. Quando seus olhos se encontram com os da bailarina, Regina solta um grito mudo, levando as mãos à boca.

— Oh! Daniel!

— Regina... – O jovem tomba a cabeça para o lado, encantado.

— Parece-me que esses dois corações juvenis já se conhecem, Edward! – Jekyll ri, meneando negativamente com a cabeça. – Madame Eva, creio que este é o momento no qual nos retiramos!

— Certamente, certamente! – Hyde ajeita sua bengala de bronze sob o braço, empinando o queixo e marchando para fora. – Vamos, Henry, o vinho hoje será por minha conta! Nos vemos em seu jantar comemorativo, Regina, nosso Rouxinol de Paris!

— Rouxinol de Paris...? – Regina olha interrogativamente para Eva.

— Sim, minha querida. – A mulher beija suas mãos carinhosamente. – É como todos a estão chamando desde que as cortinas se fecharam.

— E como não chamariam?! – Daniel quase grita, arrebatado.

— Eu devo ir, querida. – Eva encara o Visconde com pesar e dúvida. – Está certa de que ficará bem sozinha? Devo preocupar-me?

— De maneira alguma, Eva. – Nega. – Daniel é um amigo de longa data.

— Nós nos veremos em sua festa? – Eva já sabe a resposta.

— Não, não nos veremos. Estou cansada, permanecerei em meu camarim. – Lhe sorri confidente.

Uma vez sozinho com a artista, o Visconde avança para abraça-la com uma força descomunal, mantendo-a em seus braços em um aperto saudoso, quase desesperado. Como sentira saudades dela! Cheira seus cabelos, a prende contra si e sente as curvas sinuosas de seu corpo, perdido em um encanto inédito, como se seu coração estivesse parado e voltasse a bater furiosamente dentro de seu peito. Ela o abraça com a mesma comoção.

— Você está belíssima! Tão mais bela do que da última vez em que nos vimos!

— Senti sua falta, Daniel. – Sorri cordialmente. – Você se tornou um belo homem.

— E você tornou-se a mais bela entre todas as mulheres! – Toca seu rosto, débil, afogueado. – E agora que eu a encontrei...

— Daniel Pendragon! – Um brado o faz arregalar os olhos de pavor, este justificado pela mão que lhe agarra pela capa e começa a arrastá-lo para fora. – Quão previsível!

— Art, meu irmão, lembra-se de...?

— Como haveria de esquecer? – Interrompe e o empurra pela porta. – Meus cumprimentos, Dama Mills, foi um deleite ouvi-la esta noite. – Inclina-se em falsa cortesia. – Em breve Daniel poderá colocar seus assuntos em dia com a senhorita, mas dê-nos licença por agora!

Regina não o responde. Encara de queixo erguido e olhos soturnos até que os irmãos desapareçam do camarim, o Conde furioso e o Visconde apaixonado. O silêncio a abraça novamente e percebe que ainda despreza o Conde Arthur Pendragon. Despreza sua arrogância e seus repulsivos julgamentos precipitados sobre todos ao seu redor, como se algum direito lhe fosse dado para atribuir valor ou invalidez aos outros. Despreza-o por ter arrancado Daniel de perto dela quando eram mais jovens pelo simples fato de não suportar a possibilidade de seu irmão cortejar uma simples cantora. Sua melancolia de menina que perde o primeiro amor, revogou. O desgosto por Arthur, não.

Contudo, não há tempo para divagar sobre a prepotência repugnante do Conde. A quarta voz surpresa depois da entrada de Hyde, Jekyll, Daniel e Arthur, estronda em seu camarim florido e retumba dolente no coração dela.

— Quinhentas almas aprisionadas, mil olhos latejados, dois mil braços e pernas trêmulos. Vitoriosa, triunfante. Nem mesmo se os próprios Deuses em carne estivessem a cantar sobre o palco haveria tamanho deleite na história da Ópera.

É ela. Seu Anjo da Música.

(...)

— O que diabos pensa estar fazendo?! – Rosna Arthur, atirando o pobre Daniel contra a pilastra de mármore.

— Arthur, pelos Deuses! – A Condessa Guinevere, sua esposa, conversava orgulhosamente com Madame Eva a respeito de Regina até deparar-se com a cena escandalosa.

— Deixe-me em paz, Art! – Replica o Visconde. – Não sou mais um menino!

— Sim, sim, você não passa de um menino ingrato e tolo! – Aponta-lhe o dedo, severamente encolerizado. – Arduamente o fiz esquecer desta donzela inferior e você corre aos braços dela na primeira oportunidade!

— Eu jamais deveria tê-lo obedecido já naquela época! – O desafia, embora entristecido de sua recusa. – Eu a deixei à mercê da solidão, porém, não perderei nem ao menos um segundo a mais para redimir-me e retratar-me!

— Ela é uma reles cantora, seu parvo, infante!

— Arthur! – Guinevere clama agressivamente, aproximando-se do marido. – O que significa isso? O que sou eu, então?

— Você é o meu amor... – Suspira.

— O seu amor é uma artista tanto quanto Regina Mills é! Como ousa reprimir os sentimentos de Daniel dessa maneira?

— Eu sou o Conde Pendragon, filho do Marquês Uther e neto do Grão-Duque Emrys! Tenho meus direitos e privilégios, estes não concedidos a meu irmão de posição inferior! Tampouco permitirei que ele se engrace com um rabo de saia ainda mais inferior!

— Não há inferioridade e superioridade no amor, Arthur. – Defendeu o cunhado, tocando suavemente seu ombro e sorrindo para o rapaz ainda magoado com o irmão mais velho. Daniel é merecedor de uma chance de provar quão garbosa e digna de olhares invejosos Regina pode ser!

— Poupe-me! Ele sequer sabe se a garota ainda lhe tem apreço, Gwen!

— Sendo assim, deixe-o descobrir por si mesmo! – Firma estalado um de seus sapatos dourados no piso reluzente do saguão.

— Eu... – Resmunga entredentes, contrariado. – Muito bem, Daniel, vá em frente, para o inferno com isso! – Ergue os braços, rendido.

Sussurrando pequenas maldições, O Conde deixa a Ópera Fée praticamente arrancando sua bengala e sua cartola das mãos do educado porteiro, o jovem Baelfire, seguido de um sorriso satisfeito e influente da esposa. Daniel vê-se finalmente livre para atravessar novamente eufórico os corredores e despontar no camarim de Regina. E assim o faz.

Agora, para ele, tudo será diferente. Seu coração está em festa, saltando desesperadamente em seu peito, buscando incessantemente pelo fôlego. Não a esperava tão bela e triunfante, tão alcançável e ainda dona do mesmo olhar de sempre: poderoso, escuro, denso. Fora de fato o primeiro amor da moça e ela o seu, porém, ao contrário do que lhe aconteceu, os sentimentos dela não foram reacendidos pelo reencontro casual. Sabe, portanto, que deverá lutar para reconquistá-la.

Alcança a porta cuja estrela exibe recém-cravado o nome de Regina. Tira do bolso interno das vestes uma margarida alva e bela para presenteá-la, embora sinta que a flor venha a ser um mero desperdício diante de tantos buquês cheiros e elegantes.

É neste caminho afobado e ansioso que se inicia o pesadelo confuso do Visconde. A porta do camarim de Regina Mills está trancada. Dentro dele uma voz, uma voz que sabe não pertencer a ela, sussurra tão nebulosamente quanto os ventos noturnos de Paris. Uma voz que chega aos seus ouvidos em tom de ameaça, embora para ela chegue em tom de convite.

— Você os enfeitiçou esta noite. Você os deixou como cães sedentos, como prisioneiros sem visão e sem olfato, que seguem apenas o som como se seguissem uma luz guia. Todos os artistas, os plebeus e nobres são agora seus escravos.

— Inúmeras noites de sonhos abrasivos me consomem à tua espera... – Regina sibila roucamente, encarando o espelho com os lábios entreabertos, jurando ver alguém através do vidro, não como um reflexo.

— Venha a mim, Regina.— O sussurro delirante a faz revirar os olhos em entorpecimento, como um frio arrepio que lhe percorre da cabeça aos pés.

— Sim! – Grita, sem fôlego. – Inúmeras ilusões ardentes me devoram à sua procura. – Espalma as mãos no espelho, fechando os olhos. – Mostre-se... Preciso saber além de toda a compreensão quem é você.

— Aquele tolo garoto bate à porta! – Vocifera a voz ao ouvir o baque da mão ossuda de Daniel na madeira. — Pomposo insolente! Burguês de coração fraco! Deita sobre ouro e acha-se merecedor de uma joia das estrelas como você! É ele, não é? O rapaz da cabana no litoral, seu adorado amigo de infância, a quem na época jurou você entregar-se quando chegado o momento...

— Sim. – Resigna-se. – Ele é O Visconde Daniel Pendragon.

— Regina! – Daniel grita do lado de fora, esmurrando a porta. – Quem está aí?!

— Vassalo de caprichos caros!— Brada a Voz. — Servo das modas, animal de estimação dos ricos e zombadores cruéis do mundo abaixo de seus pés! Maldito! Você o quer? Quer entregar-se a ele como o faria se tivessem permanecido juntos como quando crianças? Diga-me a verdade, Regina, você o quer? Eu mereço sua verdade! — Há uma dor desconhecida pela jovem em seu tom.

— Não. – Mantém-se branda. – Inúmeros desejos me despertam em euforia, mas nenhum deles se compara ao desejo que faz-me sentir como pólvora e brasa; o de vê-la e sabe-la real. Mostre-se, meu Anjo da Música. Nem mesmo naquele palco, cercada de rostos julgadores e debochados, senti-me tão prestes a enlouquecer quanto agora.

O silêncio afoga o camarim. Resta o respirar descompassado da bailarina, arfante e trêmula. Do outro lado, vozes abafadas questionando Daniel para descobrirem porquê a estrela da noite está trancada em seu camarim em solidão, perdendo a oportunidade de ser cortejada e elogiada por todos os espectadores do espetáculo estonteante que lhes dera, além do fato de que os murros de Daniel na porta alarmaram os presentes.

Mas Regina não os ouve.

— Eu preciso. – Insiste como se a voz estivesse entalada em sua garganta, rasgando-a.

— Venha após suas comemorações merecidas. – A Voz ordena. — Há tempo o suficiente e eu farei a noite sem fim para esperá-la...

Daniel bate na porta novamente, mais forte. Regina respira fundo e sorri para o espelho, decidida.

— Não... Eu não posso esperar mais. Não quero comemorações de multidão e cochichos. Quero que abandone as sombras... – Sussurra. – Ou que me carregue até elas com você.

— Regina! – Daniel clama novamente e já há um coro de vozes agitadas do outro lado, empurrando a madeira, forçando a maçaneta, golpeando-as sem parar.

Quando a bailarina se vira furiosa afim de afugentá-los, um som baixo como uma porta abrindo-se sutilmente a faz estremecer. E o é. O espelho de seu camarim é uma porta. Olhos brilham na escuridão quando uma corrente de ar invade o quarto e as velas se apagam. Regina estremece mais vezes do que é capaz de contar. Os olhos dela parecem flutuar no breu, chamando-a. E ela vai, precisa ir, precisa descobrir. Caminha hipnotizada na direção do espelho e atravessa a passagem como quem vai às portas celestiais do paraíso.

Um estrondo e a porta diante deles se abre. Daniel Pendragon, o Inspetor Graham de Chasseur, e os administradores Henry Jekyll e Edward Hyde, caçam-na alertas e confusos. O coração do Visconde se aperta.

O camarim de Regina está vazio. E os únicos vestígios de sua presença são duas marcas de mãos na limpidez do espelho.

Notas finais
Eu disse que postaria um por semana, certo? Muito bem, tentarei postar o terceiro amanhã, onde finalmente conheceremos a que carrega o título da história, então, permaneceremos nas postagens semanais o quanto possível for. :) Vocês gostaram? Nos vemos no próximo, caríssimos. :) Obs.: Graham de Chasseur – É o nosso Graham, mesmo, apenas uma adaptação para casar com o local, Paris, França. Chasseur significa caçador. David Berger – É o nosso David, mesmo, apenas uma adaptação para casar com o local, Paris, França. Berger significa Pastor.