The Phantom Of The Opera
1 Overture
Notas iniciais
Mesmo após dez anos, o hoje Conde Daniel Pendragon jamais abandonará de sua memória a fatídica noite invernal onde os gritos dos artistas e espectadores compuseram o ruir da ilustre Ópera Fée pelo que a imprensa chamou de “Misterioso Incêndio”, mas que ele sabe ter sido provocado pela mulher que fora o seu grande amor. Mas o que nem todos sabem, talvez exceto por ele e quem bem a conhecia, é a razão pela qual ela ateara fogo no Teatro, porque havia tamanha sombra abismal em seus olhos e tantas devastações furiosas em seu coração. Isso permanecerá para sempre em segredo irrespondido.
Seu fiel cocheiro Liam permanece na carruagem à frente do cemitério, como sempre, sentado na boleia, mascando tabaco. Seu mordomo e velho amigo, Sr. Leopold, de longe, com as mãos apoiadas em sua bengala, o observa caminhar lentamente ao lado da esposa, que o ajuda a carregar as rosas vermelhas, pranteando junto dele. O Conde e a Condessa nunca se permitem ser acompanhados.
Sob uma belíssima macieira, florida naquela ensolarada primavera, um túmulo de mármore com letras douradas é seu destino. “Regina Mills: O Rouxinol de Paris”. O Conde, mesmo enfraquecido pelo cansaço emocional, chora ao deixar o buquê sob a pedra. Constantemente visita o cemitério para ver o túmulo de Regina e recorda-se de que não há corpo ali. Não há carne ou esqueleto, nunca houve, nada de sua pele delicada ou um fio de seus cabelos negros. Nenhum órgão. Não há em mesmo uma pequena prova que ateste a veracidade de sua morte. Os detetives, os repórteres, os bailarinos, todos os atuantes na investigação não saberiam dizer que há certezas incontestáveis de que sua amada fora apenas mais uma entre os restos do incêndio.
Não.... Daniel sabe. Sabe com tanta veemência que lamenta por referir-se à ela para si mesmo como sua amada. Não lhe era direito pensar com tamanho atrevimento, não quando as lembranças são tão claras em sua mente alucinada pelos anos e pela rejeição. Alguém além dele amava Regina, naquele tempo. E ninguém jamais poderia amá-la como aquele alguém amava, tampouco poderia outro além desse alguém deter a reciprocidade desse amor.
O Conde atormentou-se dia após dia, flagelou-se com seus demônios e arrependimentos. Esteve tão cego de amor juvenil que fora um tolo insensível, incapaz de ver os reais sentimentos dela, assim, na incompreensão, condenando dezenas de vidas caras, risos contagiantes e artistas majestosos que teriam sido poupados naquela noite se, como um amigo leal, tivesse aconselhado-a a seguir seu coração e partir para longe daquele mundo hostil ao invés de tentar conquistá-la a qualquer custo. Se o fizesse, talvez não estivesse, àquela altura de sua vida, tão devastado pela dúvida em amargura.
E é exatamente esta languidez que o faz fechar os olhos e mais uma vez vaguear em seus devaneios até o início da desolação da Ópera Fée.
Ópera Fée. Paris.
— Messieurs... – Suspira profundamente Madame Van Straten*, proprietária da majestosa Ópera Fée, buscando paciência em seu interior para lidar com os excêntricos e agitados novos administradores. Faz calor à tarde e o vestido púrpuro de algodão a incomoda, deixando-a mais que impaciente diante da vagareza dos clientes. – Sigam-me, por gentileza. Seu futuro lhes espera.
Os três adentram o saguão e os olhos de Henry Jekyll e Edward Hyde quase saltam das órbitas. Colunas gigantescas, vitrais de cristal em cores vibrantes, castiçais de bronze por toda a extensão do triplo lance de escadas de mármore. O tapete vermelho como um caminho de honra nas direções da sala, serviçais polidos e eretos a curvarem-se e servirem champanhe borbulhante em taças compridas e finas.
Corredores ornados com célebres obras de arte, desde pinturas impressionistas, esculturas barrocas e estátuas de lendários gregos, até vasos místicos em florais dos confins Oriente Médio. Na arquitetura, a suave combinação do Renascentista com o Gótico e um tom do Rococó, acrescentes detalhes românticos em cada uma das curvas e entradas.
Contudo, além do tapete vermelho, das cortinas aveludadas e escadarias marmoreais é que se encontra o verdadeiro deleite: Amantes boêmios, almas perdidas, andarilhos do sublime, pássaros das tempestades! Como num circo refinado, na Ópera Fée reúnem-se bailarinos, contorcionistas, acrobatas, mestres da ilusão, charlatões, sopranos, tenores, contraltos! Atores, malabaristas, dramaturgos, coreógrafos, palhaços, pintores, ventríloquos! Violinistas, percussionistas, maestros! Piratas, reis, assassinos, bailarinos e seres alados! Bêbados, biltres, belos, boçais! Cegos, surdos e mudos e gigantes e anões! Ninfas, mendigos, faunos e leões! Poetas, clérigos e bruxos! Artistas somente, campeões da noite sem fim...!
Sim... A Ópera Fée é nada menos do que uma Fábrica de Sonhos. A cada passo Henry Jekyll e Edward Hyde estão mais impressionados com tamanha divindade diante de seus olhos. Nem mesmo os meros detalhes são triviais, como em um quebra-cabeça de um milhão de peças, onde cada uma é essencial.
— Magnífico! – Jekyll ergue sua taça e arregala os olhos fracos por baixo dos óculos em direção ao teto, transbordando admiração entorpecida pela abóboda em pinturas aquareladas de um céu de inocentes anjos nus a brincar nas nuvens.
— Certamente há pedras e tintas deslumbrantes! – Hyde encara Madame Van Straten com incômoda indiferença, deixando ao dever de seu sócio encantar-se com a arquitetura inexpressavelmente bela da Ópera. – Mas confesso que meus interesses se diferem do que comove meu bom Jekyll, minha bela dama. Ele se alimenta do etéreo, mas eu, como um homem ordinário, sou vorazmente carnívoro.
— Sua franqueza, Hyde, é tão admirável quanto inconveniente. – Madame Van Straten deu-lhe um sorriso preguiçoso, prendendo uma das mechas douradas de seu cabelo sob o grampo embaixo do elegante chapéu empavonado. – A elegância e compostura são bem-vindas neste teatro, tente se lembrar disso nos dias que se seguirão. – Arqueia a severa sobrancelha. – Mas se está tão excitado por conhecer as bailarinas que, como sabe, são as melhores de toda a França, acompanhe-me, Monsieur.
Com um sorriso satisfeito, Edward Hyde a segue com seus passos largos e seu terno azul-marinho demasiadamente justo, marcando-lhe as juntas e os músculos. Seguido pelo semblante deprimido de Henry Jekyll, que deseja permanecer e observar seu novo Teatro, o contraste entre os dois homens é notório e quase divertido. Hyde tem costeletas cafonas e peludas, é alto e musculoso como um touro, e tem um riso maligno tal qual o riso de um duende travesso, além de instintos ardis como os de um crocodilo atrelados à pensamentos tão profanos quanto os pensamentos dos insanos. Jekyll, por outro lado, é amável, embora não fuja das tramoias do parceiro. Vive em certo estado de neutralidade, dado às belas artes e culturas. Tem pele acetinada, diferente do sócio extremamente pálido, e pequenos olhos verdes sob grandes lentes, além de ser muito baixo e um tanto descuidado com suas roupas, que viviam abarrotadas e largas demais, fora de seu físico magro e curvo, em tediosos tons beges e marrons. Mas apesar de todos os pesares, dizem que são inseparáveis e harmoniosos em suas decisões, e assim foi com o interesse na compra da Ópera Fée, dito e feito em comum acordo.
No palco principal, espaçoso e iluminado, diante das dezenas de poltronas de veludo vermelho, dos camarotes caros e privilegiados e dos largos corredores de acesso, ocorre o ensaio de “Pelléas et Mélisande”, Debussy, em uma inédita e ousada adaptação. Ciente da influência do pintor Claude Monet sobre Debussy, o Diretor britânico August W.B, o Maestro irlandês Killian Jones e o renomado Coreógrafo francês Erik Mer*, trazem para o público de Paris a montagem dos cinco atos a desenrolarem-se sobre o palco como se numa legítima pintura impressionista nas mãos de um pintor talentoso, aperfeiçoando a criação diretamente relacionada às cores de Monet por Debussy. Para uma obra naturalmente revolucionária, os críticos decidiram não pronunciar uma palavra até a data de estreia.
Aos olhos dos responsáveis e de todas as plateias da cidade, ninguém mais poderia comandar os papéis principais que não a Soprano italiana e seu jovem esposo e Tenor britânico, Zelena e Walsh, respectivamente. Assim, sem sobrenome algum, os pseudônimos mais famosos e consagrados de Paris, o casal das aclamações e comoções de todos.
Sem interromper o ensaio, Madame Van Straten os guia para o palco contornando as beiradas, sussurrante.
— É com ímpar satisfação que lhes apresento Madame Blanchard, a tutora de nossas adoráveis moças e a mais bela bailarina aposentada que já pôs seus pés neste Teatro. – Sorri para a mulher, que assistia atenta ao ensaio com suas longas e recatadas vestes negras e o penteado apertado, comprimindo os fios escuros dos cabelos, encontrando-os com seus grandes olhos claros. – Eva, estes são Henry Jekyll e Edward Hyde, os novos administradores da Ópera Fée.
— Congratulo-me em finalmente conhecê-los, Messieurs. – Madame Blanchard gentilmente os reverencia.
— Se tivessem nos dito que tal beleza habitava este Teatro, o teríamos comprado há muito, muito tempo. – Travessamente Hyde beija-lhe as mãos, recebendo um educado sorriso, enquanto Jekyll limita-se a uma tímida reverência, corado.
— Os cavalheiros desejam saber mais sobre nossas meninas, Eva. – Madame Van Straten suspira, erguendo as sobrancelhas.
— Madame! – Jekyll exclama. – Em nome de todas as divindades, quem é aquele anjo de cabelos negros e pele tão pálida quanto a neve, dançando tão bela quanto a alvorada do Oriente? – Fascina-se com uma das bailarinas a ensaiar.
— Henry, meu caro, você nunca esteve um segundo sequer no Oriente... – Hyde resmunga.
— Minha filha mais velha, Marie* Margaret Blanchard, Monsieur. – Eva olha orgulhosa para a jovem e com cautela para o homem. – Tem dificuldades para disciplinar-se, mas é de uma graciosidade impecável.
— Mas veja, Henry! – Hyde sorriu cobiçoso para outra jovem. – Essa jovem ao lado de Mademoiselle Blanchard dança como dançaria um selvagem lobo ao luar, feroz e indomável! Incendeia meus olhos assisti-la!
— Minha filha do meio, Messieurs. – Sorri novamente para a menina. – Minha pequena Ruby decerto possui uma energia ferina e admirável.
— Oh, não! – Hyde abre a boca como se prestes a desfalecer com um aperto no peito. – Como podemos nos atentar a estas moças, Henry? – Sorri lascivamente. – Com todo o respeito e a cortesia para suas filhas, Madame Blanchard, mas não há como ressaltá-las, não diante daquela criatura que dança em extrema concentração! – Aponta sua bengala de bronze para uma jovem de pele pálida, contrastando com olhos castanhos e carnudos lábios vermelhos, movimentando-se com maestria seu corpo curvilíneo marcado pelas roupas justas enquanto esvoaçam longos negros fios de seus sedosos cabelos lisos. – Aqueles olhos sim, meu caro Henry, devem vir da mais rara especiaria do Oriente!
— Regina Mills, Messieurs. – Eva sorri, mas sua insatisfação em ver o olhar predatório de Hyde é inegável. – Um talento excepcional e promissor, acima de qualquer outra das minhas aprendizas. Ímpar. Transita com maestria entre a delicadeza e a rudez, entre a calmaria e a violência. Não encontrarão igual espécime de artista nesta Ópera que se iguale a ela.
— Mills? – Jekyll a encara. – Alguma relação com o que imagino, minha dama?
— É provável, senhor. – Sorri cordial. – Regina é a única filha do renomado violinista espanhol Henry Mills e da bailarina consagrada como a “Rainha de Copas” do balé europeu incorporado às danças latinas, Cora Mills. – Sorri ao ver a aprovação no olhar de ambos. – Veio para cá após o trágico assassinato dos pais em sua última grande apresentação no Teatro “Manzana de Oro”, em Madrid. A pequena tinha apenas dez anos.
— Quer dizer que Mademoiselle Regina é de fato a filha órfã de Henry e Cora...! – Hyde volta a sorrir como um lunático pervertido.
— É tão amada e protegida quanto minhas próprias filhas, como minha menina mais jovem. E as três, assim como as outras bailarinas, estão sob minha guarda e proteção. – Lança um desafiador olhar para os dois, carrancuda.
— Prossigamos! – Madame Van Straten tenta apartar o provável embate. – Silêncio, todos vocês, por favor! – Solicita, detendo o caminhar do ensaio.
— Madame, minha cara Diva, é a terceira vez hoje que interrompem meu ensaio! – Grita o maestro, Killian Jones, com seu poderoso e divertido sotaque irlandês e suas estranhas roupas de veludo roxas, como uma magricela berinjela ambulante de desordenados cabelos castanhos penteados para trás.
— Perdoe-me, meu querido Jones, mas a notícia que venho lhes dar é essencial. – Sorri culpada, suspirando. – Sei que nesta Ópera vêm e vão os boatos sobre minha partida. Hoje, meus amados companheiros, venho confirmá-los. – Recebe o olhar entristecido e surpreso de todos, menos de Eva, já ciente. – É com grande prazer que apresento Edward Hyde e Henry Jekyll, seus novos administradores. Espero que os recebam e tratem com a mesma graça que o fizeram comigo quando comprei a Ópera de seu querido Mestre Gepetto. – Reverencia a companhia. – Senhor Hyde, Jekyll, este belo jovem de barba fina é Killian Jones, nosso maestro mais competente e vivaz! Naquelas poltronas acima, cumprimente nossos caros August W.B e Erik Mer, respectivamente o diretor e o coreógrafo mais talentosos e criativos que poderíamos encontrar. Mas quem realmente desejo lhes dar o nome e incomparável visão é da nossa mais brilhante estrela, Zelena, e de seu talentoso par, Walsh! – Abre os braços para mostrar-lhes uma mulher de expressões fechadas, grandes olhos azuis e longos cabelos alaranjados como o crepúsculo, com as vestes da protagonista Mélisande empavonadas, em tom azul turquesa e, ao seu lado, calado, de queixo empinado, o marido comprido e ossudo, com os cabelos curtos invadindo o rosto pálido, também com as vestes do protagonista Pelléas e a forte maquiagem marcando-lhe os olhos.
— Zelena! – Hyde sorri. – A diva, a musa, a própria deusa da ópera! Que deleite! – Curva-se e deposita um beijo demorado nas costas de sua mão, agradando-a.
— Que alívio saber que alguns homens ainda conservam gentis e dignos gestos para com uma dama como eu. – Debocha a Soprano.
Apesar de ser um verdadeiro galanteador, Edward Hyde sabe que Zelena é uma artista e uma mulher extremamente vaidosa, egocêntrica e geniosa. “Uma típica italiana”, ele pensa, mas não ousa proferir. Zelena não admite que suburbanos lhe dirijam a palavra, tampouco tolera que se atrevam a diminuir seu potencial e principalmente que cometam o erro de não acatar à cada uma de suas quase sempre exageradas e descabidas exigências. Todos ao seu redor a bajulam e veneram, porém, longe de suas vistas, é dada como uma venenosa serpente verde. Não obstante, Walsh, mesmo vivendo constantemente à sombra da esposa, é um homem orgulhoso, ácido e esbanjador de sua imensa fortuna. Ninguém jamais poderá negar que Zelena e Walsh mantêm um império indominável em suas vidas sociais e em suas carreiras.
— Nem mesmo as mais célebres palavras dos poetas poderiam definir a sensação de conhecê-la pessoalmente, Madame Zelena! – Jekyll a reverenciou. – E não menos deleitoso é conhecer o grande Walsh! Saudações, meus caros, pois a honra pertence à nós!
— Sejam bem-vindos, nobres Messieurs. Falo por toda a companhia que será magnífico trabalhar com os senhores. – Walsh devolve-lhe o cumprimento caloroso.
— Madame Van Straten, o meu ensaio! – Killian clama uma vez mais.
— É claro, meu bom Jones! – A mulher revira os olhos, sorrindo. – Messieurs, liberem o palco e apreciem uma prévia do que os espera amanhã na noite de estreia, por gentileza.
— Isto é formidável, é formidável, Madame! – Jekyll observa com afeto e comoção o bailar dos dançarinos e a voz de Zelena, que ecoa palco afora e estremece os vitrais do prédio.
— Eu não lhe disse, caro HJ? – Hyde esfrega as mãos na bengala de bronze. – Comparado a esta maravilha, o Pays Imaginaire nada é!
— Pays Imaginaire? – Madame Van Straten franze as sobrancelhas, suspeita de que já ouvira o nome em algum lugar.
— Edward, não devemos tratar de tais assuntos na presença de uma dama. – Jekyll corou, curvado a se esconder dos olhos de Van Straten como um medroso cão vadio.
— Disparates! Não dilapide em vergonha o que construímos, Henry! – O reprova com as grossas sobrancelhas entortando em fúria. – O Pays Imaginaire, Madame Van Straten, foi nosso negócio antes da Ópera Fée. Um prostíbulo para dândis e janotas, onde as raparigas cantam e dançam antes de levar os clientes às terras dos prazeres! Um palácio da luxúria!
— Uma deslumbrante propaganda para o seu bordel, Monsieur Hyde. – Van Straten lhe sorri ardilosamente. – Não deveria dizê-lo, porém, a Ópera Fée, após as noites de glória, não difere-se tanto de um prostíbulo luxuoso quanto gostaria de dizer. – Elegantemente ergue e solta os ombros, relaxada.
— Perdoe os modos parcos e inócuos de Jekyll, Madame! – Mais uma vez surge o riso macabro nos dentes brancos de Hyde. – Especialmente porque, confesso-te, ele não está habituado às mulheres. Deve ser por isso que o vejo tão encantado com suas duas... Três jovens filhas, Madame Eva! – Vira-se para a tutora. – Veja só, quase se vê babujarem os beiços!
Henry engasga.
– Edward, basta! – Endireita-se, rubicundo. – Seja chistoso você o quanto desejar, meu amigo, mas nem você nem nenhum outro homem e mulher em plena sanidade poderia negar a beleza estonteante dessas damas. Especialmente, se me permite, Madame Eva... – A olha com timidez. – Regina Mills.
Antes que Madame Eva pudesse expressar seu incômodo ao notar o brilho ígneo nos olhos dos dois administradores, um som irritante e ardil interrompe o ensaio, fazendo todos os artistas e presentes buscarem de onde este vinha. O alerta vem tarde demais: Dois pesos de areia escorregam pelas cordas soltas das parrillas acima do palco. Uma delas atinge em cheio o ombro esquerdo do Tenor Walsh, que despenca nos próprios pés e, impulsionado para frente, cai sobre a esposa, ambos se espatifando no chão entre as vestes esvoaçantes; E o outro esfarela aos pés de Henry Jekyll e Edward Hyde, fazendo-os gritar quando rasga-se e a areia lhes invade os olhos, ardendo-os. Madame Eva e Madame Van Straten olham-se empedernidas.
— Pelos deuses! Madame Zelena!— Gritam ao mesmo tempo August W.B, Erik Mer e Killian Jones. O diretor salta pelas poltronas como um guepardo faminto, o coreógrafo atropela as bailarinas como um lobo raivoso e o maestro escala o até o palco como um urso pardo caçador, todos atirando-se juntos para erguê-la como se fosse a imagem de uma deusa, deixando o pobre Walsh levantar-se sozinho. A cena é de três predadores carnívoros em combate mortífero por uma flor. Sendo Zelena quem é, pensariam que seria ela uma flor venenosa, como um Louro-da-Montanha.
— Ultrajante, ultrajante! – Resmunga Glinda, uma das jovens empregadas acompanhantes de Zelena, cercando-a prostrada com o espanador de plumas douradas nas mãos, livrando-a da possível poeira que acumulara no vestido após a queda.
— Que diabos?! – Walsh ergue-se em um único pulo, enfurecido. Sua mandíbula se contrai, evidenciando os ossos do rosto magro que costumava ser pálido, adquirindo após o acidente uma coloração rubra tanto pela exposição quando pela devoção dos três artistas por sua esposa.
Embora Zelena agrade-se de tamanha submissão, suas mãos desvencilham-se depressa dos braços dos três. Seus sapatos estalam no palco como o tilintar da foice do próprio ceifador, os brilhantes azuis dos olhos tempestuam-se nas írises, as mãos de realeza torcem-se em fúria como se estivessem estrangulando cada um daqueles que ousam encará-la após o ocorrido.
— Isto é um absurdo, Walsh! Basta, Van Straten! Estes atrevimentos precisam findar! Ou encontram e aprisionam o insolente que está causando estes transtornos, ou terão que clamar aos céus por uma substituta!
— Por tudo que lhe é sagrado, Diva minha, procure acalmar-se... – Killian Jones pede.
— O que raios aconteceu aqui, afinal? – Edward Hyde exclama, esbaforido.
— Foi ela, Monsieur. – A bailarina Marie Margaret, filha mais velha de Madame Eva, manifesta-se quase muda e denunciante. – Ela, o Fantasma da Ópera.
— Marie... – Ruby rosna baixo, segurando-lhe o pulso. Ambas recebem olhares reprovadores de Eva e Van Straten.
— Fantasma da Ópera? – Jekyll limpa os óculos em um lenço alvo, fitando-a. – Do que falas, Mademoiselle Blanchard?
— Ela, a figura misteriosa, a mestra de todas as melodias, a dominadora de todas as harmonias, a deusa de todos os mais sublimes compassos, detentora de toda a genialidade artística que os homens invejam e anseiam. Ela é o Fantasma da Ópera Fée. Ela é quem causa os supostos acidentes...
— Marie! – Ruby repete, chacoalhando seu braço. – Ignore-a, Monsieur, minha irmã tem o hábito inadequado de espalhar discrepâncias por estes corredores desde que proferiu suas primeiras palavras.
— Ruby, Marie, silêncio. – Eva se coloca entre as filhas, tocando seus ombros. – Este trato não cabe a vocês.
Hyde não consegue contestá-la novamente. Os gritos das outras bailarinas ecoam pela sala, causando abrupto pavor em todos, que miram os olhos confusos para trás dos cenários, de onde vem em lento caminhar o maquinista-chefe, Robin de Locksley. Seus cabelos desgrenhados, suas vestes encardidas, suas botas de panos costurados e o odor incendiário dos resquícios de vinho em sua boca e em sua barba rala podem facilmente caracterizá-lo como um mendigo imprestável. Contudo, ele é de fato o maquinista-chefe, o responsável por manter tudo nos conformes dentro da Ópera Fée. É chamado de louco por alguns e de amaldiçoado por outros. Há vinte invernos Robin perdeu sua esposa em um trágico suicídio. Aparentemente o rapaz era um homem decente e dava a ela e ao pequeno Roland, fruto do casal, uma vida pacata. Jamais houve para ele ou para os investigadores uma explicação do porquê Marian de Locksley atirou-se de um penhasco e uniu-se às rochas da enseada, cobrindo-as de vermelho diante dos olhos do marido, que pranteou em profunda desgraça. E há apenas dezenove invernos, Roland foi levado pela sombra da morte por uma doença não diagnosticada. Assim, Robin passou a definhar como um animal abatido pelas ruas de Paris até ser acolhido por Madame Van Straten há dezoito anos. Apesar de tentar refazer-se, sua vida baseia-se somente em operar o teatro, contar histórias aos artistas e ingerir a maior quantidade possível de álcool para embriagar-se e esquecer-se de seus demônios interiores. Um bêbado, um desafortunado, um plebeu da alma, mas um bom homem.
Robin vem em seus passos de camundongo com uma carta em mãos, e sabe-se de imediato porque as bailarinas gritam em desespero ao vê-lo. Trata-se de um envelope vermelho, lacrado com cera negra no curioso formato de um cisne, emoldurado em delicada borda dourada.
— Que os deuses nos valham! – Grita Elsa, uma das bailarinas.
— Ela estava aqui! Estava aqui agora mesmo! – Apavora-se Gretel, ainda uma das pequenas aprendizas de Madame Eva. – No corifeu!
— Com mil trovões, cessem esse maldito alarido! – Hyde colide com a bengala de bronze repetidamente contra a madeira do palco. – Do que falam essas criaturas?!
— Nos urdimentos e nas coxias! Ela pulsa os ganchos e roldanas! Ela, o Fantasma da Ópera, Monsieur Administrador! – Marie Margaret volta a insistir, aborrecida.
— Estão todas loucas, Van Straten? – O pálido moreno infla as narinas, abespinhado pela confusão. – Controle suas meninas, Madame Eva!
Van Straten mantém-se muda, encarando-o com ares de mistério, ares que somente mulheres de vasta experiência aética ou suspeita poderia expressar. Madame Eva abraça suas jovens bailarinas como se lhes cobrisse com o manto da virgem, protegendo-as do olhar intimidante de Edward Hyde.
— Confio que esta carta é endereçada ao Monsieur Hyde e ao Monsieur Jekyll, Monsieur Locksley. Queira ter a bondade. – Limita-se a professora de balé, desgostosa.
— Oh sim, evidentemente! – Ri o maquinista-chefe com seus olhos arregalados e fundos, em tom rouco, louco. – A quem mais poderia ser? – Curva-se em exagero ao depositar a carta nas mãos de Jekyll como se fosse feita da mais estimada joia rara. – Ela os saúda, Messieurs, bem-vindos à Ópera dela!
— Ópera dela? – Hyde ri incrédulo.
— Nitidamente, Monsieur! – Robin lhe dá um sorriso que soa mais como uma sentença de morte em uma tragicomédia grega. – Ela, a Princesa das Quimeras! A Dama da Escuridão! Deusa das artes! Ceifadora de Almas! A quem a Ópera Fée verdadeiramente carteia-se e confidencia-se como uma súdita obediente, vassala devota! Este Teatro é, para ela, um Empório de Brinquedos!
— Basta! Nunca ouvi tamanhos absurdos em minha vida! – O administrador mais uma vez faz ecoar a bengala, impaciente, gesticulando com o braço livre como se fosse agredir o homem que falava. – Leia esta bendita carta de uma vez, Henry!
— “Aos novéis caríssimos Diretores, Saudações”. — Jekyll proclama. –“À Madame Van Straten, transmito através desta o meu mais cordial adeus. O seu papel, madama, foi cumprido com maestria. A carta é emissária aos administradores Edward Hyde e Henry Jekyll, para que sejam advertidos de que esta é uma Casa de Artes, não uma Casa de borrachos, copuladores e baldios. E mais indispensável: É o lar da Tragédia, do Amor e da Loucura, jamais atuados em prol do ouro e da prata. Preservem-na, portanto, e não nos desentenderemos”.
— Que audácia! – Hyde protesta. – Como ous...?!
— Há mais! – Henry o impede, prosseguindo de onde parara. – “É meu dever lembrá-los também de que as regras não serão modificadas. O Camarote Número 5 deve permanecer vazio para meu uso particular e exclusivo, sob nenhuma circunstância sendo ofertado a outrem. O que me conduz a ressaltar que Van Straten os faça saber que em toda a primeira Lua de cada mês, deve estar, em minha poltrona no Camarote, um envelope contendo os meus Vinte Mil Francos.”. – Toma fôlego em uma pausa, suspirando. – “Abstenho-me de palavras por enquanto. Congratulações alegres, Fantasma da Ópera. ”!
— Está intrincada com isso, Madame Van Straten? – Edward Hyde arrancou a carta das mãos de Jekyll e chacoalhou-a diante da dela em tom de escárnio. – Percebe que perderá vasta fortuna abandonando a Ópera e deseja nos caronear agora?!
— Economize seu descontrole emocional dentro das calças, garoto. – A mulher empina o queixo, encarando-o. – Com um terço do que tenho posso comprar esta Ópera duas vezes novamente e vocês dois com ela. Conversemos sobre esta carta em seu novo gabinete. Acompanhem-me por gentileza e permitam que os atores continuem a ensaiar.
— Ensaiar?! – Zelena finalmente pronuncia-se, já recuperada do incidente, solando seus saltos pelo palco e apontando seu longo e trêmulo dedo indicador na face dos administradores. – Incontáveis “acidentes” como este ocorrem todo o tempo e nenhuma defesa é por vocês tomada! Repito: Ou este ser é capturado e enxotado daqui por seu atrevimento, ou nunca mais meus pés tocarão este palco!
— Eu imploro que reconsidere, Madame Zelena! – August W.B. praticamente ajoelha-se diante de seus pés.
— Expulsá-la daqui?! – Robin gargalha, zombando da cantora. – Mulher tola! Este é o lar dela! Seu antro de arte, seu antro de sangue! Que ela lhe arranque a língua na calada da noite por propor tamanha palermice!
— Miserável! – O Maestro Killian Jones abandona sua compostura, acertando violentamente sua batuta contra a cabeça de Robin, fazendo-o curvar-se como uma gárgula, dolorido, resmungando. – Como se atreve a insultar Madame Zelena, seu inseto?!
Robin entorta a cabeça para o lado como um pássaro curioso e travesso, abrindo um sorriso largo e maldoso, exibindo com gosto a feiura de seus dentes amarelados e tortos.
— Ela conhece você. – Sussurra como se contasse um segredo ao Maestro. – E você morrerá, seu tolo. Bem ali, onde você brinca de ser artista com sua vareta! Bem ali a fúria dela cairá sobre sua cabeça!
— Silêncio! – Hyde exige. – Vá para seu posto, Senhor Hood! Quanto à vocês, Maestro, Coreógrafo, Diretor, Madame Zelena, Monsieur Walsh, Madame Eva e Mademoiselle Marie Margaret, todos os envolvidos, sigam-nos!
O estranho bando deixa o palco a passos firmes, cada qual com seu aborrecimento e temor. Antes de voltar à coxia, Robin de Locksley sorri argucioso e cúmplice para Regina Mills e, prestes a sair completamente aos corredores, Edward Hyde nota esse olhar e esse sorriso do maquinista-chefe, intrigado. Robin definitivamente sabe de algo e partilha esse segredo com a jovem e bela bailarina. O que o administrador precisa é descobrir do que se trata e o que ambos dele escondem. E acima de tudo: Findar de uma vez por todas a agitação dos habitantes da Ópera Fée para com esta tal criatura, Fantasma da Ópera.
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