Notas iniciais
Hey you! Como prometido, cá estou com o capítulo seguinte. Provavelmente é este o capítulo mais curto da história, porém, extremamente necessário. Música-título - Michael Arden - Heavens' Light. Eu escolhi esta canção porque... Sabem, muitas pessoas comparam O Fantasma da Ópera com A Bela e a Fera. Eu não entendo bem a razão, não vejo quase nada semelhante. Contudo, em "O Corcunda de Notre Dame", as semelhanças são muitas, tão dolorosas quanto. Esta canção é da animação da Disney de 1996, uma das minhas prediletas. É uma canção que eu simplesmente não poderia ignorar para o contexto do capítulo. Eu amo muito e adoraria que vocês conhecessem. A trilha sonora dessa animação é uma das mais primorosas dos antigos da Disney. Boa leitura. :)

Fantasma da Ópera, Anjo e Demônio;

Um breve relato a respeito de seu coração há quase quatro anos.

Seu pálido corpo nu flutua no lago enevoado, às margens da pedra, da barca, da casa. Ecoam os passos acima, ecoam no palco, nas escadas, nos corredores. Passos e vozes e gente unida comemorando a derradeira aparição de Guinevere, a “Grande Rainha”, o seu último ato para com a Música. Rocinante, o potrinho, abafa os sons com seus pequenos e ainda frágeis relinchos, trotando ao redor da beira.

Não é a solidão corriqueira o que sente agonizar. Não é o frio cortante do inverno nos subterrâneos do Teatro o que a estremece. Não são os espelhos cobertos que a aterrorizam. Mas seu coração retumba – e como retumba apressado! – e um desespero de algum gênero e gravidade elevados apodera-se do controle de seus pés, olhos, movimentos, e a faz esgueirar-se nas sombras. Ela sempre se embrenha nas sombras com o mesmo domínio e destreza que a bela Águia Dourada possui sobre os céus.

Envolta pela negra capa, crê faltar-lhe apenas a foice para que possa apresentar-se como a verdadeira face da morte ao fitar, por um milésimo de instante, o próprio rosto coberto pela máscara em um dos vitrais de mil cores da Ópera Fée. Ela se move ainda mais depressa:

Não! Não me persiga e atormente, oh, rosto meu, livrai-me!

A Capela que acredita estar abandonada é seu destino. Abomina e enraivece-se dos Deuses, os Deuses que lhe impuseram a condição divina e demoníaca, como se tivesse cometido o mais hediondo dos pecados em outras vidas, porém, tão bela é a capela pequenina, com suas cores neutras, suas velas tantas, aconchegantes, dançantes chamas sobre a cera escorregadia, quase sempre vazia... Não resiste em ir até lá para sentir-me menos solitária do que sua existência já a obriga a ser.

Contudo, a Capela tudo está, exceto vazia. E pela primeira vez os olhos dela, Fantasma da Ópera, são mais hesitantemente curiosos do que impacientemente desinteressados. E como poderiam, havendo música a ecoar nas paredes?

Estes olhos caçadores encontram a fonte da melodia: Uma jovem sucumbida sobre o altar dos Deuses, pranteando e cantando tão gloriosamente sôfrega e só, que justo ela, soturna sombra andarilha, Fantasma da Ópera, sente florescer dentro de si uma compaixão inédita, assustadora, como se o universo lhe concedesse dois braços e duas mãos embebidos em mil graças delicadas para proteger e amar àquela pequena criatura de olhos inchados e úmidos, de lábios rubros e trêmulos que proferem ao término da canção: “Oh, mamãe! Oh papai! Como sinto saudades...”

Foi neste – e precisamente neste – momento que a curiosa espiã colige: A menina que chora é, assim como ela, solitária.

Emma Swan nomeou este episódio de “O Princípio da Luz”. E cada segundo de dor e reclusão transformou-se, a partir dali, precioso, ímpar. Apresentou-se a ela sem revelar-se e conheceu Regina Mills, a bailarina órfã que mal havia chegado à Ópera Fée, tirada de seu lar, a Espanha, levada à Perros e enviada à Paris para desenvolver seu dom lírico. Descobre a razão de seu pranto e, sem tocá-la, enxuga-lhe as lágrimas em brasa do rosto.

Cada lição fez sua ansiedade crescente, louca, tal qual a da bailarina. Ofereceram uma para a outra todo o espírito e rogaram sem palavras: Cuide de mim!

E assim foi. Vagarosamente, temerosamente, assim foi. Ela, Fantasma da Ópera, enfeitou de cor e harmonia cantada os dias de Regina e Regina preencheu os seus com devoção abrasadora e delirante. Felicidade... É isto a felicidade?

A felicidade chama-se Regina Mills.

Cada vez que Regina tocava as paredes, a tutora desejava apresentar-se e tomá-la nos braços para jurar que nada jamais lhe aconteceria enquanto ela vivesse. A cada olhar esperançoso de Regina para o teto, os espelhos, os cantos, a Voz desejava surgir das sombras, ajoelhar-se e confessar os segredos mais profundos de sua alma, toda a fúria apaixonada que ardia dentro de si. No fim, sempre recuava e assistia a decepção no rosto de sua querida bailarina.

Houve, no decorrer destes quase quatro anos, dias nebulosos. Quando Regina contou-lhe a respeito de seu primeiro e único amor juvenil, a Voz enlouqueceu de ciúme. Seu refúgio no lago poderia assemelhar-se ao próprio inferno, tamanha era sua ira incendiária ao destruir tudo ao seu redor. Daniel, Daniel, Daniel, maldito seja! Embora a pupila tenha lhe contado como quem conta uma fugacidade, claramente tendo superado a partida do menino, sentira um ódio tão profundo e ameaçador que, por um minuto, um minuto sombrio e dolorosamente terrível, pensou em surgir para ela no apogeu de seu furor e causar-lhe medo. Este pensamento durou, de fato, um único minuto, pois, no minuto seguinte, encolheu-se em sua barca e chorou de arrependimento. Se existe um sentimento que não deseja provocar em Regina, nem mesmo rendida em cólera, este é o medo, ou qualquer gênero de possessividade agressiva.

Deste dia surgiu o acordo. Depois de ver, escondida, nos alojamentos, um retrato borrado de Daniel, assim como a bailarina tinha um de seus pais e de sua ama, a Voz, que o soube belo e que se tornaria um belo homem, decide propor o trato. O trato fruto de seu desespero enforcado: Sua Música, sua Essência Mor, em troca do coração de Regina.

“Não! Ela jamais poderia me amar pelo que sou, ela amaria o belo rapaz, ou qualquer outro ser de beleza, não eu, este monstro condenado...”

Quando o propôs, porém, adoeceu de contrição e alívio ao mesmo tempo pela resposta tão direta e pelo olhar tão sincero de Regina lançado ao espelho, como se soubesse que por ele estava sendo observada: “Meu Anjo da Música, já não sabe que eu sou sua?”

Regozijou-se do olhar dela, sempre tão intenso, buscando-a por toda parte. Regina não mais mencionou Daniel ou qualquer outro alguém que não fosse Cora e Henry Mills. Ela, Fantasma da Ópera, compreende, embora de formas diferentes, o sofrimento da jovem bailarina. Regina, as chagas da perda. Ela, as chagas do abandono.

Tudo é solidão.

Regina teceu-lhe, em cada despedida e reencontro, palavras suaves, amenas. Seria isto, então? Regina a enlouquecia e apaziguava o tempo inteiro. Como se o Deus do Inverno e o Deus do Verão batalhassem ferozmente dentro de seu peito, furiosos, predomináveis, enquanto o Deus da Primavera e o Deus do Outono enfeitassem o cenário de folhas e pétalas.

Regina Mills, a pequena e talentosa bailarina de olhos escuros, fundos e imponentes, de um semblante entristecido que, quando tornava-se alegre, fazia-lhe doer a alma, elevando-a, também poderia, para ela, ser chamada de Luz Celestial.

Ela, que considera-se um demônio, recebera uma Luz Celestial.

E foi numa noite tranquila de primavera que ela, Fantasma da Ópera, apesar de seu controle impecável para com a aprendiza, foi mortalmente ferida pelo impulso e pela ânsia de seu coração: Tocou-lhe o rosto adormecido no divã e acariciou a pele macia, os cabelos de noturna seda, os lábios vermelhos que sopravam suavemente, entreabertos, fazendo cócegas em seus dedos.

Quando se inclinou, com toda a delicadeza da qual era capaz, para dar-lhe um beijo na testa, os atos dos sonhos da bailarina manifestaram-se no corpo: A jovem agarrou-lhe o braço, aconchegou-se a ela como se fosse o sagrado símbolo da esperança, sussurrando... “Fique, meu Anjo da Música... Meu lindo e adorado Anjo da Música...”.

E assim termina o seu breve relato.

Porque é neste instante, com seu abraço, suas palavras e sua necessidade inconsciente, que ela, a Voz de todas as Vozes, Espírito Sinistro que rasteja em isolamento pelos cantos do Teatro, descobre, percebe enfim, ilumina-se enfim...

Ela está perdidamente apaixonada por Regina Mills.

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado dessa "visão" da Emma a respeito de suas emoções, bem como a música que a expressa. :) Para os que ainda não possuem e desejarem, a playlist da fanfic: https://open.spotify.com/user/myrkurstormur/playlist/0IF3NACSDsBw0kWGJgE4Y6 Nos vemos no próximo. :)