The Phantom Of The Opera
6 Fields of Gold
Notas iniciais
No amanhecer gelado de Perros, Daniel e Regina cavalgam na areia antes do nascer do Sol. Abandonam as formalidades e descalços saboreiam o vento da enseada e o som sussurrante das fracas ondas conforme recolhe-se a maré alta. Os olhos do Visconde não saem dela, admirando-a, buscando-a como se pudessem conversar em silêncio. Os da bailarina miram as rochas que se estendem pela encosta das montanhas, perdida em um mundo que Daniel e todos os outros são incapazes de alcançar, exceto por ela, seu Anjo da Música.
— Perdoe-me se minha companhia a aborrece. – Ele suspira. – Não pude me conter. Durante todos esses anos, sua falta não pôde ser amenizada em mim.
Culpada, Regina também suspira.
— Sua companhia jamais me aborrecerá, Daniel. Você é meu amigo e estou profundamente feliz que tenhamos nos reencontrado.
— Você não parece feliz.
— Você saberia?
— Eu ainda posso lê-la, como quando éramos crianças.– Sorri.
— Mas já não somos mais, Daniel. Não somos mais crianças, não somos mais iguais. E você nada sabe sobre mim, não mais. Eu estou feliz.
— Desde que cheguei você sequer sorriu... – Retrai-se.
— É isso que a felicidade significa para você, Daniel Pendragon? Sorrir?
— É uma forma de expressá-la, a mais simples e óbvia delas!
— As felicidades mais imensas são as mais caladas. Não duvide das minhas palavras, esteja apenas ciente de que há muitos pensamentos em mim para que nosso reencontro seja como imaginou: Alegre e comovente. Perdoe-me por isso.
Desconsertado, pigarreia e distrai-se do assunto.
— Parece-me que foi ontem, você salvando-me do cavalo desgovernado, aqui mesmo, nesta praia. – Sorri brilhantemente.
— Vejo que ainda é um leigo no que diz respeito à arte da equitação. – Arqueia uma sobrancelha reprovadora, divertindo-se de seu olhar cabisbaixo. – Está sentado muito à frente da virola da sela e seus pés estão muito atrás na pedaleira, quase soltos do estribo. Além do mais, as fivelas da focinheira estão frouxas. Basta um tranco um pouco menos sutil deste belo Puro-Sangue e você voará do assento, meu amigo.
— Ao menos tenho-a aqui para salvar-me novamente se necessário, não é? – Ri encabulado, bagunçando os minúsculos fios de cabelo da nuca exposta sob o colete e a chemise de linho.
— Você se tornou um grande homem, Daniel. Eu o salvaria se fosse um menino franzino como era. – Provoca.
— Na época eu poderia facilmente ser confundido com um dos Mestre Faquires, de fato, minha querida! – Gargalha abobado. – Mas não se engane! Tenho certeza de que agora eu a venceria com honras em um mergulho ao pé do farol!
— Embebede-se de poeira enquanto eu o venço, Visconde! – Exclama em risos, tomando bruscamente as rédeas de Rocinante. O cavalo ergue-se nas patas traseiras, relinchando e disparando pela areia na direção do farol.
Daniel a segue e a alegria dos dois invade o amanhecer em Perros como se de seus lábios saltassem sementes que em breve floresceriam ali, eclodindo em cor e aroma, enfeitando o litoral. Como se o tempo regredisse suavemente e os transformasse em duas crianças novamente, inocentes de tudo.
Ele, diante das próprias circunstâncias, muito mais inocente e intocado do que ela,.
A echarpe de Regina dança sob o vento da cavalgada com a roupa folgada de montaria. As mangas arregaçadas de Daniel voltam a pender sobre os pulsos com os movimentos bruscos e velozes. As botas de ambos, amarradas à sela, ficam pelo caminho.
Se alguém lhes observasse bem diria que, neste instante, Daniel Pendragon e Regina Mills não deixam cair somente as botas, mas também alguns ressentimentos e receios que cercavam seus sentimentos. Contudo, Regina mantém sua ciência de que pode perdoá-lo e podem retomar uma antiga amizade e Daniel, por outro lado, está disposto a conquistar seu coração. A perigosa combinação de sentimentos distintos demais para abrigarem o mesmo espaço.
Quando chegam ao Farol, depressa mergulham. Com roupas de baixo e gestos exagerados, espirram a gélida água salgada, derrubam-se das rochas maiores, espantam gaivotas e desenham na areia. Definitivamente, por breves momentos, voltam a ser as crianças sorridentes e inseparáveis de Perros.
— Senti imensas saudades disso quando parti, Regina. Juro-lhe que senti. – Revela o Visconde deitado sobre a grande rocha com as mãos atrás da cabeça.
— Nós dois sentimos. – Brincando com os pés na água, Regina lhe sorri. – Mas desde que nos reencontramos, muito você fala sobre o passado, Daniel...
— É pela vergonha de tê-la deixado sozinha aqui. Eu deveria ter enfrentado meu irmão, deveria ter permanecido.
— Não seja tão severo consigo mesmo. Você era apenas um menino e eu tão pequena quanto. – Descontrai as expressões duras do rapaz com um largo sorriso. – Podemos ser amigos como antes novamente, se assim você desejar.
— Se somos realmente amigos, conte-me o que ocorreu na noite em que a encontrei. Deixe-a por alguns poucos minutos e, quando retornei, havia alguém com você segundos antes de desaparecer completamente de seu camarim.
Regina estava ciente de que o momento chegaria. Não tinha a menor dúvida de que Daniel abordaria o incidente da noite de gala e faria mil perguntas a fim de desvendar o mistério de seu desaparecimento. Assim como não tem dúvidas que Madame Van Straten, Edward Hyde, Henry Jekyll, Eva, Ruby e Marie Margaret em breve farão as mesmas perguntas.
— Isso não lhe diz respeito. – Suspira. – Não deveria bisbilhotar-me atrás da porta, Daniel. Há coisas além da sua compreensão e deve manter-se longe delas.
— Você ainda é minha melhor amiga, Regina, e qualquer coisa que diga respeito a sua segurança, diz respeito a mim também. Não me pareceu nada amigável aquela conversa. Seja lá quem for, precisa me dizer agora se é alguém que a prejudica de qualquer forma!
— Prejudicar? – Volta a mirar as ondas da manhã, sorrindo. – Ela é o meu Anjo da Música, Daniel. Sobre o qual lhe contei, que meu pai prometeu enviar-me no devido tempo. Ela me deu a música. Eu estava na escuridão e ela simplesmente irradiou luz. Como pode crer que ela me prejudicaria?
— Essa voz, seja lá quem for, falava de mim. Eu pude ouvir, não minta para mim, Regina, eu sei o que ouvi. – Magoado, retrai-se. – Não é um anjo, anjos não vivem escondidos em teatros!
— Diga você o que quiser. Chame-a de anjo, de demônio, de gente de carne e osso. Ela ainda será o meu Anjo da Música e não pedirei que você compreenda. Mas acredite, eu também não permitirei que você a difame. Esqueça a voz que ouviu. – E ergue-se nos calcanhares, apanhando o casaco e a echarpe, movendo-se de volta para Rocinante.
— Regina, não fuja de mim! – A ordem vem como uma súplica e o Visconde a segue quase ajoelhado, temeroso. – Eu a amo! Você sabe que vim até Perros em seu encalce porque a amo. Senti meu coração ser dilacerado ao ouvir o seu discurso ávido e ansioso para aquela voz no seu camarim! Você me tratou com tamanha frieza, eu que tanto a amei e jurei que nos casaríamos nessa praia! Sim, eu era um menino tolo, mas agora sei que meus sentimentos eram reais, eu ainda a amo!
Regina recorda-se, minguada, dela, Emma Swan. “Eu que a amo tanto...”
— Não deveria ter cavalgado de Paris até Perros para declarar-se, Daniel Pendragon. Não pode ser, não me faça crê-lo uma assombração maldita ao invés de recebê-lo de volta como um bom amigo!
— Por que me repele? – Sofre. – Estou diante de você, Regina, nu, finalmente sem amarras. Juramos, quando meninos, que nos amaríamos para sempre e viveríamos em paz aqui em Perros...
— ...
— Regina... – Sussurra.
— ...
Ela somente suspira de olhos fechados.
— É aquela voz no seu camarim, esse tal Anjo da Música! – Eleva-se ele. – O que ela é, Regina? Sua dona? Ela lhe deu a música e você se deu a ela?
— O que está insinuando...? – Vira-se bruscamente, vestindo-se no casaco com impaciência. – O que ousa insinuar, Daniel?!
— Que você está ainda mantendo-se distante de mim e esquecendo-se das promessas que fizemos porque essa criatura que você chama de Anjo a está comandando!
— As promessas que fizemos?! – Ri, incrédula. – Você partiu, Daniel. Você partiu porque sempre foi um servo de seu próprio irmão e sempre será. No momento em que pôs os pés naquela carruagem, sua decisão foi tomada. Você obedeceu devotamente às ordens de Arthur durante todos esses anos em manter-se muito longe de mim. Ali, com as feridas expostas, pensei-me perdida. No entanto, há muito superei sua partida e nosso envolvimento imaturo. Não quero magoá-lo, mas precisa saber que, naquele dia, nossas promessas findaram-se! Eu não sou mais aquela menina.
— E tudo o que vivemos em uma breve adolescência pura, feita de um amor sincero, simplesmente se foi...? – Aterroriza-se, afastando-se para trás.
— Não, não simplesmente. – Lamenta, subindo depressa na sela de Rocinante. – Feriu-me por anos, seu tolo! Ainda me fere lembrar-me destes dias sombrios. Mas eu sinto muito, Daniel, eu sinto tanto... O meu coração já não é mais seu. E para a concretização dos meus maiores medos, percebo agora, mais do que nunca... Que meu coração também não é mais meu!
O som dos cascos fortes preenche o espaço e Daniel sequer encontra uma palavra para responder-lhe. A observa cavalgar na praia, em direção à casa de Granny, e somente quando desaparece de vista o rapaz permite-se cair sobre a úmida areia e pedras e chorar de um terror desconhecido. O coração de Regina não é mais dele e não é mais dela. Mas o seu, ele sabe, está ali, dentro de seu peito, dolorosamente pulsante, violentamente despedaçado.
(...)
Daniel hospedou-se no Mine D’or, o único Hotel de Perros, administrado por nada menos do que sete irmãos*: Flick, Quee, Snick, Glick, Whick, Blick e Plick, alemães de forte presença e barbas longas, trabalhadores cantantes e cheios de personalidade. Pelo resto do dia o Visconde manteve-se em sua cama, fitando o teto e o enfraquecer da luz conforme o Sol afastava-se. As palavras de Regina ainda ecoam em seus ouvidos, ainda o ferem como se houvesse ali uma Regina invisível, repetindo e repetindo aquela confissão que devastou-lhe o coração e a vontade de viver. Desde os quinze anos, quando Arthur o arrastou de Perros e o enviou para longe, sonha com o dia em que a reencontraria, e que poderiam recomeçar de onde foram interrompidos. Ingênuo. Ingênuo Visconde Pendragon.
Sem uma única gota de ânimo, caminha pelos corredores como um espectro sem corpo até o salão para jantar, anunciado o banquete pelo irmão cozinheiro, Glick, há poucos minutos. Acomoda-se na mesa simples e redonda, passando suavemente a curta unha do polegar na madeira, observando o findar do pôr-do-sol pelas janelas turvas. Whick, o irmão que servia os hóspedes, aproxima-se alegre para dar-lhe uma taça de vinho, uma caneca de leite com mel, um ensopado de veado fresco e duas fatias de pão recém-assado, sorrindo-lhe sem deixar-se abalar com as expressões vazias do rapaz, o olhar perdido que nem mesmo por um segundo encontra-se com o seu.
A entrada abrupta de dois irmãos, Flick e Quee, com lenha cortada e os machados sobre os ombros, porém, chama sua atenção.
— Meus irmãos, se eu contar quem vi, vocês não acreditarão...! – Quee sorri de entusiasmo.
— Céus! Esse homem não parou de venerar a beleza dela o caminho todo! – Flick, aborrecido e impaciente, toma a lenha das mãos do irmão e some cozinha adentro.
— O que há, irmão? – Blick estica a cabeça atrás do balcão em expectativa e os outros aguardam o motivo do sorriso, assim como os hóspedes, assim como Daniel.
— Regina Mills está aqui! – Ilumina-se. – Aquela pequena que vivia com Madame Lucas! Como tinha boa voz! Agora todos em Paris falam dela, meus irmãos. E está bela, tão bela que a noite se fez dia em meus olhos apenas por uma visão como aquela. Acabamos de vê-la cavalgar destemidamente na direção do cemitério...
— Pobrezinha... – O irmão Snick esmorece. – Lá foi erguido um altar muito bonito em homenagem aos seus pais, provavelmente ela o visitará, uma vez que os túmulos reais estão em Barcelona, muito aquém de seu alcance... Pobrezinha! Não me esqueço de como era arredia e independente, boa menina!
Neste instante, Whick depressa arranca o pano úmido do cinto e tenta conter o vinho que escorre da taça quebrada quando, esbaforido, o Visconde Daniel Pendragon levanta-se, toma sua capa do cabideiro e lança-se para fora da hospedaria como se sua vida dependesse disso, esbarrando e derrubando tudo em seu caminho.
(...)
O cemitério sombrio, com cheiro de dor, não a assusta. Regina precisa atravessar a terra e as flores e as tantas lápides altas, passar pelas esculturas de anjos tristes, os nomes desbotados das pedras gastas com o tempo e as chuvas, precisa chegar até o fim para encarar o belíssimo altar de seus pais, onde há duas grandes esculturas de Henry e seu violino e Cora e seu vestido ousado, em uma pose dançante; ambos sorrindo. Granny Lucas fora a responsável por construí-lo, desejando que a menina pudesse ir até lá sempre que sentisse falta dos pais.
Granny nunca perguntava, mas sabia que Regina para sempre sentiria a falta deles.
Em suas mãos, um par de rubras rosas, apertado quase a ponto de partirem-se os caules em seus dedos trêmulos As roupas, o véu negro e os olhos tão escuros quanto à própria noite, contrastam com o vermelho da flor e com o brilho cristalino das lágrimas silenciosas em seu rosto. Como sente saudades. Como precisa de seu alento agora.
Não visitava o altar desde que foi levada à Paris. Sentiu medo, um medo terrível e profundo de voltar àquele lugar, de ver as estátuas alegres, de receber novamente o pesar da ausência de Henry e Cora. Mas uma presença a faz encontrar coragem, a coragem de cem leões unidos e famintos; a coragem da tempestade que arruína e fere; a coragem do amor e da saudade.
Emma. Emma Swan está com ela. Não como sempre está, mas sim está ali, literalmente, com ela. Eros, Anjo da Música, sua guardiã.
— Cante... – Regina implora. – Cante para mim! Cante e não me permita sucumbir ao silêncio! Se cantares, meu Anjo, eu saberei que nunca estou sozinha!
Daniel está na entrada do cemitério quando este apelo gritado de longe o alcança como um sussurro. Cego, munido somente da fraca luz da lua nova, avança depressa entre os túmulos, ansioso por encontrá-la, porque sabe, e nada o faz duvidar, que aquela voz do camarim, Anjo da Música, estará lá com Regina. Precisa vê-la, precisa estar presente quando Regina olhar nos olhos daquela figura misteriosa, seja lá quem for, precisa saber se as irises castanhas denunciarão o que Regina sente. Não sabe porque corre o risco de passar por um tormento como esse, não compreende o motivo de tamanha necessidade. Talvez, em seu coração de menino, guarde um fio de esperança para nada ver nos olhos de Regina que denote paixão, amor, desejo, afeto, tudo o que dela deseja e o que ela jura não pertencer mais a si própria, tampouco a ele.
Contudo, os pés de Daniel fixam-se na terra como se estivessem pregados ao chão. Seu corpo para de se mover como se um raio acabasse de atingi-lo. Seus olhos arregalam-se como se estivesse prestes a ver sua alma arrancada de si. Quando, na penumbra, enxerga o vestido negro de Regina esvoaçar, ao mesmo tempo ecoa uma voz.
Uma voz que não é dela.
A música começa e Daniel para. Daniel sente que o mundo inteiro para, simplesmente detém-se paralisado para ouvi-la. A voz é como a do camarim, porém, cantada. E este canto o amedronta, o arrebata. Este canto o machuca, o cura, o esmaga, o flutua, o afoga e sopra fôlego. Hipnotiza.
Em meio à melodia, escuta o riso emocionado de Regina, mas sequer é capaz de atentar-se a ele. Está enfeitiçado. Diabolicamente enfeitiçado. Não reconhece a música, não reconhece o cemitério, nem mesmo o céu noturno acima de si lhe é familiar. Sente-se, como se por magia, evaporar para outro mundo, uma realidade feita de curvas e notas dançando entre elas, um mundo feito de papel branco com tons e semitons pintados de negro, loucos, correndo pelas páginas, pintando-lhe a pele no mesmo compasso.
Enxerga, por um instante, o cemitério, Regina e as velas do altar de cima, como se estivesse voando. Está voando. Que maestria! Aquela voz que faz voar é como milagre, maldição e bruxaria. E a última coisa da qual o Visconde Pendragon se lembra é do suave findar da canção e de ver, antes de apagar e tombar contra uma lápide...
Um par de olhos verdes engolindo-o na escuridão.
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