The Phantom Of The Opera
5 Delirium
Notas iniciais
Zelena reflete recostada na pilastra dórica de sua varanda enquanto Sir Hiss desliza sibilante pelo mármore do parapeito. A soprano rumina as palavras que o Inspetor Graham proferira no dia anterior. Se Daniel, o jovem Visconde Pendragon está mesmo encarcerado de paixão por Regina Mills, sua mente maquiavélica não precisa atingir o auge da trapaça para tirar o que julga ser uma literalmente pequena ameaça de seu caminho.
Por um instante, amaldiçoa Henry Jekyll, Edward Hyde, Madame Van Straten e até mesmo o Diretor, o Coreógrafo e o Maestro pelo que lhe disseram acerca da aparição de Regina. A história repete-se em um ciclo sem fim: Vence a mais bela e mais jovem. Apesar de orgulhosa de sua perfeição, Zelena sabe que não substituiu a famosíssima “Grande Rainha”, Guinevere, por superar seu talento, mas sim por Guinevere ter alcançado os seus trinta anos. E hoje, com vinte e sete anos, a ruiva teme ter seu trono tomado por uma menina que mal chegou aos vinte.
Sua garganta, seus olhos, mãos, narinas, seu corpo inteiro arde com uma verdade esmagadora: Regina fora sublime. Não por uma questão técnica. Nada relacionado ao fato de que Zelena é incontestavelmente mais experimentada do que a menina na Ópera, no Teatro, na Arte, na vida. Regina fora sublime porque entregou-se àquela Ária de corpo e alma, como se a música drenasse todos os segredos de seu coração e os expusesse em sua voz.
Não deseja, contudo, feri-la ou prejudicá-la com violência. Regina Mills poderia tornar-se a estrela mais brilhante de todas as Óperas do mundo, contanto que estivesse muito longe de seu reinado em Paris. E é esta certeza que a faz solicitar a presença da filha de sua assistente Glinda, a pequena Dorothy, para enviar uma mensagem urgente com um convite a Daniel Pendragon.
(...)
No alojamento das bailarinas, uma vez que Madame Eva ausentou-se para um chá particular na propriedade de Madame Van Straten, Robin, o maquinista-chefe, ficara incumbido de cuidar para que as moças permanecessem comportadas em seu quarto até que a tutora retornasse. Robin, apesar de sombrio e estranho, divertia as jovens com suas histórias. E em meio às risadas e curiosidades, uma dessas histórias desperta a atenção de Regina.
— De um lado há uma face angelical, feita da maciez das pétalas das rosas e da brancura da luz do luar! Humana, sim, porém, mais forte e veloz do que qualquer homem vivo! Há quem diga que descende de feiticeiros e místicos. – Locksley movimenta-se como um macaco pulguento, saltando de um lado para o outro entre as bailarinas. Todas as jovens riem de seus gestos caricatos e de suas expressões alucinadas, exceto por Regina Mills, que sabe exatamente de quem o maquinista-chefe conhecedor de toda a Ópera fala. – Mas do outro... Oh, oh, oh! – Ri grotescamente, engrossando a voz. – Do outro lado, o que a máscara esconde é pavoroso, repugnante! – Finge que suas mãos são garras e as atiça, tencionando tocá-las. – Dizem que é como a face do próprio demônio encarnado, um vazio assustador, pele pútrida, monstro, fera animalesca! – Arranha o próprio rosto como se o estivesse rasgando. – Este lado é tocado pelo fogo infernal, feio, tão feio que o coração lhe parará no peito se este fitá-lo!
— São histórias tolas. – Ruby contesta, inconsciente da ira crescente em Regina. – Não deve assustar as meninas assim, senhor Locksley. Madame Eva não aprovaria.
— Oh, sim, sim, sim, querida! – Ri ainda mais embriagadamente, mirando seus olhos injetados nos enigmáticos e agora incendiários olhos de Regina, que o encara com uma fúria contida, prestes a acertá-lo com o primeiro objeto que lhe aparecesse. – Mas todas vocês devem ter cautela... A cada passo, vigiem. A cada suspiro, ouçam o que há ao redor. Pois eu sei! – Abre os braços e reverencia a morena de expressões fechadas. – E isto ninguém me disse... Que este Fantasma da Ópera tem seus olhos de besta pairando sobre alguma das moças deste Teatro!
Regina endurece os punhos e levanta-se do divã, derrubando do colo o livro de poesias que a distraía de seus próprios pensamentos conflituosos.
— Sendo assim, não seria prudente o senhor abster-se destas descrições maldosas e injustas a respeito dela?! – Brada.
— Maldosas e injustas? – Marie franze as sobrancelhas, esquecendo-se completamente do canário engaiolado que alimentava. – Como o sabe, minha irmã? Você já a viu?
Regina tremula sobre as pernas, quase encolhendo-se diante da pergunta. De repente há uma profusão de olhos: Os olhos de Marie, inquisidores. Os de Ruby, desconfiados. Os de Robin, confidentes. Os das outras bailarinas, arregalados e curiosos como um bando de camundongos famintos cercando um punhado de migalhas saborosas. Não poderia jamais contar-lhes. O que diriam e fariam se soubessem que varou a noite nos braços dela, Fantasma da Ópera, a quem tanto temem?
A ínfima possibilidade de ter homens e mulheres armados e apavorados à procura de seu Anjo da Música é o suficiente para que seu coração se aperte e doa de terror.
— Não. – Mente. – Eu não a vi. Mas quase sempre os julgamentos feitos sem reflexão, no calor de uma pressa curiosa, estão equivocados.
— E eu concordo plenamente! – Ruby joga-lhe um beijo no ar, tentando dissipar a tensão nos olhares dos presentes. – Esqueçamo-nos desta criatura por um momento! Só se sabe maldizer um Fantasma da Ópera que sequer vimos! Eu sugiro falarmos sobre o baile de máscaras! – Pisca-lhes.
— Esplendido! – A bailarina Elsa sorri. – Não precisamos debater sobre nossos vestidos, pois, como sempre, sei que todas estarão adoráveis. Confesso que estou mais curiosa em saber, queridas, os nomes dos seus belos pares!
— Certamente, minha cara! – Pronuncia-se outra bailarina, Ariel, uma jovem ruiva. – Fui convidada e irei com o nosso belíssimo coreógrafo, Monsieur Erik Mer!
— Que honra! – Elsa aplaude. – Conte-nos, Ruby, conte-nos o seu par!
— Eu... – Enrubesce, suspirando. – Não tenho um par, ainda não. Recusei os convites por não receber ainda o que tanto desejo...
— Killian Jones! – Anna, a pequena bailarina, irmã de Elsa, observadora e travessa, ri graciosamente. – Você quer ir ao baila com o Maestro!
— Não acredito! – Marie exclama. – Killian, como todos os outros, só tem olhos para Zelena!
— Pensa que não sabemos disso? – Ariel suspira. – Mas Erik é um pouco mais sensato do que Killian e August, portanto, sabe que não há chances de Zelena notá-lo, especialmente sendo casada com Walsh.
— Convide-o! – Outra pequena bailarina, Grace, sorri inocentemente com seus pobres dez anos. – Convide o Maestro, Ruby!
— Não é tão simples assim, querida... – A bailarina ri, acariciando suas tranças castanhas.
— E você, Marie? O que nos diz? – Elsa prossegue.
— Meu acompanhante será o Inspetor Assistente, David Berger.
— Ele a convidou? – Ruby sorri, olhando de soslaio para uma Regina completamente alheia do assunto.
— Não! – Dá de ombros. – Mas me convidará antes da noite do baile, o que será em no máximo quatro noites.
— Não fique tão confiante, Marie... – Ariel arqueia uma sobrancelha. – E se ele não a convidar?
— Minha amada sereia... – Marie Margaret segura suas mãos. – O amor vem até nós de muitas formas. Através do tempo, através do acaso, através da tentativa... Quando é amor, nós sempre sabemos.
— Vocês só conversaram algumas vezes, Marie! – Ruby ri de sua convicção.
— Espere e verá, minha irmã! – Assente.
— Elsa? – Ruby ainda olha disfarçadamente para Regina perdida em universo particular e solitário, deitada no divã e mirando o teto do alojamento.
— Lembram-se da bailarina inglesa, Ingrid, que esteve em Paris para uma apresentação conjunta na época do auge da carreira de Guinevere? – A jovem sorri travessamente. – Ingrid virá para o baile de máscaras como convidada especial de Madame Van Straten e trará consigo seu sobrinho alemão.
— E...? – Marie cruza os braços e sorri, ciente do que ouvirá.
— O jovem Hans não conhece um parisiense sequer. Ingrid pediu-me que o acompanhasse no baile e o apresentasse devidamente à um verdadeiro baile Francês. Logo, minhas caras, parece que meu par será o belo Marquês Hans Hoyer!
— Que orgulho da nossa menina! – Ruby uiva em comemoração.
— Onde está Mulan? – Ariel vasculha o quarto. – Não me diga que ela ainda está treinando o Terceiro Ato de Carmen! Bizet apostaria que ela foi feita para a peça de tanto que a ensaia!
— Mulan é aplicada de uma maneira que desconhecemos, minha amiga. – Marie ri orgulhosamente da jovem oriental. – Mas pelo que sei, ela será acompanhada no baile pela Duquesa Aurora Perrault! *
— Aurora não estava noiva do Duque Phillip Perrault, seu primo em segundo grau, Marie? – Elsa faz uma careta.
— Parece que o Duque foi abandonado no altar e a Duquesa correu para os braços de Mulan...– Marie sussurra em segredo, olhando de um lado para o outro como se pudessem pegá-la em flagrante.
— E ela nada nos conta? – Ariel revira os olhos.
— Sabem que Mulan detesta falatório. – Ruby as encara em reprovação por falarem da vida da bailarina. – Basta!
— Muito bem. – Ariel sacode os ombros. – E você, Regina? Diga-nos que seu misterioso par é o Visconde Pendragon!
...
— Regina? – Ruby reforça o chamado da bailarina.
Embora silenciosamente esteja ali em corpo, Regina não está, em alma, nos alojamentos da Ópera Fée. Vagueia em mundos inalcançáveis, refaz-se das lembranças da noite anterior e eleva-se distante do chão. Eis que tudo ao seu redor torna-se pífio, escasso. Recorda-se suavemente dos gestos magnânimos e um tanto temerosos de seu Anjo da Música. De seu reduto encantadoramente peculiar, de Rocinante, da gôndola, do lago e do nevoeiro. Recorda-se, com uma dor bonita espalhando-se no peito, das mãos dela, de ser pressionada contra a parede e tê-la tão perto pela primeira vez; de seu desespero e reconciliação. Mas o que a faz abrir um sorriso exuberante e despertar a curiosidade de todas bailarinas é recordar-se de seu nome: Emma. Emma Swan.
O sorriso esmorece ao recordar-se de como a feriu com seus atos intrusos. De como a Voz ficara acuada e aterrorizada. E as palavras, essas ecoam agora em seus ouvidos como se ainda estivessem sendo proferidas: “Eu, que a amo tanto...”
Amor. Deparar-se com questões dessa magnitude assombrando seu coração é tanto inevitável quanto danoso. Amara seus pais quando vivos e ainda os ama na morte. Ama Granny Luccas, sua ama, por quem foi acalentada após o atentado contra o violinista e a dançarina. Categoricamente ama Eva, Ruby e Marie Margaret, porém, sente-se aquém do amor e de suas dádivas. Sente que a dor ainda tão hedionda dentro de si pela perda de Henry e Cora a faz indigna de experimentar um patamar tão sublime desta emoção. E se, amando em proporções divinas o seu Anjo da Música, viesse a perdê-la?
— Regina! – Marie a sacode pelos ombros.
— Que diabos, Marie? – Assusta-se com suas expressões.
— Por que você está chorando?
— Eu... – Seca as lágrimas que sequer percebera escorrerem em seu rosto.
— O Visconde é tão especial assim para arrancar-te lágrimas, querida? – Ariel impressiona-se.
— O Visconde? – Franze o cenho. – Daniel? – Compreende e arregala os olhos. – Oh, não, nunca! Daniel e eu fomos amigos de infância e este é o final da história.
— Ele não a levará ao baile? – A terceira pequena bailarina, Wendy, aproxima-se do divã com olhos investigadores.
— Absurdos! Jamais, absurdos! – A postura amigável de Robin é substituída por uma expressão furiosa e ele se move agitado. – Jamais deve ferir-lhe o coração desta maneira!
— O coração do Visconde? – Marie torce o nariz, confusa.
— Não! – O maquinista-chefe aponta para Regina. – O coração dela! Você, menina, Regina, nunca fira o coração dela!
— Dela...? – Ariel sorri maliciosamente. – Esconde de nós alguma amante impetuosa nas tuas saias, Regina?
— Não! – A bailarina cora. – Cale-se, Locksley, o que pensa que está fazendo?
— Sou eu quem pergunta! – Esbraveja. – Você irá ao baile com o Pendragon, você irá magoá-la! Amaldiçoada seja!
E aos trancos, resmungando violentamente, o rapaz consternado abandona o alojamento, deixando as jovens com semblantes confusos e desconfiados. Regina impreca sussurrante e segue seus movimentos, porém, para a direção oposta, saindo pela outra porta a tempo de ouvir os cochichos curiosos das bailarinas. Atravessa os corredores com os lábios compridos, frustrada pelas acusações estúpidas do maquinista. Não... Ela jamais poderia magoar o seu Anjo da Música. E a possibilidade de ir ao baile com um amigo não poderia feri-la, embora não fosse sua companhia desejada.
Detém-se ao alcançar os estábulos. Gregorie, o filho do cuidador, apressa-se desastradamente para selar Rocinante enquanto Regina veste uma capa para sair da Ópera Fée. Curiosamente Gregorie e Georges sequer questionaram a origem do animal, somente assentiram com sorrisos galantes e hipnotizados quando, na noite anterior, a jovem o deixou em suas mãos e pediu que cuidassem dele como se lhes pertencesse.
— Ao seu dispor, Mademoiselle Mills. – O rapaz a reverencia ao tirar a boina dos cabelos curtos, sorrindo-lhe escancaradamente.
— Obrigada, Greg. – Sorri cordialmente e monta no dorso de Rocinante, que relincha de alegria ao recebê-la. – Caso Madame Eva pergunte sobre meu paradeiro, diga-lhe que fui à Perros visitar Granny Lucas.
(...)
Na Avenida Quai d’Orsay, entre todas as magníficas mansões, a propriedade do Conde Pendragon não é uma casa, mas sim o mais próximo que um cidadão de Paris chegará de um palácio com inestimável quantidade de pedras, ouro, seda e altura. Cães e homens guardam cada entrada e cada saída. Cada cristal é minuciosamente polido, cada móvel e piso é impecavelmente lustrado, cada metal precioso é trancado em um cofre cuja combinação pertence somente ao próprio Conde. Vidas tranquilas têm os empregados, o cocheiro, os capatazes e os animais, porém, naquela manhã, uma discussão hostil era travada ante os apelos inúteis e amofinados da Condessa Guinevere.
— Não há razões para retomarmos este assunto desagradável! – Daniel circula de um lado para o outro na sala, quase tropeçando ao abarrotar o tapete de pele de urso estendido diante da lareira.
— Você está delirando, meu irmão! – Arthur rosna e aperta a taça de vinho em seus dedos como se estivesse prestes a espatifá-la. – Eu o deveria enviar novamente à Polônia e mantê-lo em uma escola militar até que aprenda a ser um Pendragon, um homem de honra!
— Não há desonra no amor! – O enfrenta. – Nem mesmo você e sua autoridade podem impedi-lo de florescer!
— Para o diabo com seus sentimentos tolos, Daniel. Você não passa de um garoto estúpido!
— Não disponho de mais tempo para suas ofensas e ordens vãs, irmão. – Toma a cartola e o colete do cabideiro. – Preciso encontrá-la.
— Não será necessário, Monsieur Daniel. – A porta é aberta no momento em que o Visconde toca a maçaneta.
— Lancelot? – Arthur franze as sobrancelhas para seu cocheiro e amigo.
— Meu Conde, minha Condessa. – Reverencia o casal. – Sim, meu rapaz, O Rouxinol de Paris voltou esta manhã à Ópera Fée. Regina Mills está segura.
— Leve-me até lá. Necessito vê-la ou enlouquecerei! – Pede em tom de súplica.
— Georges, nos estábulos do Teatro, informou-me que a jovem partiu mais cedo para Perros, para visitar sua ama. Deseja que eu o leve a Perros, Monsieur?
— Imediatamente!
— Não! – Arthur atira a taça de cristal no piso, espalhando mil cacos pela sala.
— Arthur! – Guinevere ergue-se da poltrona, fustigada. – Vá agora, Lancelot. Leve Daniel com você.
Daniel aproxima-se para beijar-lhe as mãos, reverencia o irmão sem encará-lo e segue com o cocheiro para a carruagem. Os olhos do Conde são labaredas violentas de fogo e fúria para a esposa que, como sempre, em estimada elegância volta a saborear o livro de aventuras épicas que tinha nas mãos.
— Questiona meu comando diante de meu irmão! Ele é minha responsabilidade!
— Lamento, meu amor. – Fecha o livro e lhe sorri amavelmente. – Mas é tempo de dar um basta nessa situação. Daniel é fragilizado desde que você tirou-lhe do convívio de Regina, você mesmo o disse. Embora desaprove o possível envolvimento entre os dois, Daniel é jovem, Regina é jovem... Permita que encontrem seus caminhos sozinhos. Sem interferência sua.
— Não temos herdeiros, Gwen... – Suspira. – Meu império em breve estará nas mãos de Daniel. Como posso confiar?
— Creio que não compreende o quanto me dói vê-lo desmerecer de tal forma uma artista. Uma artista é o que sou muito antes de ser sua Condessa, Arthur.
— Você era uma renomada artista. E meu amor era e ainda é o maior dos amores por você.
— E Regina será. Regina será, não tenho dúvidas. Maior do que Zelena, maior do que eu. Ela será uma estrela da qual a Ópera Fée jamais se esquecerá, meu amor. Posso pedir-lhe que dê apenas... Paciência?
— Façamos ao seu modo, minha querida. – Ajoelha-se diante da esposa e acaricia seu rosto, conformado. – Farei o possível para confiar em sua intuição.
— Meu Conde? – Uma voz os chama para a porta.
— Percival, meu bom amigo. O que o traz aqui? – Ergue-se para reverenciar o empregado.
— Uma carta, Monsieur, entregue por esta jovem. – Chama com um gesto de mãos e surge diante do Conde e da Condessa a pequena Dorothy. – Uma carta de Madame Zelena endereçada a Daniel, ao seu irmão!
(...)
O cair da tarde em Perros é exatamente como Regina recordava-se: Belo e pacato. Poucas pessoas, muitas flores, a melhor cidra de maçã que a França já vira. As frutas frescas, as sombras das grandes árvores, o vento que vem do mar. O velho farol, aves na enseada, o som da água contra as pedras e a areia morna. A ferrovia além da cidade, o padeiro cantarolando, a Escola Naval e seus marujos imprudentes... Tudo ali, para ela, resume-se em uma palavra: Saudade.
Rocinante cavalga pelas estradas de terra e quase toda a gente pela qual passam acena para Regina e admira-se do belo corcel negro. Cada rosto lhe arranca um sorriso. Apesar de trocar cartas constantemente com sua ama, desde que se entregara aos estudos viscerais da música nas mãos de seu Anjo, esquecera-se completamente de visitá-la. Para sua alegria, conforme avança pelas trilhas abertas da pequena comunidade, lá está ela, próxima à praia, a humilde e aconchegante casa de Granny Lucas, com o cheiro de suas guloseimas enfeitando a tarde e a fumaça da chaminé esvaindo-se lentamente.
Ao bater na porta, tudo espera. Represálias, rejeições, palavras intermináveis a respeito de imprudência e ingratidão. E disso sente-se merecedora, porém, assim que seus olhos se encontram, as mãos enrugadas e longas a trazem para um abraço apertado e saudoso, quase comovido quando a voz trêmula soa.
— Minha menina! Não creio que os deuses a trouxeram para mim novamente! – Afasta-se por um instante, ajustando os óculos no rosto. – Minha menina uma ova! Minha linda mulher feita!
— Chérie Granny! – Carinhosamente beija o rosto da ama.
— Venha, entre, querida! – A arrasta para sentar-se perto da lareira acesa. – Mal posso acreditar, minha menina, como se atreve a demorar tanto para vir?
— Perdoe-me, Chérie... – Ruboriza culpada. – Há tanto para contar-lhe...
— E começaremos imediatamente, imediatamente! – Oferece uma xícara de chá e dispõe de seus deliciosos biscoitos, atenta. – Acha que já não chegou a Perros as notícias de sua apresentação divina na Ópera Fée? Vamos, conte-me tudo!
— Sim, Chérie, há dois dias. – Sorri. – Apresentei-me no lugar de Zelena.
— Para uma jovem que está na boca de todos os parisienses como “O Rouxinol de Paris”, você não me parece muito contente, querida.
— Eu estou, acredite. – Segura suas mãos. – Porém... Acontecimentos inesperados estão pairando como uma sombra em meu coração, Granny. Para começar, reencontrei Daniel.
— Daniel? – Arregala os olhos. – O adorável Daniel Pendragon da Escola Naval?
— Sim. O Visconde Pendragon esteve na noite em que me apresentei e nos falamos brevemente em meu camarim.
— E o que isso significa para você?
— Eu não sei. – Suspira e abandona o chá. – Daniel e eu éramos apenas crianças em nosso primeiro amor. E ele foi meu único e melhor amigo. Mas quando nos deixou para obedecer a seu irmão... Após esses anos... Não sei mais o que resta em minhas emoções para ele, porém, sei que não há mais nenhum traço de uma suposta paixão juvenil reacendida.
— Deixe-me adivinhar... Os sentimentos de Daniel foram renovados.
— Desconfio que sim. Ele parecia... Apaixonado. E isto não pode ser, Chérie, Daniel não pode apaixonar-se por mim, não mais.
— Descarta qualquer possibilidade de voltar a encantar-se por ele? Agora que é um homem feito...
— Por isso vim, por isso preciso de você. – Volta a apertar-lhe as mãos, sentindo as primeiras lágrimas inundarem as pálpebras. – Meu coração, Granny... Sinto que ele se foi...
— Minha amada, você é tão jovem! – Afaga-lhe. – Como poderia?
— Não, perdoe-me, não quis dizer que perdi o desejo de amar. Meu coração está... Entregue... A outro alguém...
— Isso é maravilhoso, querida! – A mulher sorri. – Não diga a esta velha ama que isso a entristece ou aborrece, pelos deuses! Amar, Regina, é sempre uma dádiva...
— Eu temo por este amor! – Ergue-se abruptamente, afastando-se para mirar o pôr-do-sol através da janela. – Lembra-se de quando, em meus treze anos, você me levou até o farol e observamos por horas a correria furiosa das ondas sobre as pedras?
— Você estava entusiasmada tanto quanto estava assustada. – Granny ri.
— Esta é a impressão que apodera-se da minha alma, do meu peito, dos meus olhos e que consome os meus sorrisos e pensamentos e desejos sigilados, Chérie. – Vira-se aflita, cruzando os braços. – A sensação de ser uma rocha gigantesca cuja força selvagem das ondas golpeia vorazmente até reduzi-la a pó. – Um sorriso improvável lhe surge, doce e suavemente, enfeitando seu belo rosto. – Ao mesmo tempo... Oh, Chérie, ao mesmo tempo...
— Ao mesmo tempo...? – A ama aguarda.
— Ao mesmo tempo... – Seus olhos se fecham e passa a sussurrar. – Ao mesmo tempo sinto-me elevar. Sinto-me tão plena, tão segura. Tão necessitada dela... Sinto que estava morta, Chérie, sim, estava morta... E ela... Ela me trouxe de volta.
— Ela? É uma jovem dama, então? – Sorri.
— Sim. Ela. Foi ela quem me guiou ao palco na noite triunfal da Ópera Fée, Granny. Tudo o que sei da música desde que lá cheguei... Foi pelas mãos, pelo comando sussurrado, pela genialidade. Por ela encontrei-me com a música em tamanha profundidade, tamanha entrega. Foram as suas lições, sim, mas também... Também fui guiada pelo imenso desejo de vê-la, de tê-la...
— Regina, minha querida Regina, você está apaixonada por essa moça... Quem é ela? Uma mulher mais velha? Para ser sua professora... Uma artista?
— Uma artista, uma visão, um dom, um... Anjo. O meu Anjo da Música, Chérie. Estivemos juntas por meras horas velozes, mas estar nos braços dela... Senti que nada mais seria tão sublime, tão valioso, nunca, nunca nada se comparará!
— Mas quem é essa moça que agora me surpreende por roubar-lhe assim o coração?!
— Esta é a questão... – Respira fundo. – Pouco eu sei. E o pouco que sei não posso lhe contar. Mas eu temo, Chérie. Temo por este amor, pelos perigos que nos cercam... Oh, se eu pudesse lhe dizer... – Senta-se novamente e suspira em frustração.
— Não compreendo o que se passa e gostaria de poder compreender. Embora não possa, posso lhe dar um conselho. – Sorri. – O amor não acontece pelo acaso, Regina. É uma força incontrolável, imprevisível. É um mistério que todos buscam, mas jamais são capazes de explicar, teorizar. Posso não saber o que tanto a apavora, mas o amor não é, no fim, sempre um temível obstáculo, minha menina?
— Sinto-me perdida. Como posso sentir que a amo tão profundamente quando mal nos conhecemos? Há quase quatro anos nos apresentamos, mas soube recentemente seu nome e nada sei de seu passado, sua história... Como posso senti-la tão indispensável, tão comandante dos meus desesperos apaixonados, tão intercessora das minhas angústias rancorosas, tão protetora das minhas fragilidades secretas...?
— Você vê? Não há explicações, Regina. – A conforta. – E, afinal, elas são realmente necessárias?
— Eu não sei... – Suspira.
— Mas sabe que a ama...
— Sinto que a amo desde que ouvi pela primeira vez sua voz, quando chorava solitária em uma noite tempestuosa, no aniversário de morte de Henry e Cora, na capela vazia... Estou enlouquecendo, Chérie? Minha mente está deteriorando-se?
— Os sábios dizem que o amor é sempre uma forma de loucura, querida. Talvez seja exatamente este o primeiro dos grandiosos e irrefreáveis efeitos do amor... A insanidade.
Uma única lágrima escorre do lado esquerdo do rosto da bailarina. Sua mão trêmula a afasta e seus olhos guiam-se pela casa até pousarem no vaso ornado sobre a mesa, encontrando uma forma de abandonar o assunto.
— Margaridas. Você ainda planta as margaridas, Chérie?
— Ainda são as minhas prediletas! Você nunca gostou muito delas, querida. Você sempre amou...
— Rosas. – Sorri. – Eu sempre amei as rosas.
— Rosas? – Uma voz ecoa pela casa e a porta se abre, assustando-as. – Talvez eu deva empenhar-me um pouco mais para agradá-la, então!
— Oh... Meu rapaz! Como você está belíssimo! – Granny enche-se de uma felicidade surpresa.
Parado na soleira elegantemente, com um buquê de camélias brancas nas mãos e um sorriso de rasgar o rosto, os olhos azuis encontram os de Regina e um suspiro alegre salta da garganta do Visconde.
E ela, atônita, somente arregala os olhos.
— Daniel...!
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