Notas iniciais
Hey you! Como vão neste feriado? Espero que excelentemente bem! O feedback de vocês é... Simplesmente maravilhoso. É acolhedor. Obrigada, muito obrigada. Música-título: Sarah Brightman - Beautiful Sim, a rainha de todos os mundos será muito presente, obviamente, nesta história. Ouçam, por favor? É uma canção esplendida! :) Boa leitura. :)

No dia seguinte, como previra a Voz, o nome de Regina Mills está nos lábios e ouvidos de todos os cidadãos de Paris. Não somente pelo exulto da apresentação, mas também por seu misterioso desaparecimento. Os jornais estampam unicamente o deleite e encanto que a moça causou em cada um dos espectadores, artistas, penetras, porteiros e até mesmo nos que passavam próximos ao Teatro naquela noite. Não obstante, nos corredores, alojamentos, em todos os cantos e andares da Ópera Fée, os rumores espalham-se como uma praga de ratos, crescendo conforme diferentes bocas os espalhavam. Do coro de bailarinas curiosas ao gabinete dos administradores, especula-se sobre seu paradeiro.


A cama, vazia.
A capela, vazia.
O quarto de figurinos, vazio.
A pequena biblioteca, seu refúgio, vazia.
O salão onde deveria estar atendendo aos admiradores, vazio.
Os jardins nos quais ela adorava perder-se no tempo e nos aromas das flores, vazio.

Boatos corriam também acerca da paixão repentina do Visconde Daniel Pendragon, que foi por ele próprio revelada involuntariamente ao levar consigo a margarida pelos corredores abarrotados, com um sorriso de orelha a orelha, ignorando as repreensões do irmão mais velho, cego, surdo e mudo de emoção. O fato de poucos saberem que ambos conheceram-se há muito tempo ajudou a incendiar os comentários admirados e, mascaradamente, maldosos.

As más línguas envenenam os outros com suas ideias de um suposto romance proibido entre o Visconde e a Bailarina. Pobres tolos, pobres diabos. O que diriam se soubessem que Regina atravessou as horas da noite embalada pelos braços de seu Anjo da Música, a quem chamavam com notório terror de Fantasma da Ópera?

Certamente a amaldiçoariam. E embora Regina sequer estivesse atenta aos falatórios, uma vez ainda acolhida no refúgio da Voz, os tais reacenderam uma fúria que a bailarina sequer imaginaria: Zelena.

Na Avenida Breteuil há uma Mansão cercada por um glorioso jardim de narcisos, edificada de escadarias de mármore que interligam vastos corredores, de obras-primas caríssimas nas paredes de cores vibrantes e tapeçarias de países distantes no piso reluzente que enfeitam-na de elegância. Há cerca de quatorze quartos, vasos ornados em cada um dos espaços entre uma porta e outra, cortinas de seda, adega refinada, janelas amplas e assentos aveludados em cor de nobreza. A Mansão de Zelena e Walsh é a maior da Breteuil, a mais majestosa, iluminada e onerosa. Dentro dela, naquela manhã agitada, a Soprano estava a ponto de atirar as taças de cristal nas pilastras, tamanha a ira que a dominava.

— O Rouxinol de Paris, O Rouxinol de Paris! – Exclama aborrecida.

— Por todos os deuses, meu amor, acalme-se! – Walsh revira os olhos em sua poltrona e entorna num só gole a cidra de maçã verde, deixando escorrer três ou quatro gotas do queixo aos trajes casuais. Zelena, quando enfurecida, apavorava a todos.

— Não ouse me exigir calma, Walsh! – Ordena.

— Vamos, vamos, você se preocupa demais, deixe disso! Ninguém poderá tomar sua coroa, que diabos!

— Diabos é o que armarei na vida daquela dançarina de quinta categoria! Eu sou Madama Zelena, eu sou a voz de Paris e o sangue da Toscana, jamais admitirei rouxinóis juvenis em meu caminho!

— E o que crê que a menina possa fazer, minha Dama? – Adentram sua sala o Maestro, o Diretor e o Coreógrafo, respectivamente Killian Jones, August WB e Erik Mer.

— Finalmente! – Walsh ergue sua taça, apontando para a adega com uma variedade de garrafas cheias. – Sirvam-se!

— Lamentamos o atraso. – August sorri para Zelena e tira sua cartola, apressando-se para apanhar três copos e servir-lhes de whisky.

— Paris está alvoroçada! – Erik beija uma das mãos da Soprano e reverencia o Tenor. – Todos comentam sobre ela!

— E o que vocês têm a nos dizer...? – Walsh estreita os olhos e os alterna entre a esposa e os cavalheiros, temendo pela resposta incorreta.

— Livrem-me deste conflito, sou apenas um Coreógrafo. – Erik defende-se. – Seus movimentos foram suaves e ela me pareceu corpo, alma e voz em um só, porém, não houve dança para que seja de minha competência julgá-la.

— Monsieur Booth? – Zelena encara o Diretor.

— Eu sou um homem honesto, Diva minha. Nem mesmo vossa graça pode negar que foi um encanto surpreendente e inesperado ouvir Regina Mills. Mas... Como não houve atuação e performance, somente o nosso homem regente da música, o Maestro Jones, terá uma análise justa. – Entrega os copos aos dois e brinda-lhes.

— A palavra ao Maestro Killian! – Walsh concorda.

— Regina Mills fora, de fato, uma surpresa agradável, Madame e Messieurs. – Encara o copo de whisky, tamborilando os dedos e tilintando o vidro. – Nada comparado à Madame Zelena, obviamente, mas ela tem talento, há de se admitir. E como todo jovem, ela também tem paixão.

Mas Zelena sabe que mentem. Ou melhor, sabe que omitem. Omitem que sequer são capazes de decidir o que pensar sobre o que o efeito de Regina causou sobre o público e fez-se estremecer como um terremoto colossal por toda a Paris. Dando de ombros elegantemente, abandona a companhia do marido e dos outros três, que apelam de joelhos para que permaneça iluminando-os com sua presença. Mas nem mesmo August W.B., o Diretor cujo passatempo predileto era admirar e cobiçar a Soprano, poderia compreender a dimensão de sua fúria.

Solando pelas escadas marmoreais como uma rainha ascendendo ao trono, isola-se depressa em seu escritório particular. Observa seu amado divã cobreado, os tons de jade e chartreuse das paredes, o aroma suave das begônias e os grandes cartazes emoldurados de cada uma de suas magníficas apresentações. Vagarosamente aproxima-se do límpido aquário de vidro, vazio de líquido, coberto de pedras cuidadosamente posicionadas, plantas saltando da terra ali colocada, com um longo e fino tronco no meio, do qual despontam pequenos galhos. Pousa lentamente sua mão em um dos galhos e sente imediatamente o contato da pele escamosa deslizando em seu braço, enrolando-se à ele firmemente enquanto o sibilar baixo a faz sorrir. Sua víbora de estimação, Sir Hiss, é como o filho que a cantora jamais pretende ter.

Acariciando as escamas do réptil, Zelena observa a movimentação da Avenida Breteuil. Depois de horas e mais horas o único assunto das redondezas ainda é Regina Mills e a noite anterior.

Perdida em suas reflexões, um chamado à porta a desperta.

— Meu amor? – Walsh coloca a cabeça para dentro através da fresta aberta, caçando-a com os olhos. – O Inspetor Graham está aqui!

Antes de descer o último lance de escadas, Zelena de imediato depara-se com o largo sorriso galante do Inspetor Graham de Chasseur e com as expressões distraídas de seu assistente David Berger, que parecia demasiadamente distante da realidade.

— Madame Zelena! – Graham se curva. – A que devo tamanha honra?

— Para tirar-nos do departamento em pleno ofício da manhã, espero ser algo extremamente necessário e indispensável. – David finalmente revela seu humor.

— Certamente podemos ceder gentilezas à uma mulher de seu escalão, Madame. Ignore-o, David está sempre insuportável depois das grandes estreias da Ópera Fée, pelo simples fato de que não consegue criar coragem o bastante para declarar-se à uma das bailarinas!

— Esperarei com os cavalos. – O assistente os deixa sem cumprimentos, completamente aborrecido e consternado pela zombaria do Inspetor.

— Ele é definitivamente atraente. – Zelena sussurra para si mesma, rindo espontaneamente.

— Muito bem. – Walsh pigarreia, enciumado. – Graham, faça as honras para com minha amada esposa, sim?

— Às ordens, Monsieur. – Graham sorri. – Madame Zelena, há um boato que posso confirmar por sabê-lo com meus próprios olhos e acredito que isso a agradará, então, o direi sem delongas. O Visconde Pendragon, o jovem Daniel, está caído de amores por Regina Mills! Acredito que, com sua inteligência, faremos muito bom uso da informação!

(...)

Regina desperta elevada, flutuante. Repousada na gôndola, sorri ao mirar o teto e descobri-lo coberto de extensas partituras a nanquim. Poderia a Voz tingir todo o subterrâneo de nanquim em sua arte? Sim! Certamente ela poderia. A bailarina solfeja sussurrante as notas desenhadas e sente a melodia dançar, deslizar em sua garganta e língua.

Ergue-se sobre as almofadas e tecidos buscando imediatamente por ela. Diferente da noite anterior, onde os braços da Voz a mantiveram sob estado febril, o vento dos caminhos abaixo da Ópera Fée a atingem congelantes, fazendo-a encolher-se e notar que a capa dela está ali, sobre suas pernas, aquecendo-a. A desliza para cima suavemente, aproximando o tecido das narinas e aspirando o cheiro de olhos fechados, concentrada na sensação de materializá-la em seus pensamentos, carregando-a pelos corredores, presenteando-a com Rocinante, tocando-a.

Nota-se, então, sozinha. A curiosidade insana apodera-se de seus atos. Prossegue caminhante, passeando descalça pelo chão frio, sondando a morada escondida da Voz. Há uma caixinha de música feita de porcelana sobre uma penteadeira feita de madeira, aparentemente caseira e adaptada para comportar não um espelho, mas dois lenços compridos e grossos de veludo vermelho, como as duas cortinas de um palco. E, para sua surpresa, de fato é do que se trata: Um pequeno palco. Há miniaturas de artistas, marcações e uma imitação do lustre feita de pequenas pedras despontando das cortinas. Tudo lhe parece tão delicado que o temor não a permite tocar.

Sua mente fervilha com o fato de perceber haver espelhos por toda parte, porém, todos cobertos por panos. Observa as fissuras e pequenas elevações curvas dos castiçais, a polidez de suas notas pintadas nas paredes, a beleza de um cabideiro largo, de bronze, no qual havia uma série de vestes excêntricas, figurinos reais e plebeus, coloridos e monocromáticos, quase como se cada peça não se repetisse ou se assemelhasse às outras, como se cada uma pertencesse a um ser diferente. Há também, sobre uma prateleira, mais máscaras ao lado de frascos perfumados. Regina as toca a estremece ao pensar novamente no segredo da meia face escondida de seu Anjo da Música.

Sim, sim... O seu Anjo da Música. O seu misterioso e distante Anjo da Música. Enquanto uma Paris em ascensão incendeia-se de luz, empáfia e absinto, a Voz a guia em travessias aladas, arrastando-a em comichão para um mundo de sombras onde sua alma encontra-se com a dela e a resguarda de toda a vilania, de toda a aflição. Ainda assim, ainda que presente, ela lhe parece tão intocável, tão longínqua, como se estivessem lado a lado, mas em dimensões equidistantes, que teme descobrir-se em apenas mais um sonho, uma ilusão. Suspira ao soltar a máscara na prateleira, frustrada pelo imbróglio de sentir-se tão magoada e longe dela, mesmo estando em seu esconderijo particular.

De repente o som brando das teclas do órgão a fazem virar-se abruptamente. E lá está novamente, Fantasma da Ópera, a Voz, o Anjo. Dedilha o instrumento de olhos fechados, girando quase imperceptivelmente seu corpo pela poltrona, como se estivesse letárgica com a melodia. A canção é dela, Regina sabe, sabe que a ouvir significa receber um instante peculiar de sua alma que mantinha inconfesso. E a cada soar renovado, um passo a leva na direção dela. Não pode evitar, não insiste em resistir, é carregada até ela por uma força invisível e irrefreável.

Oitavam-se as notas crescentes, Presto! Absorta em sua tarefa, a Voz pode somente sentir as mãos pequenas e trêmulas de Regina tocarem-lhe os braços e arrastarem-se até os ombros. Ainda mais vagarosamente, seus dedos fluem até o pescoço exposto, acarinhando suavemente o queixo, o busto. Sente-se necessitada em tocar cada centímetro dela e deleitar-se com sua respiração ansiosa a descompassar. Toma seu rosto entre as palmas e tomba-lhe a cabeça para trás, pedindo silenciosamente que ela a encare. O encontro de seus olhos é explosível e os verdes de seu Anjo abrem-se incompletos, estreitos, torporizados. Regina a acaricia ali, passeia nos cabelos quase brancos, soltos, quase involuntariamente deixa que as unhas raspem em sua nuca.

Mas Regina está fervendo em intriga e precisa saber.

Precisa descobrir de uma vez por todas.

Assim, sem mais delongas, arranca-lhe a máscara do rosto.

O que acontece é demasiadamente veloz, quase impossível de acompanhar. Regina mal vê a metade de uma face deformada e a Voz se ergue com a fúria das ondas noturnas, cobrindo o rosto exposto e lançando-lhe um olhar de fogo capaz de esmagar seu coração. Um dos braços a empurra para longe. As chamas agitam-se nas velas, um grito medonho a estremece em terror. Um dos altos candelabros é chutado e apaga-se ao atingir o chão úmido e empoçado. O tampo de madeira do órgão também é atingido por um chute e um punhado de folhas é atingido por um bruto tapa, esvoaçando pelo lago enquanto o grito apavorante ainda ecoa pelas paredes, indo e voltando repetidamente, forçando a jovem bailarina a encolher-se.

— Não! Não! Não! – Ruge seu Anjo da Música.

— ... – Regina estende uma mão em sua direção, sem fala.

— Como ousa?! Como pôde?! Sua pequena traidora! – Brada em descontrole, caindo de joelhos aos pés da gôndola e esmurrando a borda de madeira como se pudesse destroçá-la em suas mãos. – É o fim! Não! Por quê?!

Regina considera fugir imediatamente. Jamais presenciara rudez em sua voz e brusquidão em seus atos. Ela, seu Anjo da Música, parece-lhe agora um diabrete enfurecido, golpeando tudo ao seu alcance e gritando rouca, desesperada. Assustada, a bailarina afasta-se cada vez mais enquanto cada grito torna-se ainda mais ensurdecedor.

— Tudo o que lhe pedi foi para não tocá-la! Não tocar a máscara! Como pôde?! Você me destruiu! Como se atreve? Você pretende correr agora, não é?! – Acusa, fechando os punhos a um ponto que Regina pensou que os dedos se espatifariam uns contra os outros. – Eu deveria aprisioná-la e nunca mais deixá-la ver a luz do dia! Mas não! Vá! Vá agora, desapareça!

— Não! – A possibilidade a fez protestar involuntariamente.

— Não, não, não, eu lhe digo não! – Os gritos de raiva tornam-se abafados, embargados, tão melancólicos quanto um uivo solitário. – Agora que viu o monstro, você não mais voltará! Agora que sabe o que eu sou, você nunca mais virá! Fugirá e se esconderá dessa face horrenda!

— O quê...? – Arregala os olhos.

— Agora que a imagem do monstro está cravada em seus olhos e em sua mente, eu a perderei para sempre! Oh, quão cruéis serão vocês, senhores do universo?! – Aponta para cima, para os deuses que culpa. – Eu os amaldiçoo por fazerem-me esta gárgula abominável para ver-me roubada a minha única alegria! Por que até mesmo o amor vocês me negam, não lhes bastou a aparência?! E você, oh, Regina, por que quis ver?! Vá! Vá e esqueça-me, deixe-me morrer em paz!

Com um último grito de negação sôfrego e horrendo, o corpo da Voz simplesmente tomba contra o chão. O som de seu pranto substitui os berros, um pranto tão penoso, tão rubro e moribundo, que Regina sente como se a estivessem comprimindo, comprimindo, comprimindo e, de repente, estilhaçasse e explodisse em sangue e blecaute, caindo na penumbra do aniquilamento.

O peito da bailarina projeta-se violentamente para frente e para trás diante daquelas palavras e da figura caída como um cadáver ao lado da gôndola. Quando de relance vê a metade descoberta e vermelha do rosto e nele expressa uma dor tão apaixonada, tão desesperada, seu coração inunda-se de uma insuportável culpa.

— Perdoe-me... Perdoe-me! – Corre ao encontro dela com a coragem minada, atirando-se em seus braços. Aperta o corpo forte e trêmulo contra o seu como se as sombras pudessem roubá-la para a escuridão invisível novamente.

— Perdoar?! – Rosna agressivamente, embora retribua seu gesto com um único braço delicadamente enquanto o outro cobre metade do rosto. – Eu não sei! Eu não sei, Regina, você pode perdoar o seu anjo parecer-se com um demônio? Pode perdoar a minha feiura?

— Pare! – Choraminga em resposta. – Não há perdão sem crime, não há razão! Por que você diz coisas tão horríveis sobre si mesma?

— Por quê? – Afasta-se para encará-la com meia face enquanto ainda cobre o outro lado, o olho visível arregalando-se em profunda amargura esverdeada. – Eu sou um monstro. Nem mesmo minha própria mãe suportou conviver-me! E você... Agora que sabe... – Soluça. – Vá!

A Voz afasta-se abruptamente. Arrasta-se pela pedra fria, abandona seu abraço, cambaleia em direção a um emaranhado de cortinas vermelhas e por elas passa, revelando a passagem para o quarto antes trancado. Regina, com a máscara nas mãos, encolhe-se novamente ao ouvir seu choro desesperado.

De seus dezesseis aos seus dezenove anos, presenciou muitas faces dela, Fantasma da Ópera. Em quase todos os dias sua tutora fora misteriosa e séria, embora a acolhesse com inacreditável devoção. Em outros, havia momentos divertidos em seus diálogos, histórias da Pérsia e de Impérios de outras Eras. E também os dias prediletos da bailarina: Aqueles nos quais sentia-se arrebatada por ela. Contudo, em suma, a Voz lhe parece melancólica e solitária agora como nunca antes pensou ser possível. Percebe neste momento que lhe fere e mal suporta ouvi-la diminuir-se dessa maneira.

Hesitante, caminha até os véus escarlates de veludo e os afasta para vislumbrar um ambiente, como o resto do lago, de paredes cobertas por partituras. Sobre uma mesa, para o tinir de sua curiosidade, há uma Ópera em construção. E para o pesar de suas emoções, o título em negra tinta expõe: “O Rouxinol de Paris”. Sim, sim, não poderia estar errada: A Voz começara a compor uma Ópera enquanto ela dormia. Uma Ópera em sua homenagem.

— Você arrancou-me a máscara e temeu a mim. – Um sussurro vindo do canto do quarto a faz virar-se subitamente para encontrá-la retraída em sua capa. – Eu vi, vi em seus olhos todos os seus temores... E eu que a amo tanto, nunca mais poderei vê-la! Cruéis, cruéis... Você me teme, finalmente...

Regina Mills vê na Voz toda a fragilidade que no mundo pode haver. Espremida contra a parede o chão, apavorada como uma garotinha, balbuciando a maior das suas angústias desenfreadamente. A passos lentos, mas confiantes, aproxima-se novamente, ajoelhando-se e tomando-lhe as mãos que cobriam o rosto. O olho da meia e límpida face a encara aflito, mas o outro, junto à meia face deformada, mantém-se nas sombras, quase rente à parede.

Ternamente a bailarina toca-lhe uma das mãos, acariciando-a, enquanto a outra sobe vagarosamente para encaixar novamente a máscara em seu rosto. E finalmente os dois olhos de seu Anjo a procuram como se todo o terror e languidez de segundos atrás se dissipassem, como se ela erguesse uma muralha protetora ao seu redor.

— O Rouxinol de Paris...? – Regina sussurra sem soltar-lhe a mão.

A Voz desvia brevemente o olhar para os dedos finos e macios que tocavam os seus, respirando dificultosamente.

— Será a mais sublime e divinal das Óperas. – Os olhos verdes se fecham. – Ontem à noite, ao começar a compô-la, descobri enfim que possuo uma alma.

— Eu não quis lhe causar dor... – Lamenta.

— Não lamente mais. Você precisa voltar para o Teatro. – Volta a fitá-la.

— Não! – Desespera-se, agarrando a gola de sua capa com ambas as mãos. – Quase quatro anos para tê-la diante de mim não foram suportados em vão.

— Os novos administradores, Madame Blanchard e toda a imprensa estão à sua procura. Ausentar-se por muito mais não fará jus à imagem de sua mais nova e brilhante Estrela.

— Você não compreende... – Deglute em seco. – Eu não desejo brilhar em nenhum dos céus de Paris que não sejam os seus olhos. Esqueça as formalidades. Raios, para quem acredita que eu estava cantando noite passada?!

Sua resposta é obtida através da temperatura congelante da parede na qual antes a Voz estava pendida colidindo com a temperatura febril de duas mãos apanhando sua cintura e do hálito frutado, morno e suave como as flores que dela recebe todas as noites. E ela está perto. Perto demais para que Regina possa combater a própria insanidade que tenta domá-la e fazê-la abster-se de toda a prudência e governo. Quando as mãos deslizam para cima em seu tronco, vê-se prestes a enlouquecer sobre os olhos verdejantes que a examinam com uma intensidade capaz de quebrar-lhe as pernas e dos lábios finos e levemente trêmulos como a brisa da madrugada outona. Quando os seus próprios olhos estão quase fechados e sente-se mais próxima do que nunca, porém, o sussurro a traz de volta ao prumo.

— Voltará para ver-me, Regina? – A tristeza consome seu tom. – Voltará para seu Anjo da Música com faces de besta e com um coração que pulsa alucinado ao seu dispor?

Regina a abraça e afunda o rosto em sua capa, deixando-se carregar. O mesmo caminho é feito: A barca sob o nevoeiro, o cavalgar cauteloso de Rocinante, os corredores iluminados, o vento gélido, mesmo ao cair da tarde, a porta-espelho em seu camarim. Seus pés sequer tocam o chão, pois a Voz a aconchega sobre o divã e a cobre com o manto fino, buscando-a com seus olhos felinos e sorumbáticos. Não trocam palavras, porém, a voz da bailarina soa involuntariamente ao vê-la se afastar.

— Não se vá. – Suplica agarrada a uma de suas mãos.

Quando a Voz a surpreende com um beijo apertado na mão que a aprisiona, um gemido sôfrego quase é arrancado da garganta de Regina.

— Eu voltarei. – Uma rubra rosa é tirada de suas vestes e colocada suavemente na profusão reluzente de cabelos castanhos.

Seu Anjo da Música desliza a passos vagarosos pelo camarim na direção da passagem para o subterrâneo da Ópera Fée. Regina ergue o rosto no divã e observa consternada a sua partida, temerosa de estar apenas sonhando com ela, amedrontada com a possibilidade de tê-la ferido e de que isso a fizesse desaparecer por mais lamuriosos anos a fio. E como último ato, um ato que a fez sorrir transbordante de uma alegria desconhecida, a Voz se vira com um sorriso quase invisível e o costumeiro veludo dançante em seu timbre.

— Para você, minha Psyché, eu sou Emma.

— Emma... – Sussurra em eco.

Inocentemente, ela sorri.

— Emma Swan.

Notas finais
Vamos lá... Tivemos um vislumbre de Zelena, porque ela é realmente importante para o que virá e, como justo, mais um tempo em que Regina e Emma se conhecem neste mistério que as envolve. O capítulo pretendia explorar mais um passo entre as duas e eu espero que tenham apreciado. Finalmente Regina tem um nome para chamar! :) Obs.: Caso não conheçam a história de Eros e Psyché, aconselho-os a apreciá-la. É fantástica! Nos vemos no próximo! Não se esqueçam que estou aberta às críticas, sugestões, qualquer uma de suas observações. @myrkurstormur :)