Notas iniciais
musicas deste cap: The phantom of the opera - Sarah Brightam e Steve Harley

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III ATO

Uma noite espetacular, um baile de gala, onde os convidados cobririam seus rostos com mascaras. Ironicamente o martírio de minha vida, o peso que sempre carreguei em minha alma obscura. Naquela noite eu teria minha doce e amada Christine, a criatura mais bela, e perfeita daquele teatro. Ela finalmente seria minha, somente minha e de mais ninguém. Não permitiria que o filho do conde, a levasse pra longe de mim, e me condenasse a uma vida de desespero sem a presença de minha amada Christine.

Inicia-se o grande baile, e um balé fantástico dava sequencia a mágica noite dos mascarados. Entre eles, lá estava minha pintura perfeita vestida de branco, usando um anel de brilhantes em um dos seus delicados dedos. Presente dele, Wayne, o usurpador que roubara de mim, o lugar ao lado de minha adorável dama angelical. O mesmo se aproximou de Christine, levando sua mão a cintura dela, e conduzindo-a ao centro do salão, onde dançaram juntos, e trocavam sorrisos que me desafiavam. Permiti que eles terminassem aquela que seria sua última dança junto. Pois a partir daquela noite, Wayne jamais tocaria em Christine outra vez. Quando a terceira música foi tocada, novamente os pares se uniram no salão. Era minha deixa para me apresentar a minha adorável donzela, de olhos cativantes e gentis. Christine estava entretida com a valsa dos pares, e não me viu aproximar-me dela. Levei minhas mãos a sua silhueta magnífica e segurei sua mão, fazendo assim com que ela voltasse seu rosto para mim. Primeiro ela teve dificuldade em me reconhecer por trás daquela máscara branca que cobria todo meu rosto, mas creio que meus olhos me denunciaram, pois ela sorriu imediatamente e virou-se para mim.

– Meu adorável amigo mascarado! –ela sorriu radiante.

– Como vai doce Christine? –beijei sua mão mantendo meus olhos no seu rosto que diferente dos demais, não estava coberto.

– Pensei que tivesse se esquecido de mim!

– Jamais... –olhei logo distante dali, Wayne a procura de Christine. – Dança comigo? –disse antes que ele se aproximasse.

– Claro! –ela estava divina.

Conduzi-a por entre os casais que dançavam como se seus pés flutuassem pelo salão, e envolvi-a passando meu braço por sua cintura, e puxando-a para perto de mim. Senti um arrepio percorrer minha espinha ao sentir Christine tão próxima ao meu corpo. Eu podia sentir as curvas do corpo dela, se unindo ao meu, e a desejei mais do que nunca. Nós rodamos pelo salão, enquanto ninguém além dela, sabia que eu estava ali. Todos podiam me ver, mas ninguém me conhecia. Eu continuava sendo exatamente aquilo que fui todos esses anos, invisível. Enquanto ela sorria pra mim, e me agraciava com o som de suas palavras, seu noivo a observava de onde estava segurando uma taça de vinho branco, e começava a ficar apreensivo. Apertei mais a cintura de minha Christine, mostrando que ela pertencia a mim de fato, enquanto o encarava por baixo de minha mascara. “Diga adeus meu caro, pois esta é a ultima vez que depositará seus malditos olhos sobre minha Christine”. Nós nos afastamos entre os pares, enquanto ela falava animada de seu noivado com aquele bulha.

– Nos casaremos em breve, Wayne não deseja esperar mais para me tornar sua esposa... –dizia ela.

– Imagino que ele esteja ansioso para por as mãos em você. –não pude segurar o tom rude.

– Não seja maldoso Dorian! –ela sorriu. – Wayne me ama.

“Não mais do que eu” pensei. E nunca amaria... Christine não podia ver isso naquele momento, pois estava cega pelo falso encanto que o filho do conde exercia sobre ela. Tudo que ela podia ver, era a bela face intocável, e imaculada de seu noivo. Os olhos azuis, e seus cabelos castanhos claros, e o falso ar intelectual que ensinam nas melhores escolas. Mas isso era tudo que ele poderia oferecer a Christine, sua bela aparência e mais nada. Diferente de mim, que tudo poderia ensiná-la. Conduzi Christine ao longo do salão, sem que ela percebesse que nos afastávamos mais e mais de todos, até estarmos quase sozinhos nos corredores.

– Pra onde está me levando Dorian? –ela perguntou ao notar nossa atual localização.

– Quer descobrir qual meu grande segredo Christine? –digo em voz pausada e tranquila.

– Preciso voltar para o salão Dorian! Wayne me espera... –ela se afastou de mim, mas segurei sua mão.

–Deixe que espere... –ordenei.

– Não posso Dorian... –ela se virou, mas segurei firme sua mão.

– Venha comigo Christine...

– Não Dorian... –ela disse em tom firme. – Me deixe...

Christine virou-se outra vez, decidida a me dar as costas, então não tive outra escolha. Retirei um lenço umedecido em um liquido de fazer dormir, e puxei-a de volta pressionando o pano sobre suas narinas. Christine arregalou seus lindos olhos para mim, e tentou segurar meu pulso, mas aos poucos foi perdendo as forças e então se amoleceu em meus braços. Devolvi o pequeno pedaço de tecido aos bolsos, e tomei minha dama adormecida nos braços, carregando-a pelo longo corredor até uma passagem secreta por onde segui levando-a para nosso último destino. Passamos pelos corredores mais escuros, úmidos e frios até chegarmos finalmente ao meu digníssimo mausoléu. As grades já estavam abertas, e então desci as escadas carregando minha linda donzela até a sala principal. Em seguida a deixei sobre um grande sofá vermelho, e voltei às grades trancafiado-as com um grosso cadeado. Regressei a sala, e apanhei Christine no colo, e levei-a até o quarto depositando seu corpo ligeiramente adormecido sobre o leito, coberto por lençóis finos, de cores escuras. Ela estava linda, mesmo de olhos fechados, então a deixei e cobri a cama como as cortinas que a envolviam logo voltando ao centro da masmorra, e me livrando daquela mascara branca voltando a usar minha familiar amiga de cor escura. Despi-me das vestes de gala, e vesti algo mais confortável, porém elegante do mesmo modo. Respirei fundo diante do espelho que me julgava, e então disse:

– Está feito! Christine está comigo agora, e aqui ficará... Este será seu novo lar.

Um novo rosto parecia me encarar naquele reflexo, mas eu já estava acostumado com ele, e com suas criticas e ofensas. Meu pai sempre fora terrível, e fazia questão de me dizer que eu era um péssimo filho. Ele sempre repetia as mesmas palavras: “você nunca será um cavalheiro Dorian”. E ele estava certo, eu era um monstro, um terrível e grosseiro monstro, que ele fez questão de ajudar a me transformar. Aquele “acidente” apenas serviu para dar-me o rosto que eu realmente merecia. O de uma besta desfigurada, e maligna, que estaria eternamente fadada a se esconder dos outros, para não aterrorizar suas almas com sua aparência medonha. Porém, um monstro também pode amar, e eu descobri isso quando olhei nos olhos de Christine, e ouvi seu canto embriagante vindo daquele palco. Eu pouparia minha dama de ver minha verdadeira face, até que ela se sentisse a vontade para aceitar tal deformação. Quando ela me amasse, passaria a ver além daquela blasfêmia visão.


...


(P/A) A noite escura e silenciosa passou, dando espaço para o dia tão escuro quanto a anterior. Naquelas masmorras enterradas abaixo dos pés do restante da sociedade, nada existia além de escuridão e silencio mortal que apenas era rompido pelo som do piano tocado por Dorian Gray. Christine foi desperta por aquela melodia agradável, e se viu deitada sobre aquela cama confortável e imensamente grande. Uma cortina de cor escura, avermelhada cobria todo o redor do leito. Christine sentou-se a beira da cama, e afastou as cortinas assim levantando-se e seguindo aquele som envolvente que a levou até um lance de escadas de onde ela pode ver aquele homem bem vestido sentado diante do instrumento musical acariciando as teclas e tirando delas a canção. A dama voltou seus olhos na direção das escadas seguintes do outro lado da sala, e percebeu que aquela deveria ser a saída. Silenciosamente ela desceu os degraus e correu até tal lugar, e percebeu as grades negras trancadas com o grosso e pesado cadeado. Dorian viu sua Christine tentando fugir, e se dirigiu ao centro da masmorra dizendo:

– Que bom vê-la desperta! –ele sorriu.

– Dorian... –ela o encarou e desceu as escadas. – Onde estamos? Por que me trouxe pra cá? Por que as grades estão trancadas? –ela apontou para tais.

– Venha Christine! –ele estendeu sua mão. – Está segura! Venha, já é dia, precisa comer!

– Que lugar é este Dorian? –disse parada onde estava com o rosto pálido.

– Esta é minha casa! –ele estendeu os braços enquanto olhava ao redor. – Seja bem vinda, querida!

– Me deixe sair Dorian...

– Preparei um belo desjejum para você. –ele disse andando rumo a uma mesa. – Espero que goste.

– Fale comigo Dorian... –ela o seguiu. – Por que me trouxe pra cá?

– Para me fazer companhia! –ele tocou o rosto dela com as costas de sua mão. – Para que mais seria? –ele sorriu.

– Você me sedou? No baile... –ela olhou para o chão.

– Venha, sente-se aqui... –ele arrastou uma cadeira.

– Eu quero sair Dorian...

– Tome café comigo Christine. Há tempos espero por este dia! –ele andou até ela, mas ela deu um passo atrás.

– Não... Eu quero ir embora. Não deveria ter me trazido pra cá.

– Vamos Christine... –ele estava ficando mais rude conforme ela se negava a fazer o que ele queria.

– Não... –ela deu outro passo atrás.

– Eu preparei um excelente banquete a você. Não seja mal agradecida...

– Coma se quiser, mas eu não colocarei uma uva sequer em minha boca enquanto não me disser por que me trouxe pra este lugar... –ela olhou ao redor.

– Não coma então... Deixe que a comida apodreça sobre a mesa... –disse ele empurrando a cadeira com força.

Christine olhou pasma para aquele homem que costumava ser sempre tão gentil com ela, e não entendeu por que razões ele estava fazendo tal coisa, e agindo de maneira tão agressiva e autoritária.

– Por que está fazendo isso comigo Dorian? –disse chorosa.

– Por que você é minha Christine... –disse se virando para ela antes de subir as escadas para o quarto.

– Do que está falando Dorian?

– Coma... –ele ordenou. – Ou toda essa comida irá para o lixo. –ele se virou e subiu as escadas deixando-a.

Christine olhou para a mesa coberta por frutas, e outras delícias, assim como por alguns castiçais com velas vermelhas acesas e uma rosa de cor amarela sobre a mesma, presa com uma fita preta. Ela voltou a olhar em direção ao quarto, e então andou até a outra escada verificando mais uma vez se conseguiria abrir as grades, mas sem sucesso. Então ela sentou-se nos degraus e cobriu seu rosto com as mãos e chorou, sem saber o que fazer, e o motivo de estar ali, presa naquele lugar assustador com alguém que até então ela sentia-se bem. No quarto, Dorian Gray encarava o espelho que lhe dizia coisas aterradoras, lhe causando ainda mais fúria pelas suas decisões. Mas ele já tinha ido longe demais para voltar atrás. Christine não o perdoaria por sua ação, e jamais voltaria a vê-lo caso ele permitisse que ela saísse daquele lugar. Então ele decidiu que Christine permaneceria ali embaixo com ele conforme eram seus planos iniciais.

– Só poderá ver a luz do sol novamente quando aprender a me amar Christine... –disse ele encarando o reflexo.