The Paths
5 Jornada
Notas iniciais
Mesmo que tenha se acostumado em passar toda a sua vida ligado ao ar, o corpo de Aang rejeitava a ventania cortante que atingia sua pele naquele momento. Jamais exigira muito de Appa, sempre procurando poupar o máximo que podia o amigo, uma vez que este tinha como função carreá-lo para todos os lados, deveria respeitá-lo ao máximo. No entanto, era de seu conhecimento que aquela viagem forçaria demais o bisão, infelizmente aquela não se tratava de uma situação normal. Dias atrás, ao saber do sumiço de Katara, Aang desesperou-se. Sentiu um grande pesar ao ler as palavras de Sokka. Se para ele já era ruim não poderia imaginar como deve ser perder a própria irmã.
O tempo ao sobrevoar o oceano parecia transcorrer mais rapidamente que em terra, entretanto, a imensidão azul quase o cegava todos os dias ao refletir o sol sobre o espelho que as águas se tornavam. Seu único alívio naquele momento era a brisa do norte que já os alcançara confortando-lhes. Apesar da dor cruciante causada pelo frio que ia aumentando quanto mais próximo ficava do pólo, Aang sentia-se confortado. Todo aquele conjunto situacional indicava que seu destino estava mais perto do que imaginava e fora com este pensamento que o coração do garoto quase pulara pela boca em uma das fortes batidas descompassadas, sua ansiedade claramente estava a ponto de transbordar.
Levantando-se com cuidado da cabeça do bisão, Aang acariciou-lhe na região da nuca e num pequeno pulo calculado, foi em direção à sela do animal. O semblante do jovem era de pura concentração e seriedade, procurando não se distanciar do seu foco. Vasculhou entre alguns mantos procurando algo em específico até seus dedos tatearem um vasto poncho de pêlos de bisão. Apesar de não serem muito grossos, os ponchos de pêlos eram o bastante para proteger até os mais sensíveis do frio, o de Aang em especial possuía um comprimento que atingia a dobra dos joelhos e combinava com a cor creme de Appa.
Num movimento rápido o jovem jogou sua veste nas costas e foi até a cabeça do animal novamente tomando-lhe as rédeas. À hora de pousar havia chegado, notava-se pelas nuvens que se condensavam à sua frente, sendo assim, Aang chacoalhou duas vezes seguidas as rédeas em suas mãos para que o amigo pudesse ir diminuindo sua altitude.
No decorrer da descida era possível visualizar a enorme estrutura de gelo pertencente à tribo da água. Certamente tudo ali havia mudado. As torres de vigia foram substituídas por faróis enquanto as grossas muralhas de gelo haviam sido substituídas por longos piers de madeira escovada, onde as embarcações atracavam. Todas aquelas mudanças apagavam os vestígios do passado. Mal notava-se que algum tempo atrás aquela cidadela fora uma fortaleza em tempos de guerra.
Antes mesmo que as patas peludas de Appa pudessem tocar o solo coberto por neve, Aang já havia pulado de cima de sua nuca. Era aparente que sua chegada estava sendo esperada por um considerável grupo mais influente de pessoas, enquanto para os demais, o aparecimento do Avatar era uma total surpresa.
Arnook fora o primeiro a se adiantar com passadas compridas para poder alcançar o Avatar, sendo flanqueado por um agitado Sokka que estalava as juntas dos dedos como forma de conter a ansiedade. Sokka temia pela reação de Aang em relação a sua displicência, não podia deixar de se culpar por tudo o que acontecera e sabia o quanto Aang prezava Katara.
Enquanto o líder prestava uma tensa reverência ao dobrador de ar, Sokka havia explodido em seu nervosismo. Pulara para cima de Aang , agarrando-lhe os ombros e chacoalhando o garoto, deveras mais baixo que ele.
– Eu lamento muito Aang! – Sokka gritava com desespero em sua voz. – Eu não devia tê-la deixado sozinha. Eu não sei o que fazer! Isso é tão sério que eu nem sequer consigo levar com seriedade e nem sequer seriamente sei o que estou tentando dizer.
Apesar de que Aang decidira não manter o voto de silêncio, preferiu esperar que o amigo terminasse de jogar suas palavras sem nexo aos ventos. Se a situação não fosse tão preocupante, seria cômica. Certamente Sokka havia mudado fisicamente, seus cabelos estavam mais compridos, estava consideravelmente mais alto e de ombros mais largos, além de que seus tão estimados músculos haviam quase dobrado de tamanho. Porém, apesar dessas mudanças que a idade trás, Sokka não mudara em nada sua personalidade.
Arnook pigarreou interrompendo o momento.
– Avatar Aang. Lamentamos muito por ter interrompido seu treinamento, porém, acreditamos que temos interesses iguais. Como chegou ao seu conhecimento, sua amiga e membro de nossa tribo, Katara, desapareceu. Pensamos que podíamos contar com a sua ajuda para encontrá-la. Sei que pode ser um pedido um tanto quanto egoísta, mas não o teríamos feito se não fosse necessário.
O jovem sentiu uma pontada de angústia surgir em seu estômago ao ouvir Arnook. Amiga... Katara certamente sempre fora além de sua amiga. Era sua garota. Por muito tempo já tinha a certeza de seus sentimentos, porém, a incerteza de seu futuro ao lado da jovem por quem nutria tal amor o incomodava e inundava sua mente mais do que deveria.
– Antes de entrarmos em contato com você, enviamos uma mensagem a Zuko, como Sokka havia comentado na carta que lhe enviou. Pedimos que trouxesse com ele o seu melhor Shirshu e viesse o quanto antes. Temos a certeza de que iremos encontrá-la. – Arnook mostrava muita confiança em sua voz.
Um sentimento estranho surgiu em meio ao discurso do líder. Aang não pôde ignorar que fora avisado em segundo plano. Apesar de não passar de um ciúme infantil, pensava que poderia fazer tudo aquilo sozinho sem a ajuda do rei. Zuko havia em pouco tempo conquistado um grande espaço para a amizade de Aang, entretanto, quando tratava-se de Katara e Zuko no mesmo contexto o Avatar não podia conter uma raiva que ia contra seus ensinamentos nômades.
– Talvez tivesse sido mais fácil me avisar antes de Zuko. Eu tenho um bisão que voa, sabem?
Aang apontou com as duas mãos para Appa que apenas mugiu em retorno. Aquelas foram as primeiras palavras de ambos desde que pousaram, deixando Arnook um pouco confuso.
– Sabemos que você pode chegar aqui rapidamente. Por este motivo queríamos que, tanto você, quanto o rei do fogo pudessem chegar juntos. Não podemos perder tempo dando explicações separadamente nem tomar decisões precipitadas sem todas as ajudas que pudermos acumular. – Disse o líder arqueando uma das sobrancelhas enquanto falava.
– Acho que você tem razão. – Aang abaixou a cabeça envergonhado por suas indagações.
Sokka, que antes havia chacoalhado Aang até que o garoto não fora mais o bastante para descontar seu desespero e havia saído de perto para gritar aos ventos, voltara e pousara a mão novamente no ombro de Aang, desta vez mais contido e calmo.
– Não se preocupe Aang. Vamos resolver tudo isso juntos. – Acalmou-lhe com um sorriso forçado – Zuko está dentro do salão de reuniões. Pediu que lhe mandasse desculpas por não vir te cumprimentar aqui fora, mas ao que parece ele devia discutir algumas questões da nação do fogo com o chefe das tropas marinhas e queria terminar o quanto antes para não atrasar nosso foco.
O jovem permaneceu em silêncio tentando engolir a situação enquanto um dos homens, que até então não havia dito nada, deu um passo à frente cumprimentando mais uma vez o Avatar antes de referir-se a ele.
– Por favor, dê-me a honra em acompanhá-lo até o salão.
Passaram alguns segundos antes que Aang notasse que o homem de meia idade estava falando com ele, mais outro segundo se passou para debitar o que havia dito. Após este curto espaço de tempo para retornar ao mundo real e se desvencilhar de seus pensamentos, o dobrador de ar apenas agradeceu curvando-se gentilmente para a pessoa a sua frente.
Durante todo o caminho, era possível ver diversos grupos de pessoas nas ruas se acotovelando e apontando em direção de Aang. Diferente do que se imaginara, mesmo com o tempo que havia passado depois de sua volta ao mundo, a população parecia temer mais o Avatar do que quando seu paradeiro era desconhecido.
O salão de reuniões travava-se de uma construção muito parecida com as demais. Uma torre em formato de cone, meio espiralada e construída por um sólido gelo extremamente azulado, provavelmente proveniente de uma boa dobra de água. Para alcançar a grande porta dupla principal deviam subir um pequeno lance de degraus, um capricho do arquiteto para deixar o local mais alto e imponente. Aos que entravam, podia ser visto um auditório de tamanho mediano, numa tribo daquele porte não era necessário grandes reuniões e nem sequer haveriam tantas pessoas para lotar um local muito grande.
Rapidamente os olhos do senhor do fogo puderam se encontrar com os do Avatar. Para um bom avaliador era possível notar a semelhança de sentimentos que ambos compartilhavam naquele olhar. Ignoravam a saudade dos tempos sem poder se ver, dando lugar para um pesar que imperava, a perda de Katara. Entretanto, não fora necessário mais que muitos cumprimentos informais para que dessem início às discussões oficiais.
A tensão que rodeava o lugar certamente acumulava energias pesadas no ambiente. Enquanto Sokka dava seu depoimento, os líderes apenas juntavam algumas anotações e informações para juntá-las posteriormente. Logo após o fim das palavras do garoto bumerangue, fora vez de alguns pescadores contarem seu lado da história, explicando como seus barcos haviam sido furtados por um pequeno grupo de pessoas, dentre eles dobradores de terra e água.
– Com licença. — Interrompeu Aang — Não estou entendendo uma enorme lacuna nessa história. Como foi que Katara foi tirada de um lago congelante por dobradores de água sem que ninguém tenha percebido? Eu entendo que foi muito longe mas não acredito que não tenha qualquer indício de luta ou que os demais pescadores não viram ela tentando fugir.
Aang tinha muito orgulho das habilidades de sua mestra. Era compreensível que ele perguntasse como um grupo clandestino de pessoas misteriosas pudessem sequestrá-la sem que ela ao menos congelasse um ou dois. Porém, certamente o dobrador de fogo possuía a resposta para suas dúvidas. Ao final do questionamento de Aang, Zuko levantou-se de seu lado da mesa e andou em direção ao garoto esticando uma das mãos fechadas com a palma para baixo.
– Pegue isto — Pediu soltando um punhado de algo que Aang não reconhecera. — Acho que os tempos com o titio serviram para alguma coisa... Isto que eu acabei de lhe dar são sementes de flores que brotam especificamente no clima da nação da terra. Quando queimada, causa uma dormência no corpo junto com alucinações da mente. Antigamente era utilizada para fins medicinais, mas ao que parece não foi esse o caso.
Aang analisou o conteúdo em sua mão. Tratava-se de sementes pretas trituradas e esmagadas¹, nada que ele já tivesse visto.
– Com isso ela nem sequer soube o que aconteceu e onde aconteceu. — Prosseguiu — Sinceramente, se for para votar em algo, eu diria para sairmos hoje mesmo daqui em busca de Katara.
Aang sentiu algo como uma corrente elétrica passando por seus músculos, mal podia se conter sentado naquela cadeira, precisava sair naquele momento. Cada segundo que se passava era crucial.
– Lamento ir contra seu pensamento rei Zuko — Interrompeu Arnook — Porém, não sabemos onde ela está, não posso arriscar meus homens em uma missão suicida sem levantar mais informações.
A parte mais interessada e envolvida no assunto se incomodou profundamente ao tomar conhecimento da decisão de Arnook. Entretanto, fora a vez de Sokka levantar-se. A face do não-dobrador estava séria, com o cenho franzido e os olhos fechados, claramente tentando se conter antes de soltar as palavras que teimavam em fugir de sua boca.
– Com licença, senhor. Mas não é só de minha irmã que estamos falando. Caso o senhor não se lembre ela também faz parte da tribo da água! Katara veio para cá também para auxiliar suas famílias e você a retribui com medo? Todos nós sabemos o quanto perdas são difíceis para você, mas eu acredito que perder minha irmã por uma péssima decisão sua não está em questão. Eu estou com Zuko! Vamos partir recebendo, ou não, sua ajuda.
Quase imitando a ação de Sokka ao se levantar, Aang também mostrou sua exaltação batendo as palmas das mãos na mesa, fazendo com que esta rangesse protestando contra a grande força do Avatar. Era certo dizer que o garoto também discordava de toda aquela asneira que havia sendo discutida e mostrou que sua opinião era levantar-se naquele momento e partir. Obviamente, Zuko compartilhava da mesma decisão dos demais amigos, colocando-se de pé também.
– Viu? O time avatar está unido novamente. Com exceção de Toph — Complemento Sokka — E não importa se não tivermos um barco para nos ajudar! Iremos com ou sem aquela coisa farejadora.
O jovem fazia referência ao Shirshu. Certamente que Appa jamais deixaria que o animal montasse em sua sela, além de que por seu tamanho era pouco provável que ele coubesse lá.
– Vocês certamente são loucos — Pakku disse antes de esperar uma reação do líder — Mas acredito que "O do rabo-de-cavalo" pode ter razão. Se esta é a decisão de vocês, levem um barco e alguns de meus alunos para auxiliá-los a chegarem mais rápido. Eles certamente irão locomover melhor aquelas canoas velhas pelo mar.
O grupo conseguiu esboçar um meio sorriso aliviado. Estavam certos de que partiriam naquele dia, entretanto, era extremamente necessário terem suprimentos e auxílio, tudo o que fosse possível para que chegassem até Katara o mais rápido possível. Então, tendo resolvido um de seus problemas, Sokka pôde se pronunciar, novamente, mais descontraído.
– Como fazemos parte de um importante grupo de salvamento junto com o Avatar, acho que não há nada mais justo que levarmos uma boa porção de carne — Comentou o jovem já salivando.
Zuko, por sua vez, moveu-se antes de qualquer resposta até o lado de soca desferindo-lhe uma cotovelada forte nas costelas, fazendo com que o garoto fosse arremessado de lado levando as mãos onde havia lhe acertado.
– Vejo que amadureceu, Sokka. — Parabenizou-lhe Zuko — Gostei da consideração com Lyla. Acredito que ela ficará decepcionada em não poder comer a tripulação, mas ter um pouco de carne para a viagem com certeza poderá saciá-la.
Lyla tratava-se da Shirshu que Zuko levara ao norte. Era um animal jovem e parecia tão promissor quanto sua mãe Nyla*, entretanto, como os Shirshus ganhavam mais respeito com os humanos com o passar dos anos, o enorme animal não poderia se considerar completamente adestrado, sendo assim, ao chegar de manhã na tribo do norte, Lyla havia ficado desconfiada de Sokka o bastante para persegui-lo durante meia hora até que um dos auxiliares de Zuko pudesse chamar-lhe a atenção com um imenso banquete de peixes frescos.
– O que?! — Exclamou Sokka — Essa coisa vai querer me comer? Então podem trazer duas... Ou melhor, três grandes porções de carne. Vou ter que torcer para que seja o bastante, não sei se prefiro morrer sendo devorado ou morrer de fome.
As preocupações supérfluas trouxeram olhos desagradáveis em direção a Sokka, porém, para Aang aquilo era mais uma boa distração. Novamente sentia-se extremamente nostálgico ao lado do amigo e como ele queria que aquela sensação fosse por um tempo mais longo que o que podia dar ao luxo de ter. Tantas vezes sonhara nas noites em sua cama desconfortável, afinal monges não necessitavam de conforto, com o momento que fosse rever seus amigos. Sentia falta das piadas de Sokka, do sarcasmo de Toph, da fidelidade de Zuko e... Aang teve que parar nesse pondo de seus pensamentos. Não podia descrever Katara em uma só palavra, sua imagem e personalidade eram o que ele poderia citar por algo perfeito em seu conceito. Apesar de lutar contra sua cabeça para não lembrar-se do rosto da garota, aqueles olhos azuis emoldurados por uma maravilhosa pele oliva surgiu bem diante dele. Era tudo muito doloroso.
Deixando as piadas e risadas para um momento mais oportuno, todo o grupo que havia estado na reunião passou a se arrumar para a partida. Os mantimentos já estavam a bordo, os jovens já estavam preparados e todos estavam de acordo. Infelizmente o único que não concordava com a partida deles era Appa, que resolveu pousar uma noite para seu descanso no lugar e então, como a carona do bisão era imprescindível, tiveram que deixar a viagem para a manhã seguinte.
Naquela noite não houve um grande banquete de comemoração, não ouve conversas ou distrações. A ansiedade reinava no corpo de todos os envolvidos, deixando-os com muito cansaço ao partir por terem passado uma noite mal dormida.
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O lugar seco e escuro muito se diferenciava de suas origens, entretanto, não havia sido ele a escolher aquele local para instalar sua sede de revolução, o local o escolhera. Muito tempo atrás, quando seus pais ainda eram vivos, lembrava-se que o maior ponto de encontro de ambas embarcações guerrilheiras do grupo que saíra do norte havia sido aquela ilha em específico. O mapa para chegar naquele lugar havia sido destruído junto com as embarcações de seus pais, entretanto, na mente de Tulimaq as lembranças não poderiam ser apagadas. Aprendera a identificar pontos de localização pelas estrelas, fora a primeira coisa que se lembra de ter aprendido, antes mesmo de sua primeira palavra sair de sua boca.
– Senhor, a garota ainda está se debatendo no metal — Um homem comum interrompera os pensamentos de Tulimaq — Estamos preocupados, ela não ingere comida e nem sequer água. Diz que prefere morrer a colaborar conosco.
Tulimaq permanecera em silêncio por um curto período de tempo. Já fazia alguns dias desde que a jovem estava ali e sempre que era possível ele ia lá rondá-la para tentar convencê-la a ensinar-lhe a grande dobra de humanos. Sabia que esse maravilhoso poder existia, o que não sabia é que a sua única mestra viva no mundo era igualmente maravilhosa. Havia ouvido diversas lendas sobre aqueles que andavam com o Avatar, um conversor² de raios, uma dobradora de metal e a famosa dobradora de pessoas. Certamente que poder juntar a dobra de metal ao seu grupo seria extremamente vantajoso, mas o que ouvira falar era que ninguém além da jovem Toph conseguia dobrar o metal, mesmo que ela tivesse aberto uma escola para esta dominação, e depender apenas de uma criança com um temperamento forte para algumas jornadas era um risco muito grande.
A decisão de capturar apenas a jovem dobradora de água não fora unicamente dele, entretanto, ao pousar os olhos sobre aquela criatura confusa dentro de sua jaula lhe cedeu um sentimento que era complexo para descrever em poucas palavras. A posição acuada da jovem, recém acordada após ter sido drogada mostrava que alguém tão poderosa também possuía necessidade de proteção e era exatamente aquele o seu objetivo para reunir todas aquelas pessoas revoltadas para o seu grupo, queria proteger o mundo dos bárbaros opressores do fogo.
– Nós precisamos dela, aliás... Eu preciso dela — Corrigiu-se — Não queremos que uma aliada morra, não é? Coloquem-na em sono profundo por um tempo e enfiem goela abaixo comida e água se precisar.
O homem a sua frente parecia hesitante diante das palavras de Tulimaq.
– Mas senhor, ela já está sendo mantida praticamente desacordada. Não podemos tentar entrar assim mesmo?
Claramente percebia-se que o líder estava deveras incomodado com a pergunta de seu colega. Enquanto tentava se acalmar, Tulimaq massageava as têmporas e girava o pescoço, estalando-o.
– Ouça bem... — Buscava palavras certas para continuar — Aquela jovem, quando estava recém acordada e sem conhecer onde estava foi capaz de me atacar. Você tem certeza de que deseja que ela use a dobra de humanos em vocês?
O colega chacoalhou a cabeça indicando que não queria saber do que a jovem era capaz. Pouco tempo se passou até que ele voltasse a falar, claramente confuso.
– Mas Tulimaq. Ainda não entendo direito como é feita essa dobra. Nem sabemos o que ela usa para a dobra, quanto mais como funciona. Quanto tempo demoraríamos para descobrir estas informações sem ela colaborar? Além disso, quanto tempo iria demorar para dominarmos ela? — Indagou.
– Ao que conheço, a jovem Katara precisou de apenas poucos dias para domina-la. Sei que muitos de nossos homens não estão nem perto de serem considerados mestres, mas acredito que seja possível aprendermos caso ela colabore. — Respondeu Tulimaq.
Ao terminar de falar, o homem passou a imergir em seus pensamentos novamente. Ainda se perguntava qual seria a forma correta de agir, deveria simplesmente obrigá-la a obedecê-lo em troca de sua sobrevivência ou deveria continuar suas diárias tentativas de instigá-la a juntar-se ao grupo? Infelizmente não importava o que ele fizesse, não poderia continuar naquela situação, os grupos refugiados da nação do fogo poderiam descobrir que estavam sendo caçados e provavelmente mudariam sua localização. Fora extremamente complicado ir atrás do paradeiro dos monstros da guerra, não deveria deixar que escapem impunes novamente.
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O barco vasto valsava entre a correnteza em alto mar. As pessoas embarcadas podiam ver claramente a sua frente o grande bisão do Avatar, que mostrara-se exausto durante toda a jornada. Appa carregava apenas duas pessoas, o próprio Aang e Zuko, ambos não conseguiam ficar flanqueando o navio que ficara cerca de um quilômetro para trás. Uma vez traçado o caminho que deveriam fazer, Appa subiu o mais rápido que pôde e permaneceu na dianteira. Até o animal podia notar a situação, mostrando-se extremamente ansioso com a busca pela amiga que também o acompanhou com alguns anos.
Enquanto isso, os dominadores da tribo, que haviam sido selecionados especialmente por Pakku, posicionavam-se na popa do barco, lutando contra as águas para impulsionar e aumentar a velocidade com que viajavam. Certamente era um trabalho difícil, lutar contra o mar e contra a morte, uma vez que possuíam um Shirshu mal treinado a bordo, mesmo que dois serventes do fogo estivessem lá para tentar contê-los.
– Ao que podemos verificar no mapa estaremos indo direto ao sul da nação da terra. — Comentou Sokka presunçoso.
Sokka havia se dividido entre o ódio de voar e o medo do animal que estaria no barco caso ele não montasse em Appa. Ao final, havia sido decidido por todos que ele ficasse no barco para comandar a operação em água.
– Sokka, você está lendo o mapa de ponta cabeça -Disse um dos dominadores que havia parado para esticar os braços.
O jovem ficara certamente vermelho com a perspicácia do homem.
– Para você é senhor Sokka! — Gritou girando o mapa e pigarreando em seguida, corrigindo-se — Estamos indo ao norte da nação da terra.
– Não nessa vida — Respondeu o homem. Jamais chamaria aquele toupeira de "senhor".
O clima em água estar sempre amenizado pelo humor de Sokka e a falta de paciência pelos dobradores, que já conheciam-no muito bem, principalmente por nos últimos meses o jovem ter palpitado em todos os tipos de assuntos no norte. Entretanto, no céu o silêncio e a pouca troca de palavras era o que reinava entre os dois que estavam montados no enorme animal. Enquanto Zuko amassava o punhado de sementes encontradas à borda do lago onde Katara fora sequestrada, Aang fingia-se distraído com a imensidão a sua frente, enquanto passava as unhas nas rédeas de Appa, estourando alguns fios da corda.
– Er... Como estão você e Mai? — Arriscou Aang tentando evitar entrar em colapso nervoso com o silêncio.
Zuko notou seu esforço repetido com as sementes e as guardou novamente em uma bolsinha de veludo vermelha amarrada a sua cintura. Seu suspiro antes de responder à pergunta do amigo fora extremamente audível.
– Não tão bem³. Todos esperam que nós casemos . Acredito que a relação fora longe demais.
Aang não precisou perguntar-lhe mais nada para que Zuko perseguisse, apenas a clara confusão no rosto do garoto fora o suficiente.
– Entenda... Sou o amor da vida de Mai desde pequeno e ela arriscou sua vida para nos salvar. Colocou-se entre eu e minha irmã. Você entende o que isso significa? — A pergunta era retórica — Eu nunca havia conhecido alguém que realmente me amasse, alguém que realmente olhasse pra mim de forma gentil.
Apesar de seu discurso ser sobre Mai, Zuko não fora capaz de esconder a lembrança de Katara de sua mente. Lembrava-se como a garota realmente fora a primeira a olhá-lo com compaixão, recordava-se daquelas mãos frias pousando sobre a ardente cicatriz e fazendo-o sem repulsa. Tentou forçar-se a voltar para a realidade, uma realidade onde ela jamais seria dele, uma realidade onde seu povo fora responsável pela morte de sua mãe e entes queridos. Uma coisa era certa, Katara jamais o olharia com ternura novamente, entretanto, aquela certeza não havia sido o bastante para impedi-lo de envolver-se em seu desaparecimento, ou de levar naquele momento a mão direita até a região de seu peito. Seu coração batia tão rápido que parecia querer estourar sua pele e largá-lo ali mesmo.
– Sei o que você quer dizer... — Completou Aang .
O Avatar desconhecia o que se passava na cabeça do amigo, apesar de que toda a conversa o fizera voltar-se aos próprios sentimentos. Conhecia sim a única pessoa que olhara para ele com aquela ternura. Apesar dos monges serem todos extremamente calorosos e amigos, jamais iria esquecer daquele dia fatídico. Lembrava-se como se o evento acabasse de ocorrer, quando Katara despertara-o de seu sono no iceberg. O sorrigo da jovem naquele momento fora como uma rajada de fogo em meio ao deserto gélido, aqueceu seu coração e inundou-o sem jamais deixá-lo. Ele não era capaz de esquecê-la, não era capaz de viver longe daquele corpo que o prendia ao mundo material.
As recordações do passado e a onda de sentimentos que tomara Aang fizeram com que o garoto estivesse a beira de seu estado Avatar. Sentia aquela energia pulsando em suas veias querendo explodir, tomando conta de seu corpo. A raiva por aqueles que tiraram Katara de seu conforto tomava sua lucidez e Aang grunhiu baixo para que ninguém notasse a luta contra ele mesmo. Não podia entrar no estado Avatar completamente descontrolado. Sendo assim, Aang usou suas unhas, cravando-as na seta em sua testa, tentando dar mais atenção para a dor física do que para a dor psicológica causada por sua perda.
Ele ia encontrá-la e a todos aqueles que lhe fizeram mal.
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