Notas iniciais
Eu realmente tenho que me desculpar pela demora! Prometi uma data diferente sempre que alguém vinha me perguntar quando sairia o próximo capítulo. Porém, para compensar eu trouxe a vocês um capítulo enorme... Foi bem difícil de escrever então espero que vocês gostem.

Como não via a luz do dia há algum tempo, Katara não conseguia dizer quanto tempo se passara desde que havia sido jogada naquele caixote. As únicas vezes que via ou ouvia algo além de sua própria voz era quando alguns homens passavam por lá, fazendo com que ela ficasse desacordada e jogando alguns restos de comida no chão. Se não fosse desesperador, certamente Katara acharia engraçado a forma como a tratavam, antes de saberem de sua resposta o tal Tulimaq referia-se a ela como senhorita e lhe dava o máximo de cortesia que o momento permitia, entretanto, após ter terminantemente resolvido não colaborar com o esquema utópico do homem, ela fora tratada muito pior do que somente uma prisioneira.

Poderia ter sido sua revolta nas vezes em que recebera a visita de Tulimaq ou de alguns homens, atacando-nos como podia com a água que conseguia retirar no lugar a responsável por tamanho descaso com ela... Era possível uma vez que eles claramente haviam perdido a paciência. Afinal, ela mesma perdera. Não suportava mais as intimidades que o homem pensava ter com ela, além de não suportar mais a indiferença os capangas.

A jovem tateou o piso em busca de sua presilha de cabelo que havia desprendido em um dos lados de seus cachos. Sentia sua pele formigar e o torpor tomar conta de seu corpo. Havia sido desacordada mais uma vez um tempo atrás, nem sequer conseguia se lembrar de como era ficar lúcida o bastante para raciocinar em como fugir dali, obviamente era aquele o objetivo de seus sequestradores. Aquele cheiro do entorpecente já impregnava permanentemente no ambiente, fazendo com que o estômago da garota revirasse a todo momento, sentindo o vômito subindo-lhe a garganta.

– Mas que merda! — Esbravejou.

Não encontrara sua pequena presilha, sendo assim, soltou o outro lado de seu cabelo. Podia parecer completamente fútil naquele momento preocupar-se com sua aparência, entretanto, à aquela altura já nem sequer conseguia pensar bem o bastante para diferenciar o fútil do útil, afinal, os únicos pensamentos que Katara possuía eram de que ela morreria ali, mas levaria consigo a dobra de sangue amaldiçoada.

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O caminho a seguir não parecia levá-los a lugar algum. Sendo guiados somente pelo incrível nariz do Shirshu o grupo, composto em maioria por integrantes jovens, seguia quase em linha reta em direção a um destino misterioso.

Mesmo viajando há algum tempo, fazia quase uma eternidade que não avistavam um grão de areia sequer em meio àquele mar infinito. Nem sequer os dobradores de água que estiveram tão empenhados em sua função de proporcionar mais rapidez à viagem dos garotos possuiam ânimo para continuar. Todos mostravam sinais de cansaço, entretanto, alguns além de só sinais, pareciam necessitar demonstrar em todos os aspectos o quão exaustos se encontravam.

Um dos integrantes da tribo da água se arremessou ao chão de madeira, fazendo um barulho surdo. Mostrava-se claramente derrotado.

– Eu sabia! — Bufou o homem — Viemos em uma missão suicida! Deveríamos ter dado ouvidos ao nosso chefe. Mas não... Vocês me obrigaram a subir nesse trambolho só pela suporta satisfação de servir ao Avatar! Eu queria mesmo é estar me servindo de um bom prato de car-

A voz do dobrador foi abafada por um enorme pé pertencente a Sokka. Não só a atitude do jovem mostrava sua irritação, mas também suas feições fechadas.

– Você está querendo me dizer que ir buscar a minha irmã, minha caçula, Katara, a garota que curou aquele seu filho nanico é algo inútil? — Esbravejou Sokka.

Era possível ouvir algumas palavras de desculpas em meio ao solado grosso das botas de inverno de Sokka, entretanto, este parecia cada vez mais irritado a cada som emitido pelo dobrador, sendo assim, amassava a cabeça do homem ao chão urrando de raiva. Teriam seus gritos sido altos o bastante para chamar a atenção de Aang, ou fosse por mera coincidência, porém, logo após todo o alarde da briga, todos puderam notar a grande sombra de Appa cobrindo suas cabeças.

Antes que o grande animal pudesse pousar sobre o pequeno espaço concedido a ele, Aang saltou de sua cabeça pousando em frente à briga que ainda estava acontecendo. Naquele momento todo o grupo já havia se reunido, tanto da tribo da água, quanto ou poucos ajudantes da tribo do fogo. Entretanto, a única coisa que se passava na mente de Aang era a confusão, tentava entender o motivo de toda aquela gritaria, como se já não bastasse a preocupação com a situação atual deles. Então, antes que qualquer pessoa pudesse se explicar, o careca começou a falar.

– Eu posso entender o motivo de vocês estarem discutindo? Como se já não bastasse o momento estressante que estamos, vocês precisam piorar tudo? — Disse em tom imponente.

Sokka se adiantou, dando uma última pisada na cabeça sob seus pés e foi em direção ao garoto.

– Estes idiotas estão querendo voltar! Querem abandonar Katara! — Exclamou, virando para o homem ao chão e mostrando-lhe a língua.

Aang estava claramente incomodado com aquela situação. Não sabia dizer se sua irritação era apenas pela briga, pelo motivo que originara ela ou por seu próprio medo de que as palavras do homem, ditas anteriormente, fossem verdade. Afinal, eles saíram sem traçar uma rota, pois não havia rota a ser traçada, atrás de pessoas que jamais haviam visto na vida em busca de um lugar desconhecido. Não sabia o que os esperava e todos estes medos se tornavam agonizantes em sua mente, fazendo-o permanecer quase toda a viagem comunicando-se com o mundo dos espíritos, buscando a sabedoria necessária para enfrentar aquele caos. Apesar de que a possível resposta para encontrar a luz, seria se desprender da imagem de Katara, entretanto, assim como nunca fora capaz de se desfazer dela, naquela situação seria a mesma coisa. Jamais abandonaria Katara, ou sequer a ideia de estar ao seu lado.

Eu irei encontrá-la.

Enquanto todos os presentes esperavam uma atitude do Avatar, o único som que pôde ser ouvido naquele momento fora algumas bufadas vindas da proa* do barco. Com exceção de Aang, todas as cabeças concentradas naquele lugar viraram-se em direção a Lyla, que agitava-se o bastante para fazer Appa incomodar-se a ponto de partir do barco chacoalhando-se e jogando Zuko de sua cela. A decolagem desajeitada do gigante animal foi o bastante para balançar o barco e fazer um reboliço nas águas abaixo do convés.

O senhor do fogo esforçou-se para cair da forma mais ereta possível e correu em direção ao Shirshu descontrolado, que naquele momento dava voltas sobre um eixo imaginário, enquanto os treinadores de Lyla já estavam a postos para tentar contê-la.

– Senhor, por favor. Afaste-se dela. — Pediu um dos membros da nação do fogo, em tom temeroso.

Zuko ignorou o pedido e permaneceu ao lado do animal até poder alcançar suas rédeas com a mão direita, enquanto levava a mão esquerda ao bolso de roupa, puxando um punhado de ervas sem cheiro nenhum. Tais ervas possuíam um odor tão discreto que apenas os Shirshus eram capaz de sentir, capaz de acalmar seus olfatos e limpá-los, deixando-nos quase entorpecidos. Passando a mão direita da rédea até o pescoço do animal, acariciando-o, Zuko a levou para dentro dos aposentos.

Toda aquela cena era vista por todo o grupo ali presente que, em um silêncio mútuo, perguntavam-se com sinais de ombros o que estaria acontecendo. Os movimentos se resumiam apenas em seguir o senhor do fogo com os olhos, vendo-o entrar e sair de dentro do barco. Entretanto, Zuko entrara com o animal e saíra com apenas um objeto em suas mãos. Não tratava-se de rédeas ou de ervas naquela vez, mas sim, um enorme binóculo de madeira com entalhes em vermelho.

Era visível no decorrer dos segundos que um leve sorriso se formava no canto dos lábios do jovem encostado na madeira do parapeito do barco. Ele respirava com uma certa dificuldade por conta da ansiedade e esperança, torcia para que suas suposições estivessem corretas, pois se estivesse, eram poucos minutos para alcançarem seu destino. Seus olhos desejavam rever as pupilas azuis límpidas de Katara e o restante de seu corpo ansiava por vingança aos seus sequestradores.

– Lyla estava tentando nos dizer que estamos chegando — Gritou Zuko em tom animado.

Todos os que o observavam mostraram as mais diferentes feições de surpresa e alguns ainda se entreolhavam surpresos. Enquanto isso Aang, cujo coração saltou mais alto do que jamais poderia imaginar ser possível, tentava conter as palavras, não querendo apressar seu entendimento das palavras, poderia ser que entendera errado. "Ela" estava perto?

– Estamos próximos a uma ilha, porém ao que parece é só mais pequeno arquipélago perdido do reino da terra. — Explicou-se o dobrador de fogo — Durante as jornadas da guerra encontramos diversos destes ao redor do continente, entretanto, como não possuíam nem sequer plantas ou animais, assim como os membros do reino da terra, abandonamos a ideia de colocar qualquer pessoa vivendo por aqui.

Enquanto Zuko falava, Aang sentia o barco rodopiar. A impressão naquele momento era de que o mundo havia se desprendido e ido embora, deixando apenas no jovem parado em um universo paralelo, onde apenas ele e aquele banco de areia à frente existiam. O Avatar apertou suas vestes com as mãos caídas ao lado do corpo, sua força era capaz de desfazer o tecido arrancando-o, entretanto, tentava ao máximo controlar o impulso.

Katara estaria bem? Ainda estaria viva? A cada segundo uma nova pergunta rodopiava diante de seus olhos, quase que materializada, assombrando-o. E por um breve momento, algo que para Aang aconteceu mais lentamente do que para os demais, o coração do jovem falhou uma batida, sua respiração errou a frequência e seus pés já haviam perdido o chão. O estouro de adrenalina fez com que toda a sua fisiologia alterasse e que suas ações fossem impensadas. Em um impulso com seu pé esquerdo, Aang encontrou-se no ar. cerca de três metros acima da madeira que revestia o barco. Podia ter uma visão tão privilegiada dali quanto Appa tinha em quase todo o tempo, então, com sua dobra de ar, fez com que o planador feito sob medida esticasse suas asas, arremessou-o por cima das costas, tornando aquele aparato uma extensão de seu corpo e partiu tão rapidamente na direção a qual o binóculo de Zuko, traçando uma marca linear no céu, formada pelo vácuo de seu corpo contra o vento.

– Ah, que ótimo! — Exclamou Sokka cruzando os braços — Ainda bem que todos nós podemos pular metros e seguir ele para o desconhecido, caso contrário isso poderia ser um problema.

Zuko, que ainda permanecia com os olhos dentro do binóculo demorou para compreender o que havia acontecido. Tomou ciência apenas ao ouvir os resmungos extremamente altos de Sokka, que andava de um lado para o outro pensando no que fazer.

– Todos nós não podemos — Disse olhando para cima — Mas acredito que um grande bisão voador pode nos ajudar bastante.

Sokka olhou confuso para o Senhor do Fogo e depois seguiu o seu olhar que se encontrava no topo da cabeça.

– Claro! — Continuou Sokka em tom sarcástico — A melhor ideia de todas, sem dúvidas. Pilotar o bisão de 20 toneladas que não me obedece, acho que então teremos que empurrá-lo, não é mesmo?

Enquanto o não-dobrador fazia suas diversas reclamações, Zuko olhava ao redor pensando em uma rota de fuga, não era só preciso saber como chegar lá, mas como não sabiam o que os esperava, teriam que descobrir como sumir daquele lugar com uma embarcação de homens preguiçosos e um bisão nada discreto.

– Vocês. — Disse apontando para o restante da tripulação — Parem já o barco! E preparem-se para dois tipos de sinal. Duas rajadas de fogo em direção ao céu, significará bater em retirada, enquanto apenas uma irá significar que vocês devem nos seguir. Então estejam prontos para qualquer que seja o destino.

Todos assentiram, temerosos com o futuro incerto. A maior parte deles só havia guerreado apenas uma vez e esta vez fora ao lado do próprio Avatar. Conheciam e confiavam nas habilidades do garoto, mas quanto mais eles tentavam imaginar o que havia naquele tal banco de areia, mais temiam por suas vidas.

– Enquanto isso, os meus homens devem ficar junto de Lyla. Deixem-na pronta para qualquer eventualidade. — Continuou — Sokka! Pare de reclamar e vamos logo para lá! Estou começando a achar que você prefere reclamar do que reaver sua irmã.

Sokka cerrou os olhos para Zuko e rosnou algo entre dentes, enquanto pulava em cima do grande animal peludo que, seguindo o chamado do jovem, desceu até uma altura razoável para que ambos pudessem alcançar sua garupa. Não era preciso qualquer comando, Appa já mostrava sinais de ansiedade e compreendia que deveria seguir o seu mestre, sendo assim, partiu rapidamente na mesma direção que Aang havia ido.

Aang pousou impacientemente os pés na areia úmida. Provavelmente aquele banco de areia era coberto pelas águas com frequência para que ela se mantivesse daquela forma mesmo na temperatura desértica que fazia no local. Andou alguns passos para a esquerda e logo depois voltando para a direita. O local tinha pouco mais de um quilômetro de extensão, não haviam nem sequer marcas de pegadas marcadas na areia, dando assim o parecer de que há tempos alguém não passava por alí. Seria aquele um cheiro de rastro antigo ou apenas engano do Shirshu mal treinado?

Não havia nada ali, apenas o silêncio e o som das água espirrando contra o banco de areia.

Se Aang estava controlando seu estado Avatar até aquele momento, não pôde mais segurá-lo. Sentiu suas unhas cravarem na palma de suas mãos fazendo ferimentos leves, apertou os dentes contra os lábios e sentiu cada músculo de seu corpo contraindo, aquela sensação de sentir toda a força dos antigos avatares em seu corpo era algo como sentir implodir, sugando sua alma para uma divisa entre o mundo humano e o mundo espírito. Aang havia passado muito tempo em meditação e treino para poder controlar sua consciência naquele estado pois, uma vez que sugada a alma para o mundo espiritual, seu corpo apenas obedecia seu instinto e naquele momento, o instinto que lhe passava em sua mente era de matar e destruir tudo e todos aqueles responsáveis por sumir com a sua garota.

Quando os demais alcançaram a ilha, foram surpreendidos por um Avatar extremamente irritado, formando uma enorme tempestade de areia, fazendo com que Appa chacoalhasse o bastante para que os jovens em suas costas fossem arremessados para fora. Enquanto Zuko caiu com maestria em pé na areia, próximo a Aang e Sokka havia sido jogado de cabeça em direção à beirada do mar, fazendo com que comesse um pouco de areia e quase engolisse um siri vivo, que vingou-se apertando-lhe o nariz e correndo rapidamente para as águas mais profundas.

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No subsolo, num cômodo tomado pela escuridão, Tulimaq encontrava-se deitado. Sendo ele o líder, era o único do grupo que não dividia o dormitório com outra pessoa. Fosse por sua imponência natural, ou por ter sido o idealizador de todo aquele plano de vingança, após ter reunido uma quantidade considerável de pessoas para aderir à sua causa, ele fora o escolhido para ditar cada passo que fariam. Apesar de serem um grupo de rebeldes seguindo um único objetivo, não havia necessidade de nomeá-los, apenas chamavam-se de companheiros ou camaradas, nada além disso. Todos eram tratados com respeito por igual, com exceção de Tulimaq a quem as pessoas insistiam de chamar por "senhor", apesar do homem ter sido sempre humilde quando em presença daqueles que estivessem ao seu lado.

Apesar da escuridão completa, o ruído audível da porta se abrindo indicara que o homem estaria recebendo uma visita. O som foi seguido por uma sombra que formara-se na parede graças à iluminação de uma lamparina que passara a iluminar o cômodo. Tulimaq não esperava receber qualquer visita naquele momento, sendo assim, massageou suas têmporas apertando seus dedos contra sua pele contendo a irritação.

– Tulimaq? — Chamou a voz rouca — Senhor?

Ao ouvir o timbre fraco da pessoa que ousara interromper seus devaneios o líder acalmou-se. Suspirou pesadamente, sentando-se sobre o colchão duro e sujo, girando sobre seu corpo para ficar de frente para quem acabara de entrar. A voz pertencia a uma mulher velha e vesga, não-dominadora. A idade da senhora esbanjava respeito e, certamente, era uma das únicas pessoas que realmente parecia importar-se com o bem estar do homem, quase como sua própria avó.

Tulimaq suspirou pesadamente antes de respondê-la, fechando os olhos novamente e apoiando a cabeça sobre as mãos, que por sua vez, estavam equilibradas nos joelhos dobrados sobre a cama.

– Estou ouvindo Ekta, prossiga — Disse com a maior cordialidade que conseguira juntar no momento.

A mulher levou a lamparina até a altura do rosto do homem, algo que não era muito mais baixo que sua própria altura, sendo uma mulher atarracada.

– O senhor esta há tempos trancado neste quarto. Estamos todos preocupados com você. Saia daí e venha comer algo conosco, creio que o seu corpo esteja necessitando.

Certamente havia tempos que Tulimaq não colocava nada dentro do estômago, entretanto, seus pensamentos o levavam muito além dali, mal recordava-se de que estava no mundo material, era quase como ir ao mundo espiritual, ou deveria ser já que nunca estivera lá. Passara horas meditando na completa escuridão, algo que geralmente fazia quando queria manter a calma, sem recordar-se do passado. A presença de tochas o relembrava daquele passado doloroso, não era capaz de ficar em um ambiente onde aquele elemento do inferno permanecia lambendo o ar furiosamente.

– Ekta. — Disse Tulimaq, ainda sem abrir os olhos — Você sabe o motivo da nação do fogo ter triunfado durante cem anos?

Certamente era uma pergunta retórica, sendo assim, a senhora permaneceu calada esperando que Tulimaq prosseguisse. Então, antes que continuasse a falar, Tulimaq levantou-se e passou a andar lentamente de um canto ao outro do quarto.

– Foi porque os demais acreditaram em toda aquela ladainha sobre superioridade de elementos. Mesmo que inconscientemente. — Tulimaq fez uma pausa e virou-se para a mulher antes de prosseguir — Sabe por que aquela garota ainda está nos enrolando sem ceder às nossas torturas?

Tulimaq referia-se a Katara nesta ultima pergunta e novamente, sendo retórica, Ekta respondeu apenas com seu silêncio, esperando confusa a conclusão dos pensamentos de seu líder.

– Pois eu sou tão idiota a ponto de considerá-la como superior a mim. Mesmo a jovem estando drogada e jogada aos trapos, continuo temendo suas habilidades. Pois todos nós tememos aquilo que desconhecemos, mas o desejamos ainda mais.

A mulher entortou a cabeça tentando compreender as palavras do dobrador de água.

– Você deseja a garota ou deseja suas habilidades? — Uma pergunta pertinente vinda de Ekta.

Ao final do questionamento da senhora, Tulimaq virou-se abruptamente em direção da porta. Ekta permanecia com a expressão serena, entretanto, o momento lhe dava um ar de confusão em relação ao seu discurso. A pergunta dirigida a ele fez com que sua raiva e impaciência subisse além do que seu corpo estava apto a suportar. Em um único impulso, Tulimaq arrancou a tocha presa por um suporte de metal na parede ao lado direito de sua cabeça e dirigiu-se até o batente, tomando a lamparina das mãos enrugadas de Ekta, levantando sua tampa para acender o pavio embebido em solução inflamável. Passou poucos segundos antes que a ponta de madeira se ilumina-se com aquela coloração avermelhada.

Assim que o fogo tomou conta propriamente da tocha, Tulimaq devolveu a lamparina de forma rude para a senhora e partiu sem lhe dirigir a palavra, deixando-na atônita.

O homem de corpo forte e robusto andava a passos largos pelos corredores sufocantes. Toda a estrutura fora feita com tetos baixos e paredes disformes, seguindo a forma original como haviam encontrado o primeiro andar da caverna. Mesmo com os dobradores de terra, aquele esconderijo fora difícil o bastante para ser construído. Desde a entrada pela ilha, quanto a entrada pelo mar, onde ficava a rota de fuga para quaisquer imprevistos, com cerca de três submarinos roubados da nação do fogo.

Por onde Tulimaq andasse, sua presença chamava a atenção de pequenos grupos de homens e mulheres, que o admiravam e o chamavam para demonstrar suas novas habilidades adquiridas com o tempo vago de treino que possuíam lá dentro. Entretanto, apesar do líder tentar esquivar-se de todos os cumprimentos com um aceno de cabeça cordial, muitas vezes era preciso simplesmente ignorar uma frase ou outra de conversa que se formava por pessoas muito empolgadas. Apesar de toda aquela atenção, seu destino não era longe de ser alcançado. Tulimaq desceu a estreita escadaria onde cabia apenas uma pessoa por vez, fato que gerou muitas fraturas no cóccix graças à algumas duplas e trios que insistiram em passar juntos por ali, porém acabaram por escorregar nas pedras lisas.

No andar mais abaixo, habitado apenas por prisioneiros doentes ou já mortos, não havia qualquer grupo de conversa. Além daqueles atrás das grossas grades, alguns guardas permaneciam no local. Entretanto, fora a vez de Tulimaq chamar a atenção de um dos guardas que vestia um uniforme assim como os demais, entretanto, um broche do reino da terra indicava aos que o observavam com atenção sua capacidade de dobra. Não fora necessário quaisquer palavras, apenas um aceno de mão, chamando o homem para que seguisse o seu líder em direção ao fundo do andar da caverna, local onde Katara se encontrava.

Ainda sem qualquer comando, ambos pararam em frente à grande caixa de metal. Apesar de sua placa, seu funcionamento era dado por engrenagens de pedras, fazendo com que fosse facilmente dobrada por alguém com a habilidade e conhecimento correto. O homem de ombros largos agradeceu seu subordinado com uma curta reverencia dispensando-o, virando-se novamente para o cubículo escuro à sua frente, deixando o soldado partir em silencio.

O som dos passos haviam se distanciado, trocando de lugar com um bagulho ao longe, semelhante a um leve desmoronamento, algo que frequentemente acontecia nos andares mais profundos, mas situação facilmente contornada pelos dominadores. Tulimaq andou até a porta, já aberta, de metal, inspirou uma grande quantidade de ar empoeirado e entrou na escuridão, assistido apenas pela parca luz do fogo. Mesmo com a pouca iluminação foi capaz de identificar a jovem jogada aos trapos num canto frio. O pescoço da garota pendia para frente, enquanto sua face era coberta pela grossa camada de fios emaranhados, algo que antes já foram belíssimos cachos de cabelo amados por Aang e por seu irmão.

– Deveria saber o quanto lamento vê-la assim... — Tulimaq aproximou-se mais da moça, abaixando-se — Mas é sua própria escolha e hoje eu vim especialmente para dar a sua ultima chance de se redimir e ajudar-nos a trazer a paz absoluta. Não é isso que você deseja?

Fora sorte de Katara que seu cabelo cobrisse sua face, pois sentia seu rosto esquentando dando-lhe uma coloração avermelhada nas maçãs do rosto, enquanto seus olhos pareciam cortar carne apenas com um olhar. Sua mistura de torpor, raiva e negação a lembrava da ultima vez que havia realizado a dobra da água, totalmente incapaz de controlar-se. Lembrou de agradecer também às drogas utilizadas, provavelmente teria agido impensadamente naquele momento também se não fosse por elas.

– Ao menos creio que mantê-la nesta situação tenha poupado você de ver o tempo passar tão vagamente, não? — O homem referia-se aos entorpecentes.

Apesar do silêncio, a garota concordava mentalmente. Os efeitos alucinógenos e anestésicos do que lhe davam faziam com que Katara visse seus maiores sonhos e pesadelos como se estivesse vivenciando-os constantemente. Entretanto, perder a noção de tempo e espaço não a agradava de forma alguma, caso possuísse forças o bastante para argumentar provavelmente o faria.

– Evite todo esse sofrimento, minha querida — A ultima palavra entrou ouvidos da moça amargamente — Você é belíssima, é uma dor vê-la assim. Nos ensine suas habilidades e nós lhes daremos todo o conforto, além de uma vitória sobre a nação do fogo.

Katara queria dizer que suas habilidades eram somente para cura, algo completamente fora dos interesses dele. Certamente iria aceitar curar homens feridos em tempos de guerra, caso eles fossem recorrer a ela, afinal, as portas da tribo da água estavam sempre abertas para seus nativos. Porém, não poderia nem sequer cogitar usar aquela técnica assassina novamente, era torturante e pesado mesmo para as mãos do homem mais cruel e vazio.

– Decida-se, senhorita. Você escolhe a justiça ou a traição? Lembre-se que uma lhe dará uma boa vida e a outra lhe trará a morte. — Ameaçou o homem em um tom mais alto que anteriormente.

Era possível, mesmo com a escuridão, notar uma veia saltada na testa do homem que cuspia suas palavras de ódio em Katara.

Entretanto, algo estaria mais ameaçador que o bem formado dominador de água pois, antes que o homem pudesse fazer qualquer ação contra a garota, um estrondo foi audível para os dois. O som era muito mais alto que um simples desmoronamento, para aqueles que prestavam atenção parecia que toda a estrutura estava sendo arrancada da ilha em que se acoplava. Certamente tal estrondos eram muito maiores do que o normal, finalmente alarmando Tulimaq o bastante para tirá-lo de seu estado de raiva voltada para Katara e preocupar-se com o que estaria acontecendo.

Ao longe, era possível enxergar atravessando o corredor estreito um corpo enorme que dominava praticamente quase todo o espaço existente entre as paredes. O homenzarrão poderia ser conhecido de Katara caso ela estivesse em plena consciência ao ser levada para a ilha. Tratava-se de Oki, o enorme homem que a carregara anteriormente. Apesar de sua força em massa, seu corpo não estava preparado para correr nem sequer curtas distâncias, sendo assim, ao chegar próximo de Tulimaq, apresentava um rosto oleoso e de expressão desesperada, seus olhos estavam arregalados e sua boca tremia tentando balbuciar alguma coisa.

Notando o estado em que seu aliado encontrava-se Tulimaq deixou a jovem para trás, aproximando-se rapidamente do gigante mostrando-se claramente confuso, entretanto, colocou a palma de sua mão direita sobre o ombro esquerdo de Oki, numa tentativa simples de acalmá-lo. Durante algum momento, Oki tentou recuperar seu fôlego, demorando um tempo consideravelmente longo a ponto de irritar Tulimaq, que estava impaciente esperando saber o motivo de todo aquele alarde.

– Avatar! — Murmurou Oki.

– O que tem o Avatar? — Disse erguendo uma de suas sobrancelhas, mais confuso que anteriormente.

O homem em sua frente inspirou mais profundamente, tentando buscar autocontrole e assim, poder dar continuidade a sua explicação.

– Senhor, fomos descobertos — Arfou o homenzarrão — Aparentemente o Avatar está em nossa ilha, não sei qual a intenção dele mas não parece nada boa.

Ao final de sua ultima frase, houve um novo estrondo, fazendo com que o tremor naquele corpo robusto voltasse. Enquanto isso, a abandonada Katara tentava compreender o que estaria acontecendo fora de seu novo mundo de desespero. A jovem havia ouvido Avatar em uma das frases proferidas por uma voz desconhecida do lado de fora, fora algo importante o bastante para fazer seu sequestrador deixá-la ali sem supervisão por um bom tempo. No entanto a jovem não era capaz de compreender corretamente o que estaria causando tal tumulto, sonhara tantas vezes e alucinara além do que sua mente pôde contar com a ideia de rever Aang e sua família novamente que não pudera sentir a ânsia de vê-los novamente naquele momento, suas esperanças haviam morrido junto com uma pequena parte de sua sanidade.

– Mas o que diabos o Avatar está fazendo aqui? — Questionou Tulimaq, embora soubesse a resposta

– Ele não deveria supostamente estar nos auxiliando? Pensei que tivéssemos os mesmos ideais. — Argumentou Oki — Não seria mais prudente irmos conversar com ele?

Era certo de que o mais prudente seria explicar toda aquela agitação por ali, entretanto, como explicar as condições de sua amiga? Sabia que eles eram ligados quando viajavam juntos, havia feito corretamente suas pesquisas sobre tudo o que ocorrera naqueles anos em que alguém pôde levantar-se contra a nação terrorista. Tulimaq temia que seria ele o ameaçado, caso continuasse naquele lugar.

– Senhor? — Gritou Oki, tirando o líder de suas ponderações.

O homem do reino da terra estava praticamente berrando, o tempo era um luxo para eles naquele momento, não deveria ser desperdiçado com pensamentos banais?

– Não! — Decidiu-se — Se ficarmos aqui cavaremos nossa ruína. Vamos reunir todos e partir ao continente. Temos que nos reunir nas antigas colônias do fogo com os demais. Partiremos pelos submarinos. Derrube todas as pedras no caminho, soterre os prisioneiros, se necessário! Precisamos de algo para distrair o Avatar.

Apesar das ordens de Tulimaq, Oki permaneceu parado. Abandonar aquilo que haviam conquistado naquele tempo lhe trazia um sentimento de derrota, entretanto, deveria seguir o que lhe fora dito. Se era o melhor para Tulimaq, seria o melhor para todos.

O dominador de água, percebendo a confusão mental de seu colega, usou a mão cuja palma estava sobre os ombros do companheiro, virando-o para o lado oposto de que estava e empurrando as suas costas, quase na altura da nuca, fazendo com que movesse apenas poucos centímetros para frente, graças ao seu peso. Apesar de ter dado a ordem de evacuação, Tulimaq sabia que ele mesmo sofreria ao deixar tudo aquilo para trás, inclusive Katara. Se o Avatar estava ali era única e exclusivamente para encontrá-la, então ao vê-la faria com que sua ira ficasse controlada. Porém, caso eles levassem a garota consigo, seriam seguidos por água, terra ar ou fogo. Não importava onde estivessem, era possível que o garoto fosse até o inferno para resgatar a amiga. O ódio por deixá-la era tanto que o fez morder o canto da boca, cortando a fina pele que a revestia. Seus planos seriam arruinados! Não... Não seriam arruinados, apenas adiados. Teria sua vingança e a teria com a belíssima Katara ao seu lado.

Com seus últimos pensamentos maculados, Tulimaq partiu do local, sendo seguido por seu companheiro que o auxiliara a retirar todos o mais rápido possível daquele lugar.

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Aang havia passado do limiar de seu autocontrole há tempos atrás. Havia apenas poucos segundos desde que encostara os pés na areia úmida daquela pequena ilhota, porém, não haviam sinais de que humanos haviam passado por ali. Desesperado, sentiu seu corpo recebendo uma descarga de energia ainda maior que no início de seu estado Avatar, sabia que seu corpo não mais tocava o solo, ao invés disso planava alguns metros acima da cabeça dos amigos que foram jogados por Appa e que naquele momento se incomodavam com a areia cortante correndo sobre seus corpos.

Não seria possível, aquele lugar deveria ser o correto, deveria poder ver Katara novamente. Porém, todo o restante de sanidade que o jovem havia guardado para não se descontrolar se esvaíra. Estava alucinado de ódio e parte dele ainda temia por ferir algum inocente que aparecesse naquele momento. Todas as possibilidades passaram pela mente de Aang, pensou em como falhara com Katara, como ela havia ido para sempre. Lembrou-se dos tempos em que podia tê-la ao seu lado, junto com o irmão e com Toph, sentindo inveja de seu "eu" do passado.

Como num choque, Aang rebobinou suas lamentações e lembrou-se da ultima imagem que passara por sua mente: "Toph!" A jovem já era extremamente habilidosa quando Aang a conheceu e certamente não fora capaz de lhe ensinar nem metade do que sabia, porém, lembrara da condição da menina, sua falta de visão. Toph não precisava enxergar para poder notar tudo o que estava ao seu redor, ela simplesmente o fazia sentindo o chão aos seus pés, a vibração das pedras e a energia dos seres vivos. A exímia dobradora de terra era a solução. Não havia nada que pudesse ser encontrado naquela ilha, mas sim, abaixo dela.

– Aang? — Gritou Sokka e Zuko em uníssono.

Ambos tentavam trazer o amigo novamente para si, sabendo que era bem improvável que fizessem algo certamente útil naquele momento, então, apenas tentaram assistir em meio à tempestade de areia o Avatar descer o bastante e começar a fazer um redemoinho de areia com proporção colossal, arrancando a força toda a areia de seus pés, fazendo com que eles fossem forçados a retornar para uma profundidade segura nas águas, que naquele momento faziam fortes reboliços. Era aquilo ou sere jogados para longe junto com toneladas de areia.

Ao limpar praticamente toda a areia existente, revelando ser uma fina camada forrando uma enorme estrutura de pedra, Aang passou a destruir pedra após pedra, jogando para todos os lados, criando ondas disformes ao cair na água. Podia sentir que bem abaixo de seus pés havia um grande acúmulo de energia viva. Seus músculos retesaram ainda mais ao ouvir vozes abafadas alcançarem seus ouvidos, certamente seus pensamentos desenfreados o levara ao correto.

Tontos e com a visão turva pela quantidade de areia arremessada pelos ares, Zuko e Sokka tentavam voltar até a margem. Tanto o não-dobrador quanto o senhor do fogo formavam expressões atônitas em seus rostos ao verem a face de pedra lisa da ilha exposta daquela forma, demorando um longo tempo para notar qual era a intenção de Aang naquele momento.

– Eu não sei o que é pior, chuva de areia ou chuva de pedras! — Indignou-se Sokka — Não vejo pedras voando assim pelos ares desde que encontramos a Toph no torneio. Tsc... Perdi 10 moedas de prata apostando no Pedregulho¹ aquele dia. Maldita Bandida Cega!

Zuko revirou os olhos para a atual preocupação do amigo. Por mais que passara algum tempo ao lado de Sokka jamais tivera muita paciência com a personalidade dele. Sendo assim, partiu atrás de Aang que já sumia de suas vistas, afundando-se no mundo de pedras aos seus pés, deixando o garoto de rabo-de-cavalo falando sozinho às suas costas. Naquela hora nada além de encontrar Katara lhe importava e sentia uma ponta de ciúme e inveja pelas habilidades do Avatar em poder localizá-la antes dele, além de ser o primeiro a pousar os olhos naqueles belíssimos orbes azuis.

– Katara! — Aang gritava além do que suas cordas vocais pareciam aguentar.

Estava atravessando um longo corredor, já fora o segundo andar em que Aang a procurava, com pouco sucesso. Nem sequer as vozes que antes pareciam ser facilmente audíveis estavam ali, encontrara e chacoalhara alguns dos homens que havia avistado, mas sem poder retirar quaisquer informações, deixando que eles partissem tropeçando em seus pés. Se deveria ir atrás deles e torturá-los até retirar a força suas informações, Aang não saberia dizer, mas era contra sua natureza ferir qualquer pessoa que fosse, não sabia o que era aquilo ou quem eram aquelas pessoas.

– Avatar? — Sussurrou uma voz rouca às suas costas.

Aang virou-se, mostrando seus olhos brilhantes, tomados pelo espírito de Raava², parando em uma simples senhora torta que encolhia-se em uma das portas que havia deixado de abrir, talvez por pura ansiedade. Antes que o Avatar pudesse fazer qualquer movimento, a mulher velha ajoelhou-se diante dele, juntando as palmas das mãos em forma de súplica, fazendo com que Aang tombasse a cabeça para a direita, confuso com a situação. Entretanto, aquele simples ato fez com que seu instinto pacífico trouxesse sua lucidez à frente da raiva e angústia que estava sentindo.

– Você está a procura da prisioneira, não está? — Perguntou a mulher, ainda temerosa.

A velha era Ekta, que cerca de uma hora atrás temia pelo líder e que, naquele momento, temia por todos os seus companheiros. Sabia que os fins não justificavam os meios, sabia que tudo aquilo que estava sendo feito era errado, porém, aqueles eram seus amores, sua família. Precisava dar uma chance a todos e seria o que faria naquele momento. Entregaria a garota dos olhos de Tulimaq e provavelmente dos do Avatar.

Aang tremeu de nojo ao perceber que a velha referia-se a Katara ao chamar por prisioneira. Por que estaria ela sendo mantida como prisioneira, refém, seja o que for que eles estivessem chamando ela. Conteve novamente seu impulso de arremessar-se para cima daquele corpo idoso e frágil, tentando arrancar-lhe toda a verdade, sabia que provavelmente não seria necessário, então optou por apenas questioná-la o mais calmamente possível.

– Onde está Katara? — Grunhiu.

A mulher resumiu-se apenas em levantar os olhos, alcançando os do ameaçador Avatar.

– Poupe-nos no momento ou irão destruí-la — Mentiu Ekta — Ela está ao fundo do quinto andar, no local mais profundo de nossa fortaleza. Não deve haver mais guardas por lá, apenas poupe estas mulheres, homens e crianças.

Não era necessário que uma senhora implorasse pela vida de humanos, Aang jamais a tiraria de quem fosse o tirano. Porém, implorou a si mesmo naquele momento que buscaria justiça por o que fora feito com Katara. Sendo assim, o Avatar partiu sem proferir qualquer promessa, mas com a certeza de que cumpriria o pedido desesperado da mulher aos seus pés, jamais se perdoaria futuramente caso algo fosse feito contra ela.

Em conjunto com os amigos que tentavam flanqueá-lo, Aang corria em busca de escadas que pudessem levá-lo ao ultimo andar subterrâneo. Ao passar pelos corredores apertados encontrou com extrema dificuldade uma pequena sinalização que indicava pequenos degraus feitos com a própria pedra. Eram claramente íngremes, enquanto as paredes pareciam fechar-se ao redor de quem fosse descendo, uma perfeita tortura para os claustrofóbicos. Por este motivo, o garoto decidiu que utilizar seu patinete de ar seria a melhor das decisões, chegaria rapidamente ao seu destino sem demais interrupções.

Apesar da facilidade em deslizar as escadarias, Sokka e Zuko encontraram certa dificuldade ao tentar descer em conjunto, debatendo seus ombros e deslizando de forma diferente de Aang, raspando seus traseiros nos degraus durante toda a descida.

A escuridão e periculosidade do ultimo andar forçou Aang a criar sua própria fonte de iluminação, formando uma pequena labareda ao juntar a ponta de seus dedos, auxiliando ele ao passar pelos desmoronamentos que haviam sido criados por ali. Sabia que a sua retirada de pedras para forçar uma entrada poderia causar algumas instabilidades, porém aquelas pedras derrubadas nas laterais definitivamente não eram fruto de sua brutalidade. Temeu que todo aquele local poderia ter sofrido desabamento, olhando ao redor e percebendo algumas pessoas jogadas aos cantos, esgueirando-se das pedras caídas. Pensou em Katara, que estaria em alguma daquelas celas e partiu a sua procura, gritando seu nome, olhando dentro de cada barra de metal, assustando-se com o estado no qual aquelas pessoas eram mantidas.

– Isso é insano! — Pasmou-se Aang. — Nem sequer as celas da Nação do Fogo tratavam tão mal seus prisioneiros. Eu mesmo já fui um.

Aang, enfiava a cabeça por entre as grades, tentando certificar-se do bem-estar daqueles pobres seres antes de prosseguir até onde poderia ser o final daquele estreito corredor, buscando por uma figura feminina em específico. Após alguns segundos deparou-se com um container* que, apesar de seu tamanho, poderia alojar uma pessoa ali. Sentiu então seu corpo gelando, sua garganta parecia perder a funcionalidade de deglutição ao mesmo tempo em que ele ia perdendo a habilidade de se movimentar. Estava estático, prestes a se engasgar, sentindo a ânsia de prosseguir impedi-lo de ir em frente. Seus músculos não o obedeciam, sua mente não lhe pertencia mais, estava submissa apenas à ideia da imagem daquela que tanto amava.

Enchendo os pulmões com o ar sujo do subsolo, Aang deu seu primeiro passo em direção ao container. Suas grossas portas estavam abertas, dando passagem para o interior repleto de sombra. Fechando os olhos deu passagem para a coragem, que o auxiliou a ir mais um pouco para frente... E depois mais um pouco, até chegar na entrada retangular. O jovem esticou sua mão com uma chama diminuta, graças ao seu estado receoso, em frente ao seu corpo, iluminando um pequeno corpo encolhido no chão.

– ...ra — Aang tentou proferir o nome da jovem, sem sucesso.

Certamente era ela, sua cor morena avermelhada não poderia enganá-lo. Apesar de estar correto, não parecia como ele se lembrava dela. Sua pele não refletia o fogo como de costume, seus cachos não pendiam sobre as orelhas e seus olhos brilhantes estavam escondidos pelos joelhos em frente ao rosto. Ao fitar aquela cena, Aang soube que jamais poderia esquecer aquela imagem, sabia que seria atormentado para sempre em seus pesadelos. Andando os últimos passos que suas pernas aguentaram, o jovem finalmente cedeu, jogando-se no chão à frente da garota agachada, que apresentava respirações curtas e fracas. Sua força de Avatar já havia esvaecido, dando lugar para sua maior fraqueza.

– Katara — Finalmente o jovem pôde soltar aquele nome.

E como uma tampa que obstruía toda a aflição, o nome da jovem desencadeou consigo uma onda de alívio e dor. Aang extinguiu todo o espaço entre o corpo dele e da jovem imóvel e fora de si, indo de joelhos até ela. Juntou todo o seu resquício de força mental e passou os braços ao redor daquele corpo frio e sujo, fazendo um caminho sobre a pele da jovem ao derrubar suas lágrimas sobre a pele empoeirada.

Agradecendo a todos os espíritos, Aang prometeu a si mesmo que jamais a deixaria dali em diante.

Notas finais
*Proa = É o nome dado à frente dos navios e demais embarcações. ¹. Sokka se refere à luta no episódio 26 "A Bandida Cega" ². Sei que é desnecessário, mas quem não é muito apaixonado por TLOK (como eu), pode deixar passar que a força do estado é dada pelo espírito da luz, Raava. (Podem me corrigir se não for bem assim) *Container = Grande recipiende de metal, muito utilizado para transporte marítimo. Agradeço a todos que estão acompanhando esta história! Obrigada pelos comentários que me ajudaram a ter forças para continuar a escrever apesar de todas as coisas que aconteceram esses últimos tempos! Por favor, não esqueçam de dizer o que acharam.