Capítulo 2

David

Um conselho:

Ame, enquanto pode.

***

Eu não sabia o que fazer.

Uma mulher estava caída no meio da cozinha, com o pescoço cortado. A mãe de um cara que eu conhecera há pouco tempo. Muito pouco tempo.

-AI MEU DEUS! PUTA QUE PARIU!

Sei que não foi inteligente, como chamar a polícia, mas, nunca havia passado por essa situação. Tentei a manter o resto de sanidade que eu ainda tinha, e chamei a polícia, a ambulância também.

A mãe de Thom ainda estava viva, pois balbuciava algumas coisas ininteligíveis e respirava, mesmo que fosse pouco.

-MÃE! AI MEU DEUS, AQUELA GAROTA É LOUCA! – Gritou Thom, e isso só fazia eu me sentir ainda pior, comecei a ter náuseas, uma dor de cabeça insuportável.

Os olhos da mãe de Thom eram castanhos, como os dele. Seu cabelo estava totalmente bagunçado, mas não creio que ela estivesse se importando com aquilo nesse momento.

Thom se debruçou em cima dela, o ferimento no pescoço era horrível. Todo o chão já estava ensanguentado e Thom dava a impressão de que iria desmaiar, mas não o critico por isso, eu já teria desmaiado há tempos.

Foi aí, que a mãe de Thom começou a falar, mas era algo particular, porque ouvi algumas coisas como: “... sempre te amarei.” ou “Procure sua tia...”.

-Não, você não vai morrer! – Disse Thom. – A ambulância já está chegando. Eles a levarão e você ficará bem.

— Filho, não se iluda. Cas pode ser uma garota muito bonita, amável e persuasiva, mas não se deixe levar. Não envolva a polícia nessa história, nem você se envolva. Não quero que se machuque. – Eu quase não ouvia o que ela falava, tive de chegar mais perto para ouvir, não que fosse da minha conta. – Siga em frente, independente da situação.

-Mas mãe, o que ela quis dizer com “sangue deve vingar sangue”?

-Já disse que não quero você se envolva querido.

Ela começou a empalidecer, o dia pareceu ficar mais escuro. Um peso parecia cair sobre a casa e meu enjoo voltava.

-Mãe... Eu te amo. – Disse Thom em lágrimas.

-Eu também meu filho. Sempre.

Foi quando seus olhos fixaram-se em um ponto e não se moveram mais.

***

Logo após a ambulância chegar e levar o corpo, a polícia chegou e nos começou a fazer perguntas, Thom estava muito melhor já. Bem, parecia estar.

-E então meninos, quem era a garota? — disse-nos um dos policiais.

-Seu nome é Cas, mas não sabemos idade nem nada. – Disse Thom. – Você sabe de mais alguma coisa David?

Eu estava meio perdido em pensamentos, não me lembrava ao certo da vida de Cas, só sabia que ela tinha chegado na escola no fim do ano passado, e que tinha alguns problemas familiares. Resolvi que isso não tinha importância.

-Não. Conheço ela há muito pouco tempo.

-Tudo bem, crianças. Thom, você tem algum parente a quem comunicar? – Disse outro policial.

-Tenho uma tia, mas não acho que ela se importe muito, estava brigada com a minha mãe há um tempo. – Falou Thom em um tom de voz meio esquisito, como se estivesse querendo esconder alguma coisa. – Mas, creio que não tenha opção, afinal, meu pai morreu quando eu era pequeno, meus avôs já morreram também.

-Quer que nós levemos você? – Disse um dos policiais calmamente.

-Não obrigado, e preciso de um tempo sozinho.

Percebi que isso significava que ele não me queria por perto também, resolvi ir andando para casa.

-Você vai ficar bem, cara. A dor vai passar. – Não sabia se isso o confortaria, mas resolvi tentar. – Qualquer coisa, me procure.

-Claro, obrigado não sair correndo, gritando. – Vi um leve sorriso no canto de sua boca, mas seus olhos continuavam cheios de lágrimas, mesmo assim pensei que poderíamos nos dar bem.

— Tchau! Até mais.

***

No caminho para casa, pude pensar um pouco na vida. Como pode ser uma coisa tão frágil?

Cas tirou a da mãe de Thom em alguns segundos, e eu não pude fazer nada.

Sempre essa sensação de não ser capaz de proteger e nem ajudar ninguém, até os pássaros conseguem proteger os filhotes, e eu não consigo nem me proteger!

As folhas das árvores balançavam, algumas caiam, era fim de outono e o frio já estava começando a chegar.

Eu gosto do frio.

É quando arrumo um motivo para ficar perto das pessoas que amo. “Posso ficar aqui, com você? Está muito frio lá.”, sempre uso essa desculpa.

Não teria motivo para não poder ficar perto de seus pais, ou irmãos. Mas eu tenho.

Não tenho uma relação muito boa com meu pai, nem com os meus irmãos. Com minha mãe eu tenho uma relação boa.

Os pássaros pareciam agitados, voavam de um lado para o outro como se estivessem tentando salvar suas vidas. A rua estava silenciosa, só se ouvia uma música, a umas duas quadras dali.

Dei-me conta de que não tinha abraçado Thom, ele merecia um abraço, eu queria abraça-lo. Uma lágrima desceu pelo canto do meu olho, eu já tinha visto Thom no ano passado, sentira alguma coisa especial com ele quando meus olhos perceberam sua presença na escola. Eu nunca havia me sentido assim antes.

Thom era o cara mais bonito que eu já vira, tinha os cabelos castanhos desarrumados, não sei se propositalmente, seus olhos eram castanhos com leves riscos dourados, conseguia-se ver seus músculos por baixo da camiseta, ele não era o cara com mais músculos no mundo, mas os que tinha eram lindos. Eu gostaria de ter alguma coisa mais do que amizade com ele, mas isso nunca seria possível.

Chegando em casa, percebi que as janelas estavam fechadas. Não havia nenhum movimento dentro dela, nenhum barulho.

O vento parou.

O tempo pareceu passar mais devagar.

Vejo uma sombra pelo canto do meu olho, ela tinha deixado cair um papel. Pego-o e quando leio, um arrepio percorre todo meu corpo.

“Espero que esteja feliz, David. Você estragou tudo, não devia estar lá. Pelo menos, sei que você estaria envolvido de uma forma ou de outra. Não se sinta tão mal, um dia tudo se resolverá, e você não terá que sofrer mais.”

Não tive tempo de me preocupar com as palavras.

Quando tudo explodiu, só tive tempo de me jogar para o lado.