The Past Ghosts
3 Capítulo 3
Capítulo 3
David
Uma frase:
O sobrenatural é a teia que une o universo.
***
Meus ouvidos zumbiam.
Abri meus olhos, mesmo meu cérebro dizendo que aquilo não me agradaria nem um pouco. O que vi me surpreendeu.
Ao meu redor, havia fumaça, mas a fumaça não me tocava, um campo de força pulsava ao meu redor. No mesmo momento, tudo começou a girar.
Minha visão embaçou, talvez por causa das lágrimas que estavam brotando, uma súbita dor de cabeça, mas meus ouvidos pararam de zumbir. Ouvi as sirenes da polícia, pessoas gritando, crianças chorando. O campo de força se desfez e a fumaça tomou conta dos meus pulmões e então tudo escureceu.
***
Quando abro meus olhos, vejo que estou em uma cama de Hospital. Minha tia estava ao meu lado, seus olhos cheios de lágrimas reluziam com a luz do sol que entrava pela janela.
Ela vê que estou acordando e um leve sorriso brota nos seus lábios, mas logo é substituído pela costumeira expressão de tristeza. Minha tia tem depressão, toma diversos remédios e já tentou se matar. Tem uma filha, Julie, e está sempre ocupada demais para participar de festas, ir a nossa casa, conversar com minha mãe.
Minha mãe.
Minha mãe que agora, provavelmente, está reduzida a um monte de cinzas.
Minha mãe que me amava incondicionalmente.
Minha mãe que sempre me aceitou do jeito que sou.
Não consegui me segurar, as lágrimas vieram rápidas demais, seguidas de soluços escandalosos e de gritos de pânico. Minha tia falou alguma coisa, mas eu não ouvi.
Só queria sair dali e correr até minha mãe, abraça-la e dizer que a amo. Mas isso já não é mais possível.
Uma enfermeira entra no quarto e injeta alguma coisa no soro que eu estava tomando, aquilo começa a me deixar zonzo, o mundo gira novamente. Sei que logo não serei capaz de controlar meu corpo e adormecerei. Só que dessa vez, não quero acordar.
***
Infelizmente, acordei.
Dessa vez não estou no Hospital, acho que estou na casa da minha Tia. As paredes verde limão completamente limpas, nem mesmo um risco.
Mal termino de pensar, e as lágrimas invadem meus olhos novamente.
Lágrimas essas que não serão derramadas em vão.
— David? – Ouço a voz feminina vinda do lado de fora do quarto, Julie. – Você está acordado? Posso entrar?
Julie, como sempre, preocupada com o bem estar dos outros, é costume dela colocar a própria vida em segundo plano para ajudar o próximo. Eu nunca fui assim.
— Pode entrar.
Seus longos cabelos pretos, com leves ondulações, entram antes dela. Sua presença me deixa calmo, as lágrimas diminuem.
— Você está bem? – Ela senta na ponta da cama de casal, seus olhos negros fixam-se em mim. A sensação de calma aumenta.
— Estou bem, na medida do possível. E você? – Minha voz sai num tom muito calmo, nem parece que chorava há menos de um minuto.
— Como eu estou não importa – de novo colocando a vida dos outros na frente. – Você precisa de alguma coisa?
Eu não me lembrava que dia era, quando tudo aconteceu, era quarta-feira. Mas não sei quanto tempo se passou.
— Que dia é hoje? – Perguntei.
— Hoje é sábado.
— SÁBADO? COMO ASSIM? EU DORMI POR TRÊS DIAS? – A sensação de calma ainda era grande, mas se esvaia.
— Calma, David, você não pode ficar nervoso. Depois que você inalou tanta fumaça na quarta, foi levado ao Hospital, ficou lá até ontem à noite. Nós te trouxemos pra casa e você passou a noite aqui.
Buscando bem na memoria, me lembro de ter acordado duas ou três vezes no Hospital, mas sempre que isso acontecia, vinha junto um acesso de lágrimas, gritos e a enfermeira aplicando remédio na minha veia. Depois, a escuridão novamente.
— E meus pais? – Percebo o choque na sua expressão quando faço essa pergunta. Seus olhos se enchem de lágrimas.
— David, bem, eles... Não foi encontrado nada no que restou da casa, foram realizadas operações de busca, mas nada apareceu.
As lágrimas vieram novamente. Dessa vez mesclando alegria e duvida.
E se eles não estivessem lá? Eles podem ter se salvado.
— Não quero decepcioná-lo, mas eles não estão em lugar nenhum, não há chance de que não estivessem em casa. O mais provável, é que tenham sido carbonizados, completamente. – Sinto que ela está tentando me tranquilizar. Espera, penso, ela está tentando me tranquilizar. Seus olhos vibram entre azul escuro e preto. Ela brilha. Meu coração dispara.
O que está acontecendo? Essa é minha prima? Ela nunca fez isso.
No momento que ela leva sua mão até meu rosto, um clarão nos envolve. Minha tristeza passa, as lágrimas cessam, uma sensação de alegria percorre meu corpo. Tenho vontade de sair gritando e dançando. Mas aí, percebo o que ela fez.
— O que você fez? Como você fez isso? – A sensação de alegria ainda está presente, mas o pânico cresce dentro de mim.
— David, não se assuste. Eu só fiz isso pelo seu bem. – Vejo em seus olhos que ela está se sentindo culpada. – Eu descobri que podia fazer isso uns dias atrás. Quando vi minha mãe chorando no quarto, fui até ela e quando encostei minha mão nela, todo o quarto se iluminou e ela ficou bem.
Essa explicação rápida não diminui o pânico que estou sentindo. O quê minha prima é? Um monstro?
Quase instintivamente, retiro suas mãos do meu rosto. Sua expressão muda de culpa para raiva.
— O que houve David? – Me pergunta ela.
— Hã, nada. Você poderia, por favor, me deixar sozinho por um tempo?
— Você está com medo de mim? – Consigo perceber que a raiva dela aumenta. – Você realmente acha que vou fazer alguma coisa contra você?
Não sei o que falar. Porque é verdade. Não posso saber o que ela faria comigo agora que consegue fazer isso.
Aliás, o que é isso que ela sabe fazer? Seria bruxaria? Macumba?
— Já sei qual a resposta. Faça o favor de não falar mais comigo, e saiba que eu só estava tentando ajudar.
Vejo as lágrimas brotando no canto dos seus olhos. Tenho o impulso de levantar e abraça-la para pedir desculpas, mas ai, ela brilha novamente e sua expressão de tristeza é substituída por uma de alegria e repúdio. Ela sai do quarto a passos largos.
Quando me dou conta de que já se passaram três dias, provavelmente, sem que eu tenha escovado os dentes, tomado banho ou sequer penteado os cabelos, levanto-me para ir ao banheiro.
Ao longo do corredor, há quadros com pinturas pendurados nas paredes. Lindos, Picasso, Leonardo da Vinci. Provavelmente, nenhum é verdadeiro, mas são ótimas cópias.
Chegando ao banheiro, pego uma toalha no balcão e retiro minha roupa. Olho-me no espelho. Meus cabelos estão completamente desarrumados, minha franja cai sobre os olhos. Meu cabelo nunca foi muito escuro, mas hoje, ele está particularmente claro. Minhas espinhas, que não eram muitas, sumiram. Nunca fui a pessoa mais musculosa do mundo, na verdade eu sempre fui o magricela da turma. Só que parece que isso mudou. Meus bíceps estão definidos, meu peitoral também. Tudo isso está muito estranho.
Ligo o chuveiro e entro no Box.
Sinto a água escorrendo pelo meu corpo, essa sempre foi uma ótima sensação, mas parece ainda melhor por fazer dias que não me lavo.
Depois de me lavar completamente, desligo o chuveiro, saio do Box e puxo a toalha de cima do balcão. Infelizmente ela estava embaixo de um recipiente de vidro que continha sabonete líquido, minha mãe falava que era o preferido da minha tia. Não sei se falava do objeto ou do sabonete. Provavelmente do objeto. Era cheio de detalhes, flores, folhas e pássaros.
Quando vejo que está caindo, levo minha outra mão para pegá-lo, sei que não conseguirei, mas tento mesmo assim.
Percebo que estou ficando completamente louco, quando o recipiente de vidro flutua no ar.
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