Eu corria por entre as árvores daquela floresta, não conseguia ver muito bem, pois estava um pouco escuro devido às nuvens negras de chuva que encobriam todo o céu azul, a chuva forte caia sobre minha pele me deixando com um pouco de frio. Depois de tudo o que passei todos os dias eu pensava em suicídio, mas agora que a morte estava tão perto eu já não a queria mais, eu já não era mais aquela garotinha que todos conheceram, agora eu era diferente, era cruel e tudo dentro de mim era apenas ódio. E já estava perdendo o fôlego de correr, mas eu sabia que aquelas criaturas ainda estavam atrás de mim, aquelas feras repugnantes. Eu sabia que fora Ele que enviara aqueles lobos atrás de mim, eu sabia que não sobreviveria, mas mesmo assim continuava correndo, se eu achasse um portal pelo menos eu teria alguma chance de sobreviver. Aqui não é exatamente o mundo onde humanos vivem em quase pacifica paz, aqui é um mundo onde há criaturas que eu só imaginava existir em contos de fadas, mas aqui elas são reais e eu era a pobre donzela humana em perigo, que idiota, queria ser forte e mostrar que só porque sou uma mulher não quer dizer que sou frágil e bondosa. Se eu sobrevivesse a tudo isso eu juro que escreveria um livro porque tudo o que eu vivi é exatamente um conto de fadas, só que com certeza seria sem final feliz, e meu final estava mais próximo do que eu imaginava.

Senti uma patada em minhas costas, senti garras rasgarem minha pele e eu cai no chão, me virei ficando de barriga para cima, antes que eu pudesse recuar vi dois lobos com o dobro de meu tamanho com sua garras e dentes vindo para cima de mim, rasgando minha pele e fazendo que seu pelo branco e cinza tomassem uma cor avermelhada, a dor e meu desespero eram algo inevitáveis, eu sabia que era meu fim, sabia que a dor logo passaria e eu me perderia na escuridão eterna, mas que diferença isso faria se para minha família e amigos eu estava morta a tantos anos? A dor era insuportável, me arrancava gritos e lagrimas, por fim meu corpo ficou sem forças e eu não gritava mais, não me debatia, e como o esperado os cães sarnentos me deixaram no chão daquela floresta com a chuva batendo em minha pele, eu sabia que fora Ele que mandara me matar, era típico dele deixar suas vitimas agonizando e morrendo vagarosamente, e eu seria mais uma de suas vitimas inocentes. Eu sentia o sangue deixar meu corpo lentamente ou nem tanto, tudo o que eu queria era me vingar de todos que me fizeram mal.

Não tinha mais forças para me mover, nem gritar por socorro, mesmo que conseguisse correr me perderia na imensa floresta e morreria. Então era apenas a morte meu destino, não havia mais o que fazer, fiquei alguns minutos inerte naquele chão olhando a copa das árvores, me arrependendo do que eu não fiz em tempo e pensando como seria a morte.

Vi alguém se aproximar e temi ser Ele, usava uma capa negra e longa, seus cabelos eram loiros claros, não conseguia ver muita coisa, minha visão começara a ficar embaçada, mas fiquei um pouco mais tranqüila se é que era possível por saber que não era Ele que estava ali, não queria que Ele visse minha morte, isso o deixaria alegre e eu não gostaria que Ele ficasse feliz, pelo contrario eu o desejava tudo de ruim que a vida poderia lhe proporcionar.

O estranho se aproximou, não sei se ele se ajoelhou ou o que, ouvi sua voz perto de meu ouvido já que eu mal ouvia.

- Já deve ter ouvido sobre o que eu sou, faço trocas com humanos e é incrível achar um humano num mundo como este, será que posso fazer algo por você?

Queria sorrir, mas não conseguia, eu sabia o que ele era, já tinha ouvido as historias de demônios, mas nunca pensei que encontraria com um.

- Quero me vingar. – Disse em um leve sussurro, minha forças se iam depressa agora, a dor era quase a única coisa que eu sentia, parecia que ela tinha aumentado um pouco.

- E em troca o que você me da? – Disse ele, eu sabia muito bem o que demônios adoravam e com certeza era o que ele queria.

- Minha alma.

- É uma troca justa. – Ainda podia sentia alguma coisa, senti braços envolverem meu corpo e me levantarem, eu poderia ter entrado em desespero com o toque de um homem em mim, mas eu sabia que aquele demônio não era Ele.

Eu já não via mais, muito pouco, apenas vultos, não sabia onde estávamos indo mas foi rápido, era um lugar onde a chuva não podia nos tocar, era quente e mal iluminado, senti meu corpo encontrar contra algo extenso, o chão quem sabe, e minha pele tocar algo um tanto macio e quente, um pelego de algum animal.

- Vamos ao pacto então. – Disse ele.

Senti seus dedos pegarem minha mão direita, senti lábios macios contra as costas desta, depois senti sua língua nas feridas de minha mão e braço, onde sua saliva passava parecia que amenizava a dor, era engraçado o que eu sentia, era dor pelos ferimentos e um certo prazer por sentir sua língua contra minha pele.

Não sabia direito o que estava acontecendo, mas parecia que a dor diminuía e minhas forças iam voltando pouco a pouco, ainda estava muito fraca, deveria ter perdido muito sangue, mas agora eu não sentia meu sangue me escapar do corpo, senti o hálito do estranho em meu pescoço, depois duas coisinhas pontiagudas, finas e afiadas perfurarem minha pele, mas a dor não foi problema, nem se compara a que eu sentia pelo meu corpo. Logo depois não sei explicar exatamente o que senti, era como se eu tivesse chegado ao ápice do prazer e me perdesse por lá, seria um ótimo jeito de morrer, era como se eu esquecesse onde estava, quem eu era, o que havia acontecido, e tudo o mais, eu apenas sentia prazer, era como se não houvesse nada em minha mente. Mas infelizmente o prazer passou quando as coisas pontiagudas saíram de meu pescoço, eu pude lembrar quem eu era, o que acontecera, e a dor voltara, ainda estava fraca, mal conseguia me mover, senti lábios contra os meus, abri eles um pouco e senti um liquido um tanto morno invadir minha boca, tinha um gosto estranho, era como se eu lambesse uma grande barra de ferro. Engoli tudo ou eu me afogaria já que os lábios continuavam contra os meus, depois que eu terminei e senti os lábios se distanciarem de novo tive uma sensação estranha dentro de mim, uma adrenalina, uma ardência, um calor, era estranho distinguir, parecia que aquela sensação se espalhava pelo meu corpo, não sei quanto tempo levou entre o intervalo quando bebi aquele liquido e quando essa sensação começou, deveria ter sido alguns minutos. Abri meus olhos, agora eu podia ver tudo direito, mas meu corpo ainda estava pesado e não respondia muito aos meus comandos, pude ver o rosto do demônio, sempre pensei que eles seriam criaturas horríveis feias, deformadas, mas o que eu via ali parecia um anjo, seus cabelos eram loiros, sua pele pálida, sua boca fina, nariz fino e pequeno, olhos verdes, cabelos cacheados, vestia uma capa que cobria seu corpo, ele tinha um sorriso de canto que o deixava sedutor, ele pegou meu braço onde havia um grande corte, e passou sua língua por ali, novamente veio a sensação estranha de dor e prazer, percebi que onde ele passava sua saliva minhas feridas se fechavam, olhei para meu outro braço onde não havia mais feridas. Minhas roupas estavam em trapos, foi fácil para ele arrancar o resto delas me deixando apenas de roupas intimas, fiquei um pouco receosa, pois me lembrava Dele. Dessa vez sua boca foi ao encontro de meu pé e foi subindo fechando todas as feridas abertas, cada vez a dor era menor e o prazer maior, então apenas fechei meus olhos e me entreguei àquela sensação de prazer, nunca havia sentido nada igual antes, poderia ficar ali para sempre. Essas sensações fizeram despertar em mim um desejo estranho de ter aquele estranho mais perto de mim, queria sentir seu calor, queria sentir sua pele contra a minha, mas antes que pudesse fazer algo senti uma dor muito forte tomar conta de meu corpo, era como se meus músculos se encolhessem, minha pele parecia ser queimada, e meus ossos quebrados, tudo o que eu conseguia fazer era gritar e me retorcer, mas isso logo passou, não sei o que aconteceu, mas meus olhos pesaram e eu adormeci.