The Other Side: O Ciclo das Almas
1 Marcada para Morrer
Meu nome é Ingrid, eu tenho dezesseis anos e hoje faz exatamente um mês que minha melhor amiga, Bethany, faleceu após ter sofrido um grave acidente de carro, estou sentindo muito a falta dela, por isso hoje vou até New York, que fica há uns 60 km de onde eu moro, para fazer as coisas que eu costumava fazer com ela quando íamos para lá. Acordei eram sete horas da manhã, me arrumei, desci as escadas e me deparei com uma notícia muito curiosa e inusitada na televisão, foram tiradas fotos de duas pessoas que estavam supostamente mortas, reconheci um deles, era Tomas, um homem de cinquenta anos que morreu há duas semanas devido a um tumor nos ossos, mas como ele poderia estar vivo? Teria ele forjado a própria morte? Mas a que custo?
- Pai, eles disseram o que aconteceu exatamente com eles?
- Não filha, mas é muito estranho, Tomas tinha um tumor, por que ele fugiria?
- Pessoas voltando dos mortos, será que B...
Eu não consegui prosseguir, só de pensar já consigo sentir meus olhos se enchendo de lágrimas. Meu pai parece não ter compreendido que eu iria me referir a ela.
- O que você estava dizendo filha?
- Eu vou tomar café da manhã em New York.
Disfarcei, acho que ele não havia prestado muita atenção no que eu tinha dito antes então não foi difícil mudar de assunto.
- Tem certeza? Não vai sentir fome no caminho?
- Não pai, você pode me deixar no Roses.
Comecei a me sentir triste, Roses é um lugar aonde eu sempre ia com a Bethany, nós costumávamos tomar café da manhã lá quando íamos bem cedinho para New York.
- Ok! Já que insiste.
A viagem foi um tanto triste, eu sempre ia para lá com minha melhor amiga e agora estou só eu e meu pai, por isso eu dormi a viajem inteira, é melhor isso do que ficar lembrando que minha melhor amiga não está mais aqui comigo.
- Está entregue filha, eu venho te buscar aqui no Roses às quatro.
- Tchau pai.
- Tchau filha.
Sentei em uma mesa lá fora, o clima estava gostoso, não era calor e até tinha uma brisa fresquinha.
- Olá Ingrid! Quanto tempo!
Bem, eu e Bethany íamos tanto lá que uma das garçonetes era nossa amiga, o nome dela era Caitlin, mas todos a chamam de Cat, ela tinha cabelos longos e pretos, sua pele era morena e seus olhos cor de mel.
- É, aconteceu muita coisa nesse mês.
- Eu vi as notícias, eu sinto muito por ela, uma garota tão radiante, tão simpática. Eu realmente sentirei falta dela.
Naquele momento meus olhos encheram-se de lágrimas novamente, mas eu não vou chorar, tenho que lidar com isso. A tristeza sentida na morte de alguém nunca passa, você só aprende a conviver com esse sentimento e eu estou tentando lidar com isso.
- Bem, eu também sinto a falta dela, você não tem ideia. É como se metade da pessoa que eu era foi embora.
- Já que eu estou aqui, o que você vai querer?
- Duas panquecas e um capuchino. Eu estou faminta, não comi nada em casa.
- Já volto com seu pedido Ingrid.
Eu fiquei admirando a rua e as pessoas que passavam nela, pensando nas histórias que cada uma delas deve carregar consigo. Logo chegou meu pedido e eu comi lentamente enquanto observava tudo o que acontecia ao meu redor, quando terminei fui até o caixa e encontrei Cat de novo.
- Oi Cat, veja para mim quando deu tudo e faça mais um capuchino para levar, por favor.
- Já vai indo Ingrid?
- Sim, quero ir ao Central Park e depois passarei o resto do meu tempo aqui em New York no shopping.
- Bons planos! Tudo fica onze dólares e cinquenta centavos. Agora só aguarde um minutinho que eu já vou fazer seu capuchino. Ah! E Ingrid esse segundo capuchino que você pediu é por conta da casa.
- Obrigado, Cat! É muito gentil de sua parte.
Assim que meu capuchino ficou pronto, eu fui a caminho do Central Park, mas antes eu deixei uma boa gorjeta para Cat, afinal de contas, ela merece. Fui todo o trajeto admirando como New York era linda, exceto pelo fato de haver muito lixo, onde eu estava não havia muito, mas já fui a lugares nessa cidade que eram muito poluídos pelos lixos. Agora devem faltar uns três quarteirões para chegar ao Central Park, já que decidi ir a pé. É impressionante o número de pessoas diferentes em New York, porém eu posso jurar que tem uma garota de casaco preto me observando no outro lado da rua, virei para trás e fiquei mais espantado ainda, pois a garota me observando era IDÊNTICA a Bethany, cabelo castanho liso e longo combinados a belos olhos castanhos, porém, ao me ver ela vestiu o capuz e saiu andando rápido, será que era ela? Bem, foram avistadas pessoas já consideradas mortas hoje de manhã, eu não vou perder essa oportunidade, saí correndo atrás da garota encapuzada, a segui até um beco, sem ter uma saída, ela ficou de costas para que eu não visse quem era ela.
- Bethany! É você mesmo?
Então ela virou para mim e tirou o capuz. EU SABIA! Era ela, mas como? Por quê? Foi em direção a ela para abraça-la quando me interrompeu.
- Ingrid, se afaste de mim, não encoste em mim, por favor!
- Como assim, Bethany? Pensei durante um mês inteiro que você estava morta e agora não posso chegar perto de você.
- Olha, eu ainda estou morta, eu vou te explicar tudo, prometo, mas antes você tem que me prometer que aconteça o que acontecer você não vai encostar em mim, certo?
- Ok, mas, por favor, eu quero que me conte tudo.
- Vem, vamos para um lugar mais apropriado.
Eu não sabia o que estava sentindo, eu estava com raiva por ela ter estado aqui esse tempo todo ou alegre por ela estar viva, é como se eu quisesse abraça-la e dar um tapa na cara dela ao mesmo tempo. Eu a segui sem questionar nada no caminho, ela me levou até o estacionamento de um shopping.
- Pronto! Aqui vai ter pouca gente.
- Comece pelo começo, Bethany.
- Quando todo mundo morre, primeiro a pessoa fica em um lugar chamado Purgatório, um lugar onde as almas se preparam para abandonar este mundo, pois ela só pode partir se aceitar a sua morte.
- E o que acontece se ela não aceitar?
- Se alguém não aceitar que está morto, em um ano, a alma vira uma sombra, fica vagando pelo mundo eternamente usando as sombras de objetos e pessoas, sem poder fazer nada além de observar a vida dos outros passar.
- Isso parece ser horrível!
- É mesmo, mas existem poucos que viram sombras, para falar a verdade, a maioria leva em média duas semanas para deixarem este mundo.
- Você está morta, mas não é uma sombra, quanto tempo você levou para aceitar a sua morte?
- E é aí que entra o fato de eu estar ainda no mundo dos vivos. Após morrer, eu fiquei observando meus pais e você chorando, enquanto eu chorava junto, levei apenas um dia para aceitar minha morte, fiquei assistindo meu enterro e quando terminou, eu sabia que não havia nada que eu podia fazer, então me despedi da minha família e de você mesmo que vocês não pudessem ouvir, foi tão difícil dizer adeus, você estava chorando muito abraçada em um travesseiro.
Bethany começou a chorar, e eu a consolei.
- Tudo bem, já passou. Você está aqui comigo agora.
- Desculpe, eu só queria ter tido mais tempo.
- Você está tendo agora e quando chegar a hora de você partir, poderá se despedir enquanto eu ouço dessa vez.
- Depois que aceitei minha morte, fiz o que era preciso para partir, abraçar o anjo da morte.
- Anjo da morte?
- As estatuas são na verdade os anjos da morte, porém petrificados, mas mesmo assim eles sabem tudo o que acontece no Purgatório. E quando você abraça um, você deixa esse mundo, porém ao invés disso eu vim para aqui de novo.
- Como foi?
- Bem quando percebi que não estava mais no Purgatório, eu abri os olhos e percebi que estava na terra, então comecei a me mexer desesperadamente até sair completamente de lá, estava sem roupa e toda coberta de barro, foi aí que me dei conta de que estava no exato local em que morri, eu pedi ajuda para alguém, mas quando encostei nessa pessoa, ela foi para o Purgatório e quando eu encostei nela novamente, ela voltou para o mundo normal, meus pais estavam na casa de meus avós, então fui até minha casa, tomei banho, peguei algumas roupas, um pouco de dinheiro e fui para New York me esconder, depois voltei para o Purgatório e descobri que a travessia estava dando errado e todos que abraçavam o anjo da morte voltavam para este mundo e nasciam da terra no lugar onde morreram. Essas pessoas eram como portais, se encostar você pode transitar entre o Purgatório e o mundo dos vivos, porém se vivos iam para o Purgatório eles morriam no mesmo dia em que voltavam para o mundo deles, pois humanos que vão para lá são marcados pelos anjos da morte, é por isso que você não pode me tocar.
- Agora tudo faz sentido!
- Sim, e os mortos que voltam para terra ganham superpoderes, o meu é fogo, mais tarde você consegue desbloquear seu poder áureo, um poder que muda o sentimento e as emoções das pessoas para ajudar a humanidade. Eu acho que o meu vai ser Chama da Paixão, pois não há outro sentimento bom ligado ao fogo.
- Por que você não disse antes? Isso é muito legal!
- Mas eles servem apenas para ajudar a humanidade, e também estão ocorrendo rumores no Purgatório de que esses poderes na verdade são para combater as sombras, pois há quem diga que elas voltarão para forma normal em busca de vingança.
- O que vamos fazer?
- EU vou tentar achar o que está causando essas anomalias, já VOCÊ vai ficar fora disso.
- Mas eu quero ajudar.
- Ingrid, esse é um assunto para gente morta, se você ajudar, pode acabar morta.
- Tem razão. E o que faço agora?
- Aproveitando que estou aqui, que tal um cinema?
- Sim, mas e depois, nunca mais vamos nos ver de novo?
- Claro que vamos, mas eu vou continuar em New York, podemos nos ver sempre que você vem para cá, eu vou adicionar o seu número no meu novo celular, continua o mesmo não é?
Bethany estava um pouco a minha frente, distraída com o celular, quando um cara, provavelmente bêbado, apareceu dirigindo um carro a toda velocidade e ia bater na nela, eu simplesmente não podia aceitar a ideia de perdê-la novamente, então eu me joguei em cima do carro empurrando a Bethany para longe, porém havia esquecido que ela já estava morta e não precisava ter feito aquilo, fechei os olhos enquanto caia pensando que ficaria paraplégica ou morreria, mas quando abri meus olhos, eu já estava no chão e não tinha sentido nada, tudo ao meu redor estava em um tom acinzentado, exceto pelas pessoas e os objetos, que tinham um tom azulado e de certo modo brilhavam mesmo apresentando certa transparência. Espera um pouco! Eu toquei Bethany! Então eu estou... NO PURGATÓRIO!
Notas finais
-Filha, eu estou aqui no Roses, onde você está?
-[...], tudo ao meu redor lembra ela,[...]
- Ingrid, eu sinto muito.
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