The Only Exception
1 A Única Exceção
Notas iniciais
Claire andava pelas ruas da pequena Ellicott City, em Maryland, Estados Unidos. Por todo lugar que passava, pessoas olhavam torto para ela, se perguntando quem era aquela. Ninguém na cidade tinha cabelos coloridos, no máximo alguns ruivos naturais. Ela tinha o cabelo verde, lilás e azul. Todos na cidade usavam roupas simples, no máximo um anel. Ela usava jaquetas, pulseiras e braceletes, todos de couro. Todos saíam com o rosto natural, no máximo um batom clarinho. Ela utilizava batom vermelho e tinha uma argola no nariz. Ela não era a ovelha negra da família, ela era a ovelha negra da cidade. Não era como as outras garotas, não queria um príncipe encantado e um final feliz. Até porque isso não existia, e ela sabia muito bem disso. Preferia um vilão e uma relação complicada, com brigas e tudo, isso sim era realista.
Embora soubesse que amor não existia, que não passava de uma mera ilusão, ela queria uma relação com alguém que ela gostasse e tivesse um afeto maior, que todos chamariam de amor, mas ela saberia que aquilo não era amor. Amor não passava de um sentimento criado por contos de fadas para iludir pessoas, dando a falsa esperança de que você acharia alguém. Para que você achasse que iria ser feliz até o fim de sua vida. Ela já fora vítima dessa ilusão, todos são. Mas a dela acabou cedo demais.
Quando aconteceu foi um choque de realidade, tudo foi muito rápido. O pai e a mãe brigaram e, num momento de raiva, o pai a traiu. A mãe descobriu, e pediu divórcio. O pai disse que a amava. A mulher não acreditou, e disse que nunca esqueceria. Então saiu de casa. O pai tinha quebrado o próprio coração, e Claire passou meses vendo o pai voltar, bêbado, para casa, tentando se recompor. Então ela perguntou ao pai porque a mãe fora embora, se eles se amavam, e o amor era indestrutível. Ele, bêbado como estava, lhe disse que o amor não existia. Ela ficou perplexa, e passou horas a fio pensando no assunto, até se dar conta de que era verdade. Então se isolou do mundo, e parou de se vestir igual a todos e querer um príncipe encantado. Ela se contentava com a solidão.
Num dia perfeitamente normal, exatamente como todos os outros, um homem apareceu na cidade. Ele chegou numa moto vermelha, vestindo um jeans escuro, uma camisa branca e uma jaqueta de couro. Tirou o capacete, revelando cabelos azuis e quando tirou os óculos escuros, deixou à mostra olhos cor de chocolate. Entrou no café mais próximo. Quando ouviu a porta sendo aberta, Claire não olhou para ver quem era, provavelmente alguém que seguia os padrões da cidade, então se concentrou no seu bolo. Mas, ao invés do burburinho normal do café, este entrou em um silêncio profundo, e todos encararam a porta. Com essa reação incomum, Claire encarou a porta também, e se surpreendeu ao ver um homem de cabelos azuis. Seu olhar ficou nele durante um longo tempo, e quando percebeu que a única menina diferente do lugar o observava, lançou para ela um sorriso de lado, e Claire, como não era idiota, retribuiu. Ele andou até o balcão e pediu um bolo branco com cobertura de chocolate e recheio de doce de leite. O favorito dela, o bolo que estava comendo naquele momento. Ela rapidamente se virou e voltou a comer e escrever uma música quando notou que ele vinha em sua direção.
— Oi. Posso me sentar aqui?
A garota encarou o sujeito de cabelos azuis celeste, pensando no que responder. Ninguém nunca se sentava com ela, a pergunta a pegou de surpresa.
— Claro.
Ele se sentou e logo a garçonete lhe trouxe o bolo, colocando a comida em frente a ele e saindo de perto o mais rápido possível. Claire continuou escrevendo sua música em paz, enquanto o rapaz apreciava seu doce, até que ele resolveu quebrar o gelo.
— O que tanto escreve?
— Uma música.
— Você canta?
— Canto, mas sozinha. As pessoas daqui não gostam de mim, me acham estranha. E você, canta?
— Não. Mas toco guitarra, baixo, violão e teclado.
A garota sorri. Alguém ali a compreendia. Ninguém mais naquela cidade seguia carreira musical. Ela era incompreendida.
— Então, senhor de cabelos azuis, posso saber seu nome?
— James. James Clockword. E qual seria seu nome, senhorita de cabelos coloridos?
— Claire. Claire Hudson.
— Claire. Claire. Nome bonito esse, Claire. Então, Claire, você poderia me mostrar a cidade? Acabei de me mudar para cá, e não acho que nenhuma outra pessoa me mostraria a cidade de bom grado.
A menina o olhou, espantada. Afinal, quem em sã consciência, se mudaria para Ellicott City?
— O que quer que você tenha visto da entrada da cidade até aqui, o resto da mesma é igual, até as pessoas.
— Então você poderia me levar até meu apartamento novo? Ainda não sei me situar direito nas ruas dessa cidade.
— Por que não?
Ele então lhe deu o endereço escrito em um papel, e ela montou na garupa da moto dele, e enquanto ele dirigia, ela lhe dava as coordenadas, conferindo no papel para ver se estava as dando corretamente. Quando chegaram ao prédio correto, ele estacionou a moto e ambos desceram.
— Quer carona para casa, Claire?
— Não, obrigada. Minha casa é aqui perto, e eu sempre me locomovo a pé.
Ficaram um minuto em silêncio, dois minutos, três minutos...
— Claire?
— Sim?
— Vamos a um restaurante hoje a noite?
Ela sorriu, queria muito este convite.
— Claro! Eu tenho o restaurante perfeito! Mas vai ter que se vestir formalmente, por mais que eu mesma odeie as roupas, a comida compensa.
O garoto sorriu. Estava com medo de ser rejeitado.
— Te pego as sete?
— Claro! Aqui está meu endereço.
A menina de cabelos coloridos lhe entrega um papel com a explicação de como chegar em sua casa, sabia que o garoto novo não saberia chegar em sua casa por nomes de ruas ou números.
— Então está marcado!
— Tchau, James.
— Tchau, Claire.
A garota então saiu andando pelas ruas, até chegar a seu apartamento, onde cumprimentou o pai e foi tomar um banho, lavando os cabelos coloridos e os hidratando. Então passou o resto da tarde escrevendo músicas e mais músicas, mas, como sempre, nenhuma sobre o amor. Quando faltavam trinta minutos para as 7h00min, Claire foi escolher uma roupa, e acabou escolhendo um vestido preto tomara que caia, com um sapato da mesma cor sem salto (não gostava daquelas coisas, faziam seus pés doerem), e prendeu seus cabelos em um coque, deixando apenas a franja de lado solta. As 7h00min em ponto, a campainha soou, e Claire atendeu a porta, se deparando com o rapaz de olhos chocolate com uma camisa social branca e um jeans escuro, além de sapatos sociais. Ele sorriu, e ela retribuiu, envergonhada.
— Vamos?
Ela apoiou sua mão no braço estendido de James e juntos desceram para o térreo. Foram para o restaurante, transportados por James, mas guiados por Claire. Ao chegar ao restaurante, pediram uma mesa para dois. A atendente os estava conduzindo para uma mesa isolada, mas James pediu uma mesa no centro do restaurante. A atendente olhou, nervosa, para os dois. O que iriam pensar do restaurante se os dois “rebeldes” se sentassem bem no centro do dele, com várias pessoas observando? Mas ela não poderia fazer nada, então os conduziu até a mesa desejada por eles, que logo se sentaram e fizeram os pedidos. Conversavam animadamente, ignorando os olhares incomodados de todos a sua volta. De longe, a atendente os observava. Não queria admitir, mas admirava os dois. O menino era novo, mas a menina ela conhecia. E a admirava por ter a coragem de quebrar os padrões da cidade, sem se importar com o que pensavam.
Após o jantar, eles foram para a casa de James, onde, enquanto conversavam, acabaram se beijando. Então se deitaram no sofá, James atrás e Claire na frente, ele com os braços rodeando a garota para ver um filme. No meio do filme, acabaram adormecendo.
Na manhã seguinte, Claire acordou antes dele, e suspirou. “Ainda bem”, pensou a garota. Cautelosamente, se desvencilhou dos braços do rapaz. Levantou-se do sofá, observou os cabelos azuis dele e suspirou. Escreveu um bilhete que dizia: “Me desculpa”, e foi embora, fechando a porta do apartamento do menino. Andava calmamente pelas ruas, quando ouviu seu nome ser gritado:
— Claire!
Virou-se e se deparou com uma mulher de mais ou menos 23 anos vestindo jeans rasgados e uma camiseta do AC/DC e coturnos, sem falar dos cabelos rosa forte de um corte totalmente bagunçado, desalinhado e repicado na altura dos ombros e com uma franjinha correndo em sua direção. Claire sabia que no dia anterior a mulher não era assim, pois a reconheceu como a atendente do restaurante. Quando Claire perguntou o que acontecera, Rebecca, a atendente, explicou: após o expediente, a loira de 23 anos pintou os cabelos de rosa choque e o cortou de maneira desalinhada na altura dos ombros. Além de fazer franjinha, trocou os vestidos longos por calças jeans e camisetas de bandas de rock, e os saltos por coturnos.
Provavelmente seria despedida, mas não se importava, afinal aquela era ela de verdade. Só precisava de um empurrãozinho que, naquela noite, mesmo que sem querer, Claire e James haviam lhe dado, e Rebecca pôde finalmente se libertar. Após toda a explicação, ela disse a Claire:
— Obrigada.
A mais nova sorriu.
— De nada.
Rebecca sorriu de volta e abraçou a garota, que retribuiu. A atendente foi embora e Claire foi até o apartamento, onde encontrou o pai sentado no sofá. Explicou ao pai onde esteve, e o senhor sorriu.
— Você está apaixonada, Claire.
— O amor não existe, pai, o senhor me disse isso.
Ele suspirou, olhou a filha nos olhos, e disse:
— Filha, o amor existe, só não é aquela coisa de contos de fadas, nem nada. O amor é um sentimento complicado, confuso e maluco, mas é maravilhoso e não vale só a pena, mas a galinha inteira passar tudo o que for preciso para sentir isso. Nenhum amor é igual, cada um é diferente, tem seu próprio modo. E parece que você achou o seu, Claire.
Ela então levantou de supetão e saiu correndo porta afora, mas não sem antes ver um lampejo de sorriso no rosto do pai. Os cabelos, já soltos a muito, balançavam ao vento enquanto a garota corria pelas ruas, pelas escadas do prédio de James, por falta de paciência de esperar o elevador, e finalmente pelo corredor do andar do apartamento do rapaz. Parou em frente à porta do apartamento, ofegante, e sorriu ao constatar que sem querer deixara a porta encostada ao invés de batê-la completamente.
Entrou, bateu a porta do apartamento silenciosamente, e pé ante pé, chegou em frente ao sofá, onde James ainda dormia calmamente. Então Claire amassou o bilhete que deixara e jogou-o no lixo. Cuidadosamente, voltou a deitar-se ao seu lado no sofá, e após colocar os braços do menino em volta de si novamente, não pôde evitar que um sorriso nascesse em seus lábios. Afinal, ela estava em seu meio de acreditar no amor. Assim como toda regra tinha uma exceção, ela também tinha. E ele era a sua.
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