The New Girl in the House
40 Shopping - Especial Wataru
Notas iniciais
– Nina, você está aí? – disse uma voz aflita.
Franzi o cenho, enfiando o brinco no lugar certo. Com certeza era Masaomi, eu só não sabia o motivo da histeria em sua voz.
– Está aberta – respondi, catando o outro brinco.
A porta do meu quarto foi aberta rapidamente, e o mais velho dos Asahina entrou. Estava vestido com suas tradicionais roupas de trabalho, até mesmo trazia o jaleco branco dobrado no braço direito. Girei nos calcanhares para vê-lo, franzindo o cenho.
– Você vai trabalhar hoje? Achei que era sua folga – indaguei.
Ele ergueu o olhar, estudando-me com aqueles olhos castanhos.
– É uma emergência, preciso ir para o hospital agora – ele disse.
Assenti, ainda que um pouco alarmada por aquela informação. Ele trabalhara direto durante a semana toda, será que nem no domingo Masaomi podia ter paz?
Suspirei, era injusto pensar assim. Mesmo estando preocupada com meu irmão, eu sabia que era muito egoísmo de minha parte querer que ele ficasse em casa hoje. Era uma emergência, tinha alguma criança doente precisando dele nesse exato momento.
– Tente não voltar muito tarde, você tem plantão amanhã – lembrei.
Ele deu um pequeno sorriso, para só então reparar nas roupas que eu vestia. Pisquei, seus olhos me esquadrilharam por completo. Senti meu rosto esquentar, não é todo dia que um lindo homem te olha dos pés a cabeça. Ele soltou um muxoxo quase desesperado, aflito.
– Não me diga que você também vai sair? – perguntou.
Franzi o cenho, cruzando os braços acima do peito.
– Eu avisei ontem que precisava ir ao shopping comprar alguns livros, falei isso durante o jantar – falei.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse lembrando daquilo quase tarde demais. Esperei, ainda de braços cruzados.
– Eu esqueci, me desculpe – ele disse – Posso te pedir um favor?
Fiz uma careta, mas assenti. Masaomi soltou um suspiro, olhando-me nos olhos enquanto soltava a bomba.
– Mamãe tinha prometido a Wataru que o levaria para passar a semana na casa dela, mas ocorreu um imprevisto e ela vai precisar passar mais alguns dias em Paris – ele disse – Eu ficaria com ele, mas preciso trabalhar. Não tem mais ninguém em casa, e mesmo assim, ninguém vai querer ficar com ele em uma tarde de domingo. Você pode fazer isso?
Abri a boca para responder, mas o olhar de Masaomi me roubou as palavras. Engoli em seco, ele continuou olhando nos meus olhos. Soltei um muxoxo, descruzando os braços.
– Mas eu preciso comprar meus livros – protestei.
– Pode levá-lo com você, Wataru adora ir ao shopping – Masaomi insistiu.
Fiz um bico, desesperada.
– Mas ele está com raiva de mim, você sabe disso – falei.
Masaomi respirou fundo, ficando repentinamente mais sério. Seu olhar encontrou o meu, engoli em seco.
– E ele tem toda razão, você sabe disso – ele disse.
Abri a boca para responder, mas tudo que consegui foi arquejar, vencida. Desviei o olhar até minha cama, encontrando meu celular repousando ao lado do meu elefante de pelúcia. Eu nem queria pensar em onde Fuuto estaria agora, talvez curtindo o domingo enquanto eu teria que aguentar a birra de Wataru. Eu amo meu pequeno, mas ele era especialista na arte de fazer você se arrepender de ter nascido, ou bebido, no meu caso.
– Posso ir trabalhar agora? – Masaomi perguntou.
Assenti, bufando de leve. Sua expressão se suavizou, ele deu um pequeno sorriso.
– Obrigado – disse, aliviado – Vou avisá-lo sobre o que conversamos.
Assenti de novo, dando-lhe as costas para terminar de me arrumar. Masaomi saiu do meu quarto, fechando a porta silenciosamente.
Wataru estava com raiva de mim por minha culpa, e por mais que eu estivesse tentando fazer com que ele me perdoasse, eu sentia como se fosse preciso mais do que uma hiena de pelúcia dessa vez. Ele nunca ficara tão frio comigo antes, era como um Louis em miniatura. Por mais que eu também estivesse enfrentando a repreensão de Azusa, Iori e até Natsume, era bem pior ter Wataru com raiva de mim. Ele era o único, tirando Louis, que não falava nem mesmo uma palavra comigo, olhava em minha direção ou notava minha existência. Eu já tentara me redimir várias vezes durante a semana, mas nada do que eu fiz tinha dado resultado. Passar uma tarde de domingo com ele talvez não fosse uma boa ideia, talvez fosse até pior do que passar uma tarde de domingo Jack, O Estripador.
Soltei um suspiro pesado, indo em direção à minha cama. Peguei meu celular, guardando-o dentro da bolsa logo em seguida. Já tinha ligado para a empresa de táxi que Miwa me aconselhara a usar, em breve um carro estaria me esperando. Eu já estava pronta, tudo que precisava fazer era descer, pegar Wataru e trancar a casa. Não eram tarefas difíceis, eu podia terminar tudo antes do táxi chegar.
Desliguei a luz do quarto e abri a porta, varando no corredor logo em seguida. Tranquei a porta do quarto. Mesmo que soubesse que ninguém ficaria em casa, nunca se sabe quando seu irmão ídolo idiota vai chegar e resolver mexer nas suas coisas – como ele já tinha feito uma vez. Segui pelo corredor, andando depressa para chegar logo ao meu destino. Desci as escadas num fôlego só, chegando à sala de estar onde uma figura mal-humorada me esperava.
Ele estava lindo, como um pequeno príncipe. Vestia uma calça jeans escura, contrastando com a blusa branca e com os tênis da mesma cor. Seus cabelos pareciam os de alguém que passara o dia todo dormindo, talvez ele estivesse tentando imitar a moda de Fuuto. Seus braços estavam cruzados acima do peito e ele fazia um bico de irritação, e mesmo assim, era a criança mais linda que eu já tinha visto na vida.
Soltei um suspiro, forçando um sorriso.
– Pela sua cara, você já sabe o que vamos fazer hoje – falei.
Ele bufou, empinando o nariz.
– Masa-nii já me disse, mas eu não estou disposto a te obedecer – ele disse.
Revirei os olhos, bufando.
– Que seja, só vamos comprar meus livros e voltar para casa, aí você faz o que bem entender – falei.
Wataru bufou, virando a cara para não me olhar. Revirei os olhos, fazendo o mesmo que ele. Parecíamos duas crianças fazendo birra daquele jeito, mas eu não ligava.
– Vamos, o táxi já deve estar chegando – falei.
Ele levantou do sofá, dirigindo-se em direção à porta sem olhar para mim. Segui-o, deixando que ele abrisse a porta e saísse na frente.
Sem dúvidas aquele seria um dia longo.
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– Eu quero aquele! – disse Wataru.
Ele apontava para um livro intitulado “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”, soltei um suspiro quase emocionado.
– Pegue todos, não é legal deixar a coleção incompleta – falei.
Ele assentiu, agarrando todos os livros de uma só vez e colocando-os no carrinho que eu pegara para colocar meus livros. Dei um meio sorriso, orgulhosa. Wataru se mostrava bastante inclinado a comprar livros, aquela já era a segunda saga que ele pedira para levar.
– Esse aqui é bom? – ele perguntou, agitando um livro na minha direção.
Olhei de relance para a capa do “A Menina que Roubava Livros”, dando um sorrisinho.
– Esse eu faço questão de levar para mim também, já ouvi ótimas coisas sobre ele – falei.
O pequeno assentiu, colocando dois exemplares do livro no carrinho. Encarei a tela do meu celular, clicando no ícone certo e constatando que já tinha tudo que precisava dali.
– Vou à seção de jogos – disse Wataru.
– Não se perca – falei, ainda encarando o celular.
Ele bufou, ignorando-me e afastando-se. Pelo menos ele avisara sobre o que ia fazer, aquele já era um progresso. Guardei o celular na bolsa, expirando com força. Peguei a alça do carrinho, dirigindo-me a área de pagamento. Encontrei três filas enormes diante dos três guichês em funcionamento, era o dia de promoção da livraria. Soltei um suspiro pesado, escolhendo a fila do meio. Devia ter cerca de sete pessoas na minha frente, eu teria tempo para fazer qualquer coisa.
Tirei o celular da bolsa outra vez, desbloqueando a tela. Deparei-me com uma nova mensagem, abri-a de imediato.
Me ligue assim que puder.
Mamãe ♥
Franzi o cenho, um pouco confusa. Mamãe ligava sempre que queria, não importava o horário. Ela nunca me mandava uma mensagem como aquela, ela devia estar ocupada. Toquei no ícone certo e levei o celular à orelha, esperando apenas durante dois segundo para que ela atendesse.
–...Flores, precisamos de muitas flores – disse a voz da minha mãe – Ah, querida. Que bom que consegui falar com você, parece que todos os meus filhos estão incomunicáveis hoje!
Ri um pouco, ouvindo várias vozes vindas do outro lado da linha.
– Estão todos ocupados hoje, deve ser por isso – falei – Estou no shopping com Wataru, a senhora precisa de alguma coisa?
– Francis, gardênias e rosas, dois centos de cada – ela disse, antes de suspirar – Estou presa em um projeto com uma marca parisiense muito famosa, vamos fazer uma junção de estilos e lançar uma nova coleção aí em Tókio na semana que vem.
– Sim, eu fiquei sabendo disso, estou muito feliz por você – falei, animada.
Ela riu, contente. Ouvi alguém dizer alguma coisa num francês muito rápido, minha mãe respondeu na mesma língua. Esperei, mordendo o lábio.
– Vamos organizar uma festa importante no dia 12, e eu preciso que minhas duas filhas estejam presentes – ela disse, como se nunca tivesse interrompido nossa conversa – Ema já confirmou presença, mas até agora eu não consegui falar com você.
Arquejei, engolindo em seco. Aceitaria, claro, mas era um grande pedido. Era uma festa importante, como Miwa acabara de dizer. Festas do ramo da moda, juntando duas marcas influentes de duas cidades influentes. Eu iria encontrar, no mínimo, metade das modelos lindas que eu admirava na vida. Eu ficaria muito animada, mas da última vez que eu fui ao encontro de modelos famosas, meus pais tinham morrido.
– A senhora está me pedindo para ir? – perguntei, levemente incerta.
– Exatamente, eu realmente... Julieta, Organiser toutes les robes qui seront utilisés dans le défilé, s'il vous plaît – ela disse, arquejando – Desculpe, querida. O dia hoje está movimentado.
Dei uma risadinha nervosa, engolindo em seco. Ouvi um suave barulho na livraria, percebendo que era minha vez de pagar. Apressei-me a andar, colocando os livros na bancada.
– Eu posso ir sim, não se preocupe – falei.
– Parfait! Essa é minha filha – disse Miwa, rindo – Preciso ir agora, ligo de novo no decorrer da semana.
Assenti, entregando meu cartão de crédito à moça do caixa.
– Bom trabalho, estou com saudade – falei.
Mamãe beijou o telefone, encerrando a chamada. Ri de novo, Hikaru também fazia isso sempre que falava comigo. Guardei o celular na bolsa, abrindo um sorriso feliz. A moça do caixa sorriu enquanto embalava meus livros, talvez contagiada por minha alegria.
– Namorado? – ela perguntou, gentil.
Ri de leve, negando com a cabeça.
– Minha mãe, na verdade – respondi.
Ela sorriu, assentindo em entendimento. Esperei até que ela me devolvesse meu cartão de crédito, pegando minha sacola logo em seguida. Acenei, ela fez o mesmo. Afastei-me da área de pagamento, satisfeita com minhas compras. A sacola estava bem cheia, pesada, até. Eu tinha comprado quatro livros para mim, fora as sagas que Wataru pedira. Ao todo eram mais de dez livros, pelo visto eu precisaria de ajuda para levar tudo.
Olhei em volta, esticando o pescoço. Localizei Wataru perto de uma grande estante cheia de jogos para Xbox, soltei um suspiro. Fui até lá, desviando das pilhas de livros que encontrei no caminho. Parei de andar bem do lado do pequeno, mas ele estava concentrado demais no jogo que segurava para notar minha presença. Suspirei, abrindo um pequeno sorriso. Pousei minha mão em seu ombro, ele pareceu tomar um choque. Wataru ergueu o rosto, nosso olhar se encontrou.
– Se assustou? – perguntei.
Ele bufou, largando o jogo na estante. Franzi o cenho, o pequeno desvencilhou-se de meu toque.
– Claro que não – ele disse, duro.
Fiz uma careta, cruzando os braços.
– Não foi o que pareceu, você deu um pulo – insisti.
O rosto de Wataru ficou ligeiramente vermelho, ele me deu as costas.
– Mentira – guinchou.
Expirei pesadamente, tentando não revirar os olhos.
– Quer que eu vá na sala de segurança? Eles devem ter câmeras filmando aqui, aposto que uma delas captou sua reação – falei.
O pequeno grunhiu, sacudindo a cabeça e bufando com raiva. Sem falar mais nada, Wataru começou a marchar em direção à saída da livraria. Revirei os olhos, mordendo a língua para refrear um muxoxo. Tinha sido assim durante a semana toda, como eu ainda aguentava?
Bufando, comecei a seguir meu irmãozinho. Ele pareceu notar minha presença em seu encalço, mas apenas bufou e me ignorou. Respirei fundo, contando de um até dez em espanhol. Saímos da livraria, varando no corredor movimentado do shopping. Olhei em volta, tentando lembrar se precisava de mais alguma coisa. Felizmente, meu guarda roupas estava cheio, eu tinha livros novos para ler e tinha comprados novos fones de ouvido na semana passada. Suspirei, baixando o olhar até onde meu irmãozinho estava. Wataru fingiu que não tinha me visto, apenas sentou em um banco livre perto de onde estávamos. Respirei fundo para me manter calma, indo até ele. Sentei ao seu lado, depositando minha sacola entre nós dois. Suspirei, engolindo em seco para tentar forçar um sorriso.
– Bom, eu não tenho mais nada pra fazer aqui. Você quer ir a algum lugar? – perguntei.
Ele cruzou os braços, ignorando minhas palavras. Respirei fundo de novo, meu sorriso falso agora devia estar parecendo uma careta desfigurada. Engoli em seco, tentando ficar calma.
– Vejamos – falei, arquejando – Já comprei livros para mim, para você e para dar de presente ao Yelisei. Já comprei bolo para você, você já foi na seção de jogos e você já tomou sorvete, acho que já podemos ir para casa agora.
Wataru bufou, lançando-me um olhar quase gélido. Meus pelos se eriçaram, era como estar diante de um Fuuto em miniatura.
– Você nem pagou sorvete para mim, eu não posso ir para casa ainda – ele disse.
Franzi o cenho, engolindo em seco.
– Mas você disse que não queria que eu pagasse, disse que queria pagar com seu próprio dinheiro – lembrei.
Ele bufou, quase desdenhoso.
– Mas você devia insistir e pagar o sorvete, não é isso que as irmãs de verdade fazem? – ele indagou.
Trinquei os dentes, grunhindo de raiva.
– Talvez seja isso que as irmãs de verdade fazem, mas elas só devem fazer isso para os irmãos de verdade! – rebati.
– Eu sou um irmão de verdade, você que não passa de uma chata! – ele disse.
Grunhi, enterrando o rosto nas mãos.
– Meu Deus, o que foi que eu fiz? – perguntei, beirando o desespero – Eu não aguento mais, você tá me deixando louca!
Wataru deu um soco no banco, fazendo um barulho alto que atraiu a atenção de quase todo mundo que passava pelo corredor.
– Eu disse que nunca ia te perdoar, eu não vou voltar atrás! – berrou.
Senti minha cabeça girar, as pessoas olhavam a cena como se fosse uma novela. Soltei um muxoxo, deitando a cabeça em meus joelhos.
– Eu nunca mais vou beber na minha vida – choraminguei.
Meu irmãozinho não disse nada, apenas bufou. Fechei os olhos, tentando não chorar de frustração. Eu sempre me dera bem com crianças, nunca tinha lidado com a birra de uma em toda minha vida. No orfanato, eu tinha o poder de fazer qualquer pequeno demônio virar um cordeirinho manso, no que estava errando agora? Será que era assim que as irmãs mais velhas se sentiam sempre? Aquilo estava parecendo um filme!
Senti como se uma lâmpada estivesse saindo da minha cabeça, abri os olhos. Ergui a cabeça, sentindo que meus cabelos estavam bagunçados. Ignorei, engolindo em seco. Respirei fundo, voltando a ficar ereta no banco. Wataru encarava o corredor, fingindo que não me olhava com os cantos dos olhos. Forcei um sorriso, tentando transformar minha voz aflita em algo mais carinhoso.
– Sabe o que eu acho? Nós precisamos pegar um cineminha e relaxar – falei – Eu compro muita pipoca e você escolhe um filme, pode ser?
Quase pude sentir sua postura mudar, ainda que ele tentasse disfarçar. Wataru não olhou para mim, mas eu pude ver seus olhos brilharem. Abri um sorriso esperançoso, mordendo o lábio.
– Eu quero assistir Os Vingadores – ele disse, baixinho.
Abri um sorriso emocionado, quase ouvindo uma orquestra sinfônica tocando “Aleluia” para mim. Respirei fundo, aliviada.
– Perfeito, ótima escolha – falei – Podemos ir agora?
Ele bufou, mas assentiu. Soltei um suspiro aliviado, sorrindo.
– Vamos lá – falei.
Wataru soltou um som engraçado do fundo da garganta, levantando-se do banco logo em seguida. Fiz o mesmo, pegando a sacola de livros.
– O cinema é um pouco longe daqui, temos que ser rápidos se quisermos pegar a sessão da tarde – falei.
– Eu sei, não sou burro – disse o pequeno, fazendo um bico.
Suspirei, sacudindo a cabeça. Estendi a mão em sua direção, torcendo internamente para que ele já estivesse mais tolerante comigo. Minha resposta foi uma expressão incrédula, suspirei.
– Como preferir – falei.
Ele bufou, cruzando os braços e dando-me as costas outra vez. Respirei fundo, sacudindo a cabeça. Algumas pessoas no corredor ainda nos observavam, fingi que não me importava. Wataru começou a marchar pelo corredor do shopping, como se me guiasse sem chamar por mim. Segui-o, mantendo uma distância segura. Dobramos uma esquerda, indo em direção às escadas rolantes. Olhei em volta para apreciar a decoração do shopping, já que estávamos cada vez mais perto do dia dos namorados. A fachada da maioria das lojas estava enfeitava com faixas e balões nos mais variados tons de vermelho, com serpentina dourada caindo aos montes. Era lindo de se ver, mas eu não queria ser a pessoa que limparia tudo aquilo depois. Até os bancos ali estavam decorados, tudo naquele corredor parecia chamar por mim. Me distraí por um segundo com um sapato lindo em uma vitrine, Wataru precisou puxar meu braço para que eu voltasse a andar.
– Por que você tem que parar em todas as lojas de sapato? – ele reclamou, alcançando o primeiro degrau da escada rolante.
Dei de ombros, rindo um pouco.
– É mais forte do que eu, sou uma menina – falei.
Wataru cruzou os braços, fazendo um bico e erguendo as sobrancelhas.
– Isso é puro consumismo, alguém devia colocar uma coleira em você toda vez que você vier ao shopping – ele disse.
As pessoas mais próximas riram, dei duro para não soltar uma gargalhada.
– Mas é isso que as meninas como eu fazem, quase nenhuma mulher resiste à uma vitrine, seja lá qual for – falei.
Ele bufou, revirando os olhos.
– Que bom que eu não sou menina – ele disse – E eu acho bom você não fazer como a mamãe: Me deixar sentado por horas em uma loja de roupas.
– Tão pequeno e já sofre tanto nas mãos das mulheres – disse alguém.
Olhei para o degrau abaixo de nós, deparando-me com dois homens na faixa etária de Iori. Eles sorriam para mim, quase predatórios. Wataru bufou, ainda fazendo aquele bico.
– Minha irmã não é uma mulher comum, ela é a rainha das compras – ele disse, quase debochado – Toda vez que ela sai, ela chega em casa com umas trinta sacolas, quase sempre cheias de sapatos.
Os dois homens riram, fiz uma careta.
– Ela te trata bem, ao menos? – perguntou um deles, o mais alto.
Wataru riu, cheio de escárnio.
– Ela praticamente me idolatra, mas vive fazendo besteira – ele disse – Inclusive, ela chegou em casa bêbada outro dia, e eu disse que nunca ia perdoá-la.
O mais baixo riu, lançando-me um olhar invasivo.
– Então ela é do tipo que sai para beber? – ele disse.
– Essas são as piores – disse o outro.
Franzi o cenho, levemente irritada.
– Com licença, quem vocês são para falar alguma coisa de mim? – indaguei, dura.
Os dois soltaram assobios, ainda sorrindo como se eu fosse um hambúrguer gigante. Meu irmãozinho me encarou, cético.
– Você não gosta que apontem seus defeitos? Você vive se agarrando com o Louis – ele disse.
– Louis? – perguntou o mais alto, erguendo uma sobrancelha.
Wataru deu de ombros, trinquei os dentes.
– É nosso irmão mais velho, e ele também está com raiva dela – respondeu o pequeno.
Os dois homens riram, olhando-me como se eu fosse uma atriz pornô. Arquejei, irritada. A escada rolante finalmente chegou ao fim, soltei um suspiro de alívio. Dei um passo à frente, deixando Wataru e os homens para trás. Pude ouvir aqueles dois rirem atrás de mim, rosnei de raiva. Apressei meus passos, desviando de todo mundo que via pela frente.
– Ei, o que pensa que está fazendo? – disse a voz de Wataru.
Ele pulou na minha frente, fazendo-me parar de andar. Sua expressão era completamente irritada, ele bufava como um touro.
– Por que me deixou para trás daquele jeito? – ele disse, praticamente berrando.
Trinquei os dentes, mandando ao inferno a pose de boa irmã. Olhei nos olhos do garoto, firme.
– Olha aqui, eu sei que você está com raiva de mim, mas isso não te dá o direito de fazer certas coisas – falei – Aquilo que você fez na escada rolante foi um golpe completamente baixo, pode ter certeza de que eu vou contar à mamãe.
– Eu não fiz nada, para de ser irritante! – ele disse, gritando.
Rosnei de raiva, segurando-me para não atirar aquele garoto no andar de baixo. Apontei o dedo diante de seu rosto, exatamente como uma velha faria.
– Eu cansei, cansei da sua birra – falei – Eu sei que eu não sou a pessoa mais correta do mundo, mas isso não justifica o que você está fazendo comigo. Você me tratou como um inseto nojento a semana inteira, e eu cansei de ficar tentando fazer você me perdoar. Se quer ficar com raiva de mim, beleza, faz o que quiser. Mas isso não te dá o direito de sair por aí dando detalhes da minha vida a estranhos, e muito menos sobre coisas que você não entende direito.
As orelhas de Wataru ficaram vermelhas, ele fez um bico de irritação. Continuei na minha pose, brava demais para me importar com as pessoas em volta.
– Não fala assim comigo, você não é a minha mãe – ele disse.
– Mas sou sua irmã, e você me deve respeito – insisti, firme – Se não quer ser gentil comigo, então eu não vou ser gentil com você. É uma megera que você quer? Tudo bem, eu posso ser uma megera. Você já tem idade suficiente para saber o que é certo e errado, então para de agir como uma criança e comece a medir suas ações.
Ele bufou, cruzando os braços de irritação. Fiz o mesmo, olhando em seus olhos.
– Eu não fiz nada de errado, não fui eu quem chegou bêbado em casa em plena segunda-feira – ele acusou.
Pude sentir hesitação em sua voz, talvez mágoa. Engoli em seco, deixando minha guarda baixar por um segundo. Respirei fundo, descruzando meus braços. Olhei nos olhos de Wataru, firme.
– Eu sei que eu fiz besteira, mas você está indo longe demais – falei.
Ele bufou, desviando o olhar até o chão. Seu corpo tremia de leve, ele parecia à beira de um ataque de choro. Suspirei, segurando seus ombros com as mãos.
– Me desculpe, eu prometo que nunca mais vou beber daquele jeito – falei.
Wataru fungou, engoli em seco.
– Você disse isso daquela vez – disse.
Sua voz saiu baixinha, quase triste. Minha irritação virou fumaça, senti meus olhos arderem. Meu ponto fraco era choro de criança, e tudo que eu não queria era ver minha criança favorita chorar.
Ajoelhei-me diante de Wataru, erguendo o olhar para encarar seus olhos. Ele fazia um bico, seu rostinho estava vermelho. Pisquei duas vezes, engolindo em seco para tentar desfazer o bolo em minha garganta.
– Eu sei, me desculpe – falei, respirando fundo – Eu sou uma péssima irmã, mas eu odeio deixar você triste.
– Eu não estou triste – ele disse, fungando.
Franzi o cenho, suspirando. Puxei-o para mim, abraçando seu corpo com força.
– Claro que não, e eu não estou errada – ironizei, bufando – Confia em mim dessa vez, por favor.
Ele fungou, senti sua postura relaxar. Seus braços envolveram meus ombros, soltei um suspiro de alívio. Abracei-o com toda força que consegui reunir, tentando matar a saudade e consolá-lo ao mesmo tempo. Wataru respirou fundo, enterrando seu rostinho em meus cabelos. Enterrei meu rosto em seu pescoço, respirando fundo.
– Eu amo você, minha hiena – falei – Me desculpe.
Ele suspirou, apertando-me com mais força.
– Me desculpa também, onee-chan – disse, sua voz saiu abafada.
Sorri, afastando-me dele. O pequeno me olhou, sustentei seu olhar. Estiquei meu pescoço, depositando um beijo terno em sua bochecha. Wataru suspirou, suas orelhas coraram um pouco. Estranhei aquela reação, ele nunca corara com meus carinhos. Deixei aquilo de lado, abrindo um sorriso para ele.
– Vamos ao cinema agora? Vou comprar duas porções gigantes de pipoca – falei.
Os olhos de Wataru brilharam, ele abriu um sorriso enorme.
– Vamos, onee-chan! – exclamou.
Ri, assentindo. Ergui meu corpo do chão, ajeitando minhas roupas e minha sacola de livros. O garoto sorriu, esticando a mão em minha direção. Sorri de volta, aceitando sua mão. Pude sentir a felicidade irradiar de seu corpo, aquilo esquentou minha alma de forma intensa. Eu estava aliviada. Ficar sem meu pequeno era tão ruim quando ficar um ano sem comer doces, eu estava em uma espécie de abstinência da vitamina W. Agora eu finalmente sentia que minha vida estava voltando ao normal. Era como um dia de estiagem depois de um mês de chuvas intensas. Era quente, aconchegante.
Abri um grande sorriso, encarando o garotinho ao meu lado. Ele tinha começado a tagarelar sobre o filme que veríamos, sua mão apertava a minha com carinho. Meu coração se esquentou, eu me sentia leve como uma pluma.
Tinha tirado um peso monstruoso de meus ombros.
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– Como eu passo dessa parte? – perguntei.
Wataru revirou os olhos, rindo da minha cara.
– É só pular, onee-chan – ele disse.
Franzi o cenho, voltando minha atenção ao console portátil. Apertei o botão correspondente ao pulo, frustrando-me ao constatar que meu personagem apenas caiu do precipício.
– Não deu certo – falei, fazendo um bico.
Wataru revirou os olhos de novo, sacudindo a cabeça.
– Ai, onee-chan – ele disse, suspirando – É assim.
Ele pegou o console da minha mão, fixei minha atenção em seus movimentos. Como se fosse a coisa mais simples do mundo, Wataru posicionou o personagem bem na beirada do precipício, pulou e direcionou seu salto para cima. Em questão de segundos, o personagem caiu de pé na marca do jogo, e ele passou de fase.
– Viu? – o pequeno disse, erguendo o olhar para me encarar.
Bufei, fazendo uma careta frustrada. Meu irmãozinho riu da minha reação, sacudindo a cabeça.
– Isso não é justo, você não disse que eu tinha que direcionar o pulo – falei.
– Era só pensar um pouco, onee-chan – ele disse.
Pisquei, lançando-lhe um olhar indagador. Wataru não olhou para mim, mas pude ver um sorriso travesso em seu rosto.
– Tá me chamando de burra? – indaguei.
O sorriso dele cresceu, Wataru deu de ombros.
– Se a onee-chan quer entender dessa forma... – ele disse, deixando a voz morrer.
Arquejei, cutucando sua cintura com meu dedo indicador. Ele riu, retraindo-se de leve para fugir de mim. Fiz um bico, cruzando os braços e voltando meu rosto para olhar pela janela do carro.
– Isso é maldade, eu não estou acostumada a jogar em portáteis – falei.
Wataru soltou um risinho divertido, apertando os botões de seu console.
– Mesmo assim, não é tão difícil – ele disse.
– Claro que você acha isso, você joga todos os dias – acusei.
Ele revirou os olhos, sacudindo a cabeça. Deixei um sorriso escapar, contemplando um lindo engarrafamento do lado de fora do táxi em que estávamos. Tínhamos saído do shopping a quase meia hora, e desde então estávamos sentados no banco traseiro do táxi, jogando um jogo aleatório no console portátil que Wataru ganhara de presente de natal de Masaomi. O motorista não falava muito, eu quase não podia vê-lo através do vidro da janela interna. O clima estava leve, agradável. Eu sentia como se estivesse flutuando em uma nuvem, com um lindo anjo de cabelos salmão-luz ao meu lado.
Ele também parecia bastante confortável, jogava distraidamente em seu console. Um pequeno bico de concentração repousava em seus lábios, seus dedos pressionavam os botões com força. Soltei um suspiro, estudando seu rosto. Wataru estava crescendo muito rápido, mas eu ainda podia ver os traços do garotinho que eu conhecera meses atrás. Seus cabelos tinham crescido, estavam quase nos ombros agora, penteados como os de Fuuto. Seus olhos continuavam grandes, embora estivessem mais masculinos agora, de certa forma. Seu rosto, antes arredondado, agora ganhava traços mais maduros. Era só um pouco, mas ele parecia realmente ter crescido. Era incrível a semelhança dele com os irmãos, mas o pequeno ainda conseguia ser algo totalmente novo. Era lindo.
Acabei suspirando alto demais, fazendo com que o garoto desviasse o olhar do console. Seus olhos castanhos encontraram os meus, sorri bobamente.
– O que a onee-chan tá olhando? – ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Dei de ombros, serena.
– Só estou admirando o quanto você é lindo, minha hiena – falei.
Wataru piscou, suas orelhas ficaram um pouco vermelhas. Sendo ele, aquilo era um sinal de constrangimento. Ri, sacudindo a cabeça. Aproximei-me mais dele no banco, envolvendo seu ombro com meu braço direito.
– Posso ver você jogar? – perguntei, inclinando a cabeça para o lado.
Ele assentiu, sorrindo para mim. Sorri de volta, contente. O pequeno aconchegou-se mais a mim, encostei sua cabeça em meu ombro.
– Joga comigo, onee-chan – ele disse.
Assenti, pegando um dos lado do console. Wataru segurou o outro, enterrando sua cabeça em meu pescoço. Deitei minha cabeça na dele, roçando um pouco a ponta de meu nariz em seus cabelos macios. Era ótimo estar ali, eu me sentia calma como se estivesse dormindo em um lugar quente e acolhedor. Comecei a mexer meus dedos na parte do controle que me correspondia, observando Wataru fazer o mesmo. Ele parecia relaxado ali, talvez estivesse tão calmo quanto eu. O carro andou um pouco, talvez o trânsito estivesse melhorando. Já tinha escurecido lá fora, mas eu não ligava. Podia ficar ali para sempre.
Ficamos jogando juntos durante um tempo, até eu sentir que os dedos de Wataru pararam de se mexer. A respiração dele ficou mais pesada, batendo na pele do meu pescoço. Seu corpo ficou mais pesado em cima do meu, reconheci aquilo. Sorri, baixando o console e colocando-o dentro da sacola com os livros. Puxei Wataru para mim, deitando-o em meu corpo da melhor forma possível. Ele aconchegou o rosto em meu ombro, sua boca estava retorcida em um biquinho sonolento. Precisei de todo meu autocontrole para não morder aquela criança, respirando fundo. Depositei um beijo carinhoso em sua testa, afagando sua bochecha com meus dedos. Ele ressonava baixinho, soltei um suspiro longo. Resolvi deixá-lo dormir em paz, pegando meu celular e desbloqueando a tela. Tinha uma mensagem nova, abri-a na hora.
Cheguei em casa com vontade de comer omeletes, cadê você??
– Tsubaki.
Ri em silêncio, revirando os olhos. fiz o melhor que pude para digitar com uma só mão, tentando não me mexer demais para não acordar meu pequeno.
Fui ao shopping com Wataru, mas já estou no caminho de casa.
– Nina.
Enviei a resposta e esperei, talvez ele estivesse com o celular por perto. Resolvi observar o rosto da criança adormecida em meus braços, gravando bem cada detalhe daquela expressão serena. Sorri de leve, depositando mais um beijo em sua testa. Senti meu celular vibrar, desviei o olhar até a tala, desbloqueando-a e abrindo a mensagem logo em seguida.
Vou te esperar no portão. Conhecendo ele como eu conheço, sei que Wataru deve estar dormindo. E te conhecendo como eu te conheço, sei que você deve estar cheia de sacolas.
– Tsubaki ;D
Revirei os olhos, rindo de leve. Digitei uma resposta, sacudindo a cabeça.
Grata ♥
– Nina.
Guardei o celular, percebendo que estávamos quase em casa agora. Recolhi todos os pertences que estavam espalhados pelo banco, guardando tudo dentro das sacolas. Wataru ficara tão contente depois do filme que até me deixara entrar em uma loja e comprar sapatos novos, e nem mesmo reclamara quando eu pedira para entrar em outra loja e comprar meu perfume favorito. Eu realmente estava cheia de sacolas, e Wataru estava realmente dormindo. Ou Tsubaki tinha uma câmera secreta naquele táxi, ou ele realmente nos conhecia muito bem. Ri baixinho, voltando a encarar o rosto adormecido do garoto em meu colo. Senti o carro começar a desacelerar, entrando na rua da casa dos Asahina. Respirei fundo, pronta para descer. Tirei dinheiro da bolsa e entreguei ao motorista assim que o carro parou na calçada de casa, ele aceitou o pagamento sem dizer uma única palavra. Abri a porta com a mão livre, tentando me contorcer o suficiente para sair do carro com Wataru no colo sem cair de cara na calçada no processo.
– Uma mãozinha? – disse uma voz.
Ergui o olhar, deparando-me com Tsubaki Asahina diante de mim. Ele sorriu para mim, esticando os braços na minha direção. Passei Wataru para ele, o mais velho o carregou sem esforço algum. Sorri, aliviada.
– Você é o meu herói – falei.
Ele riu, piscando para mim.
– Também estou feliz por ver você, maninha – disse.
Ri, sacudindo a cabeça. Peguei minhas sacolas e pulei para fora do táxi, Tsubaki fechou a porta com o cotovelo esquerdo. O carro começou a se mover, e logo não estava mais na rua. Sorri para o mais velho dos gêmeos, ele sorriu de volta daquele jeito atraente.
– Por que você sempre volta cheia de sacolas quando vai ao shopping? – ele perguntou, divertido.
Revirei os olhos, cedendo-lhe um sorriso.
– Calado, seu xucro irritante – falei, lançando-lhe um olhar infame.
Tsubaki soltou uma gargalhada, sacudindo a cabeça. Ri de leve, passando por ele e entrando na propriedade. Deixei o portão aberto para que ele pudesse passar, ele agradeceu com um sorriso.
– Tem mais alguém em casa? – perguntei, enquanto fechava o portão.
Ele me olhou enquanto eu fazia o processo todo, tentei não me sentir constrangida.
– Até agora só estávamos eu e o Azusa aqui, mas o Ukyo ligou mais cedo e disse que já estava chegando – ele disse.
Assenti, afastando-me do portão. Comecei a andar em direção à casa, Tsubaki emparelhou-se comigo no caminho.
– Esse pingo de gente te deu muito trabalho? – ele perguntou.
Ri, arregalando um pouco os olhos.
– Você não faz ideia – respondi.
Tsubaki riu, afagando as costas do garoto adormecido. Sorri para a cena, ele ficava tão lindo daquele jeito.
– Quando Masaomi ligou para dizer que você passaria o dia todo com ele, eu fiquei um pouco preocupado, mas não pude evitar de rir muito – disse Tsubaki, lançando-me um olhar travesso – Eu bem que queria ter ido com vocês, mas estava preso em uma palestra chata que Azusa me arrastou para ver.
Ri, lançando-lhe um olhar indagador.
– Você em uma palestra? Espero que tenha sido sobre “Como deixar de ser um cafajeste” – zombei.
Ele bufou, lançando-me um olhar safado.
– Posso até ser um cafajeste, mas você não pode negar que adora isso – ele disse.
Revirei os olhos, tentando não sorrir. Tsubaki riu, alcançando a entrada da casa. Abri a porta para entrarmos, já que ele estava com os braços ocupados. Deixei que ele entrasse para entrar logo em seguida, fechando a porta atrás de mim. O gêmeo presente começou a andar pelo corredor com nosso irmãozinho no colo, virando o rosto para trás para olhar para mim. Sorri, franzindo o cenho.
– Posso saber por que você está me olhando tanto hoje? – perguntei.
Tsubaki abriu um sorriso safado, emparelhei-me com ele no corredor.
– Eu sonhei com você – ele disse.
Ri, curiosa. Olhei em seus olhos, ele sustentou meu olhar.
– E como foi? – perguntei.
Talvez eu não devesse ter perguntado, já que o olhar que Tsubaki me lançou deixou bem claro de que tipo de sonho se tratava. Bufei, desviando o olhar até a sala diante de nós.
– De agora em diante, o senhor está proibido de sonhar comigo – falei, fazendo um bico.
Ele riu, revirando os olhos.
– Não é a primeira vez que eu tenho sonhos desse tipo com você, devia ter me proibido antes – zombou, lançando-me um olhar malicioso.
Bufei de novo, passando por ele para poder subir as escadas.
– Você é desprezível – acusei.
Tsubaki riu, alcançando-me sem fazer muito esforço. Tentei ignorar o fato de que ele encarava meu rosto como se estivesse tentando passar as lembranças do sonho para mim, tentando subir mais rápido que ele.
– A culpa não é minha se eu já te vi nua, mais de uma vez – ele disse, lançando-me uma piscadela safada – Aliás, já faz bastante tempo desde a última vez. O que acha de renovar minhas memórias?
Revirei os olhos, alcançando o corredor dos quartos.
– Fique só nos sonhos, seu pervertido – rosnei.
Tsubaki riu mais um pouco, deixando-me passar a sua frente.
– Então você me deixa sonhar com você? – ele perguntou.
Bufei, lançando-lhe um olhar maligno.
– Não, não deixo – resmunguei, dura.
Ele abriu um sorriso luminoso, mordendo o lábio.
– Então você prefere renovar minhas memórias – acusou – Não tente se esquivar, vamos criar um ciclo vicioso.
Bufei, dando-lhe as costas. Disparei pelo corredor, um esforço inútil, já que as pernas dele eram mais longas e fortes do que as minhas. Ele logo me alcançou, rindo da minha situação.
– Você está adorando me pôr contra a parede, não é? – acusei, fazendo um bico de frustração.
Tsubaki soltou uma risada malvada, lançando-me uma piscadela maliciosa.
– Se eu estivesse literalmente te pondo contra a parede, nenhum de nós estaria falando, nossas bocas estariam muito ocupadas – ele disse, quase ronronando para mim.
Bufei, virando o rosto para não deixá-lo ver meu rosto. Eu não confiava em mim mesma com Tsubaki, ele tinha o poder de me virar a cabeça e acabar com minha razão. Respirei fundo com força, frustrada.
– Safado – rosnei, estalando a língua.
Ele mordeu o lábio, olhando-me como se estivesse faminto e eu fosse seu alimento favorito.
– Eu adoro quando você rosna pra mim, isso me deixa ainda mais ligado – disse.
Trinquei os dentes, lançando-lhe um olhar de advertência. Tsubaki riu, sacudindo a cabeça.
– Tá bom, eu paro – ele disse, rindo em meio à frase – Mas o que eu disse no Natal ainda está valendo. Um dia, maninha, eu vou te fazer minha.
Revirei os olhos, abrindo a porta do quarto de Wataru.
– Espera sentado – falei.
Tsubaki fez um biquinho, como se considerasse a hipótese.
– Sentado na cama onde eu vou te fazer minha, boa ideia – ele disse, pensativo – Mas eu podia fazer isso em qualquer superfície, até mesmo no chão ou em uma parede.
Grunhi de raiva, jogando minhas sacolas no chão. Tirei Wataru do colo do gêmeo mais velho, lançando-lhe um olhar indignado.
– No chão? Mostre mais respeito – falei, quase cuspindo as palavras.
Tsubaki riu, mordendo o lábio.
– Mas você não faz objeções a cama, faz? – ele disse.
Revirei os olhos, dando-lhe as costas. Equilibrei o corpo adormecido de Wataru em mim, encostando cuidadosamente sua cabeça em meu ombro. Fui até sua cama, desviando dos brinquedos espalhados pelo caminho. O quarto do pequeno ainda era cheio de pelúcias e brinquedos variados, embora agora ele tenha adotado alguns bonecos de ação como seus favoritos. Ter feito treze anos no começo do ano parecia tê-lo amadurecido um pouco, mas eu sempre veria-o como meu garotinho.
Depositei seu corpo na cama, sentindo meus músculos relaxarem bastante. Eu adorava tê-lo em meu colo, mas ele já estava grande demais. Se Tsubaki não estivesse comigo, eu jamais conseguiria carregá-lo até ali. Tirei seus sapatos para deixá-lo mais confortável, embora soubesse que ele talvez acordaria de seu cochilo em breve. Estiquei as cobertas sobre ele, protegendo-o do frio agradável do quarto. Arrumei sua cabeça no travesseiro, ajoelhando-me ao lado da cama. Sorri, afagando carinhosamente seu rosto. A pele dele ainda era macia como a de um bebê, constatar isso quase me fez mordê-lo.
– Você ama muito ele, não é? – disse Tsubaki.
Assenti, encarando o rosto adormecido do meu irmãozinho. Tsubaki riu baixinho, olhando-nos com... Ternura?
– Ele também te ama, muito – ele disse, antes de rir um pouco – Talvez até demais, ele sempre foi precoce.
Revirei os olhos, deixando um sorriso escapar. Percorri a linha do maxilar do pequeno com meus dedos, suspirando baixinho. Ele respirava tranquilamente, ressonando baixinho, como um bebê. Mordi o lábio para não morder sua bochecha, Tsubaki riu baixinho.
– Detesto atrapalhar esse lindo momento, mas eu estou com fome – ele disse, divertido.
Revirei os olhos de novo, afagando a bochecha do meu irmãozinho.
– Me espera lá na sala, eu vou ficar aqui só mais um pouco – falei.
Ele bufou, mas cedeu-me um sorriso quase carinhoso. Sorri de volta, encarando o rosto de Wataru. Tsubaki resolveu fazer o que eu tinha dito, fechando a porta assim que saiu. Soltei um suspiro, relaxando minha postura. Inclinei-me na direção do rosto do garoto adormecido, indo em direção a sua testa. Minha boca se abriu de leve, meus olhos se semicerraram naturalmente.
E então, algo chamou minha atenção. Pisquei, afastando-me um pouco de Wataru para contemplar as grandes esferas que me olhavam. Engoli em seco, levemente sobressaltada. O rosto dele estava ligeiramente mais corado, mas eu não podia afirmar com certeza, já que o quarto estava escuro. Arquejei, tentando recuperar meu fôlego.
– Meu amor, você acordou? – falei.
Ele piscou os olhos lentamente, fazendo um biquinho.
– Onee-chan, fica aqui comigo? – pediu, manhoso.
Senti como se alguém estivesse apertando meu coração, meu corpo inteiro parecia ter ficado mais quente. Engoli em seco, tentando não desmoronar.
– Por favor – ele disse, antes que eu pudesse pensar em alguma coisa para dizer.
Arquejei, sentindo como se ele estivesse me prendendo em algum tipo de feitiço poderoso. Nem mesmo hesitei, apenas assenti, muda. Ele sorriu, afastando-se para me dar espaço. Levantei meu corpo do chão, deitando na cama ao lado dele em movimentos quase robóticos. Wataru me abraçou assim que pode, aconchegando seu corpo no meu. Ofeguei, seu rosto escondeu-se entre meus seios. Ele deu um risinho manhoso, respirando fundo.
– Eu te amo, onee-chan – disse, suspirando logo em seguida.
Foi como se meu corpo estivesse sendo assado em uma fogueira. Uma onda de ternura me invadiu com força, lavando toda incerteza que me atormentava. As palavras de Wataru giravam em minha mente, gravando-se nos confins mais profundos do meu ser. Era uma certeza que eu já tinha, mas que estava guardada em um lugar tão íntimo em meu saquinho de emoções que eu quase me esquecera dela. Meus olhos começaram a arder, enquanto lágrimas de alegria ameaçavam sair. Funguei, fechando os olhos. Sorri, mordendo o lábio com força. A sensação de se ter alguém que te ama não me era estranha, mas Wataru era meu irmãozinho. Tudo parecia mais intenso agora, como se minha vida tivesse finalmente voltado aos trilhos.
– Eu também te amo, minha hiena – respondi – Você me perdoou mesmo?
Sem resposta, ele já tinha dormido. Sorri, sacudindo a cabeça.
Agora eu podia entender Louis. Sabia como era a sensação de querer cuidar de alguém, de querer ficar perto o tempo todo para guiar seus passos e estender a mão sempre que essa pessoa caia. Nada se iguala à sensação de ser ter uma criança para amar e proteger, e por mais que eu tivesse convivido com crianças durante dois anos, aquela foi a primeira vez em que eu realmente me senti relativamente responsável por alguém. Eu queria que ele se orgulhasse de mim, queria que ele sorrisse para mim todos os dias. Queria fazê-lo sorrir, queria vê-lo feliz.
Funguei, engolindo em seco para tentar conter as lágrimas de emoção que já começaram a sair. Ri em silêncio, deixando que meu corpo relaxasse por completo. Abracei meu pequeno com força, enterrando meu nariz em seus cabelos. Respirei fundo seu cheiro, rindo silenciosamente de novo.
Achara a resposta para todas as minhas perguntas. Aliviara o peso que carregara nos ombros. Mudara meu jeito de pensar. Eu não era completamente uma nova garota, mas agora já sabia que caminho seguir para voltar a ser alguém decente. Todos aqui eram minha família, eu já devia ter notado isso antes. Eles me amavam, e eu amava eles. Já estava na hora de fazê-los sentir orgulho de mim, já estava na hora de aprender a reconhecer o que era certo e o que era errado. Já chega de me esconder atrás de garrafas de vinho ou debaixo do meu cobertor, estava na hora de lutar de volta.
Eu não estava curada, mas sabia por onde começar.
IMAGEM ESPECIAL
Ema Hianata (Mordi a foto pt. 4)
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