The New Girl in the House
34 Realidade Virtual
Notas iniciais
– Eu acho que tamanho é mais importante que grossura – ele disse.
Ri, negando com a cabeça.
– Eu prefiro muito mais resistência, não quero algo que possa quebrar ao meio quando sentir meu peso – falei.
Hikaru riu, desviei o olhar.
– Você não é pesada, acho que o meu aguenta seu pique – ele disse – Você costuma pular muito? O meu é perfeito para você.
Mordi o lábio, indecisa.
– Ei, vocês ainda estão aí? – resmungou alguém.
Tsubaki encostou-se na vitrine ao meu lado, cruzando os braços. Dei de ombros, Hikaru ignorou o mais novo.
– Acho que os vermelhos são melhores – falei.
Hikaru aproximou-se de mim, procurando minha mão. Estendi-a para ele, meu irmão passou meus dedos delicadamente no interior do objeto em suas mãos.
– Está sentindo? É grosseiro, vai te machucar – ele disse – Até os azuis são bem melhores, confie em mim.
Suspirei, indecisa.
– Escolha logo, são apenas sapatos – disse Tsubaki, bufando.
Bufei também, segurando o par vermelho e o par azul, um em cada mão.
– Eu gosto de botas como essas – falei, sacudindo os vermelhos – Mas esses azuis são bem mais confortáveis, eu não sei o que escolher.
Hikaru riu, sacudindo o par de botas pretas em sua mão.
– Os meus são melhores, se for escolher algum, escolha eles – ele disse.
Bufei outra vez, largando os pares que tinha na mão.
– Se eu ganhar alguns calos, você vai se arrepender – falei.
Hikaru abriu um grande sorriso, revirei os olhos.
– Já vamos? Eu odeio esperar sem ter nada pra fazer – disse Tsubaki, quase gemendo.
Suspirei, ele fez um bico pra mim.
– Esse é o último par, prometo – falei.
Tsubaki assentiu, inclinando-se na minha direção. Deixei que ele desabasse em mim, abraçando-me de lado.
– Vamos jogar vídeo game com capacete de realidade virtual agora, não vamos? – ele disse, roçando o nariz na minha bochecha.
Revirei os olhos, cedendo-lhe um sorriso.
– Se é pra deixar a criancinha feliz – zombei.
Ele deu um sorriso sinistro, apertando-me mais contra seu peito.
– Uma criancinha bem dotada, quer ver? – ele disse, mordiscando minha orelha – Ah, lembrei. Você já sentiu o quanto eu sou bem dotado, aquele dia foi louco.
Revirei os olhos, tentando afastá-lo. Tsubaki não me soltou, apenas olhou para mim com um sorrisinho.
– Você nunca cansa de ser safado? – perguntei.
Tsubaki deu de ombros, respirei fundo.
– Eu não sou só safado, você mesma disse isso – ele disse, dirigindo-me uma piscadela.
Dei de ombros, ele virou um pouco a cabeça como um cachorrinho.
– Vai ver eu estava bêbada só de sentir o cheiro do vinho do Hikaru – chutei – E eu também te chamei de xucro, lembra?
Tsubaki deu uma risadinha, apertando-me mais um pouco.
– Eu pesquisei o significado daquilo, significa “Animal selvagem, bruto, indomado” — ele disse, mordendo o lábio – Acho que eu sei o que você quis dizer com aquilo, quer ouvir?
Assenti, Tsubaki deu um sorriso safado. Seu rosto aproximou-se do meu, ele roçou os lábios no meu queixo.
– Significa que você acha que eu sou bruto e selvagem, naquele sentido – ele disse – E também significa que você quer me domar, não é?
Bufei, empurrando-o. Tsubaki riu, mas me soltou.
– Voltei – anunciou Hikaru, abrindo um grande sorriso – O casal do dia sentiu minha falta?
Ri, lançando-lhe um olhar desafiador.
– Nós não somos um casal, e eu nem vi você sair – confessei.
Tsubaki riu, Hikaru apenas abriu um sorriso largo.
– É isso que eu ganho por ser um bom irmão e pagar um lindo par de sapatos novos para você, sou praticamente chamado de insignificante – ele disse – Você poderia ao menos ficar grata, eu deixei de passar o dia todo em casa para vir aqui com você.
– Eu também – disse Tsubaki – Disseram que íamos jogar vídeo game, mas até agora tudo que fizemos foi parar em lojas e passar anos esperando a Nina se decidir.
Revirei os olhos, os dois irmãos olharam para mim.
– Deviam ter ficado em casa, eu podia ter chamado outra pessoa – falei – Além do mais, eu nem chamei vocês.
Tsubaki deu um peteleco na minha bochecha, Hikaru riu daquilo.
– Não íamos te deixar sozinha num shopping como esse, ainda mais em dia de promoção – ele disse – Poderiam achar que você era uma boneca e te levariam pra casa, como acha que nossa família ficaria se perdêssemos nosso xodó?
Revirei os olhos, Tsubaki riu.
– Eu não sou seu xodó – protestei – E eu me viraria muito bem sozinha.
Tsubaki bufou, estendendo diante de mim as várias sacolas que ele carregava pra mim. Mordi o lábio, ele fez o mesmo.
– Certo, talvez nem tanto – cedi – Mas eu ficaria bem de um jeito ou de outro, nem compraria tanta coisa se vocês não estivessem aqui para pagar minhas compras.
Tsubaki agiu como uma águia em caçada, abaixando-se e depositando um beijo ruidoso em minha bochecha. Pisquei, ele afastou-se antes que eu pudesse raciocinar.
– Nossa bonequinha merece – disse Hikaru, rindo da ação do irmão.
– Eu não tenho com quem gastar mesmo – disse Tsubaki – E minha maninha merece uns mimos. Aliás, você merece todos os tipos de mimos.
Ri pelo nariz, sacudindo a cabeça.
– E quais seriam esses mimos, senhor “Irmão do Ano”? – indaguei.
Tsubaki abriu um grande sorriso, esperei.
– Presentes, abraços... – começou, seus olhos brilharam – Alguns beijinhos, mordidinhas, lambidas...
– Certo, já chega – falei, erguendo os braços diante do corpo – Nem pense em me dar esse tipo de mimo, só tem um carinha no mundo que pode fazer isso.
– O Louis? – indagou Hikaru, abrindo um sorriso sagaz.
Abri a boca para responder, mas as palavras me abandonaram por completo. Bufei, sacudindo a cabeça para livrar-me da sensação que os toques de Louis deixavam em meu corpo. Eu estava tentando sentir raiva dele desde a semana passada, quando Subaru e eu tivemos que bancar “Os irmãos maravilha” para não sermos humilhados pela nova companhia do Louis. Passei os últimos dias grudada em qualquer irmão que não fosse Louis, só para tentar me sentir independente.
Mas eu era completamente dependente de Louis, nem mesmo eu poderia negar isso.
– Quando é o Louis, eu sei que é só carinho – menti – Chega desse papo. Se não formos rápidos, a fila do vídeo game com capacete de realidade virtual vai ficar quilométrica.
Aquilo parecia ter dado um choque em Tsubaki, mas Hikaru não fora tão facilmente enganado. Tentei fugir de seu olhar, seu sorriso sagaz ficara ainda maior.
– Então vamos logo – gemeu Tsubaki, manhoso.
Ri, aliviada pelo término do assunto. Tsubaki agarrou minha mão, puxando-me quase gentilmente para fazer-me andar. Deixei que ele me guiasse, sentindo a presença de Hikaru ao meu lado. Ele segurava algumas sacolas, olhando-me de soslaio. Estava vestido de mulher hoje, seu rosto lindo estava cheio de maquiagem. Era quase grotesco ver um homem tão lindo daquele jeito, e era ainda mais grotesco saber que aquela linda mulher era na verdade seu irmão mais velho. Mas eu não podia negar que o lado feminino de Hikaru era incrível, já que ele sabia tanto de moda que me fizera cobiçar até mesmo um par de botas de cano longo. Minha irmã mais velha era como uma criança, me fazia bem ter Hikaru numa voltinha pelo shopping.
Voltinha que durara pelo menos metade do dia, meus pobres pés não aguentavam mais andar.
– Olha só! – disse Tsubaki, arquejando.
Minha boca se abriu, apertei sua mão. Finalmente chegáramos onde Tsubaki queria, e aquela visão me fez querer sair correndo. A exposição ocupava boa parte do centro de eventos do shopping, juntando cerca de cinquenta estandes e uma quantidade incrível de nerds em um só lugar. Bem no final, como um palácio de cristal no meio de um deserto, estendia-se um telão enorme. Dois garotos estavam parados diante do telão, de pé sobre um tapete prateado enorme. Eles usavam capacetes prateados, nem um centímetro de seus rostos estava descoberto. Um cenário cinematográfico era exibido na tela, aquele zumbi era tão real que fez meus pelos se eriçarem. Os dois garotos faziam movimentos com os braços, como se estivessem brandindo machados invisíveis. Aquilo durou por dez segundos, até uma quantidade considerável se sangue jorrar na tela, seguido por um estrondo horrendo. E como se fosse real, o zumbi caiu morto.
– É incrível! – exclamou Tsubaki.
Minha boca se abriu, eu estava completamente sem palavras. O gêmeo presente voltou-se para me encarar, ele abriu um sorriso enorme assim que nosso olhar de encontrou.
– Nós vamos lá? – ele disse – Sim, vem.
Arquejei, ele riu do meu desespero. Aparentemente, sua pergunta era retórica. Ouvi a risada feminina de Hikaru soar atrás de mim, mas tudo que eu pude fazer foi agitar minhas pernas para não cair de cara no chão. Tsubaki me puxava sem pena, rindo consigo mesmo. Apertei sua mão, tentando fazê-lo parar.
– Espera aí, me solta! – guinchei.
Puxei minha mão, fazendo-o parar. Tsubaki virou-se para me encarar, seus olhos estavam saltados.
– O que foi? – ele disse.
Fiz uma careta, respirando fundo. Ele me arrastara até o inicio da exposição, alguns nerds olhavam para a cena que fazíamos.
– Não me puxe assim – protestei – Se quer ir até lá, me diga.
– Mas, eu disse “vem” – Tsubaki disse.
Revirei os olhos, ele esperou.
– Você não me deu nenhuma escolha, mas eu te acompanharia – falei.
Tsubaki bufou, retomando sua caminhada. Foi mais fácil para mim acompanhar seu ritmo desta vez, ziguezagueamos por entre a massa de adolescentes e organizadores.
– Você ia demorar muito, a fila está crescendo depressa – disse Tsubaki, esquivando-se de um boneco de ação em tamanho natural.
Bufei, desviando do boneco pouco antes de bater a cara no braço estendido dele. Alguém não teve a mesma sorte, pude ouvir o som do um nariz colidindo com o grande “Tenente Takao” assim que Tsubaki alcançou o que mais queria. Tentei não rir daquilo, pobre pessoa. Senti uma mão quente tocar meu ombro, dei um pulinho.
– Calma, sou eu – riu Hikaru – Vou ao banheiro, volto em um minuto.
Assenti, ele deu uma piscadela. Nem o vi sair, Tsubaki monopolizou minha atenção ao puxar-me para si com força. Arquejei, ele envolveu minha cintura com o braço direito.
– O que foi? – perguntei, erguendo o olhar até seu rosto.
Ele deu um sorrisinho, dando uma queixada suave em minha testa.
– Nada, minha linda – ele disse – Eu te amo muito, sabia?
Pisquei, ele olhou em volta rapidamente. Olhei em volta também, percebendo que eu recebia alguns olhares predatórios de garotos e garotas, como se fosse uma pizza gigante. Fiz uma careta, Tsubaki grunhiu para chamar minha atenção. Olhei para ele, meu irmão sorria carinhosamente para mim.
– Me beija? Ajudaria na minha encenação – ele disse, piscando bem devagar.
Pisquei, ele se inclinou na minha direção.
– Casais jogam de graça, não leu a placa enorme lá na frente? – sussurrou, tocando minha sobrancelha direita com os lábios – Fora que afastaria esses moleques, eles não veem que você é só minha?
Bufei, afastando-o.
– Porcaria de vestido – resmunguei.
Tsubaki deu uma risadinha, tentei não me irritar com aquilo.
– Fica muito bem em você, me deixa com vontade de ver o que você esconde aí embaixo – ele disse, abraçando-me de lado e plantando um beijo em minha testa antes de continuar – Ah, lembrei. Eu já vi, até já lambi.
Empurrei-o com força, ele riu.
– Idiota – resmunguei.
O gêmeo safado piscou para mim, mordendo o lábio.
– Aliás, me deixa lamber de novo? – pediu – Eu já estou esquecendo o seu gosto, não gosto de esquecer coisas deliciosas.
Virei o rosto em sua direção, brandindo meu dedo diante de seu nariz como se fosse uma espada.
– Você não vai lamber nada! – rosnei – E eu acho bom você esquecer mesmo o meu gosto, sua boca vai ficar bem longe de mim durante muito tempo!
Tsubaki abriu um sorriso malicioso, alguém ofegou perto de nós. Congelei, risadas encheram o ar. Minha boca se abriu, meu irmão soltou uma gargalhada estrondosa. Senti uma mão quente em meu ombro, não tive presença de espírito suficiente para tentar ver quem era.
– Parece que vocês andaram se divertindo na minha ausência – disse Hikaru.
Tsubaki abriu um sorriso safado, engoli em seco.
– Foi tudo por causa da Nina, ela fez questão de gritar bem alto que minha boca já esteve nela, e que eu conheço seu gosto – ele disse, balançando as sobrancelhas para Hikaru.
O ruivo riu, Tsubaki fez o mesmo. Arregalei os olhos, meu corpo todo parecia ter sido banhado em uma piscina cheia de gelo.
– Você começou – acusei.
– O sexo ou a discussão? – perguntou Hikaru, dirigindo-me uma piscadela.
Mordi a língua, Tsubaki explodiu em uma risada. Desviei o olhar, dando as costas a ambos os irmãos.
– Os dois – respondi, desgostosa.
Os irmãos riram, trinquei os dentes. Hikaru disse alguma coisa para Tsubaki, mas preferi não prestar atenção. Já era ruim o bastante ter quase transado com um irmão, mas aquilo era apenas um item da lista de besteiras que fiz no ano passado. Eu tinha traído meu namorado com meu irmão; tinha beijado Natsume; tinha deixado Louis me beijar; tinha ficado bêbada em um jantar de família; tinha escondido da minha família que tinha um namorado; tinha ficado bêbada de novo, o que ocasionou a traição...
Respirei fundo, mordendo o lábio. Eu fora a pior, não tinha como negar isso. Não me entregara a Akira o suficiente, e me entregara demais aos irmãos. Era tudo culpa minha. Tinha dado muito espaço a eles, e agora, pelo menos três deles estavam apaixonados por mim. E eu? Amava Akira com todas as minhas forças, mas não conseguia deixar isso claro o bastante para que meus irmãos me deixassem em paz. Minha situação tinha melhorado um pouco, mas ainda era estranho sentar em uma mesa com vários homens e tentar me esquivar dos olhares de alguns. Eu não sabia o que eles todos tinham visto em mim, mas não queria machucar nenhum deles. Minha lista de besteiras podia ser grande, mas eu nunca incluiria algo desse tipo nela.
– Ah! – grunhiu Tsubaki, jogando os braços pro alto – Pra que toda essa demora? Será que todo mundo decidiu vir junto ao shopping hoje?
Ri, virando o rosto para vê-lo. Tsubaki fazia um bico de impaciência, agora eu sei de onde Wataru tirou aquela mania de fazer bicos lindos.
– A culpa foi sua, eu disse que estaria lotado no primeiro dia de exposição – falei.
Ele bufou, mordi o lábio.
– A culpa foi sua, você insistiu para parar em cada loja que via pela frente – ele disse.
Dei de ombros, Hikaru abriu um sorrisinho cúmplice.
– Garota alguma resiste a uma promoção, aprenda – ele disse, piscando para o irmão.
Abri um grande sorriso, erguendo a mão na direção do ruivo. Hikaru correspondeu ao meu “High Five”, abrindo um sorriso reluzente. Os garotos da fila encaravam a linda “mulher” ao meu lado, alguns estavam até boquiabertos.
– Essa é uma das vantagens de se ter um “irmão feminino” – falei.
Os olhos de Hikaru cintilaram, Tsubaki explodiu em uma gargalhada. Os garotos mais próximos puderam ouvir o que eu disse, um deles teve uma crise de tosse. Ri, o belo ruivo ao meu lado ergueu uma sobrancelha.
– Você já se esqueceu daquela nossa conversinha em particular? – ele disse, inclinando um pouco o pescoço para o lado – Meu presente de natal também não foi claro o bastante?
Ele disse aquilo com uma voz tão macia que eu me arrepiei, Tsubaki parou de rir e passou a nos encarar curiosamente.
– Que conversa e que presente? – ele disse, franzindo o cenho.
Ele estava adorável com aquela expressão, mordi o lábio. Tsubaki tirara o dia para me fazer passar mal, já que decidira vestir roupas casuais e não pentear os cabelos depois do banho. Ele só seria mais lindo se fosse três... Bom, ele tinha mesmo duas duplicatas, mas não foi isso que eu quis dizer.
– Algo particular – respondeu Hikaru, piscando graciosamente antes de continuar – Tente não se meter na conversa alheia, não é educado.
Tsubaki bufou, cruzando os braços acima do peito.
– Não gosto de imaginar que tem alguém tentando trapacear, isso aqui era pra ser uma competição justa – disse o gêmeo, apontando para mim por um segundo – E é antidesportivo atrapalhar os outros competidores, você deveria ao menos me atualizar um pouco.
Franzi o cenho, Hikaru sacudiu a cabeça delicadamente. Aquilo fez seus lindos cabelos sacudirem-se com graça, soltei um muxoxo de inveja.
– Cada um com suas artimanhas, meu caro – disse o ruivo – Se vire com o que tem, ninguém vai te ajudar ou tentar aliviar para você.
Tsubaki bufou, dando-nos as costas. Encarei seu corpo, seus músculos estavam tensos sob a camisa de malha cor de vinho. Ele devia gostar daquela cor, e o deixava muito sexy. Hikaru deu uma risadinha, desviando o olhar até encarar meu rosto.
– Ignore a birra do Tsubaki, ele nunca soube perder – ele disse – Precisa de mais uma demonstração de masculinidade? Posso ir bem mais longe desta vez, e gostaria de vê-la usando meu presente.
Arrepiei-me toda, fazendo meu corpo tremer. Os olhos verdes que me encaravam brilharam, ele mordeu o lábio. Trinquei os dentes, dando-lhe as costas também. Hikaru deu outra risadinha, senti sua mão brincar com o cós da minha calça. Bufei, afastando-me dele mais um pouco. Acabei trombando no braço de Tsubaki, ele olhou-me de soslaio. Suspirei, apoiando-me um pouco em seu bíceps definido. Ele deu um sorrisinho, aproximando-se de mim mais um pouco.
– Vai demorar muito? Eu quero tomar sorvete – resmunguei, deixando a voz sair bem manhosa.
Tsubaki cresceu mais aquele sorriso, envolvendo minha cintura com seu braço direito. Acomodei-me melhor, deitando a cabeça em seu peito.
– Não devia demorar tanto para o irmão do dono da empresa, devia ter uma ala especial aqui, só para mim – disse Tsubaki, afagando minha cintura.
Prendi o riso, girando o corpo para abraçá-lo. Seus braços me envolveram, enterrei o rosto em suas roupas. Ele cheira tão bem, aquele cheiro me fascinava demais. Respirei bem fundo, aninhando-me nele.
– E desde quando você é irmão do dono da empresa? Que eu saiba, não tem ninguém assim na nossa família – falei.
Tsubaki enterrou o queixo na parte onde eu partira o cabelo, sorri lentamente.
– Desde quando eu nasci, ué – ele respondeu, roçando o queixo na minha cabeça – Ou vai dizer que você não lembra mais que Natsume é CEO de uma empresa de games?
Arregalei os olhos, despregando-me de Tsubaki como se ele fosse radioativo. Meu irmão me encarou, surpreso.
– Essa exposição é da empresa do Natsume?! – falei.
Eu meio que berrei aquilo, o que fez todos num raio de cinco metros da minha posição olharem para mim. Hikaru riu pelo nariz, inclinando a cabeça para o lado como uma Barbie ruiva e possuída.
– Vai dizer que você não sabia? – ele disse.
Engoli em seco, chocada demais para falar alguma coisa. Tsubaki franziu o cenho, Hikaru riu baixinho.
– E ele está aqui? – perguntei.
Minha voz soara como um pato, esganiçada. O gêmeo mais velho bufou, até Hikaru revirou os olhos.
– É lógico, bobinha – ele disse – É a exposição da empresa dele, é claro que ele está aqui.
Engoli em seco com força, quase engolindo minha língua no processo. Dei as costas aos meus acompanhantes, arregalando os olhos assim que soube que eles não podiam ver aquilo. Abracei meus ombros, tentando controlar minha respiração.
A última vez que eu vira Natsume foi na noite de natal. Ele dormira na mansão naquela noite, mas fora embora antes que eu o visse no dia seguinte. Despedíramos-nos na varanda, já que eu tinha que entregar o presente de Louis. Natsume sorrira para mim, seus olhos brilharam como eu nunca vira antes. Meu coração quase parara de bater na hora, ele me deu um abraço apertado. Antes de me deixar ir, ele me dera outro beijo, como se os outros dois que trocáramos depois dos dois primeiros não tivessem sido o bastante. Sua língua acariciara a minha com muito carinho daquela vez, eu quase morrera depois de dois minutos de beijo.
Não. Eu não contei o tempo, que foi de dois minutos e treze segundos no último beijo. Nem os beijos, que foram cinco ao todo.
Respirei fundo, sem conseguir conter a vontade de procurá-lo em meio àquele mar de nerds que já me pareciam ótimas pessoas agora. Será que ele estava mesmo ali? E se estivesse, será que estava usando a gravata que eu dera a ele? Era pedir muito que ele usasse as orelhinhas de gato, mas a gravata de gatinhos era um bom presente, não era?
– Ei, maninha? – chamou-me a voz de Tsubaki.
Grunhi em resposta, meu lábio doía, preso na mordida que eu nem sentira dar.
– Ande, a fila avançou – disse Hikaru, tocando o meio das minhas costas.
Seu toque parecia ter me eletrocutado, dei um pulinho constrangedor. Ele riu daquilo, respirei fundo. Dei três passos adiante, encarando fixamente minhas botas. Era normal estar nervosa diante daquela situação, não? Beijar o irmão adotivo, que era quase dez anos mais velho que você, e ainda ter quase feito sexo com o irmão gêmeo dele era bastante aterrorizante, não era? E estar no mesmo ambiente que ele depois de tudo deixava qualquer uma nervosa, certo? Talvez eu devesse ter ligado no dia seguinte, ou ter mandando uma mensagem. Ele também devia ter feito aquilo, não? O que isso significara? Que o que tivemos naquela varanda não fora nada, e que aquele tremor nas pernas que me tomava sempre que eu pensava em Natsume era apenas idiotice minha? Será que eu era tão insignificante? Passaram-se mais de vinte dias, ele devia ao menos ter ligado!
– Pensando em mim? – disse uma voz grave.
Minha pele parecia estar descolando-se do meu corpo, tamanho era o arrepio que me tomara na hora. Arregalei os olhos, engolindo em seco. Virei o corpo na direção da voz, deparando-me com meu gato humano. Seus olhos violetas encaravam-me, tomados por um brilho de diversão. Perdi o ar, ele abriu um sorriso diante da minha reação.
– N-Natsume?! – guinchei.
Ele sorriu ainda mais com aquilo, pude ouvir alguém bufar ao meu lado. Minha cintura foi puxada com força, meu corpo foi abrigado em um peito largo e musculoso. Um queixo foi fincado em minha cabeça, arquejei.
– Claro que ela não estava pensando em você, não seja ingênuo – disse Tsubaki, abraçando-me com mais força – Ela só estava pensando em como será difícil me derrotar no vídeo game, não é, maninha?
O olhar de Natsume não deixava o meu, ele enfiou as mãos nos bolsos da calça social quando Tsubaki começara a falar, elas continuavam no mesmo lugar. Lutei para desviar o olhar, mas me sentia como uma borboleta. Excitada, encantada por aqueles olhos. Se eu tivesse asas, eu voaria na direção daquela luz violeta. Talvez eu morresse pregada naquelas orbes, mas pelo menos eu morreria tocando algo lindo o bastante para valer minha vida. Aquele olhar teria durado séculos, se Tsubaki não tivesse me sacudido com certa força.
– Maninha, eu falei com você – ele disse, fazendo um biquinho.
Seu queixo afundou-se em meus cabelos, ele parecia penteá-los com aquela parte da cabeça. Aquilo me deixou arrepiada, estremeci de leve. Tsubaki sorriu com a minha reação, abraçando-me com mais carinho do que força. Natsume semicerrou os olhos de leve, fingi não ter visto.
– Eu acho que não – ele disse – Ela devia estar remoendo a culpa por ter esquecido que eu trabalho nessa empresa, por isso estava daquele jeito.
Ergui meu olhar, Natsume não parava de me encarar. Deus, que olhos lindos eram aqueles? Um sentimento de culpa me invadiu, desviei o olhar.
– Desculpe – falei, encarando o chão.
Natsume suspirou, um vestígio de um sorriso passou em seus lábios. Tsubaki riu baixinho, dando um beijo em meus cabelos.
– Não é nada demais, é fácil esquecer de alguém irrelevante – disse o mais velho dos gêmeos.
Pisquei, erguendo o olhar. Natsume bufou, Tsubaki deu um risinho de satisfação.
– Ei, Natsume não é irrelevante – falei, dando uma cotovelada leve no estômago do homem que me agarrava.
Tsubaki arquejou baixinho, afrouxando um pouco seu abraço. Vi Natsume dar um sorriso satisfeito antes de ser solta pelo gêmeo mais velho, engoli em seco.
– É um alívio ouvir isso, acho que você entende o motivo – disse Natsume, suspirando.
Assenti, suspirando também. Fez-se silêncio durante uns segundos, eu contava cada respiração minha como se fosse a coisa mais importante do mundo. O olhar de Natsume não deixava meu rosto, aquilo já estava começando a me incomodar. Como um movimento ensaiado, o mais novo dos gêmeos veio até mim. Suas mãos saíram de seus bolsos, dirigindo-se à minha cintura sem hesitar por nem mais um segundo. Deixei-me ser envolvida em seus braços fortes, me sentia abrigada ali. Minhas mãos encontraram seu peito largo, meus dedos agarraram o tecido macio de sua camisa social. Natsume abraçou-me com um pouco de força, enterrando-me em seu corpo. Respirei fundo, o cheiro dele era incrível. Ele girou-me discretamente até Tsubaki não nada além das costas largas do gêmeo, pisquei. Natsume insinuou um beijo em minha têmpora, mas seus lábios deslizaram em minha pele até pararem em minha orelha direita.
– Esquina a três quadras daqui, Ouriko’s Coffe – sussurrou, eriçando meus pelos – Podemos nos encontrar lá em duas horas? Preciso falar com você, em particular.
Parei de respirar, sentindo meu coração vacilar um pouco. Senti como se tivesse engolido um barriu de abelhas, e os insetos raivosos pareciam debater-se em minha barriga com violência. Engoli em seco, notando que Natsume ainda esperava minha resposta. Forcei minha voz a funcionar, mas não consegui responder direito. Frustrada, apenas assenti. Natsume não pareceu se importar com a bagunça que deixara em minha mente, ele apenas abriu um sorriso satisfeito.
– Perfeito – ele disse.
Assenti outra vez, respirando fundo. Natsume aproximou-se do meu rosto, depositando um beijo de verdade em minha têmpora esquerda. Inclinei a cabeça em sua direção, soltando um suspiro. Inconscientemente, minhas mãos arrastaram-se até o pescoço de Natsume. Antes que eu recuperasse a razão, já estava abraçando-o com força, inclinando o rosto na direção dos seus lábios. Eu devia estar muito carente para estar fazendo aquilo, e ainda mais carente para não me importar com os olhares maliciosos dos espectadores da cena. Natsume também devia ter sua parcela de carência, já que parecia tão absorto quando eu. Eu já conhecia a sensação de seu abraço, mas depois daquela noite na varanda, tudo parecia ainda mais intenso. Eu poderia mergulhar de cabeça naquela sensação, ainda que corresse risco que me queimar nas chamas que eram o corpo de Natsume.
Um clique metálico e robótico me acordou, senti como se tivesse sido puxada por aquele som como se fosse um peixe preso num anzol. Meu corpo se retesou, Natsume teve a mesma reação. Afastei-me dele o suficiente para ver Hikaru guardar o celular na bolsa de couro de usava, seus lábios estavam retorcidos em um sorriso sinistramente malicioso. Franzi o cenho, ele piscou para mim.
– Evidências, matéria prima para um novo romance, material para referências futuras... – ele disse, dando uma risadinha – Podem chamar do que vocês quiserem, vocês dois ficam bem juntos.
Tsubaki bufou, encarando o gêmeo com um olhar intenso. Revirei os olhos, ainda que não discordasse da afirmação de Hikaru. Soltei Natsume, lançando-lhe um olhar de soslaio. Ele não parecia satisfeito, mas deixou-me ir.
– Tenho que ir, preciso dar algumas entrevistas – ele disse – Até outra hora.
Ele olhou-me sugestivamente ao dizer aquela ultima parte, assenti discretamente. Observei-o afastar-se, meu corpo todo estava estranhamente entorpecido. O cheiro de Natsume não saia da minha mente, a sensação de seu beijo em meu rosto não me abandonava de forma alguma.
– Maninha, você está saindo da fila – disse Tsubaki.
Pisquei, olhando em volta. Eu estava um passo à frente deles dois, quase na direção que Natsume tinha ido. Parece que meu corpo agia sem minha ordem, espantei-me ao perceber que eu estava completamente pronta para ir atrás daquele homem apenas para sentir seu cheiro de novo.
– Ah, a juventude – cantarolou Hikaru, fingindo que encarava o telão diante de nós.
Tsubaki fez uma careta, estendendo a mão em minha direção. Minha mão respondeu sem minha ordem, quando me dei conta, já estava nos braços quentes de Tsubaki.
E é isso, nem meu corpo resistia aos Asahina, eu não tinha mais nenhum controle.
**~**~**~**
– AH! – berrei.
Joguei-me no chão, cobrindo o corpo com os braços. Pelo menos eu acho que fiz isso, não dava pra ver muita coisa com aquele capacete enorme. Tentei chutar o zumbi que tentava me morder, mas os dentes dele foram mais rápidos. Senti uma mordida muito realística em meu pescoço, gritei de novo. Antes que eu pudesse respirar, alguém me agarrou com firmeza.
– Calma, maninha – riu-se Tsubaki – Sou eu.
Agitei-me, alguém me ergueu do chão. Debati-me até estar livre do capacete, uma quantidade incrível de gente nerd ria de mim. Olhei em volta, meus olhos deviam estar completamente arregalados. Ouvi vários cliques metálicos, Hikaru devia estar tirando milhares de fotos em algum lugar à minha esquerda. Tsubaki ainda me segurava, meus dedos estavam enterrados em seus bíceps como se eu estivesse tentando escavá-los com as unhas. Ele ria descontroladamente, assim como os organizadores mais próximos. Aparentemente, eu fora a primeira a reagir daquela forma ao capacete.
– Ele me mordeu – gemi, arrepiando-me.
Tsubaki riu ainda mais alto, sacando-me para seus braços. Afundei-me em seu corpo, a mordida do zumbi latejava em meu pescoço.
– Os dentes dele eram frios, eu to com medo – murmurei.
Tsubaki fez um biquinho, depositando um beijinho em minha testa.
– Meu bebê de maninha, como você é linda – ele disse, rindo um pouco – É por isso que chamamos de “capacete de realidade virtual”, nós podemos sentir tudo.
– Eu sei, não sou idiota – resmunguei, tensa – Mas eu não imaginava que era assim tão real.
Tsubaki riu, dando outro beijo em minha testa. Ele demorou-se mais dessa vez, suspirei.
– Realidade virtual, baby – ele disse, piscando – Bem que eu queira ser aquele zumbi, seu pescoço parece bastante apetitoso.
Bufei, empurrando-o. Ele não me deixou ir, apenas riu da minha reação.
– O que acontece agora? – perguntei.
– Saímos daqui e damos a vez ao próximo da fila – respondeu meu irmão – Você morreu, isso encerra nossa jogada.
Engoli em seco, nunca a morte em um jogo me pareceu tão real. Pisquei os olhos umas quatro vezes, os nerds ainda riam de mim.
– Sorria, Nina! – disse uma voz empolgada.
Virei o rosto bem a tempo de ver um fotógrafo sorridente tirar uma foto minha, Hikaru agitava os braços para chamar minha atenção. Ele era muito grotesco, Deus. Tsubaki riu daquilo, o fotógrafo baixou a câmera enorme.
– Acho que vamos conseguir uma primeira página – ele disse, feliz – Obrigado, senhorita...
– É senhor – resmunguei, voltando a abraçar Tsubaki.
O gêmeo riu muito, a expressão de Hikaru era impagável. O fotógrafo engoliu em seco, arregalando os olhos.
– E-entendo – ele disse – M-muito obrigado, senhor...
– Asahina – respondeu Hikaru.
Ele usara sua voz masculina, fazendo o fotógrafo tremer. Ri, Tsubaki fez o mesmo. Hikaru sacudiu a cabeça, dirigindo-me um sorriso.
– Vamos embora, já vai anoitecer – ele disse.
Assenti, despregando-me de Tsubaki para ir até o ruivo. O gêmeo não se abalou, agarrando minha mão para manter-me com ele. Sorri com aquilo, nós três nos dirigimos à saída.
– Você gostou da experiência, irmãzinha? – perguntou Hikaru.
Estremeci, ele riu.
– É muito estranho – contei – A sensação das armas na sua mão é sinistro, e aquele zumbi era... Ah.
Os irmãos riram, estremeci de novo.
– E você, Tsubaki? – Hikaru perguntou.
O mais novo abriu um grande sorriso, meu coração pareceu se aquecer com aquela visão.
– Foi a coisa mais malucamente genial que eu já presenciei, nossa – ele disse, rindo – Se tivéssemos espaço lá em casa, eu compraria aquele telão só para jogar. Aposto que Azusa ia adorar, pena que ele ficou doente.
– Wataru também ia adorar – falei – Devíamos vir aqui num outro dia, espero que a gripe do Azusa acabe logo.
Tsubaki abriu um sorriso reluzente, Hikaru sorriu para o corredor apinhado de gente.
– Ótima ideia, maninha – disse Tsubaki, sem conseguir conter a alegria – Poderíamos nos revezar em duplas, Azusa e eu seríamos invencíveis.
Dei uma risada cheia de escárnio, lançando-lhe um olhar debochado,
– Wataru e eu seremos a melhor dupla, você vai ver – falei – Se Fuuto puder vir, nós dois vamos te ensinar o que é “jogar”.
Tsubaki bufou, revirando os olhos.
– Fuuto seria sua dupla? Vocês dois se odeiam demais para serem bons em alguma coisa – ele disse.
Dei de ombros, sacudindo a cabeça de leve.
– Nós somos compatíveis, você nunca nos viu roubando chocolate da cantina da escola para comer na sala de aula – falei – Fora que ele deve ser bom no vídeo game, nós pegaríamos o jeito rapidinho.
– Duvido – disse Tsubaki – Não existe dupla mais compatível do que Azusa e eu, nós vamos esmagar vocês.
Ri, ele fez o mesmo. A risadinha cintilante de Hikaru nos acompanhava desde o início daquela discussão, aquele som me aquecia. Eu podia não andar muito com aqueles dois, mas a sensação que eles me passavam era tão familiar. É família, minha família. Abri um grande sorriso, encarando o lindo rosto de Tsubaki por um segundo. Ele viu, abrindo um grande sorriso em resposta ao meu.
– O que foi, maninha? – ele perguntou.
Seus dedos entrelaçaram-se nos meus, acariciando minha palma. Sorri, desviando o olhar.
– Nada – menti, suspirando alegremente – Podíamos vir no próximo sábado.
Tsubaki abriu um sorriso lindo, assentindo alegremente. Ele começou a falar alguma coisa sobre como aquele capacete funcionava, mas eu nem prestei muita atenção. Ríamos de vez em quando, meu olhar não deixava seu rosto. Eu sentia Hikaru maliciando aquilo em algum lugar à minha esquerda, mas estava concentrada demais no lindo homem à minha direita para dar atenção àquilo. Desviei o olhar por um segundo, soltando um suspiro. Era tão fácil ficar com eles, eu sentia como se nada no mundo pudesse me fazer mais feliz. Era um pensamento egoísta, mas eu queria que aquilo durasse para sempre, apenas para ter certeza de que eu seria a única garota a passear com eles daquele jeito. Meu coração parecia estar transbordando, eu sentia tanta felicidade que poderia até mesmo sair voando por aí. Se Tsubaki pudesse, ele me acompanharia. Hikaru viria logo atrás, executando seu voo gracioso. Talvez ele fosse uma fênix, Tsubaki seria uma águia. Eu seria um canário, ou uma cotovia. Qualquer coisa com asas, apenas para acompanhá-los para sempre. Se ficássemos cansados pararíamos em alguma estátua e defecaríamos nas pessoas da rua. Ri com aquele pensamento, sem perceber que já estávamos na saída do shopping. Soltei um grande suspiro, abrindo um sorriso relaxado. Apertei a mão que segurava a minha, erguendo o olhar para encarar os olhos brilhantes de Tsubaki. Aquele brilho violeta me aqueceu, mas eu me senti um pouco triste. O devaneio sobre pássaros era meu e de Akira, brincávamos daquilo quando olhávamos o pôr do sol pelo telhado do orfanato. Me parecia certo pensar sobre aquilo com Tsubaki e Hikaru, mas me parecia errado pensar sobre aquilo com qualquer outra pessoa. Se eu pudesse, diria aquilo a Louis. Ele provavelmente diria que meu coração estava vacilante, mas eu não queria ouvir aquilo. Talvez fosse verdade, mas eu não podia deixar Akira. Ele não tinha ninguém, ele precisava de mim.
–... E muito cheddar – disse Tsubaki, rindo – O que você acha?
Pisquei, confusa. Ele sorriu para mim, esperando minha resposta.
– Sobre o que? – perguntei.
Hikaru deu uma risadinha, brotando na minha frente como um fantasma. Dei um pulinho, ele riu daquilo.
– Estávamos te convidando para comer um sanduíche, tem um lugar aqui perto que vende alguns sabores exóticos e deliciosos – ele disse – Tsubaki estava dizendo que gostaria de tentar o de frango, bacon e cheddar.
Tsubaki assentiu, enfatizando as palavras do ruivo. Abri a boca para responder, mas um arrepio me tomou com violência. Engoli em seco, procurando um relógio. Acabei puxando o pulso de Hikaru, ele riu. Eu tinha exatamente quarenta e cinco minutos para achar o Ouriko’s Coffe, e não podia ir acompanhada. Por mais tentadora que a ideia de passar mais tempo com os dois me parecesse, eu simplesmente não podia deixar Natsume na mão. Forcei um sorriso, tentando não parecer evasiva demais.
– Na verdade, eu tenho que ir a outro lugar agora – falei.
– Claro, para onde vamos? – perguntou Tsubaki, sorrindo.
Pisquei, engolindo em seco. Como explicar para aquele lindo homem que eu estava trocando-o por seu lindo irmão gêmeo?
– Er... Eu... – comecei, mordendo o lábio – Preciso ir lá, sozinha.
O sorriso alegre de Tsubaki foi sumindo aos poucos, sendo trocado por um bico. Ele soltou minha mão, cruzando os braços acima do peito. Hikaru ergueu uma sobrancelha, olhando-me intensamente. Engoli em seco, o gêmeo presente inclinou-se um pouco na minha direção.
– O que é isso, maninha? – ele disse, manhoso – Você está me dispensando? Será que eu não mereço sua companhia?
Ah, droga. Aquele bico era lindo demais, perdi o ar. Engoli em seco, tentando achar minha voz.
– Claro que eu não estou te dispensando, Tsubaki – gemi, desesperada – Eu só... Eu tenho que... Tem alguém me... Droga!
Cruzei meus braços, baixando o olhar. Partia-me o coração ver aquele bico, era como ver um Wataru adulto e sexy me implorando por abraço. Eu já vira tigres filhotes na TV, a vontade de mordê-los que eu senti na hora nem se comparava com a que eu sentia ao ver Tsubaki daquele jeito. Esperei por um resmungo que não veio, surpreendendo-me ao ouvir duas risadinhas distintas. Espiei timidamente, deparando-me com o lindo sorriso de Tsubaki diante de mim.
– Eu estava brincando, maninha – ele disse – Pode ir, nos vemos mais tarde.
– Chame um táxi para ir pra casa, não se aventure por aí – completou Hikaru.
Pisquei, os dois sorriam para mim.
– É sério? – falei, surpresa – Vocês não estão com raiva?
Tsubaki fez um novo bico, inclinando-se na minha direção. Deixei-me ser abraçada por ele, sentindo seu cheiro maravilhoso de perto.
– Claro que não, eu não consigo ficar com raiva da minha maninha linda – ele disse – Pode ir, você vai me recompensar por isso mais tarde mesmo.
Franzi o cenho, ele roçou os lábios em minha orelha.
– Vou deixar a porta do meu quarto aberta, apareça por lá – ele disse – Se você não for, eu mesmo terei que ir no seu quarto. Eu sei que você vai encontrar alguém, certifique-se de guardar bastante fôlego para mim.
Estanquei, ele riu. Afastei-me dele, seu sorriso safado estava mais lindo do que o normal.
– O que foi? Achou que eu deixaria você ir se não fosse ser beneficiado mais tarde? – ele disse – Não esqueça, minha maninha linda.
Ele piscou para mim, mordendo o lábio. Revirei os olhos, bufando. Hikaru riu, piscando para mim.
– Até mais tarde – ele disse.
Assenti, acenando com a cabeça. Tsubaki jogou um beijo sexy para mim, Hikaru acenou de volta. Os dois viraram-se na direção oposta a minha, iniciando uma conversa animada sobre peitos e como apertá-los. Ri, sacudindo a cabeça. Olhei em volta, soltando um suspiro. Eu precisava achar o tal café, segundo as instruções de Natsume, ele não ficava muito longe dali. Eu só precisava avançar três quarteirões...
– Esquerda ou direita? – murmurei, franzindo o cenho – Pra frente? Será que fica perto dessa saída? Droga, Natsume.
Bufei, olhando em volta para tentar achar meus irmãos. Eles já tinham sumido, eu estava oficialmente sozinha agora. Trinquei os dentes, eu devia ter perguntado para eles. Se eu não estivesse tão hipnotizada pelos olhos de Natsume, eu podia ter pedido mais informações. Legal, minha primeira burrada do ano. Que alegria.
Sacudi a cabeça, decidindo tirar a sorte. Girei nos calcanhares até estar tonta, quase me desequilibrando e indo beijar o chão. Esperei até minha cabeça parar de girar para ver em que direção eu estava indo: Esquerda. Dei um passo à frente, implorando aos deuses para ter escolhido a direção certa.
Passei por várias lojas, muita gente enchia a rua. Era o fim de uma tarde de domingo, amanhã era o primeiro dia de aulas do ano. Os adolescentes que passavam por ali conversavam animadamente, pude ouvir um garoto baixinho resmungar alguma coisa sobre não poder mais acordar tarde. Ri até lembrar que o mesmo se aplicava a mim, engoli em seco. As aulas no orfanato começavam no dia vinte de janeiro todos os anos, mas eu nunca liguei muito para isso. Eu morava lá, não me parecia muito cedo nem muito absurdo na época. Eu tinha sorte por ganhar mais uns dias, ainda que achasse pouco. Amanhã eu veria meus amigos de novo, talvez tivéssemos que mudar de sala. Seria uma grande confusão, aposto que Fuuto e Yelisei brigariam para decidir ao lado de quem eu sentaria durante o ano letivo todo. Ri, sacudindo a cabeça. Eles não se falavam até minha chegada, pelo que eu soube. Eu passava o dia todo grudada em Fuuto, mas sempre escapava para conversar e brincar com os meninos. Meu irmão ficava visivelmente irritado, Liu e Ken se divertiam muito com aquilo. As garotas da sala deviam me odiar, afinal, meu irmão era um ídolo.
Estava quase trombando em alguém quando deixei meus devaneios de lado, fazendo-me parar de andar com força. A garota arquejou, lançando-me um olhar surpreso e irritado.
– Olha por onde anda! – ela disse.
– Desculpe! – guinchei.
Ela bufou, voltando-se para a frente outra vez. Observei-a melhor, franzindo o cenho. Tinha cabelos escuros e olhos violeta, vestia roupas escuras e usava maquiagem pesada demais para aquele horário. Ela tinha os braços cruzados acima dos seios, parecia chateada, talvez nervosa. Pisquei, lembrando-me de súbito do meu último encontro com Natsume.
– Ayla?! – chamei.
Ela me olhou, erguendo uma sobrancelha.
– Quem é você? – ela disse – Como sabe meu nome?
Arquejei, quase rindo. Ela ainda me olhava daquele jeito curiosamente hostil, parecia bem diferente do que eu lembrava.
– Nina, daquele dia no parque de diversões – expliquei – Ajudei seu irmão, lembra?
Ela pensou por um segundo, até abrir a boca num silencioso “ah”. Sorri, ela desviou o olhar de novo.
– Eu tinha esquecido da sua cara, mas Aiko fala seu nome todos os dias – ela disse – Você é uma megera para roubar o coração dele, sabia?
Ri, ela deu um pequeno sorriso.
– Como ele está? Sinto saudade dele – falei.
Ayla deu de ombros, olhando em volta.
– Tagarela como sempre, vive tentando conversar nossos pais a comprar um cachorro – ela disse, encarando a esquina – Ele também fica me chamando de “mi amor” toda hora, eu não sem de onde ele tirou isso.
Ri de novo, ela não me olhou.
– Significa “meu amor”, foi como eu chamei ele naquela dia – falei – É bom saber que ele não me esqueceu, eu lembro dele quase todos os dias.
Ayla balançou as sobrancelhas, desinteressada. Engoli em seco, ela não percebeu.
– Então, onde vocês moram? – perguntei.
– Shibuya – ela disse, curta.
Dei um meio sorriso, ela sacudiu um pouco os ombros.
– Eu moro um pouco longe – falei – Talvez devêssemos marcar alguma coisa. Falei do Aiko para meu irmãozinho e ele ficou curioso, acho que eles vão se dar bem.
Ela grunhiu, provavelmente não tinha ouvido uma palavra do que eu disse. Suspirei, sacudindo a cabeça.
– Posso ver seu celular? – pedi,
Ela me olhou, desconfiada. Sustentei seu olhar, ela bufou de leve.
– O que você quer com meu celular? – ela perguntou.
Dei de ombros, abrindo um sorriso amigável. Ela me estudou durante alguns segundos, até soltar um suspiro. Ayla enfiou a mão dentro do bolso da calça apertada que usava, puxando um aparelho prateado parecido com o meu. Peguei-o antes que ela pudesse mudar de ideia, recebendo seu olhar irritado. Ri, sacudindo a cabeça. Digitei rapidamente meu número na tela de discagem, ligando para mim mesma. Encerrei a chamada assim que meu celular tocou, salvei meu número na agenda dela.
– Prontinho – falei, sorrindo – Obrigada.
Estendi-lhe seu celular, ela pegou-o de mim.
– Qual é seu sobrenome? – perguntei.
Ayla encarou seu celular, percebi que ela estudava meu número salvo em sua agenda.
– Hanamiya – ela disse, sem me olhar.
Assenti, puxando meu celular do bolso. Salvei o número em questão de segundos, sentindo o olhar de Ayla em mim. Sorri para ela, que desviou o olhar.
– Eu te ligo qualquer dia, você tem um horário preferido? – perguntei.
Ela negou com a cabeça, encarando a calçada. Olhei em volta, procurando algo para dizer. Ela estava recostada em uma coluna de sustentação, olhei para cima. Era uma mercearia pequena, eu podia ouvir barulhos do lado de dentro. Estiquei-me para olhar, Ayla pigarreou. Aquilo me distraiu, ela respirou fundo.
– Você quer dizer algo coisa? – perguntei.
Ela negou com a cabeça, voltando a encarar a calçada. Seu maxilar estava travado, ela parecia tensa. Franzi o cenho, inclinando a cabeça para o lado.
– Você está bem? – perguntei.
Ela abriu a boca para responder, mas a porta da mercearia foi aberta na hora. Ela empalideceu por um segundo, mas sacudiu a cabeça para recompor-se. Um rapaz alto e robusto saiu do estabelecimento, seus olhos faiscaram em nossa direção. Ele deu um meio sorriso, fechando a porta e vindo até nós. Ayla estremeceu um pouco, o rapaz me olhou.
– O que está fazendo, linda? – ele disse.
Ayla engoliu em seco, olhando-me por um segundo.
– Ela conhece meu irmão – a garota respondeu.
O rapaz assentiu devagar, erguendo o olhar até me encontrar. Lançou-me um olhar predatório, como uma água observa sua caça. Estremeci, ele abriu um meio sorriso sinistro. Tinha cabelos pretos e intrigantes olhos violetas, quase como as lentes de Ayla. Tentei não me encolher diante de seu olhar, ele riu da minha reação.
– Oi – ele disse.
Sua voz era sinistra, arrepiou-me por completo. Ayla mudou de posição, desconfortável. Forcei um sorriso, saiu uma careta.
– Er... Oi – respondi, hesitante – Você é?
Ele inclinou-se na minha direção, encarando-me fixamente. Afastei-me sem querer, ele abriu um sorriso malicioso.
– D. – respondeu.
Pisquei, ele riu. Ayla olhou-me, notando meu completo desconforto. Ela tocou o braço do cara, fazendo-o olhar para ela.
– Vamos, Damien – ela disse – Não é segur...
– Ah! – ele guinchou, calando-a na hora – Quietinha aí, linda. Só vamos embora quando eu disser.
Ela encarou seus olhos, ele sustentou seu olhar. Assisti aquela batalha de olhares até estar nauseada, engoli em seco. Por fim, Ayla desistiu e desviou o olhar. O tal Damien abriu um sorriso satisfeito, agarrando a garota e puxando-a para si. Minha boca se abriu, ele devia estar tentando devorá-la a partir dos lábios. Desviei o olhar, os ruídos do beijo violento pareciam me provocar. Precisei pigarrear para eles se lembrarem da minha existência, o ruído molhado encerrou-se com um puxão. Ergui o olhar, Ayla encarava o chão.
– O que aconteceu com sua educação? Não se atrapalha um beijo entre dois amantes – disse Damien, sarcástico.
Bufei, Ayla engoliu em seco.
– Vamos, D. – ela disse, nervosa.
Ele estalou a língua, lançando-lhe um olhar de censura.
– Vamos trabalhar esses modos mais tarde, não gosto de ser desobedecido – ele disse, erguendo o olhar até mim – Vamos embora, você vai fazer aquela tatuagem.
Ele disse aquilo olhando para mim, mas estava claramente falando com Ayla. Ela assentiu, tremendo um pouco. Damien pegou a mão da garota, dirigindo-me uma piscadela.
– Até mais, raio de sol – ele disse.
Bufei, ele riu. Observei-o puxar Ayla até a esquina, ele disse alguma coisa que a fez tremer um pouco. Eles desapareceram dentro de dois minutos, suspirei. Então aquele era o namorado que Aiko mencionara. Ele não era feio como o menino dissera, parecia ser o tipo de cara que corrompe até mesmo as mais santinhas. Será que Ayla tinha sido seduzida por aquele jeito rústico? Se fora, como ela era antes?
– Onde ele está?! – berrou uma voz.
Dei um pulo de susto, arregalando os olhos. Um velho senhor saiu de dentro da mercearia, brandia um bastão de basebol velho e surrado no ar. Seus olhinhos me acharam, sua expressão se suavizou um pouco.
– Você, menina – ele disse, apontando para mim – Viu pra onde foi aquele bandidinho?
Pisquei, franzindo o cenho.
– O garoto que saiu daí? – perguntei.
O velho bufou, olhando em volta.
– É sempre nessa época do mês, ele aparece aqui e rouba alguma coisa – o velho disse – Estava armado dessa vez, levou todo dinheiro que suamos para ganhar. Francamente, gente assim não devia nem respirar!
Pisquei, o velho resmungou mais alguma coisa, entrando na mercearia outra vez. Olhei na direção que Damien e Ayla tinham ido, sentindo meu coração se apertar. Será que ela sabia do assalto? E se sabia, será que ela concordara com aquilo? Respirei fundo, engolindo a saliva com um pouco de força. Eu sentia um gosto amargo na boca, e sabia que não tinha relação alguma com a bala de menta que Tsubaki me dera mais cedo. Aiko tinha mesmo razão, aquele cara devia ser mesmo alguém perigoso.
Rumei para frente, erguendo o olhar para observar o ambiente. Uma placa enorme estendia-se no ar, uma esquina à frente. Era o tal café que Natsume dissera, eu tinha tomado o caminho certo. Dei um meio sorriso, mas não consegui ficar feliz. O modo com ele a tratava, o modo como ela parecia se encolher perto dele... Aquilo era doentio. Ele parecia ser um cara violento, será que ele usava esses meios para inspirar respeito na namorada? Se sim, por que ela continuava com ele? Não tinha força para pular fora? Será que ela gostava daquilo? Será que ela era tão criminosa quanto ele?
Pisei no pequeno degrau do café, empurrando uma larga porta de vidro. Um pequeno sino soou, indicando minha chegada. Algumas pessoas olharam para a porta, senti-me muito pequena de repente. Enfiei as mãos nos bolsos do casaco e dei mais um passo para dentro, olhando em volta para procurar uma mesa vazia. Achei uma bem no cantinho, quase pude ver Natsume ali. Dei um meio sorriso, caminhando lentamente até lá. Sentei-me assim que pude, de costas para a porta. O clima era acolhedor, quente. Estava frio lá fora, sentir esse calor me fez sorrir de leve.
– Gostaria de alguma coisa, senhorita? – disse alguém.
Ergui o olhar, um rapaz encarava-me de volta. Parecia tão diferente de Damien que eu até soltei um suspiro de alívio, tentei sorrir.
– Estou esperando meu irmão, pediremos algo assim que ele chegar – respondi.
O rapaz assentiu, sorrindo gentilmente. Ele afastou-se silenciosamente, as conversas dos outros clientes eram baixas e tranquilas. Soltei um suspiro, deixando o olha vagar até o lado de fora. A fachada do café era de vidro, então eu podia ver a rua movimentada do lado de fora sem fazer esforço. Uma senhora guiava uma garotinha fofa, devia ser sua neta. Os carros estavam parados no sinal, algumas pessoas atravessavam a rua. Era belo de se ver, a vida era fácil de se viver daquele jeito.
Analisei mentalmente minha conversa com Ayla umas duas vezes, tentando achar algum sinal de opressão ou nervosismo exagerado. Ela me parecia mesmo um pouco nervosa, olhava para os lados a todo momento. Ela sabia o que o namorado estava fazendo, e pelo modo como eles se tratavam, ela não podia fazer nada para impedi-lo. Mas ela não estava do lado de dentro, isso podia significar que ela não queria participar daquilo. Essa relutância só podia significar uma coisa: Ela tinha medo, mas não tinha controle.
Deixei que a sensação de desespero me tomasse, fechando os olhos por um segundo. Eu achava que tinha muitos problemas, mas eu tinha muita sorte. Eu tinha treze irmãos que zelavam por mim, tinha dois pais adotivos que podiam não ser muito presentes, mas nos visitavam com frequência. Eu tinha amigos protetores que faziam de tudo para me ajudar, que me abrigaram em sua “família” com carinho e dedicação. Eu tinha um namorado que fizera de tudo para me curar, que me amou e me protegeu durante dois anos, e que continuava me amando, mesmo depois da bagunça que eu fiz em nossas vidas. Aquilo não era nada, eu não tinha direito de reclamar. Tudo que acontecera foi por minha culpa, eu não devia me esconder atrás de ninguém ou impor uma pausa no meu namoro apenas para trair sem culpa. Eu fizera tudo aquilo, eu devia resolver. Não era justo com ninguém. Não era justo deixar Akira esperando por uma resposta que eu teimava em negar. Não era justo deixar Iori achando que eu nunca retribuiria seu amor. Não era justo negar um beijo de Louis quando me entregava para outros. Não era justo bancar a psicóloga para Tsubaki quando eu não sabia nada do mundo. Não era justo pedir para Natsume me deixar entrar se eu não podia curá-lo. Não era justo bancar o cupido para Subaru se eu nem conseguia bancar o cupido para mim mesma. Não era justo tentar resolver os problemas alheios se eu nem conseguia resolver os meus, e não era justo me esconder e deixar que o tempo varresse minhas obrigações. Todo mundo tem problemas, e os meus nem sequer eram problemas de verdade. Akira, Iori, Louis,Tsubaki, Natsume... Eles precisavam de uma resposta, não era justo deixá-los esperando por mais tempo. Eu já divagara demais, já estava na hora de pôr um ponto final naquilo tudo.
– Gatinha? – chamou-me uma voz quente, grave.
Abri os olhos, sentindo uma mão segurar meu ombro direito. Ergui o olhar, deparando-me com o mais novo dos gêmeos ao meu lado. Ele me estudou, um pequeno sorriso que eu nem vira se abrir estava morrendo.
– Você está bem? – ele perguntou.
Respirei fundo, forçando um sorriso. Assenti, cruzando as mãos na mesa. Natsume ergueu uma sobrancelha, Ampliei meu sorriso.
– Senta, Natt – falei.
Indiquei o banco com a cabeça, encarando seus olhos. Ele me encarou durante quase um minuto, talvez tentando ver se eu estava mesmo bem. Sorri um pouco mais, ele finalmente relaxou. Sua mão deixou meu ombro, Natsume encaminhou-se até o banco diante de mim. Observei-o melhor, reparando que ele estava sem a parte de cima do terno. Usava uma gravata verde, sorri internamente ao reparar que ele não vestia o presente que eu escolhera. Não era nada demais, quem usaria uma gravata como aquela? Ele era um empresário sério, onde eu estava com a cabeça? Bufei para não rir, sacudindo a cabeça.
– O que é engraçado? – Natsume perguntou.
Olhei-o, soltando um suspiro. Acabei sorrindo sem querer, um sorriso de aceitação. O que eu sentia por aquele homem? Como conciliar isso com meu namoro arruinado?
– Não é nada, me ignore – falei.
Ele respirou fundo, esticando a mão em minha direção. Ele pegou minha mão, apertando um pouco meus dedos.
– Nunca – ele disse, firme.
Encarei-o nos olhos, ele não parecia estar brincando. Meu sorriso crescer, desviei o olhar até seus dedos.
– É bom ouvir isso – falei.
– E é bom dizer isso – ele disse.
Sorri, erguendo o olhar. Ele sorriu para mim, acariciando meus dedos de forma levemente brusca. Ele não parecia ser o tipo de homem que mima a mulher, mas aquele carinho dele foi tão forte quanto os carinhos que eu estava acostumada a receber. Nos olhamos durante um tempo, não precisávamos de palavras. Vi coisas naquele olhar, coisas que eu nunca pensei que veria nele. Aquela camada de amargura e solidão que ele sempre exibira parecia tremular agora, como se não passasse de uma sombra fraca e escura. Uma camada quase solida de carinho cobria seus olhos, aquele olhar era para mim. Mordi o lábio, inclinando a cabeça para o lado. O que eu sinto por ele? Por que é tão forte? Como isso conseguia me afetar tanto?
– Está pronta para pedir algo agora, senhorita? – disse uma voz.
Ergui o olhar, piscando um pouco. Aquele rapaz estava de volta, parecia um pouco tímido por estar interrompendo. Sorri, ele sorriu de volta.
– Posso pedir por você, Nina? – perguntou Natsume.
Assenti, confiava nele o bastante para aquilo. Ele sorriu, erguendo o olhar até o garçom.
– Dois capuchinos de chocolate, uma torta de pêssego e uma torta de chocolate com nozes, por favor – meu irmão disse – Ah, chantili nos capuchinos.
O garçom assentiu, anotando tudo em um bloquinho e afastando-se silenciosamente. Franzi o cenho, voltando-me para encarar Natsume.
– Capuchino de chocolate? – perguntei.
Ele sorriu, esperei.
– É uma delícia, doce e amargo ao mesmo tempo – ele disse – Me lembra você e eu, na verdade.
Abri um sorriso indagador, ele corou um pouco.
– Eu sou o que, doce ou amarga? – perguntei.
Ele sorriu de leve, encarando nossos dedos entrelaçados.
– A combinação perfeita entre os dois, algo tão incrível que devia ser sagrado – respondeu.
Abri um grande sorriso, rindo um pouco. Natsume sorriu também, ainda encarando nossos dedos. Apertei sua mão, suspirando.
– Obrigada, eu acho – falei – O mesmo pode ser dito a você, nunca provei nada que pudesse se comparar ao sabor do seu beijo.
Ele corou um pouco, erguendo o olhar até encontrar o meu.
– O mesmo pode ser dito a você, senhorita Kazama – ele disse – Se me permite essa ousadia, eu gostaria de dizer que o sabor do seu beijo é tão bom quanto o sabor da primeira refeição de um faminto.
Ri pelo nariz, ele também riu.
– Certo, essa comparação foi bizarra – ele disse.
Ri mais um pouco, dando de ombros.
– Eu gostei, mesmo assim – confessei – Agora, pode me dizer por que estamos falando como múmias dos anos quarenta?
Natsume riu, bem mais alto do que eu estava acostumada. Aquele som me encheu, ri junto com ele apenas para curtir por mais tempo aquele clima maravilhoso.
– Também prefiro a forma atual de comunicação, mas é mais forte do que eu – ele disse – Andei estudando novamente alguns poemas românticos para aprender como se deve tratar uma garota, admito que estou meio enferrujado no assunto.
Bufei, encarando-o com ceticismo.
– Você não está enferrujado, só tem sua própria maneira de tratar as pessoas – falei – Alias, se eu fosse uma garota, ficaria feliz apenas por estar ao seu lado.
Ele bufou, erguendo o olhar.
– Você fala como se não fosse uma garota – ele disse.
– E se eu não for uma? – indaguei.
Ele riu, lançando-me um olhar cético.
– Eu tenho certeza de que você é – ele disse.
Ergui uma sobrancelha, mordendo o lábio. Inclinei-me em sua direção, piscando o olho direito.
– Como pode afirmar com tanta certeza? Você já viu minha vagina? – perguntei.
Ele ofegou, corando com a pergunta. Abri um sorriso satisfeito, Natsume pigarreou para achar sua voz.
– Não, eu nunca vi sua vagina – ele disse, engolindo em seco antes de continuar – Mas, se você não fosse uma garota de verdade, não teria essa sensualidade toda.
Arquejei, rindo.
– Eu sou sensual? Desde quando? – zombei.
Natsume deu de ombros, erguendo o olhar até encontrar o meu.
– Desde quando eu não sei, mas posso afirmar que você desperta fantasias em qualquer homem com apenas um leve movimento – ele disse.
Ri, cruzando os braços abaixo dos seios. Natsume sorriu, encarando meus braços... Ou meus seios.
– Desperto fantasias em você também? – perguntei.
Ele corou um pouco, mas assentiu. Abri um grande sorriso, mordendo o lábio e inclinando-me em sua direção. Fixei meu olhar no seu, umedecendo os lábios com um sorriso sacana.
– Talvez devamos terminar essa conversa em um lugar mais calmo, onde você possa me explicar direitinho esse papo de “fantasias” – falei.
Ele abriu um meio sorriso, seus olhos brilharam.
– Não me tente – disse.
Senti minhas entranhas se retorcerem, mordi o lábio com força. Um leve pigarro me fez perceber o que estava fazendo, encerrei o flerte com um suspiro. O garçom voltara com nossos pedidos, parecia corado. Será que ele ouvira alguma coisa?
– Aqui está, senhores – ele disse.
Sorri, agradecendo-o com um aceno de cabeça. Ele sorriu para a mesa, servindo-nos tudo e retirando-se depressa. Não pude deixar de rir um pouco daquilo, suspirei outra vez. Encarei a torta que fora depositada a minha frente, o cheiro afrodisíaco do chocolate me fez tremer de prazer. Peguei o garfo e cortei um pedaço, enfiando-o na boca em questão de segundos. O gosto era incrível, eu nunca provara algo mais gostoso. Soltei um muxoxo, apressando-me para comer mais daquela ambrosia dos deuses.
– Não se poupe – provocou Natsume.
Eu já estava na quarta garfada quando ele disse aquilo, tentei não rir. Engoli o que tinha na boca, lambendo os lábios.
– Ukyo que me perdoe, mas essa é a sobremesa mais gostosa que eu já comi em toda minha vida – falei.
– Espere só até você provar o capuchino – disse Natsume, sorrindo.
Sorri de volta, ansiosa. Cortei mais um pedaço de torta, degustando aquele sabor divino com os olhos fechados. Era como flutuar numa nuvem de chocolate, os pedacinhos de nozes pareciam massagear minhas papilas gustativas. Soltei outro muxoxo, suspirando apaixonadamente.
– Oh, Deus – falei – Eu preciso casar com o cara que inventou essa receita.
Ouvi Natsume rir baixinho, sorri. Abri os olhos, deparando-me com um lindo par de olhos violeta me encarando. Ele sorria carinhosamente para mim, seu olhar era terno. Sorri de volta, sentindo-me aquecida.
– Preciso te trazer aqui mais vezes, há quase cem sabores de torta aqui – disse Natsume.
Abri um grande sorriso, tremendo de expectativa.
– Combinado! – vibrei.
Natsume riu, sacudindo a cabeça. Sorri, preparando-me para comer mais daquela torta maravilhosa. Fizemos silêncio durante alguns minutos, o clima estava agradável o bastante para evitar o nervosismo costumeiro que me dava sempre que Natsume ficava calado demais. Eu olhava a rua de vez em quando, observando a primeira hora da note começar. O café estava enchendo mais depressa do que eu podia observar, as conversas calmas agora estavam mais agitadas e animadas. Sorri com aquilo, brincando um pouco com o garfo. Minha torta acabara, restava-me apenas o capuchino. Ergui uma sobrancelha para a xícara, como se a desafiasse a vir até mim por vontade própria.
– Tomando coragem? – perguntou Natsume.
Neguei com a cabeça, divagando um pouco. Ele sorriu de leve, largando seu próprio garfo. Sua torta acabara também, suspirei.
– Então por que você ainda não agarrou essa xícara? – ele perguntou.
Dei de ombros, ele ergueu uma sobrancelha.
– Estava apenas divagando – falei.
Natsume ergueu ainda mais aquela sobrancelha, mordi o lábio.
– Você está divagando bastante hoje – ele disse.
Dei de ombros de novo, tentando sorrir.
– Eu não sou das mais espertas, então costumo pensar bastante antes de tomar alguma decisão – falei – Mas, é claro que nem sempre eu tomo a decisão certa.
Natsume juntou as mãos por cima da mesa, avaliando-me como se eu fosse uma candidata a algum emprego em sua empresa.
– Fale mais sobre isso – ele disse.
Suspirei, desviando o olhar até a xícara.
– Digamos que eu sou mais o tipo que age sem pensar, e acaba se ferrando muito por isso – falei – Depois de alguma grande besteira, eu acabo ficando pensativa demais. Divago por coisas insignificantes, e acabo desviando minha atenção do problema. É como se minha mente tentasse fugir para me poupar, como minha mente soubesse que eu não estou pronta para certas coisas, e quer me proteger. Eu não sei se é só um escudo muito forte ou se é paranoia, mas faço isso desde que me lembro.
Natsume estudou-me com o olhar, divagando um pouco. Respirei fundo, decidindo tocar a xícara. O vidro estava quente, o que me surpreendeu. Achei que fosse uma bebida fria, mais um sinal de que eu jamais vou estar perto de saber avaliar bem as coisas logo de cara.
– Não acha que é um pensamento complexo demais? – Natsume perguntou.
Dei de ombros, rindo um pouco.
– Demorei uns bons anos formando esse pensamento, me assusta que você não tenha saído correndo – admiti – Não, é só um devaneio profundo.
Agarrei a alça da xícara com a mão, trazendo-a para mais perto. Toquei o vidro com meus lábios, sentindo o cheiro da bebida. Era chamativo e agradável, arrependi-me por não ter provado mais cedo.
– Você já frequentou a sala de um psicólogo? – Natsume perguntou.
Assenti, sugando um pouco do capuchino. Degustei, maravilhando-me com a mistura de sabores.
– E o que ele te disse? – perguntou Natsume.
Engoli, arquejando de prazer.
– Ele me expulsou – confessei – Eu era como uma selvagem na época, atirei um vaso de flores na cara do médico.
Natsume arregalou os olhos, baixei o olhar até a xícara.
– Você voltou lá depois daquilo? Frequentou algum outro médico? – ele perguntou.
Neguei com a cabeça, refreando um sorriso.
– Achei alguém melhor para trocar experiências, funcionou bastante – contei – Ele me fez aceitar o que tinha acontecido, me fez voltar a ser pelo menos metade de quem eu era antes.
Meu irmão suspirou, sem falar nada. Ele devia saber de quem eu estava falando, e talvez aquele assunto fosse demais para ele aguentar. Ele tinha amor de menos, eu tinha amor demais. Ele era fechado demais, eu era aberta demais. Ele era sério demais, e eu era boba demais. Ele era perfeito demais, e eu era fraca demais. Éramos como as polaridades de uma pilha, completamente o oposto uma da outra. De alguma forma, funcionávamos bem juntos. Continuávamos o oposto um do outro, mas nos completávamos. Era fácil imaginar uma vida ao lado dele, talvez mais fácil do que imaginar uma vida ao lado de Akira. Se, em um universo paralelo, fôssemos amantes, era bem fácil imaginar como tudo seria. E como tudo terminaria.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Suspirei, piscando os olhos para tentar acordar. Estava divagando outra vez, com algo surreal demais para ser saudável. Levei a xícara aos lábios outra vez, tomando dois longos goles de uma vez só.
– Eu devia ter ligado – comentei, afastando a xícara da boca – Se eu tivesse divagado menos, talvez não estivéssemos tendo essa conversa.
Natsume abriu a boca para falar, mas acabou apenas engolindo em seco. Dei um sorriso fraco, suspirando profundamente. Acariciei minha xícara com meus polegares, divagando sobre pedir mais um copo para a viagem. Será que Wataru gostaria daquilo?
– Acho que dessa vez a culpa é minha – disse Natsume – Eu beijei você, eu devia ter ao menos ligado.
Dei um meio sorriso, negando suavemente com a cabeça.
– Você agiu como agiria com qualquer outra garota, eu errei ao criar expectativa – falei.
Natsume suspirou, esticando a mão para tocar a minha. Levei a xícara aos lábios, fingindo não ver a cara de pesar que ele fez.
– Você não é “qualquer outra garota”, Nina – ele disse – A culpa foi minha, eu te magoei.
Tomei um longo gole do capuchino antes de baixar a xícara outra vez, erguendo o olhar. Os olhos de Natsume não deixavam meu rosto, ele estava sério, talvez triste. Respirei fundo, tentando parecer firme como meus pensamentos.
– Eu não sou criança, Natsume – falei – Eu sei que eu não sou madura, mas eu já lidei com certos níveis de dor, e se tem uma coisa que eu aprendi com eles é que, depois que tudo passa, a última coisa que devemos fazer é nos arrepender. Eu não me arrependo de ter te beijado, mesmo sabendo que isso vai bagunçar muito meus pensamentos. Eu divaguei muito para botá-los em ordem, chega a ser injusto esse efeito que você causa em mim.
Ele não disse nada, devia estar querendo ouvir mais. Respirei fundo, engolindo em seco antes de continuar.
– Eu não estou magoada, se é o que você está pensando – falei – Estou um pouco perdida e confusa, mas não estou magoando. Geralmente, as pessoas se magoam ao meu redor, não o contrário. Eu magoei meu namorado, magoei Iori, magoei Tsubaki e magoei Louis. Devo estar te magoando também, e é estranho ficar repetindo essa palavra. Eu já remoí tanto as coisas que eu fiz para magoar os outros que já até perdeu o sentido, mas a essência continua a mesma. Eu sou uma idiota, e magoo todo mundo que chega perto por não ser forte o bastante. Eu me arrependo das coisas que eu fiz, mas eu sei que, um dia, tudo vai fazer sentido. Eu nem sei por que eu estou dizendo tudo isso, ninguém merece ouvir o resultado das minhas divagações idiotas.
Soltei um suspiro, dando um pequeno sorriso para a xícara. Natsume também suspirou, encarando o próprio capuchino intocado.
– Seria diferente se eu tivesse ligado? – ele disse.
Sua voz estava um pouco grave, como se ele estivesse tentando desfazer um bolo em sua garganta. Suspirei, engolindo em seco.
– Provavelmente – confessei – Mas eu continuaria sentindo essas coisas, só não por você.
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um segundo.
– Eu fiquei com medo – ele disse, espirando em uma bufada – Não beijo ninguém desde Ema, e nós dois sabemos que não acabou bem.
– Talvez teria dado certo se você tivesse ligado pra ela – comentei.
Ele pareceu ter levado um soco, engoli em seco. Pronto, minha dose de veneno fora dada com sucesso. Parabéns, Kazama.
Natsume respirou fundo, engolindo em seco. Resolvi tomar mais capuchino, minha boca não diria besteiras enquanto estivesse ocupada. Infelizmente, aquele fora o último gole.
– Talvez você esteja certa – disse Natsume.
Baixei a xícara, ele encarou a mesa. Estendi a mão para tocar a sua, apertando seus dedos para chamar sua atenção. Ele ergueu o olhar até nossas mãos, suspirei.
– Desculpe – murmurei.
Ele apertou meus dedos, fechei os olhos.
– Desculpe – respondeu.
Sorri de leve, mordendo o lábio. Abri os olhos, deparando-me com os lindos olhos de Natsume Asahina fixos nos meus. Ele estudou cada linha do meu rosto, soltando um suspiro intenso.
– Deus sabe o quanto eu quis te agarrar, te enfiar no meu carro e te sequestrar permanentemente naquela noite – ele disse – Eu sou um grande idiota.
Apertei seus dedos, sorrindo de leve.
– Ele também sabe o quanto eu queria ser sequestrada por você, mas eu discordo de sua última afirmação – falei, hesitando por um segundo antes de continuar – A idiota da história toda sou eu, que te rejeitei durante o primeiro beijo. Ou Ema, que te descartou antes de conhecer o homem incrível que você é.
Natsume sorriu de leve, encarando nossos dedos entrelaçados.
– Somos todos uns idiotas – ele disse – Eu deixei a mulher que eu amava uma vez, mas não pretendo fazer de novo.
Sorri de leve, acariciando seus dedos delicadamente.
– Ela é uma sortuda, a mulher que você ama – falei.
Natsume revirou os olhos, ampliando aquele sorriso.
– Se ela é sortuda eu não sei, mas ela é péssima tentando se fingir de desentendida – ele disse.
Ri, sacudindo a cabeça. Natsume sorriu para mim, olhando-me nos olhos. Sustentei seu olhar, suspirando. Ele suspirou também, desviando o olhar até minha xícara vazia.
– Você foi rápida – ele disse.
Dei de ombros, nossas mãos se soltaram de leve.
– Esse troço é uma delícia – falei – Se você não beber o seu, eu vou ser obrigada a roubá-lo de você.
Natsume riu, erguendo as mãos em rendição. Sorri, juntando as mãos em meu colo.
Que confusão. Quanto mais eu divagava, mais difícil ficava de desenrolar o carretel de minha vida. Os fios pareciam nunca ter fim, não adiantava puxar nenhum deles. Agora eu podia sentir grossos fios verdes subindo por minhas pernas, enlaçando minha cintura com força. Eu já tinha fios azuis em volta do coração; fios cor de malva em volta da alma; fios violeta em volta do meu pescoço; fios aveia em volta dos braços. Eu estava completamente atada, puxada em todas as direções. Se um dia eu cedesse, mataria os outros fios. Eu podia senti-los em mim, vibrando como pulsações de um coração invisível. Cada fio tinha sua própria batida, umas mais vibrantes que as outras, porém todas fortes. Nesse momento, nenhuma delas se sobressaía. Talvez um dia eu conseguisse livrar-me de algumas, mas nunca me desamarraria por inteiro. Eu tinha o controle de mim, mas os fios me dominavam com mais força do que eu os dominava.
Eu esperava não ser rasgada ao meio ou ser sufocada por esses fios.
**~**~**~**
Natsume abriu a porta do carro para mim, fazendo-me sorrir. Ele ajudou-me a sair, mas não soltou minha mão depois que eu estava firmada no chão. Observei-o bater a porta do carro, fechando-a com um baque surdo. Ele guiou-me até o portão, não largou minha mão nem para abri-lo. Ri baixinho, ele sorriu discretamente. Entrelacei nossos dedos, ele conseguiu abrir o portão com uma só mão. Entrei primeiro, mas não pude ir mais além por estar presa por ele. Natsume entrou e fechou o portão de novo em questão de segundos, virando-se para mim logo em seguida. Sorrimos um para o outro, ele ajeitou-me ao seu lado. Nossas mãos se soltaram, ele posicionou sua mão esquerda na minha cintura. Caminhamos tranquilamente, seus dedos afagavam-me.
– Obrigada pela tarde – falei.
Natsume apertou minha cintura, sorrindo para o caminho que seguíamos.
– Obrigado pela companhia – respondeu.
Sorri, ele suspirou.
– É provável que eu vá me encher de trabalho durante a semana, mas eu vou fazer de tudo para te fazer uma visita – disse ele.
Sorri, lançando-lhe um olhar de soslaio.
– Obrigada – falei – Por gastar seu tempo comigo.
Natsume me olhou, apertando minha cintura intensamente.
– Não é um gasto de tempo, é um conforto muito ansiado – ele disse.
Sorri, desviando o olhar.
– Para, você vai me fazer corar – brinquei.
Ele riu, parando de andar. Estávamos na porta da mansão, só fui perceber aquilo naquela hora. Natsume não soltou minha cintura, apenas puxou-me delicadamente para um abraço. Abracei-o de volta, sorrindo. Ficamos daquele jeito durante uns três minutos, os dedos dele acariciavam preguiçosamente minhas costas. Entrelacei meus dedos em seus cabelos, respirando fundo para desfrutar seu cheiro. Eu poderia ter passado o resto da vida, mas Natsume cortou nosso abraço. Dei um meio sorriso, ele fez o mesmo.
– Bem, boa noite – falei.
Ele ergueu a mão para tocar meu rosto, seu polegar afagou minha bochecha. Sorri, inclinando a cabeça na direção de seu carinho. Ele sorriu com aquilo, soltando um longo suspiro. Esperei, seu olhar explorou cada cantinho do meu rosto.
– Eu estive pensando nisso desde o momento em que te vi pela primeira vez hoje – ele disse.
– Em afagar minha bochecha? – perguntei.
Ele riu pelo nariz, aproximando nossos corpos. Seu braço esquerdo enlaçou minha cintura, seus dedos desceram até meu queixo.
– Não, não apenas nisso – disse Natsume – Eu estava pensando em te ter em meus braços como tenho agora.
Sorri, ele desviou o olhar até estar encarando meus lábios. Mordi o lábio inferior sem querer, Natsume mordeu o lábio também. Fiquei encarando seus lindos olhos, eles brilhavam como estrelas em uma noite de verão. Os orbes não paravam de encarar meus lábios, senti como se estivesse sendo sugada por eles.
– Posso ganhar um beijo? – ele disse – Prometo que vou ligar amanhã, e juro que não vou conseguir dormir se perder essa chance.
Engoli em seco, minha boca se abriu um pouquinho. Natsume deve ter visto naquela hesitação a resposta que queria, já que se inclinou na minha direção. Ele fechou os olhos, grudando sua testa na minha. Acabei fechando os olhos, engolindo em seco e preparando-me para o que eu achava que aconteceria.
Eu não esperava ser puxava daquele jeito, e não esperava que o homem que me puxara batesse a porta na cara de Natsume. Pisquei, tentando entender o que estava acontecendo. O ruivo riu baixinho, puxando-me para si. Seus lábios roubaram-me um beijo intenso, apertando meus lábios. Grunhi de desespero, tentando afastá-lo. Hikaru não me deixou ir até se sentir satisfeito, encerrando o beijo. Afastei-me dele com força, chocando-me contra a parede fria da casa. Arquejei, ele umedeceu os lábios com a língua.
– Se alguém merecia um beijo de boa noite, essa alguém sou eu – ele disse, dando uma risadinha – Você aprontou bastante comigo no shopping, o mínimo que eu poderia pedir é um beijo.
Grunhi, irritada.
– Precisava ter feito aquilo? Eu nem consegui me despedir – protestei.
Hikaru riu, negando com a cabeça.
– Eu estava te devendo uma provocação, já que você duvidou da minha palavra outra vez – ele disse, lançando-me um olhar intenso – Eu avisei que não seria tolerante se tivesse uma segunda vez, o que me faz pensar: Será que você quer que eu te mostre o quanto prezo o que tenho entre as pernas?
Trinquei os dentes, refreando o impulso que mandá-lo ao inferno. Hikaru deu um sorrisinho, seus dedos agarraram a maçaneta da porta.
– Estou indo embora, mas não pense que isso acabou aqui – ele disse – Até outro dia, irmãzinha.
Bufei, ele riu. Dei-lhe as costas, ouvindo o som da porta sendo fechada atrás de mim. Fui até a sala a passos fortes, cruzando os braços e bufando como um búfalo. O som de risadas escandalosas encheu o ar, estanquei. Alguém me agarrou assim que entrei na sala, pelo cheiro, era Tsubaki.
– Maninha! Que alegria! – ele disse, rindo descontroladamente – Você bem na hora, conte de novo como foi jogar comigo no shopping.
– Me solta, Tsubaki! – guinchei.
Me retorci até ter me livrado de seu aperto, bufei. Olhei em volta, todos riam muito de algo que eu ainda não sabia. Estavam todos ali, tirando Hikaru, Kaname, Natsume e Fuuto. Até Subaru ria, franzi o cenho. Estava pronta para perguntar do que eles estavam rindo, mas meus olhos me levaram o entendimento de imediato. Um vídeo era exibido na televisão, e a estrela do tal vídeo era uma garota desastrada que gritava histericamente no chão. Eu riria com os outros, se não fosse eu a garota do vídeo. Arregalei os olhos, todos riram ainda mais daquilo.
– Como vocês conseguiram isso?! – berrei.
Tsubaki não aguentou, caiu e começou a rolar no chão. Seu gêmeo moreno estava quase na mesma condição, me pergunto onde sua gripe foi parar. Yusuke já estava no chão quando eu cheguei, ele e Subaru pareciam estar em uma competição de “Quem ri mais alto”. Wataru dava jus ao apelido que eu o colocara, ria como uma hiena com dor de barriga. Masaomi segurava o garoto para que ele não caísse no chão, mas o mais velho estava quase caindo também. Ema escondia o rosto nas mãos, seu corpo vibrava com as risadas que ela tentava esconder. Iori ria de olhos fechados, como se estivesse tentando não me humilhar muito. Ukyo era o único que era capaz de respirar direito, ainda que risse muito.
– Hikaru filmou tudo – disse o loiro – Ele reuniu todos nós aqui e passou o vídeo na televisão, essa já é a oitava vez que nós assistimos.
Trinquei os dentes, rosnando com raiva.
– Aquele filho da mãe! – guinchei – Por todo presunto do mundo, alguém me diz que o Fuuto não viu isso!
Iori abriu os olhos, engolindo em seco para conseguir respirar.
– Sinto muito – ele disse.
Sua voz estava meio esganiçada, soava como se ele tivesse acabado de engolir um peixe vivo. Gemi, atirando-me no chão com força.
– Ah, mais que droga! – berrei – Droga, droga, mil vezes “droga”!
– Calma, Nina – disse Ukyo, rindo – Você ainda não sabe de tudo, Hikaru enviou o vídeo para o celular do Fuuto. Ele saiu para resolver uns assuntos, mas me fez prometer que te daria isso.
Ele estendeu um pedaço de papel em minha direção. Usei o que restava da minha dignidade para pegar o papel, que estava úmido pelas lágrimas de riso de certo cantor. Abri o bilhete, engolindo meu orgulho ferido.
I-D-I-O-T-A! IDIOTA! IDIOTA! IDIOTA! Sua idiota, agora sua idiotice está imortalizada! Eu me sinto na obrigação de exibir isso durante a cerimônia de recepção na escola amanhã, nem tente me impedir. As pessoas precisam ver isso, é um vídeo precioso demais para pertencer a um homem só. Pode ter certeza de que isso será postado na internet E irá para o meu site pessoal. E para o site da escola também, porque eu sou gentil. Acho que já tossi até meu apêndice de tanto rir, esse material vale ouro.
“Te amo” demais, SUA GRANDE IDIOTA DOS VÍDEO GAMES!
– O salvador da pátria que já está postando o vídeo na internet.
Deixei meus braços caírem ao meu lado, fechei os olhos. Todos os sons viraram ecos, vi uma luz muito forte aproximando-se de mim. Minha vida passou diante dos meus olhos. É, fora até bem vivida. Quem diria que isso aconteceria: Eu seria adotada por uma família rica e maravilhosa apenas para morrer de vergonha. Seria um enterro lindo, Fuuto faria questão de escrever “Nina Kazama, a idiota dos vídeo games” em minha lápide. Será que Akira choraria? Não, ele estaria ocupado demais rindo para se importar com isso. Fora uma boa vida, mas fora um péssimo modo de morrer.
Mas eu pedira por isso. Vai ver aquele era o preço por ser tão sortuda: Temos que passar vergonha suficiente para fuzilar nosso orgulho, pisotear nossa dignidade e estuprar nossa reputação toda vez que a família se reunia.
Ergui-me do chão, gostaria de morrer em minha cama. Engoli em seco, sentindo os ecos me deixarem lentamente. Ignorei os chamados de Louis, ele ria demais para parecer sério, e eu estava o evitando. Dispensei Tsubaki com um aceno de mão, me encaminhado à escada. Ouvi Wataru engasgar-se, Masaomi quase não tinha forças para ajudar o irmão. Subi os degraus, entorpecida. Só parei quando cheguei ao meu quarto, batendo a porta. Atirei-me na cama, chutando o ar até meus sapatos voarem pelo quarto. Fechei os olhos, respirando fundo. Vestígios do dia teimavam em me assombrar, principalmente vestígios da experiência com o capacete de realidade virtual. Eu mataria Natsume assim que o visse, a culpa era toda da empresa dele. Porcaria de tecnologia.
Algo me cutucou o nariz, fazendo-me abrir os olhos. Um esquilo me encarava, suspirei.
– Oi, Juli – murmurei, vencida.
Ele emitiu alguns ruídos, antes de explodir em uma sequência de “Kis” bem altos. Bufei, o esquilo quase caiu da minha cama.
– Até você vai rir de mim? – perguntei – Pois é, eu acho que mereço. Muito bem, pode rir. Eu vou tomar banho, tenta não morrer até lá.
Ergui-me em meus braços, sentando na cama. Ia levantar, mas senti meu celular vibrar. Peguei-o, desbloqueando a tela sem cuidado nenhum. Uma nova mensagem chamou minha atenção, abri apenas para fuzilar de novo meu orgulho.
Enjoy, irmãzinha querida.
– Hikaru ♥
Um vídeo completava o conteúdo da mensagem, decidi que vê-lo seria o mínimo que eu poderia fazer por mim mesmo. Eram seis minutos de gritos, berros, socos disformes e chutes destrambelhados. Meus cabelos mais pareciam os de uma boneca possuída, a imagem tremia, Hikaru devia estar rindo muito na hora de filmar. Joguei-me no chão nos últimos segundos, Tsubaki foi a meu socorro. Ele ria tanto que nem saia som, a imagem virou até encontrar o rosto de Hikaru.
– “Essa foi minha irmãzinha querida testando uma partida com o capacete de realidade virtual, tenho certeza de que foi uma experiência muito educativa para todos nós. A exposição vai até o mês que vem, venha você também!” – ele disse.
O vídeo foi encerrado, baixei o celular. Eu esperava todo tipo de reação de mim mesma, menos a verdadeira. Aos poucos, um sorriso foi nascendo em meu rosto. O sorriso transformou-se em uma risadinha, e a risadinha virou uma risada aguda. A risada virou uma gargalhada, e a gargalhada virou uma crise incontrolável de risos. Usei o pouco controle sobre minhas ações que tinha para abrir o vídeo de novo, e assim fiz mais duas vezes. Assisti até não ter mais fôlego, preparei uma mensagem com o vídeo anexado.
Para você rir um pouco, mostre à Sarah e não ouse enviar para o Bruce... Quer saber, envie pra ele. É humilhação demais para guardar só pra mim, espero que goste.
– Nina.
Mordi o lábio e enviei, esperando que Akira gostasse. Era a primeira mensagem que eu mandava pra Ele na semana, e não nos faláramos por telefone desde a noite de natal. Aquilo fora um erro, eu devia ter ligado antes. Torci para que o vídeo fosse o bastante para que ele me perdoasse, e foi com aquele pensamento que reuni coragem para descer e encarar meus irmãos.
O sorriso de Akira me dava forças, e eu nem precisava vê-lo.
IMAGEM ESPECIAL
Masaomi Asahina (Olha... Até que eu aceitaria o pirulito dele).

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