The New Girl in the House
8 Primeiro Jantar
Notas iniciais
Senti um leve calor acima do meu rosto, trazendo-me de volta a realidade aos poucos. Abri meus olhos, piscando um pouco. A claridade era reduzida, o foco de luz parecia vir do lado de fora do quarto. Algo me apertou, percebi que Wataru ainda me abraçava. Apertei-o quase que por instinto, erguendo meu olhar.
Deparei-me com a visão de duas orbes extremamente azuis me encarando, quase não percebi que Ukyo estava realmente ali. Dei um pequeno pulo, sentando na cama e trazendo Wataru comigo. Pisquei, um pouco atordoada.
Ukyo, Masaomi, Louis, Iori, e Ema nos observavam, Masaomi estava sentado na beira da cama. Ukyo estava sentado ao meu lado, o calor que eu sentira era sua respiração. Senti meu corpo esquentar, vergonha pura. Wataru acordou, sentando-se na cama e olhando em volta.
– Por que estão todos aqui? – perguntou, sonolento.
Olhei na cara de cada um, enfatizando a pergunta do pequeno. Ukyo sorriu, olhando em meus olhos.
– Masaomi chegou e perguntou por vocês, eu disse que estavam aqui – ele disse, ainda sorrindo – Nos deparamos com essa cena assim que chegamos aqui.
– Estavam tão fofos que resolvemos chamar os outros para ver – disse Masaomi, também sorrindo para mim.
Engoli em seco, tentando raciocinar de maneira coerente.
– Todos vocês vieram aqui para nos ver dormindo? – perguntei.
Ukyo assentiu, ri pelo nariz.
– Não deviam ter tirado uma foto? Duraria mais – chutei.
Percebi minha grosseria tarde demais, Wataru olhou para mim. Ema sorriu, juntando as mãos abaixo da cintura.
– Eu fiz isso, vou imprimir e colocar a foto no álbum – ela disse.
Minha boca se abriu, ela ainda sorria. Ri um pouco, arrumando um pouco da bagunça em meus cabelos.
– Você leva as coisas ao pé da letra – comentei – Legal.
Os outros deram algumas risadinhas, Wataru esfregou os olhos.
– Eu to com fome – disse, bocejando.
Acariciei seus cabelos, o pequeno se aconchegou em mim de novo.
– Tem certeza de que tem mesmo 12 anos? – perguntei.
Ele me olhou, um pouco confuso.
– Tenho, por que? – perguntou.
Sorri, sacudindo a cabeça.
– Nada não – respondi.
Ele pareceu um pouco confuso, ri baixinho.
– Vocês parecem ter se dado muito bem – disse Ukyo.
Assenti, Wataru abraçou-me com mais força.
– Eu tenho um certo fraco por crianças – confessei, dando de ombros – E ele é fofo demais, ninguém resiste.
Os irmãos assentiram, Louis e Iori sorriam de forma delicada e suave para mim. Masaomi afagou o pé esquerdo de Wataru, sorrindo para o menor.
–Está na hora do jantar, vamos – ele disse.
Wataru deu um pulo da cama, passando por cima de mim como se eu não passasse de uma almofada gigante. Arregalei os olhos, surpresa.
– Yay! Comida – ele disse.
Antes que eu pudesse processar, Wataru puxou-me para fora de sua cama. Acabei de pé sem fazer esforço algum, arquejei.
– Você come espinafre? – perguntei, alarmada.
Wataru riu, abraçando-me com força outra vez. Seu rosto enterrou-se no meio dos meus seios outra vez, ele suspirou.
– A onee-chan é tão macia – ele disse, abrindo um sorriso enorme – Quero abraçar a onee-chan pra sempre!
Ri, ele grudou em mim como chiclete. Masaomi levantou-se, vindo até nós com uma expressão um tanto séria.
– Wataru, comporte-se – mandou, tocando o ombro do garoto.
Wataru me soltou, fazendo uma careta insatisfeita.
– Sim, Masa-san – disse.
Ele baixou a cabeça, fungando como uma criança birrenta. Suspirei, garotos ficam tão sentimentais quando são mimados...
– Vamos jantar – disse Ukyo.
Masaomi guiou Wataru para fora, segurando-o pelos ombros. Ukyo me olhou, dando um pequeno sorriso. Sorri de volta, encaminhando-me para o lado de fora. Os irmãos dispersaram-se, encaminhando-se às escadas enquanto conversavam entre sim. Ukyo fechou a porta do quarto de Wataru, deixei que ele passasse por mim, não queria me perder.
Percebi que Iori ficara um pouco para trás, fazendo com que ele andasse emparelhado ao meu lado. Lancei-o um olhar sutil, tentando esconder minha inexplicável fascinação por sua calma. Percebi que ele também me olhava discretamente, não pude conter um sorriso. Chegamos na escadaria, ele deixou-me passar à sua frente. Sorri para agradecer, ganhando um sorriso gentil e encantador em troca. Desci as escadas, varando no canto esquerdo da sala de estar. Olhei em volta, procurando os outros.
Ema, Ukyo e Masaomi arrumavam a mesa, os demais irmãos procuravam seus devidos lugares à mesa. Engoli em seco, não tinha a mínima ideia de onde devia sentar. Acho que os irmãos sentiram minha hesitação, pois todos abriram um grande sorriso.
– Venha, Nina – chamou-me Masaomi – Escolha uma cadeira primeiro.
Assenti, indo até a mesa a passos decididos. Todos os irmãos se afastaram, dando-me o poder da escolha. Fiz um biquinho, analisando as opções. Fuuto revirou os olhos, só fui reparar em sua presença naquele momento.
– Ela age como se estivesse escolhendo a roupa que vai usar no show, é só a droga de uma cadeira – resmungou.
Revirei os olhos, encarando-o.
– Sinceramente, você é muito diferente do que vemos na TV – falei.
Ele bufou, parecia um pouco irritado. Masaomi lançou um olhar repreensivo ao irmão, Fuuto nem tentou desrespeitar a autoridade do mais velho. Suspirei, sentando-me por fim em uma cadeira no centro da mesa.
– Pronto, agora sim poderemos jantar – disse Masaomi.
Sorri, baixando um pouco o rosto. Os irmãos agitaram-se novamente para ocupar seus lugares, Louis e Wataru ocuparam os dois lugares que me cercavam. Sorri involuntariamente, secretamente aliviada. Não ficaria de outro jeito se fossem Masaomi, Ukyo ou Iori a fazê-lo, mas Louis e Wataru eram os irmãos com quem eu mais ficava a vontade no momento. Olhei em volta, observando a formação para futuras refeições em família.
Tsubaki e Azusa sentavam juntos, com Iori e Subaru ao lado deles. Depois de Subaru sentava-se Ema, e ao lado dela estava um garoto ruivo que eu ainda não conhecia. Do meu lado da mesa estavam Fuuto, Ukyo e Masaomi, formando o lado menos povoado.
– Ah, Yusuke – disse Masaomi, dirigindo-se ao ruivo – Essa é Nina, nossa nova irmã.
O ruivo olhou para mim, dei um sorriso. Seus olhos eram de um tom castanho avermelhado, quase tendendo para o vinho. Seu rosto era muito bonito, mas o modo como ele se retesava quando Ema fazia qualquer movimento deixou-me ciente de que aquele era um garoto apaixonado.
– Oi – ele disse, dando um sorriso – Sou Yusuke, bem vinda.
– Valeu – respondi – Nina, como já deve saber.
Ele assentiu, Ema mexeu-se outra vez, causando um pequeno solavanco em seu corpo. Ri baixinho, tentando disfarçar minha risada discreta.
– Do que a onee-chan está rindo? – perguntou Wataru, encarando-me com seus olhos.
Aprumei-me, percebendo que estava chamando demasiada atenção.
– Nada, coisas do coração – respondi.
Os irmãos ficaram me olhando, Louis foi o único que pareceu entender o que eu queria dizer, já que soltou uma risadinha calma e suave. Olhei-o por um segundo, o rapaz sorria delicadamente para mim. Desviei o olhar, tentando não ficar constrangida.
– Bom, vamos comer – disse Ukyo.
– Comida! – exclamou Wataru, praticamente atacando o prato à sua frente.
Não consegui conter uma risada, alguns dos irmãos me acompanharam. Masaomi lançou um olhar repreensivo ao irmão, Wataru melhorou seus modos. Fixei minha atenção na comida, garfando um pouco e colocando na boca.
Um sorriso espalhou-se no meu rosto, soltei um longo suspiro.
– Alguém aí pode, por favor, me dizer quem foi a criatura que preparou essa refeição? – pedi, olhando em volta.
Todos os olhares foram direcionados à Ema, a garota encolheu-se um pouco.
– Você gostou? – perguntou, apreensiva.
Sorri, respirando fundo.
– “Gostar” é um termo fraco – respondi – Eu adorei, poderia comer isso a minha vida inteira.
Ela sorriu, corando.
– Obrigada, estou aliviada agora que sei que você gostou – ela disse.
Sorri, lançando-a um olhar meio carinhoso. Ela pareceu ficar feliz, estava bem na cara que não estava acostumada com uma outra garota morando na casa.
– Você sabe cozinhar, Nina? – perguntou Ukyo, dirigindo-me um sorriso gentil.
Ponderei, mordendo o lábio.
– Apenas sobremesas e pratos frios, lanches também são minha praia – respondi – Não sei se seria capaz de fazer um banquete como esse, mas não posso afirmar com toda certeza. Afinal, já não cozinho nada á uns dois anos.
Ukyo assentiu, Tsubaki pareceu interessado.
– Por que? – perguntou.
Pensei um pouco, dando de ombros.
– Eu morava num orfanato – respondi – Algumas garotas eram chamadas para ajudar nas tarefas, mas as cozinhas foram vetadas aos residentes desde que uma das garotas envenenou o arroz.
Yusuke engasgou-se, Subaru e Azusa arregalaram os olhos.
– Envenenou? – repetiu Yusuke, alarmado – Você comeu?
Neguei com a cabeça, a atenção ainda era toda minha.
– Isso foi um pouco antes da minha chegada, eu não corri risco algum – acrescentei, dando um meio sorriso – Ela não matou ninguém, mas causou uma internação geral nos residentes masculinos.
Yusuke, Subaru e Azusa ainda estavam surpresos, os outros pareciam interessados.
– Por que ela fez isso? – perguntou Iori.
Ri com a lembrança, depois lembrei que não era algo engraçado.
– Parece que ela gerou certo ódio pelo sexo masculino depois que seu namorado a trocou por outro garoto – respondi – Um dos motivos dos namoros terem sido proibidos.
Tsubaki tinha a boca escancarada, esbanjando surpresa.
– Esse orfanato parece ser bem animado – disse Fuuto.
Surpreendi-me com o fato de que ela também estava prestando atenção, soltei um sorriso involuntário.
– Esse foi só um dos casos intrigantes daquele lugar, alguns são mais velhos do que eu – falei.
Masaomi me olhou, intrigado.
– Como você sabe tanto? – perguntou.
Dei de ombros, brincando com o garfo.
– Tenho minhas fontes – revelei, dando uma piscadela – Mas a maioria das coisas eu fiquei sabendo por meio de Akira, meu...
Obriguei minha boca a fechar-se na mesma hora, odiando a mim mesma em silencio. Os irmãos ficaram intrigados, Louis inclinou um pouco a cabeça.
– Seu... – induziu Tsubaki, encarando-me fixamente.
Parei de respirar, tinha feito burrada.
– Meu melhor amigo – menti.
Baixei a cabeça, tentando evitar os olhares alheios. Eles não podiam saber do meu namoro com Akira ainda, minha saída do orfanato ainda estava muito recente. Se aquilo chegasse aos ouvidos de Miwa, chegaria aos ouvidos de Mishima. Eu estava livre das punições da diretora, mas Akira ainda era um residente.
O silencio ganhou seu espaço durante alguns minutos, Louis, Iori, Masaomi, Ukyo, Tsubaki e Azusa ainda me encaravam, desconfiados. Tentei comer o mais rápido que pude, mas percebi que isso só estava piorando a situação. Até mesmo Wataru ainda estava um pouco pensativo, e parecia mais intrigado que os outros.
– Quantos de vocês ainda faltam para eu conhecer? – perguntei, fingindo estar despreocupada.
– Dois – respondeu Masaomi, olhando-me com atenção – Hikaru mora do outro lado da cidade, logo, você vai demorar um pouco para conhecê-lo. Já Kaname está em sua casa, decidiu morar sozinho depois que terminou seu treinamento.
Assenti, um pouco curiosa sobre aqueles dois. A maioria dos irmãos era bem legal, eu podia me dar bem com todos eles depois de algum tempo de convivência. Mas outros, eu teria que tentar aturar (Fuuto).
O restante do jantar foi bem discreto, me senti um tanto culpada por ter causado aquilo. O tempo pareceu arrastar-se para passar, mas quando o fez, deixou uma sensação boa em seu lugar. Soltei um suspiro involuntário quando terminei de jantar, apertando meus joelhos com as mãos e observando cada irmão.
Os gêmeos conversavam entre si, algo sobre um novo contrato para dublar personagens. Ema e Yusuke trocavam informações sobre um trabalho de faculdade, o ruivo observava bem cada expressão que ela fazia. Subaru ainda comia, silencioso. Masaomi e Ukyo conversavam sobre algum assunto que não pude distinguir, nem tentei prestar atenção. Fuuto e Iori conversavam sobre algum assunto banal, desviei o olhar quando Fuuto percebeu que eu os observava. Wataru terminara naquele instante, parando para dar um longo suspiro contente.
– Eu adoro a comida da minha onee-chan – ele disse.
Ema sorriu, feliz. Wataru me olhou, abrindo um grande sorriso.
– Já jantou, onee-chan? – perguntou.
Ri, dirigindo-lhe um sorriso.
– Vai acabar ficando maluco se chamar Ema e eu da mesma forma – falei – Respondendo sua pergunta, sim.
Ele riu, Ema e os outros fizeram o mesmo.
– Vamos brincar? – ele perguntou, olhando-me com aqueles olhos enormes.
Abri a boca para responder, mas estava sem palavras. Wataru descobrira a técnica exata para me ganhar, e eu não tinha defesa alguma.
– Hoje não, Wataru – disse Masaomi – Peça amanhã, se ela quiser vocês podem brincar.
Wataru piscou, chateado. Ergui o olhar até minha defesa, Masaomi deu um meio sorriso.
– Obrigada – gesticulei com os lábios, sem emitir som algum.
Ele assentiu, crescendo seu sorriso. Desviei o olhar, percebendo que Tsubaki via a cena com uma expressão esquisita. Encarei minhas mãos, tentando ignorar o fato de que dois dos irmãos Asahina me olhavam: Tsubaki e Louis.
Esse ultimo tinha um sorriso gentil, calmo. Senti-me um pouco mais aliviada, Louis devia causar esse efeito nas pessoas.
– Seus cabelos são lindos – ele disse, suavemente.
Pisquei, tentando raciocinar. Louis pegou uma mecha dos meus cabelos, passando-a por entre seus dedos longos.
– Você vai me deixar arruma-los um dia, não vai? – perguntou.
Abri a boca, vegetando um pouco.
– Por que você iria querer arrumar o meu cabelo? – perguntei, um pouco embasbacada.
Louis riu, um som revigorante. Ele realmente parecia ter achado graça naquela pergunta, baixei o olhar.
– Eu sou cabeleireiro, caso não saiba – respondeu, abrindo um sorriso – Tenho adoração por cabelos, adoro arruma-los.
Arfei, desconcertada. Louis ainda me observava, leve e descontraído.
– Desculpe, eu não sabia – falei.
Ele deu uma risadinha calma, afagando meus cabelos.
– Você não tinha como saber, não precisa se desculpar – ele disse – Vou poder arrumar seus cabelos um dia?
– Por mim, tudo bem – respondi.
– Maravilha – ele disse, abrindo um grande sorriso meigo.
Sorri diante de seu sorriso, Louis parecia estar mesmo radiante. Só fui perceber que a maioria dos irmãos já estava levantando-se, Ema e Ukyo recolhiam os pratos e talheres sujos.
– Vocês precisam de ajuda? – perguntei, fitando Ukyo.
– Não precisa, nós damos conta – disse Ema, abrindo um sorriso – Obrigada por oferecer sua ajuda, Nina.
Sorri, Wataru levantou-se.
– Estou com sono – anunciou, bocejando.
Olhei-o, cética.
– Você acabou de acordar – falei.
Ele deu de ombros, fechando os olhinhos com doçura.
– Dormir com a onee-chan é bom, eu quero de novo – ele disse.
Ri, levantando-me da cadeira também. Tsubaki apareceu ao meu lado, passando o braço direito em volta dos meus ombros.
– Não seja egoísta, Wataru – ele disse, dando um meio sorriso para o menor – Aprenda a dividir, você não pode ser o único a dormir com a Nina.
Engasguei, arregalando os olhos. Tsubaki riu, dando palmadas leves em minhas costas.
– Ora, não seja tão tímida – ele disse, sorrindo – Se dormiu com Wataru, vai ter que dormir comigo também.
Afastei-o, ele ainda ria. Sua risada durou até que Azusa desse um soco em sua orelha, afastando de uma vez por todas Tsubaki de mim.
– Azusa, de novo? – resmungou Tsubaki, afagando sua orelha atingida.
Azusa suspirou, sacudindo a cabeça. Pisquei, recuperando-me do susto.
– Não escute o que ele diz, Tsubaki às vezes pode ser muito inconsequente – disse Iori, olhando-me de forma quase preocupada.
Assenti, desviando o olhar. Senti algo abraçar-me pela cintura, olhei para baixo.
– Onee-chan, me bota na cama? – pediu Wataru.
– Er... – falei, hesitante – Quem geralmente bota você na cama?
– Ninguém – respondeu Masaomi – Tem quase um ano que ele dorme sozinho.
Franzi as sobrancelhas, encarando o pequeno.
– Por que quer mudar sua rotina? – perguntei.
Ele fez um biquinho, abraçando-me um pouco mais a mim.
– Wataru está agindo estranhamente hoje – disse Ukyo.
Acariciei o pequeno, Wataru enterrou o rosto em meus seios.
– Me bota na cama, por favor? – pediu, fechando os olhos.
Abri a boca pra responder, mas as palavras me abandonaram. Suspirei, sacudindo a cabeça.
– Só hoje – falei.
– Yay! – disse Wataru, soltando-me de súbito – Onee-chan boazinha.
Sacudi a cabeça, cedendo-lhe um sorriso. Wataru pegou minha mão, guiando-me até as escadas. Subimos em silencio, acompanhei o garoto até seu quarto. Quando chegamos, Wataru fechou um pouco a porta e virou-se para me encarar. Ele parecia sério, quase irritado.
– Você não vai dormir com mais ninguém, só comigo, não é? – perguntou.
Pisquei, um tanto surpresa. Wataru encarava-me fixamente, seu olhar infantil perdeu-se por completo naquela expressão séria. Era quase como se o garotinho que eu conhecera a pouco tivesse crescido em questão de minutos, engoli em seco.
– Claro que eu não vou dormir com o Tsubaki, nem com nenhum dos outros – falei, um tanto cautelosa – Mas também não vou dormir com você sempre, Wataru.
Ele permaneceu me olhando, aquela cara já estava começando a me assustar. Por fim, Wataru soltou um suspiro e abriu um sorriso, vindo até mim e abraçando minha cintura.
– Tá bom, onee-chan – ele disse – Sendo só comigo, está tudo bem.
Engoli em seco, um tanto nervosa. Wataru me soltou, abrindo um sorriso enorme e caloroso.
– Me põe na cama agora, onee-chan? – pediu, feliz.
Pisquei, recuperando-me de sua mudança.
– Tá bom – falei, cautelosa.
– Yay! – disse.
Wataru foi até a cama, deitando-se confortavelmente. Fui até ele, dando um meio sorriso bobo. Puxei suas cobertas até sua clavícula, arrumando-o da melhor maneira possível.
– Boa noite, onee-chan – ele disse, soltando um bocejo.
Sorri, afagando-lhe a bochecha esquerda.
– Boa noite, Wataru – respondi, olhando-o nos olhos.
Ele sorri, depositei um beijo suave em sua testa. Afastei-me devagar, o garoto fechou os olhos, respirando fundo. Ergui meu corpo, andando de costas até a porta. Saí do quarto, fitando pela ultima vez a imagem doce do meu novo irmão adormecido. Sorri de leve, fechando a porta devagar.
– Cena bonita – disse alguém atrás de mim.
Virei com tudo, arregalando os olhos por conta do susto. Louis me observava, sua expressão era tão serena quanto a de Wataru adormecido.
– Desculpe, eu te assustei – ele disse, seu tom era divertido.
Percebi que minha mão agarrara a gola da minha camisa naquele momento, relaxei minha postura. Louis deu uma risadinha, seu rosto ficava mais sereno a cada segundo.
– Tudo bem – falei.
Ele suspirou, dei um passo em direção ao meu quarto.
– Eu vi a cena toda – disse Louis, acompanhando meus passos – Wataru está realmente encantado por você.
Sorri, ele observava minhas expressões.
– Ele é um doce – falei – Também me encantei por ele.
Louis assentiu, dobramos uma esquerda.
– Ele parece não ser o único, e é completamente compreensível – ele disse.
Olhei-o, algo me disse que eu podia confiar nele.
– Fico agradecida, mas eu tenho um namorado – falei, baixando o volume da minha voz.
Ele sorriu, suspirando.
– Akira, não é? – perguntou.
Olhei para ele, Louis dava um sorriso divertido.
– Como sabe? – perguntei.
Ele riu, balançando os braços de leve.
– Ninguém engoliu esse história de melhor amigo, admita que foi uma ideia boba – ele disse, divertindo-se com a careta que eu fiz.
Dei uma leve arquejada, baixando o olhar.
– Eu sei que fui idiota, mas foi a primeira coisa que me veio a mente – falei, dando de ombros.
Ele riu, dobramos outra esquerda.
– Pelo menos você tentou, não se sinta mal – ele disse.
Ri, sacudindo os ombros.
– Valeu – falei.
Ele assentiu, estreitando a distancia entre nós dois.
– Como o conheceu? – perguntou, parecia interessado.
– No orfanato – confessei, baixando um pouco o rosto.
Ele assentiu, indicando que tinha compreendido.
– Quando vamos conhecê-lo? – ele perguntou.
Olhei-o, surpresa. Louis parecia realmente interessado, fiquei um pouco nervosa.
– Olha, não é que eu não confie em vocês, pelo contrario – comecei, gesticulando com as mãos – Eu adorei conhecer todos vocês, sinto que finalmente posso ter uma família.
Ele esperou, seu sorriso sereno continuava intacto.
– Mas eu ainda não quero que ninguém saiba, Akira ainda pode ser punido por isso no orfanato – falei, olhando-o nos olhos – Um dia vocês vão conhecê-lo, eu prometo.
O sorriso de Louis ficou ainda maior, ele parou de andar. Percebi que estávamos na porta do meu quarto, ele segurou-me pelos meus ombros.
– Eu entendo, não precisa ficar preocupada – ele disse, sereno – Eu manterei isso em segredo, saiba que pode confiar em mim.
Encarei-o durante alguns segundos, Louis passou-me segurança apenas com aquele longo olhar. Soltei um suspiro aliviado, sorrindo um pouco.
– Obrigada, Louis – falei.
Ele sorriu, puxando meus ombros devagar. Afundei-me em seu abraço, um pouco surpresa. Ele tinha um cheiro ótimo, e senti-lo me fez ter saudades de Akira.
– Não precisa agradecer, sou seu irmão, pode confiar em mim – ele disse, ainda abraçando-me com ternura – Posso te pedir uma coisa?
Assenti, afastando-me dele devagar. Louis olhou-me nos olhos, esperei.
– Deixe-me conhecê-lo em breve, mesmo que seja antes dos outros – ele disse, não era uma pergunta.
Pisquei, processando a informação. Louis esperou, paciente.
– Tudo bem, vou visita-lo semana que vem, você pode ir comigo – falei.
Louis abriu um grande sorriso, tomando minhas mãos.
– Obrigado, é importante para mim ter sua confiança – ele disse.
Dei uma risada tímida, ele apertou minhas mãos.
– Vou deixa-la em paz agora, meu trabalho aqui já está terminado – ele disse.
Pisquei, curiosa.
– Trabalho? – perguntei.
Louis assentiu, olhando-me nos olhos.
– Tsubaki tinha planos de leva-la ao quarto dele esta noite, preferi não deixar isso acontecer – ele disse – Estou disposto a cuidar de você, vai ser como um novo clube de proteção.
Clube de proteção? Agora sim eu estava confusa. Louis sorriu, soltando minhas mãos devagar.
– Boa noite, Nina – disse.
Sorri, suspirando.
– Boa noite, Louis – respondi.
Ele deu um sorriso, e afastou-se pelo corredor. Permaneci alguns segundos naquela posição, olhando para onde Louis tinha ido. Soltei um sorriso, suspirando outra vez. Virei em direção ao meu quarto, entrando e fechando a porta pelo lado de dentro. Troquei de roupas no modo automático, arrumando-me para dormir. Tirei o casaco que Akira me dera no nosso primeiro dia de namoro, o mesmo casaco que ele usara para proteger-me da chuva dos jardins. Peguei o pedaço de papel que ele usara para escrever seu numero, correndo os dedos pela caligrafia garranchosa que eu mais adorava. Ele fizera um pássaro ao lado do número, fazendo-me recordar-me de uma brincadeira que tínhamos.
– Akira – suspirei, acariciando o papel – Queria estar com você.
Dobrei o papel cuidadosamente, guardando-o dentro do colar para fotografias que fora da minha mãe. Soltei um suspiro, jogando-me na cama. Embolei-me nos lençóis, sentindo o conforto que agora era todo meu.
IMAGEM ESPECIAL
Hikaru Asahina (Versão feminina)

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