The New Girl in the House
17 Píer - Especial Louis
Notas iniciais
Atravessei a rua aos pulinhos, animada demais para poder me conter. Meu fim de semana começara de um jeito inusitado, terrível, até. Eu ainda não conseguia encarar direito todos os meus irmãos, mas alguns deles já estavam agindo normalmente perto de mim. Hikaru dormira na mansão Asahina na noite do jantar em família, ele me tratara gentilmente no dia seguinte, como se não tivesse acontecido nada. Kaname fora embora no mesmo dia, nem tive a chance de me despedir propriamente dele. Natsume também foi embora logo depois da minha saída dramática, eu desviava do assunto sempre que a conversa voltava-se à saída de Natsume. Louis, Iori e Fuuto já me tratavam como antes, o que me deixava muito aliviada. Os outros me olhavam com certa pena no olhar, eu preferia evita-los ao máximo, enquanto podia. Wataru não falava comigo, ele ainda estava com raiva de mim, o que me incomodava muito.
Quase trombei com uma senhora enquanto andava, recebendo um olhar repreensivo em retorno. Apressei-me a sair logo dali, eu ficava perigosamente aérea quando estava devaneando daquele jeito.
Meus pés pararam de andar diante de um grande e luxuoso estabelecimento, minha boca se abriu. Algumas plantas modernas ladeavam as grandes portas duplas da entrada, a fachada era quase toda feita de vidro. O estabelecimento tinha dois andares, e um forte a agradável cheiro de produtos de beleza exalava do lugar. O lugar tinha até mesmo um estacionamento próprio, engoli em seco.
– Nada nessa família pode ser normal? – falei.
Ri um pouco do meu próprio comentário, rumando-me até as portas de entrada. Nem precisei empurrar as portas, elas se abriram sozinhas. Entrei, sentindo um sorriso enorme abrir-se em meu rosto. Várias pessoas ocupavam o lugar, mas o estabelecimento era muito grande para ficar pequeno com todas aquelas pessoas circulando ao mesmo tempo. Muitas mulheres estavam sentadas em cadeiras de cabeleireiro, outros estavam ocupando cadeiras de manicure. Cerca de quinze profissionais trabalhavam, conversando entre si. Todos falavam muito, mas o som das vozes não abafava o som de uma agradável musica ambiente. Soltei um assobio, olhando em volta de forma admirada.
Algumas das pessoas olharam para mim, foi difícil não me encolher diante de todos aqueles olhares. Engoli em seco, mas decidi apenas fazer o que eu estava ali para fazer.
Dirigi-me à uma bancada chique e toda de vidro, o recepcionista ergueu seu olhar da revista de moda que lia assim que sentiu minha aproximação. Tinha volumosos cabelos vermelhos, eu soube que a cor era artificial na mesma hora em que o vi. Seus olhos verdes me esquadrilharam de cima a baixo, sua boca retorceu-se em um sorriso gentil.
– O que deseja, senhorita? – ele perguntou.
Sua voz era calma, doce. Eu soube na mesma hora que estava lidando com uma pessoa confiável, não pude deixar de sorrir.
– Eu gostaria de falar com o dono, por favor – respondi.
O homem aprumou-se na cadeira, claramente orgulhoso de seu trabalho.
– Você tem hora marcada? O Sr. Asahina já atendeu todas as clientes previstas para hoje – ele disse, olhando-me bem.
Apoiei minhas mãos na bancada de vidro, o homem esperou minha resposta.
– Bom, eu não sou cliente, mas tenho sim hora marcada – falei – Mais ou menos, eu digo. Louis me disse para encontra-lo aqui às três, eu sei que são apenas duas e cinquenta, mas eu estava por perto.
O homem piscou, claramente admirado com minha intimidade com Louis. Meu irmão era seu patrão, ele não devia estar acostumado a ouvir alguém chama-lo pelo nome.
– Entendo, vou checar com ele – o homem disse – Poderia me dizer seu nome?
Assenti, o homem pôs a mão no telefone que eu só notara existir naquele segundo.
– Diga que “A Nina” está aqui – pedi – Por favor.
Ele assentiu, dando um pequeno sorriso. Esperei um pouco, o ruivo discou um número no telefone e esperou.
– Senhor Asahina? Masato falando – ele disse – O senhor tem uma visitante, uma linda garota chamada Nina.
Ele escutou por um momento, abri um sorriso diante do elogio inesperado.
– Sim senhor, vou dizer à ela – ele disse, desligando a chamada – Por que não me disse que vocês eram irmãos?!
Ri um pouco de seu entusiasmo, o ruivo ergueu-se de sua cadeira e contornou o balcão.
– Sou Masato Nakamura, é um prazer enorme finalmente conhecer a irmãzinha que o chefe tanto adora – ele disse, rindo um pouco – Ele vive mostrando fotos suas para os funcionários, eu nunca conseguir ver nenhuma.
Ri, sacudindo a cabeça. Estendi a mão em sua direção, ele virou a cabeça de lado.
– Nina Kazama, é um prazer – falei.
Ele ignorou meu cumprimento, puxando-me para um abraço. Ofeguei, surpresa. Ele riu, balançando-me um pouco, como se fossemos bons e velhos amigos.
– Sem formalidades, não estamos fazendo negócios nem nada disso – ele disse, rindo – Eu prefiro abraçar as pessoas, e você é boa de abraçar, tão fofinha!
Ri, um pouco constrangida. Ele finalmente me soltou, sorrindo calorosamente para mim.
– O Sr. Asahina pediu para você espera-lo durante uns minutinhos, ele já vai aparecer – ele disse – Enquanto isso...
Ele me girou pelos ombros, fazendo-me ficar de frente para os outros funcionários.
– Gente, essa é irmãzinha do chefe! – anunciou, animado.
Todos pararam o que estavam fazendo, até mesmo as clientes. Não tive muito tempo para registrar o que aconteceu em seguida, quando me dei conta, já estava sendo passada de braços em braços como se fosse um bebezinho de colo.
– Ela é tão fofa! – guinchou uma moça.
– É ainda mais linda do que nas fotos – disse outra moça.
– Olhem só, ela ainda usa vestido de bolinhas! – guinchou um rapaz, os cabelos dele eram tão roxos quanto suas lentes de contato.
– Já chega, vocês vão matar a menina! – disse Masato, rindo – O chefe está vindo, comportem-se.
Todos eles finalmente me soltaram, minha cabeça girou um pouco. Senti Masato me segurar, graças a ele eu não beijei o chão.
– Isso logo passa, eu já estou acostumado – ele disse – Mas você é muito fofa mesmo, a culpa não é nossa.
Tentei rir, meus ombros se encolheram um pouco.
– Vocês são muito energéticos – falei, abraçando meu próprio corpo – Tem algo errado com meu vestido?
Masato riu, ouvi as pessoas mais próximas rirem também.
– Não tem nada de errado, você só fica ainda mais fofa vestida assim! – ele disse, segurando meus ombros.
Ri um pouco, constrangida. Nunca tinha sido agarrada daquela maneira, eu me senti como um urso de pelúcia muito fofo.
– Ah, Nina – disse uma voz familiar.
Virei meu rosto, encontrando-o sem nem precisar fazer esforço. Louis andava graciosamente, seus sapatos pareciam flutuar no chão coberto por lajotas brancas e lisas. Ele sorria abertamente, seu olhar focara em mim como se mais ninguém existisse naquele momento. Foi parecido comigo, a única coisa que eu pude fazer foi abrir um grande sorriso.
– Não te fiz esperar muito, eu espero – ele disse.
Neguei com a cabeça, ele chegou mais perto de mim.
– Que bom, eu odiaria a mim mesmo se tivesse feito isso com você – ele disse – Você está linda.
Sorri, desviando o olhar. Louis tomou-me em seus braços, daquele abraço inesperado eu gostei. Abracei-o de volta, demorando-me em seus braços confortáveis. Abraçar Louis era como balançar-se em um balanço infantil, eu queria que aquilo durasse para sempre.
– Pronta para ir? – ele perguntou.
Assenti, ainda abraçando-o. Louis riu um pouquinho da minha insistência, mas não fez objeções. Ficamos abraçados durante quase um minuto inteiro, foi como se o tempo tivesse congelado.
– Er... Chefe? – chamou alguém.
Era Masato, ele nos olhava com um sorrisinho discreto. Percebi naquele momento que todos estavam olhando para nós, afrouxei meus braços em volta de Louis. Ele riu baixinho, mas também soltou-me.
– Estamos saindo, Masato – disse Louis – Eu volto mais tarde.
Masato assentiu, Louis pegou minha mão.
– Vamos – ele disse – Eu tenho um presente para te dar.
Abri um sorriso enorme, assenti. Louis sorriu, acenou para seus empregados e guiou-me até a saída. Acenei para Masato uma vez, ele sorriu e acenou de volta. Saímos do salão, Louis parecia ainda mais leve e calmo do que de costume.
– Seu dia está sendo bom? – ele perguntou, olhando para mim com ternura.
Sorri, assentindo. As palavras pareciam ter fugido de mim, a aura terna e calma de Louis estava ainda mais forte hoje.
– Vamos pegar um táxi, vou te levar até um lugar maravilhoso – ele disse.
Assenti, ele sorriu.
– Fale alguma coisa, Nina – ele disse – Eu gosto da sua voz, mas ainda não te ouvi falar nada hoje.
Ri, desviando o olhar.
– Desculpa, eu estava um pouco distraída demais – falei.
Ele riu, seu rosto pareceu ficar ainda mais calmo.
– Isso é um alívio, por um momento eu pensei que você estivesse chateada comigo de alguma forma – ele disse.
Foi minha vez de rir, Louis sorriu.
– Como eu iria ficar com raiva de você? – perguntei.
Ele deu de ombros, caminhando de forma casual.
– Não sei, eu não sou perfeito – ele disse.
Ri, ele esperou.
– Sim, você é – falei.
Ele não me olhou de imediato, encarei seu rosto. Percebi um pouco tarde demais que ele tinha corado, embora o sorriso tímido que ele dava escondesse um pouco disso.
– Obrigado, Nina – ele disse, sua voz estava um pouco baixa – Embora eu não ache que eu seja perfeito, eu fico muito feliz ao ouvir sua opinião.
Sorri, ele finalmente me olhou. Seu rosto estava claramente contente, nem tentei esconder minha satisfação.
– Lá vem um táxi – falei.
Louis olhou na direção que eu olhava, percebendo que eu tinha razão. Ele fez sinal, e depois de um tempo, o táxi parou diante de nós. Louis abriu a porta para mim, fazendo um gesto elegante para que eu entrasse.
– Obrigada – falei, sorrindo.
Ele sorriu em resposta, o sorriso que sempre me mostrava. Entrei no taxi, afastando-me no banco para dar espaço para Louis. Ele entrou logo em seguida, fechando a porta com um baque surdo.
– Hinode píer, por favor – ele disse, sorrindo educadamente para o motorista.
O motorista apenas assentiu, algo me disse que ele não era um dos mais faladores. Louis sorriu para mim, ele parecia muito feliz consigo mesmo.
– Já conhece o Hinode? – perguntou.
Neguei com a cabeça, Louis esperou.
– Eu passei perto dele quando a mamãe me levou para casa pela primeira vez, mas nunca entrei – falei.
Louis sorriu ainda mais, suspirei.
– Que bom, assim fica ainda mais especial – ele disse.
Ri de leve, Louis suspirou.
A viagem até o píer foi tranquila, o trânsito estava fluindo muito bem, o que facilitou nossa chegada. Louis e eu não conversamos muito durante o percurso, apenas trocávamos olhares e sorrisos de vez em quando. Ele ficava cada vez mais leve conforme avançávamos, seus suspiros calmos e olhares perdidos ficavam ainda mais frequentes. Assim que chegamos, Louis pagou o táxi e chamou-me para fora, visivelmente ansioso. Ele estava muito relaxado, mas eu nunca tinha visto Louis agitado daquela forma.
– Vamos entrar, é ainda melhor perto da água – ele disse.
Assenti, Louis sorriu. Ele tomou minha mão, conduzindo-me até a entrada. Passamos pelas catracas, um de cada vez. Louis deixou-me passar primeiro, me embaralhei um pouco, mas consegui passar. Ele veio logo depois de mim, e pegou minha mão outra vez.
– A próxima linha chega em vinte minutos, então teremos paz durante esse tempo – ele disse – Não iremos tomar linha alguma hoje, mas um dia eu te trago aqui novamente para isso.
Assenti, Louis apertou um pouco minha mão.
– Você esta quieta hoje, eu fiz alguma coisa errada? – perguntou.
Ele perguntou aquilo gentilmente, mas eu pude sentir que ele estava ansioso pela minha resposta.
– Você não fez nada, eu estou adorando a nossa tarde – falei.
Ele me olhou, sustentei seu olhar.
– Então, por que está tão calada? – ele perguntou.
Ah, o tom de ansiedade e gentileza de novo. Louis parecia não perceber, mas ele causaria um ataque de hormônios em qualquer mulher que ouvisse aquele tom de voz.
– É que você está mais falante do que o de costume hoje, eu gosto de ouvir você falar – falei – Não vejo necessidade de te interromper ou de falar mais do que você, eu também gosto da sua voz.
Ele riu baixinho, uma risada pacifica e calmante.
– Obrigado, Nina – ele disse, sorrindo abertamente para o chão – Eu sabia que seria uma ótima ideia te chamar para sair, você é uma companhia incrível.
Foi minha vez de desviar o olhar, senti meu rosto esquentar um pouco. Como eu estava constrangida? Louis é meu irmão, é normal que ele me elogie, não é?
– Eu gosto de ficar nessa parte – ele disse.
Ergui meu rosto, notando onde estávamos. Era uma parte do píer em que as pessoas não deviam ir, já que não havia nada ali para ser útil. O chão de madeira estava um pouco úmido, talvez obra das pequenas ondas que quebravam nas fundações do píer. Os parapeitos eram de metal, pintados de branco na parte de baixo, com um corrimão cor de cobre na parte de cima. Podíamos ver todo o píer daquele lugar, e ainda tínhamos a bela visão da cidade.
– Bem aqui – disse Louis – Venha.
Ele postou-se atrás de mim, suas mãos seguraram meus ombros. Senti um leve arrepio, devia ser por conta da friagem que a água exalava. Louis guiou-me até uma parte isolada do parapeito, suas mãos desceram através de meus braços com delicadeza. Ele encontrou minhas mãos, depositando-as no corrimão. O calor agradável que seu corpo exalava ficou ainda mais próximo, quase como se ele estivesse abraçando-me por trás.
– O que acha da vista? – ele perguntou.
Sua voz soou bem perto da minha orelha direita, senti o cheiro doce de seu hálito mesmo estando um pouco distante de sua boca. Me arrepiei pela proximidade, e aquela friagem não estava ajudando.
– Uau – foi o que pude dizer – É lindo aqui.
Ouvi Louis rir bem baixinho, o som de sua risada fez meus pelos se eriçarem novamente.
– Sabia que você ia gostar, mas eu não podia deixar de ficar preocupado – ele disse.
Não entendi muito bem, Louis apertou um pouquinho minhas mãos.
– Esse é um dos meus lugares favoritos no mundo – revelou – Eu venho aqui sempre que preciso de um tempo para pensar, ou sempre que preciso ficar um pouco sozinho. Essa vista sempre me deixa mais calmo, é como se todos os meus pensamentos fiquem mais claros quando estou aqui.
Ele parou de falar por um momento, sua voz calma me fez falta, ainda que ela só estivesse ausente durante segundos.
– Eu quis te trazer aqui desde a primeira vez que conversamos – ele disse, pude ouvir um sorriso em sua voz – Eu nunca trouxe ninguém aqui, estava um pouco nervoso.
Sorri, suspirando. Louis esperou, seu calor ficava mais agradável a cada novo minuto.
– Não precisa ficar nervoso, eu realmente amei – falei – Tem algo mágico nesse lugar, quase posso entender seu sentimento.
Ele soltou um suspiro, suas mãos apertaram as minhas outra vez.
– Isso me deixa muito feliz – ele disse – Obrigado.
Ri baixinho, seus braços ficaram mais firmes ao redor dos meus.
– Não há de que – falei.
Ele riu também, relaxando por completo. Senti seu calor me abandonar, me senti como se estivesse em uma banheira e alguém tivesse acabado de puxar o tampão do ralo. Olhei em volta, franzindo as sobrancelhas. Louis encostou-se ao corrimão, à minha esquerda. Soltei rápido suspiro de alívio, ele ainda estava perto de mim.
– É hora do seu presente – ele disse.
Abri um sorriso, curiosa. Louis sorriu diante da minha expressão, ele meteu a mão dentro de seu casado azul e tirou uma caixa vermelha e branca de dentro.
Arregalei os olhos, minha boca se abriu.
– Cacao Sampaka?! – guinchei.
Louis riu, estendendo a caixa em minha direção. Peguei-a, minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurá-la.
– Calma, Nina – disse Louis, rindo suavemente – Parece que eu aceitei, eles são mesmo seus favoritos.
Ofeguei, senti meus olhos ficaram úmidos.
– Como você descobriu? Eu nunca contei pra ninguém lá em casa! – falei, minha voz saiu muito aguda – É Cacao Sampaka, minha marca de chocolates favorita!
Louis riu de novo, divertindo-se com meu estado de incredulidade.
– Perguntei ao Akira, era disse que você gostava de chocolates espanhóis – ele disse – Daí, eu só precisei pesquisar um pouco, e descobri que vendem esses chocolates aqui em Tóquio.
Ri, saiu como um arquejo.
– Louis, você é um gênio! – falei – Onde é essa loja? É lá que eu vou estrear meu cartão de credito!
Louis riu, sorri abertamente.
– Fico muito feliz por você ter gostado, é bom conhecer mais esse seu lado – ele disse – Eu já vi você chorando, assustada, apaixonada, emocionada, em êxtase... Você nunca para de me surpreender.
Ri um pouco, desviando o olhar até a caixa em minhas mãos. Meus dedos tremeram outra vez, sorri até meu rosto doer.
– Não vai comê-los? – Louis perguntou.
Ofeguei, rindo sem motivo.
– Só depois que eu acreditar que isso é real – respondi.
Louis riu, seus olhos fecharam-se por um momento.
– Oh, Nina – ele disse – Eu adoro te ver assim, feliz.
Ergui meu olhar até seu rosto, encarando aqueles olhos brilhantes. Não pensei em mais nada, apenas em abraça-lo.
Foi o que eu fiz, abracei-o com toda a ternura que consegui reunir. Louis suspirou de forma feliz, abraçando-me de volta. Apertei a caixa de chocolates com a mão que estava segurando-a, meu rosto quase se enterrou no peito de Louis.
– Obrigada, Louis – falei.
Ele suspirou outra vez, seu queixo descansou em minha cabeça.
– Não há de que – ele disse.
Ri baixinho, ele fez o mesmo. Soltei-o devagar, por mais que adorasse abraça-lo, eu estava ansiosa pelos chocolates.
(MÚSICA)
Abri a caixa, meus dedos tremiam bem menos que antes. Puxei a tampa, liberando a visão dos quadradinhos que eu tanto amava.
– Nossa – falei – É como eu me lembrava, eles não mudaram nada.
Louis riu, fiz o mesmo. Peguei um quadradinho com as pontas dos dedos, agora minha mão estava completamente firme. Coloquei o quadradinho na boca, fechando os olhos para saboreá-lo. Mastiguei devagar, sentindo um rio de lembranças lavar minha mente.
– A textura, o cheiro... – falei – Isso aqui tem gosto de infância, Louis. Meus pais compravam esses chocolates para mim quando eu era pequena, me sinto com dez anos de novo.
Suspirei, engolindo em seco. Senti algo macio e quente adornar os dois lados do meu rosto, abri os olhos. Deparei-me com os olhos cor de malva mais lindos que eu já vi na vida, ainda que aquela cor seja incomum.
– Nina – suspirou.
Ele pareceu querer dizer mais, porém não disse. Sorri de leve, Louis soltou meu rosto devagar.
– Que bom que gostou – ele disse.
Ele sorriu de leve, sem mostrar os dentes. Soltei um suspiro, ele afastou-se de mim minimamente. Fez silencio durante um tempo, comi mais dois quadradinhos até perceber que Louis estava distraído demais. Ele olhava para o horizonte, seu semblante estava sério, quase conflitante.
– Quer provar um? – perguntei, tentando quebrar o gelo.
Louis não me olhou, seu olhar estava distante.
– Eles são seus – ele disse.
Sorri, catando outro quadradinho.
– Eu quero dividir com você – falei – Aqui.
Encostei o quadradinho na boca de Louis, sem nem mesmo fazer um aviso prévio. Ele pareceu um pouco surpreso, mas logo relaxou. Sorrindo, Louis abocanhou o chocolate de maneira graciosa. Meu sorriso cresceu, ele mastigou vagarosamente.
– Posso ver porquê gosta deles – ele disse, suspirando – São deliciosos.
Ele sorriu, aquela visão aqueceu meu coração. Virei meu rosto na direção na cidade, tão perto e tão distante ao mesmo tempo. Era assim que Louis estava agora, e eu não conseguia entender o motivo.
– Ela veio para cá quando tinha vinte anos, a minha mãe – contei – Viagem de negócios, ela era secretária de um designer famoso na Espanha.
Dei uma pequena pausa, sentindo o olhar de Louis em mim.
– Eles se conheceram durante uma convenção, eu adoro essa história – contei – Meu pai era noivo, e estava naquela convenção com a ex dele. Eles tiveram uma pequena briga depois que minha mãe entrou no salão, meu pai me disse que quando ela a viu, esqueceu até do próprio nome.
Ri um pouquinho, Louis não disse nada.
– Ele correu atrás da noiva no salão de dança, e acabou dando um encontrão na minha mãe, derrubando champanhe no vestido dela – contei, rindo de novo – Ela disse que morreu de raiva, até ver o rosto dele. Eu não acredito nessa história de amor à primeira vista, mas era impossível não acreditar quando eles me contavam.
Dei um sorrisinho, soltando um pequeno sorriso.
– Eles ficaram noivos depois de seis meses, os pais dela quase piraram – contei, rindo outra vez – Ele morava com a avó naquela época, e pouco tempo depois do noivado, ela morreu de tuberculose.
Foi a primeira vez que eu não ri ou suspirei ao terminar uma parte do meu relato, senti o corpo de Louis de aproximar do meu.
– Eles casaram dois anos depois do enterro dela, e meu nome é Nina Riri Kazama em homenagem à Riri Kazama, uma velhinha que eu nunca conheci – falei – Eu nasci logo depois do primeiro ano do casamento deles, mamãe disse que eu era muito inquieta, ela não dormia nada desde o oitavo mês de gestação por culpa dos meus chutes.
Mordi o lábio, respirando fundo. Louis encostou seu braço no meu, seu calor me acalmou um pouco.
– Quando eu tinha dois anos, o pai da minha mãe teve um derrame e ficou em coma durante umas duas semanas, até morrer de vez – contei – Nos mudamos para a Espanha para que meus pais pudessem cuidar da minha avó, ela não conseguia mais enxergar direito.
Fiz outra pausa, fechando os olhos.
– Eu lembro da voz dela, embora seu rosto fique um pouco desfocado quando eu tento me lembrar dela direito – contei – Ela morreu dois anos após a morte do meu avô, eu devia ter uns quatro anos. Eu nunca tinha visto a minha mãe chorar, não me lembro muito bem de como foi, mas lembro me ter me sentido sufocada, como se vê-la daquele jeito estivesse me matando.
Não abri meus olhos, senti Louis envolver minha cintura com seu braço.
– Vivemos bem até meu aniversário de catorze anos, quando eu insisti que queria ir à uma exposição idiota que teria em um bairro próximo ao nosso – contei – Eles estavam cansados, mas eu sempre fui teimosa. Acabamos deixando o portão destrancado, eu fiz meu pai esquecer de tranca-lo.
Respirei fundo, sentindo minha garganta apertar-se. Louis começou a afagar meu braço delicadamente, engoli em seco.
– Quando voltamos, eu estava tão animada por ter conseguido a porcaria do autógrafo de um dos expositores que nem percebi que tinham dois ladrões na sala – contei – Eu fui tão estúpida que só percebi que um deles estava apontando uma arma para mim na hora que o meu pai levou um tiro no meu lugar. Podia ter sido eu, devia ter sido eu.
Parei para respirar, estava ficando cada vez mais difícil de controlar minhas lágrimas. Louis ainda afagava meu braço, tentei me concentrar nisso.
– Os ladrões ficaram assustados por ter matado meu pai, foi um tiro impulsivo, bem na cabeça dele – contei – Minha mãe gritou, eu tapei os ouvidos, mas gritei também. O desgraçado atirou nela também, e teriam atirado em mim, se não fosse o parceiro dele impedi-lo. Ele disse que não queria matar uma criança, eu pude ver que eles estavam apavorados.
As lágrimas venceram-me, e agora desciam através de minhas bochechas.
– Eu vi tudo, sabe? – falei – Depois que eles foram embora, eu corri até meu pai. Eu chamei o nome dele, implorei para que ele abrisse os olhos, mas tudo que eu consegui foi me sujar com o sangue dele.
Baixei o olhar, encarando as águas escuras que corriam abaixo de nós. Louis abraçou-me com mais força, segurando-me enquanto eu chorava.
– Depois eu corri para a minha mãe, ela já estava quase morta, quase – falei – Ela olhou para mim, eu pude sentir a dor que ela estava sentindo, e eu sinto isso até hoje. Quando ela morreu, foi como se tudo tivesse perdido o sentido. Eles tinham morrido, meus pais tinham morrido, foi tudo por minha culpa.
Finalmente parei de falar, minhas lágrimas agora desciam sem pena.
– Eles me chamavam de “minha criança”, eu lembro de ouvir minha avó me chamar assim também – falei – Naquela hora, na hora em que eu os vi morrer, eu só conseguia pensar na voz deles dizendo isso.
Parei de falar, sufocada em minhas próprias palavras. Louis não disse nada, apenas puxou-me completamente para seu peito. Afundei-me em seu abraço, enterrando meu rosto em seu peito. Louis apertou-me com firmeza, conseguindo ser gentil até naquele momento. Senti-o afagando minhas costas com uma mão, enquanto a outra entrelaçava-se em meus cabelos. Louis virou minha cabeça um pouco, fazendo minhas bochecha encostar-se em seu peito. Respirei pela boca, sentindo um soluço sacudir meu corpo. Louis segurou-me com ainda mais firmeza, seu calor me envolveu de todos os lados. Chorei durante alguns segundos, apertando Louis com força. Meus braços doíam, mas ele não demonstrou sinais de cansaço. Seu calor e carinho foram me acalmando gradativamente, minhas lágrimas foram parando de escorrer. Afrouxei meus braços daquele aperto, Louis não me soltou. Soltei um suspiro pesado, respirando fundo logo em seguida.
– Estou bem agora, obrigada – sussurrei.
Louis não me soltou, ao invés disso, seus braços apertaram-me com um pouco mais de força.
– Descobri uma coisa que eu detesto: te ver chorar – ele disse.
Soltei uma risada fraquinha, fechando os olhos por um segundo. Louis afastou-se um pouco de mim, ainda sem me liberar de seu abraço. Seus dedos afagaram minha bochecha direita, secando as lágrimas que ainda estavam por lá. Não falei nada, apenas permaneci parada, encarando seus olhos.
– Eu entendo sua tristeza, nem posso imaginar sua dor – ele disse – Eu perdi meu pai também, ainda que ele não fosse meu pai biológico.
Franzi as sobrancelhas, confusa. Louis suspirou, olhando-me com um olhar terno e carinhoso.
– Eu também fui adotado, Nina – ele disse.
Pisquei, suas palavras ficaram girando em minha cabeça. Louis soltou mais um suspiro.
– Eu tinha dois anos quando a Miwa me adotou, e embora eu tenha crescido na família Asahina, eu me sentia tão excluído quanto você se sente hoje – ele disse – Apenas meus irmãos mais velhos sabem disso, e Ema.
– E eu – falei.
Louis riu baixinho, assentindo.
– E você – concordou – Somos três adotados naquela casa, depois da sua chegada.
Franzi as sobrancelhas, Louis pareceu ter lido minha mente.
– Ema também foi adotada por Hintarou, ela só descobriu isso há uns anos atrás – ele disse – Ela ficou péssima quando descobriu, mas todos nós a convencemos do que ela realmente é.
Pensei um pouco, Louis esperou.
– E o que ela realmente é? – perguntei.
Os dedos de Louis seguraram meu queixo, esperei.
– Uma Asahina – ele disse – Assim como eu, assim como você.
Hesitei, Louis afagou meu queixo delicadamente.
– Eu sei que você não acredita em mim, mas, pelo menos, tente – ele disse – Todos nós gostamos muito de você, até mesmo aqueles que não convivem muito contigo. Acredito que saiba de quem eu estou falando, uma dica: Ele mora sozinho.
Sorri, ele não havia dito diretamente, eu sabia que ele estava falando de Natsume. Dos outros eu sentia, eles pareciam me aceitar, pelo menos um pouco. Mas Natsume quase não falava comigo, apenas a menção do nome dele me fazia ficar tensa.
– Tente enxergar com nossos olhos, Nina – disse Louis, retomando minha atenção – Nós adoramos você, tente enxergar isso.
Suspirei, soltando-me de seu abraço. Parei bem na frente de Louis, ele me encarou.
– Eu sei que isso soa muito clichê, mas não são vocês, sou eu! – falei, apontando para meu próprio peito – Vocês todos são incríveis, mas eu não me encaixo porque eu sou o problema. Vocês me acham fria, vocês acham que eu não sinto nada por vocês. Eu sinto! Mas meu modo de expressar isso é diferente.
Parei para tomar fôlego, Louis esperou.
– Eu demonstro meus sentimentos toda vez que converso com Masa e com o Ukyo, demonstro toda vez que eu ignoro o Tsubaki, sorrio para o Azusa, ou até quando eu me encolho diante da presença do Natsume – falei – Eu demonstro isso cada vez que tento fazer o Subaru falar, toda vez que me sinto nas nuvens ao ficar perto do Iori, cada vez que irrito Yusuke, cada vez que provoco Fuuto, cada vez que abraço o Wataru e cada vez que simplesmente olho para você. Até mesmo com Kaname e Hikaru eu demonstro, apenas por sorrir ou conversar com ambos.
Calei a boca, desviando o olhar.
– Eu amo vocês, é assim que eu me sinto – falei – Eu não consigo mostrar isso direito ainda, mas eu vou conseguir, ou não me chamo Nina Kazama!
Louis suspirou, respirei fundo.
– Esqueceu o “Riri” – ele disse.
Pude sentir um sorriso nascer em meu rosto, combinando com o sorriso terno que Louis dava para mim.
– Foi, eu esqueci o “Riri” – falei – E não fale isso para o Fuuto, ele nunca me deixaria em paz se descobrisse meu nome completo.
Louis riu, sorri para o chão.
– Não vejo motivos, todo o seu nome é lindo – ele disse.
Sorri ainda mais, erguendo o olhar até o rosto de Louis. Só percebi que ele segurava a minha caixa de chocolates naquele momento, ele riu ao perceber a careta que eu fiz.
– Só vou guarda-los para você, não precisa fazer essa cara – ele disse.
Revirei os olhos, ele sorriu.
– Por Cacao Sampaka eu mato um – falei.
Ele riu, sacudindo a cabeça. Virei meu rosto para encarar o horizonte, notando que o dia estava começando a chegar ao fim.
– Quer ficar para ver o pôr do sol? – Louis perguntou.
Suspirei, mordendo o lábio.
– Você não tem que voltar ao seu salão? – perguntei.
Louis abriu um sorriso enorme, desfrutando de uma piada particular.
– Eu sou o dono, posso me dar o luxo de fazer meus próprios horários e faltar um dia de trabalho vez ou outra – ele disse – Além do mais, eu reservei metade do dia para ficar apenas com você.
Sorri, voltando meu rosto em sua direção. Louis estava escorado no parapeito, seus cabelos sacudiam suavemente com o vento.
– Podemos ver o pôr do sol um outro dia, tenho certeza de que o mundo não vai acabar – falei, sorrindo de leve – O que eu queria mesmo fazer era descobrir como fazer o Wataru sorrir para mim de novo.
Louis soltou um suspiro, abrindo um sorrisinho afetado.
– Ele ainda não te perdoou por você ter bebido vinho e negado a ele? – perguntou.
Assenti, bufando levemente.
– Eu não sei mais o que fazer, já tentei até mesmo implorar para brincar com ele, mas nada disso adianta – falei – Eu não consigo ficar sem falar com o meu pequeno, ele pode ser um pouco grudento, mas eu adoro ser a onee-chan dele.
Louis riu baixinho, suspirei.
– Ele tem um ursinho de pelúcia que carrega desde quando era apenas um bebê – ele disse – Uma vez, Masaomi disse que ele já estava muito velho para ficar com aquele boneco, e o Wataru fez a mamãe voltar da Bélgica para que ele parasse de chorar. Ele é muito birrento, foi muito difícil fazer com que ele perdoasse o Masaomi. Ele passou uns três meses ignorando-o, a própria mamãe precisou intervir.
Bufei, Louis me olhou.
– Acho que a Miwa não ia ficar muito entusiasmada para intervir no meu caso, já que ficar bêbada não é tão bonitinho e clássico quanto tentar tirar um brinquedo de uma criança – falei.
Louis riu, evitei seu olhar.
– Belo argumento, mas eu não acho que a mamãe iria ficar assim tão chateada – ele disse – Ela adora mimar vocês dois, acho que ela iria rir tanto quanto o Fuuto durante aquele jantar.
Bufei, sacudindo a cabeça. Louis afagou meu braço esquerdo levemente, chamando minha atenção.
– Vocês dois vão se acertar, eu tenho certeza de que o Wataru também está sofrendo com essa distância – ele disse – Mas, se aceitar meu palpite, tente presenteá-lo com uma pelúcia.
Assenti, Louis sorriu.
– Wataru adora pelúcias, e ele também adora você – ele disse – Acho que receber uma pelúcia de você seria como dar-lhe uma lâmpada mágica com direito a desejos infinitos.
Ri daquela comparação, Louis sorriu.
– Eu vou comprar algo – falei, soltando um suspiro – E lá se vai o meu plano de não usar o cartão de crédito.
Louis riu, como se minhas ideias fossem tão bobas que apenas a menção delas eram motivos de risadas.
– Eu levo você à uma loja, sempre compramos presentes para Wataru nela – ele disse – Mas, antes disso, quero que feche seus olhos.
Franzi as sobrancelhas, estranhando. Louis apenas sorriu, soltando um leve suspiro.
– Confie em mim – ele disse.
Sabe aquele charme masculino que faz as mulheres derretem por completo? Pois é, acho que Louis é o criador daquele charme. Com certeza era de família, não pude lutar contra ele, assim como nunca pude lutar contra Wataru.
Fechei meus olhos, conforme Louis pedira. Não senti seu toque em parte alguma do meu corpo, comecei a ficar nervosa.
– Se está ansiosa, tente se concentrar em seus outros sentidos – disse Louis.
Sua voz estava tão próxima que me rendeu alguns arrepios, engoli em seco. Foquei minha atenção à minha audição, tentando localizar Louis.
Foi difícil, o som do vento misturado com o som das ondas desviavam toda minha atenção, fora que os sons da cidade não ajudavam em nada. Tentei focar em algo um pouco mais sólido: Seu cheiro.
Não foi mais fácil, já que o cheio da água me enchia os pulmões. Respirei fundo umas três vezes, fracassando em minha farejada como um peixe fracassaria ao tentar atravessar a rua.
– Espere só mais um pouco – disse Louis.
Minha audição foi despertada por aquele som, meu nariz moveu-se como o nariz de um coelho ao tentar sentir o cheiro de seu hálito. Não precisei fazer muito esforço, pois as mãos gentis e suaves de Louis encontraram minha cintura, fazendo-me dar um leve pulinho de susto.
– Oh! – foi o que eu disse.
Louis riu baixinho, o som veio de algum lugar a minha direita.
– Relaxe por completo, você já vai ver – ele disse.
Assenti, respirando fundo. Louis guiou meu corpo até eu sentir meus braços encostarem no parapeito, seu corpo aproximou-se mais do meu. Segurei o corrimão, Louis pareceu aprovar meu movimento, já que apertou um pouco minha cintura.
– Respire fundo – ele disse.
Fiz o que ele havia dito, sentindo minha tensão se esvair devagar.
– De novo – ele disse.
Repeti meu gesto anterior, ficando muito mais relaxada. Louis só precisou dar um suave aperto em minha cintura para que eu respirasse fundo outra vez, repetindo o feito outras duas vezes. Quando eu me senti levemente flutuando, Louis soltou um leve suspiro.
– Pode abrir os olhos agora – ele disse.
Mesmo não querendo, minhas pálpebras tremeram um pouco, obedecendo ao comando de Louis como se eu fosse um robô. Abri meus olhos devagar, sendo recebida pela vista mais linda que eu já tive o prazer de ter.
– Uau – falei.
Louis deu uma risadinha, senti meus lábios esticarem-se um pouco.
– Uau mesmo – ele disse.
Era um belo pôr do sol, onde os feixes de luz alaranjada misturava-se ao céu azul marinho do início da noite, iluminando a cidade de Tóquio com aquela impactante combinação de cores. A água abaixo de nós agitava-se um pouco, fazendo com que algumas gotas respingassem em minhas pernas descobertas. Arrepiei-me um pouco pelo frio, meu corpo mandava-me correr para um lugar quente, enquanto minha mente mandava-me ficar ali até o nascer do sol de amanhã.
– É lindo, não é? – disse Louis.
Assenti devagar, soltando um longo suspiro. Louis me abraçou delicadamente, seu calor abrandou o frio que eu estava sentindo.
– É melhor irmos agora, vai ficar ainda mais frio –ele disse.
Franzi as sobrancelhas, virando meu rosto em sua direção.
– Como sabe que eu estou com frio? – perguntei.
Louis sorriu, tocando meu ombro direito com a mão.
– Você está arrepiada e sua pele está levemente fria – ele disse – É fácil ler os sinais do corpo humano, ainda que a sua personalidade faça de você uma pessoa difícil de ser lida.
Ele disse aquilo olhando bem dentro dos meus olhos, foi difícil não ficar constrangida. Senti minha bochecha esquentar, deveras, Louis estava beijando-a com ternura. Fechei meus olhos como que por instinto, Louis afastou-se de mim cedo demais.
– Vamos? – ele disse.
Assenti, incapaz de dizer alguma coisa. Louis soltou-me devagar, sua mão desceu pelo meu braço até encontrar minha mão. Ele me conduziu por todo o caminho, saímos do píer em apenas cinco minutos. Assim que voltamos para as ruas de Tóquio, Louis olhou em volta, procurando um táxi.
– A loja não é longe, mas está ficando frio, não quero que você fique doente – ele disse.
Sorri, Louis cuidava de mim como ninguém. Nem mesmo Akira me dava toda aquela atenção, Louis tinha mesmo o “espírito do irmão mais velho”.
– Onii-chan! – chamei, usando a voz mais manhosa que pude fazer.
Louis me olhou, seus olhos estavam levemente arregalados. Ri, abraçando seu braço como se não houvesse amanhã.
– Agora eu entendo o Wataru, é tão bom ter um irmão mais velho – falei, rindo – Meu Onii, para onde vamos agora?
Louis riu, sacudindo a cabeça. Sorri, esperando sua resposta.
– Vamos à loja que eu disse que iríamos – ele disse.
Assenti, ele voltou a procurar um táxi. Não demorou muito, logo ele fez sinal. O táxi parou diante de nós, Louis abriu a porta para mim outra vez. A viagem de táxi durou quase meia hora, o trânsito não estava leve como hoje mais cedo. Louis e eu não conversamos durante o trajeto, aquilo devia ser algum tipo de tradição somente nossa. O táxi parou diante de uma loja imensa e colorida, Louis e eu descemos logo após o pagamento ser feito.
– É aqui, onii-chan? – perguntei.
Louis olhou para mim, dirigi-lhe uma piscadela marota.
– Sim, é aqui – ele disse.
Ele guiou-me até o lado de dentro, onde me senti minúscula diante da quantidade de brinquedos que havia no lugar. Eu podia me perder facilmente dentro daquela loja, até mesmo Ukyo e Natsume iriam sentir vontade de passar uma noite inteira naquele lugar.
– Aquele é o Bob Esponja? – perguntei.
Minhas pernas me guiaram até uma enorme prateleira, cheia de pelúcias dos personagens do meu desenho favorito. Meus olhos quase lacrimejaram quando eu abracei um Patrick Estrela, soltei um muxoxo de emoção.
– Ele é tão fofo! – gemi, apertando o pequeno brinquedo em meus braços – Onii-chan, eu quero!
Louis revirou os olhos, rindo da minha infantilidade. Eu era louca por coisas fofas e infantis, acho que é por isso que eu sou louca por Wataru.
– Vamos achar o presente do Wataru, tente resistir a tentação de comprar a loja inteira – disse Louis.
Fiz um biquinho, apertando o Patrick. Louis suspirou, aproximando-se de mim. Ele tirou o urso de meus braços, meu bico tremeu.
– Seja a onee-chan, resista – ele disse.
Sua voz tinha certo tom de riso, mas eu fiz o que ele disse. Me recompus, Louis sorriu.
– Vamos – falei.
Ele assentiu, tomando minha mão. Ele guiou-me pela loja, passando por prateleiras e mais prateleiras de brinquedos. Haviam muitas crianças no local, assim como muitos adultos preocupados com os preços. Louis levou-me até a seção de animais de pelúcia, apertando um pouco minha mão.
– Wataru adora ursos, talvez devêssemos levar um para ele – disse Louis.
Neguei com a cabeça, ele me olhou.
– Todo mundo dá ursos de pelúcia, eu não vou conquistar o Wataru seguindo essa ideia velha e clichê, sem ofensas – falei.
Ele franziu os lábios, olhando-me com uma expressão indagadora. Sorri de leve, sua expressão se suavizou.
– O que sugere? – perguntou.
Olhei novamente para a estante de brinquedos, mordendo o lábio. Louis encarou meu rosto fixamente, como se as pelúcias não tivessem a menor importância.
– Aquilo – falei, apontando para o brinquedo que eu escolhera.
Louis olhou para onde eu havia apontado, ele arregalou os olhos um pouco.
– Uma hiena? – perguntou, levemente incrédulo.
Dei de ombros, soltando sua mão. Peguei a hiena de pelúcia, era tão fofa que me fez sorrir.
– Nina, uma hiena de pelúcia – disse Louis.
Assenti, sorrindo para ele.
– Qual é o problema? As pessoas costumas dar ursos, mas ninguém dá uma hiena de pelúcia de presente – falei – Eu quero conquistar o Wataru, nada melhor do que dar para ele algo único.
Louis pareceu estar em conflito interno, ele afagou a própria testa.
– Nina, ele vai ficar com medo disso – ele disse.
Revirei os olhos, Louis continuou me encarando.
– Vocês querem fazer ele crescer, não querem? – perguntei – Tem jeito melhor de fazer isso do que tirar aos poucos todo esse excesso de fofura que o rodeia? Uma hiena é perfeita para isso.
Louis suspirou, um sorriso começou a formar-se em seus lábios.
– É impossível te fazer mudar de ideia, não é mesmo? – ele disse.
Ri, assentindo. Louis sacudiu a cabeça, rindo de leve.
– Vamos levar a hiena – ele disse.
Dei um pulinho, abraçando a hiena de pelúcia. Louis sorriu ternamente para mim, abraçando-me de lado para conduzir-me ao caixa da loja. No caminho, me deparei com uma prateleira de vidro com ursos especiais. Escancarei a boca, Louis me encarou.
– Um urso... – comecei.
Minha boca ficou escancarada, as palavras me abandonaram por completo. Louis me encarou, eu não conseguia desviar meus olhos da pelúcia que encontrara.
– Nina, você está bem? – perguntou Louis.
Gemi em resposta, meus olhos ficaram úmidos.
– Um urso zumbi! – guinchei.
Foi alto, todos que estavam perto pararam para me encarar. Não me importei, apenas continuei encarando o urso como se nada mais importasse.
– Gostou tanto assim? – perguntou Louis.
Não respondi, apenas toquei o urso com as pontas dos dedos.
– Ele é tão lindo! – gemi, suspirando – Zerei a vida, encontrei um urso de pelúcia zumbi.
Louis riu, soltei um arquejo emocionado.
– Vamos embora, Nina – ele disse.
Assenti, fechando minha boca devagar. Louis pegou minha mão e conduziu-me ao caixa da loja, eu andava como se estivesse em transe. Se Akira visse aquilo, iria ficar tão embasbacado quanto eu. Louis posicionou-me na fila do caixa, afagando meu ombro devagar.
– Eu já volto, tudo bem? – ele disse.
Assenti, incapaz de dizer uma única palavra. Louis sumiu no interior da loja, comecei a me balançar da um lado para o outro. Detestava quando meus pais me deixavam na fila de algum lugar e depois sumiam durante minutos, pelo menos desta vez eu estava com meu próprio cartão de credito.
O som do toque do meu celular me despertou, fazendo-me dar um leve pulinho no mesmo lugar. Tirei o celular de dentro do bolso do vestido, atendendo sem ver quem estava ligando.
– Alô? – falei.
– Nina? Sou eu, Tsubaki – disse a pessoa do outro lado da linha.
– Ah, oi, Tsubaki – falei.
Ele riu um pouco do meu tom de voz surpreso, ele nunca havia me ligado, a voz dele ficava extremamente sensual no telefone.
– Você precisa de alguma coisa? – perguntei.
Tsubaki estalou a língua, esperei.
– Eu não posso estar apenas querendo conversar com minha irmãzinha mais linda? Você pensa assim tão mal de mim? – ele disse.
Revirei os olhos, percebendo que a fila havia avançado um pouco.
– Ambos sabemos que você não quer só isso – falei.
Ele riu, sorri.
– Ah, você é tão perceptiva – ele disse – Não, liguei porque teve certo debate aqui.
Franzi as sobrancelhas, avançando mais um pouco na fila.
– Debate? – perguntei.
– Exatamente – disse Tsubaki – Masaomi está morrendo de preocupação, sabe? Você saiu depois de voltar da escola, não disse a ninguém aonde ia, coisas assim.
Fechei meus olhos, franzindo meus lábios. Percebi que já era a minha vez de pagar, entreguei a hiena de pelúcia para a garota do caixa.
– Eu esqueci completamente, sinto muito – falei – Eu saí com o Louis, vamos voltar para casa logo.
– Imaginei que era mesmo algo assim, você é muito movida pelo momento – disse Tsubaki – Quando Masaomi disse que ligaria pra você, acho que uns sete caras aqui começaram a disputar a tal ligação, e no sorteio do palito menor, eu ganhei.
Ri, pegando um tablete de chocolates que um expositor exibia e dando para que e a garota da loja pudesse registrar.
– Me sinto lisonjeada, obrigada – falei – Diga aos garotos que eu estou bem, já estou voltando para casa.
– Claro, só um minuto – disse Tsubaki, um instante antes de sua voz ficar um pouco mais distante – Ela está viva, só saiu para comprar drogas, mas o efeito já está passando e ela logo voltará para casa.
Ri, mesmo sendo a pessoa lesada naquela declaração. Entreguei meu cartão à garota do caixa, finalizando a compra logo depois.
– Embalagem para presente? – ela perguntou, exibindo seus aparelhos dentários em um sorriso torto.
Assenti, sorrindo de volta. Ouvi uma pequena discussão do outro lado da linha, a voz de Tsubaki insistia em minha suposta compra de drogas.
– Deixe de ser infantil, me dê o telefone... – Disse uma voz séria, e a voz de Tsubaki sumiu de vez – Nina?
– Masa? Sou eu – falei, reconhecendo o dono da voz quase que de imediato.
Ele soltou um suspiro de alívio, sorri para o chão.
– Você está bem? Onde você está? Está sozinha? Precisa de uma carona? – ele disse, disparando as perguntas para mim.
Ri, ele pareceu esperar com certa impaciência.
– Calma, Masa. Uma pergunta de cada vez, eu sou só uma – falei, pegando a embalagem da hiena de Wataru – Obrigada.
Sussurrei o agradecimento à garota, ela sorriu e acenou para mim. Abracei o pacote, olhando em volta. Louis ainda não havia aparecido, resolvi sair da loja e esperar por ele do lado de fora.
– Com quem você está falando? – perguntou Masaomi.
Ri um pouco, ele parecia impaciente.
– Eu estava agradecendo à garota do caixa, comprei um presente para Wataru – respondi – Sobre suas perguntas anteriores: Sim, eu estou bem. Estou em uma loja de brinquedos. Não, não estou sozinha, estou com Louis. Não preciso de carona, Louis e eu vamos pegar um táxi, obrigada.
Falei aquilo calmamente, pude ouvir Masaomi suspirar de alívio após cada resposta.
– Entendo, desculpe por ser insistente – ele disse, expirando pesadamente – Passei o dia inteiro no hospital hoje, cuidei de um garoto que havia fugido de casa. A expressão dele me deixou mexido, e quando cheguei em casa e não te vi, só lembrei daquele jantar e não pude evitar pensar o pior.
Ouvi-o soltar um suspiro, quase pude vê-lo fechar os olhos. Suspirei também, sentindo-me arrependida por não ter dito a ninguém que havia saído.
– Desculpa, Masa – falei – Eu sei que devia ter avisado que ia sair com o Louis, mas eu estava tão animada que nem pensei em deixar um bilhete ou coisa do tipo. Tenho andado com a cabeça nas nuvens, me desculpe.
Ele respirou fundo, esperei.
– Tudo bem, o que importa é que você está bem – ele disse – Não faça isso outra vez, eu fiquei preocupado, todos nós ficamos.
Suspirei, ele fez o mesmo.
– Tudo bem – falei.
Ouvi as portas da loja de brinquedos abrirem-se bem do meu lado, virei meu rosto. Louis saiu da loja, segurava uma grande sacola com um embrulho vermelho dentro. Ele acenou para mim, vindo em minha direção com um sorriso calmo no rosto.
– Nos falamos mais tarde, Louis e eu já vamos pegar um táxi – falei, dirigindo-me ao irmão que me esperava em casa.
– Tudo bem, até mais tarde – Disse Masaomi.
Ele finalizou a chamada, guardei meu celular no bolso do vestido. Louis chegou mais perto de mim, sorri para ele.
– Você demorou, pensei que tivesse fugido e me deixado sozinha – brinquei.
Louis riu, esperei.
– Isso jamais, eu só fui atrás disso – ele disse, balançando sugestivamente a sacola em sua mão.
Encarei o embrulho, erguendo meu olhar até encontrar seus olhos.
– O tem você tem aí? – perguntei.
Louis abriu um sorriso enorme, divertindo-se com seus mistérios particulares.
– Algo que um dia vai fazer alguém que eu amo dar um sorriso lindo – respondeu – Quem era no telefone?
Pisquei, sentindo uma fisgada no coração ao ouvi-lo dizer aquilo. Louis apenas sorriu, encarando-me com graça e suavidade.
– Eram Tsubaki e Masaomi, eles se alternaram para falar comigo – respondi – Parece que o Masa chegou em casa e ficou preocupado ao não me ver, então teve um sorteio para saber quem iria me ligar.
Louis deu um meio sorriso, como se achasse a situação um pouco cômica, mas fosse educado demais para dizer aquilo em voz alta.
– Eu disse que nós nos importamos com você, acredita em mim agora? – ele perguntou, encarando-me de maneira descontraída.
Revirei os olhos, Louis sorriu.
– Vamos para casa, aí vem um táxi – ele disse.
Pisquei, notando que era mesmo verdade. Louis tinha feito sinal, um táxi era estacionado bem diante de nós. Louis abriu a porta para que eu entrasse pela terceira vez no dia, sorri como de costume. Assim que o táxi começou a andar, Louis e eu ficamos calados outra vez, como de costume. Ele havia depositado o embrulho ao lado de onde eu havia colocado a hiena empacotada, franzi o cenho. Sem entender o motivo, senti meu coração se apertar outra vez, como quando ele disse o que era aquele embrulho. Para quem Louis iria dar aquele embrulho? Uma garota? Algum irmão? Não, ele não diria aquilo para referir-se a nenhum dos nossos irmãos. Louis era amoroso, mas pude sentir pelo seu tom de voz qual era o tipo de amor que ele se referia.
Não sei por que, mas me senti levemente incomodada. Remexi-me um pouco no banco, trincando os dentes. Tentei prestar atenção na paisagem que a janela do carro me exibia, mas não consegui nada além de me sentir ainda mais frustrada. Eu era curiosa, disso eu já sabia.
Mas aquilo iria me matar, eu podia sentir isso.
– Louis, é sério, o que tem no embrulho? – perguntei, sem encara-lo.
Louis virou o rosto para me olhar, sua expressão era uma mistura de surpresa e alegria.
– Eu já disse, é algo que um dia fará a pessoa que eu amo dar um sorriso lindo – ele respondeu – Algum problema?
Trinquei os dentes, ele dissera a palavra “pessoa” ao invés de “alguém”. Mesmo sendo um sujeito indeterminado, eu tinha certeza de que era uma garota.
– Nada não – respondi, um pouco sarcástica – Curiosidade.
Louis riu, incrédulo. Evitei seu olhar, ele virou a cabeça para o lado.
– Nina, você está com ciúmes? – perguntou.
Arregalei os olhos, minha cabeça virou-se em sua direção sem que eu quisesse. Os olhos de Louis brilhavam, sua expressão era de puro divertimento, assim como de uma imensa incredulidade.
– Claro que não! – guinchei.
Ele riu, olhando-me com uma ternura inimaginável. Senti minhas bochechas esquentarem, virei meu rosto em direção à janela outra vez.
Por que diabos eu estava corando? Eu nunca fico corada!
– Oh, minha querida Nina – disse Louis.
Ele me abraçou, fiz o possível para esconder meu rosto dele. Louis enterrou seu rosto em meus cabelos, rindo baixinho.
– Não precisa ficar com ciúmes, minha querida – ele disse – O amor que eu sinto por ela nunca vai acabar com nossa amizade, eu prometo.
Ela?! Eu sabia!
– Eu não estou com ciúmes! – menti, cerrando meus dentes.
Louis riu, e percebi que ele não era o único. O taxista nos olhava através do espelho retrovisor, pude ver que ele também ria.
– Irmã caçula? – perguntou.
Louis parou de rir um pouco, desviei o olhar.
– Não a caçula, mas minha irmãzinha – respondeu Louis, sorrindo para o taxista.
Os dois homens riram, trinquei os dentes.
– Minha irmã caçula passou um mês sem falar comigo quando eu fiquei noivo, até hoje ela não gosta da minha esposa, embora ame os sobrinhos – disse o taxista – Irmãs são presentes divinos, mas eu acho que são a segunda raça mais ciumenta, perdendo apenas para as mães.
Louis riu, apertando-me um pouco mais.
– Minha mãe é muito liberal, e eu tenho outros irmãos para dividir o ciúme dela – ele disse, sorrindo – Minha outra irmã não é ciumenta, mas essa garotinha aqui vale por duas.
Eles riram outra vez, Louis beijou delicadamente meu ombro antes de me liberar de seu abraço cheio de ternura. Evitei seu olhar, sentindo como se meu interior estivesse em chamas.
Eu não estava com ciúmes, apenas curiosa. Louis amava uma garota, mas dissera que estava solteiro. Talvez fosse alguém do salão, eu teria que pegar o telefone do Masato depois.
Ou talvez fosse uma garota da época da escola, as pessoas amam quando estão no colegial, não amam? Talvez fosse apenas uma paixonite de inverno, algo tão passageiro e bobo que iria acabar antes mesmo que aquele presente fosse entregue, talvez aí sim ele me dissesse o que é.
Ou talvez, eu só iria descobrir quem é a tal garota quando Louis e ela estiverem indo ao altar, ansiosos para trocarem alianças. Talvez eles me enfiassem em um vestido esvoaçante e colorido e me fizessem jogar pétalas de rosa no chão da igreja enquanto Wataru viria trazendo as alianças em uma almofada de veludo vermelho, conhecendo o Louis, eu tenho certeza de que ele acharia isso divertido.
Sacudi a cabeça, não podia ser assim tão ruim, eu acho. Louis era meu irmão, talvez fosse um pouco mais próximo do que os outros eram, mas ainda era meu irmão. Era normal se sentir incomodada, irmãs podem detestar quando seus irmãos se apaixonam, não podem?
– Nina? – chamou-me a voz familiar de Louis.
Pisquei, virando meu rosto em sua direção.
– Já chegamos – ele disse – Você estava tão distraída que nem percebeu.
Ele deu uma risadinha serena, olhei em volta. O táxi havia parado bem diante de mansão Asahina, o taxista contava algumas notas de dinheiro.
– Vamos? – disse Louis.
Assenti, evitando seu olhar. Peguei a hiena embrulhada e abri a porta, saindo do carro antes mesmo que Louis pudesse tentar ser cavalheiro de novo. Fui para a calçada, abrindo os portões e entrando sem esperar por Louis. Pude ouvi-lo chamar meu nome, mas eu já havia travessado o jardim e entrado em casa. Bufei uma vez, sentindo como se todos os membros tivessem virado chumbo. Passar à tarde com Louis fora ótimo, mas eu estava tão cansada que nem conseguia respirar direito.
Ou talvez, só talvez, era por conta da conversa no táxi.
– Nina? – chamou-me uma voz familiar.
Masaomi veio em minha direção, ele dirigiu-me um sorriso gentil.
– Bem vinda ao lar – ele disse.
Sorri, soltando um suspiro. Masaomi me olhou, seu sorriso diminuiu um pouco.
– Está tudo bem? – perguntou.
Assenti, apertando a hiena empacotada.
– Estou bem, só estou um pouco cansada – falei – Onde está Wataru? Trouxe algo para ele.
Masaomi pareceu não acreditar em mim, forcei um sorriso.
A porta foi aberta atrás de mim, nem precisei virar o rosto para saber quem era, o cheiro dele já me era familiar.
– Louis, também fez compras? – perguntou Masaomi, sorrindo para o irmão.
Desviei o olhar, apertando a hiena como se ela me desse algum tipo de conforto.
– Eu vou procurar o Wataru – falei.
Passei por Masaomi sem olha-lo nos olhos, senti que ambos os irmãos ali estavam me olhando, confusos. Respirei fundo enquanto andava, subindo as escadas com a hiena apertada nos braços. Meus pés me guiaram até o quarto de Wataru, engoli em seco antes de entrar. A porta estava fechada, mas eu podia ouvir o barulho da televisão de Wataru através da porta. Dei duas batidinhas na porta, mordendo o lábio.
– Já vou! – disse a voz de Wataru.
Não pude conter um sorriso, estava sentindo muito a falta do pequeno. A porta foi aberta, logo meu irmãozinho parou diante de mim. Seu sorriso murchou quando ele me viu, seus olhos brilharam de raiva.
– Oi – falei, dando um meio sorriso.
Ele não respondeu, seus olhos fixaram-se no embrulho que eu trazia nos braços. Engoli em seco, Wataru voltou a me encarar.
– Posso entrar? Preciso falar com você – pedi – Por favor.
Fiz minha melhor voz inocente, rezando para que aquilo funcionasse. Wataru piscou duas vezes, como se tentasse acordar de um transe. Sem falar nada, ele afastou-se da porta. Entrei, um pouco cabisbaixa. Ele fechou a porta, virando-se em minha direção. Observei-o cruzar os braços, Wataru encarou-me como um adulto.
– Bom, é melhor eu começar te pedindo desculpas – falei – Wataru, meu pequeno, me desculpe por ter brigado com você naquele dia. Desculpe por ter ficado bêbada e ter agido como uma estúpida, eu sei que não é assim que você quer ver a sua onee-chan, não é?
Ele me encarou, respirei fundo.
– O que é isso? – ele perguntou, indicando o embrulho em meus braços com o queixo.
Dei um meio sorriso, ele pareceu se esforçar para não sorrir também. Agachei-me diante dele, ficando um pouco mais baixa do que ele.
– Isso é um presente de desculpas – falei – Você aceita?
Pisquei meus olhos duas vezes, dando um sorriso inocente. Wataru hesitou por um minuto, mas logo sacudiu a cabeça e jogou-se no chão ao meu lado.
– Obrigado, onee-chan! – ele disse.
Abri um grande sorriso, muito feliz. Entreguei-o embrulho ao meu irmão caçula, ele rasgou a embalagem em uma questão de segundos. Fiquei um pouco nervosa na hora em que ele segurou a hiena, mas isso logo passou, já que ele deu um sorriso enorme.
– Uma hiena! – guinchou – Eu nunca tive uma hiena! Obrigado, onee-chan!
Ri, ele deixou a hiena de lado por um segundo e atirou-se em mim. Abracei-o com força, fechando os olhos. Wataru me apertou com força, ofeguei. Soltamos-nos, sorrindo um para o outro.
– Quer brincar comigo, onee-chan? – Wataru perguntou.
Abri um sorriso enorme, dando uma leve batidinha no nariz de Wataru com a ponta do dedo indicador.
– Claro, minha hiena – respondi.
Ele riu, sorri abertamente.
O plano dera certo, afinal.
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Deitei-me na cama, puxando meus cobertores até meu queixo. O jantar fora ótimo, assim como passar quase três horas brincando com Wataru. Eu o colocara para dormir, beijara sua testa, desejara boa noite e ficara observando-o até que ele estivesse dormindo. Tomei um bom banho depois daquilo, enfiando-me em meu pijama mais quente.
A noite estava fria, achei que melhoraria se eu tomasse um banho. Claro, isso foi antes que Fuuto mexesse nas funções do chuveiro e o regulasse para derramar apenas água fria.
Ri um pouco ao pensar nisso, ao seu modo, Fuuto era tão encantador quanto Louis ao tentar chamar atenção para si.
Suspirei, não havia falado com Louis desde aquela hora. Não sei o que deu em mim, mas eu não conseguia olhar para ele sem lembrar do que ele dissera. Quem será essa tal garota?
Ouvi uma batida fraca na porta do meu quarto, despertando-me de meus devaneios.
– Nina? – chamou a voz de Louis.
Meus olhos se arregalaram, a voz dele me deu calafrios. Não falei nada, nem mesmo movi um músculo.
– Nina, está acordada? – perguntou Louis.
Não respondi, engolindo em seco uma vez. Ouvi Louis dar um leve suspiro, imaginei que ele havia desistido.
Um leve rangido na porta indicou-me que ela havia sido aberta, uma fresta de luz iluminou uma pequena parte do chão do quarto. Ouvi Louis pisar do lado de dentro, fazendo-me engolir em seco outra vez. Fechei os olhos, apostando em meus talentos como atriz.
Ouvi Louis suspirar, logo depois, a porta do quarto foi fechada outra vez. Ele podia ter desistido, mas eu não iria correr aquele risco. Fez-se silêncio durante um tempo, tentei normalizar minha respiração. Um leve suspiro quase me fez “acordar”, assustando-me por sua proximidade.
– Agora eu entendo porque eles te chamavam de “minha criança”, você é um anjo tão puro e tão gracioso – ele sussurrou – Não devia deixar a porta aberta, se alguns aqui te vissem dormir, ficariam completamente encantados com você, mais do que já estão, eu diria.
Ouvi-o dar uma suave risadinha, senti seus dedos macios afagarem meu queixo.
– Nem parece aquela garota do taxi, aquela que ficou com ciúmes por uma besteira – ele disse – Ah, Nina. Você está tão errada.
Seus dedos seguraram meu queixo, gentis, porém firmes. Senti sua respiração quente banhar meu rosto, parei de respirar. O calor do rosto dele ficou mais próximo, engoli em seco.
Louis se retesou, meu coração parecia estar tentando imitar a bateria de We Will Rock You. Louis deu uma risadinha, seus dedos apertaram levemente meu queixo.
– Sinais do corpo, lembra? – ele disse.
Não tive coragem de abrir os olhos, Louis riu de novo. Senti seus lábios pressionarem minha testa, ele não se afastou de imediato daquela vez. O calor de seus lábios aqueceu cada parte do meu corpo, quase soltei um suspiro.
Louis afastou-se, afagando meu queixo duas vezes.
– Boa noite, Nina – ele disse.
Não respondi, meus lábios tremeram minimamente. Louis riu baixinho, ouvi o som de seus passos ficarem distantes. A porta foi aberta e fechada logo em seguida, finalmente pude abrir os olhos. O quarto estava vazio, como eu imaginava. Soltei um suspiro involuntário, sentindo um sorriso espalhar-se em meu rosto. Toquei o local onde Louis me beijava, suspirando lentamente.
Talvez não seja tão ruim assim esquecer-se de trancar a porta.
IMAGEM ESPECIAL
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