The New Girl in the House
18 Cinema
Notas iniciais
– Então você jura que não vai ficar com medo? – perguntei, equilibrando meu celular no ombro enquanto tentava escolher uma blusa.
O garoto riu, não pude conter um sorriso.
– Eu não tenho medo de filmes de terror, não vou dar vexame no cinema, não se preocupe com isso – disse Yelisei, ainda rindo – E você, não tem medo de assistir filmes de terror?
Soltei uma risada sarcástica, pude imagina-lo revirando os olhos.
– Acho que é mais fácil eu estar grávida do que eu ter medo de filmes de terror – falei.
Yelisei riu, joguei a blusa que havia escolhido em cima da minha cama.
– Muito bem, veremos se é mesmo verdade em algumas horas – ele disse – Tenho que desligar, Liu e Ken acabaram de chegar.
– Eu encontro vocês onde? – perguntei, escolhendo uma calça.
– Nós vamos te buscar em casa, não se preocupe – ele respondeu.
Franzi as sobrancelhas, fazendo um biquinho de indecisão ao encarar duas calças.
– Como sabe onde eu moro? – perguntei.
– Fácil, perguntei ao seu irmão – ele respondeu.
Revirei os olhos, Yelisei riu.
– Assim fica fácil, eu não posso nem tentar ser um fantasma sendo irmã do "Fuuto Asakura" – resmunguei.
Yelisei riu, consegui dar um sorriso.
– Até mais tarde – ele disse.
– Tchau, Yelisha – respondi.
Ele riu um pouquinho, encerrando a chamada. Optei pela calça com o tecido mais escuro, juntei tudo que havia escolhido e rumei para o banheiro. Não encontrei ninguém no caminho, acho que não havia ninguém em casa. Deveras, era uma tarde de domingo. Todos eram muito ocupados, os Asahina deviam procurar um pouco de lazer durante os fins de semana.
Entrei no banheiro, certificando-me de que estava sozinha antes de tirar minhas roupas por completo. Não que eu fosse paranoica, mas era difícil não lembrar o que acontecera daquela vez.
Tomei um banho rápido, porém caprichoso. Era aniversário de Yelisei, ele, Liu, Ken e eu iríamos ao cinema para comemorar. Fiquei muito feliz quando eles me convidaram, os três eram garotos muito legais, e eu estava adorando ser amiga deles. Fuuto não comentava nada sobre minha relação com os meninos, mas eu sabia que ele não aceitava muito bem, talvez culpa dos olhares homicidas que ele lançava a Yelisei sempre que ele me fazia rir.
Ri com o pensamento, pegando minha toalha. Sequei meu corpo com uma rapidez aceitável, ainda tinha quase uma hora para me arrumar, mas eu não queria deixar os meninos esperando. Vesti minhas roupas logo depois de passar meu hidratante corporal, eu adorava mesmo o cheiro de jasmins.
Pensar em flores me fez lembrar de Iori, eu não o via desde ontem. Estava um pouco preocupada, mesmo sabendo que ele estava bem. Meu irmão fora chamado para fazer umas fotos para uma revista feminina, Tsubaki e Fuuto não o deixaram em paz depois que souberam. Eu mesma tinha me divertido um pouco com a ideia, iria comprar a tal revista assim que ela fosse publicada.
Saí do banheiro, caminhando até meu quarto sem nem me importar em fazer barulho. Não havia ninguém em casa, não que eu soubesse. Até mesmo Wataru tinha saído, Masaomi o levara para tomar sorvete. Subaru estava treinando, como sempre. Azusa tinha ido encontrar-se com Natsume, algo sobre a produção de um contrato para uma nova temporada do anime que dois dos gêmeos dublavam. Ema e Yusuke tinham ido à livraria, parece que os dois teriam que fazer um seminário na semana que vem, então os dois foram atrás de livros novos. De Ukyo eu não sabia, nem de Fuuto. Louis estava no salão, ele não costumava trabalhar aos domingos, mas teria que cobrir o turno de um funcionário que estava doente.
Calcei os sapatos, coloquei as joias, peguei meu celular e dobrei minha jaqueta no braço, trancando a porta ao sair. Tinha deixado o presente de Yelisei na mesa de centro da sala, então nem precisei me preocupar com isso.
Desci as escadas, indo em direção à cozinha num fôlego só. Derramei água em um copo e tomei um comprimido para minha dor de cólica menstrual, não ia deixar que aquilo atrapalhasse meu domingo.
– Vai sair? – perguntou alguém.
Quase derrubei o copo, engoli o comprimido com força e engasgando-me com um pouco de água. Virei meu corpo com pressa, colocando o copo em um lugar seguro.
– Tsubaki?! – chamei.
Ele deu um sorriso, segurava um pote de sorvete com uma colher enfiada.
– Eu mesmo, maninha – ele disse – Ficou surpresa em me ver ou é só êxtase?
Bufei, concentrando-me em lavar meu copo.
– Não é êxtase, pode ter certeza – falei – Eu pensei que não tinha ninguém em casa, está tudo tão silencioso.
Ele deu uma risadinha marota, enfiando uma colher de sorvete na boca. Só fui reparar melhor nele naquele momento, Tsubaki usava pijamas velhos e seus cabelos pareciam um ninho de ratos.
– Você estava em um tornado? – perguntei.
Ele revirou os olhos, guardei o copo no lugar certo.
– Eu estava dormindo, acordei meio indisposto hoje – explicou – Você não respondeu a minha pergunta, vai sair?
Ele me encarava, seus olhos sagazes pareciam analisar minha alma.
– Vou, é o aniversário de um amigo e vamos comemorar indo ao cinema – respondi.
Tsubaki franziu o cenho, pisquei.
– Só vocês dois? – perguntou, sua voz saiu afiada como navalhas.
Franzi minha testa, ele me encarou.
– Não, vamos em grupo – respondi – Por que?
Tsubaki não me respondeu, sua expressão pareceu se suavizar um pouco.
– Por nada – respondeu – Vai mesmo sair e deixar seu irmão sozinho em casa? Eu estou doente.
Revirei os olhos, ele dava um sorrisinho safado.
– Sim, quero mais é que você de ferre – respondi.
Ele fez uma careta, ri.
– Como é? – perguntou – Isso é preconceito, se fosse o Louis você nem hesitaria, mas como o doente sou eu, você diz essas coisas más.
Revirei os olhos, encarando Tsubaki.
– Você não precisa da minha companhia, aposto se sabe se virar sozinho – falei.
Ele deu de ombros, dirigindo-me um olhar sensual.
– Se você ficar aqui, ficaremos apenas nós dois, bem sozinhos – ele disse – Já imaginou? Teríamos espaço de sobra para nos conhecermos melhor, fora que eu teria a oportunidade de te mostrar meu quarto.
Revirei os olhos, ele me lançava um olhar predatório.
– Nem se você fosse o último homem do planeta, ainda seríamos irmãos, e eu ainda teria um cérebro – respondi.
Ele fingiu que estava ofendido, ri.
– Ei, não somos irmãos de sangue, não é errado – ele disse.
Revirei os olhos, bufando. Teríamos continuado a ter aquela conversa pervertida, mas o som da campainha me despertou.
– Eles vieram de jato? – falei, incrédula.
Tsubaki fez um bico, talvez tentando imitar o charme de Wataru.
– Você vai mesmo me deixar sozinho? Eu estou doente – ele disse.
Revirei os olhos, indo até a sala para pegar o presente de Yelisei.
– Você não estaria tomando sorvete e fazendo piadinhas pervertidas se estivesse realmente doente, e o médico da família não sou eu – respondi.
– Ouch – ele disse, como se eu o tivesse acertado com um soco – Masaomi é pediatra.
Assenti, vestindo meu casaco e catando o resto das minhas coisas.
– Exatamente por isso, você é uma criança mimada, afinal – falei.
Ele riu, dirigi-me à porta.
– Você é má comigo, maninha – ele disse.
Sacudi a cabeça, aproximando-me dele e depositando um leve beijo em sua bochecha. Mesmo desarrumado daquele jeito, Tsubaki tinha um cheiro incrível.
– Na boca seria melhor, sabe? – ele disse.
Ri, afastando-me dele. Pude sentir seu olhar acompanhar-me até a hora que eu abri a porta, dirigi-lhe uma piscadela.
– Até mais, Tsubaki – falei.
– Divirta-se – respondeu, acenando uma vez.
Sorri, saindo e fechando a porta. Atravessei o jardim aos pulinhos, quase tropeçando em Juli no caminho. Ele eriçou a cauda, chiando como uma TV com defeito. Dei-lhe a língua, correndo até os portões.
Yelisei, Liu e Ken me aguardavam do lado de fora, conversando entre si. Liu vestia uma calça de couro e uma camiseta azul, assim como o irmão. Yelisei vestia uma calça jeans azul escura, mas também vestia uma camisa azul. Ri, abrindo o portão e saindo.
– O que é isso? Alguma convenção de tarados pela cor azul? – perguntei.
Eles olharam para mim, Yelisei abriu um sorriso enorme quando me viu.
– Nina, você está incrível – ele disse.
Sorri, indo em sua direção. Abracei-o gentilmente, ele tinha cheiro de baunilha, como um bolo gigante e delicioso.
– Feliz aniversário – falei, ainda abraçando-o.
Ele riu, afagando minhas costas com suas mãos largas. Soltei-o, dando um pulo para afastar nossos corpos.
– Seu presente – falei, estendendo-lhe a caixa que trazia nos braços.
Yelisei deu um grande sorriso, aceitando meu gesto e pegando a caixa.
– Obrigado, Nina – ele disse.
Sorri, ele abriu a caixa. Seus olhos quase saltaram das órbitas, juntei as mãos abaixo do queixo, mordendo o lábio.
– Unorthodox Jukebox, o CD que estava faltando para minha coleção do Bruno Mars ficar completa! – disse, rindo – Obrigado, Nina. Muito obrigado, eu simplesmente cacei esse CD, mas nunca achei em lugar algum.
Ri, ele me abraçou de novo. Foi um abraço mais forte desta vez, porém foi um pouco mais rápido. Yelisei me soltou, rimos um para o outro.
– Ainda estamos aqui, segurando vela, sabe? – disse Liu.
Revirei os olhos, Yelisei sacudiu a cabeça.
– Vocês sabem que a Nina tem namorado, não falem besteiras – ele disse.
Liu riu, Ken deu de ombros.
– Oi, meninos – falei.
– Oi, Nina – responderam, falando em um uníssono.
Ri, abraçando Liu rapidamente. Assim que nos separamos, abracei Ken com o mesmo entusiasmo que usara ao abraçar seu irmão. Ambos tinham um cheiro forte de café, como se tivessem acabado de sair da cafeteria do pai deles.
– Vamos? A sessão que queremos pegar começa em duas horas – disse Yelisei.
Liu assentiu, Ken e eu fizemos o mesmo.
– A propósito, eu estava me perguntando se vocês vieram até aqui de jatinho – falei.
Os três riram, sorri.
– Não de jatinho, e sim de moto – respondeu Ken.
Pisquei, fazendo uma expressão incrédula.
– Sério? – perguntei.
Liu assentiu, Yelisei sorriu para mim.
– Nós já sabemos dirigir, diferente de certa garota espanhola que tem medo de pegar num volante – ele disse.
Revirei os olhos, eles riram.
– Eu não tenho medo, só não tenho idade para dirigir – respondi – Vocês já tem 18 anos?
Os três assentiram, encarei Yelisei. Ele sorriu, encarnado o chão por um momento.
– Estou fazendo 19 anos hoje, repeti de ano uma vez, por isso estamos na mesma classe – ele disse.
Pisquei, Ken e Liu fingiram estar ocupados demais encarando o chão.
– Me desculpe, eu não sabia – falei.
Yelisei deu um pequeno sorriso, ainda encarando o chão.
– Eu tinha uma saúde muito frágil quando era pequeno, passei boa parte do meu sétimo ano de vida internado em um hospital – ele disse.
Engoli em seco, Yelisei ergueu o olhar.
– Não precisa ficar assim, já estou curado agora – ele disse, sorrindo – Vamos, não queremos pegar a sessão noturna.
Revirei os olhos, ele riu.
– Eu já disse que eu não tenho medo de filmes de terror – falei.
Liu e Ken riram, debochando do que eu dissera.
– Veremos isso quando o filme começar – disse Yelisei.
Revirei os olhos outra vez, cedendo-lhes um sorriso.
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Estávamos quase chegando à cafeteria do pai dos Yamasaki, mas eu ainda não conseguia parar de tremer. Talvez fosse por conta do frio que a noite de Tóquio fazia, ou talvez era por conta da viagem de moto. Eu me agarrava ao corpo de Yelisei como se minha vida dependesse disso, já havia rezado mais de cinco vezes. A segurança do corpo de Yelisei era o suficiente para me manter na garupa da moto, mas eu não conseguia me mexer. Aquilo já estava durando uma eternidade, eu não conseguia abrir meus olhos.
E então, a velocidade foi reduzida consideravelmente. Depois de poucos minutos, a moto foi estacionada em algum lugar. Yelisei fez menção de se mexer, mas meu aperto em volta dele era tão forte que eu tinha medo de estar sufocando-o.
– Nina, está tudo bem, nós já chegamos – ele disse, sua voz tinha certo tom de riso.
Não consegui me mexer, meu corpo não parava de tremer. Ouvi o som de outras duas motos serem estacionadas perto de nós, Yelisei suspirou.
– Ela ainda está em choque? – perguntou a voz de Liu.
Não me mexi, sentindo um par de braços me despregarem do corpo de Yelisei. Só percebi que era Ken quem me tirara da moto de Yelisei quando eu consegui abri meus olhos, sendo recepcionada pelos olhos verdes e brilhantes de Yelisei.
– Nina, você está bem? – perguntou.
Não consegui falar, meu corpo parava de tremer aos poucos. Liu e Ken riram baixinho, engoli em seco.
– Eu nunca mais vou subir numa moto – sussurrei, minha voz saiu fraca, mas eles puderam me ouvir.
Os três garotos riram, respirei fundo.
– Não foi tão ruim, você nem vomitou nem nada – disse Yelisei.
– Não dessa vez – corrigiu Liu.
Baixei meu rosto, envergonhada. A velocidade insana que Yelisei usava havia me deixado enjoada, eu vomitara um pouco no banheiro do cinema assim que chegamos lá. Liu e Ken estavam dispostos a lembrar disso para sempre, o único que tentava minimizar meu constrangimento era Yelisei.
– Vamos entrar, você precisa tomar uma água – disse Yelisei.
Assenti, sentindo meu corpo parar de tremer aos pouquinhos. Yelisei pegou minha mão, fazendo com que minhas pernas tivessem forças para me tirar do local.
Entramos todos juntos na cafeteria, o calor agradável do interior do estabelecimento logo me reconfortou. Varias cadeiras e mesas ocupavam o lugar, ainda deixando espaço para a circulação de clientes. Estava bem movimentado, o som das conversas animadas logo me ajudou a parar de engolir em seco. Um balcão de vidro exibia uma enorme variedade de bolos, tortas e doces incrivelmente bonitos, senti minha boca salivar.
– Os meninos chegaram, Khemi – disse um homem no balcão.
Liu e Ken acenaram, Yelisei apertou minha mão.
– Pronta para conhecer minha segunda mãe? – perguntou.
Assenti, dando um pequeno sorriso. Yelisei sorriu para mim, guiando-me até uma mesa isolada e vazia.
– Meninos, que bom que chegaram – disse a voz de uma mulher.
Ela saiu de trás do balcão, andando em nossa direção. Liu e Ken sorriram para a mulher, eles eram tão parecidos que eu soube na hora que eles eram seus filhos.
– Yelisha, feliz aniversário – disse a mulher – Mereço um abraço do meu terceiro filho?
Yelisei riu, soltei sua mão gentilmente. A mulher abraçou-o com carinho, como uma mãe abraçaria seu filho. Sorri ao ver a cena, Yelisei foi liberado pela mulher depois de uns dois minutos de abraço.
– Eu fiz um bolo especial, usei a cobertura que você tanto adora – ela disse, sorrindo marotamente para o garoto.
Yelisei sorriu, claramente feliz.
– Obrigado, Khemi – ele disse.
A mulher riu, bagunçando-lhe os cabelos. Yelisei sorriu para mim, Khemi me olhou.
– Essa é a nova amiga de vocês? – perguntou, olhando rapidamente para os filhos.
Liu assentiu, Ken deu um meio sorriso. Khemi deu um enorme sorriso para mim, fiz meu melhor para retribuir seu gesto.
– Muito prazer, sou Khemi Yamasaki, mãe desses dois rapazes aqui – ela disse.
Sorri, ela afagou meu braço gentilmente.
– Sou Nina Kazama, é um prazer conhecer a senhora – falei.
Khemi sorriu, assim como os garotos.
– Vão se sentar, eu vou buscar o bolo – disse Khemi.
– Sim, senhora – disse Liu.
Ela afastou-se, sorridente. Sorri para os meninos, eles puxaram as cadeiras e sentaram-se logo em seguida. Sentei-me entre Yelisei e Ken, batendo minhas unhas no tampo da mesa de madeira.
– A mãe de vocês é tão legal – falei.
Os irmãos sorriram, Yelisei cutucou delicadamente meu braço.
– Você diz isso porque nunca viu como ela fica quando o Liu deixa a toalha molhada em cima da cama – comentou, dando um meio sorriso engraçado.
Ri, assim como Yelisei e Ken. Liu fechou a cara, voltando-se para encarar o irmão.
– Não ria, você já fez pior – acusou.
Ken bufou, menosprezando-o com gesto manual.
– Quando eu fiz pior? – zombou.
– Quando foi ao banheiro e esqueceu-se de puxar a descarga na festa de aniversario da vovó, por exemplo – respondeu Liu.
Yelisei e eu demos risadas escandalosas, os irmãos se encararam furiosamente.
– Eu fiz isso? Pensei que fosse você! – disse Ken.
Liu bufou, revirando os olhos.
– Vocês dois já fizeram isso, eu me lembro – disse Yelisei.
Ri, os três ficaram se encarando. Yelisei ria, mas os irmãos exibiam expressões de puro desafio.
– E você, Yelisei – disse Ken.
– Você já fez pior que isso – completou Liu.
Eu adorava o jeito que eles falavam, um completando o outro. Yelisei arregalou os olhos, claramente desesperado.
– Você não...
– Você já saiu do vestiário da escola e ficou passeando pelo corredor sem perceber que não havia vestido as calças! – disseram Ken e Liu, falando em um uníssono.
Explodi em risadas, lançando a cabeça para cima. Os irmãos me acompanharam nas risadas, Yelisei enterrou o rosto nas mãos.
– Eu passei seis meses tentando esquecer isso para vocês falarem disso logo no meu aniversário? Logo na frente da Nina? – ele disse.
Eu não conseguia parar de rir, a cara de Yelisei estava completamente vermelha.
– Meu Deus, Yelisha – falei, minha voz saiu entrecortada por culpa das minhas risadas – Como você sai do vestiário sem lembrar de vestir as calças? É como dormir sem lembrar de fechar os olhos, não dá.
Ele fez uma careta, Liu e Ken riam tanto que faziam a mesa sacudir.
– Eu não sei, eu só achei que já tivesse vestido – disse Yelisei, desviando o olhar – Eu sou muito desatento.
Ri, tocando-o no ombro.
– Disso eu sei, já vi você dormir na aula de química enquanto o professor está falando com você – falei, rindo um pouco – Yelisha, você precisa tomar mais cuidado.
Ele bufou, evitando me olhar.
– Disso eu sei, descobri isso da pior maneira – ele disse.
Inclinei minha cabeça em sua direção, tentando enxergar seu rosto. Os olhos verdes de Yelisei estavam fixos na mesa, seus cabelos quase castanhos estavam bem claros hoje, quase loiros.
– Ficando pelado no meio do corredor? – perguntei, dando um meio sorriso.
Yelisei cedeu-me um sorriso, voltando seu rosto em minha direção.
– Quase isso – respondeu.
Ri, e desta vez, Yelisei me acompanhou. Liu cutucou Ken, indicando-nos com a ponta do queixo. Ken abriu um sorriso malicioso, Yelisei bufou. Limitei-me a revirar os olhos, os irmãos riram de minha reação.
– Meninos, aqui está o bolo! – disse a voz animada de Khemi.
Yelisei abriu um grande sorriso, Liu e Ken afagaram suas próprias barrigas. Sorri, assistindo Khemi depositar o grande bolo diante de nós.
– Aproveitem – ela disse.
– Pode deixar – disse Liu.
Rimos, Khemi afastou-se. Encarei o bolo discretamente, aquela visão me deu água na boca.
– Vamos cantar parabéns – falei.
Os três garotos me olharam, pisquei.
– Nina, eu estou fazendo 19 anos – disse Yelisei, cético.
Dei de ombros, franzindo a testa.
– Parabéns é coisa de criança – disse Liu.
Ken concordou com um aceno de cabeça, encarei Yelisei.
– Não me diga que vocês não cantam parabéns nos aniversários um do outro – falei.
Eles assentiram, arquejei.
– Que bom que eu apareci na vida de vocês, talvez eu faça vocês pararem de estragar as melhores coisas da vida! – falei, lançando os braços para o alto.
Yelisei piscou, Ken bufou.
– Melhores coisas da vida, é só a porcaria de um “parabéns” — disse Liu.
Revirei os olhos, bufando.
– Não é uma porcaria, é uma tradição – insisti.
Liu enterrou o rosto nas mãos, Ken revirou os olhos. Olhei nos olhos de Yelisei, ele me encarou de volta.
– Por favor, vamos cantar? – pedi.
Pisquei os olhos duas vezes, Yelisei arregalou minimamente os olhos. Liu piscou, Ken engoliu em seco.
– Yelisha, não está pensando em...
– Pode cantar – disse Yelisei, cortando a fala de Ken sem cerimônia alguma.
Abri um grande sorriso, pulando em Yelisei para abraça-lo. Apertei-o como aperto Wataru, mesmo sendo mais velho do que eu, eu gostava de Yelisei como se ele fosse meu irmãozinho.
– Você é demais, valeu – falei.
Soltei-o, percebendo apenas naquela hora que o garoto estava corado. Ri um pouco, dando um leve soco brincalhão em seu ombro.
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Recostei-me à porta, soltando um suspiro de alívio. Yelisei dirigira muito rápido desta vez, deveras, estava chovendo quando saímos da cafeteria. Para que não nos molhássemos muito, ele acelerara tanto que acho que meu estômago caiu no meio de alguma rua do trajeto. Demorei cerca de três minutos para poder acalmar minha pulsação, mas eu jurei algo para mim mesma: Nunca. Mais. Eu. Vou. Aceitar. Uma. Carona. Do. Yelisei.
– Nina? – chamou-me uma voz familiar.
Arquejei, engolindo em seco. Masaomi apareceu, seu semblante preocupado transbordava irritação.
– Onde você estava?! – perguntou.
Pisquei, confusa. Ele parou diante de mim, mesmo estando a dois passos de distância, sua respiração pesada banhava meu rosto.
– Foi o aniversário de um amigo, fomos comemorar indo ao cinema em grupo – respondi – Eu teria voltado logo após a sessão, mas esticamos para a cafeteria dos pais de dois amigos nossos para cantarmos parabéns e comermos bolo de chocolate.
Ele ouviu meu relato com o maxilar travado, seus lábios formavam linhas de irritação. Eu não entendi o motivo daquele nervosismo, eu só fora ao cinema.
– Já é a segunda vez que você faz isso, Nina – ele disse – Não pensou nem mesmo em avisar? Estávamos todos muito preocupados.
– Masa... – comecei.
– Eu chego em casa e não te vejo, de novo – ele disse – Nenhum bilhete, nenhuma ligação. Domingo a noite, quase nove horas, e nada de você chegar em casa. Tem ideia do quanto eu fiquei preocupado? Não queremos te prender em casa, mas queremos pelo menos saber onde você está!
Ele não gritou, só usou o mesmo tom de voz repreensivo que usara daquele dia, quando eu fiquei bêbada. Engoli em seco, Masaomi era um doce, mas podia ficar extremamente intimidante quando trincava os dentes daquele jeito.
– Mas, eu avisei que ia sair – falei.
Minha voz saiu bem fraquinha, tive medo de que ele não tivesse ouvido. Masaomi me olhou, sua expressão irritada mudou rapidamente para uma expressão de preocupação e confusão.
– Como disse? – perguntou.
Ele me encarou com firmeza, engoli em seco.
– Eu avisei ao Tsubaki que tinha um compromisso, ele me viu sair – contei.
Masaomi fechou os olhos, respirando fundo. Esperei, um tanto cautelosa.
– Tsubaki está dormindo, ele amanheceu com febre hoje – ele disse – Deus, me desculpe, Nina.
Ele não abriu os olhos de imediato, engoli em seco. Sua expressão de confusão se desfez, Masaomi passou a mão na nuca.
– Eu sei que a cidade é perigosa para uma garota sozinha, desta vez eu chequei com todos para saber se você não estava com nenhum deles – ele disse – Natsume queria chamar a polícia, mas Ukyo conseguiu convencê-lo à esperar. Iori e Louis estão quase subindo pelas paredes, Yusuke, Subaru e Azusa já foram te procurar. Fuuto quase derrubou a casa, Wataru quase chorou, eu o coloquei na cama há uns vinte minutos. Eu tentei te ligar, mas seu celular estava desligado.
Pisquei, encarando o chão.
– Eu fiquei sem bateria, só percebi quando cheguei aqui – confessei – Desculpa, Masa. Eu devia ter te ligado, mas achei que Tsubaki avisaria vocês todos. Sinto muito por isso, desculpa mesmo.
Ele ergueu o olhar, continuei encarando o chão.
– Não precisa pedir desculpas, você não teve tanta culpa assim – disse Masaomi, soltando um suspiro pesado – Venha aqui, preciso ver se você está mesmo inteira.
Senti vontade de rir, mas fiz o que ele disse. Masaomi segurou-me pelos ombros, seus olhos percorreram-me por completo. Esperei até que sua revista estivesse completa, ele suspirou.
– Tudo em ordem – ele disse – Embora seus cabelos estejam mais bagunçados do que o normal, posso saber o motivo?
Ele perguntou aquilo em tom brincalhão, mas seu olhar dizia que ele queria mesmo saber a resposta. Estremeci ao lembrar, fiz uma careta.
– Meu amigo me deu uma carona, de moto – contei.
Masaomi arregalou os olhos, surpreso.
– De moto? – perguntou – Você?
Assenti, ele riu pelo nariz.
– Não sabia que era tão corajosa – ele disse.
Ri, ele sorriu para mim.
– Você diz isso porque não viu como eu fiquei – bufei – Se Fuuto me visse daquele jeito, eu nunca mais teria paz.
Masaomi riu, dei um sorriso.
– Essa voz... – disse alguém.
– Nina? – disse outra.
– Onee-chan! – berrou outra.
Pisquei, antes que eu pudesse registrar, cerca de dez homens entraram em meu campo de visão. Senti alguém me abraçar com força, só percebi que era Louis quando seu cheiro invadiu meus pulmões.
– Oh, Nina – ele disse, extremamente aliviado – Que bom que chegou, que bom.
Dei uma risadinha, abraçando-o de volta. Seu calor apaziguou minha confusão mental, respirei fundo, aspirando seu cheiro.
– Sai da frente, você não é o único preocupado! – disse uma voz.
Louis foi arrancado dos meus braços, em seguida, senti meus ombros serem chacoalhados com força.
– Onde diabos você se meteu? Por um acaso não sabe o que é telefone? – disse Fuuto.
– Para, Fuuto! – protestei.
Ele soltou meus ombros, afastei-me dele rapidamente.
– Eu só fui ao cinema, meu celular ficou sem bateria, não pude ligar – expliquei – Antes de sair, eu disse ao Tsubaki que estava saindo, pensei que ele iria transmitir o recado.
Fuuto me encarou, dentes trincados e maxilar travado.
– Escuta aqui, eu não vou dizer de novo – ele disse.
Esperei, Fuuto puxou-me pelos ombros, enterrando seu rosto em meus cabelos.
– Nunca, nem de brincadeira, suma assim de novo – ele disse – Sua idiota, nunca mais me deixa preocupado assim. Eu te odeio, mas não quero que nada te faça mal, além de mim.
Pisquei, ele soltou-me. Antes que eu pudesse processar suas palavras, Fuuto virou-se em direção à sala e sumiu de vista.
– O que foi isso? – falei, confusa.
Louis suspirou, pisquei outra vez.
– Onee-chan! – berrou Wataru.
O pequeno pulou em mim, agarrando-se ao meu corpo como um filhote de macaco. Soltei um ofego de surpresa, prendendo meus braços em volta de seu corpo antes que ele caísse no chão.
– Onee-chan! Onee-chan! – repetiu, agarrando-me com força.
Ofeguei outra vez, por falta de ar. Acariciei as costas de Wataru, o pequeno enterrou seu rostinho em meus cabelos.
– Calma, minha hiena – falei, afagando-lhe os cabelos – A onee-chan está aqui, eu estou aqui.
Ele não disse nada, mas pelo modo como sua respiração estava pesada, pude sentir que ele estava à beira de um ataque de pânico.
– Achei que ele estivesse na cama – comentei.
– E estava – disse Louis.
– Ele desceu há uns cinco minutos, disse que não conseguia ficar no quarto, ele queria a onee-chan dele – disse Iori.
Eu não havia percebido sua presença até então, não tão perto de mim. Ele acariciou uma parte do meu ombro que estava exposta, sorrindo carinhosamente.
– Fico feliz por você estar bem, mas peço, por favor, nunca mais faça isso comigo outra vez – ele disse, seu sorriso vacilou por um segundo.
Engoli em seco, reparando que todos me olhavam com o mesmo tipo de olhar aliviado. Até mesmo Subaru estava lá, calado, mas visivelmente agitado. Wataru fungou, desenterrando seu rosto dos meus cabelos.
– Onee-chan? – chamou.
Dei um pequeno sorrisinho, ele me encarou.
– Sim? – respondi.
Ele fixou aquele olhar extremamente caloroso em meu rosto, fungando outra vez.
– Você está cheirando a bolo – ele disse.
Ri, assim como a maioria dos presentes ali fez.
– Eu estava comemorando o aniversário de um amigo – contei.
Wataru fez um bico, piscando duas vezes.
– Você trouxe bolo para mim? – perguntou.
Soltei um muxoxo, fazendo um bico igual ao dele.
– Não, me desculpe – falei – Eu prometo que amanhã eu te trago um bolinho só para você.
Ele deu um sorriso animado, voltando a abraçar-me. Ri, abraçando-o de volta com força. Apoiei meu queixo em seu ombro, encarando meus irmãos.
– Me desculpem por isso, de verdade – falei – Da próxima vez, eu juro que ligo para cada um de vocês para avisar aonde vou.
Louis deu uma risadinha, aproximando-se de mim.
– Não precisa disso tudo, basta avisar ao Masaomi – ele disse.
– Ou avisar-me – disse Ukyo.
Olhei-o, ele me encarava. Desviei o olhar, tentando não engolir em seco. Eu ainda lembrava do que ele dissera sobre mim, e por mais que eu tentasse, eu não conseguia deixar de me sentir um pouco tensa perto dele.
– Tudo bem, eu vou fazer isso – falei.
Louis sorriu para mim, fiz o mesmo. Os ânimos pareciam ter se acalmado, Wataru parecia estar quase dormindo em meu colo. Por menor que ele fosse, não era tão fácil assim carregar uma criança de doze anos.
– Muito bem, acho melhor vocês irem dormir – disse Masaomi, encarando-me – Os mais novos tem aula, os mais velhos tem trabalho.
Trinquei os dentes, revirando os olhos.
– Segunda feira – resmunguei – Meu dia mais detestado da semana.
Louis, Masaomi, Iori, Azusa e até mesmo Ukyo riram desta minha afirmação, os outros apenas reviraram os olhos. Aos poucos, todos foram se dispersando. Masaomi dirigiu-me mais um olhar firme, como se quisesse ter certeza de que eu estava realmente bem. Sorri para ele, dirigindo-lhe uma piscadela. Ele corou com aquilo, e seguiu seu caminho. Louis, Iori e Ukyo ficaram para trás, joguei Wataru para cima, ajeitando-o em meus braços.
– Podem ir na frente, quero dar uma palavrinha com a Nina – disse Ukyo.
Louis e Iori encararam o mais velho, o loiro sustentou seus olhares como se já estivesse muito acostumado com isso. Por fim, os mais novos suspiraram, mas fizeram o que Ukyo tinha dito. Quando ficamos apenas nós três, Ukyo, Wataru e eu, pude sentir minha respiração mudando. O mais velho do trio me encarou, seus olhos azuis pareciam congelar minha alma. Engoli em seco, apertando um pouco mais o corpo de Wataru, como se ele fosse uma fonte de segurança. Por fim, Ukyo suspirou, aproximando-se de mim com passos firmes e decididos. Pisquei, ele parou bem diante de mim. Observei-o com certa cautela, Ukyo parecia estar procurando as palavras certas.
– Uma forasteira jamais causaria toda essa comoção, temo que eu tenha sido injusto com você, Nina – ele disse.
Ele engoliu em seco, evitando me encarar diretamente.
– Agi errado, isso eu admito – ele disse – Eu errei com você, Nina. Espero que possa me desculpar, todos nós temos direito a um segundo julgamento.
Ele finalmente me encarou, parecia estar sendo muito sincero naquela hora. Engoli em seco, não sabia como reagir.
– Está tudo bem, aquilo nem me afeta mais – menti.
Ukyo me encarou, aproximando-se de mim um pouco mais. Senti meu corpo inteiro ficar rígido de tensão, Wataru ressonou baixinho.
– Eu sou advogado, sou bom em descobrir quando alguém está mentindo – disse Ukyo.
Recuei um passo, sentindo-me terrivelmente idiota por ter feito aquilo. Ukyo se retesou, seus olhos focaram-se em meu rosto em um misto de choque e arrependimento.
– Esquece isso, Ukyo – falei – Você é meu irmão, bom, pelo menos para mim. Eu te perdoo, esqueça isso e não se preocupe comigo. Há pessoas na minha vida que me fazem me sentir amada, eu não me incomodo mais com o que foi dito naquela noite, pois nada disso importa para essas pessoas.
Admito, eu sei que fui dura. Algo que herdei da minha mãe: Eu guardava mágoa por certo tempo, até que aquela mágoa virava irritação, um combustível que nos movia.
Ukyo piscou, afetado por minhas palavras. Pude vê-lo engolir em seco, me encarando. Respirei fundo, erguendo meu rosto. Sustentei seu olhar com firmeza, sem deixar aquela tensão toda me abalar de novo.
– Se isso foi tudo, espero que eu possa ir agora. Tenho aula amanhã, e esse garotinho lindo em meus braços está ficando cada dia mais pesado – falei.
Ukyo piscou outra vez, desviando o olhar.
– Isso é tudo, pode subir – ele disse.
Pude sentir que ele estava um pouco desconcertado, algo que eu nunca o vira ficar antes. Pisquei, percebendo que eu devia ter soado mais dura do que pensara.
– Desculpe-me – sussurrei – Você também está entre as pessoas que eu amo, eu não estou com raiva de você, não mais.
Ele ouviu, apesar do meu sussurro ter saído baixo. Tentei passar por ele sem olhar em seus olhos, mas não pude ir muito além.
– Espere, por favor – ele disse.
Ukyo segurou meu ombro, fazendo-me parar de andar. Virei meu pescoço em sua direção, um pouco confusa. Ele, inexplicavelmente, sorria levemente para mim.
– Vou pedir para colocarem uma tornozeleira eletrônica em você, senhorita Kazama. Por favor, me avise quando for sair de novo, eu me preocupo muito com você – ele disse.
Pisquei, sem saber como reagir. Ukyo sorriu diante da minha reação, aproximando-se de mim rapidamente, sem deixar-me raciocinar. Seus lábios encostaram em minha testa gentilmente, beijando-me por pouco mais de dois segundos. Pisquei outra vez, confusa. Ele afastou-se de mim, soltando meu ombro e encarando a parede.
– Boa noite, Nina – ele disse.
Sem esperar por minha resposta, Ukyo dirigiu-se à sala de estar. Levei alguns segundos para acordar de meu transe, senti Wataru remexer-se confortavelmente em meu colo.
– A onee-chan mexe com todo mundo, até com o Ukyo – ele disse, rindo um pouquinho – Que bom que é a minha onee-chan.
Ri pelo nariz, ele me abraçou com carinho. Abracei-o de volta, sentindo um enorme sorriso abrir-se em meus lábios.
Aquilo estava ficando justo, eu estava afetando-os pelo menos um pouco, considerando que eles me afetavam mais do que o normal.
Tinha algo de especial naquela família, e eu estava cada vez mais envolvida naquilo.
IMAGEM ESPECIAL
Wataru Asahina (Versão antiga)
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