The New Girl in the House
19 Halloween - Parte 1
Notas iniciais
– Eu tenho que ir – falei.
– Não, você não tem não – disse Akira.
Ri, sacudindo um pouco minha cabeça. Já estávamos naquilo há minutos, ele nunca me deixava levantar.
– É sério, eu tenho que ir – insisti.
Akira fiz um bico, mordi o lábio.
– Me dê um bom motivo para eu te deixar ir – ele disse.
Expirei, ele não pareceu estar brincando.
– É sério? – perguntei – O horário de visitas já vai acabar, eu não posso passar a noite aqui.
Akira bufou, esperei.
– Isso não foi um bom motivo – ele disse.
Franzi as sobrancelhas, Akira apertou-me contra seu corpo. Estávamos deitamos na grama do orfanato, eu estava deitada por cima dele. O dia já estava quase no fim, eu sabia que logo ficaria escuro.
– Eu preciso ir, os meninos me convidaram para uma festa de halloween – falei.
Akira revirou os olhos, apertei um pouco seus ombros.
– Festas de halloween começam quase de madrugada, por que você está com tanta pressa? – perguntou, evitando meu olhar.
Suspirei, como aquele garoto era insistente. Aquela era minha terceira visita ao orfanato, Akira ficava cada vez mais carente.
– É uma festa à fantasia, eu preciso de algumas horas para me arrumar – respondi.
Akira riu, franzi a testa.
– Qual é a graça? – perguntei.
Ele riu mais um pouco, esperei.
– Nada, é que às vezes eu esqueço que você é apenas uma garota – ele disse.
Franzi as sobrancelhas, encarando-o.
– O que quer dizer com isso? – perguntei.
Ele apenas riu mais um pouco, trinquei os dentes.
– Às vezes eu sinto como se namorasse uma mulher adulta, já que você é tão madura – ele disse – Mas quando você diz certas coisas, eu percebo que você é apenas uma garota.
Revirei os olhos, soltando-me dele. Akira não fez nenhuma objeção, ele já sabia que não adiantaria estender aquela conversa por mais tempo. Caminhamos lado a lado até o portão, Akira segurava minha mão com mais força do que era necessário.
– Você vai se fantasiar de que? – ele perguntou, olhando-me de soslaio.
Dei de ombros, dando um meio sorriso.
– Isso é com o Louis, ele disse que arrumaria minha fantasia assim que Tsubaki anunciou que uma amiga dele convidara todos nós para a tal festa – respondi.
Akira assentiu, esperei.
– Seus irmãos estão animados? – perguntou.
Ri um pouco, pensando na reação de cada um deles.
– Acho que estão mais animados do que eu – respondi.
Akira riu também, sorri. Chegamos ao portão, o velho porteiro já me aguardava, como era de costume. Akira virou-me para ele, segurando meu rosto entre as mãos.
– Juízo, não vá beber – ele disse.
Revirei os olhos, ele encostou seus lábios nos meus. Senti aquela magia costumeira, retribuindo seu beijo. Akira escorregou sua língua para dentro da minha boca, intensificando o beijo sem cerimônia. Arquejei baixinho, ele riu, partindo o beijo.
– Cuidado para não morrer sufocada, hoje as coisas tendem a ficar mais estranhas – brincou.
Revirei os olhos, cedendo-lhe um sorriso.
– Não se preocupe, não pretendo virar a noiva cadáver esta noite – falei.
Ele riu, soltando-me devagar.
– Eu te ligo amanhã, vou estar cansada de noite – falei.
Akira assentiu, dirigindo-me uma piscadela.
– Divirta-se, mas cuidado para não virar abóbora à meia noite – ele disse.
Ri, soprando-lhe um beijo enquanto saía.
O espírito do halloween começa antes mesmo da lua subir ao céu, ele existe dentro de cada um de nós.
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– Só mais um pouco – disse Louis.
Assenti, tomando cuidado para não sacudir demais a cabeça. Prendi ainda mais minha respiração, tentando facilitar o trabalho de Louis.
– Não precisa fazer isso, o vestido cabe perfeitamente em você – ele disse, rindo um pouco.
Soltei um suspiro de alívio, respirando fundo. O vestido não ficou apertado, mesmo depois de ter sido amarrado precisamente por Louis. Ele deu o último laço, soltando um suspiro de alegria.
– Pronto, você está perfeita – ele disse.
Assenti, sentindo um sorriso nascer em meus lábios. Louis guiou-me pelos ombros até meu espelho, soltando uma risadinha alegre.
– Você não me deixou parecendo uma garotinha, deixou? – perguntei, um pouco cautelosa.
Ele deu um sorriso enigmático, posicionando-me diante do espelho.
– Veja você mesma – ele disse.
Pisquei, encarnando meu reflexo com a boca aberta. Louis havia me vestido como uma boneca, literalmente.
– Lolita? – perguntei.
Ele assentiu, virei meu rosto para encara-lo.
– Eu pensei que íamos a uma festa de halloween – falei.
Ele sorriu, segurando meu ombro direito com sua mão suave.
– Nós vamos, e sua fantasia está perfeita – ele disse – Se eu não conhecesse você, diria que você parece assustadora.
Escancarei a boca, ele continuou sorrindo para mim.
– Louis, você me deixou fofa – falei – Eu estou até de peruca!
Ele riu, mordi o lábio.
– Exatamente, você tem o rosto mais lindo e perfeito que eu já vi, essa fantasia foi feita para você – ele disse.
Engoli em seco, voltando-me para encarar o espelho.
– Falando do contexto humorístico de uma celebração de halloween, você não podia estar mais bem vestida – ele disse.
Segurei a barra do vestido com as duas mãos, fazendo uma careta. Louis riu, divertindo-se com minha reação.
– Bonecas são tão grotescas e sinistras quanto as bruxas ou os vampiros, elas conseguem assustar-nos desde a infância – ele disse – Eu não conheço um único adulto que não tenha medo de passar uma noite em um quarto cheio de bonecas de porcelana, e você está uma verdadeira boneca vestida assim.
Bufei, ele encarou meu reflexo.
– Está dizendo que eu sou grotesca e sinistra? – perguntei.
Ele abriu um grande sorriso enigmático, abraçando-me por trás com uma firmeza incomum.
– Você não faz ideia do quanto a palavra “grotesca” parece boa quando é associada a você, Srta. Kazama – ele disse, sussurrando em minha orelha.
Suas palavras me arrepiaram por completo, engoli em seco. Louis dirigiu-me uma piscadela sinistra, mordi o lábio.
– Pode descer, se quiser – ele disse, voltando à sua expressão de costume – Vou descer em breve, não vou levar tanto tempo para vestir minha fantasia.
Assenti, ainda um pouco cautelosa. Louis sorriu diante da minha expressão, seus lábios macios depositaram um beijo em minha bochecha. Devido à sua posição (Atrás de mim), a respiração de Louis bateu em meus lábios de leve. Meu corpo se arrepiou por completo, Louis deu uma risadinha, encerrando seu beijo lento.
Talvez o espírito de halloween o tivesse afetado, afinal.
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– P – E – R – F – E – I – T — A. – soletrou Wataru.
Ri, Masaomi abriu um sorriso orgulhoso para o caçula.
– Muito bem, Wataru – ele disse – Agora soletre outra palavra que descreve a Nina.
Wataru fez um biquinho, fingindo pensar. Dei um meio sorriso, encarando-o com uma expressão travessa.
– S – E – X – Y – disse o pequeno.
Arregalei os olhos, Masaomi teve a mesma reação que eu.
– Quem te ensinou isso? – perguntou, exasperado.
Wataru abriu um sorriso travesso, erguendo a mão sem hesitar para apontar para Kaname.
– Droga – praguejou o monge.
Wataru riu, Masaomi lançou um olhar repreensivo ao irmão.
– Quando ele te disse isso? – perguntei.
Wataru piscou, sorrindo marotamente para mim.
– Quando perguntei o que ele achou de você, onee-chan – respondeu o pequeno.
Franzi as sobrancelhas, lançando um olhar hostil a Kaname. Ele revirou os olhos diante da minha reação, Ukyo expirou pesadamente.
– Não importa quando tempo passe, ele sempre vai ser infantil – disse, duramente.
Kamane ignorou o irmão, fingi que não vi que ele estava encarnado o decote mínimo em meu vestido.
As fantasias estavam maravilhosas, os garotos que eu já vira estavam ótimos.
Masaomi vestia suas roupas de médico, o que fez Kaname reclamar muito. Mesmo sem tempo de arrumar uma fantasia, Masaomi ficara incrível daquele jeito. Eu mesma o ajudara na caracterização, maquiando-o até que obtive o resultado que queria: Masaomi estava um legitimo médico fantasma.
Ukyo não quisera minha ajuda em sua fantasia, e mesmo implicando um pouco com Kamane, pediu emprestada uma de suas roupas típicas de monge. Ele também pegara uma espada de brinquedo que Wataru tinha ganhado de presente de natal uma vez, e agora estava um legítimo samurai.
Kaname vestia roupas de couro apertadas e brilhantes, formando a fantasia de policial mais sexy que eu já vi. Seus músculos estavam muito bem destacados naquela roupa, seus cabelos foram bagunçados e arrumados como se ele tivesse acabado de sair da cama, sem malícia.
Wataru vestia uma fantasia de príncipe, Masaomi e eu o arrumamos antes de arrumarmos a nós mesmos. Seus cabelos estavam penteados para trás, fixados no penteado com gel de cabelo. Se não estivéssemos no século XXI, eu acreditaria mesmo que ele era um pequeno príncipe.
Subaru não ia à festa, e nem saíra de seu quarto. Achei sua atitude um pouco estranha, já que todos nós, até mesmo Kaname, iríamos à festa. Ele alegou estar muito cansado, então decidimos não discutir.
Yusuke vestia uma fantasia de pirata tão realista que eu pensei estar assistindo um dos filmes da saga Piratas do Caribe, aquela fantasia ficara tão perfeita nele que eu até ri. Combinando com suas atitudes bruscas e rudes, ele era mesmo o pirata perfeito.
O resto dos garotos ainda não descera, juntamente com Ema. Louis e eu a ajudamos a arrumar-se mais cedo, mas ela ainda não descera. Devia estar constrangida, mas eu não vi nada de anormal na fantasia que ela escolhera.
– Parece que estamos quase todos aqui – disse uma voz.
Ergui minha cabeça, sendo recebida pela imagem de um lindo homem descendo as escadas. Ele vestia uma calça jeans escura e amarrotada, contrastando com sua camisa braça de botões. Usava também uma jaqueta de couro tão reluzente quanto às roupas de Kaname, fechando a parte “vestida” da fantasia. O que também chamava atenção era a forte maquiagem em seu rosto, fazendo seu rosto ficar completamente branco em boa parte de sua extensão. Os olhos estavam pintados de preto, assim como uma parte do nariz. Dentes foram desenhados no lado externo de sua boca, seus cabelos firam bagunçados de forma que parecia que ele os secara com um secador de cabelos.
Se eu fosse um homem, algo em mim iria “levantar” ao ver aquele homem.
– Deus, Iori – riu Kaname – Você está ridículo.
O mais novo não respondeu, apenas terminou de descer as escadas. Minha boca ainda não se fechara, tentei me recompor.
– Nina, você está magnífica – disse Iori, sorrindo para mim.
Pisquei, fechando minha boca.
– Ah, valeu – foi o que pude dizer – Você é o cadáver mais lindo que eu já vi.
Ele piscou, ligeiramente constrangido. Droga, o que diabos eu fui dizer?
– Obrigado, Nina – ele disse.
Dei um sorriso amarelo, desviando o olhar. A culpa não era minha se ele escolhera algo muito sexy para vestir, não pude deixar de pensar em como seria tirar toda aquela maquiagem dele...
– Onee-chan, sua boca não está doendo? – perguntou Wataru.
Pisquei, sendo arrancada de meus devaneios “divertidos” pelo meu irmãozinho.
– O que disse? – perguntei.
Ele me encarou, lindo demais para descrever.
– Você está mordendo a boca com força, não está doendo? – repetiu, sorrindo com doçura.
Arquejei, engolindo em seco. Todos estavam me olhando, Iori parecia um pouco constrangido, mas alegre.
– Não dói, está tudo bem – respondi – Quer ver se já são dez horas da noite?
Ele assentiu, dando um pulo do sofá. Soltei um suspiro de alívio, tinha conseguido desviar as atenções de mim.
– Que família estranha – disse uma voz.
Ergui meu rosto outra vez, eram Tsubaki e Azusa desta vez.
Azusa usava roupas comuns, porém desleixadas. Um jeans velho e uma camiseta preta e rasgada, passando a impressão de estarmos vendo um morador de rua. Seus cabelos estavam bagunçados, seus óculos estavam um pouco tortos e ele usava um par de orelhas caninas de brinquedo. Ele também usava um rabo, marrom, assim como suas orelhas.
Tsubaki estava... Bem, Tsubaki. Vestia uma calça jeans branca e rasgada com zíper meio aberto, deixando uma brecha para que pudéssemos ver sua cueca vermelha e, bem... “Recheada”. Vestia uma camisa branca de botões que estava toda aberta, exibindo seu peitoral completamente sarado. Ele tinha uns oito “gomos” naquele tanquinho, e pela transparência da camisa, pude ver que também tinha braços bem fortes. Seus cabelos estavam ainda mais arrepiados que os de Azusa, estavam molhados e cheios de gel de cabelo.
Se tivéssemos um medidor de temperatura naquela sala, ele já teria explodido.
– Que exagero, Tsubaki – disse Ukyo.
Tsubaki revirou os olhos, vindo até mim. Ele sentou-se ao meu lado no sofá, jogando o braço esquerdo por cima dos meus ombros.
– Oi, maninha – ele disse, dando um sorriso quente.
Engoli em seco, tentando não encarar muito aquele Adônis ao meu lado.
– O-oi – gaguejei.
Por que eu gaguejei?!
Tsubaki riu, apertando meu ombro com sua mão máscula.
– Você está uma bonequinha, literalmente – ele disse.
Dei um meio sorriso, tentando desviar meu olhar.
– E vocês estão muito bonitos como... – falei.
Minhas palavras me abandonaram, mordi o lábio. Azusa deu um pequeno sorriso, sentando-se ao lado de seu gêmeo no sofá.
– Eu estou fantasiado de cachorro, mesmo estando meio óbvio – ele disse.
Kaname e Yusuke riram, dei um sorriso amarelo.
– Eu tinha sacado, não precisava humilhar – falei – Tsubaki, se o Azusa está vestido de “homem cão”, você está fantasiado de “mulher gata”?
A reação foi geral, todos caíram na risada. Tsubaki jogou a cabeça para trás, fechando os olhos de tanto rir. Dei umas duas risadinhas, o homem que me agarrava me encarou com um brilho demoníaco nos olhos.
– Irmãzinha, eu sou homem – ele disse.
Pisquei, ele aproximou sua boca da minha orelha. Tsubaki deu uma mordidinha no lóbulo da minha orelha, senti meus pelos se eriçarem por completo.
– Se não tivesse tanta gente nessa sala, eu juro que eu te provava minha masculinidade aqui e agora, neste sofá – sussurrou, sua voz saiu extremamente obscena e sensual.
Meu corpo inteiro tremeu, arrepios me tomaram. Dei-lhe um soco na perna,Tsubaki apenas riu de minha reação.
– Cala a boca, idiota – falei.
Tsubaki riu, mordendo o lábio de maneira muito atrativa.
– Anda passando tempo demais com o Fuuto, está falando como ele – disse Ukyo.
Pisquei, percebendo a veracidade em suas palavras. Fuuto era uma péssima influência, mas eu estava mesmo falando como ele.
– Eu juro que ouvi meu nome – disse uma voz.
Ergui meu olhar até a escada, Tsubaki bufou.
– Falando no diabo, aparece o coringa – ele disse.
Ri, encarando Fuuto com a boca entreaberta. Ele vestia um terno roxo, exibindo uma camisa verde por baixo. Seus sapatos pretos de lustrosos de bico fino brilhavam, atraindo minha atenção por um momento. Seu rosto estava perfeitamente maquiado de forma que parecia que ele havia acabado de lavar o rosto, derretendo um pouco da maquiagem. Sua boca estava pintada de batom vermelho, um traço desleixado que ia até a metade de suas bochechas.
– Por que tão sérios? – perguntou, dando um sorriso psicótico.
Arrepiei-me, encolhendo-me no sofá. Fuuto riu, dirigindo-me uma piscadela.
– Exagerei na interpretação? – zombou, dando um meio sorriso sinistro – Eu sou um ator, niña.
Revirei os olhos, ele riu.
– Niña? – perguntou Masaomi, franzindo o cenho.
Fuuto dispensou-o com aceno, sentando-se ao meu lado.
– É um apelido que eu criei e só deve ser usado por mim – respondeu, exalando hostilidade.
Masaomi dirigiu-lhe um olhar repreensivo, Fuuto fingiu que não havia visto.
– Onee-chan! – berrou Wataru.
O pequeno entrou na sala aos pulos, sorrindo abertamente. Ele ignorou a presença de Fuuto e Tsubaki, pulando em cima de mim como se eu fosse sua cama. Ofeguei, o pequeno sentou-se sobre os joelhos, prendendo-me contra o sofá. Suas pernas estavam em volta das minhas, ele me encarava com aqueles olhos grandes.
– Já são dez horas no Japão, a festa começa em meia hora – ele disse, exibindo todos os seus dentes em um sorriso robótico.
Assenti, tentando sorrir de volta.
– Obrigada, você foi muito importante – falei.
Wataru deu uma gargalhada feliz, atirando-se em mim com força. Abracei-o, sorrindo calorosamente.
– Onee-chan – ele disse.
– O que? – perguntei.
Ele não respondeu, apenas continuou me abraçando.
– Onee-chan – repetiu.
Ele parecia estar saboreando as palavras, sorri.
Ouvi o som de uma buzina de carro suave e elegante, chamando a atenção de todos os presentes. Fiquei um pouco confusa, mas todos pareciam estar familiarizados com aquele som.
– É o Natsume – disse Azusa.
Pisquei, franzindo as sobrancelhas.
– O Natsume vai à festa? – perguntei, confusa.
Azusa assentiu, Tsubaki bufou.
– Se até o Ukyo vai, é claro que o Natsume também vai – ele disse – Ele não é um velho, só é reservado.
Encarei-o, Tsubaki me encarou de volta.
– Ele não me parece ser do tipo que gosta de festas – falei.
Azusa deu um pequeno sorriso, como se concordasse com minha afirmação. Tsubaki revirou os olhos, esperei.
– Ele é sério, mas não está morto – ele disse.
Ri pelo nariz, todos eles me encararam.
– “Sério” é pouco, não acha? – perguntei – Ukyo é sério, e eu já vi ele sorrir. Natsume é quase um...
– O Natsume é o que? – perguntou uma voz grave.
Congelei, nem tinha reparado que o terceiro gêmeo havia entrado na casa. Ele me olhava, seu olhar sério estava quase enigmático. Vestia um quimono masculino branco com alguns detalhes em preto, seus braços fortes saiam das mangas largas da vestimenta. Um longo rabo de raposa apareceu por trás dele, ele usava orelhinhas cinzentas, assim como o rabo. Ele não usava maquiagem, seus cabelos estavam penteados de modo desleixado.
Foi a primeira vez que eu vi o Natsume sem um terno, senti minha boca salivar com aquela visão. Natsume é sexy.
– Er... – grunhi, engolindo em seco – Uma raposa?
Tsubaki riu, assim como Yusuke, Masaomi, Fuuto, Ukyo e Wataru. Azusa apenas deu um sorriso contido, como se quisesse rir, mas não quisesse me humilhar muito. Natsume deu um pequeno sorriso, arregalei os olhos.
– Bem, não deixa de ser verdade – ele disse.
Sua voz estava quase suave, pisquei. Ele desviou o olhar de mim, mas não consegui desviar meu olhar dele. Era a primeira vez que eu o vira sorrindo, aquela visão fora tão “motivadora” quanto a visão do abdômen de Tsubaki.
– Quantos faltam para sairmos? – perguntou Natsume, retirando-me de meus devaneios.
Ele sentara ao lado de Ukyo, longe de mim. Soltei um suspiro de alívio, mil coisas impróprias passavam em minha mente.
– Louis e Ema – respondeu Ukyo.
Natsume assentiu, desviando o olhar do de Ukyo. Nossos olhares se encontraram, senti meu corpo congelar. Ele piscou, sem cortar nossa ligação. Senti-me como uma verdadeira boneca: Inanimada.
– Niña – disse Fuuto.
Sua voz me deu um pequeno susto, meu corpo deu um pulinho. Desviei o olhar, Natsume continuou me encarando.
– O que? – perguntei, encarando Fuuto.
Ele aproximou-se de mim, posicionando sua boca em minha orelha.
– Para de encarar o Natsume, eu não quero que você fique olhando para mais ninguém, isso é só meu – rosnou, trincando os dentes.
Pisquei, ele afastou-se de mim como se nada tivesse acontecido.
– Mais tarde eu vou te levar a um lugar incrível, se prepare – disse Fuuto, dando um sorriso sinistro – E é bom seus quadris estarem funcionando, quero muitos movimentos hoje.
Arregalei os olhos, assim como todos os homens presentes. Fuuto dirigiu-me uma piscadela, Wataru me encarou.
– O que ele quis dizer, onee-chan? – perguntou.
Abri a boca para responder, mas parei para refletir. Do modo como ele sorriu, e do modo como ele disse aquilo, ficou parecendo que Fuuto e eu teríamos uma noite “animada” em algum lugar privado.
– É melhor nem perguntar, pirralho – disse Fuuto, rindo – Isso é entre mim e a sua onee-chan, e, é claro, pode envolver alguns policiais se formos vistos fazendo isso em público.
Os mais velhos arregalaram os olhos, Wataru franziu o cenho.
– Eu quero ir com vocês – ele disse.
Masaomi arquejou, Azusa e Iori engoliram em seco. Fuuto riu, dirigindo uma piscadela ao irmãozinho.
– Pode ir, mas não quero saber que ninguém chorando por ver coisas que não devia – ele disse.
– Fuuto, cala a boca! – chiei.
Fuuto riu, Masaomi me encarou.
– Não quer que saibamos de seus planos, Nina? – perguntou.
Arregalei os olhos, todos me encaravam.
– O que? Claro que não! – falei – Eu só...
Minha voz morreu, algo prendeu minha atenção. Descendo as escadas, vinha Louis. Ele vestia um terno vitoriano preto com uma camisa de botões vermelha por dentro, seus sapatos de bico fino pareciam sujos de fuligem. Seu rosto naturalmente branco exibia um tom pálido arrepiante, contrastando com as lentes de contato vermelhas que ele usava. Sua boca avermelhada se destacava na maquiagem branca de seu rosto, seus cabelos estavam lisos e caiam com graça em volta de seu rosto. Ofeguei, meu coração pulou uma batida.
– Louis, você está... – falei, engolindo em seco no meio da frase – Tentando me matar?
Louis riu, seus lábios esticaram-se em um sorriso levemente sinistro. Ele tinha presas falsas, mas elas eram tão realísticas que se eu o visse em um beco escuro, eu gritaria de medo.
– Minha fantasia ficou boa? – perguntou, sua voz suave ainda era a mesma – Arrumei alguns detalhes agora, demorei por que não estava conseguindo achar minhas presas em lugar algum.
Ele deu uma risadinha no fim da frase, tirando-me o fôlego por completo. Wataru me sacudiu um pouquinho, pisquei.
– Onee-chan, que está mais bonito? – perguntou, abrindo um sorriso enorme.
Arquejei, sentindo os olhares de todos os presentes em mim. O pequeno Wataru me encarou, seus olhos grandes faiscaram. Engoli em seco, olhando em volta. Cada um deles estava digno de ser o escolhido, não pude decidir quem estava mais bonito.
– Eu não posso fazer isso, vocês todos estão lindos demais, é muita pressão – bufei.
Alguns deles encaram o chão, Tsubaki revirou os olhos.
– Basta dizer que sou eu, eles não vão ficar com raiva de você – ele disse.
Kaname deu uma risada exagerada, chamando minha atenção.
– Como se a sua fantasia estivesse melhor que a minha, já viu um monge policial? Isso é completamente incrível – ele disse.
Tsubaki revirou os olhos, bufando.
– Um monge pervertido ou um policial tarado, qual dos dois você está representando, Kaname? – perguntou Yusuke.
Cobri a boca com a mão, tentando não rir. Kaname bufou, Tsubaki riu.
– Tá mais para policial tarado, essa calça está tão justa que ele parece estar com uma ereção – disse Tsubaki.
Arregalei os olhos, sem querer, meu olhar vagou até o ventre de Kaname. Minha boca se abriu, engoli em seco umas três vezes.
– E você, seu gato de beco – disse Kaname, encarando Tsubaki – Esse zíper aberto é para mostrar o que você não tem ou é para tentar excitar alguém? Porque, se for a segunda opção, não está funcionando.
Tsubaki trincou os dentes, sua mão apertou meu ombro.
– Aposto que consigo excitar a Nina antes de você – ele disse.
Arregalei os olhos, juntamente com a maioria dos irmãos. Kaname riu, erguendo-se do sofá.
– Fechado – ele disse.
Tsubaki assentiu, Kaname aproximou-se de mim. Senti Wataru se remexer em meu colo, Kamane tirou o pequeno de meus braços e o depositou no colo de Fuuto.
– Ei! Eu não sou babá – protestou Fuuto.
Kaname não respondeu, apenas inclinou-se sobre mim. Meu corpo ficou rígido, Kaname ajoelhou-se no chão à minha frente. Olhando bem dentro dos meus olhos, ele apertou levemente minha panturrilha direita.
– Precisa de uma massagem, irmãzinha? – perguntou, sua voz saiu extremamente arrastada e sensual – Vou te dar tudo que tenho, irei cobri-la de amor.
– Não dê ouvidos a ele, maninha – disse Tsubaki, sua voz saiu ainda mais arrastada e sensual do que a do irmão – Monges não sabem dar amor, isso é uma coisa que só os gatos podem fazer.
Soltei um pequeno ofego, meu corpo ainda não conseguia se mexer. Kaname massageou minha panturrilha direita, seus dedos adentravam meu vestido cada vez mais, tocando minha coxa direita de forma macia. Mesmo a minha fantasia não sendo a de Tsubaki, eu ronronei.
– Isso mesmo, minha gatinha manhosa – disse Kamane, aproximando seu rosto de minha coxa direita – Mostre o que está sentindo.
Meu corpo amoleceu, Kamane depositou suavemente seus lábios em meu joelho. Senti um calor extremo no meio das minhas pernas, mordi o lábio.
– Já chega, Kaname – disse Tsubaki – Agora é a minha vez.
Não reagi, Tsubaki subiu sua mão até estar em minha nuca. Ele esfregou o nariz em meu ombro direito, acariciando meu pescoço com sua mão. Aquele cheiro inebriante que só ele tinha quase me sufocou, ele correu o nariz até estar atrás de minha orelha direita.
– Sou seu gato, Srta. Kazama – sussurrou, sua voz estava carregada de malícia – Vou te lamber todinha, minha ama.
Minha boca se abriu, arquejei. Tsubaki deu uma risadinha sexy em minha orelha, senti algo quente tocar a linha do meu maxilar. Só percebi que era a língua de Tsubaki quando o mesmo lambeu-me até o lóbulo da minha orelha, onde deixou uma mordidinha deliciosa.
– Miau – gemeu.
Aquilo foi a gota, todos os pelos do meu corpo se eriçaram. Empurrei-o para longe, fazendo esforço para fazer o precioso ar entrar em meus pulmões. Empurrei Kaname também, ele quase caiu sentado.
– O que deu em vocês?! – berrei, transbordando fúria.
Os dois trocaram sorrisos cúmplices, meus pelos ainda estavam muito arrepiados.
– Não diga que não estava gostando, mentir é feio, principalmente para uma bonequinha linda como você – disse Kaname.
– Você ronronou como um gatinho, não faz ideia do quanto aquilo me deixou, bem... Animado – disse Tsubaki.
Meus pelos se eriçaram de novo, meu corpo sacudiu-se em um tremor.
– Me deixem em paz, seus pervertidos! – mandei.
Os dois riram, Kaname ergueu-se do chão, mas permaneceu diante de mim.
– Quando quiser outra massagem, é só me procurar – ele disse, dando uma piscadinha – Prometo acabar com sua tensão, posso te fazer ir ao paraíso apenas com minhas mãos.
Trinquei os dentes, todos, menos Tsubaki e Wataru, lançaram olhares de ódio ao monge.
– Idiota – resmunguei.
Kaname riu, voltando ao seu lugar. Percebi que o volume em sua calça estava um pouco maior do que antes, engoli em seco.
Tsubaki apertou meu ombro esquerdo, fazendo-me virar meu rosto para encara-lo. Ele dava um sorriso travesso, seus olhos fixaram-se nos meus.
– Quando quiser, posso te encher de carinho felino – ele disse – Sou muito bom com minha língua, garanto que te faço chegar ao paraíso antes que ele consiga.
Empurrei-o, bufando com raiva. Tsubaki riu, cruzei meus braços.
– Onee-chan! – berrou Wataru.
Levei um susto, ele pulou em meu colo.
– Onee-chan, eu to com fome! – berrou.
Pisquei, o pequeno me agarrou com força.
O espírito de halloween estava ficando cada vez mais forte, e antes que percebêssemos, ele tomaria conta de nós.
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– Eu não aguento mais ficar sentado! – protestou Wataru, cruzando os braços.
– Já estamos quase chegando – disse Natsume.
Wataru bufou, mas não disse nada. Natsume lançou-me um rápido olhar de esguelha, fingi que não havia percebido.
– Você está com frio? – ele perguntou, olhando-me rapidamente outra vez.
Neguei com a cabeça, evitando seu olhar. Eu ficava nervosa perto dele, e ele também parecia ficar tenso quando estava perto de mim. Tentei olhar pela janela, concentrar-me em qualquer coisa, apenas para fazer minha mente esquecer que eu estava sentada no banco do carona do carro de Natsume, tão perto dele que quase nos tocávamos. Wataru, Louis e Masaomi ocupavam o banco traseiro, o cheiro do carro de Natsume quase abafava o cheiro deles, quase.
– Você tem algum compromisso para o sábado que vem? – perguntou Natsume, evitando me olhar.
Eu sabia que ele estava falando comigo, não pude deixar de engolir em seco.
– Não, não tenho nada – respondi.
Minha voz tremeu, odiei-me por isso. Natsume assentiu levemente, seus olhos focados na estrada escura.
– Gostaria de ir jantar comigo? – ele perguntou.
Pisquei, virando meu pescoço tão rápido que senti dor. Soltei um muxoxo, afagando a área dolorida. Natsume ouviu meu lamento, desviando os olhos da estrada para poder me encarar.
– Você está bem?! – perguntou, ligeiramente exaltado.
Fiz uma careta de dor, tentando botar um sorriso no rosto.
– Estou, foi só uma dorzinha, já vai passar – respondi.
Ele não pareceu convencido, mas voltou a encarar a estrada.
– Tome cuidado, não se machuque – ele disse.
Assenti, fazendo uma careta de dor. Ele respirou fundo, talvez tentando ficar calmo.
– Aceita a minha proposta? – perguntou.
– Aceito – respondi, sem nem pensar.
Ele me olhou outra vez, tentei forçar um sorriso. A verdade era que eu estava tão nervosa com aquela conversa que nem mesmo hesitara ao responder, fora que eu estava curiosa a respeito de uma coisa: O que Natsume queria com aquele jantar?
– Esteja pronta as sete – disse Natsume.
Assenti, dando um sorriso mínimo. Ele também deu um sorriso mínimo, focando sua atenção na estrada. Wataru remexeu-se no banco traseiro, espiei por cima do ombro. Masaomi falava com alguém do hospital no celular, parece que um de seus pacientes havia tido uma crise de asma ao assistir um filme de terror. Esse é o problema com o halloween, ele te faz querer fazer coisas que normalmente você não faria, como se vestir de boneca, por exemplo.
– Eu não aguento mais, Natsume! – disse Wataru.
O motorista respirou fundo, tentando manter-se calmo. Wataru era mesmo implicante, nem todos os irmãos tinham a paciência que Masaomi e eu tínhamos. Estiquei minha mão para trás, afagando a perna do pequeno.
– Ei, um príncipe não pode pirar desse jeito – falei.
Ele fez um bico, piscando duas vezes.
– Mas eu não aguento mais ficar sentado, onee-chan – ele disse.
Oh, como Natsume não se derretia ao ouvir aquele tom de voz? Senti meu peito pesar, a vontade que eu tive foi abraçar Wataru até ele sufocar.
– Pensa o seguinte: Já vamos chegar – falei – Eu te compro um sorvete amanhã, que tal?
Seus olhos brilharam, ele abriu um grande sorriso.
– Tá bom, onee-chan! – disse.
Sorri para ele, o pequeno descruzou os braços, amolecendo sua postura. Natsume relaxou, soltando um suspiro pesado de alívio.
– Muito obrigado – ele disse.
Ri pelo nariz, ele não olhou para mim.
– Não há de que – respondi.
Ele assentiu levemente, seus lábios se repuxaram minimamente.
O espírito do halloween unia as pessoas, ou talvez, o medo do escuro unia as pessoas.
**~**~**~**
O salão de festas daquela mansão antiga vibrava com o som da música eletrônica, fazendo minha cabeça doer um pouco. Pessoas fantasiadas das coisas mais famosas dançavam sem parar na pista de dança, um DJ vestido de múmia agitava as pessoas com seus aparelhos sonoros. Avistei Tsubaki no bar, espremendo o corpo de uma menina contra o balcão enquanto tentava devorar seus lábios. Ri, sacudindo a cabeça. Aquela já era a terceira vez que eu o vira, em todas elas ele estava com uma garota diferente.
Algumas crianças brincavam em uma área mais afastada, avistei Wataru no meio delas, rindo ao brincar. Abri um sorriso enorme quando vi aquilo, finalmente estava vendo meu irmãozinho com crianças da sua idade. Ele ficava angelical ao brincar, me senti muito bem.
Procurei Masaomi na multidão, encontrei-o ao lado de Ukyo, Azusa e Natsume. Os quatro riam e conversavam entre si, foi a primeira vez que vi Natsume rir. Mesmo que estivéssemos longe um do outro, aquela visão me fez morder o lábio.
Yusuke tentava tirar os olhos de cima de Ema, mas não estava tendo muito sucesso. Ela ficara realmente linda naquele vestido verde e naquelas sapatilhas douradas, formando uma fada fofa e angelical. Os dois estavam conversando perto da janela, ela sorria delicadamente para ele.
– Eles deviam arrumar um quarto, não acha? – perguntou alguém ao meu lado.
Senti-me ser abraçada por alguém, meu corpo se retesou.
– Sou eu, maninha – disse a voz infame que eu conhecia.
Relaxei, deixando-me ser abraçada por Fuuto.
– Está curtindo a festa? – ele perguntou, encarando-me com um sorriso nos lábios.
Olhei em volta, pensando em uma resposta boa. Estava divertido ficar ali, mas eu preferia mesmo observar as estrelas em algum lugar calmo e silencioso.
– Sim – respondi.
Fuuto assentiu de leve, estendendo-me um copo.
– Vodka – ele disse.
Neguei com a cabeça, ele me encarou.
– Não foi uma pergunta – ele disse.
Expirei, ele colocou o copo na minha mão. Devagar, aproximei o copo da boca. Cheirei o líquido, estremecendo ao sentir aquele cheiro forte. Fuuto riu, sacudindo a cabeça. Encostei o copo na boca, virando-o minimamente. Aquele gosto quase me fez vomitar, tomei aquele gole e afastei o copo da boca.
– Eca! – falei.
Fuuto riu, empurrei o copo em seu peito.
– Como consegue beber isso? – perguntei, enojada.
Ele deu de ombros, virando o resto do conteúdo do copo na boca de uma só vez.
– Acho que você vai se dar bem com Martini – ele disse – Me espere aqui, não se mexa.
Ele afastou-se na direção do bar, deixando-me sozinha. Engoli em seco umas três vezes, tentando tirar aquele gosto terrível da boca.
– Você não é um pouco nova para beber? – perguntou uma voz atrás de mim.
Virei meu corpo, um homem ruivo sorria para mim de modo quase grotesco.
– Eu não sei – respondi.
Ele riu, engoli em seco.
– Eu não vou contar para ninguém – ele disse – Mas tente não ficar bêbada, tem muitos homens desejando você nesta festa.
Olhei em volta, um pouco apreensiva. Alguns rapazes do salão olhavam para mim, talvez porque eu estava sozinha.
– Vou ficar com você até alguém chegar, depois vou me divertir um pouco – disse o ruivo.
Pisquei, ele dirigiu-me uma piscadela.
– Não se preocupe, eu não vou engravidar ninguém nem nada do tipo – ele disse.
Franzi as sobrancelhas, ele riu da minha reação. O homem sentou-se em um banco vazio, gesticulando para que eu sentasse ao seu lado. Mesmo cautelosa, aceitei seu convite. Sentei-me ao seu lado, tomando o cuidado de não me encostar nele. Ele olhou-me com seus olhos analíticos, duas esferas verdes.
– Desconfortável? – ele perguntou.
Assenti de leve, ele riu.
– Não precisa ficar, eu não vou agarrar você – ele disse.
Senti sinceridade em suas palavras, mas ainda me sentia nervosa. Corri meus olhos pelo salão, tentando enxergar alguma coisa em meio aos flashes de luz.
– Nunca esteve em uma festa, não é? – perguntou o ruivo.
Assenti, ele aprumou-se no sofá. Seu corpo quase encostou no meu, ele usava fantasia de cowboy. Calça de couro marrom, camisa quadriculada de botões abertos, chapéu de vaqueiro e botas marrons.
– Preferia ficar em casa, to certo? – disse.
Dei de ombros, ele sorriu de lado.
– Eu não vou morder sua língua se você falar de vez em quando, não precisa ficar tão calada, Nina – ele disse.
Franzi as sobrancelhas, ele sorriu de forma travessa para mim.
– Seu traidor desgraçado! – disse uma voz.
Fuuto jogou-se ao meu lado no sofá, abrindo um grande sorriso para o ruivo.
– Por que disse que não viria? – ele perguntou.
– Conhece ele? – cochichei.
Fuuto me ignorou, o ruivo deu de ombros.
– Foi muito repentino, eu achei que estaria ocupado – disse – Resolvi dar uma passadinha, principalmente depois que soube que vocês trariam a Nina.
Encarei o ruivo, ele abriu um grande sorriso para mim.
– Hikaru?! – guinchei.
Ele riu, aproximando-se de mim.
– Eu mesmo, irmãzinha – ele disse, usando sua voz feminina.
Dei um pulo, quase pulando no colo de Fuuto. Os dois riram, senti meu rosto esquentar.
– Você devia ter me avisado, eu achei que estava falando com um estranho! – falei.
Os dois riram, enterrei meu rosto nas mãos.
– Sinto muito, Nina – disse Hikaru – Eu não resisti, você estava tão vulnerável, eu precisei fingir que não te conhecia.
– A cara de idiota dela é incrível, não é? – disse Fuuto.
Hikaru riu, bufei.
– Desculpa, eu não vou fazer de novo – Hikaru disse – Foi um prazer te rever, até mais tarde.
Assenti, ele piscou para mim. Observei-o levantar do sofá, levou pouco tempo até que ele sumisse na multidão. Fuuto ainda ria, afastei-me dele, irritada.
– Se solta, Nina. Se solta – ele disse – Toma, beba isso.
Ele estendeu-me uma espécie de taça em forma de funil, um líquido rosa agitou-se dentro dela.
– Isso é? – perguntei.
Fuuto revirou os olhos, me encarando.
– O que eu disse que ia buscar? – ele disse, sarcástico – É Martini, vê se não se entala com a cereja.
Assenti, pegando a taça de sua mão. Cheirei essa bebida também, esse não tinha um cheiro ruim. Provei um pouco, surpreendendo-me com o gosto.
– É bom – falei.
Fuuto riu, bebi mais um gole.
– Toma só essa taça, Martini é mais forte do que vinho – ele disse.
Assenti, tomando outro gole.
– Te vejo mais tarde – ele disse.
Fuuto ergueu-se do sofá, deixando-me sozinha outra vez. Terminei de beber meu drinque, colocando a taça em uma mesinha próxima. Ergui-me do sofá, decidindo dar um passeio solitário. Desviei de algumas pessoas, tentando ser invisível. Esgueirei-me por entre uma porta e varei na sala de estar da mansão da amiga de Tsubaki, quase derrubando uma cadeira no caminho. Não tinha ninguém ali, todos estavam no salão de festas.
Eu tinha dois caminhos: As escadas e a porta da frente. Toda a casa estava decorada em tema de halloween, morcegos e abóboras de papel pendiam do teto. As paredes foram revestidas com papel de parede preto, mas foram rasgadas de forma que conseguíamos ver o fundo vermelho da parede. A mobília era elegante, os móveis deviam ter sido escolhidos para a ocasião.
Só percebi que havia subido as escadas quando deparei-me com um corredor longo e cheio de portas, todas sem identificação alguma. Com toda aquela decoração, a casa ficava realmente arrepiante. Decidi abrir a primeira porta, mas quase morri ao ver o que tinha dentro.
– Me desculpem! – guinchei, batendo a porta.
Senti meu rosto esquentar, não de vergonha, e sim de vontade de rir. O casal que fazia sexo do lado de dentro fizera uma cara tão engraçada, quase valeu à pena estragar o momento deles daquela forma.
Decidi bater na segunda porta antes de abri-la, não recebendo resposta alguma. Abri-a, cautelosa. Tratava-se de um banheiro, todo decorado com pacotes de preservativos nas paredes. Estremeci, o pessoal dessa casa devia adorar coisas ligadas ao erotismo.
Fechei a porta do banheiro, encarando o corredor escuro. A luz da lua entrava através do vitral de uma janela, aproximei-me para ver melhor. Pude ver um amplo jardim do lado de fora, algumas pessoas dançavam e caiam umas por cima das outras em meio aos arbustos. Ri com a visão, sacudindo a cabeça.
Um leve e delicado som tocou, vindo de uma das portas. Aquele som despertou-me de meus devaneios, pisquei. Com certeza era piano, mas eu não reconheci a música.
Sou mais curiosa do que o normal, eu acho. Decidi encontrar a origem do som, apurando meus ouvidos para tentar localizar o piano.
O som vinha da quarta porta, bem perto de onde eu estava. Avancei em sua direção, colocando a mão na maçaneta devagar. Abri a porta, enfiando a cabeça para o lado de dentro devagar.
O pianista estava de costas para mim, mas pude reconhecê-lo. A música que ele estava tocando era linda, senti meu coração se aquecer. Entrei na sala e fechei a porta, olhando em volta. Haviam várias estantes cheias de livros, assim como várias poltronas confortáveis. Aquela sala não parecia ter sido decorada, mas tinha um ar melancólico e nostálgico. A música que era tocada também influenciava nisso, embalando os suaves movimentos que o pianista fazia. A luz da lua o deixava pálido, seus cabelos loiros estavam quase prateados. Aproximei-me dele devagar, tomando o cuidado de não o atrapalhar.
Mas ele ouviu o som dos meus passos, seu corpo se retesou. Ele virou-se para trás, assustando-se um pouco com minha presença.
– Nina?! – chamou.
Dei um meio sorriso, afagando meu braço direito.
– Oi, Ukyo – respondi.
Ele pareceu relaxar um pouco, mas continuava me encarando.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou.
Olhei em volta, tentando achar algo decente para dizer. Ukyo esperou, engoli em seco.
– Eu me cansei da festa, então decidi dar uma volta – falei – Eu sei que é errado explorar a casa dos outros, mas eu não resisti.
Ele ouviu minha resposta até o fim, até que soltou um suspiro. Ukyo ergueu-se do banco em que estava sentado, vindo até mim devagar.
– Isso não é certo, mas eu não vou te repreender, já que fiz o mesmo – ele disse.
Dei uma risadinha, ele deu um pequeno sorriso. Encarei o piano, soltando um suspiro sonhador. Ukyo seguiu meu olhar, ele parecia muito calmo.
– Você toca? – perguntou.
Neguei com a cabeça, aproximando-me do piano. Passei por Ukyo sem olha-lo, mas pude sentir que ele me olhava.
– Eu nunca vi um piano, não ao vivo – falei – É tão grande.
Ukyo aproximou-se de mim, toquei o piano de leve.
– Este é pequeno – ele disse.
Ri, sacudindo a cabeça.
– Imagina um grande – falei.
Dei outra risadinha, deixando minha voz morrer no ar. Bati suavemente em uma tecla, um tom grave ecoou na sala.
~ Música ~
– Eu adoraria saber tocar – suspirei.
Retirei minha mão de cima da tecla, deixando o piano em paz. Senti Ukyo tocar meu braço, virei meu rosto em sua direção. Ele me olhava de maneira suave, porém melancólica. Sorri de leve, desviando o olhar até o piano.
– Você toca tão bem, Ukyo – falei.
Sorri para ele, encarando seus lindos olhos azuis.
– Obrigado, Nina – ele disse.
Ele sorriu para mim, um sorriso leve e simples, sem mostrar os dentes. Toquei o piano outra vez, mordendo o lábio de leve.
– Eu gostaria de ouvir de novo – falei – Você pode tocar algo para mim?
Ele assentiu devagar, sentando-se ao piano outra vez. Fiquei de pé ao lado do banco, Ukyo lançou-me um olhar calmo.
– Sente-se também – ele disse.
Assenti, abrindo um leve sorriso. Sentei-me ao seu lado, passando as mãos de leve em meu vestido. Ukyo posicionou sua mão no lugar certo, lançando-me um olhar gentil.
– O que quer ouvir? – perguntou.
Mordi o lábio, não entendia nada de piano. Ukyo esperou por minha resposta, suspirei.
– O que você estava tocando antes da minha chegada – falei.
Ukyo assentiu, voltando seu olhar para as teclas do piano. Como se tivesse nascido para isso, seus dedos deslizaram nas teclas do piano, fazendo aquele som exuberante encher meus ouvidos de novo. A mão dele era grande, possuía dedos longos com unhas claras e bem aparadas. Seus dedos pareciam dançar sobre as teclas, tamanha era a suavidade de seus movimentos. Peguei-me concentrada em observar os movimentos que ele fazia com as mãos, tocando cada nota com uma prática impecável. Acabei encarando o rosto de Ukyo enquanto ele tocava, ficando presa na visão. Seus olhos cintilavam, fixos no teclado. Ele respirava bem devagar, como se o ar fosse algo desnecessário. Sua boca estava retraída em uma linha, formando uma expressão sonhadora e distante. Ele tocava com o coração, isso eu podia sentir.
E então, a música acabou. Rápido demais, perfeito demais. Ukyo descansou as mãos em seu colo, virando o rosto para olhar para mim.
– O que achou? – perguntou.
Ele parecia calmo, sorrindo e respirando delicadamente. Senti um pouco de ansiedade em sua voz, mordi o lábio de leve.
– Foi lindo – respondi – De quem é a música?
Ukyo pareceu se alegrar com minha resposta, encarando outra vez o piano.
– Frédéric Chopin – respondeu.
Assenti, puxando em minha mente para ver se eu sabia alguma coisa daquele homem. A única coisa que eu consegui lembrar era que ele morreu jovem, minha mãe amava musica clássica.
– Foi mesmo lindo, você toca muito bem – falei, tentando mudar de assunto.
Ukyo abriu um lindo sorriso, ainda encarando as teclas.
– Obrigado, Nina – ele disse.
Abri um grande sorriso, ele finalmente olhou para mim. A sala estava escura, a única claridade vinha do lado de fora, da grande lua cheia que sorria para todos que a contemplavam. Os olhos de Ukyo pareciam as águas de um rio puro, suspirei.
– Pode tocar de novo, por favor? – pedi.
Ele abriu um grande sorriso, suspirando alegremente.
– É claro, Nina – ele disse.
Sorri, esperando. Ele voltou-se às teclas outra vez, produzindo aquele som incrível.
O espírito do halleween podia ser assustador e arrepiante, mas também tinha seu lado romântico e sonhador.
CONTINUA...
IMAGEM ESPECIAL
Wataru Asahina (Segunda temporada)

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